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domingo, 26 de março de 2017

Freud e o Marxismo


Freud e o Marxismo
Nildo Viana

“O poder do id expressa o verdadeiro propósito do organismo do indivíduo. Isto consiste na satisfação de suas necessidades inatas”.
Sigmund Freud

Freud é o fundador da psicanálise e um dos grandes nomes do pensamento ocidental. Ele desenvolveu uma teoria do aparelho psíquico e o conceito-chave da teoria psicanalítica: o conceito de inconsciente. Freud irá erguer todo um edifício teórico tomando por base sua teoria do inconsciente e a partir daí irá apresentar as bases da psicanálise que será desenvolvida por diversos outros psicanalistas de acordo com suas orientações fundamentais, embora alguns seguindo uma linha “ortodoxa” enquanto que outros irão fazer reformulações, mas sempre com referência aos postulados básicos originados na concepção freudiana. Nosso objetivo aqui é analisar as relações entre a concepção freudiana e a teoria marxista. Em primeiro lugar, iremos expor brevemente a concepção de Freud; em segundo lugar, vamos expor, também brevemente, algumas das críticas de algumas concepções pretensamente marxistas fizeram à psicanálise freudiana; em terceiro lugar, realizaremos uma análise critica de tais concepções e por fim iremos apresentar a teoria de Marx visando expor sua contribuição para o desenvolvimento da psicanálise.
Freud: A Teoria do Inconsciente
Sigmund Freud, o fundador da psicanálise, realizou uma verdadeira revolução teórica ao desenvolver o conceito de inconsciente. Sem dúvida, Freud foi o primeiro a elaborar uma teoria do inconsciente. Antes de Freud o que existia era uma pré-consciência[1] do inconsciente, ou seja, existia a noção de inconsciente, que ele, posteriormente, transformou em conceito e o integrou em uma teoria. As filosofias do inconsciente, segundo denominação de J. C. Filloux (1966), foi representada por Schopenhauer, Carus, Hartmann[2], entre outros, e por representantes da medicina e da psicologia, mas sem possuir o grau de desenvolvimento e a centralidade que adquiriu após Freud. Ele mesmo reconheceu isto ao dizer:
“O conceito de inconsciente esteve durante muito tempo batendo à porta da psicologia e pedindo que o deixassem entrar. A filosofia e a literatura entretiveram-se freqüentemente com ele mas a ciência não era capaz de lhes descobrir qualquer utilidade” (Freud, apud. Wollheim, 1978, p. 162).
O inconsciente se tornou o conceito fundamental da teoria freudiana. O próprio Freud afirmou que a psicanálise é a “ciência do inconsciente”. Muitos passaram a considerar que o inconsciente é o elemento determinante de todos os atos humanos, o que encontra alguns elementos na obra de Freud que parecem confirmar tal interpretação. Vejamos um exemplo:
“Enquanto se considerou que o psiquismo principiava e terminava no campo da consciência, havia lugar para falar da arbitrariedade e da casualidade de certos fenômenos psíquicos. Mas no momento que começou-se a considerar-se o inconsciente, o terreno do arbitrário e do casual, ficou restringido até praticamente desaparecer, emergindo, em seu lugar, a realidade do determinismo psíquico” (Bosch, 1979, p. 81).
No entanto, seria uma simplificação da concepção freudiana postular um determinismo do inconsciente. Ao recordarmos o que é o inconsciente, para Freud, veremos a impossibilidade de defender a tese do determinismo do inconsciente no pensamento freudiano.
O inconsciente foi se constituindo na concepção freudiana no decorrer do seu processo de produção e sofreu alterações durante tal processo. Freud, inicialmente, explicou o inconsciente em termos neurofisiológicos e, posteriormente, em sua metapsicologia, ele passou a explicá-lo sob quatro formas diferentes, a saber: o tópico, o estrutural, o econômico e o dinâmico.
Em cada forma ele utiliza termos diferentes: no ponto de vista tópico, ele trabalha com os termos de inconsciente, pré-consciente, censura e consciência. Nesta forma, o aparelho psíquico possui quatro elementos, sendo que o inconsciente é o que é vedado à consciência pela repressão interna; o pré-consciente é o reino das tendências defensivas e o que impede a manifestação das excitações; a censura fica no meio destes dois elementos e manifesta a reação do pré-consciente em relação ao inconsciente; a consciência é o que passa pelo “filtro” do pré-consciente.
No ponto de vista estrutural, ele usa os termos id, ego e superego. Estes são os três elementos da vida psíquica humana. O id (ou inconsciente) é o servo do princípio de prazer; o ego é o mecanismo mediador do aparelho psíquico, cuja função é regularizar os conflitos, organizar a defesa, a adaptação e a censura; o superego é o responsável interno pela reprodução da repressão social.
No ponto de vista econômico, Freud trabalha com os termos princípio de prazer e princípio de realidade e, mais tarde, Eros (instintos sexuais) e Tanathos (instinto de morte). No primeiro caso, o princípio de prazer é a reserva de energia instintual que entra em contradição com o princípio de realidade, que é a internalização das normas sociais. Posteriormente, o princípio de prazer passa a ser composto não apenas pelos instintos sexuais como também pelos instintos de agressividade, também chamado de instinto de morte.
No ponto de vista dinâmico, utiliza os termos transferência, sublimação, projeção e compromisso, entre outros. Neste ponto de vista, Freud considerava que as forças mentais, marcadas por conflitos e compromissos, devem proteger o ego da ansiedade interna e adaptá-la ao mundo externo, através do retardamento ou abandono completo das energias instintuais, que, no entanto, permanecem e se manifestam através da transferência, sublimação, projeção ou compromisso.
Porém, em qualquer um destes pontos de vista, existe uma dicotomia entre o interno (os instintos, princípio de prazer), representado pelo inconsciente, e o externo (a moral, o princípio de realidade), representado pela consciência. Desta forma, podemos dizer que a concepção freudiana é fundamentalmente conflitual. Isto é visível em Freud e por isso podemos dizer que o conceito de inconsciente é inseparável do conceito de repressão:
“O conceito de inconsciente foi apresentado, pela primeira vez, em ligação com a repressão ou defesa, como um modo de caracterizar o fim dado àquelas idéias que incorrem em repressão” (Wollheim, 1978, p. 163).
Parece-nos evidente que a existência do inconsciente tem como condição de possibilidade a repressão[3], pois se esta não existisse também não existiria o inconsciente. O “Complexo de Édipo” situa o momento do nascimento da “repressão original”. O inconsciente existe porque é a sede dos desejos reprimidos.
Os desejos reprimidos povoam o inconsciente. O inconsciente, por isso, não se eleva ao nível da consciência. Mas, neste caso, como comprovar sua existência? Através do retorno do reprimido, que se manifesta através dos sonhos, dos atos falhos, da fantasia. Por conseguinte, o inconsciente não determina todos os atos humanos, mas tão-somente aqueles em que sua manifestação ocorre quando a vigília da consciência é reduzida (e não é, mesmo neste caso, superada, pois caso contrário os sonhos seriam claros e diretos e não simbólicos).
Portanto, os sonhos, os atos falhos, as fantasias, os chistes são atos humanos produzidos sob forte influência do inconsciente. Porém, os demais atos humanos são comandados pela consciência e esta introjeta a moral dominante da sociedade, ou seja, ela transforma a repressão externa da sociedade em repressão interna, em recalcamento. Ele apresenta esta tese dizendo que, a partir dos cinco anos, uma parte do mundo externo é abandonada como objeto, como algo exterior, e passa a ser incluída no mundo interno (no ego) através da identificação. Esta parte do mundo externo introjetada se torna um novo “agente psíquico”. Segundo suas próprias palavras:
“Esse novo agente psíquico continua a efetuar as funções que até então haviam sido desempenhadas pelas pessoas do mundo externo: ele observa o ego, dá-lhe ordens, julga-o e ameaça-o com punições, exatamente como os pais cujo lugar ocupou. Chamamos este agente de superego e nos damos conta dele, em suas funções judiciárias, como nossa consciência. É impressionante que o superego freqüentemente demonstre uma severidade para a qual nenhum modelo foi fornecido pelos pais reais, e, ademais, que chame o ego a prestar contas não apenas de suas ações, mas igualmente dos seus pensamentos e intenções não executadas, das quais o superego parecer ter conhecimento” (Freud, 1978a, p. 89).
Assim, observamos que ao contrário do que muitos pensam, não é o inconsciente que é determinante e sim a consciência. Mas o determinismo persiste, pois a consciência é a introjeção do princípio de realidade estabelecido pela sociedade, e, portanto, é determinada pela sociedade. Neste sentido, o indivíduo tem seu comportamento determinado pela consciência e pelo inconsciente, que vivem em permanente conflito. As forças que movem o indivíduo escapam ao seu controle e são as suas forças instintuais e as forças sociais[4].
Desta forma, podemos afirmar que o inconsciente surge devido à repressão. A internalização desta repressão cria um processo de recalcamento do indivíduo por ele mesmo e o aparelho psíquico passa a possuir, no seu interior, além do inconsciente e da consciência (o ego), o “superego”, ou um “sobre-eu” que exerce a atividade de recalque. Neste caso, o aparelho psíquico possui três partes constitutivas: o id, o ego e o superego.
O que predomina no aparelho psíquico é o superego com suas funções repressoras, o que significa o predomínio da repressão internalizada nas manifestações conscientes de um indivíduo. As ações humanas são predominantemente comandadas pelo superego e, em grau menor e mais restrito de atividades, pelo inconsciente (sonhos, lapsos, fantasia, etc.), mas este predomínio é adquirido no interior de um conflito entre ambos, não havendo, assim, predomínio absoluto de nenhum deles. Desta forma, o indivíduo é determinado em suas ações, seja pelos seus instintos, seja pela sociedade. A repressão é, na perspectiva freudiana, uma necessidade social. A civilização, segundo Freud, deve promover a repressão para garantir a reprodução da vida material, o que provoca a renúncia aos instintos. Segundo ele:
“Expressando-o de modo sucinto, existem duas características humanas muito difundidas, responsáveis pelo fato de os regulamentos da civilização só poderem ser mantidos através de certo grau de coerção, a saber, que os homens não são espontaneamente amantes do trabalho e que os argumentos não têm valia alguma contra suas paixões” (Freud, 1978b, p. 89).
O ser humano, assim, é um ser determinado, movido pelo conflito entre duas forças dominantes em seu aparelho psíquico, ou seja, pelas forças inconscientes e pelas forças sociais. Essas forças sociais impõem uma conduta moral comandada pelos ditames da civilização. Freud esclarece estes ditames da seguinte forma:
“A civilização humana, expressão pela qual quero significar tudo aquilo em que a vida humana se elevou acima de sua condição animal e difere da vida dos animais – e desprezo ter que distinguir entre cultura e civilização –, apresenta como sabemos, dois aspectos ao observador. Por um lado, inclui todo o conhecimento e capacidade que o homem adquiriu com o fim de controlar as forças da natureza e extrair a riqueza desta para a satisfação das necessidades humanas; por outro, inclui todos os regulamentos necessários para ajustar as relações dos homens uns com os outros e, especialmente, a distribuição da riqueza disponível” (Freud, 1978b, p. 87-88).
Os elementos da civilização que exercem, através da moral estabelecida, esta repressão, é o que muitos chamaram de “razão instrumental”, voltada para o controle da natureza (e da sociedade). Mas estes dois princípios que regem a ação humana (o inconsciente e a moral repressiva) são produtos da civilização e criam um terceiro elemento, resultado do conflito entre ambos: o deslocamento. O deslocamento ocorre quando o desejo reprimido não pode realizar-se e transfere, assim, para outro objeto de desejo. Os desejos reprimidos, assim, transferem suas energias para outros modos de realização[5].
Mas o deslocamento é uma manifestação do inconsciente? Aqui devemos reconhecer uma das ambigüidades da concepção freudiana, pois sua concepção de inconsciente às vezes é expressa de forma tão ampla que a resposta a esta questão seria sim. Porém, se recordarmos que o inconsciente é o lugar onde se encontram os desejos reprimidos[6], então podemos concluir que a manifestação do inconsciente significa a sua emergência no aparelho psíquico, através dos sonhos, fantasia, atos falhos, etc., e isto quer dizer que sua irrupção significa a tentativa de realização do desejo reprimido, mas de forma imaginária.
O deslocamento é, na verdade, resultado da repressão dos desejos que cria o inconsciente e busca impedir sua manifestação, sendo, portanto, produto da repressão do inconsciente. Assim, quanto mais sonhar, fantasiar, etc., a energia pulsional se manifesta  e não gera problemas psíquicos e reações doentias. Porém, a não manifestação do inconsciente (o que significa não só que os desejos instintuais são reprimidos, mas também sua manifestação esporádica no mundo onírico ou em pequenos atos cotidianos) gera o deslocamento.
Esse deslocamento pode ser percebido, por exemplo, no fanatismo religioso e em outras formas de ação humana, como os distúrbios psíquicos em geral, tais como a neurose, psicose, etc. Mas existe, segundo Freud, uma forma “positiva” de deslocamento, que é a sublimação. A sublimação seria um deslocamento para atividades socialmente úteis ou com fins elevados. Um exemplo de sublimação, neste sentido, seria a obra de arte. Uma obra artística é a sublimação positiva de um desejo reprimido. Um artista ao produzir um romance policial marcado por um extremo grau de violência apenas transfere para a ficção o seu desejo reprimido de agressão. Um roteirista de um filme de terror, por sua vez, realiza o mesmo processo de transferir sua agressividade para uma obra de ficção (Viana, 2002). Mas o deslocamento também pode ser considerado como satisfação substituta ou como sintoma. Podemos ver isto nas seguintes afirmações de Freud:
“Chegamos à convicção, pelo exame dos doentes histéricos e outros neuróticos, de que a repressão das idéias [nestes doentes – NV], a que o desejo insuportável está apenso, malogrou. Expeliram-nas da consciência e da lembrança; com isso os pacientes se livraram aparentemente de grande soma de dissabores. Mas o impulso desejoso continua a existir no inconsciente à espreita de oportunidade para se revelar, concebe a formação de um substituto do reprimido, disfarçado e irreconhecível, para lançar à consciência, substituto ao qual logo se liga a mesma sensação de desprazer que se julgava evitada pela repressão. Esta substituição da idéia reprimida – o sintoma – é protegida contras as forças defensivas do ego e em lugar do breve conflito, começa então um sofrimento interminável” (Freud, 1978a, p. 15).
Sendo assim, a ação humana é determinada pela manifestação do inconsciente e da moral internalizada e pelos efeitos deslocados do conflito entre ambos. Não há como, a partir desta concepção, pensar a liberdade humana.
A Crítica Pseudomarxista a Freud
Marx produziu sua concepção antes de Freud. Cronologicamente, Marx é um pensador do século 19 e Freud um pensador do início do século 20. No entanto, as teses de Marx são de grande influência até os dias de hoje, tal como as de Freud. A força da teoria marxista reside, em parte, em seu poder explicativo e sua análise aprofundada das bases do desenvolvimento histórico e da sociedade moderna. As teses de Marx, no entanto, foram muitas vezes deformadas, simplificadas, vulgarizadas (Viana, 2008). O próprio Marx percebeu isto e é devido a isto que fez a famosa afirmação: “tudo o que eu sei é que não sou marxista”. Assim, como Marx não fez nenhuma análise da psicanálise, por esta ser inexistente em seu tempo, os seus seguidores e epígonos posteriores o fizeram em seu nome. O que iremos destacar aqui é que tais “interpretações marxistas” da psicanálise são, na maioria das vezes, uma visão pseudomarxista. Obviamente que o pseudomarxista não nasce apenas de problemas de compreensão da obra de Marx, mas também de interesses políticos, sociais, etc. O marxismo nasce, como bem coloca Karl Korsch (1977) como “expressão teórica do movimento operário”, mas é apropriado por outras classes sociais, se tornando um pseudomarxismo.
A avaliação da psicanálise foi ofuscada por um conjunto de preconceitos oriundos das interpretações do chamado “marxismo oficial” ou “ortodoxo”, começando por Lênin, passando por Politzer, até chegar a muitos autores contemporâneos. Iremos tomar dois exemplos, um oriundo deste “marxismo” ortodoxo e outro da variante francesa que se dedicou ao problema da psicanálise, duas formas diferentes de pseudomarxismo.
Iniciaremos com a abordagem do soviético V. I. Dobrenkov. Este autor dedica um livro inteiro para refutar o “neofreudismo” de Erich Fromm, mas, como não poderia deixar de ser, inicia seu trabalho de crítica com o fundador da psicanálise. Sua análise da concepção freudiana, como é comum no pseudomarxismo, é perpassada por simplificações e equívocos que demonstram uma incompreensão do pensamento de Freud. Segundo Dobrenkov:
“No plano histórico-social, o freudismo traduz as sensações de pavor e desespero das camadas pequeno-burguesas de fins do século XIX. Estudando os distúrbios psíquicos do pequeno e médio burguês da capital austríaca e concluindo que as causas da maioria desses distúrbios são constituídas pelas excessivas restrições dos pendores sexuais do homem pela moral, Freud dá aos casos particulares o caráter de universalidade e partindo dessa base constrói uma pretensiosa teoria da natureza universal do homem” (Dobrenkov, 1978, p. 20).
Temos aqui uma aplicação do “materialismo histórico-mecanicista” típico dos soviéticos, e não só deles, onde sempre a ideologia deriva diretamente e mecanicamente da classe social a qual pertence o pensador. Sem dúvida, a abordagem marxista relaciona indivíduo-classe-ideologia, mas de forma muito mais complexa que uma mera derivação direta e mecânica.
Dobrenkov também argumenta que a concepção freudiana é estática e irracionalista. Ela é estática porque parte da tese de que os instintos são imutáveis e independentes da realidade exterior e esta última (o “sistema social”) é também “imutável”. Isto provoca uma determinada relação entre os instintos e a sociedade. Segundo Dobrenkov:
“A interação entre o interior e o exterior também se torna estática. O conflito entre a natureza e a sociedade é, segundo Freud, não uma unidade dialética e a mútua penetração dos contrários mas tão-somente um confronto de partes independentes uma da outra. Para ele, as condições sociais externas da existência humana não determina a atividade psíquica mas simplesmente dificultam a sua manifestação, coíbem a realização das inclinações instintivas. Essa interpretação sócio-psicológica da inter-relação da natureza humana e a sociedade leva Freud a um dilema que ele não encontra meio de resolver; por um lado, a restrição e a desistência dos instintos se lhe afiguram uma das condições indispensáveis de existência da sociedade, da civilização em geral, e, por outro, considera a satisfação livre e plena como condição necessária da saúde psíquica do homem” (Dobrenkov, 1978, p. 15).
A sua conclusão é que Freud toma partido da sociedade, o que é correto. Porém, subjaz na crítica de Dobrenkov uma dialética reificada, constituída por “leis imutáveis” (unidade dialética, mútua penetração dos contrários) – o que é típico do stalinismo – e não na dialética materialista com seu caráter heurístico, tal como alguns autores colocaram (Korsch, 1977; Sartre, 1967; Sartre, 1966; Viana, 2007) colocaram.
Quanto à sua interpretação de Freud, ela é correta quando afirma que os instintos são imutáveis, mas isto é apenas uma obviedade, pois toda concepção de instintos necessariamente os concebe como imutáveis. O que se deveria criticar aqui seria a existência dos instintos nos seres humanos (ou em geral).
A afirmação de que ele considera a sociedade imutável, é apenas em parte correta, pois para Freud ela sempre efetuará um certo quantum de repressão, que apenas varia historicamente. Mas isto não é uma afirmativa sobre a totalidade das formas de sociedade e por isso se revela um equívoco. Marx, por exemplo, sustenta que toda a sociedade precisa produzir os meios necessários para a sobrevivência da população e nem por isso sua concepção de sociedade é estática. Quanto ao conflito entre “mundo interior” e “exterior”, tal conflito permanece existindo mas ganha novas formas, possuindo, portanto, certo dinamismo, embora aí se encontre realmente uma concepção de imutabilidade do conflito.
Outra crítica de Dobrenkov ao freudismo se encontra na sua afirmação de que Freud é irracionalista. Segundo Dobrenkov:
“A base filosófica em que surgiu a teoria psicanalítica freudiana, especialmente a sua sociologia, são os princípios idealistas da filosofia de Platão, Kant, Hartmann, Schopenhauer, Nietszche e Bergson. Embora o próprio Freud não se considerasse adepto de nenhuma doutrina filosófica, sua atenção, contudo, voltava-se para os sistemas filosóficos, que expressavam um franco irracionalismo. Toma de empréstimo a Edward Von Hartmann e Henri Bergson a idéia do inconsciente. Nietszche e Schopenhauer o atraem pelo fato de ressaltarem constantemente a importância das emoções inconscientes e da sexualidade na determinação dos diversos aspectos da vida humana. Por várias vezes ele reconhece numa série de obras a influência das idéias daqueles filósofos em sua criação. Assim, por exemplo, em As Principais Teorias Psicológicas em Psicanálise, ele escreve: ‘podemos indicar filósofos célebres como precursores, antes de tudo o grande pensador Schopenhauer, cuja ‘vontade’ inconsciente pode ser identificada em psicanálise com as atrações espirituais’. Compreende-se porque na teoria psicanalítica de Freud não houve lugar para a razão. Na multiforme atividade psíquica atribui-se papel principal aos instintos inconscientes, biologicamente determinados. A razão atua como simples apêndice destes instintos. O idealismo e a metafísica são o fundamento filosófico em que se erige o volumoso edifício das construções psicanalíticas” (Dobrenkov, 1978, p. 19).
Tal afirmação entra em visível contraste com inúmeros outros intérpretes que o consideram um racionalista. Alguns chegam mesmo a afirmar que o seu racionalismo é tão extremado que quer fornecer uma explicação racional do irracional (inconsciente, instintos), do imaginário (os sonhos, a fantasia) e até mesmo dos pequenos fatos da vida cotidiana (atos falhos, chistes, esquecimento de nomes, etc.) (Maffesoli, 1989).
Reconhecer a existência de aspectos não-racionais na mente humana não faz de um pensador um irracionalista e nem ele fazer referências a filósofos irracionalistas. A afirmação de que para Freud não há espaço para a razão é um grande equívoco, pois ele defende o controle racional dos desejos e instintos.
A interpretação de Freud por Dobrenkov apresenta outros pontos problemáticos, mas estes, a nosso ver, são os principais. A crítica a Freud do ponto de vista do “marxismo soviético”[7] apresenta sempre os mesmos argumentos, com pequenas variações de detalhes, isto devido ao fato da deformação do marxismo, transformado em leninismo, e que teve o papel de justificar a dominação burocrática no capitalismo estatal russo.
Freud possui diversos outros críticos pseudomarxistas e seria demasiado longo elencar um grande número de intérpretes. Por isso tomaremos apenas mais um crítico pseudomarxista de Freud para encerrar esta parte de nosso trabalho. Tomaremos aqui a obra do francês Lucien Sève para analisar. Porém, como a crítica que este autor remete a Freud é muito extensa (contendo diversos itens, entre os quais alguns semelhantes aos expostos por Dobrenkov e outros derivados de Politzer), nos limitaremos a apenas um aspecto: o fato de Freud ter transposto para o social o psiquismo individual. Segundo este autor:
“Surpreendido por certas analogias entre os fenômenos neuróticos, tal como os compreendia, e diversos comportamentos sociais – por exemplo ao nível das práticas religiosas – Freud chegou à conclusão de que a psicanálise poderia, não só intervir no quadro geral das ciências sociais mas desempenhar mesmo o principal papel explicativo. Mas isto significava ter que admitir implicitamente o postulado decisivo segundo o qual o psiquismo individual pode ser tomado como forma de referencia universal, como base real de todos os fatos humanos. Daí, por uma cadeia de postulados obrigatórios, a psicologização da sociedade, a biologização do psiquismo, a naturalização do homem, que levam a esta já banal quadratura do círculo: considerar a história nos termos nitidamente não históricos de uma teoria da natureza humana” (Sève, 1990, p. 229-230).
Embora este autor apresente algumas citações de Freud que parecem confirmar esta interpretação, elas consistem numa verdadeira confusão, isto é, uma mistura desordenada que toma uma coisa pela outra.
O principal exemplo trabalhado por este autor é a religião, que, segundo Freud, é a “neurose obsessiva coletiva da humanidade”. A neurose – um fenômeno do psiquismo individual – é transposta para a realidade social – a religião.
O equívoco desta interpretação reside no fato de que o autor esquece que a neurose não é um fato natural do psiquismo individual e sim um fato derivado da insatisfação dos desejos pelo motivo que estes são reprimidos. Ora, a repressão social (externa) se realiza nas relações sociais e a repressão interna (recalcamento) é uma introjeção da primeira. Portanto, a neurose tem uma origem social e não individual, no psiquismo individual, embora, uma vez emergindo, se torna constitutiva deste e também do psiquismo coletivo (mas tão só pelo motivo que a repressão não atinge apenas um indivíduo e sim a coletividade).
Esta interpretação seria correta se a transposição fosse dos instintos para a realidade social, o que Freud realmente faz em alguns momentos, mas que não significa a redução do social ao psíquico. A idéia de natureza humana, por sua vez, está presente em Freud e por isso essa transposição é possível. No entanto, isto, em si mesmo, só seria prejudicial ao processo de compreensão do ser humano se desconsiderasse sua inserção no espaço histórico-concreto – o que não é o caso – ou então apresentasse uma relação entre natureza humana e sociedade de forma equivocada, o que ocorre, em parte, com Freud. Sève, entretanto, exagera na sua rejeição da natureza humana e interpreta Freud de forma equivocada.
Marxismo e Psicanálise
A psicanálise, tal como muitos pensadores de influência ou de orientação marxista reconheceram, realizou uma descoberta revolucionária: o inconsciente. A partir desta descoberta desvendou muitos aspectos do funcionamento do universo psíquico dos indivíduos e forneceu uma explicação da formação dos problemas psíquicos e a partir deste trabalho com o psiquismo individual abriu caminho para a compreensão de certos fenômenos do psiquismo coletivo. A nosso ver, é extremamente difícil compreender o universo mental de um indivíduo e, por conseguinte, a sociedade, rejeitando em bloco a concepção freudiana ou mesmo desconsiderar suas descobertas.
Porém, isto não significa realizar uma análise acrítica desta concepção. Existem muitos pormenores e elementos fundamentais na obra de Freud que merecem uma apreciação crítica[8]. Vemos, no entanto, três aspectos problemáticos na obra de Freud que são relevantes: em primeiro lugar, o efeito dos seus valores sobre seu posicionamento relativo ao conflito psíquico do indivíduo (consciência versus inconsciente ou id versus ego/superego); em segundo lugar, sua identificação da consciência com a moral, o que também é derivado dos seus valores; em terceiro lugar, sua concepção de instintos, de caráter puramente “biológico”.
Aqui entramos no terreno da relação entre indivíduo e classe social, bem como na questão da inserção do indivíduo – no caso, Freud – no conjunto das relações sociais e no seu processo histórico-concreto de desenvolvimento. Esta discussão, no entanto, nos remeteria ao estudo do processo histórico de vida de Freud, sua “biografia”, como diria alguns, e também nos remeteria à análise de sua época, o que não nos propomos no presente trabalho. É necessário destacar a importância dos valores na produção intelectual e na ação humana (Viana, 2007b), o que foi deixado de lado pela psicanálise. Assim, em que pese ser fundamental uma análise dos valores de Freud, o que nos interessa aqui é tão-somente o seu posicionamento diante da sociedade, ou seja, sua posição política, sem nos envolver com o seu processo de constituição.
Tal posição é expressa principalmente em dois textos, O Futuro de uma Ilusão e O Mal Estar na Civilização, pois são neles que ele irá tratar da repressão e da disputa entre a consciência moral e o inconsciente. Nesta disputa, Freud toma partido da consciência e isto significa que considera necessária a repressão, pois somente assim a “civilização” poderá se reproduzir.
Em muitos outros textos isto também é visível, como neste trecho (incompleto, aliás):
“A destruição do caráter civilizado pelos impulsos instintivos libertados da repressão é um desfecho temido mas absolutamente impossível. É que este temor não leva em conta o que a nossa experiência nos ensinou com toda a segurança: que o poder mental e somático de um desejo, desde que se baldou a respectiva repressão, se manifesta com muito mais força quando inconsciente do que quando consciente; indo para a consciência só pode enfraquecer. O desejo inconsciente escapa a qualquer influência, é independente das tendências contrárias, ao passo que o consciente é atalhado por tudo quanto, igualmente consciente, se lhe opuser. O tratamento psicanalítico coloca-se assim como o melhor substituto da repressão fracassada, justamente em prol das aspirações mais altas e valiosas da civilização” (Freud, 1978a, p. 34-35).
Ele considera que, apesar de inevitável, a repressão deve ser moderada por uma reforma social, pois cria problemas psíquicos que são fontes de conflitos sociais e assim se pode aliviar as tensões sociais. Muitos destacaram o conservadorismo e liberalismo político de Freud, que está no fundamento desta posição, bem como o “vitorianismo” sexual de sua época. A partir de seus valores, que apontam para a necessidade da conservação da sociedade repressiva, ele só pode tomar partido da consciência contra o inconsciente. O controle da consciência sobre o inconsciente existe e deve existir. Mas este deve ser não é um resultado lógico a que chegou a análise deste fenômeno e sim um posicionamento de Freud sobre ele, o que significa que outro pesquisador pode chegar à conclusão oposta. Neste ponto reside a ambigüidade de Freud, pois ao descobrir os males causados pela repressão deveria ter apontado para a sua supressão e não para sua manutenção e daí ele tem que apresentar paliativos (reforma social para diminuir a repressão, terapia).
Outro problema da concepção freudiana se encontra na identificação da consciência com a moral. Sempre que ele aborda a repressão nos remete ao “controle da consciência” e à moral, como se significassem a mesma coisa. Desta forma, a consciência ou “a razão’ se torna equivalente à moral dominante em nossa sociedade, e é isto que irá provocar a crítica de Marcuse à racionalidade e sua defesa do inconsciente (Marcuse, 1988). Marcuse, no entanto, cai no equívoco de pensar Freud como um pensador revolucionário – no sentido social do termo, o que é um equívoco. Este procedimento não permite perceber na consciência o seu caráter ativo e seus elementos que são uma recusa da moral dominante e tudo que efetiva tal recusa passa a ser considerado uma manifestação do princípio de prazer e não da consciência. Cria-se, assim, uma visão da consciência que a considera inevitavelmente repressiva.
Assim se perde de vista que a consciência tem uma dimensão de projeto, ou seja, que pode realizar um rompimento com a moral dominante e estabelecer um novo fundamento para a ética, o que pressupõe também outros elementos. Enfim, a abordagem de Freud não permite pensar o aspecto ativo e emancipador da consciência.
Também existe um outro aspecto de discordância com Freud que se encontra no que ele denomina instintos ou pulsões, que ele limita à libido, sendo que nos seus últimos escritos ele considera que existia, além dos instintos sexuais, o instinto de morte. A sua concepção de instintos é bastante limitada e isto foi ressaltado por diversos pesquisadores, bem como a idéia de existência de um instinto de morte, que foi descartada pelos seus seguidores e intérpretes, com exceção de Marcuse e Melanie Klein[9].
A nosso ver, o inconsciente é a categoria fundamental da psicanálise e devemos considerar que nele reside os desejos reprimidos, que são tantos os desejos sexuais quanto os demais desejos que forma as necessidades humanas radicais, entre elas as potencialidades humanas reprimidas (criatividade, sociabilidade). Desta forma, observamos que o inconsciente pode ser considerado como o locus da luta pela liberdade e não apenas um serviçal dos instintos biológicos (Viana, 2002b).
O homem é livre ou é um prisioneiro dos seus desejos inconscientes? Existe uma natureza humana fixa e imutável, comandada pelos instintos e outros elementos derivados da relação deles com a sociedade, ou o homem escolhe seu destino livremente? Estas questões são extremamente importantes e receberam diversas respostas. Iremos agora partir da concepção de Marx para rediscutir as teses psicanalíticas de Freud.
Marx parte do conceito de natureza humana para desenvolver sua teoria da alienação. Trata-se de descobrir o que é a “essência humana”. O ser humano precisa, para garantir sua sobrevivência, de satisfazer algumas necessidades: comer, beber, dormir, amar, etc. Uma vez satisfeitas estas necessidades, o instrumento e a forma de satisfazê-las tornam-se, elas mesmas, necessidades (Marx e Engels, 2002).
Como o ser humano satisfaz suas necessidades? Para Marx, isto ocorre através da mediação do trabalho. É através do trabalho que o ser humano adquire os seus meios de sobrevivência e humaniza o mundo. Por trabalho entenda-se todas as atividades humanas. O trabalho, neste sentido, torna-se uma necessidade humana. O trabalho é objetivação do ser humano. Tal como Marx colocou:
“Antes de tudo o trabalho é um processo entre o homem e a Natureza, um processo em que o homem, por sua própria ação, media, regula e controla seu metabolismo com a natureza. Ele mesmo se defronta com a matéria natural como uma força natural. Ele põe em movimento as forças naturais pertencentes à sua corporalidade, braços e pernas, cabeça e mão, a fim de apropriar-se da matéria natural e numa forma útil para sua própria vida. Ao atuar, por meio desse movimento, sobre a natureza externa a ela e ao modificá-la, ele modifica, ao mesmo tempo, sua própria natureza. Ele desenvolve as potencialidades nela adormecidas e sujeita o jogo de suas forças ao seu próprio domínio. Não se trata aqui das primeiras formas instintivas, animais, de trabalho. (...). Pressupomos o trabalho numa forma em que pertence exclusivamente ao homem. Uma aranha executa operações semelhantes às do tecelão, e a abelha envergonha mais de um arquiteto humano com a construção de suas colméias. Mas o que distingue, de antemão, o pior arquiteto da melhor abelha é que ele construiu o favo em sua cabeça, antes de construí-lo em cera. No fim do processo de trabalho obtém-se um resultado que já no início deste existiu na imaginação do trabalhador, e portanto idealmente. Ele não apenas efetua uma transformação da forma da matéria natural; realiza, ao mesmo tempo, na matéria natural seu objetivo, que ele sabe que determina, como lei, a espécie e o modo de sua atividade orientada a um fim, que se manifesta como atenção durante todo o tempo de trabalho, e isso tanto mais quanto menos esse trabalho, pelo próprio conteúdo e pela espécie e modo de sua execução, atrai o trabalhador, portanto, quanto menos ele o aproveita, como jogo de suas forças físicas e espirituais (Marx, 1988, p. 142-143)”.
O trabalho como objetivação significa, portanto, manifestação da “essência humana”. Mas como sustentar esta tese se Marx postulou o caráter negativo do trabalho compreendido como “alienação”? Isto se deve ao fato de que Marx distinguia entre trabalho enquanto objetivação, no qual ele exerce sua capacidade criadora, de trabalho enquanto alienação, no qual o ser humano se vê subjugado por forças exteriores que o impedem de desenvolver suas potencialidades. Trataremos da questão da alienação mais adiante.
Porém, os seres humanos não realizam o trabalho individualmente e sim coletivamente, através da cooperação. Essa cooperação, esta associação com outros seres humanos, torna-se também uma necessidade humana – não apenas do ponto de vista da sobrevivência, mas também do ponto de vista afetivo e psíquico. O ser humano se revela um ser social que, através do trabalho e da cooperação, se humaniza e humaniza o mundo.
O que é necessidade? É algo que deve se realizar independentemente da razão. Por conseguinte, ela é antagônica à liberdade. No entanto, tal visão é produto de uma concepção racionalista de liberdade, na qual tudo que não é definido, determinado e escolhido pela razão é expressão de não-liberdade. Por isso consideramos interessante superar a concepção racionalista de liberdade e entender por liberdade aquilo que expressa a realização das potencialidades humanas (tanto físicas quanto mentais) e isto é determinado tanto pela consciência/razão quanto pelas necessidades orgânicas. Neste sentido, não existe antagonismo entre necessidade e liberdade, e, por conseguinte, a concepção marxista não é determinista.
Para entendermos melhor isto devemos acrescentar um terceiro conceito: o de desejo. A necessidade não é oposta ao desejo. Tal como Marx colocou, comer, beber, dormir e amar são necessidades. Se o ser humano come, bebe, dorme, ama, é por que deseja estas coisas. O desejo é fruto da necessidade. Porém, não existem apenas estas necessidades (que podemos denominar necessidades primárias), pois no próprio processo de satisfação destas necessidades surgem novas necessidades, como o trabalho (enquanto objetivação) e a sociabilidade. Estas últimas necessidades (que podemos denominar necessidades secundárias) também produzem desejos, isto é, também chegam à esfera da consciência. No entanto, tal como colocou a psicanálise, há desejos que são reprimidos (e note-se que a repressão é do desejo e não da necessidade, que continua subsistindo). Por isso podemos distinguir entre desejos conscientes e desejos inconscientes, em necessidades conscientes e inconscientes.
Marx, obviamente, não trabalhou com o conceito de inconsciente, no sentido freudiano do termo, mas fez referências significativas que apontam para uma pré-consciência do inconsciente. Segundo Erich Fromm, existe a abordagem do inconsciente em Marx e Freud. O aspecto em comum de que ambos
“Acreditam que grande parte do que o homem pensa conscientemente é determinado por forças que operam à sua revelia, ou seja, sem o conhecimento do homem; que o homem explica suas ações para si mesmo como sendo racionais ou morais, e que essas racionalizações (falsa consciência, ideologia) lhes satisfazem subjetivamente. Mas sendo impulsionado por forças que lhes são desconhecidas, o homem não está livre. Só pode atingir a liberdade (e a saúde) adquirindo consciência dessas forças motivadoras, ou seja, da realidade, ao invés de ser escravo de forças cegas. A diferença fundamental entre Marx e Freud está no respectivo conceito da natureza dessas forças que determinam o homem. Para Freud, elas são essencialmente fisiológicas (libido) ou biológicas (instinto de  morte e instinto de vida). Para Marx, são forças históricas que atravessam uma evolução no processo de desenvolvimento sócio-econômico do homem” (Fromm, 1979, p. 107).
Este autor acrescenta que Marx realizou algumas afirmações que apontam para uma visão próxima de Freud, quando, por exemplo, afirmou que a sociedade realiza uma “repressão dos desejos naturais comuns”. Fromm também reconhece as profundas diferenças entre estes dois pensadores, pois Freud está preocupado com o indivíduo e seu aparelho psíquico, levando em consideração seus impulsos vitais, enquanto que Marx analisa o indivíduo enquanto ser social e a dinâmica da sociedade, levando em consideração seus conflitos.
Mas a concepção de Marx, por ser ampla e não restrita, como muitos pensam, abre espaço para se pensar uma pré-consciência do inconsciente. O próprio Erich Fromm nos permite perceber isto, pois segundo ele:
“Os conceitos de Marx e Freud não são mutuamente exclusivos, e isso precisamente porque Marx parte dos homens, reais, vivos, e toma por base seu processo vital real, inclusive, decerto, suas condições biológicas e fisiológicas. Marx reconhecia a existência do impulso sexual como existindo em todas as circunstâncias que podem ser modificadas pelas suas condições sociais, mas apenas no que se relaciona com a forma e a direção”(Fromm, 1979, p. 108).
A ação concreta de um indivíduo é a “síntese de suas múltiplas determinações”. Se João se alista no exército e José resolve ser um romancista, isto se deve a um conjunto de determinações que se desenrolam no processo histórico de vida destes indivíduos. Quais determinações? As relações familiares, as diversas formas de relações sociais do passado, as relações sociais em determinada comunidade e grupo social, sua situação de classe, ou seja, o conjunto das relações sociais travadas por este indivíduo durante sua vida.
Então o indivíduo é produto passivo das relações sociais? Não, pois o indivíduo, desde o seu nascimento, se relaciona com o mundo de forma ativa, buscando sua auto-realização. Mas esta busca não é arbitrária, pois existem, além das relações sociais que lhe impõem determinados valores e objetivos que ele torna seus, fundamentos encontrados em suas necessidades das quais tratamos anteriormente. Quando as relações sociais reprimem a satisfação destas necessidades, o indivíduo se encontra na impossibilidade de se auto-realizar. Daí a luta pela auto-realização, que não é arbitrária e sim determinada pela sociedade repressiva. A repressão, por sua vez, está ligada aos interesses da dominação de classe e esta não produz apenas isto mas também grandes agrupamentos humanos com situações de vida diferentes e interesses antagônicos.
O indivíduo, no seu processo de desenvolvimento vai criando, nestas relações, seus valores, seus objetivos, enfim, seu “projeto de vida”. Portanto, o projeto (para utilizar expressão sartreana) que comanda esta busca não brota do vazio e sim do indivíduo histórico-concreto, que possui uma essência e esta aponta para a liberdade, que é a objetivação.
Aqui se torna importante definir o que compreendemos por liberdade. A liberdade numa concepção restrita é “liberdade de”, ou seja, significa estar livre de algo (como o prisioneiro “se livra” da prisão) e numa concepção ampla é “liberdade para”, ou seja, significa liberdade para fazer algo (agir rumo a um objetivo). Esta concepção foi apresentada por Ernst Bloch (Cf. Bicca, 1987) e retomada por Erich Fromm (1983). Assim, liberdade não significa “liberdade de escolha”, pois esta pressupõe a escolha, o domínio da razão. Ora, uma vez que a liberdade é produto da razão, tal como coloca a abordagem racionalista de Sartre (1987; 1998), então basta o uso da razão. Mas se compreendemos a liberdade enquanto possibilidade de manifestação da essência humana e percebermos que esta possibilidade é restringida ou permitida pelas relações sociais, aí temos uma visão ampliada que nos permite compreender o projeto enquanto produto social e voltado para as relações sociais e não mera escolha individual.
A nossa concepção de liberdade retoma a concepção marxista: “a liberdade, para Marx, é uma espécie de superabundância criativa acima do que é materialmente essencial, aquilo que ultrapassa a medida e se torna seu próprio padrão” (Eagleton, 1999, p. 10). A liberdade é uma manifestação livre da natureza humana, ou seja, a satisfação do conjunto das necessidades humanas, incluindo as necessidades primárias – que é seu pressuposto – e o pleno desenvolvimento de suas necessidades secundárias, a objetivação e a sociabilidade. A não-liberdade é a impossibilidade de desenvolvimento pleno destas necessidades-potencialidades. Determinadas relações sociais produzem a não-liberdade e somente a superação destas é que torna possível a liberdade. A luta pela concretização da transformação social, por sua vez, já é um esboço de manifestação da liberdade, pois na luta os seres humanos desenvolvem novas relações sociais, realizam a objetivação.
A auto-realização humana é obstaculizada pelo fenômeno da alienação. O conceito de alienação em Marx tem sido interpretado de formas diferentes e contraditórias, mas não há dúvida de que o escrito em que Marx desenvolveu este conceito foi nos Manuscritos de Paris (Marx, 1983). Neste texto, ele irá enfatizar o que denominou trabalho alienado. O trabalho alienado ocorre quando o produtor perde o controle do processo de produção e passa a ser controlado por outro, o não-produtor. Neste sentido, podemos dizer que a alienação é produto da divisão da sociedade de classes, ou seja, da divisão social do trabalho e, sendo assim, é uma relação social (Viana, 1995).
Esta é uma interpretação divergente da maioria, pois não considera a alienação como um problema da consciência e nem como simplesmente a perda do produto produzido pelo trabalhador, já que estes fenômenos são conseqüências da perda de controle do processo de produção, da instauração de uma relação de dominação, isto é, da alienação.
Se o trabalhador perde o controle do processo de trabalho, então perde o controle do produto do trabalho e passa a ver este com estranhamento. Estas são conseqüências da alienação, que é a fonte da exploração e do fetichismo (estranhamento). Por conseguinte, o elemento fundamental aqui é a direção do não-trabalhador sobre o processo de trabalho e a questão da perda do produto e seus efeitos na consciência são apenas conseqüências deste processo.
Para Marx, a perda do produto do trabalho é apenas resultado do trabalho alienado, ou seja, o ponto de partida é a atividade que se torna alienada, o trabalho se torna alienado, o que significa dizer que ele deixa de ser atividade vital consciente e se torna atividade dirigida por outros. Segundo Marx, “a atividade vital consciente distingue o homem da atividade vital dos animais”; “o trabalho alienado inverte a relação, pois o homem, sendo um ser autoconsciente, faz de sua atividade vital, de seu ser, unicamente um meio para sua existência” (Marx, 1983, p. 96). Decorrente disto, surge a propriedade privada, ou seja, a apropriação do resultado do trabalho, pois o não-produtor ao dirigir o processo de trabalho também irá dirigir o destino do seu produto. Marx diz que a análise do conceito de propriedade privada “mostra que, embora a propriedade privada pareça ser a base e causa do trabalho alienado, é antes uma conseqüência dele” (Marx, 1983, p. 99). A conseqüência disso é que o produto aparecerá ao trabalhador como algo estranho a ele: “o objeto produzido pelo trabalho, o seu produto, agora se lhe opõe como um ser alienado, como uma força independente do produtor” (Marx, 1983, p. 96).
Podemos, agora, recapitular o que discutimos até aqui. Há, em Marx, uma pré-consciência do inconsciente. Há também a idéia de que o ser humano necessita da liberdade, ou seja, ele é um ser consciente que precisa desenvolver suas potencialidades, o que leva a busca da liberdade e isto só pode ocorrer através de uma ação que já é, em si, liberdade (práxis, atividade consciente e teleológica, um projeto). A liberdade, para Marx, é a essência humana:
“A liberdade é a tal ponto a essência do homem que mesmo seus opositores o reconhecem, posto que a combatem; querem apropriar-se da jóia mais cara, que eles não consideram a jóia da natureza humana. Ninguém luta contra a liberdade; no máximo, luta-se contra a liberdade dos outros. Por isso todos os tipos de liberdade existiram sempre, às vezes como uma prerrogativa particular, outras como um direito geral” (Marx,1980, p. 34).
Aqui reencontramos a idéia de projeto e de liberdade humana. Na perspectiva marxista, a liberdade é manifestação da essência humana. Quando esta essência está impossibilitada de se realizar plenamente, quando alguns – os dominantes – lutam contra a liberdade dos outros, é necessário o engajamento na luta pela libertação, no projeto libertário de emancipação humana. No entanto, a conquista da liberdade pressupõe não apenas desejo mas a transformação social, a superação da sociedade repressiva. O processo de emancipação humana é um processo no qual os seres humanos abandonam suas ilusões e superam a alienação e passam a autogerir suas concepções, suas lutas, de forma autoconsciente. Esta autoconsciência é o projeto de libertação humana e de liberdade. Este projeto quando mobiliza os seres humanos já é uma manifestação da liberdade, além de ser condição para a libertação humana plena. Assim, esta dimensão de projeto da consciência distingue a concepção de Marx da de Freud na forma de concebê-la.
Considerações Finais
Assim, partindo da concepção de Marx, temos uma base para se pensar uma nova psicanálise, principalmente acrescentando o método dialético e o materialismo histórico. É claro que se acrescentássemos a contribuição dos chamados “freudo-marxistas” (Fromm, Reich, etc.) e dos demais marxistas que trabalharam a psicanálise, ou mesmo psicanalistas que reconheceram a contribuição do marxismo, teríamos um universo muito mais amplo de convergências e um material muito mais extenso de análise. O mesmo ocorreria se também ultrapassássemos a obra de Freud para abranger a psicanálise posterior, com seus vários desdobramentos. Analisar as relações entre marxismo e psicanálise levando em conta não apenas os dois fundadores destas correntes seria uma tarefa extensa, que somente através de uma obra mais volumosa poderia ser concretizada, pois a lista de autores e temas, entre as quais a idéia de “inconsciente coletivo” (Viana, 2002b) e sentimentos (Viana, 2004) que já esboçamos, mas que precisam aprofundamentos, seria enorme. No entanto, nos limitamos a pensamento de Marx, pois através dele temos a base para pensar as relações entre marxismo e a psicanálise freudiana.
As concepções de Freud e Marx possuem divergências e convergências e uma síntese, já tentada inúmeras vezes, pressupõe focalizar as convergências. A condição de possibilidade de tal síntese está dada nas convergências existentes e foi isto que buscamos demonstrar neste breve ensaio.




Referências Bibliográficas

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[1] A expressão pré-consciência, aqui, não tem o mesmo sentido que o pré-consciente da teoria freudiana, mas sim numa concepção histórica no qual o desenvolvimento da consciência humana passa da não-consciência para a consciência e tal passagem pode ser mediada por uma pré-consciência, uma “forma embrionária” de consciência (cf. Viana, 2007).
[2] Sobre o inconsciente em Schopenhauer, Carus e Hartmann, cf. Filloux (1966); para uma visão mais detalhada a visão de inconsciente em Schopenhauer veja o artigo de Mello e Cacciola (1991) e, em Nietzsche, o texto de Scarlett Marton (1991).
[3] A repressão também foi um termo que existia antes de Freud e foi desenvolvido por ele. Tal termo foi utilizado por Schopenhauer e pelo psicólogo Herbart, entre outros. Cf. Aricó (1984).
[4] Isto foi colocado por Erich Fromm numa linguagem diferente: “Freud viu o homem como um sistema fechado, movido por duas forças: a autopreservação e os impulsos sexuais. Estes últimos têm suas raízes em processos quimiofiosiológicos que se desenrolam segundo um padrão físico. A primeira fase aumenta a tensão e o desconforto; a segunda reduz a tensão acumulada e, ao fazê-lo, gera aquilo que é subjetivamente sentido como ‘prazer’. O homem, é, primordialmente, um ser isolado, cujo interesse primário reside na satisfação ótima do seu ego e do seu interesse libidinal. O homem de Freud é homme machine, fisiologicamente impulsionado e motivado. Mas, secundariamente, o homem também é um ser social, porque necessita de outras pessoas para a satisfação de seus impulsos libidinais, assim como para sua autopreservação” (Fromm, 1977, p. 43).
[5] “Há um deslocamento quando uma tendência substitui seu objeto próprio por outro. É o mais importante mecanismo que preside ao mecanismo do inconsciente. Ele permite aos elementos recalcados transladar sua energia para outro modo de atualização. O deslocamento efetua-se tanto com os desejos, quanto com as aversões (temores, ligados às reações de culpabilidade, etc.); ele condiciona nosso equilíbrio psíquico” (Filloux, 1966, p. 79). Um exemplo facilita a compreensão desta idéia: “as fobias dos neuróticos explicam-se pelo deslocamento: as fobias despertadas por animais, em particular, resultam da transferência, para o animal, de um medo cuja origem estava ligada a um objeto muito diferente” (Filloux, 1966, p. 80).
[6] “O id obedece ao inexorável princípio de prazer” (Freud, 1978a, p. 239).
[7] Tal como colocou Marcuse: “O marxismo soviético (isto é: o leninismo, o stalinismo e as tendências pós-estalinistas), não é apenas uma ideologia promulgada pelo Kremlin para racionalizar e justificar sua política, mas sim reflete as várias formas da cambiante realidade soviética. Se tal for o caso, então a extrema pobreza e, mesmo, a desonestidade da teoria soviética não invalidariam a importância fundamental desta última, mas forneceriam um elemento para a explicação dos fatores que deram origem às evidentes deficiências teóricas” (Marcuse, 1969, p. 13). Infelizmente, por questão de espaço, não iremos discutir as bases sociais do pseudomarxismo que surgiu na Rússia e se tornou hegemônico após a implantação do capitalismo de Estado (“socialismo real”) a partir da revolução bolchevique.
[8] O que já foi feito por vários psicanalistas, embora não se possa concordar com suas teses em sua totalidade. Este é o caso de Reich (1988), Fromm (1979; 1980; 1977), Schneider (1977), entre outros.
[9] Sobre isso cf. Viana, 2002b.

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Publicado originalmente em:
VIANA, Nildo. Universo Psíquico e Reprodução do Capital. Ensaios Freudo-Marxistas. São Paulo: Escuta, 2008.

Um comentário:

  1. Boa tarde Nildo! Havia feito a leitura no livro há algum tempo, mas lendo novamente, momentos depois, tenho maior clareza. Massa!
    Porém, depois você poderia sintetizar as suas reflexões sobre a repressão em uma sociedade mais humanizada, em uma relação com a concepção marxista de natureza humana. Você havia comentado sobre o infanticídio nas sociedades indígenas ou não classistas, aonde a relação de maior dependência do ser humano em relação à natureza, gera certas representações ilusórias sobre a realidade (crenças, doutrinas e não ideologias), que mantém ainda vínculos destrutivos, contrários à essência humana. Nas sociedades de classe, a repressão atua de uma maneira diferente, até mesmo como uma mais-repressão na sociedade capitalista, dentro do trabalho alienado, relações mercantis, moral dominante etc. Assim, se eu entendi bem, a repressão em uma sociedade radicalmente diferente, pressupõe relações sociais diferentes, maneiras de lidar com os problemas psíquicos de uma maneira diferente, o que atenuaria a repressão. Então, diferente do reformismo que Freud propõe, o que está dentro de seus interesses científicos e terapêuticos de legitimação de sua ciência, o marxismo assimilando a psicanálise visa compreender o universo psíquico dentro da uma ética humanista, humanizando as relações sociais e mitigando os problemas psíquicos. O que não inviabilizaria a ocorrência de problemas sociais e psíquicos, que, em um momento ou outro, poderiam ocorrer por conta de traumas, perdas por alguma tragédia natural, problemas de doença etc. inevitáveis.

    E outro comentário. Quem aponta sobre o caráter dialético da psicanálise é um autor que você indicou nas referências bibliográficas do seu artigo, Osborn, livro Psicanálise e Marxismo.
    "Outro importante conceito freudiano, com notáveis implicações dialéticas, é a repressão" (p. 138). "Se nos voltarmos para a teoria freudiana da vida onírica, o seu caráter dialético pode, mais uma vez ser, ilustrado" (p. 139). No entanto, ele parte de uma concepção idealista da dialética. Anteriormente, ele utilizou Hegel para explicar a dialética e não Marx. Por conta disso, ele compreende Freud como um pensador dialético. O Erich Fromm também em outro livro (Arte de Amar), fala da lógica dialética, confundindo pensamento dialético de Hegel com método dialético em Marx. Por enquanto lembro apenas desses exemplos, mas existe essa confusão entre dialética idealista e psicanálise como sendo dialética, colocando assim Marx e Freud como semelhantes.

    É isso. Obrigado.

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