quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

O Consumo na Sociedade do Espetáculo




O Consumo na Sociedade do Espetáculo

Nildo Viana*

Marx já dizia que “a produção cria o consumo”. A sociedade capitalista é fundada na produção de mercadorias. A mercadoria é valor de uso e valor de troca e só é produzida devido a sua possibilidade de venda e gerar lucro. Para Debord, sociedade do espetáculo e processo de consumo estão intimamente ligados. Ele desenvolverá esta questão de forma mais aprofundada em sua obra A Sociedade do Espetáculo, na qual apresenta sua crítica da sociedade mercantil-consumista-espetacular[1].

É de Marx a famosa frase de que a sociedade capitalista, à primeira vista, é uma “imensa coleção de mercadorias”. Parafraseando Marx, Debord afirma que “toda a vida das sociedades nas quais reinam as modernas condições de produção se apresenta como uma imensa acumulação de espetáculos”. O espetáculo é uma relação social entre pessoas, mediadas por imagens, uma cosmovisão, o resultado e projeto do capitalismo, e, entre outras características, o que aqui nos interessa mais, a “afirmação onipresente da escolha já feita na produção, e o consumo que decorre desta escolha. Na sociedade do espetáculo, a mercadoria é a razão última de todas as relações sociais, a racionalidade mercantil impregna o conjunto das relações sociais.
A concepção de Debord é a de que, a partir do momento que a mercadoria ocupa a totalidade da vida social, o espetáculo domina a sociedade moderna. O consumidor se torna o centro da nova sociedade e o valor de uso das mercadorias passa a ser comandado pelo valor de troca. A sociedade moderna, especialmente do pós-Segunda Guerra Mundial, se torna o reino do espetáculo. A representação fetichizada do mundo dos objetos e das mercadorias se torna hegemônica. O reino da aparência é o novo circo que representa o pão cotidiano consumido pelo ser humano enclausurado numa sociedade que produziu uma intensa mercantilização das relações sociais.

O consumo e a imagem se tornam centro da sociedade do espetáculo. Eles substituem a ação direta e o diálogo promovendo isolamento e separação, e isto através de objetos de consumo e consumo de objetos, tal como o automóvel e a televisão. Por isso ele afirma que o espetáculo domina quando a mercadoria ocupa totalmente a vida social, criando uma ditadura da mercadoria e do consumo, que tem como efeito a separação e o isolamento dos consumidores que não se relacionam, na maioria dos casos, com outros consumidores ou produtores e sim com o objeto de consumo, a mercadoria. O curioso é que as relações entre pessoas são mercantilizadas ou mediadas pelo consumo das mercadorias.

Neste contexto, o tema do fetichismo da mercadoria, explorado por Marx, é retomado por Debord. Marx analisou o modo de produção capitalista e o papel da mercadoria no mundo da aparência, das representações imediatas, criando uma nova forma de idolatria. A idolatria da mercadoria, tal como a religiosa, faz de um produto do trabalho humano parecer ter vida própria, e o idólatra perde de vista, assim, a historicidade e o processo de produção da mercadoria.

Para Debord, o centro da sociedade do espetáculo é a mercadoria, pois esta ocupa a totalidade da vida social e constitui a economia política (“ciência dominante” e “ciência da dominação”), promovendo uma ditadura da mercadoria e do consumo. A classe dominante, neste contexto, desloca sua preocupação que não se centra mais no proletário como trabalhador e sim como consumidor. Isso vai gerar o “humanismo da mercadoria”, e o trabalhador-consumidor é objeto das atenções e a mercantilização do seu lazer é apenas outro lado da mesma moeda. Trabalhador, produtor de mercadorias, consumidor, comprador de mercadorias, e esta dualidade revela um mesmo indivíduo que produz mercadorias para consumir mercadorias.

O consumo, nesta sociedade, deve aumentar constantemente. Apesar de Debord não ter abordado a base real deste processo, já teorizada por Marx na ideia de acumulação e reprodução ampliada de capital que significa um aumento constante da produção e, por conseguinte, da necessidade de consumo, ele percebe que esta dinâmica de consumo crescente se realiza por existir uma privação, uma privação mais rica e mais consumista. Este consumismo proporciona uma sobrevivência opulenta cuja base é a produção de pseudonecessidades, um tema bastante discutido na sociologia européia dos anos 1960, com as teses da “sociedade de consumo” e “produção de necessidades fabricadas”.

Assim, a sociedade do espetáculo produz uma sociedade totalitária de mercadorias e consumo. Este totalitarismo da mercadoria e do consumo é mais amplo do que se pensa. Debord não se ilude com as oposições, pois elas fazem parte desta sociedade, estão envolvidas até o pescoço com o espetáculo. É por isso que Debord afirma que se produzem lutas espetaculares, marcadas pela ambigüidade de serem simultaneamente falsas e verdadeiras. São falsas por não questionarem a sociedade do espetáculo e se manifestar de forma espetacular e são verdadeiras por expressar lutas realmente existentes entre classes e frações de classes. Isto também vale para as “regiões subdesenvolvidas”, pois elas são dominadas pelo espetáculo, além da mera hegemonia econômica. E faz isto dominando suas classes dominantes e produzindo o desejo de pseudobens e modelos de revolução para os revolucionários locais. A própria insatisfação se torna mercadoria. Isto se revela na social-democracia e no bolchevismo, ao lado de outras supostas oposições ao regime. Nestas ideologias, a representação da classe se opõe ao próprio proletariado. Assim, a teoria revolucionária de Marx se transforma em ideologia nestas falsas representações do proletariado.

A única solução para este mundo espetacular, consumista e mercantil, é a auto-organização proletária dos conselhos operários e isto significa que o sujeito revolucionário, para Debord, é o proletariado. Suas teses, neste momento, expressam uma retomada do comunismo de conselhos (Pannekoek, Korsch, Rühle, Mattick, etc.) que emergiu nos anos 1920, no bojo das tentativas de revolução proletária.

Neste contexto, a obra de Debord é expressão da sociedade do espetáculo, uma crítica feroz que proporciona uma recusa da totalidade da vida social e, portanto, do cotidiano alienado. Expressa o “espírito da época”, ou seja, alguns dos temas fundamentais da sociedade européia da década de 1960, especialmente a questão da “sociedade de consumo”, que teve em Jean Baudrillard, André Gorz, Henri Lefebvre e muitos outros na França, bem como Erich Fromm e Hannah Arendt, em outros países, alguns de seus principais teóricos. Porém, ele se diferencia pela sua radicalidade e sua recusa total deste mundo mercantil e consumista. A mercantilização das relações sociais invade tudo, o espaço, o urbanismo, a arquitetura, o tempo, o lazer, a cultura, a arte, a comunicação e tudo o mais é perpassado por esta alienação generalizada da sociedade espetacular. A mercantilização total gera a recusa total.

A crítica da sociedade do espetáculo, no entanto, compartilha com ela um problema fundamental denunciado pelo próprio Debord: a separação. Ao ultrapassar o economicismo e atingir a vida cotidiana e sua essência mercantil-consumista há um avanço, mas ao não analisar o processo de produção e constituição dessa situação, separa o espetáculo, o mundo mercantil e consumista, da produção. O modo de produção capitalista e sua dinâmica de reprodução ampliada que produz a necessidade de reprodução ampliada do mercado consumidor é fundamental e não pode ser deixado de lado em qualquer análise. Porém, independentemente disso, a obra de Debord assume uma radicalidade e potencial crítico que é uma das melhores análises do capitalismo que emergiu após a Segunda Guerra Mundial. A crítica abre espaço para a ação, e, na época em que o espetáculo e o fetichismo invadem tudo, inclusive a obra de Debord, este reconhecimento é fundamental.



* Professor de Sociologia da UFG, autor dos livros O Capitalismo na Era da Acumulação Integral (São Paulo, Ideías e Letras, 2009); A Concepção Materialista da História do Cinema (Porto Alegre, Asterisco, 2009); A Esfera Artística (Porto Alegre, Zouk, 2007); Senso Comum, Representações Sociais e Representações Cotidianas (Bauru, Edusc, 2007); A Consciência da História (Rio de Janeiro, Achiamé, 2007), entre outros.
[1] Debord, Guy. A Sociedade do Espetáculo. São Paulo, Contraponto, 1997.

4 comentários:

  1. Triste constatar que na sociedade do espetáculo, referida no texto, nós nos tornamos também mercadorias e as relações são voltadas quase exclusivamente à satisfação da imagem socialmente considerada padrão. Ótimo texto, professor!

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  2. Alana, grato!

    Realmente a mercantilização das relações sociais se intensifica no capitalismo contemporâneo, comandado pelo regime de acumulação integral, e a aparência suplanta a essência como valor dominante.

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  3. as pessoas deveriam se concentizarem mais a respeito de seus atos consumistas.

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  4. Baixar o Documentário - A Sociedade do Espetáculo - http://mcaf.ee/w9jit

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