quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Ghiraldelli Jr: Filosofia da Administração ou Implosão da Filosofia?


Ghiraldelli Jr:
Filosofia da Administração ou Implosão da Filosofia?

Nildo Viana



Paulo Ghiraldelli Jr, em seu artigo Filosofia e Administração: é possível algum ponto de encontro?, busca discutir as relações entre filosofia e administração e apresenta o ponto de vista problemático segundo o qual os administradores são filósofos. Iremos, aqui, apresentar uma visão crítica deste ponto de vista, mostrando sua fragilidade e equívocos.

Ghiraldelli Jr inicia seu texto com diversas oposições abstratas que permeiam as representações cotidianas ("senso comum") sobre as diferenças entre filosofia e administração e, depois desta introdução, diz que irá abordar as imagens que não são comuns sobre tais diferenças. Ele afirma que o administrador é um legislador e o filósofo também, citando Nietzsche, Marx e John Dewey como exemplos que confirmam sua tese. Porém, o administrador é fundamentalmente um gestor e, se em muitos casos também é um "legislador", isto é, cria regras formais impessoais, sua atividade fundamental é dirigir as atividades alheias. Isto não tem nada a ver com a atividade filosófica. O filósofo pode até criar novos valores e teses normativas, tal como coloca Ghiraldelli Jr, mas ele apenas socializa suas concepções, valores, suas teses normativas, pois não pode impô-las. A imposição só pode ocorrer no interior de determinadas relações sociais. O administrador tem esta possibilidade, já que as relações sociais que o engendra e caracteriza tem como essência a prática do controle, da gestão. O filósofo fala ao mundo, o administrador comanda seus subordinados.

Ghiraldelli Jr comete outro equívoco ao citar Marx como um filósofo que pregava a "planificação da revolução", pois, em primeiro lugar, Marx não era um filósofo, em que pese tenha iniciado sua formação intelectual como tal, e sim crítico da filosofia (Korsch, 1977; Viana, 2000); em segundo lugar, ele nunca afirmou que as revoluções, depois dele, seriam "mais planejadas" e sim que o processo revolucionário, um movimento real e não um ideal a ser colocado em prática (Marx e Engels, 1991), é obra coletiva do proletariado que realiza o processo de transformação social de forma consciente e autogerida, ao invés de "planejada", isto é, heterogerida, tal como no caso da administração. A autogestão abole a relação entre dirigentes e dirigidos, isto é, a burocracia, a administração (Guillerm e Bourdet, 1976). Por conseguinte, não há o menor sentido em comparar a concepção de Marx, antifilosófica e antiadministrativa, com a atividade de administração ou tomá-la como exemplo de atividade filosófica.

Ghiraldelli Jr afirma que "é certo que a maioria dos administradores são imbecis. Os filósofos, apesar de serem filósofos, uma boa parte deles é mais imbecil que a parte imbecil dos administradores. Onde são imbecis? Os filósofos são imbecis quando pensam que ao pensarem não esta administrando - no mínimo estão tentando uma auto-administração. Os administradores são imbecis quando administram acreditando que não filosofam - no mínimo estão filosofando coletivamente: uma empresa filosofa na medida em que define para muitas vidas 'o que é que é e o que é que não é' - às vezes uma empresa faz mais ontologia que Heidegger!".

Deixando de lado a questão de sua linguagem vulgar, Ghiraldelli Jr. busca realizar uma fusão da filosofia com a administração que se revela, na verdade, uma confusão. Ela acaba ofuscando o significado da atividade filosófica e também da administrativa. Ele coloca que a administração é uma prática filosófica e que a filosofia é uma prática administrativa e que, por isso, não há nenhum abismo entre ambas. Esta concepção de Ghiraldelli Jr é problemática em vários pontos, pois ele simplifica e isola os fenômenos. Ele apresenta, influenciado pelo pragmatismo, uma simplificação da filosofia, que se transforma, em sua abordagem, toda e qualquer reflexão sobre o que existe, sobre os seres (essência) e o dever-ser (ética), fazendo-a perder a sua especificidade e não apreendendo-a em sua totalidade. Daí pode postular que o administrador, assim como todo mundo, no final das contas, filosofa. A filosofia seria um ato cotidiano de todos. Tal concepção se assemelha com a visão gramsciana segundo a qual "todos os homens são intelectuais", mas Gramsci não era simplório para se limitar a isto e por isso acrescentava "mas nem todos os homens desempenham na sociedade a função de intelectuais" (Gramsci, 1982, p. 7). A tese de Ghiraldelli Jr é um retrocesso em relação à concepção gramsciana, pois não consegue perceber que tanto a filosofia quanto a administração são produtos da divisão social do trabalho e que, devido às atividades especializadas exercidas por filósofos e administradores, elas são práticas que possuem sua especificidade e que, por isso, não se pode confundi-las e nem reduzir uma à outra.

Outro problema dessa abordagem é: qual é o sentido de uma filosofia da administração? Se a filosofia já está presente na prática administrativa, então não é preciso introduzi-la... A não distinção entre saber técnico e filosofia ("a filosofia é hoje... um saber técnico") realiza a "tecnificação" desta última, isto é, ao invés de introduzir a filosofia na administração, faz o contrário, reduzindo a primeira à segunda. Ghiraldelli Jr não contribui com o desenvolvimento de uma filosofia da administração e sim realiza uma implosão da filosofia, destruindo-a por dentro e espalhando os seus estilhaços pela sociedade, inclusive na esfera da administração.

Ghiraldelli Jr abandona a intenção filosófica de atitude crítica e se entrega ao conformismo e adaptação. Ghiraldelli Jr expressa um novo tipo de filósofo profissional que vem emergindo na sociedade capitalista contemporânea, o filósofo "ativista" e defensor do status quo, que integra o conjunto da ampla contra-revolução cultural preventiva derivada da atual crise da acumulação capitalista.

Uma "filosofia da administração" ao invés de simplificar e isolar os fenômenos, deveria complexificar e totalizar; ao invés de se "adaptar" pragmaticamente ao mundo, deveria problematizar, criticar, refletir radicalmente. A filosofia é muito mais do que afirma Ghiraldelli Jr e perceber isto facilitaria compreender que o administrador pode pensar sobre temas comuns aos filósofos, mas não fazem isto de forma filosófica. Uma filosofia da administração deveria problematizar questões como: o que é a administração? Para que serve? Quais os seus fundamentos? Qual sua relação com a totalidade da sociedade? Qual sua relação com a ética? O que ela pode vir a ser? Após colocar estas questões, deveria pensar radicalmente (ser radical é ir até a raiz, e a raiz, para o homem, é o próprio homem, já dizia o jovem Marx), problematizar, criticar. Desta forma, ao invés de "tecnificar" a filosofia, estaríamos realmente introduzindo uma discussão filosófica sobre administração.



BIBLIOGRAFIA



GHIRALDELLI JR., Paulo. Filosofia e Administração: é possível algum ponto de encontro? In: http://www.ghiraldelli.pro.br/filo_adm.htm Acessado em 10/12/2005

GRAMSCI, Antonio. Os Intelectuais e a Organização da Cultura. 4ª edição, Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1982.

GUILLERM, Alain & BOURDET, Yvon. Autogestão: Mudança Radical. Rio de Janeiro, Zahar, 1976.

KORSCH, Karl. Marxismo e Filosofia. Porto, Afrontamento, 1977.

MARX, Karl & ENGELS, Friedrich. A Ideologia Alemã (Feuerbach). 8ª edição, São Paulo, Hucitec, 1991.

VIANA, Nildo. A Filosofia e sua Sombra. Goiânia, Edições Germinal, 2000.
 
Publicado originalmente no site O Dialético.

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