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terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Educação e Preconceito Lingüístico


Educação e Preconceito Lingüístico




Nildo Viana



No interior de uma multiplicidade de formas de preconceito uma vem se destacando e possui uma relação muito estreita com o processo educacional: o preconceito lingüístico. A maioria das abordagens do preconceito lingüístico se limita a descrevê-lo e denunciá-lo sem apresentar suas raízes sociais e seu envolvimento na dinâmica das lutas sociais, inclusive as travadas no interior do sistema escolar. O presente texto é apenas uma pequena contribuição visando superar a superficialidade na abordagem deste tema.

Uma das condições de possibilidade do preconceito lingüístico se encontra na distinção na linguagem. É somente quando tal distinção surge é que se torna possível esta forma de preconceito. A distinção lingüística existe desde que etnias com línguas diferentes se encontraram. No entanto, tal distinção e o preconceito derivado dela tem sua solidificação estabelecida após o processo de colonização derivado da expansão capitalista. Os gregos demonstravam elementos que podem ser interpretados como sendo preconceito lingüístico mas é com a expansão capitalista via colonização que este processo se torna mais intenso. O preconceito lingüístico ocorre de forma ainda mais intensiva no interior de um Estado-Nação, sendo mais forte em países de unificação tardia ou no qual convivem vários dialetos, mas está presente em todos os países, mesmo os que possuem maior homogeneidade lingüística.

Explicar isto remete ao entendimento da divisão social no interior de uma sociedade e em suas ressonâncias na esfera da linguagem. Trata-se do preconceito originado da distinção entre a "língua culta" e a linguagem coloquial, ou a normatização da linguagem e a distinção entre "certo" e "errado". Tal preconceito tem origem no processo de normatização da língua feita pelo sistema escolar e pelos setores intelectualizados da sociedade. As classes sociais privilegiadas incorporam a chamada ?língua culta? e a tomam como uma distinção social que reforça seu status privilegiado.

A sociedade moderna tem na competição um dos traços mais característicos de sua sociabilidade e isto se reflete também na formação de preconceitos e nas disputas no interior da sociedade. O preconceito lingüístico acaba assumindo a força de uma arma para ganhar a competição e para buscar uma posição melhor na hierarquia social, embora ela assuma um papel especial no sistema escolar. A linguagem culta é imposta a todos os alunos, inclusive aqueles provenientes das classes menos favorecidas, que não possuem o domínio desta. O capital lingüístico daqueles que são provenientes das classes privilegiadas garante a eles uma ?vantagem competitiva? no interior da competição escolar, o que contribui com a reprodução das desigualdades de classes.



Qual é a alternativa para os adeptos de uma educação libertária? Lutar contra o preconceito lingüístico juntamente com a promoção de mudanças na língua oficial, tornando-a mais flexível a ponto dela se aproximar da linguagem coloquial, o que diminuiria a “vantagem competitiva” daqueles que possuem acesso a bens culturais que os desprivilegiados não possuem. Mais importante, no entanto, é buscar ampliar o capital lingüístico das classes desprivilegiadas para lhes fornecer mais força em sua luta pela libertação humana.

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Artigo publicado originalmente no Jornal A Página da Educação, Lisboa, N.º 133, Ano 13, Abril 2004

Acessível em: http://www.apagina.pt/?aba=7&cat=133&doc=10065&mid=2

Um comentário:

  1. o 1° preconceito que aprendemos é dentro da escola
    quem fala errado é burro !!

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