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sábado, 7 de novembro de 2026

A UTOPIA AUTOGESTIONÁRIA OU A MORTE - NILDO VIANA

 


A Utopia Autogestionária ou a Morte 


Nildo Viana


René Dumont (1975), em 1973, já colocava a oposição “utopia ou morte”. Sem dúvida, o anúncio da catástrofe ecológica, das guerras e outros problemas eram visíveis e o relatório do Clube de Roma e outros processos apontavam para isso. O interessante, no entanto, é que ele conseguiu perceber o maior dilema da humanidade: ou muda, ou perece. Sem dúvida, ou a humanidade acaba com o capitalismo, ou o capitalismo acaba com a humanidade. Quanto mais o capitalismo se desenvolve, mais extensa e intensa se torna a destruição ambiental e a miséria humana (econômica, psíquica, cultural, sexual, etc.). Porém, suas contradições se tornam cada vez mais explosivas e o risco de autodestruição da humanidade se amplia cada vez mais. A saída, nos limites do capitalismo, para suas contradições, nada resolvem ou apenas troca algumas contradições por outras, bem como a contradição fundamental (a produção de mais-valor e suas consequências, incluindo o declínio da taxa de lucro) fica intacta e é o gerador de todo o resto.

Nesse sentido, podemos retomar a oposição de Dumont e colocar que hoje estamos entre a utopia autogestionária (não as indicações desse autor, que são limitadas por não romper com o capitalismo e serem, nesse contexto, irrealistas, e não resolverem diversos outros problemas graves e não atacar as determinações de tudo isso) ou a morte (a autodestruição da humanidade). Sem dúvida, antes da autodestruição poderemos passar da barbárie existente atualmente para uma selvageria (seja através de um regime de acumulação bélico ou um capitalismo tecno-oligopolista, que, independentemente de qual seja, seria o último suspiro do capitalismo), o que seria a realização das ucronias da ficção científica[1]. Então se torna urgente agir e lutar contra o mundo existente e, ao lado disso, pensar o futuro, um projeto de sociedade – que já existe e que é necessário resgatar os seus elementos fundamentais desde Marx, passando por Pannekoek e os comunistas de conselhos, até chegar ao marxismo autogestionário – e buscar sua realização, pois esta seria a única forma de salvar a humanidade.

O problema maior, no entanto, é a passagem da sociedade capitalista para a sociedade autogerida. O capitalismo possui um conjunto de recursos, mecanismos, interesses, defensores, que o sustenta, bem como ele destrói, anula e marginaliza os que se levantam contra ele de forma efetiva e totalizante. Assim, desde a hegemonia cultural (e o paradigma subjetivista é prova disso, bem como seus concorrentes e opositores), as formas de cooptação, a força do aparato estatal, as instituições civis, etc., até a guerra, são mecanismos que garantem sua reprodução. E um elemento de sua reprodução importante está na mente dos indivíduos. A mentalidade burguesa, com seu caráter mercantil, burocrático e competitivo é um elemento fundamental para a reprodução do capitalismo (Viana, 2008). Esses elementos são introjetados na mente dos indivíduos e geram limites psíquicos para ir além do capitalismo. A episteme burguesa, o seu derivado intelectual, por sua vez, é outro obstáculo poderoso para romper com a dominação cultural burguesa. E derivado disso temos os paradigmas (e aí tanto faz qual é, pois todos apontam para a reprodução do capitalismo), os desequilíbrios psíquicos, a miséria cultural, a imaturalização, e diversos outros fenômenos derivados.

Porém, isso não apaga as contradições do capitalismo. O trabalho alienado continua sendo mortificação e a exploração e dominação de classe continuam existindo e gerando insatisfação. Ao lado e derivado disso, as diversas contradições que apresentamos anteriormente. Como pessoas empobrecidas ou prejudicadas psiquicamente em alto grau, imaturalizadas, poderão constituir uma nova sociedade? A expropriação do saber com a desvaloração das produções culturais mais elevadas – afinal, se “um par de botas é igual a Shakespeare” (Finkielkraut, 1988), como defende o relativismo e o subjetivismo, então podemos nos contentar com “funk” brasileiro e sertanejo universitário, ou como aplaudi-los como fazem os neopopulistas – e a decadência educacional em todos os níveis, reforçados pela emergência da internet e tecnointeligência, geram uma situação de alto grau de insatisfação e poucos recursos intelectuais para a luta contra a sociedade mórbida que existe.

Essa é apenas outra contradição. Nesse contexto, os desequilíbrios psíquicos se avolumam e intensificam, os distúrbios psíquicos se tornam mais generalizados. A insatisfação, num contexto de empobrecimento cultural, desequilíbrios psíquicos intensificados e falta de alternativas reais (utopia), aponta para a revolta e as explosões destrutivas. A burguesia e o aparato estatal, bem com o bloco dominante com suas diversas instituições (partidos, fundações, meios oligopolistas de comunicação) podem e devem canalizar, nesse contexto, a insatisfação para um inimigo imaginário ou setor da sociedade. As bases para isso já estão dadas com os discursos identitários e nacionalistas. A questão é como lutar contra isso e impedir a manipulação de sentimentos e canalização da insatisfação para inimigos imaginários visando um desenvolvimento mais amplo da consciência e autonomização do proletariado e das classes sociais inferiores.

Sem dúvida, propor uma estratégia revolucionária é relativamente fácil, mas concretizá-la é que é difícil, pois além de todos os obstáculos (aparato estatal, poder financeiro, hegemonia cultural burguesa, etc.) ainda existe o divisionismo e força das ideologias e seus subprodutos (ideologemas) na mente das classes inferiores e setores mais propensos à contestação dentro da sociedade. No entanto, apesar disso, não há outra saída a não ser lutar e esperar uma confluência entre as lutas espontâneas e autônomas do proletariado e das demais classes inferiores, com a luta cultural revolucionária, bem como o avanço do bloco revolucionário no sentido de superar suas ambiguidades e influências da hegemonia burguesa, e dos setores contestadores da sociedade. Essa luta é fundamental e necessária e reforça a tendência da utopia autogestionária, enquanto que a desistência, o imobilismo, a desesperança, reforçam a tendência de autodestruição da humanidade a médio prazo ou a selvageria, a curto prazo.

Nesse sentido, uma ampla luta cultural contra a hegemonia burguesa e a polarização no seu interior é parte da luta por encontrar uma solução para os dilemas contemporâneos. Nesse contexto, a internet e as redes sociais virtuais precisam ser utilizadas de forma distinta. Ela reproduz a sociedade e se não houver mudanças sociais e culturais (especialmente no interior de setores mais avançados da intelectualidade, juventude, população feminina, população negra e trabalhadores) e reemergência da luta operária, não haverá mudanças drásticas no mundo virtual e sua passagem para uma forma emancipadora e formadora. Contudo, esperar esse processo ocorrer espontaneamente é um equívoco, pois quando tais lutar emergirem, o proletariado e as classes sociais inferiores estarão menos preparados e por isso é fundamental que, por mais que seja limitado, se crie alternativas e se faça uma luta cultural abrindo brechas, espaços, formas de contrapoder. Assim, mesmo com limites e na dependência de outras lutas, a luta cultural no mundo virtual e novas formas de uso e mecanismos no seu interior se torna necessário e parte da recusa e afirmação de uma alternativa. E tal luta, mesmo com seus limites, cria condições mais favoráveis para lutas mais decisivas que tendem a emergir no futuro.

Contudo, um outro elemento que faz parte do mundo tenebroso em que vivemos é o discurso do “fim das utopias”[2]. Esse é um dos elementos que a luta cultural deve focalizar. Vários setores da juventude abandonaram a perspectiva utópica e, assim, aderiram ao discurso identitário, narcisismo, hedonismo, neoindividualismo, etc. Até mesmo os setores mais avançados estão sob influência do subjetivismo e da mentalidade competitiva. O movimento feminino foi invadido por concepções progressistas e pelas ideologias feministas que não se vinculam ao projeto humanista e utópico, indo desde posições meramente de busca de vantagens competitivas no capitalismo até a defesa de uma fantasiosa “igualdade de sexos” (“gêneros”, diriam alguns) no interior da sociedade capitalista[3]. Os setores do movimento feminino que são mais avançados estão envolvidos com concepções políticas progressistas extremistas e limitadas, inclusive num movimento defensivo e cedendo às lutas institucionais e eleitorais, o que anula sua radicalidade e possibilidade de união com o bloco revolucionário. E até no interior desse bloco, a influência do paradigma subjetivista e das ideologias correspondentes acabam sendo outro obstáculo e meio de aproximação com o progressismo. O mesmo processo ocorreu com o movimento negro, que atingiu seu grau máximo de radicalidade no final dos anos 1960 e se manteve durante um período dos anos 1970, sendo substituído por políticas moderadas, reivindicações de inserção no capitalismo, sem questionamento radical das bases sociais do racismo e da situação da maioria da população negra (que se encontra nas classes sociais inferiores).

Assim, a crítica do discurso do fim das utopias e a retomada do projeto autogestionário como alternativa ao capitalismo é um elemento fundamental. Sem dúvida, vários setores da juventude e do progressismo poderão desviar – como muitos já o fazem – a discussão sobre autogestão para propostas dentro do capitalismo (cooperativas, “faça você mesmo”, etc.), mas isso apenas requer se pensar em aprofundar a reflexão sobre autogestão e divulgação do projeto autogestionário. E aí surge a necessidade de crítica ao capitalismo e todos os seus subprodutos, mas também defesa da autogestão social e esclarecimento sobre seu significado. A esperança é fundamental e ela precisa de ser entendida como possibilidade real, projeto concretizável. Ela tem que enfrentar as críticas e se mostrar realizável. Esse é um elemento da luta cultural pouco explorado e que precisa ser intensificado. A esperança é mobilizadora, mas precisa não só ser bela e almejável, mas também possível e provável.

No contexto de luta cultural, os intelectuais assumem uma importância na correlação de forças no interior da sociedade. Os intelectuais, porém, são pertencentes a uma classe auxiliar da burguesia, mas sempre tiveram dissidentes e do seu interior emergiu, historicamente, contestadores e revolucionário. Porém, hoje eles foram cooptados quase que em sua totalidade, de forma consciente ou insciente, sendo que muitos se tornaram defensores de governos “progressistas” indefensáveis ou adeptos do subjetivismo e ideologias reducionistas e maniqueístas, bem como uma grande parte perdeu a coragem de dizer a verdade, seja por medo ou pressão social. Uma minoria adere aos autocratismos vinculados às várias formas de reacionarismo, o que é comum em época de desestabilização e crise. Esse “silêncio dos intelectuais” que conseguem perceber os caminhos equivocados de indivíduos, setores dos movimentos sociais, partidos, meios oligopolistas de comunicação, mas nada falam (alguns, inclusive, repetem aquilo que eles sabem que é mentira), é outro obstáculo para um real avanço. E nem precisa ser um intelectual revolucionário, basta ser honesto e humanista, para sentir a necessidade de romper com as polarizações políticas e morais e ajudar a construir uma alternativa.

Assim, pressionar os setores da intelectualidade que não são totalmente corrompidos e que perseguem apenas seus objetivos (intelectuais venais)[4], é fundamental para que ela ajude a esclarecer ao invés de obscurecer e assim tragam contribuições reais e elementos de cultura que podem ser úteis nas lutas sociais na sociedade civil. Da mesma forma, resgatar a utopia autogestionária e a esperança revolucionária no interior da juventude (e do movimento estudantil, sua expressão mais organizada), do movimento feminino, do movimento negro e outros movimentos sociais, se torna fundamental. O debate da questão racial, por exemplo, deve sair dos mesmos limites impostos aos demais movimentos sociais, que é reivindicações moderadas, comportamentais e legais, indo à raiz do problema do racismo e das relações raciais na sociedade capitalista, derivadas do processo histórico que as engendraram, da sociabilidade capitalista (competição social, burocratização e mercantilização), da divisão de classes (e suas subdivisões) e de seu vínculo com a luta de classes.

O bloco revolucionário, por sua vez, encontra-se enfraquecido e dividido. Esse seria um momento para sua ascensão, no plano das relações sociais concretas, especialmente agora com a desestabilização do regime de acumulação integral. Porém, a maioria absoluta está sob hegemonia do subjetivismo, envolvidos com as ambiguidades do autonomismo e do anarquismo. Assim, tirando a produção intelectual e atuação de alguns poucos grupos e indivíduos, não estão sendo criados elementos para sedimentar as lutas atuais para contribuir com as lutas futuras. Desta forma, também se torna fundamental a luta cultural no interior do bloco revolucionário, seja para resgatar a teoria revolucionária e o marxismo autêntico, seja para promover um confronto crítico com a hegemonia burguesa tanto através da produção teórica como de outras formas de luta cultural (propaganda revolucionária, produção artística engajada, etc.).

As classes inferiores (especialmente o proletariado) estão afastadas de uma verdadeira politização, pois não somente a politização despolitizada dos progressistas ganhou espaço, como é reforçada pela dos conservantistas e neoliberais[5], e as alternativas não aparecem com força no cenário político e social. Os intelectuais e setores dos movimentos sociais cooptados e/ou moderados, bem como da juventude, acabam reforçando o conformismo nas classes sociais inferiores e, em certo grau, contribuem para seu deslocamento para o conservantismo devido seu moralismo subjetivista. Além do capital e do aparato estatal e instituições burguesas (fundações e instituições internacionais, meios oligopolistas de comunicação, etc.), esses setores e intelectuais reforçam a hegemonia burguesa e a polarização no seu interior, dificultando o avanço na consciência, organização e união da juventude e das classes sociais inferiores, bem como da retomada das lutas operárias espontâneas e autônomas.

O discurso do “fim da utopia” é verdadeiro? A utopia autogestionária é uma possibilidade e uma tendência[6]. Mas, como já demonstramos, existem fortes contratendências. A retomada de uma força social que possa expressar o proletariado e as classes inferiores dependem hoje quase exclusivamente dessas e de suas lutas espontâneas. Esse processo começou a se esboçar em algumas oportunidades (junho de 2013 no Brasil, manifestações na América Latina, como no Chile em 2019, etc.), mas logo perdem força e são reorientadas para o processo eleitoral ou outras formas de ação despolitizadas, incluindo os ditos “antifascismos” imaginários. Isso significa que todas essas formas de luta cultural acima elencadas devem, se forem efetivadas e, mais ainda, se tiverem alguma eficácia, atingir as classes inferiores e o proletariado no sentido do desenvolvimento da consciência crítica e revolucionária, o que significa o retorno da utopia autogestionária.

Assim, a luta cultural pelo ressurgimento da esperança revolucionária e utopia autogestionária se torna fundamental nesse contexto no qual se busca contribuir com o processo de engendramento do novo em oposição ao mundo velho e decadente com seus problemas insolúveis. Cabe ao bloco revolucionário efetivar tal luta cultural e buscar despertar outros setores da sociedade para contribuir com esse processo, bem como incentivar e participar de lutas sociais a favor da criação e expansão de organizações autárquicas (não-burocráticas), greves, protestos, etc.

A reemergência de lutas espontâneas e autônomas do proletariado e de outras classes inferiores, cada vez mais prejudicadas com o desenvolvimento capitalista, é fundamental para fortalecer o bloco revolucionário, redirecionar parte da juventude para lutas mais efetivas, insuflar coragem em setores da intelectualidade e do movimento feminino, movimento negro e movimento ecológico, entre outros. O problema, no entanto, é que o proletariado e, mais ainda, as demais classes inferiores, podem ter sua insatisfação canalizada para outros objetivos, especialmente se os setores aliados dele (parte da juventude, parte da intelectualidade, bloco revolucionário) não abrirem brechas e alternativas, se não efetivarem uma luta cultural no sentido de corroer as ilusões existentes, as falsas soluções, entre outras ações, serão parte do problema ao invés da solução, pois não só não incentivaram um avanço, como estarão fazendo parte do retrocesso.

Logo, é preciso esperar as lutas espontâneas e autônomas do proletariado, bem como das demais classes inferiores, e, ao mesmo tempo, lutar aqui e agora para criar condições de superação da politização despolitizada, dos moralismos, do subjetivismo e diversas coisas derivadas e semelhantes, contribuindo com o desencadeamento dessas lutas. Isso significa não apenas esperar, mas intervir e buscar acelerar, e se porventura explodirem lutas espontâneas, um trabalho já iniciado tende a ter mais força na conjuntura e se fortalecer. No caso, uma luta (a revolucionária) tende a fortalecer outra luta (a operária) e vice-versa, sendo um processo recíproco. A confluência dessas duas ações pode provocar uma retomada mais forte da tendência da transformação do conjunto das relações sociais e aglutinar outras lutas sociais e setores da sociedade. Se essas lutas ocorrerem de forma isolada, uma delas (a proletária) pode ser desviada e a outra (a revolucionária) pode ser pouco eficaz, embora ambas, mesmo derrotadas, possam ser úteis para as lutas futuras.

Assim, a única solução possível para os dilemas e contradições do capitalismo contemporâneo é a transformação radical e total das relações sociais. A constituição de uma nova sociedade, fundada na autogestão social. A consciência e a percepção disso tem que se ampliar e é parte desse processo. A luta cultural é um elemento fundamental nesse processo, mas a constituição de espaços de contrapoder e o incentivo para a formação de organizações autárquicas do proletariado e outras classes sociais inferiores, juventude, mulheres, negros, etc., é fundamental. E esses elementos tendem a se reforçar reciprocamente.

Em síntese, ou utopia autogestionária ou selvageria ou, pior ainda, autodestruição. Esse é o dilema que nos encontramos novamente e que mantém atual a palavra de ordem de Rosa Luxemburgo: “socialismo ou barbárie”. Porém, com as válvulas de escape fechadas da panela de pressão chamada capitalismo, ao invés de barbárie pode ocorrer uma explosão violenta e destrutiva, canalizada para inimigos imaginários, especialmente certos grupos sociais, mas certamente um se tornaria o alvo principal e canalizador de todos os males da sociedade, como já dizia Marx (2020) e como alguns doutrinadores já começaram a fazer há algum tempo. Outra possibilidade é o uso da guerra como válvula de escape que permita extravasar a sombra e a destruição de forças produtivas, que é benéfica para o capital, gerando uma selvageria completa[7]. Essas duas falsas soluções podem se fundir e é isso que geralmente ocorre e que o exemplo nazista na Alemanha materializou.

O único grupo social que estaria livre da possibilidade de se tornar “inimigo imaginário” seria o das mulheres, por razões óbvias (além das relações afetivas, etc.), pois se aparecesse algum desequilibrado mental que defendesse o “extermínio das mulheres”, isso não seria possível, pois seria o fim da humanidade. O oposto, no entanto, já ocorreu, tal como no caso da autora do Scum Manifesto, Valerie Solanas (2000), que defendeu o extermínio dos homens. Porém, é possível criar um subgrupo dentro do grupo para a responsabilização, tal como as feministas. A juventude também ficaria na mesma situação de livre parcialmente desse perigo (em menor grau do que as mulheres) e também possuindo setores que podem assumir a posição de inimigo imaginário. Todos os demais grupos sociais podem se tornar o inimigo imaginário principal ou então amalgamado junto com ele, indo desde os religiosos aos políticos, passando pelos raciais e comportamentais.

O amálgama em torno dos nomes “esquerda”, “comunismo”, “marxismo cultural”, acompanhados por coisas distintas, como “ideologia de gênero”, etc., já foi realizado e vem sendo há um bom tempo divulgado e canalizando o descontentamento em relação a um e transferindo-o para o outro, tornando a generalização da antipatia em relação a um grupo para vários outros. Um grande líder, já dizia Hitler, é aquele que consegue reunir vários inimigos num mesmo rótulo (Viana, 2007). E é por isso que hoje pode-se ver pessoas que nada sabem de marxismo vociferar contra Marx, pois a racionalidade, atacada por subjetivistas de diversos tipos e conservantistas, foi substituída pela “intuição”, pela “vivência”, pela “interpretação”, pela “subjetividade”, etc.

 A selvageria é uma tendência e evitá-la pressupõe luta ao invés de evasão, apatia, desesperança, pessimismo, resignação. Na imensa construção que é o futuro, todos contribuem com algo, por mais ínfimo que seja. Se milhões contribuírem com algo ínfimo, isso será fundamental para a definição de quais tendências históricas se concretizarão. O ovo da serpente está chocando e somente a união e engajamento de todos aqueles que não querem a barbárie ou a selvageria[8] podem evitar seu nascimento. União, organização e consciência são os antídotos para evitar a selvageria, e o engajamento é o meio para contribuir com a libertação humana. Nesse contexto, cabe a cada indivíduo decidir entre autogestão ou selvageria.

 

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YOUNG, Jock. A Sociedade Excludente. Exclusão Social, Criminalidade e Diferença na Modernidade Recente. Rio de Janeiro: Revan, 2002.



[1] Sobre o conceito de ucronia, cf. Bernstein (2023).

[2] Esse discurso é reproduzido até por autores do espectro progressista (cf. Habermas, 1987). E o discurso da impossibilidade de uma sociedade autogerida, ou “comunista”, para usar um nome que se tornou problemático (Marques, 2025, Marques, 2024), é apenas mais uma forma de se manifestar a mentalidade burguesa com seu anistorismo (Viana, 2018), pois as condições de possibilidade da autogestão já existem, o obstáculo é político (Willians, 2014), ou seja, cultural.

[3] A respeito do feminismo, cf. Anderson (2021); Veiga (2022).

[4] Além dos intelectuais venais, os hegemônicos também dificilmente vão romper com a hegemonia burguesa. No fundo, resta os intelectuais engajados que estão perpassados por influência do paradigma subjetivista e pelo feitiço de governos supostamente “progressistas”, bem como, com menor possibilidade de êxito, os intelectuais dissidentes e ambíguos. Os intelectuais fracassados e frustrados que se aliam ao reacionarismo e outras posições conservadoras, poderão, em um ou outro caso individual, superar o seu ressentimento e limites e aderir a algo mais concreto, mas também é algo extremamente difícil de ocorrer. Sobre essas posturas dos intelectuais no interior da sociedade atual, cf. Viana (2015).

[5] Quase todos abandonam a perspectiva de classe e criam inimigos imaginários, seja o “fascismo” para os progressistas, sejam o “comunismo” (ou “esquerda”, “marxismo cultural” e outras invenções fantasiosas de doutrinadores e ideólogos) para os conservantistas e liberais. Ou então emerge os maniqueísmos pautados em grupos sociais (as tendências extremistas do feminismo e do recém-formado “masculinismo”) e outros processos sociais e culturais.

[6] A esse respeito, cf. Maia (2015); Viana (2026).

[7] É possível pensar que essa selvageria poderia ser estabilizada num novo regime de acumulação, o tecno-oligopolista, mas seria seletivo e apenas intensificaria a divisão de classes da sociedade, tal como se vê no filme Elysium (Neill Blomkamp, EUA, 2013).

[8] Esse termo aqui tem uma conotação metafórica (baseando na ideia engelsiana de evolução humana que passou pela selvageria, barbárie e civilização) no sentido de uma situação na qual prevalece a “lei do mais forte” e a destruição como elemento comum e banal. Isso, numa selva concreta ou no período da história da humanidade chamada “selvageria” não é o que ocorre cotidianamente, talvez com exceção das tribos canibais e de forma relativa.

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O presente texto é um trecho do artigo "O Ovo da Serpente: Psicanálise do Capitalismo Contemporâneo" e pode ser acessado em sua versão completa no seguinte link:


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