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sábado, 26 de março de 2011

KAFKA: ENTRE CHACAIS E ÁRABES


KAFKA: ENTRE CHACAIS E ÁRABES

Nildo Viana

Franz Kafka é autor de textos clássicos  como O Processo, O Castelo, A Metamorfose e de diversos contos. Um desses contos se intitula “Chacais e Árabes”, onde, mais uma vez, ele utiliza a linguagem simbólica como principal recurso literário. A interpretação deste conto é extremamente difícil, sendo, como diria Theodor Adorno, mais um “enigma de Kafka”. Procuraremos, aqui, decifrar este enigma.

O conto narra a aventura de um europeu em terras árabes. O europeu está em um acampamento com árabes. Era noite e todos, com exceção do europeu, dormiam. De repente, o europeu se vê cercado por Chacais. O mais velho dentro eles tome a palavra e lhe diz que várias gerações de Chacais o esperavam. O velho chacal fala do ódio que os Chacais possuíam pelos árabes.  O europeu, num determinado momento da conversa, pensa que os chacais planejam matar os árabes e avisa que estes estão armados de rifles e, caso tentem isto, morrerão aos montes. O líder dos chacais diz que não é isto que eles querem e o europeu pergunta “o que querem afinal?”

A resposta é : “senhor, deve acabar com a disputa que divide o mundo em dois. Nossos antepassados descreveram aquele que irá fazê-lo exatamente assim como você é. Precisamos de paz com os árabes, de ar respirável; purificada deles a vista em torno do horizonte; nenhum gritos de lamúria de um carneiro que o árabe esfaqueia; todos os animais devem morrer tranquilamente; bebidos por nós sem transtorno até ficarem vazios e limpos até os ossos. Limpeza, nada mais que limpeza é o que nós queremos”.

Os chacais trazem uma tesoura para que o europeu corte os pescoços dos árabes de lado a lado. Neste momento, surge o chefe árabe da caravana e com o seu chicote dispersa os chacais. O europeu pergunta ao árabe o que os animais queriam e este responde que os chacais possuem a “esperança absurda” de que um europeu com a velha tesoura irá completar a grande obra, o extermínio dos árabes. Os chacais são loucos, mas, mesmo assim, os árabes sentem amor por eles.

O chefe da caravana manda, então, jogar aos chacais um camelo que morreu durante a noite. Os chacais não resistiram e se aproximaram: “tinham esquecido os árabes, esquecido o ódio, fascinava-os a presença do corpo que exalava um cheiro forte e obliterava tudo”. Se lançaram, então, sobre o camelo. O chefe árabe os castigava com seu chicote e eles se afastaram. Entretanto, eles não conseguiram resistir e logo estavam de volta e o chefe da caravana ergueu, novamente o chicote, que, no entanto, não chegou até os chacais porque foi segurado no braço pelo europeu. O chefe árabe disse que ele tinha razão. Deixemos os chacais com o seu trabalho, disse ele. E termina dizendo:” animais maravilhosos não é verdade? E como nos odeia!”

Qual é o sentido de tal construção literária? O sentido presumimos encontrar na oposição entre chacais e árabes vista pelo europeu. Os chacais tinham suas ações movidas por quatro motivos: pelos instintos, pelo ódio, pela esperança e pela covardia. Os árabes eram movidos por um único motivo: o uso da força. O conflito entre chacais e árabes ocorre porque os primeiros querem possuir os outros animais e isto é dificultado pelos árabes. Portanto, os  chacais, por instinto, necessitam dos outros animais , como isto é dificultado pelos árabes, cria-se um sentimento de ódio em relação a estes.

Tal ódio gera a esperança messiânica na vinda de um europeu que virá libertá-los dos árabes. É como observou o chefe árabe, uma “esperança absurda”. Esta esperança é gerada pela covardia dos chacais que evitam um confronto direto com os árabes.  O próprio líder dos chacais esboça a compreensão do engano de sua esperança ao notar durante o diálogo, que o europeu o “interpretava mal” segundo a “maneira dos homens”. Os chacais queriam ser libertados dos homens (os árabes) através de um homem (o europeu).Isto demonstra, ao mesmo tempo, uma “esperança absurda” e uma “covardia”.

Mas a covardia tem uma justificativa: os chacais reconhecem que são “pobres animais” que possuem “apenas as mandíbulas”. Os árabes possuem o poder simbolizado no chicote e no rifle. Por  isso, podem negar ou ceder a alimentação necessária aos instintos dos chacais. O camelo que é jogado aos chacais serve apenas para demostrar quem detém o poder. Os chacais se submetem ao poder dos árabes para satisfazer suas necessidades imediatas. Isto os levam a corromper o seu próprio ideal de libertação. Assim, reforça-se a submissão dos chacais e a dominação dos árabes.

A partir disto vê-se que existe uma dupla alienação entre os chacais: em primeiro lugar, abandonam o papel de sujeito de sua própria libertação e aderem a “esperança absurda”  de terem sua emancipação conquistada por um homem, no caso, o europeu; em segundo lugar, abandonam seu projeto de libertação na busca de satisfação imediata de suas necessidades, corrompendo-se assim. Os árabes se beneficiam disto e reproduzem, desta forma, o seu poder. E o europeu? O europeu é Franz Kafka, que observa o drama humano da alienação e o descreve como uma história de chacais e árabes.

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Artigo publicado originalmente em: Revista Ruptura, Ano 02, num. 05, fevereiro de 1997.

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