Rádio Germinal

RÁDIO GERMINAL, onde a música não é mercadoria; é crítica, qualidade e utopia. Para iniciar clique em seta e para pausar clique em quadrado. Para acessar a Rádio Germinal, clique aqui.

segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

INVEJA E COMPETIÇÃO NA ESFERA CIENTÍFICA


INVEJA E COMPETIÇÃO NA ESFERA CIENTÍFICA

Nildo Viana

A sociedade capitalista gera uma sociabilidade caracterizada pela competição, mercantilização e burocratização e esta constitui uma mentalidade que introjeta tais características[1]. Aqui nos interessa a questão da competição social e da mentalidade competitiva derivada dela e de sua ressonância na esfera científica, especialmente o seu impacto sobre os sentimentos, ou, mais exatamente, na produção da inveja.

A inveja é um dos sentimentos antipáticos mais condenados e não é a toa que está elencada entre os sete pecados capitais. Para alguns, a inveja é produto da comparação. Fulano tem X e Ciclano não. Ciclano compara e deseja ter X. Logo, inveja Fulano e quer ter o que ele tem. Enquanto descrição da realidade, isto é correto. Porém, falha como explicação. A inveja é, na verdade, produto da competição.

O capitalismo, com sua sociabilidade competitiva, gera uma mentalidade competitiva, que é a principal motivação da inveja[2]. A mera comparação não gera inveja. João tem um carro importado, mas o seu amigo José não o inveja, pois não gosta de carros. No entanto, se o José for uma pessoa de mentalidade competitiva, ela irá invejar João. O desejo de José não é possuir o carro por ele mesmo e sim por que João o possui. José está competindo com o João. A inveja nasce dessa competição. A inveja é um sentimento antipático caracterizado pela necessidade de possuir ou ser o que os outros possuem ou são. É por isso que é um sentimento antipático, pois, ao contrário dos sentimentos simpáticos (como o amor, por exemplo), ele é destrutivo.

A competição se torna generalizada e ocupa todas as relações sociais. os indivíduos estão competindo por lucro, dinheiro, riqueza, emprego, cargos, beleza, força, bens materiais, etc. E aqueles que perdem uma competição (por riqueza, por exemplo) compensam ganhando outra (não é rico, “mas é o mais inteligente”, ou não é tão inteligente, “mas é o torcedor do time campeão”). Assim, a competição é generalizada, sendo, no entanto, distinta em diferentes classes sociais, grupos, instâncias, etc. que possuem uma escala específica de valores convivendo com os valores dominantes na sociedade.

É por isso que a esfera científica gera uma escala de valores que lhe é própria. O mesmo ocorre com outras esferas sociais, mas nosso foco aqui é a esfera científica. Os valores dominantes nesta esfera e o que caráter extremamente competitivo, o que já foi destacado por autores como Mannheim[3] e Bourdieu[4], aponta para uma forma específica de competição. O dinheiro e o poder, fundamentais para a classe capitalista e a para a burocracia, respectivamente, são secundários para a classe intelectual[5] e esfera científica. A exceção mais comum é o caso dos intelectuais venais, que colocam o dinheiro como valor fundamental e por isso são mal vistos – e em alguns casos até invejados – por outros intelectuais. O espólio em disputa na esfera científica é, fundamentalmente, o reconhecimento, especialmente sob a forma de consagração[6]. No entanto, alguns no seu interior, especialmente os intelectuais venais, engajados e amadores podem eleger outros espólios ou contestá-los.

No entanto, nem todos os cientistas (bem como seus semelhantes, os filósofos) conseguem a consagração, fama ou sucesso, ou mesmo uma forma de reconhecimento menos valorada. Isso, no capitalismo, é reservado para poucos. Para os que não conseguem, mas possuem os mesmos valores, resta a inveja. Sem dúvida, se produz uma hierarquia – que vai do internacional e nacional até chegar ao regional ou local – e por isso o derrotado em âmbito internacional pode ser vitorioso em âmbito nacional, etc. Aliás, isso explica, em certos casos, a animosidade local ou regional em relação a um intelectual reconhecido nesse âmbito, ou como existem intelectuais sem reconhecimento em sua instituição, cidade, etc., mas reconhecimento em outros lugares.

Assim, quando a inveja é compartilhada por um número significativo de pessoas[7], a sua ressonância é maior, pois cria uma corrente de opinião desfavorável àquele que é invejado. A inveja (e competição) se manifesta sob as mais variadas formas. A forma mais comum de pseudocrítica[8] é realizada quando o suposto crítico nem sequer leu o que está criticando ou, em outros casos, nem entendeu. Qualquer coisa pode se transformar em pretexto para a pseudocrítica: se escreveu um livro, por mais excepcional que seja, é “criticado” por ter escrito pouco, ou, se escreveu dez livros, é “criticado” por ter escrito muito. A pseudocrítica pode focalizar não a produção intelectual do indivíduo, mas a figura do autor, desde sua aparência física, passando por suas posições políticas, amizades, gosto musical, personalidade, até chegar em questões de sua vida pessoal. Nesses casos, a pseudocrítica não possui nenhuma fundamentação real, pois não se baseia no conteúdo escrito ou em sua totalidade e fidedignidade a ele (como ocorre com a pseudocrítica que realização a simplificação e deformação para parecer convincente).

Isso se reproduz nos detalhes do trabalho intelectual. Este é o caso, por exemplo, das citações. Não é difícil ver orientadores proibindo seus orientandos de citar seus colegas ou haver perseguição de professores sobre alunos por causa disso. Também é relativamente comum a autocensura provocada pela pressão/censura externa, sendo que esta muitas vezes é determinada pela inveja. Ao lado da inveja, na maioria das vezes, as outras motivações (políticas, intelectuais e pessoais) também tendem a gerar esse processo de censura e silêncio sobre a produção intelectual alheia. Marx mesmo colocou, no seu prefácio de O Capital[9], que sua obra foi marcada pelo silêncio e depois pela “crítica” (pseudocrítica).

O procedimento dos pareceres em revistas acadêmicas/científicas e outras instâncias do trabalho intelectual (livros, projetos de pesquisa, concursos, processos seletivos, etc.) também é marcado pela inveja, ao lado das divergências políticas e teórico-metodológicas, bem como, em certos casos, pela ignorância. Muitos pareceristas são movidos por inveja em seus pareceres (e isso revela a falha desse procedimento quando o parecerista não tem domínio, competência ou mesmo capacidade de compreensão equivalente ao do autor submetido a ele. Argumentos de autoridade, afirmações não-fundamentadas, adjetivos pejorativos, são meios comumente utilizados para justificar pareceres injustificáveis, contrários ao artigo ou obra que mereciam publicação.

Até em círculo de intelectuais engajados esse processo pode se reproduzir, embora com mais força no caso dos intelectuais mais inseguros ou por pressão social, ou, ainda, ambas as coisas. No caso dos intelectuais ambíguos, esse processo é tão comum quando no caso dos demais intelectuais. Também ocorre no caso de intelectuais que obtém uma forma de sucesso que questiona, por inveja, outra forma do mesmo. Por exemplo, intelectuais ambíguos podem questionar intelectuais venais e estes os hegemônicos[10], pois invejam o relativo sucesso do outro por também desejá-lo e não consegui-lo[11].

Assim, podemos, após essa breve descrição do significado da inveja na esfera científica, destacar os seus efeitos deletérios na produção intelectual. A existência da inveja e de um exército de invejosos constitui um enorme reforço da hegemonia burguesa nas esferas sociais, bem como, mais especificamente, na esfera científica. Nessa, a inveja reforça o boicote aos intelectuais mais corajosos e produtivos, aos que possuem maior coerência e compromisso com a verdade. Esse boicote impede a circulação de ideias contestadoras e revolucionárias, bem como enfraquece o compromisso com a verdade, que deveria ser um valor fundamental na produção intelectual, pois ela é desvantajosa para os interesses pessoais.

Desta forma, a inveja é um sentimento incentivado e amplificado pelo capitalismo e sua existência e reprodução reforçam, ao lado de diversos outros sentimentos, valores, desejos, interesses, a manutenção da sociedade capitalista. Um dito popular afirma que “a inveja mata”, mas o mais correto seria dizer: “a inveja é mais um obstáculo para a emancipação humana e por isso precisa ser abolida junto com a sociedade que a incentiva e amplifica” ou, ainda, “a inveja, na esfera científica, mata a verdade”.





[1] Isso foi desenvolvido em: VIANA, Nildo. Universo Psíquico e Reprodução do Capital. Ensaios Freudo-Marxistas. Rio de Janeiro: Escuta, 2008.
[2] A inveja é um sentimento anterior ao capitalismo, mas é com essa forma de sociedade que se torna predominante.
[3] MANNHEIM, Karl. Sociologia do Conhecimento. 2 vols. Lisboa: Rés, 1979.
[4] BOURDIEU, Pierre. O Campo Científico. In: ORTIZ, Renato (org.). Bourdieu. São Paulo: Ática, 1984.
[5] Evidentemente, existem exceções, especialmente no caso de intelectuais ambíguos e que assumem temporariamente cargos burocráticos.
[6] Sobre isso: VIANA, Nildo. As Esferas Sociais. Rio de Janeiro: Rizoma, 2015.
[7] E isso pode ser reforçado por outras motivações de outras pessoas, como divergências intelectuais ou políticas, ou mesmo antipatia pessoal.
[8] A pseudocrítica pode ser motivada também por divergência política ou teórico-metodológica ou interesses grupais ou pessoais. O nosso foco aqui, no entanto, é quando motivação é a inveja.
[9] MARX, Karl. O Capital. Vol. 1, 3ª edição, São Paulo: Nova Cultural, 1988.
[10] Sobre a variedade de posturas intelectuais, veja o livro já citado sobre as esferas sociais.
[11] Não se deve confundir isso com indignação com o desmerecimento alheio, tal como podemos ver em Weber: “Em sã consciência, você acredita que pode aguentar o fato de medíocres atrás de medíocres, anos após anos, ascendam mais que você, sem se tornar amargurado e sem sofrer um colapso?” (apud. JACOBY, Russell. Os Últimos Intelectuais: A Cultura Americana na Era da Academia. São Paulo: Trajetória Cultural: Edusp, 1990).

Nenhum comentário:

Postar um comentário