quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

MENTIRA E SOCIEDADE

MENTIRA E SOCIEDADE

Nildo Viana

Professor da Faculdade de Ciências Sociais/UFG

Artigo publicado originalmente em: Revista Posição, Ano 1, Vol. 1, num. 3, out./dez. 2014.

A mentira é algo diferente da ilusão. As representações cotidianas ilusórias, como qualquer outra forma de consciência ilusória, expressa a situação dos indivíduos que pensam que a realidade é o que ela não é. A ideologia, como sistema de pensamento ilusório, cria todo um conjunto de ideias sistemáticas que invertem a realidade, tal como no cientista que considera que as ideias são produto do cérebro, como se esse órgão produzisse algo por si mesmo. Quando esse cientista afirma isso, ele demonstra possuir um pensamento ilusório, falso, mas se ele acredita realmente nisso, não se trata de mentira. A mentira é um falseamento da realidade realizado deliberadamente, intencionalmente, pelo indivíduo que sabe que o que afirma é falso. No caso das representações ilusórias, os indivíduos acreditam no seu discurso e no caso da mentira, eles sabem que é falso.

Muitos devem considerar a mentira um fenômeno raro, ao contrário das representações ilusórias, que seriam corriqueiras. Contudo, a mentira é mais comum do que pode parecer à primeira vista. O falseamento deliberado e consciente da realidade é um fenômeno social que é praticamente inexistente nas sociedades simples, surge com as sociedades classistas, e torna-se algo comum e generalizado na sociedade capitalista.
A questão é por qual motivo há esse processo de generalização da mentira na sociedade capitalista. Obviamente a raiz desse processo está na relação entre interesses e mentira. As pessoas mentem porque é de seu interesse, ou seja, é provocado por seus objetivos, valores, necessidades. Assim, as pessoas geralmente mentem para evitar serem prejudicadas ou para conseguirem alguma vantagem. Há duas formas de mentira que escapam disso, que é a altruísta e a civilizada, que serão abordadas adiante. Se entendermos a sociedade de classes, vamos saber que a classe capitalista não tem interesse na verdade, ela deve ocultar a verdade sobre a exploração e a dominação, sobre o real papel do Estado, etc. Assim, as classes privilegiadas recusam a verdade e por isso ela não é um valor dominante na sociedade moderna, é um valor marginalizado. Claro está que no plano discursivo, quase todos respeitam e valoram a verdade, mas isso é apenas mais uma mentira. Alguns tentam racionalizar isso através do relativismo. O relativismo é uma forma de transformar a mentira em verdade.

A competição social é um dos pilares da sociabilidade capitalista e a mentira é uma das armas mais utilizadas para ganhar a concorrência e conquistar a vitória, vantagem, riqueza, poder, status, fama, sucesso. Uma sociedade competitiva é um forte incentivo para a mentira generalizada. Da mesma forma, a mentira por causa do medo de ser prejudicado é um forte incentivo para sua realização. Obviamente que as pessoas que mentem por serem competitivas, elemento de sua mentalidade, pertencem, geralmente, às classes sociais privilegiadas. A mentalidade burguesa, competitiva, acaba, de uma forma ou de outra, variando em intensidade e grau, influenciando todas as pessoas, mas existem casos em que isso é algo predominante e nesses casos a mentira é fiel companheira de todas as horas. No caso das classes desprivilegiadas, o medo de ser prejudicado é o principal elemento incentivador de mentiras, tendo um papel defensivo. Afinal, diante dos superiores, patrões, professores, etc., numa situação desigual e numa relação de poder, então a mentira é uma forma de se defender dos opressores, exploradores, dominadores.

Há casos também de indivíduos que mentem sem grandes necessidades. Alguns são mentirosos compulsivos, mas isto é o caso de pessoas com desequilíbrio psíquico. Assim como o cleptomaníaco rouba sem motivo, muitos mentem sem precisar, revelando, nos dois casos, que se trata de problemas cuja origem se encontra no universo psíquico e só pode ser compreendido através da psicanálise para remontar seu processo histórico de vida numa sociedade destruidora dos seres humanos.

Na sociedade capitalista, os indivíduos são constrangidos a mentir e isso surge com o próprio processo de socialização das crianças. Elas são socializadas para mentir, mesmo quando os pais negam e combatem as mentiras das crianças. Uma criança que sabe que os pais castigam se ela contar mentiras pode, inclusive, dizer que não mentiu apesar de ter mentido. É uma mentira sobre a mentira. Se a criança é castigada por derramar leite na cozinha e isso ocorre outra vez e ninguém viu, ao ser indagada se foi ela, certamente dirá “não”, ou seja, mentirá. Se ela não mentir, será prejudicada com o castigo. Se ela quer matar aula, pode inventar que a escola a dispensou da mesma. Essa é uma mentira que lhe traz uma vantagem.

Esse processo de socialização acaba sendo reproduzido no resto da vida, pois a todo o momento os indivíduos devem mentir para evitar ser prejudicado ou para conseguir alguma vantagem. O aluno ou trabalhador mente para o professor ou o patrão dizendo que não foi na escola ou empresa por que estava doente, pois não poderia dizer que é por causa de um jogo de futebol ou desânimo mesmo. Num concurso ou processo seletivo com entrevista, o indivíduo sabe que não pode dizer tudo que considera verdade e por isso mente para agradar ou enganar a banca, não pode admitir que não tem interesses, leituras, experiências que deveria ter para assumir o cargo ou vaga.

Na esfera científica, a mentira também é generalizada, não apenas nas relações sociais entre os cientistas e nas instituições, mas também na própria produção científica, nos produtos, sejam livros, aulas, teses, etc. O plágio é uma das formas mais claras de mentira, já que um indivíduo mente dizendo que aquilo que outro escreveu foi feito por ele. É fácil multiplicar os exemplos: uso de dados falsos[1], uso de ideias alheias sem colocar a fonte, defesa de ideias e autores por que estão em evidência apesar de saber que são equivocados, etc. Na esfera religiosa, a mentira também é bastante comum e basta ligar a televisão em certos canais que será bem fácil ver retumbantes mentiras religiosas objetivando enganar os outros e ganhar dinheiro com isso. Na esfera jurídica, isso também é praticado constantemente. O filme O Mentiroso é bastante interessante para ver isso e como a verdade é deixada de lado graças aos interesses profissionais (e financeiros) do advogado.

A mentira está também na família, e a criança não é a única mentirosa, pois os pais são os que ensinam a mentir não só por gerar o constrangimento para tal, mas também porque, em muitos casos, dão o exemplo o tempo todo. Nas organizações burocráticas, com seu sistema de controle e dominação, a mentira é algo comum. O mundo da política institucional é o lugar onde a mentira reina absoluta. O discurso eleitoral é um discurso mentiroso por natureza. Nas histórias em quadrinhos de Ferdinando, há uma estória na qual chega uma Águia Careca nos Estados Unidos e diante dela ninguém consegue mentir e devido a isso a manchete nos jornais são as seguintes: “cancelados os discursos dos políticos”, “advogados passam a procurar trabalho mais útil”. Isso é a mais pura verdade.

Essas manifestações de mentira são generalizadas e comuns, como já dissemos. Mas existem duas formas de mentira que não possuem as mesmas motivações. A mentira altruísta é aquela realizada não para o indivíduo escapar de uma situação na qual será prejudicado ou para obter vantagens e sim para ajudar outras pessoas, evitar que elas fiquem tristes ou sofram. Quando uma mãe solteira diz para a criança que o pai morreu, apesar de ter simplesmente abandonado ambas, está apenas poupando a criança do sofrimento de saber que foi abandonada, sendo uma mentira altruísta. Outra forma de mentira comum e não prejudicial é a mentira civilizada, na qual a pessoa, por educação e civilidade, não diz o que realmente pensa, tal como no caso de alguém que pergunta sobre sua roupa, beleza, inteligência ou qualquer outro atributo, e a pessoa indagada, mesmo considerando que a roupa, por exemplo, é feia, não afirmará isso e sim o contrário. E também o caso de alguém perguntar como está passando e ela diz que “está bem”, por pior que esteja. Estas formas amenas de mentira acabam servindo para algumas pessoas justificarem e legitimarem as mentiras em geral. Mas tornar essas formas de mentira equivalentes é apenas contar mais uma mentira.

Além destas formas, existe também a mentira social. Essa é uma mentira compartilhada e reproduzida por vários indivíduos, por grupos, coletivos ou até uma sociedade inteira. É o caso de regimes ditatoriais nos quais a mentira deve ser dita e repetida para se justificar (desde o nazismo ao stalinismo e todos os demais regimes ditatoriais), nascendo no poder estatal e se reproduzindo no interior da população, seja por medo, interesse ou compartilhar as ideias dominantes da época. Isso também pode ocorrer por vergonha ou trauma, tal como se pode observar no filme Uma Cidade Sem Passado, na qual o envolvimento da população com o nazismo é substituído pela mentira de que seria apenas o ex-prefeito o único envolvido com o Terceiro Reich. Há também mentiras institucionais, nas quais para manter o poder, a burocracia acaba gerando mentiras sobre indivíduos dissidentes ou mesmo grupos, para manter intacta a imagem institucional. A mentira grupal, seja de círculo de políticos corruptos, seja de jovens que foram responsáveis por uma morte, como nos filmes triviais norte-americanos, também é comum e a razão é evitar a descoberta e as consequências.

Contudo, não é através do moralismo que se pode resolver essa questão. O moralismo prega que mentir é “errado”, ou alguns religiosos podem dizer que é “coisa do diabo” ou “pecado”. Assim, toda e qualquer mentira é condenada e todo aquele que mente deve ser punido, independente do contexto, de sua situação nele, entre outras determinações. As determinações das mentiras, no discurso moralista, são abolidas e em seu lugar aparece a condenação. As mentiras altruístas e civilizadas passam a ser tão condenáveis como a para obter vantagens ou para manter o poder. A mentira por medo de ser prejudicado de um indivíduo das classes exploradas e sem condições de se defender passa a ser equivalente daquela feita por um corrupto com medo de sua punição ou um assassino com medo da prisão. O moralismo, como prática de julgar e condenar os indivíduos a partir de um conjunto de normas que formam um cânone abstrato, é sempre descontextualizado e se caracteriza por um normativismo abstrato. Ele, portanto, é incapaz de solucionar o problema da mentira, pois apenas julga e condena, fora do contexto.

A superação da mentira generalizada pressupõe a superação da sociedade que gera a sua necessidade. A sociedade capitalista é uma sociedade fundada na mentira devido suas características essenciais. É somente a transformação radical das relações sociais, abolindo os processos competitivos, a exploração, a burocracia, a mercantilização, a mentalidade burguesa, etc. é que a mentira poderá deixar de ser um fenômeno social generalizado. A sociedade autogerida, ou “comunista” (nome que foi desgastado por ideologias e mentiras divulgadas em nossa sociedade), é uma sociedade fundada na verdade. A luta pela autogestão social é também uma luta da verdade contra a mentira e contra uma sociedade que vive de mentiras.






[1][1] Inclusive tendo alguns casos famosos, como no caso da ideologia do volume cerebral, na qual ocorreu a falsificação deliberada dos dados.

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