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sexta-feira, 12 de junho de 2026

Episteme marxista e psicanálise - Lançamento de livro

 Episteme Marxista e Psicanálise - Lucas Maia (org.).


Na coletânea abaixo divulgado, encontra-se o meu artigo "Marxismo e Psicanálise segundo Russel Jacoby", ao lado de outros textos sobre Freud e psicanálise. Leitura recomendada!


A obra organizada por Lucas Maia traz uma reflexão importante sobre as relações entre o marxismo, concebido como uma episteme (um modo de pensar subjacente que atua sobre o conteúdo do pensamento), e a psicanálise, compreendida como uma manifestação da episteme burguesa. Nesse contexto, a obra apresenta uma concepção crítica da psicanálise a partir dos seus vínculos com o pensamento burguês e, assim, se abre caminho para sua reformulação e avanço no sentido de se vincular à perspectiva do proletariado. É nesse contexto que obras de Freud e a aceitação acrítica do freudismo são trabalhadas no presente livro. Para aqueles que se interessam pela relação entre marxismo e psicanálise, freudomarxismo, crítica do freudismo, entre outros temas correlatos, a presente obra se torna fundamental.




Título: Episteme Marxista e Psicanálise
Organizador: Lucas Maia
Autores: Alice Viana, Lucas Maia, Nildo Viana
Editora: Edições Redelp
Edição: 01
Ano: 2026
Páginas: 104
Coleção/Série: Dialética e Sociedade, 13.
ISBN: 978-65-86705-61-4

TEXTO DA ORELHA

A psicanálise hoje é uma das ciências mais populares e bem recebidas por vastos setores da sociedade. Freud e seus discípulos e dissidentes hoje fazem fortuna. O marxismo, por sua vez, já teve altos e baixos em sua popularidade e aceitação. A relação entre essas duas concepções assumiu várias formas. Muitos supostos marxistas condenaram e criticaram a psicanálise, enquanto outros a defenderam e buscaram uni-la com o marxismo. Os textos aqui reunidos iniciam um outro debate, que escapa tanto das negações stalinistas e simplificadoras da psicanálise quanto da sua aceitação acrítica ou mescla eclética com o marxismo. Um outro caminho é apresentado, o da crítica e da assimilação da psicanálise pelo marxismo. No presente volume, emerge o momento crítico, passo necessário para a posterior assimilação.

 

SOBRE O AUTOR:

 

Lucas Maia é doutor em Geografia, pós-doutor em Sociologia e tem formação em Psicanálise. Atua profissionalmente como professor do Instituto Federal de Goiás – IFG há vários anos. Suas pesquisas abordam temas diversos: história e dinâmica do movimento operário, movimentos sociais, educação e correntes pedagógicas, com destaque para Pedagogia institucional e autogestão pedagógica, o pensamento de Freud e relações da psicanálise com a literatura etc. Contudo, o maior interesse de seus estudos é a obra de Marx e do marxismo subsequente, sobretudo as tendências crítico-revolucionárias, como o Comunismo de Conselhos e o Marxismo Autogestionário. Vários de seus trabalhos versam, por isto, sobre teoria, história e experiências de Autogestão Social. Alguns de seus livros são: Comunismo de Conselhos e Autogestão Social; Leitura Epistêmica de O Capital; Nem Partidos, Nem Sindicados: a Reemergência das Lutas Autônomas no Brasil, entre outros.


domingo, 3 de outubro de 2021

Marxismo e Psicanálise segundo Anton Pannekoek

 Marxismo e Psicanálise segundo Anton Pannekoek

Anton Pannekoek foi um dos mais importantes pensadores marxistas do século 20. A sua contribuição para a teoria dos conselhos operários é inquestionável (PANNEKOEK, 1977; PANNEKOEK, 2012). A retomada do caráter revolucionário do pensamento marxista foi um de seus méritos e dos demais integrantes da corrente denominada comunismo de conselhos. Podemos dizer que o pensamento de Pannekoek se organiza a partir de dois aspectos fundamentais: um é a preocupação com a organização e a outra é a preocupação com a consciência no movimento revolucionário do proletariado. Pannekoek enfatizou a necessidade de consciência e organização por parte do proletariado e dedicou muitas páginas para trabalhar com esses elementos. No entanto, a interpretação autonomista do seu pensamento acabou evitando uma parte fundamental de sua concepção, a respeito da importância da consciência, e focalizou apenas a sua discussão sobre a organização, os conselhos operários (e a crítica das organizações burocráticas, tal como a sua crítica aos partidos e sindicatos).

O texto “Marxismo e Psicologia”, um título problemático, já que o tema abordado por ele remete para uma discussão sobre a psicanálise e não psicologia, publicado em 1938, aponta para uma das reflexões de Pannekoek sobre a questão da consciência, embora não seja o seu foco e sim as posições de alguns “freudo-marxistas”. Esse texto é interessante por tocar numa questão fundamental, a relação entre marxismo e psicanálise. Por isso é importante a leitura e análise desse breve texto.

Não efetivaremos uma síntese do texto de Pannekoek, mas apenas apontaremos alguns pontos básicos para reflexões. O primeiro ponto é a motivação de Pannekoek para entrar na questão da relação entre marxismo e psicanálise. O segundo ponto é a interpretação que ele efetiva da psicanálise, o que está relacionado com o terceiro, que é sua posição diante do freudo-marxismo. O quarto e último ponto é a sua posição diante da relação entre marxismo e psicanálise.

A principal motivação de Pannekoek em escrever tal texto remete, provavelmente, à repercussão das tentativas de aproximação entre marxismo e psicanálise no contexto dos anos 1930. Pannekoek cita, fundamentalmente, Reich e Osborn. Sem dúvida, a importância dessa aproximação ocorria não só por sua repercussão ideológica, mas também pelas iniciativas práticas, tal como o movimento Sexpol (movimento de política sexual), do qual Wilhelm Reich participou e foi um dos principais animadores, que existiu, inicialmente vinculado ao Partido Comunista Alemão, nos anos 1930. As publicações de Reich tinham um certo impacto em alguns setores da sociedade, bem como a ideia de um freudo-marxismo se expandiu nesse período, especialmente em alguns países, tal como na Alemanha. Sem dúvida, o lançamento do livro de Osborn (1966), Marx e Freud (também publicado com o título “Marxismo e Psicanálise”) foi uma das razões do breve texto de Pannekoek.

A posição de Pannekoek diante da psicanálise se manifesta em sua reflexão sobre o freudo-marxismo. Como texto político, não há citações das obras, o que dificulta uma análise mais profunda sobre as fontes de Pannekoek. Não sabemos, por exemplo, se Pannekoek leu Freud ou se realizou sua interpretação a partir de obras de comentaristas. Ao que tudo indica, Pannekoek não leu Freud e sim se apoiou na apresentação do seu pensamento por Osborn (1966), tal como se vê na discussão sobre o superego. Se Pannekoek leu Freud, deve ter sido uma leitura circunstancial e sem maior aprofundamento, pois ele comete equívocos interpretativos (geralmente os mesmos de Osborn, o que reforça a hipótese de que ele se fundamenta nesse autor ao invés de uma leitura do fundador da psicanálise).

Não cabe aqui comentar detalhadamente os equívocos interpretativos de Pannekoek a respeito de Freud (e nem dos seus acertos). É mais interessante discutir as suas reflexões sobre as questões psicanalíticas. Pannekoek afirma que o instinto de sobrevivência[1] precisam de meios materiais de satisfação e que o instinto sexual, que ele denomina “necessidades que Freud chamou de libido”, pode ter suas exigências satisfeitas “através do mecanismo da sublimação, por meio da fantasia”. Ele não afirma que isso é uma concepção de Freud e tudo indica, apesar dele não deixar claro, é uma posição assumida por ele diante desse processo, que, como veremos a seguir, é um dos fundamentos de sua posição diante do freudo-marxismo. Porém, o equívoco está em pensar que as “necessidades sexuais” não satisfeitas possam ser, paradoxalmente, satisfeitas pela fantasia. A fantasia pode ser uma “satisfação substituta” e não uma satisfação do que fica insatisfeito, o que significa que o deslocamento não resolve o problema e por isso há o inconsciente e o “retorno do reprimido”. O que ocorre é a substituição da satisfação da necessidade sexual por uma outra satisfação, não-sexual, e por isso a insatisfação continua. Ela a substitui, mas não a satisfaz. Se houvesse a satisfação, os problemas enfrentados por Freud, tal como a neurose, não existiriam. Pannekoek não desenvolve e nem aprofunda essas reflexões, e se o fizesse teria que questionar a concepção freudiana (bem como as concepções psicanalíticas alternativas de Adler, Jung, Fromm e outros).

Não poderemos aqui questionar suas afirmações sobre “superego”, “fase de homossexualidade”, “tipos de personalidade”, a sua confusão em torno dos desejos e superego e “irracionalidade”, entre outras. Vamos apenas colocar mais uma questão, sua acusação de simplificação por parte da psicanálise. É provável que Pannekoek retira tal ideia da “síntese” (problemática) de Osborn a respeito da psicanálise. Sem dúvida, em certas questões e passagens, Freud efetiva algumas simplificações, bem como não ultrapassa a episteme burguesa e efetiva um reducionismo. Porém, é preciso entender que o foco de Freud é o indivíduo e que ele elabora toda uma concepção complexa a respeito do universo psíquico (que ele denomina “aparelho psíquico”) e ultrapassa o nível individual em algumas obras. Porém, há ziguezagues na obra de Freud (é possível identificar três momentos, com alterações importantes no seu pensamento), bem como correções e aprofundamentos. Por outro lado, Pannekoek desconsidera os psicanalistas dissidentes (como Adler, Jung e outros), que apontam outros caminhos e explicações.

Pannekoek também aborda o freudo-marxismo. No texto, ele cita três autores considerados freudo-marxistas: Fromm, Reich e Osborn. Porém, o seu foco é claramente Osborn. Pannekoek efetiva uma crítica especialmente aos dois últimos. Fromm só aparece para apontar um aspecto do pensamento de Freud. Reich aparece um pouco mais e Osborn é o grande nome. Sem dúvida, seria fundamental ter abordado, para discutir a questão mais ampla do que a relação entre marxismo e psicanálise, que é a relação entre universo psíquico e sociedade, mais amplamente a contribuição de Fromm e talvez outros freudo-marxistas e psicanalistas. Porém, a crítica de Pannekoek a Osborn é acertada. O acerto de Pannekoek reside tanto na crítica do vínculo de Osborn com a concepção leninista-stalinista quanto sua reflexão sobre a psicanálise e sua suposta utilidade para o marxismo.

Porém, Pannekoek não avançou mais nessa crítica, talvez por não ter maior aprofundamento nas concepções psicanalíticas. Se houvesse, talvez poderia ter criticado vários pontos da interpretação de Osborn do pensamento de Freud e sua simplificação do mesmo. Por outro lado, no entanto, Pannekoek acerta ao criticar a relação estabelecida entre marxismo e psicanálise tendo por pressuposto a “dialética da natureza”, o que recorda a obra positivista de Engels (1986) e sua adoção e simplificação pelo stalinismo, gerando o fantasmagórico diamat (“materialismo dialético”). Essa dialética positivista não contribui para a compreensão da sociedade, do universo psíquico dos indivíduos, para suas relações, e, portanto, é apenas mais um obstáculo para o desenvolvimento da consciência humana que deve ser removido. As demais críticas de Pannekoek a Osborn são corretas, desde que não se confunda o que diz esse autor com a psicanálise e o freudo-marxismo em geral.

Sem dúvida, Pannekoek poderia ter avançado para uma crítica do freudo-marxismo de Wilhelm Reich. Este autor era mais freudiano do que marxista, não apenas através da primazia da psicanálise freudiana sobre o marxismo, mas também por reproduzir o materialismo mecanicista, bem como suas confusões na análise da família, do fascismo, entre outras[2]. Essa outra manifestação do freudo-marxismo, no entanto, é mais profunda e útil do que a de Osborn. Por outro lado, Fromm e outros freudo-marxistas, que estabeleceram outras interpretações, bem como relações, entre marxismo e psicanálise, seriam importantes e permitiriam um maior avanço nessa discussão.

O último aspecto do texto de Pannekoek que queremos destacar é sua posição diante da relação entre marxismo e psicanálise, o que remete para a questão da relação entre o indivíduo e seu universo psíquico e a sociedade. A crítica de Pannekoek a Osborn tem muitos acertos, mas termina por ser problemático a sua limitação a esse que é, provavelmente, o pior dos freudo-marxistas. Pannekoek observa, acertadamente, que é necessário ao invés de usar a psicanálise para reproduzir a propaganda burguesa e usar suas estratégias, apontar para a autonomização do proletariado. A ideia de “politizar a vida privada” e as pseudossoluções das satisfações substitutas não possuem nada de revolucionário e o exemplo com o qual ele termina, Kraft durch Freude (Força pela Alegria, organização nazista voltada para o lazer) é revelador do caráter burguês e reacionário dos adeptos da “revoluções individuais” e “liberação de subjetividades” no interior do capitalismo.

Ao mesmo tempo Pannekoek coloca a questão da criança e do adulto, retirando a ênfase psicanalítica na infância. E sua ironia é digna de gargalhada: “a conclusão lógica seria que primeiro devemos reformar a família ou, em outras palavras, que devemos revolucionar o jardim de infância para realizar uma revolução social”. De certo modo, Pannekoek tem razão, mas a desconsideração pelos processos de socialização, a formação psíquica das crianças, é problemática[3]. Otto Rühle (2021) foi mais profundo nessa questão. A sua crítica na ênfase excessiva na sexualidade também é correta (e isso se aplica a Reich também). Porém, a sua fundamentação da crítica deixa a desejar. A sua contraposição entre instinto de sobrevivência e instinto sexual, sem usar essa terminologia, aponta para a percepção correta de que a sexualidade e as reivindicações em sua relação podem ser atendidas ou substituídas na sociedade capitalista. Ela não é geradora de revolução, como supôs Reich. Porém, ao colocar que o “impulso da fome” remete a uma maior influência no sentido de reforçar o processo revolucionário, acaba simplificando a questão. Assim se perde de vista a complexidade dos seres humanos, bem como deixar a revolução na dependência de uma tal carência, a fome, sob forma coletiva, significa colocar a probabilidade de sua ocorrência diminuir drasticamente. Além disso, a fome não é suficiente para desencadear uma revolução, apesar de que a posição de Pannekoek não se reduz a isso, mas a formulação acabou empobrecendo a discussão, mesmo nos limites que ele coloca – e certamente hipotético – que é tomando por base a concepção simplificadora dos impulsos e numa divisão formal da vida emocional do ser humano.

O que podemos perceber no texto do Pannekoek é uma limitação discursiva por se orientar pelo discurso psicanalítico (e, pior ainda, empobrecido por Osborn) e pelo seu objetivo de refutação das teses e conclusões de determinados autores. Ao enfatizar a refutação de Osborn e sua psicanálise simplificadora – o que torna os problemas realmente existentes na psicanálise freudiana ainda mais graves – acabou exagerando suas posições, que também acabaram se tornando simplificadoras. Obviamente que é equivocado pensar que “a verdadeira revolução das massas deve se preocupar principalmente com a superestrutura ideológica da sociedade”[4] e podemos concordar com a afirmação de que a concepção segundo a qual “o principal esforço deve ser colocado na agitação na esfera da superestrutura” significa “convidar a uma disputa com moinhos de vento”. Porém, ao contestar o “superestruturalismo”, corre-se o risco de cair no economicismo. Assim, é preciso recordar que a luta de classes está em todos os lugares (KORSCH, 1973), inclusive nas formas sociais (“superestrutura”), e que esta tem uma função fundamental na reprodução da sociedade capitalista e, por conseguinte, é um lugar de luta e atuação. A relação entre modo de produção e formas sociais também precisaria ser efetivada e como esses processos estão entrelaçados num processo revolucionário. Assim, Pannekoek, ao combater corretamente a ênfase unilateral na “superestrutura”, acabou caindo, pelo menos pela forma que aparece no texto, no erro oposto, que foi a ênfase unilateral na “relação econômica”.

Em síntese, a abordagem da psicanálise por Pannekoek padece de uma compreensão mais profunda da mesma e isso gera sua crítica mais geral e que se desdobra na crítica do freudo-marxismo, em sua versão mais problemática e simplificada, pois aliada ao leninismo. Da sua recusa da psicanálise e freudo-marxismo, também decorre uma concepção limitada da relação entre universo psíquico e sociedade. Nesse sentido, o texto de Pannekoek é uma boa contribuição para a crítica de um freudo-marxismo limitado e ideológico, bem como de sua versão empobrecida da psicanálise, mas é preciso que se veja também que ela tem limites, que se manifestam na confusão entre a versão e a verdade[5].

Ou, em outras palavras, a crítica de Pannekoek é interessante e em muitos aspectos acertadas, mas no que se refere a uma versão simplificada da psicanálise e freudo-marxismo e não no que se refere a estas concepções em sua complexidade. Isso gera um problema derivado que é a posição diante da realidade, mas que é compreensível no contexto da discussão, embora não seja aceitável e que é necessário senso crítico para perceber isso e avançar na reflexão sobre o processo da luta de classes e da luta pela transformação radical e total das relações sociais.

Referências

ENGELS, Friedrich. A Dialética da Natureza. 4a edição, Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1985.
KORSCH, Karl. El Joven Marx como Filósofo Activista. In: SUBIRATS, E. (org.). Karl Korsch o el Nacimiento de uma Nueva Época. Barcelona: Anagrama, 1973.
OSBORN, Reuben. Psicanálise e Marxismo. Rio de Janeiro: Zahar, 1966.
PANNEKOEK, Anton. Los Consejos Obreros. Madrid: Zero, 1977.
PANNEKOEK, Anton. Partidos, Sindicatos e Conselhos Operários. Rio de Janeiro: Rizoma, 2012.
REICH, Wilhelm. A Revolução Sexual. 8ª edição, Rio de Janeiro: Guanabara, 1988.
REICH, Wilhelm. O Que é a Consciência de Classe? Lisboa: Textos Exemplares, 1976.
REICH, Wilhelm. Psicanálise de Massas do Fascismo. 2ª edição, São Paulo: Martins Fontes, 1988.
RÜHLE, Otto. A Mente da Criança Proletária. Goiânia: Edições Redelp, 2021.
SARTRE, Jean-Paul. Questão de Método. São Paulo: Difel, 1968.
VIANA, Nildo. Hegemonia Burguesa e Renovações Hegemônicas. Curitiba: CRV, 2019.
VIANA, Nildo. O Modo de Pensar Burguês. Episteme Burguesa e Episteme Marxista. Curitiba: CRV, 2018.
VIANA, Nildo. Universo Psíquico e Reprodução do Capital. Ensaios Freudo-Marxistas. São Paulo: Escuta, 2008.


[1] Pannekoek coloca “impulso de autopreservação” e não entraremos aqui na polêmica da tradução mais fidedigna dos termos usados por Freud, entre os quais o debate se são “instintos” ou “pulsões” – ou, ainda, impulsos –, pois consideramos que instintos é mais adequado e nos posicionamos a favor dos que defendem tal concepção.

[2] As análises mecanicistas de Reich podem ser vistas em obras como Psicologia de Massas do Fascismo e O que é Consciência de Classe? (REICH, 1976; REICH, 1988). Isso não retira alguns méritos de algumas de suas reflexões, tal como a crítica da contrarrevolução na Rússia em sua obra A Revolução Sexual (REICH, 1988).

[3] E, nos casos individuais, não é possível desconsiderar a importância da infância, embora ela seja relativa dependendo dos indivíduos concretos. Não foi sem motivo que Sartre (1968) ironiza os marxistas que consideram que o indivíduo só passaria a existir quando recebia o seu primeiro salário. E tal importância pode ser coletiva, quando atinge determinada geração, possuindo efeitos posteriores, entre outros processos. Claro que isso é diferente da posição de Osborn e não é disso que Pannekoek está tratando mais exatamente, embora a sua posição necessitaria ampliar a reflexão, o que poderia mudar a consideração efetivada por ele.

[4] Pannekoek reproduz nesse texto algo bastante comum em suas obras, que é a imprecisão terminológica. E no próprio texto a palavra ideologia aparece com mais de um sentido, tendo inclusive uma breve referência à ideia de “falsa consciência”, ao mesmo tempo que usa o termo no sentido amplo (e próximo de cultura) ao falar de “superestrutura ideológica”.

[5] A questão do inconsciente coletivo, dos sentimentos, entre outros processos psíquicos, são fundamentais para entender a dinâmica da luta de classes na sociedade capitalista, inclusive como a classe dominante manipula e consegue canalizar a insatisfação para processos que permitem a sua reprodução, bem como é fundamental entender a força da mentalidade burguesa (VIANA, 2008) e da episteme burguesa (VIANA, 2018; 2019). A revolução proletária, ao contrário de todas as revoluções anteriores, pressupõe um processo de autoconsciência, cujo auge será no processo revolucionário, mas que precisa de elementos antecedentes para atingi-lo.

Nildo Viana, outubro de 2020.


O texto de Pannekoek pode ser acessado neste link:


terça-feira, 25 de agosto de 2026

Curso de Extensão: "Psicanálise e Sociedade"

 


Curso de Extensão: "Psicanálise e Sociedade"



Sobre o evento

O Curso de Extensão "Psicanálise e Sociedade" visa apresentar uma reflexão sobre a contribuição da psicanálise para a compreensão da sociedade e para a teoria da sociedade. Para tanto, o curso inicia com uma análise da contribuição do fundador da psicanálise, Sigmund Freud, através de seus escritos que abordam a sociedade. Num segundo momento, o curso apresenta as contribuições de Erich Fromm e Michael Schneider e, por fim, faz um balanço teórico geral sobres as contribuições psicanalíticas para o estudo da sociedade através das análises psicanalíticas da sociedade e fenômenos sociais e como as concepções sociológicas e marxistas contribuem para se pensar o universo psíquico dos indivíduos.


O curso de extensão “Psicanálise e Sociedade” é parte de um “projeto de extensão” mais amplo, intitulado “Psicanálise e Sociedade – A contribuição psicanalítica para pensar o social”, que inclui o curso já realizado “Introdução à Psicanálise”, o curso em andamento “Introdução à Psicologia Social”, outros cursos planejados que serão ministrados posteriormente, e inclui também pesquisa, estudos e publicações, assim como ciclo de palestras complementar ao curso. Inscrição gratuita para participantes do curso "Introdução à Psicologia Social" (clique para acessar e se inscrever).


Exposições:

Psicanálise e sociedade em Freud - Dr. Jean Isídio dos Santos

Erich Fromm e a Psicanálise da Sociedade Contemporânea - Dr. Nildo Viana

Psicanálise e Sociedade em Michael Schneider - Dr. Rubens Vinicius da Silva

Psicanálise e Teoria da Sociedade: Encontros e Desencontros - Dr. Nildo Viana


Inscrições e Informações:

https://www.even3.com.br/psicanalise-e-sociedade-773429/

 Ou use o QR Code.



terça-feira, 18 de junho de 2019

Minicurso: Sociologia Psicanalítica e Movimentos Sociais


Minicurso: Sociologia Psicanalítica e Movimentos Sociais.
Ministrante: Nildo Viana (FCS/UFG).
V Simpósio da FCS/UFG.
Dias 11 e 12 de setembro.
17:00 - 19:00
Inscrições:
https://cienciassociais.ufg.br/e/23261-inscricoes-gratuitas-para-o-5-simposio-da-faculdade-de-ciencias-sociais-democracia-e-direitos-humanos-crises-e-conquistas

Resumo/Apresentação:


SOCIOLOGIA PSICANALÍTICA E MOVIMENTOS SOCIAIS

A psicanálise aborda, fundamentalmente, os fenômenos psíquicos individuais, embora tenha extrapolado esse limite desde que Freud abordou fenômenos coletivos. Após Freud, outros psicanalistas contribuíram com o estudo de fenômenos coletivos numa perspectiva psicanalítica. Esse é o caso de Carl Gustav Jung e o inconsciente coletivo; Alfred Adler e a vontade de poder; Eugéne Enriquez e a psicanálise do vínculo social; o chamado freudo-marxismo (Wilhelm Reich, Erich Fromm, Alfred Lorenzer, Michael Schneider, Otto Fenichel, Igor Caruso, etc.); os neofreudianos (Karen Horney, Harry Sullivan, Clara Thompson, etc.), entre diversos outros. No campo da sociologia, alguns destacados sociólogos fizeram incursões sobre a psicanálise, com destaque para Karl Mannheim, Talcott Parsons e Roger Bastide, sendo este o criador do termo “sociologia psicanalítica”. A Escola de Frankfurt colocou em suas análises a contribuição de Freud e da psicanálise ao lado das de Hegel e Marx; a Análise Institucional (Georges Lapassade, Rene Lourau, Michel Lobrot, etc.) reuniu sociologia, psicologia, Freud, Hegel, Marx, Sartre, Lukács. Assim, há um vasto campo de produções e análises na fronteira entre sociologia e psicanálise. O movimento de massas, por sua vez, desde a contribuição original de Gustave Le Bon na psicologia e de Freud na psicanálise (Psicologia de Massas e Análise do Ego), recebeu várias análises sociopsicológicas. No que se refere a sociólogos e outros cientistas sociais, os movimentos de massas inicialmente foram concebidos como sendo marcados por irracionalidade, tal como se vê na abordagem irracionalista de Hoffer e Kornhauser. Posteriormente, os movimentos sociais, propriamente ditos, receberam análises semelhantes por parte da abordagem funcionalista. A tendência posterior, especialmente com a abordagem institucionalista, foi a de enquadrá-los como marcados pela racionalidade. Mais recentemente, com a análise do ressentimento e outros processos psíquicos coletivos, a concepção meramente racionalista passou a conviver com outras análises. Nesse contexto, o objetivo do minicurso é apresentar as contribuições da sociologia psicanalítica (incluindo elementos de psicanálise) para a compreensão dos movimentos sociais. O minicurso contará com uma introdução sintética à psicanálise acompanhada de uma reflexão sobre sociologia e psicanálise e das tentativas de se realizar uma sociologia psicanalítica. Após isto, será efetivado uma discussão sobre alguns elementos de psicologia e psicanálise que buscaram tratar de fenômenos coletivos e movimentos sociais, mais especificamente. Por fim, alguns elementos da psicanálise e sociologia psicanalítica serão trabalhados a partir de sua contribuição para a análise e compreensão dos movimentos sociais.

sábado, 19 de fevereiro de 2011

Erich Fromm e a Renovação da Psicanálise


Erich Fromm e a Renovação da Psicanálise


Nildo Viana


 
 Erich Fromm é um dos psicanalistas mais populares do mundo e, ao mesmo tempo, um dos menos considerados nos meios acadêmicos. A sua popularidade pode ser vista em suas inúmeras obras publicadas e reeditas em vários países. A imagem negativa que ele possui nos meios acadêmicos se deve, por um lado, a algumas afirmações e concepções, e, por outro, sua própria popularidade, o que provoca um preconceito acadêmico de uma elite intelectual que quer um distanciamento em relação ao “grande público”.

Fromm nasceu na Alemanha e foi um dos fundadores do Instituto de Pesquisa Social de Frankfurt, que mais tarde se tornaria conhecida como Escola de Frankfurt, ao lado de Karl Korsch e vários outros pesquisadores, que depois passou a ser identificada com os nomes de Theodor Adorno, Max Horkheimer, Walter Benjamin e Herbert Marcuse. Fromm participou da pesquisa sobre “a personalidade autoritária” que fez a previsão da ascensão do nazismo. As primeiras obras de Fromm são marcadas por um freudismo ortodoxo (Dobrenkov, 1978) e depois ele se torna um dos principais representantes do que se convencionou chamar “neofreudismo”. “revisionismo”, “freudo-marxismo”, “culturalismo”, entre outras expressões. Embora Fromm fosse colocado junto com os demais “revisionistas”, “culturalistas” e “freudo-marxistas”, ele ao mesmo tempo em que se aproximava de várias teses culturalistas de Karen Horney, Suliwan e outros, bem como do freudo-marxismo de Reich, para citar apenas alguns nomes, ele também se diferenciava e assumia uma posição distinta em vários aspectos.

Após a ascensão do nazismo, Fromm, tal como muitos intelectuais de sua época, abandona a Alemanha e vai para os Estados Unidos. Neste país ele irá produzir suas obras mais conhecidas e importantes, se tornando um dos grandes nomes da psicanálise a nível mundial. A sua trilogia composta pelos livros A Análise do Homem; O Medo à Liberdade e Psicanálise da Sociedade Contemporânea se tornou uma das mais importantes do século 20 para a psicanálise. Sua tentativa de unir psicanálise e marxismo também foi importante e foi expresso mais explicitamente em suas obras Meu Encontro com Marx e Freud e A Crise da Psicanálise. Os seus estudos sobre variadas questões (aldeia camponesa, destrutividade humana, história da psicanálise, pensamento de Marx, pensamento de Freud, religião, amor, contos de fada, etc.) possuem um fio condutor que perpassa toda a sua obra. A base do seu pensamento é um humanismo radical que se inspira fundamentalmente nas teses de Marx e Freud.

Fromm parte da idéia de natureza humana para unir Marx e Freud e elaborar sua concepção de psicanálise. Em O Conceito Marxista do Homem, Fromm abre a discussão em torno da alienação e da natureza humana exposta nos Manuscritos de Paris, escrito por Marx, o que será desenvolvido em outras obras. A sociedade de classes produz a alienação e esta é uma negação da natureza humana.

“Deu-nos Marx uma definição da ‘essência da natureza humana’, da ‘natureza do homem em geral’? Deu, sim. Nos Manuscritos Filosóficos, Marx define o caráter específico dos seres humanos como ‘atividade livre e consciente’, em contraste com a natureza do animal, que ‘não distingue a atividade de si próprio... e é a sua atividade’. Em seus escritos posteriores, embora tenha abandonado o conceito de ‘caráter da espécie’, a ênfase continua sendo a mesma: a atividade como característica da natureza não-mutilada e não-fragmentada do homem. Em O Capital, Marx define o homem como um ‘animal social’, criticando a definição de Aristóteles do homem como ‘animal político’ como sendo ‘tão característica da antiga sociedade clássica quanto a definição de Franklin do homem como ‘animal fabricante de ferramentas’ é característica do reino ianque’. A psicologia de Marx, assim como sua filosofia, é uma teoria da atividade humana e concordo inteiramente com a opinião de que a maneira mais adequada para descrever a definição de homem de Marx é a de um ser de práxis (...) (Fromm, 1977, p. 63).

Fromm critica aqueles que deformaram o pensamento de Marx, transformando-o num economicista e empobrecendo o seu pensamento, e também critica Freud e sua concepção de homem como ser fechado e movido pelas forças da autopreservação e instintos sexuais (Fromm, 1977). As críticas de Fromm a Freud (1977; 1980) abrem espaço para ele partir da concepção de natureza humana em Marx e assim apresentar uma renovação da psicanálise num sentido freudo-marxista, indo além de várias outras tentativas neste sentido, tais como a de Osborn (1966), Reich (1973), entre outros. Ele se afasta da concepção biologista de natureza humana expressa por Freud e retoma a concepção de Marx (De La Fuente, 1989), entendendo a produtividade – termo que se presta a equívocos, como veremos adiante – como característica fundamental da natureza humana (Fromm, 1978).

Sem dúvida, é a partir desta concepção de natureza humana que emerge o seu humanismo e que vai estar presente na sua concepção de ética, de psicanálise, de marxismo e de socialismo. É também a base da renovação da psicanálise empreendida por Fromm. É por isso que Fromm irá revalorar a cultura e as relações sociais para explicar o ser humano e seu psiquismo. O modelo biologista de Freud é criticado, incluindo sua concepção da existência de um “instinto de morte” (Fromm, 1975). Fromm explica o ser humano como potencialmente bom, e somente em condições adversas pode desenvolver uma potencialidade secundária, tornando-se mau (Fromm, 1965).

Uma de suas teses mais interessantes é a do caráter social. Fromm encontra alguns tipos de caráter social que podem ser divididos naqueles que possuem orientação produtiva e naqueles que possuem orientação improdutiva. As orientações improdutivas são a receptiva, a exploradora, a acumulativa e a mercantil e as produtivas são reduzidas a uma só, que é a do ser humano que manifesta a essência humana, que realiza a produtividade (Fromm, 1978). Ao contrário de Freud, cuja base fundamental do caráter estaria nos vários tipos de organização da libido, Fromm pensa o caráter social a partir da relação da pessoa com o mundo que, no curso de sua vida, ocorre através do processo de adquirir e assimilar coisas e na relação com as demais pessoas e consigo mesmo, o que significa que é social. A função do caráter social é moldar os indivíduos no sentido de agir na direção exigida pela sociedade. O caráter social produz o desejo de agir no sentido que a sociedade exige e produz no indivíduo a satisfação ao agir de acordo com as exigências da cultura e assim realiza uma mediação entre o modo de produção e as idéias dominantes em uma determinada sociedade (Fromm, 1979).

As orientações de caráter improdutivas são as seguintes: a) receptiva, a pessoa pensa que tudo que é bom está fora dela e espera receber tudo de uma fonte exterior, sendo que o fundamental nesta orientação é ser amado e não amar; b) exploradora, a pessoa também pensa que o bem está no exterior, mas busca tomá-lo por meio da astúcia ou da força; c) acumulativa, as pessoas com esta orientação, ao contrário das anteriores, não tem fé no mundo exterior e sua meta é acumular e poupar, sendo que gastar é visto como uma ameaça; d) a orientação mercantil passa a predominar na sociedade moderna e está intimamente ligada com a expansão mercantil e o capitalismo, sendo produto da mercantilização das relações sociais e domina o indivíduo na sociedade capitalista, que “se sente ao mesmo tempo como o vendedor e a mercadoria a ser vendida no mercado”; “sua auto-estima depende de condições que escapam ao seu controle. Se ele tiver sucesso, será ‘valioso’; se não, imprestável, o que gera a luta constante pelo sucesso”. A orientação mercantil é a predominante na sociedade moderna e é o que gera a opção pelo ter ao invés do ser (Fromm, 1987; Fromm, 1992). Estas orientações de caráter podem se mesclar num indivíduo concreto e o tipo de caráter predominante nos indivíduos é um produto social.

A orientação de caráter produtivo aponta para um ser humano que se relaciona de forma produtiva com o mundo e com as pessoas, desenvolvendo o amor e o pensamento produtivos, que se manifestam na ética humanista. O amor produtivo não é possessivo e nem se reduz ao amor sexual. O amor produtivo tem sua base na produtividade e é o amor autêntico, que tem como exemplo máximo o amor materno e é marcado pelo desvelo, responsabilidade, respeito e conhecimento (Fromm, 1978). É por isso que o amor produtivo é desintegrado na sociedade capitalista contemporânea (Fromm, 1990).

O pensamento produtivo não é aquele que espera tudo do exterior – solicitando e esperando recebê-lo dos outros, como na orientação receptiva, ou tomando e plagiando como no caso da orientação exploradora. Também não é uma fortaleza que se isola e se poupa como na orientação acumulativa ou, ainda, um mero valor de troca utilizado para conquistar o sucesso e por isso segue as modas, tal como na orientação mercantil. O pensamento produtivo é aquele que possui interesse e reage ao seu “objeto”, e, ao mesmo tempo, o respeita, buscando compreendê-lo, a vê-lo como realmente é, tendo também uma visão total e não fragmentária dele. Fromm opõe consciência humanista e consciência autoritária:

“A consciência humanista é a expressão do interesse próprio e integridade, ao passo que a consciência autoritária preocupa-se com a obediência, abnegação e dever do homem ou com seu ‘ajustamento social’. A meta da consciência humanista são a produtividade e, portanto, a felicidade, posto que esta é o concomitante necessário da vida produtiva. Prejudicar a si mesmo tornando-se um instrumento de outros, não importando quão dignos esses aparentem ser, ser ‘desprendido’, infeliz, resignado, desencorajado, opõe-se aos reclamos da consciência da pessoa; qualquer violação da integridade e o funcionamento adequado de nossa personalidade – tanto no que se refere ao pensamento quanto a ação e mesmo a assuntos como preferência de alimentos ou comportamento sexual – são uma intervenção contra a consciência da pessoa” (Fromm, 1978, p. 140).

Estas são as bases da ética humanista e da psicanálise de Erich Fromm. Sua discussão sobre orientação de caráter será fundamental para sua “psicologia do nazismo”, na qual Fromm busca explicar a emergência da barbárie nazista. Ele explica tal emergência a partir das condições sociais da Alemanha e do processo de crise que atingiu sobremaneira a classe média, que perdeu status com a ascensão da classe operária e a tentativa de revolução proletária, e teve prejuízos financeiros com a crise alemã e ainda teve a família – “o último baluarte da segurança da classe média” – sido solapada que a redução da autoridade do pai e o declínio da moralidade desta classe. Estes acontecimentos proporcionaram um uma grande “montante de frustração social”, que acabou se convertendo em uma fonte importante do nazismo. O sentimento de impotência, angústia e isolamento e a destrutividade que lhe acompanha ao lado do ressentimento dos camponeses diante de seus credores urbanos constituem a base humana que não foi a causa do nazismo, mas sem a qual ele não poderia ter sido criado e se tornado vitorioso. Fromm retoma um dos princípios metodológicos fundamentais do marxismo ao reivindicar a necessidade de uma análise da totalidade das relações sociais, incluindo não apenas as condições econômicas e políticas, mas também as psicológicas. Fromm lembra que o papel das classes proprietárias (junkers semifalidos e a classe capitalista) é fundamental e sem o apoio destas o nazismo jamais teria sido vitorioso, mas o seu foco é as condições psicológicas e não as condições econômicas e políticas, tal como o financiamento do nazismo pelas grandes empresas capitalistas.

“Vimos, pois, que certas mudanças socioeconômicas, sobretudo a decadência da classe média e o poder crescente do capital monopolista, tiveram profundo efeito psicológico. Estes efeitos foram acentuados ou sistematizados por uma ideologia política – tal como o haviam sido por ideologias religiosas no século XVI, – e as forças psíquicas assim despertadas passaram a agir em sentido oposto aos dos interesses econômicos originais daquela classe. O nazismo ressuscitou psicologicamente a classe média inferior, ao mesmo tempo que participava da demolição de sua antiga posição socioeconômica. Ele mobilizou suas energias emocionais para convertê-las em uma força importante na luta pelas metas econômicas e políticas do imperialismo alemão” (Fromm, 1981, p. 176).

Fromm acrescenta outros elementos, tal como a estrutura da personalidade de Hitler e o sadismo e masoquismo que formam os impulsos básicos a serviço do nazismo, sendo que o sadismo foi amplamente utilizado pelos líderes, mas também por amplas camadas da população contra judeus e comunistas, entre outros grupos sociais perseguidos. O masoquismo é o seu complemento e atinge as massas, fundamentalmente, convertidas ao caso de defender um “governo forte”. A orientação de caráter autoritária é predominante e aliada com a orientação de caráter receptiva, que se complementam.

A psicanálise humanista de Fromm vai além da tipologia do caráter e suas influências na sociedade e no processo histórico, pois ele irá questionar as próprias bases da sociedade moderna, anti-humanista e mercantil. Fromm faz em uma de suas principais obras, Psicanálise da Sociedade Contemporânea, uma extensa análise do homem no capitalismo, discutindo novamente a questão do caráter social e os processos sociais gerados pelo capitalismo que terá grande influencia sobre ele, tal como a quantificação/abstratificação, a alienação, a burocratização e mercantilização. Fromm coloca estes processos sociais mostrando que até mesmo as organizações surgidas das lutas dos trabalhadores, como partidos e sindicatos, se tornam organizações burocráticas. Sua crítica da democracia moderna surge neste contexto:

“Na realidade, o funcionamento da máquina política em um país democrático não difere essencialmente do procedimento que se segue no mercado de mercadorias. Os partidos políticos não são muito diferentes das grandes empresas comerciais, e os políticos profissionais se esforçam por vender seus artigos ao público. Seu método se assemelha cada vez mais ao da publicidade a alta pressão” (Fromm, 1976, p. 185).

É neste contexto que Fromm irá abordar os efeitos destas relações sociais sobre a saúde mental. Assim, ele abre espaço para questionar a idéia de normalidade. A normalidade é uma idéia que o indivíduo deve se submeter ao que é considerado norma em determinada cultura. A questão que Fromm coloca é que a qualificação de anormalidade está na dependência de uma concepção de normalidade que é a adaptação do indivíduo a determinadas relações sociais, mas que é preciso saber se tais relações são saudáveis. Se tais relações sociais não são saudáveis, então a adaptação a elas não significa que o indivíduo seja saudável mentalmente, mas, ao contrário, significa que ele compartilha com a maioria uma mesma “doença psíquica”. Nesse tipo de sociedade, o indivíduo considerado socialmente anormal é mais saudável mentalmente (“normal”, num sentido mais amplo) do que outros. Segundo Fromm:

“O que é muito enganoso no tocante ao estado mental dos indivíduos de uma sociedade é a ‘validação consensual’ de seus conceitos. Supõe-se, ingenuamente, que o fato de a maioria das criaturas compartilhar certas idéias e sentimentos prove a validez dessas idéias e sentimentos. Nada está mais afastado da verdade. A validação consensual não tem, como tal, qualquer impacto sobre a razão ou saúde mental. Assim como existe uma ‘folie à deux’, existe uma ‘folie à millions’. O fato de milhões de criaturas compartilharem os mesmos vícios não os transforma em virtudes, o fato de elas praticarem os mesmos erros não os transforma em verdades e o fato de milhões de criaturas compartilharem a mesma forma de patologia mental não torna essas criaturas mentalmente sadias” (Fromm, 1976, p. 28),

Após sua crítica da sociedade contemporânea, Fromm apresenta sua proposta de um socialismo humanista, no qual o ser humano poderia realizar sua natureza humana. Após criticar o “socialismo real” – que ele denominou “capitalismo de Estado” em sua obra Conceito Marxista do Homem e posteriormente como socialismo em Psicanálise da Sociedade Contemporânea – ele propõe o “socialismo comunitário humanista”, como modelo alternativo de socialismo, bem distinto do modelo soviético, cujo foco seria as relações sociais e não a questão da propriedade e no qual o trabalho empregaria o capital e não o contrário (Fromm, 1976; 1984b).

Este breve resumo das idéias básicas de Fromm é muito incompleto e incipiente. Seria necessário acrescentar suas incursões sobre “linguagem simbólica”, os sonhos (Fromm, 1983), sobre o inconsciente social (Fromm, 1984a; Viana, 2002), a tecnologia (Fromm, 1984c), a religião (Fromm, 1966 e outras obras), a destrutividade (Fromm, 1975), entre várias outras. Também não é possível expor os debates e críticas que foram endereçadas a Fromm, especialmente a de Marcuse, Lucien Sève, Dobrenkov. Porém, uma avaliação geral da obra de Fromm é fundamental, mesmo que breve e incompleta.

Um dos principais méritos de Fromm foi a sua crítica da sociedade capitalista e ao processo de desumanização que ela provoca. A sua percepção da burocratização e da mercantilização, que já havia sido feita por outros antes dele, mas que ele forneceu uma análise psicanalítica, é outro mérito de sua obra. A valoração das idéias e do psiquismo para explicar os fenômenos sociais, tal como o caso do nazismo, também merece ser ressaltado, entre outros.

Porém, sua obra também tem pontos problemáticos, pois ao superar o biologismo de Freud, Fromm acaba caindo no culturalismo e retira do conceito de inconsciente (e do termo derivado inconsciente social) a base biológica e acaba ofuscando a radicalidade do conceito. Ao incluir o psiquismo na análise das relações sociais e dar um passo no sentido de uma percepção mais ampla da realidade, concebida como totalidade, acaba se limitando ao excluir da análise os aspectos vitais, “biológicos”, e sua concepção culturalista se torna problemática devido a isto. Outro limite se encontra em seu humanismo abstrato, pois parte de uma concepção correta de natureza humana, mas que não chega a perceber a questão fundamental das classes sociais e das lutas de classes e por isso sua ética humanista também se revela limitada, tal como sua proposta de mudança social. Fromm atribui ao indivíduo uma tarefa hercúlea e muitas vezes cai ingenuamente em receitas de solução individual numa sociedade repressiva. Isso lhe valerá a crítica correta de Marcuse, que o compara com as receitas do “poder do pensamento positivo” (Marcuse, 1986) e certamente este é um dos motivos da popularidade de Fromm e de seu sucesso no mercado editorial. No entanto, se neste aspecto a crítica de Marcuse foi correta, nos demais é permeada por equívocos, inclusive em torno da palavra produtividade, que ele interpreta no sentido oferecido pela ciência econômica e não no sentido amplo oferecido por Fromm (Viana, 2008).

Parte dos equívocos de Fromm é de origem metodológica, já que lhe falta um maior domínio do método dialético e do materialismo histórico. Sua interpretação de Marx também se revela problemática em alguns aspectos, tal como no que se refere ao conceito de alienação e concepção de socialismo, por se basear apenas nas obras mais conhecidas de Marx. A sua defesa da totalidade é limitada devido ao problema que ele mesmo identificou várias vezes: a especialização. Por ser psicanalista, embora erudito e que adentrava sobre questões culturais, sociais, políticas e econômicas, o fazia de forma bastante restrita nos dois últimos domínios. Sua análise política e econômica era marcada por equívocos devido a pouca profundidade que ela manifestava. As soluções apresentadas por Fromm, tal como o seu “socialismo comunitário”, que não conseguiu ir além das relações de produção capitalistas, apenas mudando a relação entre trabalho e capital ao invés de aboli-la, mostra novamente sua limitação metodológica e na compreensão das relações sociais e de produção. Sua concepção de socialismo se revela um capitalismo reformado, democrático e redistributivo, muito distante da proposta de Marx do “autogoverno dos produtores”, da autogestão social.

Porém, não é possível desconsiderar as contribuições de Fromm e que ele, mesmo com seus equívocos, é uma referência fundamental para analisar a sociedade contemporânea e um dos grandes intelectuais do século 20. Ele também foi um dos principais responsáveis pela renovação da psicanálise, promovendo a percepção da necessidade de incluir as relações sociais e a cultura na busca de compreensão dos fenômenos psíquicos, o que era uma necessidade teórica e, apesar de seus exageros neste sentido, foi um antídoto para os exageros que iam no sentido contrário e abriu novas perspectivas para a psicanálise.

Referências

DE LA FUENTE, Ramón. El Pensamiento Vivo de Erich Fromm. México, Fondo de Cultura Económica, 1989.

FROMM, Erich. A Arte de Amar. São Paulo, Itatiaia, 1990.

FROMM, Erich. A Crise da Psicanálise. Freud, Marx e a Psicologia Social. 2ª edição, Rio de Janeiro, Zahar, 1977.

FROMM, Erich. A Linguagem Esquecida. Uma Introdução ao Entendimento dos Sonhos, Contos de Fadas e Mitos. 8ª edição, Rio de Janeiro, Zahar, 1983.

FROMM, Erich. A Revolução da Esperança. Por uma Tecnologia Humanizada. 5ª edição, Rio de Janeiro, Zahar, 1984c.

FROMM, Erich. Análise do Homem. 10ª edição, Rio de Janeiro, Zahar, 1978.

FROMM, Erich. Anatomia da Destrutividade Humana. Rio de Janeiro, Zahar, 1975.

FROMM, Erich. Da Desobediência e outros ensaios. Rio de Janeiro, Zahar, 1984b.

FROMM, Erich. Do Ter ao Ser. Rio de Janeiro, Manole, 1992.

FROMM, Erich. Grandeza e Limitações no Pensamento de Freud. Rio de Janeiro, Zahar, 1980.

FROMM, Erich. Meu Encontro com Marx e Freud. 7ª edição, Rio de Janeiro, 1984a.

FROMM, Erich. O Coração do Homem. Rio de Janeiro, Zahar, 1965.

FROMM, Erich. O Medo à Liberdade. 13ª edição, Rio de Janeiro, Zahar, 1981.

FROMM, Erich. Psicanálise da Sociedade Contemporânea. 8ª edição, Rio de Janeiro, Zahar, 1976.

FROMM, Erich. Psicanálise e Religião. Rio de Janeiro, Livro Ibero-Americano, 1966.

FROMM, Erich. Ter ou Ser? 4ª edição, Rio de Janeiro, Guanabara, 1987.

MARCUSE, Herbert. Eros e Civilização. Uma Interpretação Filosófica do Pensamento de Freud. 8a Edição, Rio de Janeiro, Guanabara, 1986.

OSBORN, Reuben. Psicanálise e Marxismo. Rio de Janeiro, Zahar, 1966.

REICH, Wilhelm. Materialismo Dialético e Psicanálise. Lisboa, Presença, 1973.

VIANA, Nildo. Inconsciente Coletivo e Materialismo Histórico. Goiânia, Edições Germinal, 2002.

VIANA, Nildo. Universo Psíquico e Reprodução do Capital. Ensaios Freudo-Marxistas. São Paulo, Escuta, 2008.

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Artigo publicado originalmente em:
VIANA, Nildo. Erich Fromm e a Renovação da Psicanálise. Revista Espaço Livre, Vol. 4, num. 08, jul-dez./2009.

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quinta-feira, 25 de junho de 2026

FILME E PSICANÁLISE - novo lançamento

 

FILME E PSICANÁLISE - novo lançamento

As relações entre filme e psicanálise são complexas. A coletânea organizada por Nildo Viana examina filmes que tematizam a psicanálise, aspectos do trabalho psicanalítico ou temas gerais explorados pelas escolas psicanalíticas, sobretudo o universo psíquico dos indivíduos. Questões como alienação e libertação, conflitos psíquicos, mentalidade e caráter social, o método psicanalítico e os hospitais psiquiátricos são discutidas em reflexões sobre o universo ficcional de vários filmes. Trata-se de uma leitura recomendada a todos que se interessam por psicanálise, análise fílmica, relação entre cinema e psicanálise, bem como manifestações ficcionais de conflitos psíquicos.


Título: Filme e Psicanálise
Organizador: Nildo Viana
Autores: Alice Viana, Edmilson Marques, Felipe Andrade, Lucas Maia, Nildo Viana.
Editora: Ragnatela
Coleção: Filme e Mensagem, 04
Edição: 01
Ano: 2026
Páginas: 146
ISBN: 978-65-84983-54-0


TEXTO DA ORELHA

O filme, como expressão figurativa da realidade, gera manifestações ficcionais que se confundem com determinados fenômenos psíquicos, tais como os sonhos e a imaginação. Nesse contexto, eles apresentam diversas temáticas que são trabalhadas pela psicanálise e, ao mesmo tempo, são materiais de análise psicanalítica. Os temas também expressam a realidade, incluindo as dos sentimentos, sonhos, etc. A presente coletânea revisita O Estranho no Ninho, Sete Minutos depois da Meia-Noite, A Viagem de Chihiro, Fome de Poder e Gênio Indomável, filmes que tematizam questões psicanalíticas.

 

SOBRE O ORGANIZADOR

Nildo Viana é especialista em Psicanálise e Psicologia Social; Mestre em Sociologia e Filosofia; Doutor em Sociologia; Professor da Universidade Federal de Goiás e autor de diversos livros, entre os quais “Cinema e Mensagem”; “A Concepção Materialista da História do Cinema”; “Como Assistir um Filme?”; “Inconsciente Coletivo e Materialismo Histórico”; “Universo Psíquico e Reprodução do Capital”; “Psicologia Social e Afetividade”; “Teses sobre os Sentimentos”, entre outras.

Mais informações:
Ragnatela editora

sábado, 18 de abril de 2020

O SÉCULO DO EGO, DOCUMENTANDO A BARBÁRIE



O SÉCULO DO EGO, DOCUMENTANDO A BARBÁRIE

Nildo Viana

O Século do Ego, de Adam Curtis, documentário de 2002 (ficha técnica e link para assistir abaixo), é um importante documentário que apresenta as mutações culturais e comportamentais desde o início do século 19 até a década de 1980, analisando, principalmente, a manipulação realizada a partir do uso da psicanálise, marketing e propaganda, e seu uso pelos meios oligopolistas de comunicação, partidos políticos, políticos profissionais, governos e empresas capitalistas (“corporações”).

O documentário é uma série produzida pela BBC de Londres para TV dividida em quatro partes, que foram exibidos separadamente. O início aponta para a relação da psicanálise com a mercadotecnia (“marketing”) e política, indo desde Freud e seu sobrinho americano Edward Bernays até Anna Freud e seu significado proeminente na psicanálise mundial. A psicanálise aparece, nessa época, servindo ao processo de manipulação da população (“massas”), numa época que as tentativas de revoluções proletárias da década de 1910 e lutas operárias seguintes, até chegar à revolução espanhola de 1934-1939, bem como ascensão do nazifascismo e Segunda Guerra Mundial, trouxe traumas e uma preocupação fundamental espalhada pelos Estados Unidos: a democracia.

Porém, o que o documentário mostra é que a democracia tecnoburocrática é uma democracia integracionista. O seu objetivo fundamental é a integração (do proletariado e da população em geral, com foco no primeiro) e esse objetivo político foi perseguido por vários meios: democracia (burocratizada para impedir emergência de posições radicais, seja do reacionarismo – “extrema-direita” – seja do marxismo ou suas deformações “extremistas” (bolchevismo), em época de Guerra Fria; Consumismo (aumento, no capitalismo imperialista, do nível de renda, expansão do crédito, mercadotecnia incentivadora do consumo, etc.; renovação hegemônica com a hegemonia do paradigma reprodutivista (tendo como ideologias correspondentes o funcionalismo, estruturalismo, sistemismo, etc.); meios oligopolistas de comunicação (expansão do uso do rádio e da TV, cinema, etc.); Estado integracionista (ideologicamente chamado como “do Bem-Estar social”, com intervencionismo na economia e amplas políticas de assistência social), entre outros mecanismos (VIANA, 2009; VIANA, 2019). O documentário mostra o uso da psicanálise nesse processo (embora pareça a responsabilizar unilateralmente, abstraindo que ela correspondia ao novo paradigma hegemônico e que este teve várias fontes, tais como as ideologias acima citadas e a preocupação com o “desviante”, o “irracional”, etc.) e como ela possibilitou várias técnicas de manipulação.

Porém, o documentário vai além do regime de acumulação conjugado (capitalismo oligopolista transnacional) e adentra em sua crise e busca de alternativas e geração de elementos típicos do novo regime de acumulação integral. A juventude, que se consolidou como grupo social no regime de acumulação conjugado (VIANA, 2015) se torna um dos alvos fundamentais nesse momento histórico, tanto para controle e manipulação de comportamento quanto como mercado consumidor. E nesse contexto, a educação reprodutivista acaba se defrontando com o nicho de mercado jovem, que vai, especialmente nos anos 1960, e mais ainda em seu final, sendo identificado com a rebeldia, tendo em vista o caráter autocrática das instituições escolares e a resistência juvenil, que é apropriada pelo capital comunicacional para gerar mais uma fatia de consumo especializado dos jovens. As lutas operárias e estudantis do final dos anos 1960, que aparecem muito rapidamente no documentário (especialmente alguns momentos do movimento estudantil e, posteriormente, já no contexto dos anos 1970, elementos do movimento negro) reforça essa recusa do reprodutivismo.

O documentário mostra a emergência de algumas tendências comportamentais e culturais, relacionando-as com a psicanálise, especialmente Wilhelm Reich. O confronto entre Reich e Freud (embora focalize mais a expulsão de Reich da associação psicanalítica por Anna Freud) e o enlouquecimento do primeiro é descrito para mostrar uma psicanálise dissidente, que ao invés de estar preocupada com as “forças irracionais” e integração dos indivíduos na sociedade, se preocupa com a “liberação individual e política”, mostrando que a individual se desenvolve e a liberação política é gradualmente abandonada. Aqui, há novamente um reducionismo ao derivar as mutações comportamentais e culturais da psicanálise (ou melhor, de um derivado de uma dissidência que nunca foi hegemônica).

Apesar disso, o documentário mostra que a renovação hegemônica e o novo paradigma que emerge em substituição ao reprodutivismo, o subjetivista, atinge setores da psicanálise nos Estados Unidos. Psicanalistas reichianos ao invés de se preocuparem com a integração na sociedade, tal como antes, buscam a manifestação do indivíduo e sua individualidade, de suas emoções e sentimentos. Sem dúvida, isso refletia, por um lado, a luta pela libertação do movimento operário e estudantil do final dos anos 1960 e crise do paradigma reprodutivista, mas gerou uma nova forma de controle e manipulação, com a liberação do irracional, foco no pessoal, etc. A contrarrevolução cultural preventiva expressa no pós-estruturalismo e ideologias semelhantes, faz nascer o paradigma subjetivista, que vai se fortalecendo até se tornar hegemônico nos anos 1980, incentivo pelos governos neoliberais, organismos e fundações internacionais, capital comunicacional, etc. (VIANA, 2019). No contexto dos anos 1970, o paradigma reprodutivista está em crise e as alternativas principais são o marxismo (tanto o autêntico, sob a forma de marxismo autogestionário, quando sua deformação, que se radicaliza nesse momento, como o bolchevismo, maoísmo, trotskismo, etc.) e um conjunto de ideologias subjetivistas que emergem nesse período. O primeiro focalizando a luta de classes e o segundo o indivíduo, o sujeito, a subjetividade, os desejos, etc. Sem dúvida, nos anos 1980 o reprodutivismo e o marxismo são derrotados e marginalizados. O documentário mostra o avanço do subjetivismo no âmbito da psicanálise e depois sua apropriação consciente e intencional pelas empresas capitalistas, partidos e políticos profissionais, meios oligopolistas de comunicação. Mostra o vínculo entre o neoindividualismo e as mudanças comportamentais (“seja o que você quer ser”) e o neoliberalismo, e como isso acabou atingindo a esquerda (no sentido mais vasto do termo, tal como nos Estados Unidos, que abarca o liberalismo democrático – “progressista”, em sua versão neoliberal – o republicanismo e outras posições políticas amplas, tal como os trabalhistas na Inglaterra), que acaba reproduzindo o discurso (de origem subjetivista) e assim reforçando o enfraquecimento de suas próprias bases e fortalecendo o adversário.

O documentário tem como principais méritos apresentar o seguinte: a) a mutação comportamental e cultural e suas origens sociais e culturais, embora de forma limitada, com a passagem do regime de acumulação conjugado para o regime de acumulação integral; b) mostrar a passagem do paradigma reprodutivista para o paradigma subjetivista no seu impacto direto sobre o comportamento e cultura em geral; c) mostrar como a psicanálise (e não só ela, embora seja o foco do documentário, que é um dos seus pontos problemáticos) pode ser assimilada e utilizada em proveito dos interesses capitalistas, tanto empresariais quanto políticos; d) mostrar que a dominação capitalista pode usar os mais variados discursos e concepções, inclusive opostos (mas não antagônicos), como reprodutivismo ou subjetivismo; coletivismo ou individualismo; racionalismo ou irracionalismo; etc. para seus interesses empresariais e políticos, ou seja, que os opostos dentro da sociedade capitalista não são antagônicos e que por isso são assimiláveis; e) algumas das origens das mais fortes influências nos indivíduos, movimentos sociais, partidos políticos, na contemporaneidade e seu caráter histórico e transitório como foi o anterior (embora falte essa percepção histórica explicitamente).

Sem dúvida, o documentário também tem limites, tais como o peso excessivo atribuído à psicanálise e o reducionismo associado a isso, problemas interpretativos (de Freud e outros), incompreensão de que a esquerda é parte do processo e não foram “equívocos” e sim expressão dos seus interesses, a falta de percepção da totalidade, inclusive as mutações nas relações de trabalho (toyotismo), entre outros. Em que pese esses limites, o documentário oferece uma abordagem geral da mudança comportamental e cultural que ajuda a entender como chegamos aonde estamos, a força do subjetivismo e seus desdobramentos como a busca de “identidade”, grupal ou individual, entre outros problemas que ofuscam o real caráter da questão social e de que o problema e a solução está na luta de classes. E, nesse sentido, o documentário acaba sendo também produto da época, embora dissidente, mas sem romper totalmente com o que critica.

Em síntese, o documentário é rico por mostrar que o neoindividualismo, o hedonismo, o narcisismo, bem como seus derivados (que ganharão mais força posteriormente, a chamada “política de identidades”, por exemplo) são produtos sociais e históricos, são criações do capitalismo, que existem para reproduzi-lo e não para aboli-lo. O entendimento disso remete para a totalidade (o capitalismo) que dificilmente é percebido por causa da hegemonia do paradigma subjetivista, que efetivou uma “guerra contra a totalidade” (Lyotard) em suas expressões ideológicas.

De 2002 para cá, as alterações foram no interior da permanência, ou seja, mudanças de forma e manutenção do conteúdo. O vínculo entre subjetivismo, neoindividualismo e neoliberalismo é evidenciado. E a crise de um se relaciona com a crise do outro e esses dois processos tendem a se concretizar e, agora, com o agravamento provocado pela pandemia do coronavírus, se aproxima muito mais rápido. Diante da crise, as ideologias, modismos, comportamentos, tendem a ceder para a imposição da força pelo aparato estatal, especialmente numa sociedade que fragilizou, infantilizou, a maioria absoluta da população, e que agora terá que viver numa época de dificuldades, mas sem preparo para tal, incapazes de suportar as pressões da vida cotidiana estável e terão que suportar uma grave crise geral.

Seguindo a lógica do documentário, a própria classe dominante vai largar o discurso subjetivista e vai aderir ao autocratismo e vai retornar com sua preocupação com as “forças irracionais”. Para aqueles que querem uma nova sociedade, o desafio é compreender essa situação e apontar para a razão dialética (emancipadora) e a superação das antinomias burguesas (razão/sentimentos, por exemplo) e a luta dos trabalhadores em geral e do proletariado em particular no sentido de superar o capitalismo e constituir a sociedade autogerida.

Referências

VIANA, Nildo. Juventude e Sociedade. Ensaios sobre a Condição Juvenil. São Paulo: Giostri, 2015.
VIANA, Nildo. Hegemonia Burguesa e Renovações Hegemônicas. Curitiba: CRV, 2019.

VIANA, Nildo. O Capitalismo na Era da Acumulação Integral. São Paulo: Ideias e Letras, 2009.

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Título: The Century of the Self (Original)
Ano produção: 2002
Dirição: Adam Curtis
Duração: 235 min.

Sinopse:


Documentário da BBC "The Century of the Self" dividido em quatro episódios. analisa o século desde os anos 20 com o surgimento da psicanálise (Freud), a sua utilização nos EUA para manipulação das massas e criação de uma sociedade de consumo até à actualidade, passando pela contraposição das teorias freudianas por filósofos e psicoterapeutas nos anos 60/70, caracterizando vários movimentos sociais e políticos e as técnicas utilizadas pelo capitalismo para controlar o indivíduo através do estudo da mente.






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