O
Fenômeno Bolsonaro
Nildo Viana
O fenômeno Bolsonaro é um produto histórico e social que
mostra um determinado indivíduo que expressa determinadas posições, interesses
e segmentos da sociedade num contexto social e histórico específico. O fato
desse indivíduo ter se destacado remete a inúmeras determinações, incluindo a
unidade perdida do bloco dominante diante do processo eleitoral.
Hoje muitos estão assustados com o resultado das eleições do
primeiro turno para presidente e com a ascensão eleitoral de Jair Bolsonaro.
Sem dúvida, a sua ida para o segundo turno foi uma surpresa e foi resultado de
múltiplas determinações. Mas, afinal de contas, quem é Bolsonaro? Como ele
conseguiu esse resultado? Qual é o significado e as consequências disso? Hoje,
devido ao alvoroço que a esquerda faz em relação a Bolsonaro, torna-se
necessário explicar este fenômeno político-eleitoral.
Bolsonaro é um indivíduo comum. Por mais que seus adoradores
queiram fazer dele alguém “forte”, “corajoso”, “incorruptível”, ele é um ser
humano e, como tal, cheio de defeitos e, como indivíduo específico, com bem mais
defeitos que muitos outros. Mas os seres humanos não são todos iguais, embora
possuam uma base biológica, social e psíquica comum, eles também possuem
milhares de diferenças. Essas diferenças são geradas pelo processo histórico de
vida dos indivíduos, da época, da classe social, das relações familiares e
profissionais, entre milhares de outras. Assim, os indivíduos nascem e vão
constituindo seus valores, sentimentos, concepções, acabam formando uma
personalidade (singularidade psíquica) e vão consolidando ou mudando isso.
Existem pessoas que conseguem mudar radicalmente (para melhor ou para pior) e
outros que mudam parcialmente ou superficialmente. Logo, Bolsonaro é um ser
humano como qualquer outro.
Gandhi, Hitler, Papa Francisco, Ronald Reagan, Airton Senna,
Neymar, Zé Ninguém são todos seres humanos. A história deles, inserida na
história mais ampla da sociedade e sua posição no seu interior, gerou as
inúmeras diferenças entre eles. Airton Senna era simpático, Neymar é
antipático; Gandhi era pacifista e Hitler era belicista. Os exemplos e as
diferenças poderiam se multiplicar e ganhar novas dimensões se a comparação
envolvesse mais elementos e se aprofundássemos a discussão sobre estas
características isoladas. E Bolsonaro? Foi um produto do processo histórico de
vida dele que o tornou uma pessoa agressiva, conservador, militarista, etc. A
sua formação intelectual é limitada e por isso ele tenta explicar o mundo a
partir desta formação, aliada ao treinamento militar e sua história de vida.
Existem milhares de pessoas iguais a Bolsonaro por aí, talvez milhões. Assim
como existem milhares de pessoas iguais a Haddad por aí, talvez milhões. Haddad
tem uma formação intelectual mais ampla, embora também limitada. Ele também é
problemático, pois se não destila agressividade, destila falsidade e
oportunismo. A expressão facial de Bolsonaro é a da agressividade e a de Haddad
é a da falsidade. São dois seres humanos com suas próprias características e
isso não tem grande importância, a não ser pelo fato de que um dos dois será o
futuro presidente do país. Mas é uma ilusão eleitoral achar que o indivíduo, no
caso o presidente, irá governar ao seu bel prazer. Trataremos disso em outra
oportunidade.
Bolsonaro ganhou espaço político. Como ele conseguiu isso?
Não é um político dos mais astutos (embora tenha certa esperteza), não é alguém
com grande bagagem cultural (isso não é critério para político bem sucedido,
mas ajuda nas decisões, estratégias, discursos, etc.), não é representante direto
de algum grupo, classe ou fração de classe, etc. Ele conseguiu espaço político
ao expressar ideias e valores de parte da população. A brecha foi aberta no
problema moral. Ele saiu como um porta-voz do moralismo conservador, que sempre
existiu, mas que se fortaleceu, se aprofundou e se tornou mais mobilizador com
o avanço do moralismo progressista e do imoralismo, que foram imediatamente
associados à esquerda e que, no Brasil, teve no PT o seu principal
patrocinador. Ao lado de Bolsonaro, outros defenderam o moralismo conservador,
mas ele encarnou de forma mais explícita e forte os valores da família, da
tradição, da religião, etc., que alguns representantes do moralismo
progressista e do imoralismo atacaram e, em alguns casos, ridicularizaram.
O espaço político conquistado por Bolsonaro acabou
tornando-o o principal representante do reacionarismo, uma ala mais extrema do
conservadorismo. A crise de legitimidade iniciada em 2013 com as manifestações
populares e que foi se aprofundando, tal como no quase empate das eleições de
2014, com os escândalos de corrupção, e que foram reforçados pela crise
financeira e polarização entre moralismo conservador e moralismo progressista e
da polarização entre petistas e antipetistas, além da inoperância do governo de
Dilma Roussef, culminou com o impeachment.
O caminho para a superação dessa situação estava dado e as eleições de 2016
apontavam para o fim da polarização eleitoral entre PT e PSDB, bem como as
demais polarizações. Porém, a resistência petista, que não tinha base junto aos
trabalhadores, passou a usar setores de movimentos sociais e o moralismo
progressista como elementos para alcançar uma recuperação, o que fracassou no
início (a não ser em certos setores da sociedade, especialmente nos meios
intelectualizados). É nesse contexto que um dos mais enérgicos defensores do
reacionarismo se torna um líder e passa a ter adeptos e a aglutinar todos os diversos
outros setores reacionários e alguns outros desiludidos ou temerosos de um
retorno petista.
É assim que emerge Bolsonaro como candidato forte à
presidência. Um vácuo de liderança política foi criado, pois com a crise de
legitimidade da democracia e do aparato estatal, a corrupção e as prisões de
políticos tradicionais, e a falta de energia e força dos partidos conservadores
mais tradicionais (PSDB, DEM, etc.) fez com que ele emergisse com um número
expressivo de intenção de votos. A unidade do bloco dominante para derrubar
Dilma Roussef se desfez e isso permitiu que um dos seus representantes, que não
era preferido da classe dominante, se destacasse e ganhasse espaço. Lula, por
sua vez, ressuscitou com um bom número de intenção de votos nesse contexto de
falta de definições e fortes candidatos no início do processo. No entanto, nenhum
dos dois tinha realmente força e tendência para chegar ao segundo turno e a
forte rejeição que os acompanhavam mostrava isto. Mas os resultados de algumas
pesquisas eleitorais acabaram dando algum fôlego para ambos e logo vieram
alguns intelectuais de esquerda falar da “nova polarização”, agora entre Bolsonaro
e Lula[1]. Cada vez mais os petistas
se preocuparam com Bolsonaro e o atacaram, cada vez mais ele virou manchete e
passou a ter espaço. Assim, os petistas fizeram outro favor para Bolsonaro: o
colocaram em evidência e como principal adversário. Isso serviu para divulgar o
candidato e aglutinar em torno dele parte dos antipetistas. A prisão de Lula já
retirava um concorrente do processo, mas Bolsonaro já havia crescido nas
intenções de voto e a não candidatura petista, que tinha intenção de votos, mas
que todos sabiam que não seria o candidato, fez pessoas migrarem seu sua
intenção de voto progressista para outros candidatos (especialmente Ciro Gomes)
e a pesquisa passou a ser duas: uma com Lula e outra sem Lula. As pesquisas sem
Lula, nesse contexto, apontavam Bolsonaro em primeiro lugar. Isso gerou novos
ataques petistas e mais divulgação e espaço ainda para o candidato do PSL. O
medo de Bolsonaro crescia nos setores progressistas. Isso também promovia, nos
setores conservadores, certa aglutinação em torno de tal candidato. A facada recebida
por Bolsonaro intensificou esse processo e o novo candidato petista, Fernando
Haddad, que estava com poucas intenções de voto, acaba crescendo cada vez mais.
Ciro Gomes não decolava e nem os demais (Alckmin, Marina, etc., sendo que o
primeiro estagnou e a segunda foi perdendo espaço) e assim não concentrou a
maioria das intenções de votos progressistas. Emerge novamente a polarização,
que beneficia os dois lados polarizados. A tendência, na reta final, acaba
sendo um segundo turno entre ambos.
Claro que no meio disso houve os tropeços dos demais
partidos que ajudaram a formar esse quadro. O PSDB escolhe um candidato com
pouca desenvoltura eleitoral, especialmente no contexto atual, e faz uma
campanha fraca e sem nenhuma percepção do quadro formado. Quando percebem isso,
é tarde e não conseguem reverter, inclusive por não ter realizado a alteração
necessária. Eles queriam retirar votos de Bolsonaro atacando ele, o que é
normal em outras conjunturas, mas não nessa. Eles pensaram apenas em termos
partidários e deveriam ter visto em termos de blocos sociais, o bloco dominante
e o bloco progressista (a divisão entre direita e esquerda) e que o ataque a um
candidato do primeiro por outro, não conseguia aglutinar e conquistar votos. Ao
ver que isso não surtia resultado, devia ter usado outra estratégia e atacar o
PT, pois assim poderia atrair eleitores de Bolsonaro e enfraquecer outro
adversário que estava crescendo e cujo eleitorado, em sua maioria, jamais
optaria pelo PSDB. Outros partidos, situações, etc., entraram no jogo eleitoral
e ajudaram nesse processo.
Assim, Bolsonaro passou de candidato forte a favorito,
liderando no primeiro turno e também nas pesquisas sobre o segundo turno. A
força veio da falta de alternativas que expressam o bloco dominante e suas
disputas internas e fraqueza dos partidos mais moderados. O período definido
para lançar candidaturas, muito próximo das eleições, e a demora em lançar os
nomes por diversos partidos, ao lado da antecipação e destaque eleitoral de
Bolsonaro, permitiu ele concentrar um grande número de eleitores e com a
fraqueza (discursiva) e falta de unidade do bloco dominante (ou pelo menos de
seus setores mais moderados) e falta de estratégia eleitoral de partidos que
poderiam ser alternativas a ele, acabaram possibilitando sua consolidação e
crescimento. A estratégia petista acabou beneficiando Bolsonaro, pois ao
atacá-lo e centralizar seus esforços no antibolsonarismo, acabou reforçando o
bolsonarismo. Esse é um processo de retroalimentação entre antipetismo e
antibolsonarismo. Os dois acabam se fortalecendo ao combater um ao outro, o que
significa a exclusão dos demais.
Quando os demais candidatos se atentaram para isso, já era
tarde. Além disso, não foram estratégicos o suficiente para conseguir superar a
polarização. Alckmin, por exemplo, deveria ter atacado Haddad, pois poderia
enfraquecer um pouco esse e se tornar uma alternativa a Bolsonaro (ao atacar
este da mesma forma, gerou desconfiança e indefinição sobre “de que lado” ele
estava e quais políticas e posições morais ele assumiria por parte daqueles que
poderiam votar nele). Ciro Gomes, por sua vez, que concorria com Haddad para
conseguir chegar ao segundo turno, focalizou Bolsonaro e fez críticas ao PT,
mas deveria, também, ter centrado suas forças no concorrente direto pela
segunda vaga de forma tão intensa e forte quando no candidato do PSL. Afinal, nesse
momento da disputa eleitoral, os três partidos (PT, PDT, PSDB) estavam
disputando entre si para saber quem iria para o segundo turno com Bolsonaro.
Desses três, Bolsonaro só seria favorito contra o PT. Isso foi colocado na
campanha de Alckmin, mas o erro foi partir da ideia de que os antipetistas e o
eleitorado de Bolsonaro realizam “escolhas racionais” e não trabalhou as
questões morais, emocionais, etc. que são a força principal deste candidato e
de parte do antipetismo e que, portanto, o ataque simultâneo aos dois polos da
polarização não renderia muito sucesso eleitoral.
A análise acima apenas buscou, num nível maior de concreção,
analisar o fenômeno eleitoral Bolsonaro. Para a análise ser mais rica e
desenvolvida, seria necessário entrar vários outros elementos na análise (a
questão das classes e dos blocos sociais, da acumulação de capital, do PT,
etc., mas isso já foi feito em outros dois textos: Antipetismo e Anticomunismo: A Gênese do Discurso Reacionário e Os Pobres de Direita e a Miséria dosIntelectuais de Esquerda, que podem ser lidos por quem deseja
aprofundamento).
A tendência atual é que Bolsonaro seja eleito presidente. O
que significaria isso? Em primeiro lugar, significaria que ele teria que
realizar uma política de conciliação, unindo o seu estatismo com elementos de
neoliberalismo, pela força da pressão e que ele, visando agradar setores do
capital, já apontou com a escolha de Paulo Guedes como Ministro da Fazenda. Em
segundo lugar, uma política mais decidida contra o moralismo progressista e
contra o setor oposicionista representado pelo PT, tanto no plano institucional
(as instituições estatais nas quais esse partido tem força) e contra o
progressismo em geral. Em terceiro lugar, um acirramento das contradições e
conflitos, pois a oposição ao novo governo partirá tanto do bloco progressista
quanto do bloco revolucionário e, ao mesmo tempo, aumentando a insatisfação de
diversos setores da sociedade, entre esses, aqueles que ficaram politicamente
ausentes das lutas políticas e eleitorais dos últimos anos: os trabalhadores. A
pressão dos trabalhadores deverá ser crucial para possíveis zigue-zagues do
novo governo – e se não houver uma retomada do ritmo de acumulação de capital
(“crescimento econômico”), a situação pode ficar explosiva, pois o capital vai
pressionar pelas reformas retrógradas e as classes trabalhadoras tendem a
reagir. Em síntese, fortes turbulências tendem a ocorrer num governo Bolsonaro.
A questão é que o mesmo tenderia a ocorrer num Governo Haddad. Ambos os
governos tendem a levar o país ao acirramento das lutas e problemas, embora sob
formas diferentes. E ambos terão o seu arqui-inimigo na fileira de frente no
combate, obscurecendo e complexificando as contradições, apesar de que, no caso
do PT na oposição, tende a haver um enfraquecimento drástico e deixar de ter
tanto importância.
Por fim, resta esclarecer que não se trata de apenas um
indivíduo e sim um candidato, com as forças que o apoiam, com as articulações
eleitorais, partidárias, políticas, com as pressões do capital e de outros
setores, bem como com a composição do governo e as alianças instituídas. Isso
tudo ocorre num plano mais amplo, que é a situação social, financeira, etc. do
país (e que também remente ao contexto internacional), a força dos blocos e
classes sociais, etc. Por isso, a simplificação do discurso eleitoral que deduz
de indivíduos as políticas e o destino do país é equivocada e não consegue fornecer
um quadro explicativo mais amplo. E é justamente essa concepção estreita que
fez com que Bolsonaro conseguisse chegar ao segundo turno e se tornar favorito
para ganhar as eleições e que foi reproduzido pelos demais partidos e pelos
principais articuladores do bloco dominante e do bloco progressista. O futuro
tende a ser de novos conflitos e novas crises, mas não é votando que se evita
fenômenos como esse e sim no desenvolvimento intelectual e organizacional da
população, o que não é interesse do bloco dominante e do bloco progressista e
por isso eles foram surpreendidos e agora vão ter que pagar pela despolitização
geral que incentivaram.
[1]
As pesquisas eleitorais acabam influenciando parte do eleitorado, bem como os
discursos e análises de intelectuais possuem efeito nos meios intelectualizados
que, por sua vez, acabam reproduzindo tais discursos e reforçam,
involuntariamente, o que afirmam. Assim, o discurso sobre uma suposta polarização reforça a tendência para efetivação da polarização.




