Rádio Germinal

RÁDIO GERMINAL, onde a música não é mercadoria; é crítica, qualidade e utopia. Para iniciar clique em seta e para pausar clique em quadrado. Para acessar a Rádio Germinal, clique aqui.

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

Antonio Gramsci e Rodolfo Mondolfo - Um Debate em Torno do Marxismo na Itália


Antonio Gramsci e Rodolfo Mondolfo
Um Debate em Torno do Marxismo na Itália

Nildo Viana*

“A divisão entre dirigentes e dirigidos, entre elite e massa, se faz assim, muito mais grave que tudo quanto noutras passagens de suas obras Gramsci parece disposto a admitir”.
Rodolfo Mondolfo
O pensamento social italiano produziu alguns pensadores que ultrapassaram as fronteiras deste país e se tornaram autores conhecidos mundialmente. O jornalista Antonio Gramsci (1891-1937) e o filósofo Rodolfo Mondolfo (1877-1976) são dois exemplos. O primeiro, conhecido por suas obras políticas e o segundo por suas obras filosóficas, especialmente sobre a filosofia antiga e alemã. Porém, o que poucos sabem é o debate intelectual entre ambos. O nosso objetivo é resgatar o debate entre estes dois autores que gira em torno do marxismo na Itália, colocando duas vertentes e duas concepções distintas de marxismo.
No debate se colocam frente a frente duas concepções de marxismo e comunismo. A concepção gramsciana, que num primeiro momento foi um leninismo radical influenciado pela força histórica dos conselhos operários na Rússia e outros países, e, num segundo momento, um semileninismo de tendência reformista, que vê uma identidade entre leninismo e marxismo e entre regime bolchevique e socialismo. A posição gramsciana tem muito pouco a ver com o marxismo e isso se observa nas discrepâncias metodológicas, políticas, etc., principalmente no seu segundo momento.
A concepção de Mondolfo já é mais próxima do marxismo e por isso ele revela uma concepção distinta, embora com alguns equívocos, da concepção gramsciana. Mondolfo reconhece o marxismo como um humanismo e possui uma posição metodológica muito mais próxima de Marx do que Gramsci. O humanismo de Mondolfo o faz colocar a liberdade como um elemento fundamental do socialismo e esse deve significar a abolição da alienação:
“É preciso destacar com toda a evidência que merece a estreita vinculação que existe entre a aproximação efetuada por Zinoviev e os problemas que os escritos juvenis de Marx colocavam nas raízes de todas as aspirações e exigências socialistas: o problema do trabalho alienado e do homem alienado, o problema da superação desta alienação. O socialismo se encontra situado nas antípodas de todo alienação do homem e do trabalho; aonde existe semelhante alienação, em troca, deve falar-se de capitalismo, que é justamente a negação do homem e sua humanidade (Unmenschlichkeit, segundo expressão de Marx e Engels); negação que o socialismo quer superar (aufheben) na negação da negação” (Mondolfo, 1968, p. 263).
Assim, o humanismo de Rodolfo Mondolfo – e que significa um conjunto de concepções, valores, etc. – permitiu que ele tivesse uma postura crítica diante do leninismo e do capitalismo estatal russo. O humanismo é um dos principais antídotos contra as mais variadas formas de fetichismo (do partido, da mercadoria ou qualquer outro) e está na base do pensamento marxista. Assim, Gramsci e Mondolfo eram dois contemporâneos que tinham algumas concepções semelhantes mas discordavam em questões fundamentais e nosso foco serão estes pontos de divergência.
Gramsci apresenta juízos bastante fortes e injustos sobre Mondolfo. Ainda em um texto de juventude, em 1919, ele diz que o amor pela revolução do “professor” Mondolfo “é amor gramatical”:
Ele pergunta e fica enfadado com as respostas. Pergunta: Marx? E lhe respondem: Lênin. E isso, pobres de nós, não é científico, não pode satisfazer a sensibilidade filológica do erudito e do arqueólogo. Então, com uma enternecedora seriedade catedrática, Mondolfo, reprova, reprova, reprova: zero em gramática, zero em ciência comparada, zero em práticas de magistério (Gramsci, 1988a, p. 57).
Aqui se percebe que Mondolfo distingue Marx de Lênin, o que a sensibilidade gramsciana domesticada pelo culto das autoridades não pode aceitar. Gramsci continua:
Sabemos que a seriedade professoral não é mais que aparência de seriedade: é pedantismo, filisteísmo e, frequentemente, incompreensão absoluta. Mondolfo realiza um processo sobre as intenções e atribui aos comunistas russos intenções que não tiveram nunca ou que não têm nenhum valor histórico real. O fato essencial da revolução russa é a instauração de um novo tipo de Estado: o Estado dos Conselhos. A isto tem que atender a crítica histórica. Tudo o mais é contingência condicionada pela vida política internacional, a qual significa para a revolução russa bloqueio econômico, guerra em frentes de milhões de quilômetros contra os invasores, guerra interna contra os sabotadores. Pequenezas para Mondolfo, que não a toma em conta, absolutamente. E quer que lhe dê precisão gramatical um Estado obrigado a utilizar todo seu poder e todos seus meios para subsistir, para consolidar sua existência fundindo-se com a revolução internacional (Gramsci, 1988a, p. 57)[1].
O resto do artigo de Gramsci é uma defesa da Revolução Russa, em torno de um conto de Gorki comentado por Mondolfo. Porém, Gramsci voltará a ter oportunidade de citar Mondolfo. Aqui fica bem claro a defesa do capitalismo estatal russo nascente por Gramsci, com as justificativas tradicionais que serão utilizadas até os dias de hoje para a burocratização e instauração de um regime ditatorial. Em outra oportunidade ele comenta o livro de Mondolfo, O Materialismo Histórico em Engels (Mondolfo, 1956). Gramsci destacava que Marx e Engels são pessoas distintas e que não se pode tomar um pelo outro. Reconhecendo as diferenças e individualidades, não se pode tomar Marx por Engels. Depois de colocar a posição de Sorel, segundo a qual a capacidade teórica e o pensamento original de Engels era escasso, comenta o livro de Mondolfo positivamente. Ao comentar que é necessária uma investigação sistemática sobre as relações intelectuais entre Marx e Engels, afirma:
“Na realidade, uma investigação sistemática deste gênero (com exceção do livro de Mondolfo) jamais foi realizada no mundo da cultura; aliás, as exposições do segundo [Engels – NV], algumas relativamente sistemáticas, são colocadas agora em primeiro plano, como fonte autêntica ou, até mesmo, como a única fonte autêntica. Por isso, o volume de Mondolfo parece ser muito útil, pelo menos graças a diretriz que traça” (Gramsci, 1987, p. 99).
Porém, logo adiante Gramsci retoma seu ataque a Mondolfo ao dizer que, como discípulo de Labriola, ele não forneceu um desenvolvimento coerente às suas obras (que é um desenvolvimento, diga-se de passagem, muito mais oriundo de uma atribuição de Gramsci do que Labriola, pois “transformar a interpretação da história” em “filosofia geral” é uma concepção do primeiro, que atribui ao segundo). Numa nota de rodapé mostra o seu repúdio a Mondolfo:
“Mondolfo, ao que parece, jamais abandonou inteiramente o ponto de vista fundamental do positivismo, como discípulo de Roberto Ardigó. O livro do seguidor de Mondolfo, Diambrini Palazzi (publicado com um prefácio de Mondolfo), sobre a Filosofia de Antonio Labriola, é um documento da pobreza de conceitos e diretrizes do ensino universitário do próprio Mondolfo” (Gramsci, 1987, p. 102).
A referência a Mondolfo, para quem não conhece suas obras, apresenta um juízo severo e que poderia ser verdadeiro. Para quem leu apenas Gramsci, esta vai ser a única impressão de Mondolfo. Porém, para quem conhece pelo menos parte da obra de Mondolfo, sabe que ele é muito mais profundo que o próprio Gramsci, ou seja, está muito além do próprio crítico. Porém, a afirmação mostra um forte desdém, além da falta de fundamentação, o que é comum em Gramsci (não definiu o positivismo e nem demonstrou onde este estaria presente na obra de Mondolfo). Além de possíveis razões pessoais e políticas que não sabemos[2], há uma razão de ordem valorativa. A primeira crítica de Gramsci acima mostra que sua divergência era em torno do juízo sobre Lênin. Mondolfo apresenta uma análise crítica de Lênin e da revolução russa e Gramsci defendia ambos. A defesa gramsciana era baseada, em parte, na ignorância do que ocorria na Rússia (e era comum isso e por isso muitos marxistas que depois se tornaram antileninistas, bem como anarquistas, apoiaram inicialmente o bolchevismo), o que é visto por sua ideia de que se formou um “estado de conselhos”, ou seja, os sovietes (conselhos operários) seriam a base da nova sociedade russa, o que ele reafirma em vários outros textos da época.
Outro equívoco, bastante comum na Europa daquela época (o escrito de Gramsci é de 1919), era considerar Lênin como o grande teórico dos conselhos operários, ao invés do que realmente era, um grande ideólogo do partido de vanguarda e da burocracia. No fundo, o que se formou na Rússia foi um regime burocrático comandado pelo capitalismo estatal e defendido por Lênin. Assim, Mondolfo tinha maiores conhecimentos dos acontecimentos na Rússia e da obra de Lênin do que Gramsci[3].
Porém, Gramsci poderia ter superado isso com o passar do tempo e com maiores informações da Rússia que foi conseguindo com o passar do tempo, inclusive através de suas idas até lá e sua participação na III Internacional, a Internacional Bolchevique. No entanto, não foi isso que ocorreu e Gramsci acabou defendendo o regime capitalista estatal russo mesmo na época do comando ditatorial de Stálin. A segunda crítica citada anteriormente data da primeira metade da década de 1930. Ele inicia com um reconhecimento dos méritos de Mondolfo, mas termina com a mesma depreciação de mais de dez anos anteriores.
Porém, não deixa de ser curioso que a segunda crítica de Gramsci ocorre no interior de uma seqüência na qual a primeira referência a Mondolfo ocorre numa nota sobre “questão de método”, no qual discutia como realizar leituras de determinados autores e dava algumas sugestões, inclusive interessantes e corretas, embora incompletas, nesse sentido. Ele diz, entre outras coisas, o seguinte:
“Entre as obras de determinado pensador, ademais, deve-se distinguir entre as que ele concluiu e publicou e as que permaneceram inéditas, porque incompletas, e publicadas por algum amigo ou discípulo, não sem revisões, modificações, cortes, etc., ou seja, não sem uma ativa intervenção do editor” (Gramsci, 1987, p. 96).
Pois bem, a avaliação de Mondolfo na segunda crítica, além de uma acusação não fundamentada de suposto positivismo, afirma que o livro do seguidor Palazzi ao qual ele apenas escreveu o prefácio, é um “documento da pobreza de conceitos e diretrizes do ensino universitário do próprio Mondolfo” (Gramsci, cdh, p. 102). A incoerência de Gramsci é visível, já que anteriormente havia reconhecido uma distinção entre Marx e Engels e que se deve tomar as obras de um autor na qual ele publica mais do que as demais e depois não aplica o mesmo procedimento para analisar Mondolfo, que sendo “discípulo” de Ardigó não escaparia do positivismo e se um ex-aluno escreve uma obra pobre, isso manifesta a pobreza do professor... Assim, usa dois pesos e duas medidas. Ele julga um pelo outro e o seu conselho como forma de leitura dizia o contrário, inclusive até mesmo no caso de mera organização das obras do autor ao invés de obra própria do “discípulo”. A contradição de Gramsci mostra somente a falta de seriedade intelectual ao tratar de Mondolfo. O reconhecimento parcial ao tratar de sua obra sobre Engels logo é substituído pelo desprezo. E tal reconhecimento inicial foi provocado pela proximidade das posições de Mondolfo, ao separar Marx de Engels, mas que não se manteve devido as fortes divergências entre ambos.
Obviamente que a crítica a Mondolfo sempre esteve ligada a questões teóricas e políticas em torno do marxismo. A posição de Mondolfo era de crítica ao leninismo. Isto não cessaria de ocorrer nas obras posteriores, inclusive em seu livro Materialismo Histórico, Bolchevismo e Ditadura (1962) e sua avaliação da URSS como “capitalismo de Estado”. Ou seja, o vínculo de Gramsci com Lênin e o capitalismo estatal é provavelmente a grande motivação da forma agressiva como ataca Mondolfo.
Mondolfo em um texto de 1919 – comentado por Gramsci, tal como citamos anteriormente – faz uma comparação entre o reformista Arturo Labriola[4] e partidários do bolchevismo na Itália, os membros do Partido Socialista Italiano. Ele diz que Labriola busca afirmar a identidade entre marxismo e leninismo, afirmando que os conservadores buscam separar um do outro para evitar “o veneno de Lênin”. Mondolfo diz que não são apenas os conservadores, mas também os bolchevistas italianas e cita, como exemplo, um artigo publicado no Jornal do Partido Socialista, Avanti! Intitulado A Revolução Contra o Capital (apesar de não colocar, o texto é de Gramsci), que significa uma revolução contra a obra de Marx, O Capital. Mondolfo argumenta que há uma diferença na concepção e na práxis das duas tendências (marxismo e leninismo)[5]. Mondolfo recorda a tese marxista de que é necessário o desenvolvimento das forças produtivas para que o comunismo possa suceder o capitalismo e essa condição não existia na Rússia[6]. Mondolfo questiona:
“Que há de tudo isto, – repito – que é a essência do marxismo, na práxis leninista? A economia capitalista na Rússia havia acaso alcançado o pleno desenvolvimento das forças produtivas que era capaz de gerar? Lênin poderia, portanto, começar na Rússia – como escreve Arturo Labriola – a era socialista? A pergunta se divide aqui em duas: 1) se o regime leninista pode chamar-se socialista, e em que medida, e 2) se, na medida em que tal nome pode ser dado, apresenta maiores probabilidades de êxito e de propagação do exemplo, ou, em troca, de quebra e descrédito da ideia socialista, devido a imaturidade da experiência” (Mondolfo, 1968, p. 12-13).
Mondolfo coloca que, no campo, o que ocorreu foi a distribuição de terras, o que nada tem de socialista. A ação leninista se restringiria, então, às cidades e indústrias, que, no entanto, dependem do campo e nesta a produção não consegue alcançar alto nível e o governo leninista gasta dois ou três para obter um. A experiência leninista, portanto, significa muito pouco para a causa socialista. Outro problema identificado por Mondolfo é o incentivo que Lênin ofereceu ao capital estrangeiro em terras russas. O socialismo implica em liberdade:
“Socialismo significa abolição da divisão das classes e da sujeição econômica do homem pelo homem; a tal título representa a mais radical e completa reivindicação de liberdade. Porém, o conceito de liberdade que reivindica não é puramente negativo (supressão de todo resíduo de escravidão do homem pelo homem); é eminentemente positivo (conquista das condições pelas quais o homem pode sentir-ser verdadeiramente livre)” (Mondolfo, 1968, p. 29).
Os decretos e leis instituídas pelo regime bolchevique mostram o caminho para o capitalismo de Estado e não o socialismo. Nesse sentido, Mondolfo nega que o leninismo seja marxismo e que o regime bolchevique seja socialista. Com grande perspicácia Mondolfo distingue o “mito de Lênin” do “Lênin real”, sendo que até hoje muitos não sabem que a imagem do chefe do Partido Bolchevique na Europa até os anos 1920 era muito mais mitológica do que real, ele era visto como “teórico dos conselhos” e grande incentivados dos sovietes, sendo que, na verdade, ele buscou apenas se apoiar nos mesmos para chegar ao poder estatal e uma vez no poder realizou um conjunto de ações para retirar a força dos conselhos operários. Esse “mito de Lênin” era provocado, obviamente, por várias determinações. Uma delas é a pouca informação sobre o que realmente acontecia na Rússia e sobre Lênin. A tradução das obras de Lênin vai ocorrer, mais sistematicamente e em quantidade elevada, após esse período. Segundo Mondolfo, “é possível que Lênin não foi sem sequer num primeiro momento o leninista que seus defensores nos apresentam” (Mondolfo, 1968, p. 35).  Assim, Mondolfo entrava em antagonismo com Gramsci, uma das razões das críticas gramcianas a ele.
Mondolfo, por sua vez, escreveu sobre Gramsci, mas só tivemos acesso a uma obra na qual faz referência direta a Gramsci (Mondolfo, 1956; Mondolfo, 1967)[7]. Ele cita o trabalho de Mateucci que coloca Labriola, Gramsci e Mondolfo numa mesma linha crítica do “marxismo dogmático”. Mondolfo faz algumas considerações sobre o pensamento gramsciano e afirma que existe certa razão em compreender que há uma relação entre os três autores, e reconhece alguns méritos de Gramsci, mas mostra que existem diferenças que não podem ser esquecidas. Mondolfo faz todo um caminho para dizer que Gramsci possui elementos democráticos em seu pensamento, tal como a “exigência da discussão e compreensão dos adversários”, que o situaria “nos antípodas da teoria e a prática do bolchevismo russo” (Mondolfo, 1967, p. 333), entre outros aspectos, mas, ao mesmo tempo, mostra “as contradições de Gramsci”, pois nele convive democratismo e dogmatismo autoritário de partido. A concepção de partido aponta para a sua primazia e papel dirigente sobre as massas, que deveriam manter “fidelidade” ao partido, compreendê-lo como “divindade” e “imperativo categórico”, usando termo kantiano (Mondolfo, 1967)[8]. A democracia é superada pelo dogmatismo:
“É evidente a gravidade destas afirmações, em virtude das quais, Gramsci (como observa também Mateucci, pag. 74), ‘chega a converter-se em partidário das teses de Stálin e de Jdanov, que colocaram o Partido no centro da vida do homem em todos os aspectos, e lhe dão um valor e um poder absolutos’. Fundados nestes princípios, o Partido, moderno Leviatã, se impõe com toda a rigidez de seus dogmas, exige de todo o povo e de cada indivíduo a mais completa submissão e ortodoxia, e condena desapiedadamente toda heresia e a todo defensor ou sequaz dela. Produz-se, assim, essa situação que Gramsci reprovava noutra parte, situação na qual já não é possível nem lícita a divergência ou a discussão: toda dissenção intelectual se converte em culpa moral e em ato criminal; ‘um acusado e um procurador fiscal, que pela obrigação de seu oficio, tem de demonstrar que o acusado é culpado e que merece ser retirado de circulação’ (pag. 21)” (Mondolfo, 1967, p. 336).
O que está dito acima se assemelha bastante com o “processo” movido por Gramsci contra o próprio Mondolfo por não aceitar o leninismo. Processo que, como vimos, resultou na acusação e condenação de Mondolfo por discordar dos cânones do Partido. A citação de Gramsci de 1919, cuja motivação era a relação entre Marx e Lênin e a análise da Revolução Russa, que Mondolfo fez a crítica e apontou para a formação do capitalismo estatal, mostra esse tipo de procedimento já presente no “jovem Gramsci”. Em sua obra O Humanismo de Marx, Mondolfo mostrou o vínculo entre bolchevismo e capitalismo de Estado, mostrando, em seu ensaio Significados e Ensinamentos da Revolução Russa (Mondolfo, 1968), de 1923, que não foram “desvios do leninismo” como mais tarde irá qualificar Raya Dunavskaya (Mondolfo, 1967, p. 295) e sim sua própria característica.
A análise de Mondolfo do papel fundamental do partido no pensamento de Gramsci e seu dogmatismo autoritário, pode parecer, para os não-leitores ou mau-leitores de Gramsci, um exagero. Porém, Mondolfo usa exatamente as mesmas palavras de Gramsci: divindade, imperativo categórico:
“O moderno Príncipe [isto é, o partido - NV], desenvolvendo-se, subverte todo o sistema de relações intelectuais e morais, na medida em que o seu desenvolvimento significa de fato que cada ato é concebido como útil ou prejudicial, como virtuoso ou criminoso; mas só na medida em que tem como ponto de referência o próprio moderno Príncipe e serve para acentuar o seu poder, ou contrastá-lo. O Príncipe toma lugar, nas consciências, da divindade ou do imperativo categórico, torna-se a base de um laicismo moderno e de uma laicização completa de toda a vida e de todas as relações de costume” (Gramsci, 1988b, p. 9).
Mondolfo mostra, por fim, o vínculo entre a concepção gramsciana e o capitalismo estatal russo:
“A experiência histórica confirma as predições que Gramsci fazia deste modo implicitamente: a ditadura bolchevista devia criar e desenvolver um capitalismo de Estado, de que nem sequer alheia a prática do trabalho forçado: e, por isso o auto-estranhamento do trabalhador está bem longe de achar-se superado. E esta condição mantém, precisamente, a necessidade da ditadura com todos os seus métodos repressivos e de coação cuja aplicação, se bem que possa ter oscilações, como aquela entre a NEP e a desapiedada destruição dos Kulaki; representa sempre, contudo, em sua linha geral, uma cisão profunda entre a elite ditatorial e a massa submetida ao seu domínio. Cisão na qual a obrigação de ‘fidelidade e disciplina’, de submissão ao moderno Príncipe como à divindade ou ao imperativo categórico, não só no pertinente às relações do trabalho e à esfera da produção, mas também ao pensamento, à ciência, onde o dever da ortodoxia implica a perseguição e a repressão desapiedada de todas as heresias” (Mondolfo, 1967, p, 343).
É neste sentido que Mondolfo observa o vínculo entre Gramsci com o jacobinismo, o leninismo e o stalinismo. Ele encerra sua análise da seguinte forma:
“Estes são os pontos nos quais, em nome de Marx nos voltamos contra as teses de Gramsci conformes com a teoria e a prática bolcheviques; mas, ao mesmo tempo, devemos reconhecer lealmente que há um Gramsci profundamente marxista que se subleva conosco contra o Gramsci leninista e stalinista, e que nos oferece as argumentações e os meios para uma refutação, cuja eficácia provém precisamente do fato de ser uma auto-refutação” (Mondolfo, 1967, p. 343).
Assim, o juízo de Gramsci sobre Mondolfo é exagerado e injusto, enquanto que o de Mondolfo sobre Gramsci é muito mais ameno e justo. Inclusive, Mondolfo poderia ter utilizado em sua crítica a defesa aberta que Gramsci fez de Stálin e do capitalismo estatal russo. Porém, a interpretação de Mondolfo a respeito de Gramsci, devido algumas semelhanças de concepção, inclusive o que justificou seu texto, oriundo da comparação estabelecida por Nicolau Mateucci, e acatada por ele parcialmente, acaba sendo exageradamente benevolente.
É necessário, em primeiro lugar, colocar que Antonio Labriola foi um dos mais importantes pensadores italianos no que se refere ao estudo do marxismo (Labriola, 1979). A sua compreensão do marxismo era muito superior a de Gramsci (Viana, 2010). Claro que ele era bem anterior, inclusive trocava correspondência com Engels, e, em que pese isso, conseguiu realizar uma interpretação de Marx de grande profundidade e por isso inspirou Mondolfo e foi reconhecido por Korsch e vários outros. Porém, a apreciação gramsciana de Labriola e o que Gramsci retirou de sua obra é algo limitado e que acaba sendo justamente o que acusou em Mondolfo, a falta de um desenvolvimento coerente. Isso em parte se deve ao fato da influência de Benedetto Croce sobre Gramsci[9], que, com grande probabilidade, também interferiu em sua leitura de Labriola. De qualquer forma, o que interessa é mostrar que entre Labriola e Gramsci há uma diferença fundamental e o que o último assimila do primeiro é bem limitado, ao contrário de Mondolfo, que consegue muito bem perceber a diferença entre as ideias de Marx e de Lênin, o que, sem dúvida, teve como contribuição a obra do pensador italiano, distinta do positivismo da social-democracia alemã e russa.  
Assim, o debate em torno do marxismo na Itália entre Mondolfo e Gramsci revela aspectos interessantes que revelam a dificuldade da teoria marxista nesse país. O marxismo italiano teve em Labriola o seu primeiro grande representante e, posteriormente, Mondolfo. Amadeo Bordiga se aproximou do marxismo, principalmente na análise do capitalismo e na fase em que passou a definir a Rússia como um capitalismo de Estado, mas sua ideia de partido-seita lhe afastava da concepção marxista, bem como seu economicismo. No entanto, em Mondolfo e Labriola é justamente uma análise do capitalismo que se encontra ausente, o que traz alguns problemas, principalmente no caso de Mondolfo e sua análise da URSS, na qual o capitalismo de Estado é assim definido derivado mais do trabalho alienado (num sentido que tem proximidade com a concepção de Marx, mas que acaba se tornando mais abstrato).
Essa discussão aponta para a necessidade de um estudo mais amplo sobre a história do marxismo na Itália. É necessário uma reavaliação crítica do pensamento de Antonio Gramsci, inclusive para mostrar o distanciamento dele em relação ao marxismo. O resgate do pensamento de Antonio Labriola é outra necessidade, principalmente por sua contribuição para discutir o materialismo histórico. Da mesma forma, Rodolfo Mondolfo também precisa ser resgatado no sentido de observar suas contribuições e análises. Uma história do marxismo na Itália é fundamental e poderia revelar as dificuldades do seu desenvolvimento neste país, as determinações desse processo e inclusive a razão que a emergência dos conselhos de fábrica não gerou uma tendência revolucionária e radical como ocorreu na Rússia – tal como o grupo operário de Miasnikov (Viana, 2007) e Alemanha (os comunistas de conselhos). A análise das determinações da história do marxismo italiano é um programa de pesquisa fundamental e ainda está por ser feito e isto remeteria não apenas para o estudo dos autores e suas ideias, mas das organizações políticas, da peculiaridade do capitalismo italiano e seu proletariado, etc. O presente texto é apenas um pontapé inicial que terá desdobramentos em outras análises do marxismo na Itália.
O debate entre Mondolfo e Gramsci também serve para alertar para a existência do vínculo deste pensador com o jacobinismo e dogmatismo. E, numa concepção dogmática como a de Gramsci,
... Não há lugar para um proletariado que se possa fazer herdeiro da filosofia, nem para a formação de uma sociedade na qual o livre desenvolvimento de cada um seja condição para o livre desenvolvimento de todos. Só há lugar para um rebanho de ovelhas obedientes ao bastão do pastor e ao latido de seus cães, que segue o caminho assinalado, ainda quando mude com a mudança do pastor ou de sua arbitrária vontade (Mondolfo, 1968, p. 336).
Assim, o debate entre Gramsci e Mondolfo revela duas perspectivas antagônicas que expressam classes antagônicas. O debate intelectual entre Gramsci e Mondolfo é expressão de uma luta de classes existente de fato e o primeiro se posiciona do lado das classes auxiliares da burguesia (burocracia e intelectualidade), ansiosas para dirigir o proletariado e conquistar o poder estatal se tornando classe dominante, enquanto que Mondolfo, apesar de suas contradições e posições problemática, está próximo do proletariado, que, como colocou Marx inúmeras vezes, é o portador da emancipação humana, da realização prática do humanismo, defendido por Mondolfo. Assim, a crítica de Mondolfo a Gramsci revela justamente o pensador pouco conhecido devido a produção de um pensador fictício em substituição ao intelectual real que ele foi. Neste sentido, e mesmo sem analisar sob este prisma, revela a perspectiva de classe de Gramsci a partir do momento que explicitou a sua posição política jacobina. Ao fazer isso, Mondolfo mostra a distancia entre Gramsci e o marxismo. Assim, o debate entre os dois pensadores italianos é fundamental para compreender a história do marxismo na Itália.
Referências

Gramsci, Antonio. A Concepção Dialética da História. 6ª edição, Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1987.
Gramsci, Antonio. Leninismo y Marxismo de Rodolfo Mondolfo. In: Gramsci, Antonio. Antologia. 11ª edição, Siglo Vienteuno, 1988b.
Gramsci, Antonio. Maquiavel, A Política e o Estado Moderno. 6ª edição, Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1988.
Labriola, Antonio. La Concepción Materialista de la História. Madrid, Editorial 7, 1979.
Mondolfo, Rodolfo. Bolchevismo y Capitalismo de Estado. Estudios sobre la Revolución Rusa. Ediciones Libera, 1968.
Mondolfo, Rodolfo. El Materialismo Histórico em F. Engels y Otros Ensayos. Buenos Aires, Raigal, 1956.
Mondolfo, Rodolfo. Estudos Sobre Marx. São Paulo, Mestre Jou, 1967.
Mondolfo, Rodolfo. Materialismo Histórico, Bolchevismo y Dictadura. Buenos Aires, Ediciones Nuevas, 1962.
Viana, Nildo. A Esquerda Dissidente e a Revolução Russa. In: Maciel, David; Maia, Cláudio; Lemos, Antônio Henrique. (Org.). A Revolução Russa – Processos, Personagens e Influências. Goiânia: CEPEC, 2007.
Viana, Nildo. A Importância de Antônio Labriola para o Materialismo Histórico. Revista Enfrentamento. Ano 05, num. 09, jan./jul. 2010.




* Sociólogo e filósofo.
[1] Gramsci mostra aqui seu equívoco em pensar em um “estado de conselhos”, não percebendo que conselhos operários e estado são antagônicos. Esse tipo de equívoco é reproduzido por determinadas alas do trotskismo que buscam se aproximar da ideia de autogestão.
[2] Mondolfo deu aula na Universidade de Turim, até 1914, época em que Gramsci vivia lá e também pertenceu ao mesmo partido deste. Sem dúvida, uma das razões da antipatia de Gramsci em relação a Mondolfo está em suas teses, tal como a distinção entre marxismo e leninismo e a atribuição de um caráter capitalista ao regime bolchevique. Porém, mais importante que isso, no campo pessoal, é a referência de Mondolfo ao texto de Gramsci sobre a revolução bolchevique, que comentaremos adiante.
[3] Mondolfo usa como material informativo sobre a Rússia um vasto material retirada tanto da imprensa burguesa quanto bolchevista (da Rússia e da Itália), bem como outras fontes de informação, inclusive os contos de Gorki, que segundo as próprias palavras desse escritor, “parece um conto mas é fato provado” (apud. Mondolfo, 1968).
[4] Não confundir com o pensador marxista Antonio Labriola, pois em comum só possuem o sobrenome. Arturo Labriola passou de uma posição mais radical, sindicalista revolucionária, para uma posição socialdemocrata.
[5] Mondolfo cai no equívoco de concordar com a afirmação de Arturo Labriola para sustentar a identidade entre marxismo e leninismo, que seriam três pontos: a organização dos trabalhadores em partido, a conquista do poder estatal e uso deste para abolir as classes, sendo que nenhum destes pontos se encontra em Marx, a não ser que se entenda por “partido” a auto-organização da classe  e os demais aspectos não possuem, nem forçando a interpretação, existência em seu pensamento. Mondolfo afirma que, apesar disso existir no marxismo e no leninismo, é preciso analisar o primeiro por sua totalidade, o que remete a outras concepções e sua práxis.
[6] Este é outro problema da análise de Mondolfo, ao exagerar o papel das forças produtivas no processo revolucionário e atribuir isso a Marx.
[7] Mondolfo escreveu o ensaio “Em Torno de Gramsci e da Filosofia da Práxis”, que é parte de sua obra “Estudos Sobre Marx”, segundo título da versão portuguesa e que na versão espanhola ganhou o título de “Marx y el Marxismo”. Esse mesmo ensaio aparece como apêndice na edição de 1957 de seu livro sobre El Materialismo Histórico de Engels. A sua primeira publicação ocorreu na Revista Critica Sociale, em 1955. Portanto, a citação acima se refere ao mesmo texto, só que publicado em duas obras.
[8] O imperativo categórico, na ética kantiana, é expressão da máxima que o agir do indivíduo deve ser entendida como lei universal a ser seguida por todos.
[9] Croce preparou uma edição italiana do livro fundamental de Labriola, Ensaios Sobre a Concepção Materialista da História.

Artigo publicado originalmente em: Revista Enfrentamento. Ano 07, num. 10, jan./jun. 2012.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

Marxismo e Autogestão, número 02


V. 1, N. 2 (2014)

MARXISMO E AUTOGESTÃO 2

Revista Marxismo e Autogestão, número 02, 2014.

EDIÇÃO COMPLETA

Ver ou baixar a edição completaREVISTA COMPLETA

SUMÁRIO

EDITORIAL

Por um Marxismo AutogestionárioTEXTO COMPLETO
Revista Marxismo e Autogestão2-5

ANÁLISE MARXISTA

A Luta Operária e os Limites do "Autonomismo"TEXTO COMPLETO
Karl Jensen6-15
Crítica ao EspecifismoTEXTO COMPLETO
Serge Tardieu16-23

MARX, MARXISMO E MARXISTAS

A Essência do MarxismoTEXTO COMPLETO
Nildo Viana24-37
Sobre os Intelectuais: Mattick e Viana contra Nomad e FoucaultTEXTO COMPLETO
Erisvaldo Souza38-46
Conselhismo e BordiguismoTEXTO COMPLETO
Lucas Maia47-59

CRÍTICA DO PSEUDOMARXISMO

Teses Sobre o BolchevismoTEXTO COMPLETO
Helmutt Wagner60-88
Leninismo e Capitalismo de EstadoTEXTO COMPLETO
Noam Chomsky89-91
Lênin e o MaterialismoTEXTO COMPLETO
Diego Anjos92-103
Adeus ao TrotskismoTEXTO COMPLETO
Karl Jensen104-109
Grupos Krisis: A Montanha Pariu um RatoTEXTO COMPLETO
Charles Reeve110-114

CAPITALISMO E LUTA DE CLASSES

O Direito à RevoluçãoTEXTO COMPLETO
Pierre Leroy115-117
O CapitalTEXTO COMPLETO
Friedrich Engels118-126
O Medo, A Coragem e a PolíticaTEXTO COMPLETO
Erich Carlton127-130
O Caráter RevolucionárioTEXTO COMPLETO
Erich Fromm131-146

EXPERIÊNCIAS AUTOGESTIONÁRIAS

A Revolução RussaTEXTO COMPLETO
Maurice Brinton147-159
A Revolução AlemãTEXTO COMPLETO
Anton Pannekoek160-168
Revolução e Contrarrevolução na EspanhaTEXTO COMPLETO
GIKH Grupo Comunista Internacionalista da Holanda169-187

TEORIAS DA AUTOGESTÃO

Experiências Autogestionárias: A Lição da PráticaTEXTO COMPLETO
Lucien Rivière188-190

AUTOGESTÃO E IDEOLOGIA

Autogestão e IdeologiaTEXTO COMPLETO
Nildo Viana191-209

PROBLEMAS DA AUTOGESTÃO

Democratismo e AutogestãoTEXTO COMPLETO
Max Hollander210-220

ESCRITOS ATUAIS DO PASSADO

O Manifesto dos Três de ZuriqueTEXTO COMPLETO
Karl Marx221-229

RESENHAS

Anton Pannekoek e a Superação dos Partidos e SindicatosTEXTO COMPLETO
Mauro José Cavalcanti230-234
Marx Segundo KorschTEXTO COMPLETO
Paul Mattick235-240

sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

O Capitalismo está em Crise?

O CAPITALISMO ESTÁ EM CRISE?
      
Nildo Viana

Professor da Faculdade de Ciências Sociais da Universidade Federal de Goiás; Doutor em Sociologia; Autor de diversos livros, entre os quais, O Capitalismo na Era da Acumulação Integral.

Revista Posição, 3, Ano 1, Vol. 1, num. 2, jul./set.  2014. 

O capitalismo está em crise? Essa é uma velha questão, pois desde que alguns intérpretes do pensamento de Karl Marx pensaram no processo social revolucionário e no desenvolvimento do capitalismo, sempre anunciaram a crise do capitalismo. Isso só é comparável em repetição com a chamada “crise do marxismo” (VIANA, 2008). No entanto, para entender se há mesmo uma crise do capitalismo, é necessário esclarecer o significado do termo crise e uma análise do capitalismo contemporâneo para ver se é possível tal entendimento. É o que faremos a seguir.

O termo crise já foi discutido e definido por diversas concepções. Os gramscianos reproduzem a ideia de Gramsci, segundo a qual a crise ocorre quando o velho está em decadência e o novo ainda não pode surgir. Uma concepção extremamente abstrata e que nada acrescenta para a compreensão do termo. A crise é um processo no qual um ser encontra dificuldades crescentes para realizar sua reprodução (VIANA, 2008), ou, mais exatamente, quando ocorre um momento em que se manifesta uma dificuldade radical para sua reprodução ou existência. Nesse sentido, a categoria crise remete ao momento em que se torna possível o fim de algo, quando sua reprodução é ameaçada e se for levada até ao fim, significa sua superação. Crise é uma categoria do pensamento e por isso não é exatamente um conceito (VIANA, 2007), pois é uma ferramenta intelectual para pensar a realidade, embora não exista em si mesma. Por isso, a crise é sempre de alguma coisa.  No caso do presente artigo, nos interessa a ideia de crise do capitalismo. Por isso é importante entender também o que é o capitalismo.

O capitalismo é um termo que pode expressar o modo de produção capitalista ou a sociedade capitalista. No primeiro caso, o termo remete ao modo de produção dominante na sociedade moderna, caracterizado pela produção de mais-valor, a forma de exploração específica dessa sociedade. No segundo caso, significa a sociedade na qual o modo de produção dominante é o capitalista, ou seja, o todo da sociedade moderna engendrado por esse modo de produção. Quando se aborda a crise do capitalismo se pensa geralmente nesses dois elementos, mas geralmente uma crise da sociedade moderna em conjunto, o que pressupõe a crise do modo de produção capitalista. O que significaria uma crise do capitalismo? Significaria que a sociedade capitalista passaria por um momento no qual sua existência estaria ameaçada, havendo o risco/possibilidade/tendência de sua superação.

A partir destes esclarecimentos podemos perguntar: o capitalismo está em crise? A pseudoesquerda partidária sempre lança a ideia de que o capitalismo está em crise. No entanto, o capitalismo é uma sociedade marcada por lutas de classes e diversas contradições derivadas, que possui como elemento fundamental a existência de inúmeros problemas sociais (fome, desemprego, disputas políticas, etc.). Uma crise do capitalismo significaria, no fundo, que as relações de produção capitalistas, que são o elemento definidor e fundamental do modo de produção capitalista, estariam com sua existência ameaçada. Ora, como a existência do modo de produção capitalista poderia ser ameaçada? Como tal modo de produção se caracteriza pela produção de mais-valor e esta é a relação estabelecida entre proletariado e burguesia, então temos que entender que uma crise dele significaria que tal relação estaria ameaçada, o que, por sua vez, ameaçaria a existência da sociedade capitalista como um todo. E como uma relação social, que é a existente na produção de mais-valor entre proletariado e burguesia, pode ser ameaçada? Ora, quando uma das duas classes que estão envolvidas nessa relação ameaça romper com ela. Ou seja, uma crise do modo de produção capitalista e, logo, da sociedade capitalista, só pode ocorrer se o proletariado ameaçar romper com tal relação.

Logo, não há nenhum motivo para se pensar em uma crise do capitalismo na atualidade. O proletariado, apesar de algumas greves, ações e manifestações em determinados países e situações, não está questionando as relações de produção capitalistas na atualidade. Isso ocorreu no caso argentino, no período de 1999-2002, durante a Revolução Russa de 1917, durante a Comuna de Paris, a Guerra Civil Espanhola, entre diversas outras experiências históricas. Nesse caso, uma crise do capitalismo só ocorre quando o proletariado passa de classe determinada pelo capital para classe autodeterminada (VIANA, 2012), ou seja, quando ao invés de reproduzir o capitalismo através de lutas cotidianas e reivindicativas, como salários e melhores condições de trabalho, passa a questionar a relação-capital, ou seja, as relações de produção capitalistas.

Obviamente que existem outras crises no capitalismo. Contudo, é preciso distinguir “crise do capitalismo” de “crise no capitalismo”. As crises no capitalismo ocorrem cotidianamente. As crises no capitalismo não são crises do modo de produção capitalista ou do conjunto da sociedade capitalista, mas de partes no seu interior. Esse é o caso da crise financeira de 2008, que foi uma crise localizada no âmbito do aparato financeiro. Da mesma forma, há crises de governos, de legitimidade, entre diversas outras possibilidades de crises no capitalismo.

Essas crises no capitalismo podem, e em alguns casos tendem, a gerar uma crise do capitalismo. A crise do regime de acumulação conjugado (também chamado “fordista” ou “intensivo-extensivo”) quase se tornou uma crise do capitalismo, principalmente no caso francês, bem como, em menor grau, na Itália, Alemanha e outros países e conviveu com outras crises em outros países. A ascensão das lutas operárias e estudantis num quadro de queda da taxa de lucro provocou esse processo.

No capitalismo contemporâneo, comandado pelo regime de acumulação integral, as relações sociais são modificadas no sentido de aumentar a pobreza, desemprego, precarização do trabalho, problemas sociais em geral, bem como violência, criminalidade, e, ainda, protestos, revoltas, lutas sociais mais radicalizadas. É nesse contexto que explodem diversas crises no capitalismo que tendem a se tornar uma crise do regime de acumulação integral. Essa, por sua vez, tende a possibilitar a crise do capitalismo. Uma crise do regime de acumulação integral, e todo regime de acumulação tem um período de nascimento, desenvolvimento e declínio, devido à própria dinâmica da acumulação capitalista, vinculada à tendência declinante da taxa de lucro, e aumento das lutas operárias e de outras classes e grupos no interior do capitalismo, tende a se tornar uma crise do capitalismo. Nesses momentos, o proletariado tende a ser constrangido a ir além das reinvindicações cotidianas e promover lutas mais radicalizadas e em muitos casos questionar as relações de produção capitalistas. É nesse momento que pode surgir uma crise do capitalismo. Para tanto, as crises no capitalismo, tal como a crise financeira de 2008 e suas consequências, que aceleraram as dificuldades de reprodução do regime de acumulação integral, já entrando em sua fase de declínio, e outras crises, como a crise de legitimidade da democracia burguesa no Brasil, aumentam a possibilidade e tendência de se transformar em crise do capitalismo.

Contudo, isso ainda não ocorreu. Mas é uma tendência, não só nos países capitalistas em que o regime de acumulação integral está com dificuldades crescentes, especialmente os que tiveram que adotar políticas de austeridade, como em casos mais específicos marcados por outras crises, incluindo o caso da sociedade brasileira, apesar das diferenças e força de cada caso.

Em síntese, a resposta à questão apresentado no título deste artigo, é a de que não há, atualmente uma crise do capitalismo. Existem crises no capitalismo e a tendência, cada vez mais forte, para que se instaure uma crise do regime de acumulação integral, que, por sua vez, abre perspectivas para uma crise do capitalismo, o que significaria o ressurgimento de um forte movimento operário revolucionário que colocaria a autogestão social como algo a ser pensado e que ficaria na ordem do dia. Dessa forma, é necessário superar a mania da pseudoesquerda de anunciar eternamente a crise do capitalismo, bem como estar atento para as tendências e possibilidades de desenvolvimento da sociedade capitalista, inclusive sua dinâmica de acumulação e potencial transformador existente nas classes exploradas e grupos oprimidos.

No fundo, é preciso entender que as lutas atuais são determinações das lutas futuras e por isso o que acontecerá depende não de algo metafísico ou natural e sim das relações sociais presentes (tal como a dinâmica da acumulação capitalista) e das lutas sociais travadas nesse contexto, reforçando uma ou outra tendência. Quanto mais os trabalhadores se organizam hoje, realizam greves, manifestações, mais reforçam a tendência da emancipação humana, pois não só faz avançar as lutas sociais, a passagem de classe determinada pelo capital para classe autodeterminada, como também cria novas dificuldades de reprodução do capitalismo, pois traz novos obstáculos para a ampliação da exploração, da extração de mais-valor, o que atinge, novamente, a acumulação capitalista e o regime de acumulação integral.

Assim, não vivemos uma crise do capitalismo e sim convivemos com diversas crises no capitalismo, e essa pode gerar aquela. E nesse contexto, nossas ações no presente vão reforçar uma ou outra coisa, bem como a resolução da crise, que poderá ser um novo regime de acumulação que aumentaria mais ainda a exploração e pioraria as condições de vida, ou o fascismo e a guerra, que seriam resultados indesejáveis, ou a autogestão social, a emancipação humana.

REFERÊNCIAS

VIANA, Nildo. A Consciência da História – Ensaios Sobre o Materialismo Histórico-Dialético. 2ª edição, Rio de Janeiro: Achiamé, 2007.

VIANA, Nildo. A Teoria das Classes Sociais em Karl Marx. Florianópolis: Bookess, 2012.

VIANA, Nildo. O Capitalismo na Era da Acumulação Integral. São Paulo: Ideias e Letras, 2009.

VIANA, Nildo. O Fim do Marxismo e outros ensaios. São Paulo: Giz Editorial, 2008.


quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

IGNORÂNCIA, SUBMISSÃO E PRESUNÇÃO


IGNORÂNCIA, SUBMISSÃO E PRESUNÇÃO


Nildo Viana

Professor da Universidade Federal de Goiás e Doutor em Sociologia/UnB.

Artigo publicado originalmente em: Revista Posição. Ano 01, vol. 01, num. 02, abr./jun. de 2014.

A ignorância é uma palavra ambígua. Em certos casos, ela significa falta de saber, ignorar algo; em outros, significa “grosseria” ou desconsideração pela opinião alheia. O problema é que as palavras são geralmente descontextualizadas e retiradas da realidade social na qual se constituíram e ganham significado. Para compreender o real significado da ignorância é necessário analisar o seu significado, o que remete para outras questões, como sua inserção na totalidade da vida social, suas determinações e suas consequências.

A ignorância no sentido de “ignorar algo” ou “falta de consciência ou saber” sobre alguma coisa é extremamente comum. Nesse sentido, somos todos ignorantes, pois ninguém sabe tudo, por mais culto, erudito ou experiente que seja. E por isso não é nada ofensivo ou pejorativo considerar que alguém ignora algo. No entanto, existe uma diferença de grau. Alguns indivíduos ignoram muitas coisas e outros menos. Além dessa diferença quantitativa, há também a qualitativa: alguns ignoram coisas importantes e outros ignoram coisas supérfluas. Outra diferença é afirmar que alguém ignora algo, outra é dizer que ela é ignorante, pois no primeiro caso é um caso específico e no segundo é algo apresentado como sendo algo que caracteriza o indivíduo, a ignorância seria generalizada. Aqui estamos no reino das classificações mais abstratas, mas se inserirmos esta discussão no interior da vida social, podemos entender melhor o problema envolvido.

Ao levar a discussão para o contexto da sociedade, começamos a perceber que o sentido não pejorativo da palavra é muito pouco usado, tal como alguém que afirma que outra pessoa “ignorou o seu aviso”, pois remete a algo bem específico, nada tendo de ofensivo. O uso mais comum é quando se afirma que alguém é ignorante, ou seja, que ignora muita coisa ou as coisas mais importantes. Obviamente que esse tipo de afirmação não é necessariamente verdadeiro, pois numa sociedade fundada na competição social, a desqualificação do outro e seu discurso é algo comum, e sendo o outro ignorante, então há uma valoração daquele que faz tal afirmação, um sinal de distinção e superioridade.

No entanto, as pessoas consideradas na sociedade como mais ignorantes são justamente as pessoas das classes desprivilegiadas, e mais ainda seus estratos mais empobrecidos. Elas ignorariam uma maior quantidade de coisas e as mais importantes. Sem dúvida, isso não é totalmente falso, embora a generalização seja problemática, pois muitos indivíduos das classes privilegiadas também ignoram muitas coisas e a questão do que é ou não importante é valorativa, geralmente remetendo para os valores dominantes. Algumas pesquisas apontam para uma diferença entre um pesquisador médio, que possui um vocábulo em torno de duas mil palavras, enquanto as demais pessoas teriam um vocabulário de cerca de duzentas palavras. Por conseguinte, podemos afirmar que há uma tendência (logo, não é algo geral, inevitável, etc., não sendo generalização nem determinismo) de que as pessoas das classes desprivilegiadas possuam um vocabulário menor que as das classes privilegiadas (e no interior destas há também uma tendência à hierarquia, sendo que os intelectuais, devido sua profissão e atividades cotidianas, tenham um vocabulário mais extenso do que outras classes).

A questão qualitativa já é mais difícil de ser abordada, pois ela remete aos valores dos indivíduos. Um pescador pode ignorar as tendências do mercado financeiro e do processo inflacionário, as políticas governamentais, o significado do capitalismo, a existência das classes sociais ou entender praticamente nada de arte, ciência e política institucional. Se ele ignora tudo isso, ao mesmo tempo ele tem um saber acumulado sobre pescaria, suas técnicas, localização mais adequada, e diversos outros aspectos envolvidos, bem como sobre sua tradição familiar, sobre sua vida cotidiana, entre inúmeras outras coisas. A sua ignorância é relativa, assim como o seu saber. E para os seus próprios valores, ele certamente irá considerar que ignora coisas sem importância e possui consciência das coisas que são relevantes. Sem dúvida, a pescaria é o seu meio de sobrevivência, e, portanto, é importante para ele. Contudo, não saber da inflação, das políticas governamentais, das relações entre as classes sociais, que afetam diretamente seus rendimentos e situação social, entre outras coisas relacionadas com a sua sobrevivência, demonstra que os seus valores são constituídos socialmente e que sua percepção do que é mais valoroso para ele é obstaculizado por sua consciência restrita da totalidade da vida social. Uma vez que ele não tenha consciência disso, sua ação e o desenvolvimento de sua consciência ficarão na dependência de outras pessoas e influências (meios oligopolistas de comunicação, intelectuais, pessoas de destaque do seu próprio meio, etc.). Nesse sentido, podemos dizer que a ignorância é mãe da submissão. Quanto mais ignorante for um indivíduo, maior é a tendência de ser submisso.

Contudo, a ignorância não atinge apenas indivíduos das classes desprivilegiadas. Muitos indivíduos das classes privilegiadas também possuem um alto grau de ignorância, seja em matéria de quantidade e/ou de qualidade. Um artista, por exemplo, pode ter um grande saber sobre técnicas artísticas e história da arte, assim como o pescador sabe da pescaria, mas pode entender muito pouco de política e questões sociais. É por isso que muitos artistas bem intencionados buscam fazer crítica social, mas ficam num nível elevado de superficialidade e não ultrapassam o moralismo. Além disso, o modo de vida fútil e os valores dominantes são aliados poderosos da ignorância de amplos setores das classes privilegiadas. Aliado a isso a preguiça[1] de diversas pessoas, temos um quadro no qual a ignorância não é um atributo de classe, pois se espalha por toda a sociedade, mesmo para aqueles que possuem recursos para superá-la, mas preferem comprar coisas inúteis e supérfluas, ou mesmo com certa utilidade (como uma lanterna que raramente será utilizada), do que um livro, ou então comprar uma revista de fofocas sobre a vida de artistas do que comprar uma obra literária.

A ignorância possui inúmeras determinações, desde os recursos financeiros, acesso à educação formal, cultura de origem, passando por valores e interesses, que estão intimamente relacionados com a totalidade da sociedade, o pertencimento de classe, a ação do Estado e dos meios oligopolistas de comunicação e do mercado, entre diversos outras. A sua principal consequência já foi colocada: a submissão. Obviamente que com variações e sofrendo outras determinações, ela é uma fiel acompanhante da ignorância.

No entanto, a ignorância é entendida também em outro sentido. O segundo sentido da palavra remete à questão da “grosseria” ou desconsideração ou desrespeito pelas posições e opiniões alheias. Não é possível pensar a ignorância como apenas grosseria. Nesse caso seria mera e pura grosseria. Quando se pensa a ignorância desta forma, ela tem um sentido bem próximo ao de desrespeito e desconsideração pelas ideias alheias. Isso é também relativamente comum. Muitas pessoas descartam, menosprezam, ridicularizam e zombam de ideias, opiniões, afirmações, de outros. Claro que aqui também atua a competição social, algo estrutural da sociedade capitalista, bem como a busca de vencê-la, colocando-se como superior, mais culto, distinto. Na verdade, isso é algo que não deve ser confundido com o caso no qual em um debate entre duas pessoas e um realmente possui maior saber sobre o assunto em questão e o outro demonstra ter menos saber, pois aí não há ignorância e sim grosseria, indelicadeza, etc., a não ser que provocado pela ignorância do oponente. Ou seja, aqui, nesse caso, a ignorância pode emergir apenas do lado daquele que sabe menos, pois este é o seu elemento definidor. O ignorante, nesse sentido, pensa saber mais do que os outros apesar de não ter realizado estudos, reflexões, pesquisas, para desenvolver sua consciência. Ele apenas nega e recusa o que o outro tem a dizer, mas não mostra saber realmente do assunto. É como uma pessoa que ao ouvir dizer que Descartes foi um grande filósofo, sem conhecer sua obra e ideias, simplesmente diz que ele é “idiota” ou qualquer outro adjetivo pejorativo. É comum, para tais pessoas, fazerem afirmações sobre coisas que desconhecem como se fosse verdade e querendo desqualificar opiniões e posições contrárias, apelando para agressividade, retórica, desqualificação. Também é constante recusar ideias e afirmações sem ter nenhuma informação ou consciência do que está em discussão. Isso caracteriza uma das características presentes nas pessoas que fazem isso, a presunção. Isso significa que a pessoa considera suas suposições não fundamentadas e sobre coisas que pouco conhece como superiores a ponto de desconsiderar ou descartar as demais posições e opiniões. Nesse sentido, a ignorância é mãe da presunção.

Essa forma de ignorância, associada à presunção, é gerada mais por pessoas que se apegam a tradições e doutrinas, gerando dogmatismos, ou por pessoas com uma formação psíquica que promove a presunção como mecanismo de defesa. Como fenômeno coletivo, é mais comum em grupos ligados a certas religiões, doutrinas políticas, geralmente atingindo as classes desprivilegiadas e determinados setores das classes privilegiadas. Também é constante com pessoas com preguiça mental, que buscam respostas imediatas e se apegam a elas quando as conseguem, por mais superficiais e pouco fundamentadas que sejam.

As consequências desse tipo de ignorância são conflitos e debates, desentendimentos desnecessários, quando são casos mais individuais, e, quando assume formas coletivas, o dogmatismo que gera intolerância política, religiosa, etc. e conflitos coletivos entre indivíduos e grupos. A formação de seitas e a proliferação do dogmatismo (e do anti-intelectualismo) são bastante comuns em grupos, formais ou não, que se aliam com esse processo. No plano individual significa não haver avanço intelectual e desenvolvimento da consciência e no plano coletivo significa uma lentidão no avanço das lutas sociais ou seu bloqueio em determinados setores.

Em síntese, a ignorância, seja ligada à submissão seja ligada à presunção, é sempre prejudicial para o projeto de emancipação humana e para o desenvolvimento da consciência, bem como elemento de estagnação intelectual dos indivíduos. A ignorância nunca foi aliada do processo de transformação social ou mesmo individual. Por conseguinte, a superação da ignorância deveria ser compromisso de todos. A luta contra a ignorância, a própria e a alheia, é fundamental para todos que lutam pela transformação social.

http://redelp.net/revistas/index.php/rpo/article/view/3viana2/49



[1] Aqui a palavra preguiça não tem a conotação falsa de ser algo inato e/ou inexplicável, significa tão somente falta ou pouca vontade, sendo um produto social e ligado ao problema fundamental da alienação na sociedade capitalista.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

MENTIRA E SOCIEDADE

MENTIRA E SOCIEDADE

Nildo Viana

Professor da Faculdade de Ciências Sociais/UFG

Artigo publicado originalmente em: Revista Posição, Ano 1, Vol. 1, num. 3, out./dez. 2014.

Formulário de contato

Nome

E-mail *

Mensagem *

Acompanham este blog: