O MORALISMO SUBJETIVISTA
Nildo Viana
Ainda nesse processo, o moralismo progressista ganha
espaço. O progressismo possui duas versões principais, a versão burguesa e a
versão burocrática. Trata-se de mundo que coloca como um dos valores
fundamentais o “progresso”, sempre relacionado com o “novo”, o “jovem”, o
“moderno”, o “atual”, o “contemporâneo”, a “ciência”, etc. “A última moda de
Nova Iorque” deve ser boa, “como tudo que vem do Norte”, já cantava o roqueiro
Léo Jaime. O moralismo progressista, no entanto, possui duas formas de manifestação.
O mais antigo, está vinculado ao autocratismo, holismo, objetivismo[1].
O moralismo progressista contemporâneo está ligado ao democratismo,
individualismo, subjetivismo. O pseudomarxismo (especialmente o bolchevismo e a
social-democracia) e o paradigma reprodutivista dos anos 1950-1970 estão
vinculados à primeira forma e o paradigma subjetivista e pós-estruturalismo
(entre outras ideologias) estão ligados à segunda. Podemos, então, dividir
entre o moralismo progressista objetivista e o moralismo progressista
subjetivista, sendo este último o que é hegemônico hoje em dia e se encontra em
disputa com o moralismo conservador, o seu principal concorrente atual.
O moralismo progressista subjetivista nasce, entre
outras fontes[2],
do chamado “neoliberalismo progressista” norte-americano e do paradigma
subjetivista, sendo o “politicamente correto” uma de suas formas de
manifestação. O politicamente correto é um moralismo que gera eufemismos e
mudanças na linguagem sem mudar as raízes sociais que geram as formas de
preconceito e as relações sociais que estão em sua base. Porém, as relações
raciais, sexuais, etc. e outros processos da sociedade capitalista, bem como as
formas de preconceito geradas a partir disso, continuam marcadas pelo conflito,
competição e insatisfação[3].
A ideia básica do moralismo subjetivista é a valoração
do sujeito – indivíduo ou grupo social[4] – e da
“subjetividade” e a ideia de “revolução ou libertação individual ou grupal”.
Sem dúvida, isso é uma contradição fácil de perceber, pois o moralismo é a
imposição de uma moral, que constrange os indivíduos a adotá-la e o apelo à
liberdade (do indivíduo ou do grupo) é, no fundo, a criação de uma nova
conformidade de acordo com novas ideologias e um novo moralismo. O moralismo
subjetivista se manifesta sob várias formas. Ele assume a forma populista por
parte do capital, do aparato estatal e ideólogos e intelectuais venais, pois
assim consegue amenizar ou desviar conflitos, apoio eleitoral, popularidade,
etc. Ele também assume a forma oportunista por partidos, políticos
profissionais, ativistas que buscam vantagens competitivas, etc. Existe também
a forma sincera que se manifesta em setores da população que foram convencidos
de seu suposto vínculo com o que é justo ou com reivindicações existentes de
determinados setores da sociedade.
A moral é conjunto de normas de comportamento e o moralismo é o seu
exacerbamento (Viana, 2000). A moral impõe normas de comportamento e o
moralismo a exacerba e gera um controle cultural intensivo. Isso significa mais
repressão e menos liberdade, espontaneidade e autenticidade. O indivíduo do sexo
masculino agora não pode mais vestir cor-de-rosa e nem azul, pois, no primeiro
caso, os moralistas conservadores vão dizer que é cor feminina e, no segundo,
os moralistas subjetivistas vão dizer que é “machismo”. O moralismo julga e
condena e quanto mais moralista é uma sociedade – e ainda com dois moralismos
disputando a hegemonia e assumindo a forma de “juiz universal” – mais
reprimidos e menos livres são os indivíduos. A moral dominante é a moral da
classe dominante. A classe dominante, por sua vez, muda sua estratégia de
classe de acordo com o regime de acumulação e as tarefas políticas, econômicas
e culturais derivadas e suas contradições. Uma vez que uma moral é instituída
socialmente, ela gera os seus entusiastas e ativistas, embora muito sejam
hipócritas (pregam as normas de comportamento correspondentes a ela, mas não a
praticam em sua vida cotidiana), que se tornam os moralistas, vigilantes e
juízes que buscam impô-la para toda a população. Os dois moralismos hoje
disputam a hegemonia pregam normas de comportamento opostas e buscam o aparato
estatal para sancionar e normalizar sua concepção de moral. Hoje, a moral
dominante é a subjetivista e a moral conservadora é sua concorrente mais forte
e ambas são problemáticas e estão vinculadas ao processo de reprodução das
relações de produção capitalistas. Nesse sentido, a crítica e superação do
moralismo deve ir até a raiz no sentido de criticar e combater a moral em si
mesma e em seu lugar buscar o desenvolvimento de uma ética revolucionária e humanista.
Essa, por sua vez, por contrariar os interesses capitalistas, tende a ser
marginal e só ganhar força em períodos revolucionários. O seu fortalecimento
hoje, no entanto, é fundamental para fortalecer as lutas sociais futuras que
atuam no sentido da transformação social radical e total.
O politicamente correto fica na superfície e nada
soluciona, além de gerar novas formas de insatisfação[5] e mais
sombra, energia psíquica destrutiva que se avoluma, pois nem mesmo no humor e
em outras formas de manifestação cultural, ela pode se extravasar. E os
exageros e inversão que são gerados a partir disso, como o maniqueísmo,
vitimismo, oportunismo, entre outras formas que determinados indivíduos e
setores dos grupos envolvidos, acabam gerando outros processos de insatisfação[6].
As ações afirmativas e “discriminação positiva” são facas de dois gumes,
gerando “divisões perigosas” e aumentando os sentimentos antipáticos, mesmo que
não sejam manifestos explicitamente, diante daqueles que seriam “beneficiados”
com essas políticas. A “polícia do pensamento”, para utilizar expressão usada
por George Orwell, não vem só da direita, pois também vem dos progressistas,
aliados aos representantes dos “direitistas democráticos”.
Alguns autores conservadores levantam diversas críticas ao politicamente
correto e concepções próximas e, em alguns casos, acertam parcialmente. A ideia
de que tudo que o “outro lado” diz é errado é apenas mais um problema da
contemporaneidade, o que foi intensificado com a polarização entre
progressistas e conservadores. E isso remete para o problema do moralismo e seu
caráter normativo, por um lado, e, por outro, seu vínculo com valores e
sentimentos, o que diminui o uso da racionalidade e o aumento da emocionalidade
e sentimentalidade, dificultando ainda mais a comunicação. A renovação
hegemônica gera, através do subjetivismo, tanto os adeptos do
“empreendedorismo” quanto os seus opostos, adeptos do “empoderamento” (Santos,
2024). O subjetivismo também traz uma renovação linguística no qual os prefixos
“in” e “em” passam a ser predominantes e o discurso passa a girar em torno da
“inclusão”, “empatia”, “empoderamento” e diversos outros semelhantes. Esses
prefixos trazem a ideia de “movimento para o interior”, interioridade, ou seja,
para a subjetividade. Assim, antes se usava preferencial “compaixão” e depois é
substituído por “empatia” e assim o prefixo “co” (que remete para companhia,
união, participação ou ação em conjunto) se vê substituído por o movimento para
dentro, ou seja, remete para o “subjetivo”. Isso faz parte do movimento de
renovação linguística com a hegemonia do subjetivismo (Viana, 2019). Por outro
lado, essa renovação linguística gera uma reação conservantista, que, por sua
vez, traz uma linguagem própria (e pobre, como “marxismo cultural”, “ideologia
de gênero”, etc.), bem como novos sentidos para antigas palavras[7].
Os progressistas, racionalistas ou irracionalistas,
com sua recusa da psicanálise ou adoção de suas formas açucaradas, libertinas
ou formalistas, não percebem (na verdade, a maioria “não quer perceber”) que o
controle racional e afetivo é uma fonte de insatisfação, de sentimentos
antipáticos, etc. Não percebem que numa sociedade competitiva (a competição é
um elemento estrutural do capitalismo e que ocorre no conjunto das relações
sociais, desde as relações de trabalho, passando pelo processo educacional até
a vida familiar e é introjetada e reproduzida na mente dos indivíduos) e
conflituosa (desde a luta de classes aos demais conflitos sociais chegando até
os conflitos nas relações interindividuais) e dividida em classes não há como
agradar a todos. No capitalismo, alguém ganha quando alguém perde. Ninguém é
livre de “valores” e “interesses”.
O paradigma hegemônico, subjetivista, alicerçado nas
ideologias pós-estruturalistas, culturalistas, multiculturalistas, neoliberais,
etc., apontam para a solução individual e não social ou então para uma
orientação narcisista de grupo, fundada no ressentimento. O neoindividualismo,
hedonismo, narcisismo, são apenas uma parte do problema (e o intensificam, pois
quanto mais se valora e anseia conscientemente algo, mais se amplia a
insatisfação com a realidade concreta). Ao deixar de lado as raízes sociais das
formas de preconceito, dos conflitos grupais, da violência, etc. e pensar que
apenas os indivíduos, a relação intergrupal (brancos x negros, homens x
mulheres, etc.) ou a cultura podem explicar/solucionar o problema apenas o
amplia e ainda se cria mais um problema.
[1]
Isso é perceptível, por exemplo, no texto de Lukács (1978), na qual defende a
submissão quase incondicional e religiosa do indivíduo ao partido.
[2]
Dentre essas outras fontes existem, inclusive, algumas que não possuem vínculos
diretos com a política institucional ou movimentos políticos.
[3]
No plano da sexualidade, Alberoni (1988) foi o autor que destacou a questão da
competição, embora sem analisar os processos sociais mais profundos que geram
esse fenômeno.
[4]
Tanto pode ser um grupo social “eleito” para ser o principal quanto pode ser
diversos, tal como as equivocadamente
chamadas de “minorias”.
[5]
Concorde-se ou não com elas, pois o que interessa, no plano analítico é sua
existência e seus efeitos. Entre as insatisfações explícitas, está a de
humoristas que passam a ser censurados, sendo que existem várias formas de
humor e em alguns casos, a permissividade que antes existia deixa de existir,
mas o exagero acaba, em muitos casos, tolhendo o exercício do humorismo.
[6]
As relações eróticas, por exemplo, foram afetadas negativamente devido aos
exageros e oportunismos, gerando insatisfação em ambos os sexos e afastando e
dificultando os relacionamentos amorosos.
[7]
Bourdieu (2013) percebeu, parcialmente, essa mutação linguística, bem como
outros já se atentaram para seu real significado (Silva; Anjos, 2022; Viana,
2019).
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