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quinta-feira, 29 de outubro de 2026

O MORALISMO SUBJETIVISTA - NILDO VIANA

 



O MORALISMO SUBJETIVISTA


Nildo Viana


Ainda nesse processo, o moralismo progressista ganha espaço. O progressismo possui duas versões principais, a versão burguesa e a versão burocrática. Trata-se de mundo que coloca como um dos valores fundamentais o “progresso”, sempre relacionado com o “novo”, o “jovem”, o “moderno”, o “atual”, o “contemporâneo”, a “ciência”, etc. “A última moda de Nova Iorque” deve ser boa, “como tudo que vem do Norte”, já cantava o roqueiro Léo Jaime. O moralismo progressista, no entanto, possui duas formas de manifestação. O mais antigo, está vinculado ao autocratismo, holismo, objetivismo[1]. O moralismo progressista contemporâneo está ligado ao democratismo, individualismo, subjetivismo. O pseudomarxismo (especialmente o bolchevismo e a social-democracia) e o paradigma reprodutivista dos anos 1950-1970 estão vinculados à primeira forma e o paradigma subjetivista e pós-estruturalismo (entre outras ideologias) estão ligados à segunda. Podemos, então, dividir entre o moralismo progressista objetivista e o moralismo progressista subjetivista, sendo este último o que é hegemônico hoje em dia e se encontra em disputa com o moralismo conservador, o seu principal concorrente atual.

O moralismo progressista subjetivista nasce, entre outras fontes[2], do chamado “neoliberalismo progressista” norte-americano e do paradigma subjetivista, sendo o “politicamente correto” uma de suas formas de manifestação. O politicamente correto é um moralismo que gera eufemismos e mudanças na linguagem sem mudar as raízes sociais que geram as formas de preconceito e as relações sociais que estão em sua base. Porém, as relações raciais, sexuais, etc. e outros processos da sociedade capitalista, bem como as formas de preconceito geradas a partir disso, continuam marcadas pelo conflito, competição e insatisfação[3].

A ideia básica do moralismo subjetivista é a valoração do sujeito – indivíduo ou grupo social[4] – e da “subjetividade” e a ideia de “revolução ou libertação individual ou grupal”. Sem dúvida, isso é uma contradição fácil de perceber, pois o moralismo é a imposição de uma moral, que constrange os indivíduos a adotá-la e o apelo à liberdade (do indivíduo ou do grupo) é, no fundo, a criação de uma nova conformidade de acordo com novas ideologias e um novo moralismo. O moralismo subjetivista se manifesta sob várias formas. Ele assume a forma populista por parte do capital, do aparato estatal e ideólogos e intelectuais venais, pois assim consegue amenizar ou desviar conflitos, apoio eleitoral, popularidade, etc. Ele também assume a forma oportunista por partidos, políticos profissionais, ativistas que buscam vantagens competitivas, etc. Existe também a forma sincera que se manifesta em setores da população que foram convencidos de seu suposto vínculo com o que é justo ou com reivindicações existentes de determinados setores da sociedade.

A moral é conjunto de normas de comportamento e o moralismo é o seu exacerbamento (Viana, 2000). A moral impõe normas de comportamento e o moralismo a exacerba e gera um controle cultural intensivo. Isso significa mais repressão e menos liberdade, espontaneidade e autenticidade. O indivíduo do sexo masculino agora não pode mais vestir cor-de-rosa e nem azul, pois, no primeiro caso, os moralistas conservadores vão dizer que é cor feminina e, no segundo, os moralistas subjetivistas vão dizer que é “machismo”. O moralismo julga e condena e quanto mais moralista é uma sociedade – e ainda com dois moralismos disputando a hegemonia e assumindo a forma de “juiz universal” – mais reprimidos e menos livres são os indivíduos. A moral dominante é a moral da classe dominante. A classe dominante, por sua vez, muda sua estratégia de classe de acordo com o regime de acumulação e as tarefas políticas, econômicas e culturais derivadas e suas contradições. Uma vez que uma moral é instituída socialmente, ela gera os seus entusiastas e ativistas, embora muito sejam hipócritas (pregam as normas de comportamento correspondentes a ela, mas não a praticam em sua vida cotidiana), que se tornam os moralistas, vigilantes e juízes que buscam impô-la para toda a população. Os dois moralismos hoje disputam a hegemonia pregam normas de comportamento opostas e buscam o aparato estatal para sancionar e normalizar sua concepção de moral. Hoje, a moral dominante é a subjetivista e a moral conservadora é sua concorrente mais forte e ambas são problemáticas e estão vinculadas ao processo de reprodução das relações de produção capitalistas. Nesse sentido, a crítica e superação do moralismo deve ir até a raiz no sentido de criticar e combater a moral em si mesma e em seu lugar buscar o desenvolvimento de uma ética revolucionária e humanista. Essa, por sua vez, por contrariar os interesses capitalistas, tende a ser marginal e só ganhar força em períodos revolucionários. O seu fortalecimento hoje, no entanto, é fundamental para fortalecer as lutas sociais futuras que atuam no sentido da transformação social radical e total.

O politicamente correto fica na superfície e nada soluciona, além de gerar novas formas de insatisfação[5] e mais sombra, energia psíquica destrutiva que se avoluma, pois nem mesmo no humor e em outras formas de manifestação cultural, ela pode se extravasar. E os exageros e inversão que são gerados a partir disso, como o maniqueísmo, vitimismo, oportunismo, entre outras formas que determinados indivíduos e setores dos grupos envolvidos, acabam gerando outros processos de insatisfação[6]. As ações afirmativas e “discriminação positiva” são facas de dois gumes, gerando “divisões perigosas” e aumentando os sentimentos antipáticos, mesmo que não sejam manifestos explicitamente, diante daqueles que seriam “beneficiados” com essas políticas. A “polícia do pensamento”, para utilizar expressão usada por George Orwell, não vem só da direita, pois também vem dos progressistas, aliados aos representantes dos “direitistas democráticos”.

Alguns autores conservadores levantam diversas críticas ao politicamente correto e concepções próximas e, em alguns casos, acertam parcialmente. A ideia de que tudo que o “outro lado” diz é errado é apenas mais um problema da contemporaneidade, o que foi intensificado com a polarização entre progressistas e conservadores. E isso remete para o problema do moralismo e seu caráter normativo, por um lado, e, por outro, seu vínculo com valores e sentimentos, o que diminui o uso da racionalidade e o aumento da emocionalidade e sentimentalidade, dificultando ainda mais a comunicação. A renovação hegemônica gera, através do subjetivismo, tanto os adeptos do “empreendedorismo” quanto os seus opostos, adeptos do “empoderamento” (Santos, 2024). O subjetivismo também traz uma renovação linguística no qual os prefixos “in” e “em” passam a ser predominantes e o discurso passa a girar em torno da “inclusão”, “empatia”, “empoderamento” e diversos outros semelhantes. Esses prefixos trazem a ideia de “movimento para o interior”, interioridade, ou seja, para a subjetividade. Assim, antes se usava preferencial “compaixão” e depois é substituído por “empatia” e assim o prefixo “co” (que remete para companhia, união, participação ou ação em conjunto) se vê substituído por o movimento para dentro, ou seja, remete para o “subjetivo”. Isso faz parte do movimento de renovação linguística com a hegemonia do subjetivismo (Viana, 2019). Por outro lado, essa renovação linguística gera uma reação conservantista, que, por sua vez, traz uma linguagem própria (e pobre, como “marxismo cultural”, “ideologia de gênero”, etc.), bem como novos sentidos para antigas palavras[7].

Os progressistas, racionalistas ou irracionalistas, com sua recusa da psicanálise ou adoção de suas formas açucaradas, libertinas ou formalistas, não percebem (na verdade, a maioria “não quer perceber”) que o controle racional e afetivo é uma fonte de insatisfação, de sentimentos antipáticos, etc. Não percebem que numa sociedade competitiva (a competição é um elemento estrutural do capitalismo e que ocorre no conjunto das relações sociais, desde as relações de trabalho, passando pelo processo educacional até a vida familiar e é introjetada e reproduzida na mente dos indivíduos) e conflituosa (desde a luta de classes aos demais conflitos sociais chegando até os conflitos nas relações interindividuais) e dividida em classes não há como agradar a todos. No capitalismo, alguém ganha quando alguém perde. Ninguém é livre de “valores” e “interesses”.

O paradigma hegemônico, subjetivista, alicerçado nas ideologias pós-estruturalistas, culturalistas, multiculturalistas, neoliberais, etc., apontam para a solução individual e não social ou então para uma orientação narcisista de grupo, fundada no ressentimento. O neoindividualismo, hedonismo, narcisismo, são apenas uma parte do problema (e o intensificam, pois quanto mais se valora e anseia conscientemente algo, mais se amplia a insatisfação com a realidade concreta). Ao deixar de lado as raízes sociais das formas de preconceito, dos conflitos grupais, da violência, etc. e pensar que apenas os indivíduos, a relação intergrupal (brancos x negros, homens x mulheres, etc.) ou a cultura podem explicar/solucionar o problema apenas o amplia e ainda se cria mais um problema.



[1] Isso é perceptível, por exemplo, no texto de Lukács (1978), na qual defende a submissão quase incondicional e religiosa do indivíduo ao partido.

[2] Dentre essas outras fontes existem, inclusive, algumas que não possuem vínculos diretos com a política institucional ou movimentos políticos.

[3] No plano da sexualidade, Alberoni (1988) foi o autor que destacou a questão da competição, embora sem analisar os processos sociais mais profundos que geram esse fenômeno.

[4] Tanto pode ser um grupo social “eleito” para ser o principal quanto pode ser diversos, tal como as equivocadamente chamadas de “minorias”.

[5] Concorde-se ou não com elas, pois o que interessa, no plano analítico é sua existência e seus efeitos. Entre as insatisfações explícitas, está a de humoristas que passam a ser censurados, sendo que existem várias formas de humor e em alguns casos, a permissividade que antes existia deixa de existir, mas o exagero acaba, em muitos casos, tolhendo o exercício do humorismo.

[6] As relações eróticas, por exemplo, foram afetadas negativamente devido aos exageros e oportunismos, gerando insatisfação em ambos os sexos e afastando e dificultando os relacionamentos amorosos.

[7] Bourdieu (2013) percebeu, parcialmente, essa mutação linguística, bem como outros já se atentaram para seu real significado (Silva; Anjos, 2022; Viana, 2019).

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O presente texto é um trecho do artigo "O Ovo da Serpente: Psicanálise do Capitalismo Contemporâneo" e pode ser acessado em sua versão completa no seguinte link:

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