A RACIONALIZAÇÃO CAPITALISTA
Nildo Viana
O capitalismo contemporâneo, sob o signo do regime de
acumulação integral, promove dois elementos fundamentais, aparentemente
contraditórios, para o processo de crescimento da sombra: a racionalização e o
irracionalismo. A racionalização, entendida como processo social, é o processo
de expansão do domínio do saber racional e do cálculo mercantil sobre o
conjunto das atividades humanas, o que foi permanente na história do
capitalismo e que hoje invade mais intensamente a vida cotidiana e os atos
basilares dos indivíduos, como a alimentação, as relações amorosas, etc. Essa
racionalização é visível mais claramente no campo da alimentação, no qual o
culto do corpo e da saúde é desenvolvido na sociedade através da busca de
“alimentos saudáveis”, processo de racionalização da alimentação (gerando um
saber sobre os componentes dos alimentos e “escolha racional”, tornando a
nutrição valorada, bem como a figura do nutricionista)[1].
A racionalização da vida amorosa, da alimentação, do
lazer, etc., derivada da existente nas relações de produção capitalistas, é um
elemento que, a princípio, não seria muito negativo, caso não ocorresse no
contexto do capitalismo e se não fosse uma determinada forma de
racionalização (capitalista, instrumental). A racionalização na sociedade
capitalista é contraditória: a racionalidade é comandada pela
“irracionalidade”, no sentido de que a razão está a serviço do capital (e da
mercantilização), da burocracia (logo, da burocratização), do poder e da
competição, visando justificar, legitimar, reproduzir, relações sociais
prejudiciais aos indivíduos. Ou seja, a racionalização ocorre sobre o princípio
da razão instrumental, voltada para a dominação e, assim, ela aparece como
“irracional”, por sua parcialidade e fragmentação (tanto da divisão social do
trabalho e seu aprofundamento quanto da formação de seres humanos cada vez mais
unilaterais e distantes da necessidade humana de onilateralidade).
O primeiro elemento problemático da racionalização é
que se identifica um problema (a obesidade, o colesterol, etc.), mas nunca se
avança na discussão sobre suas raízes e a solução é sempre individual:
academia, caminhada, alimentos saudáveis, etc. Isso requer ações individuais,
muitas vezes sob a forma de sacrifício. O indivíduo não pode comer o que gosta
ou quer, ele é constrangido a frequentar academia, etc. Esse processo, por sua
vez, gera nova insatisfação, ansiedade, etc. Se ele fracassa, é acometido pelo
sentimento de culpa; se tem sucesso, resolve um desequilíbrio orgânico muitas
vezes à custa de um desequilíbrio psíquico.
Uma outra racionalização, complementar, é a da
medicalização, que está vinculada aos interesses capitalistas mais diretamente,
pois serve para incentivar a reprodução ampliada do mercado consumidor e
renovação do consumo. A medicalização é uma manifestação da mercantilização da
saúde (Marques, 2023). A reprodução ampliada da produção capitalista que gera a
necessidade de reprodução ampliada do mercado consumidor. O capital tabagista
precisa vender cigarros; o capital farmacêutico precisa vender remédios; as
empresas que produzem bebidas alcoólicas, produtos alimentícios condenados,
etc., também precisam vender suas mercadorias. E, para isso, fazem propagandas
ou usam outros métodos da mercadotecnia (“marketing”). Nesse contexto, se
financiam pesquisas científicas e prolifera um processo de propaganda e
contrapropaganda que somente os ingênuos acreditam e aqueles que acreditam em
todas, ficarão sem se alimentar, pois todos os alimentos supostamente possuem
problemas, o que diminui drasticamente a confiabilidade da ciência envolvida
nos interesses do capital e na competição intercapitalista. O capital
farmacêutico, por sua vez, “inventa doenças” para lucrar com a venda de
remédios (Viana, 2025). A produção capitalista de alimentos “condenados”
convive com a produção capitalista de alimentos supostamente “saudáveis”, seja
os comuns (como verduras e frutas, que, no entanto, estão contaminadas por
agrotóxicos), sejam os “especiais” (e mais caros, como os chamados “alimentos
orgânicos”). E cada um atinge um nicho de mercado consumidor específico.
Na sociedade capitalista houve a expansão, contemporaneamente, da dubiedade
informativa, o que torna extremamente difícil distinguir entre a verdade e
a mentira, a ilusão e a realidade, o exagero e a precisão, o humorístico e o
real, e isso se intensificou com o advento da internet, tecnointeligência (a
chamada “inteligência artificial”), emergência de discursos subjetivistas,
irracionalistas e relativistas, bem como, a nível mais popular, as ideias de
“pós-verdade”, “fake News”, “negacionismo”, etc. A racionalização assume,
assim, diversas formas e uma multiplicidade interpretativa que gera mais
confusão e incertezas do que saber sólido sobre a realidade.
Ao lado do autocontrole racional, o controle afetivo é
algo cotidiano no capitalismo contemporâneo. A racionalização da vida amorosa,
das emoções, é outro elemento problemático que acompanha a escalada
mais-repressiva[2]
do capitalismo contemporâneo. O capital desenvolveu esse processo de controle
afetivo para atender aos seus interesses, pois, no processo de trabalho, onde
se extrai mais-valor e se garante o lucro e acumulação de capital, percebeu que
não bastava as formas de controle racional (como os famosos “incentivos
materiais” do taylorismo, por exemplo). E isso vale tanto para o trabalho
produtivo quanto para o improdutivo, pois ambos geram lucro (Viana, 2018).
Um passo adiante precisava ser dado e esse seria
integrar o trabalhador afetivamente (além de racionalmente) no trabalho. Depois
disso, a ideologia da “inteligência emocional”, entre outras concepções, emerge
e se populariza, passando a ser indicada para o processo de trabalho e para o
processo educacional. Sem dúvida, o controle afetivo já era praticado, mas era
algo secundarizado e agora se torna cada vez mais priorizado, pois ele gera
muito mais engajamento e dedicação do que o incentivo racional. A preocupação
com detalhes, a mudança de discurso (o empregado passa a ser chamado de
“colaborador”, por exemplo), a ideologia da inteligência emocional, o uso de
psicologia e psicanálise, o coaching, etc., são alguns dos mecanismos
internos utilizados em empresas, que são reforçados por outros, externos e que
são repassados pelos meios oligopolistas de comunicação (capital
comunicacional), internet e redes sociais virtuais, psicólogos, coaches,
etc.
O conceito de afetividade foi desenvolvido em outra obra (Viana, 2024) e
reúne dois fenômenos psíquicos, as emoções e os sentimentos. Não poderemos
desenvolver a diferença entre esses dois termos aqui (cf. Viana, 2024; Viana,
2023), mas tão somente explicitar que as emoções são passageiras e os
sentimentos são duradouros, e por isso a raiva é uma emoção e o ódio é um
sentimento (Viana, 2024). O controle afetivo é tanto das emoções (visando
evitar comportamentos geradores de conflitos e problemas, gerados por raiva,
por exemplo) quanto dos sentimentos (aqui, no caso, não significa impedir sua
existência, mas sim sua manifestação, como, por exemplo, o ódio). É preciso
esclarecer que tal concepção nada tem a ver com os ideologemas dos “afetos” que
virou modismo em certo setor da sociedade e cuja origem remete ao paradigma
subjetivista.
A mercadotecnia (para os adeptos do inglês, o
“marketing”) foi mobilizada para garantir uma fatia do mercado consumidor
composto por setores intelectualizados[3] (tão
manipuláveis e manipulados quanto os demais) e progressistas da sociedade, com
as teses do consumidor “consciente”, “cidadão”, “politicamente correto”,
“ecológico”, “sustentável” e criaram desde o “selo amigo da criança” até os
“alimentos funcionais”[4],
entre outras formas de manipular um nicho de mercado consumidor daqueles que se
julgam mais “inteligentes” do que os demais.
[1]
Esse processo de racionalização foi percebido de forma mais desenvolvida
inicialmente por Max Weber (1987). Bourdieu ao tratar dos campos também
apresentou elementos sobre esse processo, mesmo sem usar tal termo (1989). O
vínculo da racionalização com a mercantilização e burocratização se manifesta
sob várias formas, desde o formalismo burocrático até o cálculo mercantil
(Viana, 2017).
[2]
Em obras anteriores, a partir de um confronto com as ideias de Marcuse (1988),
colocamos a questão da mais-repressão, como uma repressão excedente, uma
intensificação da repressão – no sentido psicanalítico do termo, embora não
exatamente no sentido freudiano – existente na sociedade, o que vai além do
suportável pelos indivíduos (Viana, 2008).
[3]
Intelectualizado, aqui, não significa “inteligente”, e sim pessoas com formação
escolar e bagagem cultural que pressupõe acesso a conjunto de informações e
elementos complementares (e variáveis individualmente e profissionalmente) como
saber técnico, científico, filosófico, teológico, etc. incluindo tanto a
intelectualidade, a burguesia, e os extratos superiores da burocracia, bem como
alguns “ascendentes” de outras classes sociais que, por exemplo, acessam
universidades (com suas diferenças de qualidade), ensino técnico, etc.
[4]
O capitalismo é pródigo em produzir pseudossoluções que são novos problemas, e
a versão “zero” de determinados refrigerantes (que são ainda mais prejudicais à
saúde), bem como a tecnologia antipoluente que gera poluição, são bons exemplos
disso.
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