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sábado, 20 de dezembro de 2025

POSFÁCIO À SEGUNDA EDIÇÃO DE "HERÓIS E SUPER-HERÓIS NO MUNDO DAS HISTÓRIAS EM QUADRINHOS"


 Texto de atualização para os que possuem as edições anteriores da obra "Heróis e Super-Heróis no Mundo dos Quadrinhos".

POSFÁCIO À SEGUNDA EDIÇÃO

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A reedição do presente livro depois de quase vinte anos depois mostra que a reflexão sobre o mundo dos super-heróis é não somente atual, como precisa avançar e se desenvolver. Nascido como um artigo e depois transformado em livro, a presente obra tematiza a questão dos heróis e super-heróis como manifestação cultural, focalizando seu caráter axiológico e como manifestação do inconsciente coletivo. Quando foi publicado originalmente como artigo, em 2001, foi a minha primeira abordagem sobre o gênero da superaventura e significou o início de diversas pesquisas sobre histórias em quadrinhos.

A presente edição sofreu revisão formal, alguns poucos acréscimos de parágrafos e notas de rodapé, revisão lexical, atualização bibliográfica. Alguns equívocos informacionais e problemas formais foram resolvidos. Resolvemos acrescentar também um outro artigo, como anexo, pois trata da mesma temática dessa obra, mas aborda uma personagem específica, a Mulher-Maravilha, super-heroína da DC Comics. O texto analisa a questão do inconsciente coletivo feminino e da ambiguidade de valores transmitidos por esta personagem, sendo um bom complemento à discussão mais geral e teórica abordada no presente livro. Esse artigo foi publicado originalmente nos Anais do I Encontro Nacional de Estudos Sobre Quadrinhos e Cultura Pop, realizado na UFPE (Universidade Federal do Pernambuco, em Recife, no ano de 2011 e foi republicado em obra organizada por Amaro Braga Jr. e Valéria F. Silva, intitulada “Representações do Feminino nas Histórias em Quadrinhos”, publicada em Maceió, pela EDUFAL (Editora da Universidade Federal de Alagoas), em 2015. Assim como os capítulos do livro, o artigo recebeu revisão formal e lexical, alguns poucos acréscimos e atualização bibliográfica.

O conjunto dos textos aqui apresentados enfatiza a questão da axiologia e do inconsciente coletivo nos gêneros aventura e superaventura, mostrando, por um lado, aquilo que é consciente e intencional na produção quadrinística nesses gêneros, que é o seu lado predominantemente conservador e, por outro, aquilo que é manifestação inconsciente e que expressa o que é contestador, pois mostra os anelos dos seres humanos (incluindo os quadrinistas) por liberdade.

A presente edição não realizou grandes alterações. Apenas alguns poucos parágrafos e notas de rodapé foram acrescentadas. Além disso, a revisão formal resolveu alguns problemas. Uma outra modificação que merece ser citada e que assume importância para quem acompanha minhas obras, é a revisão lexical, que sempre foi um cuidado e a evolução do meu pensamento posterior fez rever o uso de certos termos. Além de um maior cuidado com a expressão “ideologia” e seus derivados, alguns termos foram substituídos, como, por exemplo, a palavra “desejo”, que foi substituída por “anelo”. A razão da substituição se deve à evolução do meu pensamento e a distinção, que ficou mais clara com as pesquisas e produções posteriores, entre “necessidade” e “desejo”. A expressão “desejo” (que tem como uma de suas fontes o pensamento de Freud, ao tratar dos “desejos reprimidos”) acabou sendo assimilada por determinadas ideologias e se tornou um problema e por isso, para esclarecimento intelectual e evitar confusões interpretativas, o termo “anelo” acaba sendo mais preciso e remete para as questões das necessidades humanas, se distinguindo dos meros “desejos”. As necessidades, como diz o nome, são elementos necessários para os seres humanos (tanto as necessidades primárias, que o ser humano compartilha com os animais – comer, beber, reproduzir, etc. – quanto as secundárias, que são especificamente humanas – socialidade e práxis), e os desejos são produtos sociais e históricos vinculados a uma época e sociedade, sendo, em sua maioria, contraditórios com a essência humana (ou seja, em relação às necessidades radicais – que são as primárias e secundárias). O indivíduo pode desejar comprar roupa nova toda semana ou pode desejar viajar para rever os pais por causa de saudade, mas apenas no segundo caso isso pode ser um anelo, ou seja, um anseio vinculado às necessidades psíquicas (vinculado ao sentimento de saudade) e condizente com a necessidade de socialidade.

Outra mudança lexical se encontra no título da presente obra. O título original do livro era “Heróis e Super-Heróis no Mundo dos Quadrinhos”. Agora o título coloca “no mundo das histórias em quadrinhos”. Infelizmente o título ficou mais extenso, mas se tornou uma necessidade por causa da precisão conceitual adquirida após pesquisas e reflexões. O termo “quadrinhos” é impreciso e trata mais da forma do que do conteúdo. Quando escrevemos um artigo intitulado “As Histórias em Quadrinhos como Forma de Arte[1], distinguimos “quadrinhos” e “histórias em quadrinhos”. Quadrinhos é apenas o uso de aspectos formais das histórias em quadrinhos, como os quadros, balões de diálogo e pensamento, onomatopeias, etc. Assim, se uma empresa contrata um desenhista para fazer um trabalho de usar esses aspectos formais para fazer propaganda de suas mercadorias (ou então, como já ocorreu efetivamente, se usa personagens existentes, como a Turma da Mônica, para propaganda educacional), não se trata de histórias em quadrinhos, de ficção, de arte. Para esse uso, o termo “quadrinhos” é aceitável. Agora, para o mundo ficcional é necessário o uso do termo “histórias em quadrinhos”. Esse é o motivo da mudança do título da presente obra[2].

Esperamos que essa nova edição consiga o mesmo espaço que a anterior, ou até mais, pois agora o processo de distribuição está mais eficiente. As reflexões apresentadas continuam atuais e, embora após o seu lançamento surgiram outras contribuições que exploraram aspectos aqui trabalhados, elas ajudam a pensar as histórias em quadrinhos como produtos culturais complexos, que envolvem valores, ideias, manifestações psíquicas, e os conceitos de axiologia, axionomia, ideologema, inconsciente coletivo, são importantes para entender esse complexo fenômeno cultural que são as histórias em quadrinhos.

Apesar da presente obra lançar vários elementos para se pensar as histórias em quadrinhos, ainda há muitos outros aspectos a serem trabalhados e já esboçamos alguns deles em outras obras, mas muitos ainda precisam ser englobados e outros precisam ser aprofundados. Esperamos que o leitor possa extrair da leitura da presente obra novas reflexões e realizar novas relações com outras produções quadrinística e casos concretos. Se proporcionar isso, já é um passo importante e cumpre com um dos seus objetivos. Enquanto lançamos a presente obra já olhamos para o horizonte de possibilidades para dar os próximos passos na pesquisa sobre histórias em quadrinhos e assim oferecer novas contribuições com a análise desse fenômeno cultural de suma importância na história cultural da modernidade.

 

Nildo Viana

26/02/2024



[1] Essa questão tem uma outra reflexão teórica que a antecedeu, que é uma reflexão sobre o conceito de arte, obra de arte e esfera artística. Porém, evitaremos citar mais obras no presente posfácio.

[2] E isso fatalmente vai ocorrer na reedição de outra obra, “Quadrinhos e Crítica Social: O Universo Ficcional de Ferdinando” (Rio de Janeiro, Azougue, 2013), pois a mesma substituição ocorrerá.


sexta-feira, 19 de dezembro de 2025

PREFÁCIO À TERCEIRA EDIÇÃO DE "A CONSCIÊNCIA DA HISTÓRIA"

 


Texto de atualização para quem possui as edições anteriores dessa obra.

PREFÁCIO À TERCEIRA EDIÇÃO

A Consciência da História 17 anos depois

 

Essa nova edição de A Consciência da História vem para poder tornar novamente acessível esta obra, lançada originalmente em 1997 e reeditada em 2007. No prefácio à segunda edição, tratamos da questão da atualidade e validade da obra. A esse respeito, nada mudou e por isso não retomaremos isso aqui.

O que nos propomos aqui é explicar algumas reflexões sobre a obra e o momento atual. Os ensaios que compõem o livro começaram a ser escritos a partir de 1992, dentro de um contexto histórico e pessoal delimitado. Além de um processo de formação intelectual, que, avidamente lia as obras de Marx, Korsch e alguns outros, também lia o que não gostava e buscava refutar, tal como os representantes do leninismo, por um lado, e os representantes do pensamento conservador, por outro. Assim, além da afirmação sobre o que é o materialismo histórico e o método dialético e reflexões sobre seus elementos constitutivos, o leitor vai ler várias críticas ao leninismo, ao estruturalismo e outras ideologias.

Esse é o pano de fundo dos ensaios aqui reunidos e, em parte, sua motivação. Por um lado, a vontade do autoesclarecimento sobre a história, a sociedade, o materialismo histórico, o método dialético, a revolução proletária, a autogestão, etc. e, por outro, a refutação do leninismo e outras ideologias (especialmente uma crítica à ciência). A radicalidade das ideias expostas nestes ensaios estava de acordo com a mentalidade de quem escreveu, bem como estava coerente com suas principais fontes de inspiração (Marx e Korsch), embora noutro contexto histórico e por isso podendo avançar em certos aspectos. Já se esboçava, ao mesmo tempo, uma crítica aos novos ideólogos que se tornariam cada vez mais influentes nos anos e décadas seguintes, representantes do subjetivismo.

Consideramos que a evolução do nosso pensamento não se alterou. Não houve nenhuma mudança drástica. O que ocorreu, no fundo, foi desenvolvimento e aprofundamento. Algumas ideias que aqui aparecem de forma secundária e rudimentar, como a oposição entre o pensamento burguês e o pensamento marxista, vai, posteriormente, ganhar obras nas quais há um desenvolvimento e aprofundamento, através da teoria das epistemes. A radicalidade, por sua vez, não diminuiu. Ao contrário, aumentou. Embora na presente obra exista uma crítica radical da ciência e um início de crítica ao subjetivismo, ela se torna ainda mais profunda com o desenvolvimento das pesquisas e reflexões posteriores. Sinais de moderação qualquer leitor atento poderá ver em algumas obras posteriores (bem como o contrário, dependendo da obra), mas também, se for alguém que saiba efetivar uma contextualização, saberá que o contexto social fez recuar alguns elementos para poder ter mais eficácia social, pois um pensador revolucionário sempre se defronta com o dilema de dizer a verdade nua e crua e o isolamento que isso provoca, por um lado, e a necessidade de comover parte da população para essa aderir ao projeto revolucionário e a cautela que é preciso ter com alguns setores da sociedade, isso sem falar nos obstáculos institucionais, questões pontuais, etc. Às vezes a vontade domina e a radicalização se expressa, às vezes a estratégia domina e se evita certa radicalização. Porém, mesmo nas obras mais moderadas, a coerência e radicalidade básicas se mantém, às vezes complementadas por ironias e críticas mais sutis.

Em relação à segunda edição, que foi revista e em alguns aspectos formais melhorada, mas ainda manteve problemas formais (alguns meramente gramaticais e outros que já possuem mais influência no conteúdo), realizamos nova revisão, embora breve, pois o momento em que ocorreu foi durante um processo de preparação de obras mais desenvolvidas que abordavam temas aqui trabalhados[1]1. A ideia de lançar a nova edição, que já vinha sendo solicitada e pensada há alguns anos, bem como realizar uma breve revisão, se deu nesse contexto, no qual, para realizar o aprofundamento de diversas questões aqui levantadas (algumas desenvolvidas razoavelmente, outras apenas citadas, algumas esboçadas), seria necessário a releitura para recordar o estágio de pensamento e desenvolvimento da época de sua primeira edição.

A presente edição possui, portanto, algumas alterações formais. Além das corriqueiras, como a revisão gramatical, há algumas mudanças em trechos, que foram reescritos para ganhar maior clareza, alguns poucos acréscimos e uma pequena atualização bibliográfica. A dúvida em deixar a obra como estava, alterando apenas os aspectos formais, ou atualizar completamente foi resolvida com a opção de fazer uma breve revisão geral, sem realizar grandes alterações. Realizar grandes alterações acabaria gerando outra obra, e transformaria os que originalmente eram ensaios em textos mais desenvolvidos. O leitor das edições anteriores poderá notar que a presente edição, apesar de ter recebido uma revisão rápida e básica, resolveu alguns problemas formais que impactam na compreensão do conteúdo, bem como alguns trechos melhorados que facilitam a compreensão.

Nesse sentido, se passaram 17 anos da segunda edição e 27 anos da primeira edição. Como os ensaios publicados originalmente em 1997 foram escritos algum tempo antes, entre 1992 e 1995, o que significa entre 29 e 32 anos. E, apesar de tudo, continua atual. Apesar do foco não ser o paradigma subjetivista e as ideologias contemporâneas, a obra já apresenta uma crítica a alguns elementos dessas concepções (e outros elementos estarão ainda mais presentes no livro Introdução ao Materialismo Histórico, obra que foi escrita a partir dessa e foi, posteriormente, engavetada e em breve receberá uma edição). Hoje predomina o subjetivismo, o irracionalismo, o relativismo. A obra pouco aborda essas concepções e focaliza sua crítica no objetivismo, no determinismo, etc. Porém, ao lado da crítica do objetivismo e determinismo, se observa que não cai nos seus pares antinômicos. A própria ideia de uma “consciência da história” já é uma crítica do subjetivismo e seus produtos derivados. A razão disso é encontrado no fato de que o marxismo expressa uma episteme antagônica à episteme burguesa e todas as formas (paradigmas e ideologias) que essa assume, pois é um antagonismo essencial. Nesse sentido, a presente obra é um antídoto contra a episteme burguesa e suas manifestações atuais, o paradigma subjetivista hegemônico e as ideologias contemporâneas.

O materialismo histórico e o método dialético são fundamentais para a compreensão da sociedade atual e das sociedades do passado, bem como para vislumbrar a sociedade do futuro. Os ensaios aqui reunidos apontam para uma introdução geral ao materialismo histórico e ao método dialético, rompendo com suas deformações e confrontando os seus oponentes, e isso justifica sua terceira edição.



[1] Trata-se de duas obras em preparação, uma sobre análise dialética do discurso e outro sobre dialética.


quinta-feira, 18 de dezembro de 2025

PREFÁCIO À QUARTA EDIÇÃO DE "ESCRITOS METODOLÓGICOS DE MARX"

 


Texto de atualização para os que possuem as edições anteriores da obra "Escritos Metodológicos de Marx".


O presente livro foi publicado originalmente em 1998 em sua primeira edição, com tiragem limitada e qualidade gráfica baixa, devido a um conjunto de problemas oriundos do contexto. As outras duas edições já tinham uma qualidade gráfica bem superior. No que se refere ao conteúdo, da primeira para a atual edição não houve grandes mudanças. Além de revisão formal e talvez um ou outro acréscimo, pouco mudou. A interpretação e análise da obra de Marx no plano metodológico continua a mesma, apenas com alguns aperfeiçoamentos em aspectos pontuais e formais.

A presente edição também segue o caminho anterior, já que sofreu uma revisão formal e teve alguns poucos acréscimos e reformulações pontuais, bem como atualização bibliográfica. Essa nova edição ocorre por uma demanda devido ao fato da última edição estar a muitos anos esgotada e só agora pudemos lançar essa reedição.

Ela continua válida, não somente por ser uma breve análise dos escritos metodológicos de Marx, mas, principalmente, por resgatar a dialética do lamaçal ideológico do pseudomarxismo e das interpretações cientificistas e deformadoras, bem como trazer de volta sua radicalidade perdida, pois esta é fundamental para a pesquisa e a luta social. Aliás, um dos méritos da presente obra é tratar o pensamento de Marx superando o academicismo e o politicismo, produtos dos especialistas da academia e da política profissional (inclusive dos estudantes e ativistas semiamadores) e suas “bolhas”, para usar expressão contemporânea, e reducionismos. Uns, recusam a teoria, a pesquisa, a reflexão, se refugiando no argumento sórdido da “prática como critério da verdade”, mais uma deformação do pensamento de Marx e da dialética; outros, recusam a política, as questões sociais, as lutas sociais, os interesses, os valores, em nome de uma desumana, coisificante e conservadora apologia da ciência e da neutralidade.

Nem ação sem reflexão, nem reflexão sem ação. O próprio cerne do marxismo é a unidade entre ação e reflexão, ou seja, a práxis. A práxis é uma necessidade e aspiração humana. Ela é a base da luta pela transformação social, unindo a luta e a consciência, coisas inseparáveis e que somente os arautos da miséria política e intelectual podem defender a separação. Em qualquer ação há uma finalidade, por menos refletida que seja. A práxis do marxismo é revolucionária. A práxis revolucionária, por sua vez, é mais do que a unidade entre ação e reflexão. A práxis revolucionária só pode ser a ação revolucionária unida com uma consciência revolucionária a partir de um projeto revolucionário.

É por isso que obras como esta se tornam necessárias, pois é preciso rememorar que a dialética marxista é revolucionária, ou não é nada, para parafrasear Marx. Isso espanta os academicistas e maioria da intelectualidade. Afinal, segundo eles, o saber não pode ser político, comprometido, engajado. No fundo, essa afirmação quer simplesmente dizer que o saber não deve ser nada, ou deve ser nulo, como a maioria esmagadora das produções intelectuais em nossa sociedade.

Isso também espanta os politicistas, praticistas e maioria dos ativistas, políticos profissionais e burocratas sindicais e partidários. Afinal, segundo eles, a prática, a política, são os meios para “transformar” o mundo. Essa ideia, por sua vez, revela apenas o que Marx denominou “o idiotismo da especialização” em sua versão politicista e revela que a ação política dos seus defensores deve ser estéril, tal como é a produzida pelos partidos, sindicatos e outras organizações civis progressistas.

Sem dúvida, seria possível realizar críticas ao intelectualismo ou ao praticismo, mostrando seus limites intrínsecos, tais como a redução da “prática” ao ativismo e burocratismo especializado dos partidos e sindicatos ou a redução do “saber” a um conjunto de procedimentos formais com seus resultados inúteis[1].

Porém, o presente livro é um antídoto a esse academicismo e praticismo, inclusive por revelar os interesses e vínculos sociais por detrás de todas as ideias, por mais estapafúrdias que elas sejam. Quem defende o academicismo e intelectualismo? Os intelectuais, cientistas “neutros” e demais especialistas do trabalho intelectual. Quem defende o praticismo e o politicismo? Os ativistas, políticos profissionais e burocratas partidários e sindicais. Logo, como diz o ditado popular, “cada um puxa a sardinha para o seu lado”. Quem não faz isso é marginalizado, caluniado, isolado, etc.

E o autor da presente obra, também não defende os seus próprios interesses? O autor do presente livro também está vinculado a interesses. A questão é que são outros interesses. Não são interesses de trabalhadores intelectuais preocupados em mostrar sua superioridade, justificar e legitimar suas profissões, ações, produtos, renda. Também não são os interesses dos políticos profissionais e seus semelhantes e seguidores, preocupados em exercer influência sobre os outros para ganhar votos, apoio, etc.

Nesses casos, o interesse pessoal e o interesse coletivo estão em plena correspondência: o interesse do intelectual isolado é o interesse da classe intelectual, valorar o saber, a ciência, etc., para, assim, ser valorado socialmente (o que justifica aumentos salariais, cargos, vantagens, etc.); o interesse do político profissional e semelhantes é ganhar a eleição, cargos, espaços políticos, etc. e para isso, valorar a política e a prática é fundamental.

É impossível ao intelectual realizar ação política ou ao ativista político realizar reflexões intelectuais? Não, mas é difícil e não está em suas prioridades, pois a dedicação será ao prioritário para eles e este se vincula às suas escolhas pessoais, políticas e profissionais, bem como valores, ambição, etc. Alguns conseguem, como alguns intelectuais ambíguos (como é o caso dos intelectuais ambíguos que ficam entre o partido e a universidade, ou outros que ficam entre a igreja e a academia).

E quais são os interesses do autor do presente livro? Não seriam os mesmos? Quem com certo nível de consciência e quer reconhecimento intelectual, ganhos financeiros, etc., escreveria um livro com a radicalidade deste e sobre Marx e a dialética? Da mesma forma, no mesmo contexto, quem que quer cargos, votos, dinheiro, etc., ia publicar uma obra como esta? Sem dúvida, como já dizia Marx, e é citado nessa obra, “naturalmente, o escritor deve ganhar dinheiro para poder viver e escrever, mas, em nenhum caso, deve viver e escrever para ganhar dinheiro”. A questão, para quem parte da perspectiva revolucionária, é que os interesses pessoais não podem ser a prioridade e estar acima dos interesses da classe proletária, da luta pela transformação social.

Não é necessário dizer que o autor dessas linhas poderia muito bem escrever obras superficiais sobre temas da moda de forma acrítica e assim ganhar sucesso, reconhecimento intelectual e até mesmo dinheiro. Ou, então, escrever manuais superficiais para ativistas políticos e ganhar um reconhecimento intelectual no âmbito dos meios políticos progressistas. Assim, cada um escolhe o seu caminho a partir dos seus valores fundamentais, sentimentos mais profundos, concepções mais arraigadas, e dos interesses vinculados a eles, e isso corresponde a determinados interesses de classe. Disto se depreende que todos possuem interesses, a questão é que tais interesses podem ser mais nobres ou mais pobres, bem como eles exercem efeitos sobre a consciência e as ideias produzidas. Da mesma forma, as raízes sociais do pseudomarxismo acadêmico e do pseudomarxismo dos partidos políticos são explicitadas. Cada um interpreta Marx e o marxismo a partir dos seus interesses.

É por isso que a discussão sobre a perspectiva do proletariado é fundamental e recebe um destaque importante na presente obra e está totalmente ausente na quase totalidade das obras sobre “dialética”. E esse é um dos motivos pelos quais uma nova edição da presente obra se justifica.

A perspectiva é também importante no processo de interpretação e análise das obras, não só a de Marx, mas de toda e qualquer produto cultural. A presente obra, por exemplo, já foi interpretada sob várias formas. A mais curiosa foi a de um estudante que “identificou” traços de “weberianismo” na mesma. Sem dúvida, não apenas os interesses agem no processo interpretativo, mas também a bagagem cultural, as informações, o grau maior ou menor de reflexão, o que pode promover, mesmo que o leitor tenha a perspectiva do proletariado ou boas intenções, a possibilidade de má interpretação e compreensão.

A ideia de “perspectiva” nada tem de weberiana, nem de nietzschiana. Semelhanças superficiais não abolem diferenças fundamentais. A perspectiva que aparece aqui não é a do indivíduo como “sujeito”, não é a da elite, e nem é algo desprovido de raízes sociais, sendo produto histórico e social. Aqui ela é vinculada às classes sociais. Isso é bem distinto do que se encontra em Weber ou Nietzsche, embora o primeiro discuta elementos que podem ser relacionados com a ideia de “perspectiva” e o segundo trabalha com o que alguns de seus intérpretes denomina “perspectivismo”. Assim, o conceito de perspectiva, aqui desenvolvido (mesmo nas edições anteriores, na qual faltava maior clareza sobre seu significado e havia problemas lexicais), nada tem a ver com a concepção desses autores. Inclusive pelo motivo de que eles partem de uma perspectiva de classe antagônica à nossa. Além disso, é necessário esclarecer que os termos não são monopólios de um ou outro autor que os utilizaram, pois o sentido de uma palavra num autor ou obra só pode ser compreendido a partir de como é trabalhado e definido na totalidade de pensamento que eles expressam.

A ideia de perspectiva de classe está presente no pensamento de Marx sem o uso do termo, ou seja, não formalmente, mas substancialmente, assim como emerge também nos escritos de Korsch e do “jovem Lukács”, entre outros marxistas. Se o leitor quer realmente compreender Marx ou este livro, deve entender os termos utilizados a partir dos sentidos atribuídos pelos seus autores e não os que são imputados por outros autores. Esse é um dos elementos que formam um bom leitor.

Porém, para não adiar o início da leitura, encerramos esse prefácio colocando a necessidade da compreensão da dialética marxista e da totalidade de pensamento no qual ela se insere (o marxismo) para poder compreender a realidade e agir mais eficaz e eticamente sobre ela. A presente obra realiza uma introdução aos escritos metodológicos de Marx e, por conseguinte, à dialética marxista, buscando despertar o interesse e oferecer uma leitura inicial que precisa ser complementada pelas leituras das fontes e obras de aprofundamento.




[1] Claro que estamos, nesse caso, tratando do “baixo clero”, pois esses são os principais responsáveis por estes discursos. Sem dúvida, eles existem também, no “alto clero”, âmbito dos ideólogos que buscam sistematizar estas ideias, mas nesse caso se usam argumentos mais complexos dos que os tagarelas que atuam em redes sociais virtuais e nos meios políticos e acadêmicos.

quinta-feira, 29 de maio de 2025

Educação e Dialética: A contribuição da dialética para a formação intelectual (Minicurso)

Educação e Dialética: A contribuição da dialética para a formação intelectual (Minicurso)



MC02: Educação e Dialética: A contribuição da dialética para a formação intelectual 
Ministrante: Nildo Viana (UFG)

A partir do desenvolvimento realizado por Marx, a dialética se transformou num método fundamental para a compreensão da realidade. Por conseguinte, a dialética deveria ter tido um forte impacto nas concepções pedagógicas e técnicas de ensino. Porém, isso requer uma compreensão mais ampla da dialética como método, com todos os seus pressupostos e recursos, bem como sua adaptação ao processo educacional. Esse processo enfrenta o obstáculo da hegemonia da episteme burguesa, antidialética, e ideologias hegemônicas. Isso torna resgatar o verdadeiro significado da dialética e sua contribuição ao processo de ensino-aprendizagem. Na contemporaneidade, na qual a internet permite uma enorme gama de informações, é fundamental uma formação crítica para trabalhar com elas, através de uma análise dialética e um processo de abordagem genética, analítica e sintética. A compreensão da formação das categorias, conceitos, processo de abstração e concreção, deve ser materializada no processo educacional.

Informações e Inscrições:


Veja também, no mesmo evento:

Mesa Redonda:



GT: Dilemas da Educação na Sociedade Contemporânea:


2º Congresso Internacional e Multidisciplinar de Educação: Educação e Cidadania na Era da Desinformação tem apoio do GPDS - Grupo de Pesquisa Dialética e Sociedade/FCS-UFG.


terça-feira, 27 de maio de 2025

O Marxismo diante da geografia e do anarquismo

 O marxismo diante da geografia e do anarquismo

Live no Youtube



DIA 27 DE MAIO, TERÇA-FEIRA

19 HORAS

Link para acesso: https://www.youtube.com/live/y_7hYvMWVQc 


segunda-feira, 26 de maio de 2025

Os campos mentais de uma episteme - 1a parte

 OS CAMPOS MENTAIS DE UMA EPISTEME (1a PARTE).



O texto abaixo é um trecho do livro "O Modo de Pensar Burguês - Episteme Marxista e Episteme Burguesa" (Curitiba: CRV, 2018). A compreensão mais adequada e profunda do texto pressupõe a leitura da obra em sua totalidade. O trecho abaixo tem a introdução da parte sobre os "campos mentais" e a discussão sobre um dos campos mentais, que é o axiomático. Para compreender melhor o texto, é aconselhável, a leitura da parte anterior, que pode ser acessada clicando aqui.


Os Campos Mentais

Antes de continuar, é preciso esclarecer o significado de um termo que será bastante utilizado aqui, que é o conceito de campo. Iniciaremos explicitando o significado da categoria campo e depois passaremos para o conceito de campo[1]. Um campo é um conjunto coerente que possui uma estrutura, formada por seus elementos básicos e determinantes, e elementos derivados, formando uma totalidade, que pode ser fechada ou aberta, dependendo das características próprias de cada campo. Isso significa dizer que o campo é uma forma de expressar os fenômenos, mostrar suas características, estrutura e fronteiras. Um campo não existe isolado no universo e por isso possui mecanismos de inclusão e exclusão em relação a outros campos e a tudo que é externo[2].

O termo campo aqui é utilizado como um conceito. Trata-se de campos mentais ou campos constitutivos do pensamento. A realidade concreta que abordamos com o conceito de campo é o pensamento e suas partes constitutivas. Os campos constitutivos do pensamento em seu conjunto formam a episteme[3]. Uma episteme, para existir, constitui alguns campos específicos, como o linguístico (que inclui o campo lexical e semântico), o analítico, o axiomático, o perceptivo. A episteme constitui um modo de pensar através de diversos campos que se organizam coerentemente (com possíveis incoerências em suas manifestações concretas), bem como o seu entendimento permite explicar esse processo.

O campo linguístico é a estrutura formal de uma episteme composto pelo campo lexical e pelo campo semântico. A expressão campo lexical significa um conjunto coerente de signos que possuem uma estrutura e constitui uma totalidade que tem características próprias e fronteiras delimitadas. O campo semântico é o conjunto coerente de significados que possuem uma estrutura e constitui uma totalidade com características próprias e fronteiras delimitadas. O campo analítico é o que estabelece relações e processo de formação do pensamento. O campo axiomático é o conjunto de valores que constitui a base valorativa de determinado pensamento. O campo perceptivo é o conjunto dos fenômenos que, a partir dos demais campos mentais, podem ser percebidos e, por conseguinte, podem ser analisados, captados ou gerados.

A episteme é um modo de pensar específico e, portanto, cada episteme gera formas distintas de pensamento. É fundamental entender como a episteme exerce uma determinação formal sobre as formas de consciência. Os mecanismos epistêmicos que realizam esse processo de determinação são o axiomático, o linguístico, o analítico e o perceptual. Esses quatro campos mentais são os elementos constitutivos de uma episteme. Vamos, a partir de agora, abordar cada um destes campos mentais.

O Campo Axiomático

O mecanismo epistêmico mais poderoso é o axiomático. O campo axiomático é uma parte da episteme (e também dos paradigmas, ideologias, etc., como mostraremos adiante) que expressa os seus valores, o que significa que também expressa os seus desvalores, explicitando, assim, os seus interesses. É necessário compreender que “o valor é algo significativo, importante, para um indivíduo ou grupo social. Os valores, por conseguinte, são o conjunto de ‘seres’ (objetos, ações, ideias, pessoas, etc.) que possuem importância para os indivíduos ou grupos sociais” (VIANA, 2007a, p. 13)[4].

Os valores podem ser autênticos e universais, correspondentes à natureza humana, que assumem a forma de axionomia, ou podem ser históricos, transitórios, particularistas, expressando os interesses de determinadas classes sociais em determinadas formas de sociedade e assumindo a forma de axiologia (VIANA, 2007a). Por conseguinte, um campo axiomático com base axiológica é um obstáculo para o desenvolvimento da consciência e um outro com base axionômica é um incentivo para a ampliação do saber.

Os valores estão intimamente ligados aos interesses. Eles são a forma de manifestação dos interesses. Se alguém valora a música, por exemplo, isso está ligado aos seus interesses, seja de alguém que é um criador musical (e, no caso do capitalismo, isso significa que pode ser não apenas um processo de prazer criativo, mas também um meio de sobrevivência e/ou enriquecimento financeiro) ou apenas de alguém que gosta de ouvir músicas. Qual é o interesse no segundo caso? Nesse caso, o prazer em ouvir música. Pode existir um prazer na produção, bem como pode haver um prazer na audição. Os valores se manifestam, nesse caso, através do gosto pela música e de sua avaliação de músicas, gerando o gosto musical. Quando um indivíduo produz uma música para realizar sua criatividade ou ouve por sentir prazer nessa atividade, então o valor é derivado de necessidades autênticas e isso, ao mesmo tempo, é um interesse do indivíduo. Os valores explicitam os interesses e ambos são produtos das necessidades e desejos dos indivíduos[5].

Os valores e os interesses são os mais fortes mobilizadores dos indivíduos e são derivados da condição social destes. No entanto, esse não é apenas uma questão individual. As classes sociais geram, devido ao seu modo de vida comum, interesses comuns, de acordo com sua posição na divisão social do trabalho e diante das relações de produção dominantes[6]. Esses interesses comuns geram, em muitos casos, valores[7]. Cada classe social vai gerar, tendo por base esses interesses comuns, um conjunto de valores. Assim, esses valores são a base do desenvolvimento do campo axiomático dos intelectuais e ideólogos em geral. Eles formam o campo axiomático da episteme em geral e dos paradigmas e ideologias derivadas, sendo que no primeiro caso são os interesses comuns da classe e nas produções intelectuais derivadas existem variações derivadas das subdivisões das classes sociais (desde as frações de classes até as idiossincrasias). O campo axiomático é mais definido no caso das classes sociais fundamentais, pois os interesses comuns dessas classes são antagônicos e permite um delineamento mais sólido. Porém, as classes exploradas durante a sucessão de sociedades de classes muitas vezes desenvolve, em certos setores, determinada consciência de seus interesses, mas somente no capitalismo foi possível uma consolidação desse processo, bem como a criação de um campo axiomático como base para o desenvolvimento de uma episteme, através do proletariado e seus representantes intelectuais.

Os seus valores assumem a forma de princípios e axiomas, o que gera um processo de censura, autocensura e proscrição. A censura é composta pelos desvalores, aquilo que deve ser condenado. Esse é o caso do que a teologia considera blasfêmia, pois atenta contra seu campo axiomático. A blasfêmia é condenada, censurada, e o nome é apenas a forma de se dizer que a ideia é condenável. Da mesma forma, a autocensura significa o ocultamento de atos (no caso, intelectuais) que não podem ser percebidos pelos outros, por ferirem o campo axiomático no qual se insere[8]. Um teólogo não pode, por exemplo, admitir dúvida sobre a existência de Deus, mesmo que isso ocorra em seu íntimo e fique implícito em determinados momentos em seus escritos e falas. A proscrição é o ato de banir determinadas ideias, afirmações, valores, o que pode gerar o banimento dos indivíduos que materializam essas ideias, afirmações, valores. Novamente a teologia é exemplar: as ideias de Giordano Bruno foram não só censuradas, como também proscritas e ele mesmo foi proscrito, por não ter se autocensurado e/ou retratado[9]. É através da análise do campo axiomático que se torna mais perceptível os vínculos sociais, interesses e valores por detrás de um campo analítico.

Os exemplos acima podem gerar alguns questionamentos. Um deles é o caso de Giordano Bruno. A razão de sua proscrição pode ser apenas uma divergência intelectual. Contudo, a divergência intelectual revela divergências valorativas e, nesse caso, ia além da questão referente ao universo (sua infinitude, etc.), pois remetia também às demais crenças de Bruno, que entravam em confronto com as da Igreja. Contudo, o que é revelador, para nossos propósitos, é que o campo axiomático dissidente de Bruno gera um campo analítico igualmente divergente e que sem o primeiro não haveria o segundo (embora este também possa interferir naquele)[10]. Da mesma forma, a unidade epistêmica, no caso entre campo analítico e axiomático (e também lexical, tal como se pode observar na própria palavra “infinito”, que ganha um significado novo e que gera um impacto na percepção do universo), se revela, pois um não existiria sem o outro.

Os interesses, expressos através dos valores, constituem a determinação fundamental do campo axiomático. Por exemplo, a verdade é um interesse das classes exploradas no decorrer da história e por isso a verdade aparece como um valor quando estas conseguem constituir uma episteme. No entanto, no caso das classes dominantes na história da humanidade, a verdade como totalidade não é de seu interesse. O interesse das classes dominantes é em verdades parciais e por isso produzem ideologias que possuem momentos de verdade, mas que são marcadas por uma essência e totalidade marcada por ilusões. O que é útil, necessário, benéfico, para a classe dominante, será, para esta, um valor. E isso remete à manutenção, reprodução e ampliação da exploração, dominação e tudo que é necessário para que isso ocorra. A verdade em sua totalidade não é interesse da classe dominante, mas ela também não pode dizer isso e por isso deve gerar uma concepção de verdade que expresse a parcialidade. Por detrás dos valores encontramos os interesses.

Se os interesses estão na gênese do campo axiomático, as relações entre as classes sociais, especialmente as classes fundamentais, é o que explica as suas formas de manifestação. Numa relação de dominação direta, a forma de manifestação do campo axiomático pode ser mais transparente. Em situações nas quais as relações entre as classes são mais conflituosas ou a correlação de forças é mais equilibrada, então a forma de manifestação tende a ser intransparente. Essas formas de manifestação estão intimamente ligadas às formas de autolegitimação. O campo axiomático busca autolegitimar os seus valores e, simultaneamente, deslegitimar os demais valores, tornando-os desvalores, ou procura pelo menos secundarizá-los. E para isso pode lançar mão da universalização (gerando o discurso segundo o qual os seus valores são universais) ou relativização (através do discurso da relatividade de todos os valores) ou, ainda, hierarquização (colocando os seus valores como superiores) e absolutização (tornando seus valores absolutos). Numa sociedade concreta, dependendo das suas divisões internas, pode haver mais de uma forma de legitimação ou mescla entre elas.

O sustentáculo da autolegitimação varia de acordo com a episteme e é um processo racional e que, portanto, remete ao campo analítico e linguístico. O sustentáculo pode ser tanto a superioridade de classe, a vontade divina, a natureza humana, a razão, a raça, a religião, etc. O sustentáculo da autolegitimação, no caso das classes dominantes, visa sublimar (tornar sublime) os seus valores, apagando os seus interesses, que ficam ocultos por detrás deles. Para tanto, criam-se diversas ideologias que buscam enfeitar a prisão das classes exploradas com belas flores.

O campo axiomático é o terreno onde brotam os saberes. Um campo axiomático pouco fértil, como é o das classes dominantes, gera limites intransponíveis[11]. Um campo axiomático muito fértil, incentiva ultrapassar os limites[12]. O saber que brota do campo axiomático das classes dominantes é extremamente limitado devido aos valores e interesses que são seu terreno e o saber que brota do campo axiomático que lhe é antagônico é ilimitado por causa dos valores e interesses que são sua fonte. Desta forma, podemos dizer que determinados campos axiomáticos limitam as condições de possibilidade do saber e o acesso à verdade e outros incentivam sua expansão ultrapassando todos os limites. Essa limitação do campo axiomático fundado na axiologia (determinada configuração dos valores dominantes) é um dos principais obstáculos para o desenvolvimento da consciência correta da realidade. Por outro lado, o campo axiomático fundado na axionomia aponta para um desenvolvimento ilimitado da consciência correta da realidade. Contudo, o campo axiomático não gera automaticamente determinada forma de consciência, pois isso depende de outras determinações, desde as relações sociais concretas até a hegemonia e contra-hegemonia existentes.



[1] A categoria, não custa lembrar, é uma ferramenta intelectual, utilizada para analisar a realidade, não sendo algo existente na realidade concreta, apenas no plano do pensamento como um instrumento de seu trabalho (VIANA, 2007b). O conceito, ao contrário, é expressão da realidade, ou seja, manifesta o que existe efetivamente. As categorias do pensamento são as mais variadas, como espaço, direita, esquerda, lugar, relação, etc. Uma categoria unida a um conceito pode torná-la concreta, como, por exemplo, espaço urbano (VIANA, 2002), no qual o espaço deixa de ser categoria para se tornar conceito ao ganhar concreticidade, ou seja, se tornar urbano e expressão de algo social realmente existente.

[2] É preciso ter em mente que não utilizamos o termo campo no sentido comum e nem no sentido especializado, tal como desenvolvido pela biologia e física, para citar dois exemplos. Aqui o termo “campo” aparece no interior de um determinado campo linguístico (termo que será explicitado adiante), e isso lhe traz um significado específico e distinto dos demais.

[3] E todas as formas de consciência existentes, mas não trataremos disso por não ser nosso foco teórico.

[4] Não é possível aqui abordar a questão dos valores em sua totalidade e complexidade e por isso remetemos a outra obra na qual efetivamos tal abordagem (VIANA, 2007a).

[5] As necessidades podem ou não ser satisfeitas. As necessidades não satisfeitas são potencialidades. As necessidades radicais dos seres humanos são produtos da natureza humana e são diferentes dos desejos, que são produtos sociais e históricos, ligados a processos mais particulares. Se eles forem coerentes com as necessidades radicais, então assumem um caráter positivo, mas se forem incoerentes ou contraditórios, assumem uma forma negativa. O desejo de enriquecimento financeiro é um produto da sociedade capitalista e quando se torna valor fundamental ou principal interesse, ou seja, prioridade para determinado indivíduo, assume a forma negativa. O desejo de produzir uma poesia, em qualquer circunstância, assume a forma positiva (o conteúdo da poesia remete para outra discussão), pois expressa a necessidade humana de criatividade.

[6] Para uma discussão sobre a teoria das classes sociais que serve de base para nossa análise, sugerimos a leitura da obra A Teoria das Classes Sociais em Karl Marx (VIANA, 2018a)

[7] Determinados interesses, no entanto, precisam ficar ocultos e aparecer metamorfoseados em valores nobres, interesses universais, etc. Assim, na ideologia liberal, o individualismo do proprietário aparece como expressão da necessidade universal dos indivíduos, para citar apenas um exemplo.

[8] E, nesse caso, de forma contraditória. As razões da contradição são variadas, desde idiossincrasias até processos sociais mais complexos que atingem determinados indivíduos.

[9] Optamos pelo exemplo do saber teológico por sua comodidade e fácil compreensão e para não ser repetitivo quando tratarmos da episteme burguesa e seus procedimentos, bem como para mostrar que o procedimento teológico que escandaliza as mentes “racionais”, “esclarecidas” e “científicas” de hoje é o mesmo que elas fazem atualmente, sob outra forma e com outros nomes.

[10] No caso de um indivíduo concreto, o desenvolvimento da consciência (ou adoção de uma ideologia, que é seu emperramento em termos substanciais) pode gerar mudança de valores e determinadas descobertas intelectuais podem mudar o indivíduo, bem como em outros indivíduos ocorrem o processo contrário. Determinadas ideias podem incentivar determinados valores e vice-versa (VIANA, 2007a), mas eles estão unificados, mesmo existindo algumas contradições.

[11] Marx percebeu os limites intransponíveis da consciência burguesa (ou “ciência burguesa”) ao analisar o desenvolvimento da economia política: “a ciência burguesa da economia havia, porém, chegado aos seus limites intransponíveis” (MARX, 1988b, p. 135). Quais eram esses “limites intransponíveis”? Era o que poderia ser admitido da perspectiva burguesa, ou seja, a partir dos interesses dessa classe.

[12] Isso pode ocorrer tanto sob formas mais simples quanto mais complexas. As formas mais simples acabam desenvolvendo algumas ideias básicas verdadeiras, mas sua simplicidade (e muitas vezes esquematização exagerada) causa obstáculos e limites. A forma mais complexa não é apenas mais “complicada” e “difícil”, embora também o seja. Ela é mais ampla e profunda, já que é um desenvolvimento mais totalizante, profundo e coerente do saber e por isso também é mais complicada e difícil. O campo axiomático é fundamental, mas não suficiente, no plano do desenvolvimento da consciência, pois é necessário também o desenvolvimento do campo analítico e linguístico coerente com ele e permitindo sua realização mais ampla e total. O campo axiomático se desenvolve de forma limitada se não ocorrer simultaneamente um desenvolvimento do campo analítico, perceptual e linguístico.


quinta-feira, 17 de abril de 2025

O MAL-ESTAR PSÍQUICO NA CONTEMPORANEIDADE

 O MAL-ESTAR PSÍQUICO NA CONTEMPORANEIDADE



Mais informações e inscrições:

CURSO: O MAL-ESTAR PSÍQUICO NA CONTEMPORANEIDADE

Palestrante: Dr. Nildo Viana/FCS-UFG

Data: 17 de Maio de 2025

Horário: 08:00 - 12:00

Local: Ruptura – Espaço Cultural.

Promoção: NUPAC

Apoio: GPDS/UFG; NPM/UEG; NECSSO/UFPR; NEMOS/UFG; LAS/UFG.


Objetivos: O curso tem como objetivo proporcionar um debate sobre a questão do mal-estar psíquico na contemporaneidade. Para tanto, precisa discutir sobre a questão da modernidade e mal-estar psíquico em nível mais geral para, posteriormente, tratar de sua manifestação e intensificação na contemporaneidade, o que pressupõe discutir, mesmo que brevemente, a questão do capitalismo contemporâneo, e os seus efeitos psíquicos negativos, bem como formas de combater sua reprodução e ampliação.

 

Justificativa: Na época do chamado “Estado de Bem-Estar Social” já se trata de vários “problemas psicológicos” e vária outras situações que geravam desconforto psíquico. Na contemporaneidade, a partir da ascensão do regime de acumulação integral, a situação psíquica da população piorou drasticamente. Além dos problemas já comuns, emergem novas formas de sofrimento psíquico e outras, já existentes, se intensificam e/ou passam a atingir um maior percentual da população: ansiedade, neurose, psicose, stress, burnout, a depressão, entre diversas outras. Assim, essa se torna uma das questões fundamentais da nossa época e possui efeitos sociais e políticos importantes para a dinâmica histórica da nossa sociedade. Dessa forma, se torna essencial discutir, analisar e refletir sobre o seu significado, suas determinações, suas consequências e as ações possíveis diante dessa realidade de crescente sofrimento psíquico.

 

Metodologia: O curso se realizará em encontro único, com quatro horas de duração (08:00-12:00). O encontro será dividido em uma parte mais extensa para exposição e outra, no final, para depoimentos e debates.


Inscrições: https://www.even3.com.br/o-mal-estar-psiquico-na-contemporaneidade-549202/

Valor: R$ 10,00

* Haverá emissão de certificado.

** Vagas limitadas (35 pessoas).


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