quinta-feira, 24 de março de 2011

Quem precisa de auto-ajuda?

 

Quem precisa de auto-ajuda?

"Assim, temos a miséria geral da sociedade moderna reproduzindo-se sob a forma de miséria psíquica e seus corolários: o misticismo e a auto-ajuda".


Nildo Viana

A auto-ajuda vem se expandindo nos últimos anos e se torna motivo de preocupações e análises. A auto-ajuda é uma produção cultural realizada pelas grandes editoras, vendedoras de best-sellers, que encontrou nela um ramo que rende um alto lucro. A origem da auto-ajuda se encontra nos livros sobre pensamento positivo, cujo auge ocorreu na década de 70. Na década seguinte, os livros de auto-ajuda, que utilizam mais estratagemas do que o apelo ao “pensamento positivo”, aumentaram suas vendas e desde a década de 90 até hoje vem batendo recordes de vendagem para o “estilo”.

A quem se deve a grande procura por livros de auto-ajuda? A própria expressão “auto-ajuda” esclarece quem: aqueles que precisam de ajuda. São pessoas que estão em condições de vida desfavoráveis, seja no sentido profissional, sentimental, etc. O misticismo, a cartomancia, entre outros recursos, são alguns dos concorrentes da auto-ajuda. Mas a auto-ajuda se distingue destas outras formas por ter como fundamento o indivíduo que ajuda a si mesmo, bem como a razão de ser do misticismo e da cartomancia também poder ser encontrada em problemas psíquicos, se diferenciando, assim, da auto-ajuda. 

O individualismo – juntamente com a racionalização da vida moderna – está intimamente ligado a esta resposta aos problemas sociais expressa pela auto-ajuda. Isso significa que o indivíduo não busca a ajuda de outros e sim em si mesmo. A partir daí podemos pensar que aquele que procura auto-ajuda pensa que os outros não podem ajudá-lo, o que em parte é apenas expressão do caráter competitivo da sociedade moderna, e que ele pode ajudar a si mesmo. Ironicamente, esta busca de ajuda a si mesmo se dá através dos livros de auto-ajuda, dos conselhos e receitas fornecidos por outra pessoa, embora não seja pessoalmente, mas sim a figura abstrata do escritor do livro (e sua propaganda pode ser o seu próprio “sucesso”). 

A ironia está no fato de o indivíduo pensar que está ajudando a si mesmo e, no fundo, é ajudado por outro, que lhe diz como “se ajudar”. A outra ironia é que, ao pedir socorro ao escritor desse tipo de livros, ele ajuda a este, que ganha dinheiro e sucesso vendendo o que escreve. E grande parte daqueles que buscam essa técnica precisam de ajuda não devido a carências reais, necessidades básicas, mas sim graças aos valores de que são portadores. A busca de status, riqueza, poder, sucesso, revela grande filão do mercado daqueles que buscam auto-ajuda. Eles esperam que, utilizando esse recurso, irão conseguir realizar as suas ambições e revelam os valores desta sociedade que prega a necessidade de ascensão social e outros objetivos socialmente desejados e dificilmente realizáveis para muitos setores.

A auto-ajuda funciona? Os conselhos e receitas não resolvem os problemas dos indivíduos e quanto mais graves são estes, menores são as probabilidades de qualquer ajuda fornecida por esse tipo de leitura. Ele traz também uma série de ilusões e, posteriormente, desilusões, a não ser que, como ocorre em muitos casos, o indivíduo se culpe pelo seu “fracasso” ou então torne sua ilusão algo permanente. Se algum resultado se consegue, é do tipo que atinge apenas parte da vida cotidiana, o que não faz ninguém chegar ao “sucesso”. A coincidência pode reforçar a ilusão da eficácia da auto-ajuda, pois uma pessoa pode chegar a determinados resultados por um conjunto de circunstâncias e atribuí-los a ela. A eficácia da auto-ajuda é muito restrita, mas a crença é mais forte do que a razão, mesmo quando ela tem origem racional.

No entanto, esta análise não é suficiente para explicar o aumento do apelo aos livros de auto-ajuda, que vem continuamente crescendo. Em 1994, a literatura de auto-ajuda vendia em torno de 412 mil exemplares; em 1997 chegou a 1,1 milhão de exemplares e, em 1998, quase dobrou, chegando a 2,1 milhões. Esses dados, fornecidos pela Câmara Brasileira do Livro (CBL), apresentam um aumento constante da venda de livros de auto-ajuda, marcando um processo de consumo ampliado que continua até hoje. A explicação para este aumento da procura pode ser encontrada em três determinações: a) a situação precária de vida de grande parte da população, que procura a auto-ajuda como refúgio e esperança; b) a expansão dos valores voltados para a ascensão social; c) a estratégia de vendas e divulgação das editoras. 

As mudanças da sociedade moderna explicam essas determinações. A partir das décadas de 60 e 70, a situação foi marcada por crises e dificuldades a nível mundial, e isso se agravou a partir dos anos 80, pois a solução encontrada foi um novo modelo de desenvolvimento, sendo que o neoliberalismo, a reestruturação produtiva e as novas relações internacionais (“globalização”) são a sua expressão. Este novo modelo de desenvolvimento marca a queda do nível de vida e renda, inclusive nos países considerados “desenvolvidos”, e o aumento da miséria, pobreza, violência, criminalidade. O Estado neoliberal é agente deste processo e, ao mesmo tempo, busca reduzir seus gastos e diminuir as políticas sociais, agravando ainda mais a situação. As novas ideologias e exigências do mercado, como a competitividade, a “inteligência emocional”, juntamente com o aumento do desemprego, promovem uma radicalização da competição social, que produz um incentivo a mais para a literatura de auto-ajuda.

Neste contexto, aqueles que estão em situação desfavorável, juntamente com aqueles que ambicionam a ascensão social mas estão cada vez mais longe disso, criam todo um filão de consumidores de livros de auto-ajuda. Este mercado consumidor se apega à literatura de auto-ajuda e as grandes editoras reforçam esta tendência com a publicidade, “variedade” de produtos (alguns passam da leitura de certas obras para outras, já que as técnicas indicadas não dão resultado e assim se busca outras) e com obras mais acessíveis do ponto de vista financeiro (livros de bolso com preço menor, por exemplo, para atender ao público de menor poder aquisitivo), bem como criando novas formas de auto-ajuda, voltadas para públicos específicos. Assim, temos a miséria geral da sociedade moderna reproduzindo-se sob a forma de miséria psíquica e seus corolários: o misticismo e a auto-ajuda.

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Publicado originalmente em:
VIANA, Nildo. Quem Precisa de Auto-Ajuda?. Jornal O Sucesso, Goiânia-GO, v. 505, p. 11 - 12, 23 abr. 2006.

Republicado em:
http://titaferreira.multiply.com/market/item/160/Quem_precisa_de_auto-ajuda

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2 comentários:

  1. E nunca houve literatura tão vasta neste campo.
    Mas às vezes me pergunto - o QUE É AUTO SE AJUDAR???
    Outro fator interessante, como é auto-ajuda se não sou eu quem estou a me ajudar mas sim as palavars do outro.
    Então deveria chamar-se - OUTRA AJUDA - ajuda que vem do outro.
    Desculpa, mas encaro este tipo de mercado dos livros uma forma de mexer com a fragilidade alheia.
    É igual a historia da autopsia - VOCÊ JÁ VIU MORTO SE AUTOPSIANDO?

    Mas a postagem é ótima.
    É isso ai.
    Abraços

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  2. Malu, nossos pontos de vista coincidem. Agora, no sentido metafórico, o exemplo da autopsia é interessante. No sentido mais geral, auto-ajuda é uma incoerência, devido ao próprio sentido da palavra ajuda. Porém, ao lado disso existe a autonomia e outros elementos que podem ser efetivados, desde que se entenda que se trata de outra ação e contexto. Abraços.

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