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terça-feira, 15 de março de 2011

Conto: O Frio


O FRIO
NILDO VIANA

Ele apareceu. Era um dia como outro qualquer. Eu estava desprevenido. De repente, lá estava eu metido em mais uma encrenca. Eu não sabia por que ele aparecia. Mas ele sempre vinha. Aliás, nem sempre. Ele disse:
- Estou aqui! O que você esperava? Não há nada que você possa fazer! A única solução é me aceitar e me suportar.
- Isto é absurdo, respondi eu.
- O absurdo faz parte da vida, da realidade, somente um realista estúpido não sabe disso.
- De onde você vem? Indaguei.
- A pergunta correta é: por que eu venho! Ele retrucou.
- Por que você vem? Insisti.
- Estou apenas te procurando. Disse ele.
- Para que? Responda!
- Para te encontrar. Foi o que ele disse.
- Não entendo.
- Entendo...
- Não, você não entende. Disse eu.
- Você é que não entende!
- Por que você não é direto? Perguntei.
- Por que você é direto? O que adianta sua "objetividade"?
- O que eu quero saber é até quando isto tudo vai durar.
- Agora sim, você começa a falar sério.
- Você não tem resposta para a minha pergunta.
- Não, você sabe disso, pois não estou aqui para te ajudar e sim para te dominar. A sua pergunta, até quando isto vai durar, só pode ser respondida levando-se em conta até quando eu vou durar.
- Você é aquilo que eu não quero.
- Você já descobriu quem sou, mas não descobriu como me tratar...
- Como se trata algo como você? Usando lã, couro ou qualquer outra coisa?
- O problema não está em usar ou evitar e sim em se posicionar e conseguir manter a posição e mesmo assim não ter nenhuma certeza do que virá e quanto tempo irá durar sua posição, suas forças, e minha existência.
- Este diálogo é esclarecedor!
- Só em parte.
- O Caminho que devo seguir, eis a questão!
- O caminho que não deve seguir é outra questão!
- O mal estar na civilização é mais profundo que Freud pensava.
- E mais difícil de se curar do que a mera terapia.
- Estou sentindo frio.
- Todos sentem frio. 
- Quando o frio irá acabar?
- Se ele acabar...
- Como isto pode ocorrer?
- Uns dizem que só Deus pode acabar com ele, outros dizem que só a ciência, há aqueles - os heróis - que dizem que vão acabar com ele. Mas, na verdade ele é um problema de todos e de cada um.
- Isto significa que para acabar com ele é preciso a vontade de cada um e a ação de todos?
- Um dos segredos do poder é o sigilo. Não me julgue alguém que quer perder o poder.
- O que mais você tem a dizer?
- Nada, para mim agora só resta me manter em silêncio e esperar que o calor nunca venha.
- Interessante, começo a sentir calor...

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Publicado originalmente em:
VIANA, Nildo. O Doutor e Outros Contos Incorretos. Rio de Janeiro, Booklink, 2004.

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2 comentários:

  1. Gostei do conto! Não sei porquê, mas me faz lembrar do mistério por poucos decifrados da cabala: enquanto o operariado não pensar com criticidade a própria situação, votará em políticos burgueses que de pseudo-marxista só tem o discurso.

    Esta é minha sincera opinião dos fatos históricos no Brasil ultimamente...

    Mas o pior não é isso: conversando com uma mulher por esses dias, ela me disse que é formada em Letras e que não gosta de ler. Que é uma analfabeta... Como o Brasil pode ser unir a isso como nação?

    Conversamos com alguns intelectuais que só querem estar no topo da pirâmide, que nunca que auxiliar os poucos escribas e leitores deste mundo contemporâneo, mantendo as relações de poder de forma muito desigual.

    Admiro você, professor, por repassar todo seu conhecimento objetivo e subjetivo para podermos mudar nossos pensamentos. Isso é que é engajamento!

    Leia no meu blog um texto que me inspirei com um trecho que li com muito gosto no seu livro Sociologia da Arte. O escrito está repercurtindo bem no meu blog e estou maravilhada com os comentários que estão expandindo minha mente!

    Ler seu blog também tenho essa mesma sensação, por isso, até em um anime passo a analisar a criticidade da ação, o porquê de tais ideologias de uma obra de arte expressas por determinado autor, e por aí vai.

    Abraços.

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  2. Marielle, grato pelas palavras. Existe, na sociedade atual, um processo que é a formação ritual (títulos, etc.) que gera no máximo competência formal (lidar com as regras da ABNT, por exemplo) mas pouca ou nenhuma competência real, e assim o superficial é exaltado e o essencial é esquecido. E como já dizia Saint-Exupery, o essencial é invisível aos olhos, e por muitos "olham" os textos, poucos lêem. Agradeço suas leituras e comentários que abrem espaço para novas reflexões e questionamentos. Abraços!

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