Rádio Germinal

RÁDIO GERMINAL, onde a música não é mercadoria; é crítica, qualidade e utopia. Para iniciar clique em seta e para pausar clique em quadrado. Para acessar a Rádio Germinal, clique aqui.

sábado, 11 de maio de 2019

Acumulação Capitalista e Golpe de 1964




Acumulação Capitalista e Golpe de 1964


Nildo Viana*


A história do golpe de 1964 possui vários aspectos que são abordados sob os mais variados pontos de vista. A questão da relação entre acumulação capitalista e golpe de 64 já recebeu alguns estudos, mas sob perspectivas que deixam de lado o essencial, isto é, o processo de luta de classes a nível nacional e internacional. É desta perspectiva que iremos analisar o fenômeno do golpe de 64 no presente artigo.
Para isto iremos discutir o desenvolvimento capitalista e os regimes de acumulação que estão na sua base e as lutas de classes que se desenvolvem a nível nacional e internacional. Após isto poderemos apresentar nossa hipótese de que foram as lutas dos trabalhadores no contexto de crise internacional de um regime de acumulação e busca de aumento da taxa de exploração que promoveu o golpe de estado de 1964.
Regimes de Acumulação e Luta de Classes
Para compreender a relação entre acumulação capitalista e golpe de 64 é necessário compreender a dinâmica do capitalismo mundial do pós-Segunda Guerra Mundial e a inserção do Brasil neste contexto. A periodização do capitalismo proposta por Benakouche (1980) fundada nos regimes de acumulação é uma contribuição fundamental neste caso. Este autor considera que as fases do capitalismo são marcadas por diferentes regimes de acumulação:
A mudança de formas é uma das características do modo de produção capitalista. De fato, os modos e as formas da acumulação do capital e, portanto, os modos de extração da mais-valia e a as formas que assumem as relações sociais (inclusive as relações salariais) mudam em função de evolução do capitalismo. E, se os modos e formas de acumulação de capital mudam com o tempo, seus elementos de articulação, tais como os modos de extração da mais-valia, as formas das relações sociais, as formas da estrutura de produção ou a hierarquização do sistema produtivo nacional, os modos e as formas de organização do processo de trabalho, o nível e o tipo de desenvolvimento das forças produtivas, as formas do Estado, a estrutura social ou os modos e as formas da luta de classes, os tipos e as formas de dominação nas relações econômicas internacionais... evoluem ou mudam em função do grau atingido pelo desenvolvimento do capitalismo (Benakouche, 1980, p. 24).
A periodização do autor se funda nos regimes de acumulação, que são produtos da internacionalização dos ciclos do capital. Concordamos com a ideia de que o capitalismo atravessa várias fases que caracterizam diferentes regimes de acumulação. No entanto, não consideramos este processo como sendo caracterizado por uma evolução linear e sim sob uma dupla articulação entre o que podemos denominar desenvolvimento espontâneo do capitalismo, por um lado, e luta operária, por outro. No primeiro caso temos o movimento do capital, isto é, a ação do capital, expressando o predomínio do trabalho morto sobre o trabalho vivo; no segundo caso, temos o movimento operário, isto é, a ação do trabalho vivo contra o trabalho morto. A concepção fetichista da ciência econômica enxerga apenas o primeiro momento, isto é, o trabalho morto, o desenvolvimento espontâneo do capital, deixado ao seu bel-prazer. Na verdade, isto pode ser expresso como uma luta de classes, embora nesta luta haja o predomínio do capital, o que reforça a concepção fetichista que não ultrapassa a aparência do fenômeno.
Assim, o desenvolvimento capitalista é marcado pela ação do capital e pela luta operária com a primazia da primeira na maior parte do tempo, mas sempre tendo a resistência proletária e as irrupções revolucionárias que abalam tal desenvolvimento. Assim, existe uma tendência do desenvolvimento capitalista, que é espontânea, desde que se pense na ação do capital sem a irrupção do movimento operário indo além das lutas cotidianas. Estas teses são importantes para compreendermos que as mudanças de regimes de acumulação não são apenas produtos da concentração e centralização do capital, mas também da luta operária. A passagem de um regime de acumulação para outro é produto das lutas de classes, o que faz com que não seja um produto de mera ação do capital e tem como consequência a percepção das mutações do capitalismo enquanto estratégias do capital para manter sua reprodução e da ação proletária no sentido de impedir a sua voracidade exploradora, num primeiro momento, e buscar sua abolição, num segundo momento.
A partir destas considerações gerais podemos partir para uma análise do desenvolvimento capitalista. A conceituação dos regimes de acumulação se torna necessária. Para nós, um regime de acumulação se caracteriza por uma determinada forma de organização do processo de trabalho – uma determinada estratégia do capital para extrair mais-valor; uma determinada configuração estatal – que define a ação do Estado e sua forma de organização; e uma determinada articulação das relações internacionais, isto é, determinado modo de exploração capitalista internacional.
Partindo desta definição inicial, podemos seguir a periodização de Samir Amin (1977) e Rabah Benakouche para expor as fases do capitalismo. A fase de surgimento é marcada pela acumulação primitiva de capital que vai fornecendo as bases da acumulação capitalista propriamente dita. Com o processo histórico surge a fase de consolidação e expansão, que vai da revolução industrial até a metade do século 19, formando o regime de acumulação extensivo, fundado na extração de mais-valor absoluto como elemento central da acumulação capitalista. Este regime de acumulação é marcado por uma alta taxa de exploração e entra em declínio com as lutas operárias que provocam a diminuição da jornada de trabalho, o uso indiscriminado de trabalho infantil e feminino e culmina com a Comuna de Paris.
A reação do capital assume a forma de reorganização do processo de trabalho, com a implantação do taylorismo e a busca em aumentar a extração de mais-valor relativo. Este período logo é abalado com as tentativas de revolução no início do século 20 (Rússia em 1905 e 1917; Alemanha no final da década de 10 e início da década de 20; na Hungria em 1919; na Itália em 1914; etc.) e culmina com as Guerras Mundiais.
A fase seguinte é constituída após a Segunda Guerra Mundial, com a hegemonia norte-americana e com o fordismo assumindo o papel de utilizar a tecnologia para aumentar a extração de mais-valor relativo combinado com o aumento da exploração internacional, através da expansão transnacional. Este novo regime de acumulação, conjugado (predominantemente intensivo nos países imperialistas e extensivo nos países de capitalismo subordinado) começa a entrar em crise nos anos 60 e vai buscando se reproduzir mas acaba cedendo espaço para o atual regime de acumulação, o integral. O regime de acumulação integral se funda na reestruturação produtiva, no neoliberalismo e no neoimperialismo, no qual se busca aumentar a exploração tanto a nível nacional e internacional, tanto no que se refere ao mais-valor absoluto quanto ao mais-valor relativo.
Estes regimes de acumulação significaram não apenas determinada organização do processo de trabalho, mas também determinadas formas estatais e de relações internacionais. Por exemplo, o Estado liberal era a forma estatal do regime de acumulação extensivo; o regime de acumulação intensivo, por sua vez, possuía como forma estatal o Estado liberal-democrático, enquanto que o regime de acumulação conjugado o Estado integracionista (do “bem-estar social”, “intervencionista”) e o integral, o neoliberal. Também ocorrem mudanças culturais, sociais, entre outras, que acompanham as mutações dos regimes de acumulação. Mas devido aos objetivos do presente trabalho iremos deixar de lado os detalhes componentes de cada regime de acumulação e focalizar apenas naquele que tem importância crucial para nossa análise do golpe de 64, o regime de acumulação conjugado.
A Crise do Regime de Acumulação Conjugado
O regime de acumulação conjugado marca uma nova etapa da exploração internacional. O resultado das lutas operárias nos países imperialistas do início do século 20 marcou um recuo da classe capitalista no processo de exploração interna, compensada pelo aumento da exploração externa. O fordismo marca uma tentativa de aumento de extração de mais-valor relativo através do uso da tecnologia visando aumentar a produtividade. No entanto, o uso da tecnologia avançada também significa custos mais altos e assim os ganhos não foram tão elevados. Além disso, devido ao aumento da composição orgânica do capital (cada vez se utiliza mais tecnologia, forças produtivas, e cada vez menos força de trabalho, que é geradora de mais-valor) e a consequente tendência declinante da taxa de lucro, se cria a estratégia de desviar a acumulação de capital para a produção de bens de consumo em detrimento de meios de produção.
Sem dúvida, a expansão tecnológica foi extremamente elevada, mas isto foi proporcionado pela expansão da produção de bens de consumo – que aumenta o mercado consumidor de bens de produção – e caso o investimento não tivesse sido prioritariamente desviado para a produção de bens de consumo, a composição orgânica do capital seria mais elevada e a taxa de lucro teria caído muito mais rapidamente. A expansão da produção de bens de consumo também traz a necessidade de ampliação do mercado consumidor, o que provoca a integração de camadas cada vez mais amplas do proletariado no círculo do consumo. Isto gera o que alguns denominaram “sociedade de consumo”. O Estado integracionista visa não só amortecer os conflitos de classes com a sua política de bem estar social e cooptação da burocracia sindical como também desviar os investimentos para setores de consumo e serviços. Isto tudo não seria suficiente para a reprodução do capitalismo nos países imperialistas e por isso assume papel fundamental a exploração internacional. O processo de descolonização era acompanhado pela expansão transnacional como ponto forte da exploração internacional.
Neste contexto histórico, temos no capitalismo subordinado uma forma de acumulação capitalista diferenciada. Este é o caso do Brasil, que possuía uma acumulação capitalista subordinada. Nos países imperialistas, além da exploração internacional, temos o predomínio do capital nacional. No capitalismo subordinado, temos a chamada “tríplice aliança”, isto é, o capital estatal, o capital nacional e o capital transnacional (Gorender, 1988). A diferença entre a acumulação capitalista dos países imperialistas e a dos países subordinados se encontra na transferência de mais-valor que aumenta o processo de acumulação em uns e diminui em outros. Tanto o Estado quanto o capital nacional são aliados subordinados do capitalismo imperialista e, por conseguinte, do capital transnacional. Assim, a acumulação capitalista subordinada é mais lenta do que a acumulação dos países imperialistas, pois no primeiro caso temos uma parte da acumulação transferida para o exterior e no segundo uma incrementação devido à transferência de mais-valor para o interior.
Esta situação faz do regime de acumulação no capitalismo subordinado um elemento propulsor da acumulação imperialista e ao mesmo tempo faz com que o processo global de acumulação capitalista nos países subordinados seja deficitário e mais lento do que nos países imperialistas. Após a Segunda Guerra Mundial, a implantação do regime de acumulação conjugado nos países imperialistas se fez com alterações também nos países subordinados. No Brasil, mais especificamente, ocorreu um processo de reconversão capitalista, denominado por alguns autores como “modelo de substituição de importações”, marcada por uma expansão industrial e também pela forma subordinada de integracionismo, o populismo. O populismo brasileiro desde Vargas marca uma certa concessão ao movimento operário com a CLT e outros elementos, além dos ideológicos e culturais.
O desenvolvimentismo foi o complemento do populismo e o Governo Juscelino Kubitschek cumpriu um papel simultaneamente de incentivo ao capital transnacional e de expansão industrial. Este processo marcava a inserção do Brasil na divisão internacional do trabalho sob a forma do desenvolvimento subordinado, mantendo seu papel na engrenagem do capitalismo mundial. O que foi denominado “modelo de substituição de importações” não é nada mais do que expressão da constante reconversão capitalista que reproduz a subordinação mundial dos países de capitalismo retardatário caracterizada por sua modernização e reprodução da exploração internacional.
          “As medidas adotadas em 1955 pelo governo de Juscelino Kubitschek redundaram de fato na anulação das limitações que se impunham à penetração do capital estrangeiro no Brasil. Com base nos decretos governamentais e na Instrução no 113, a Superintendência da Moeda e do Crédito – SUMOC – concedeu às companhias estrangeiras o direito de levarem ao Brasil equipamento obsoleto. O governo brasileiro assumia o compromisso de considerar novo esse equipamento, tomá-lo na qualidade de investimento direto em divisas, como valor declarado pela empresa investidora estrangeira, que dava direito a quaisquer vantagens: à isenção do imposto alfandegário para a entrada no país, dos impostos federais e locais durante vários anos, a uma taxa especial e vantajosa para a troca do cruzeiro por dólar para efeitos de remessa de lucro para o exterior e assim por diante” (Michin, 1973, p.75).
A reconversão capitalista expressa a modernização subordinada, na qual se reproduz a relação de exploração internacional através de irradiação de mudanças dos países imperialistas para os países subordinados de forma retardatária e reproduzindo a subordinação. Isto se vê no exemplo clássico da Índia, que produzia e vendia algodão para a Inglaterra e comprava tecidos desta e, posteriormente, passa a produzir e vender tecidos e comprar máquinas para realizar esta produção e assim sucessivamente (Emanuel; 1981; Dowbor, 1987; Viana, 2000).
O populismo assumia a posição de forma subordinada de integração da classe operária. No entanto, a integração da classe operária e outros setores sociais no caso brasileiro sempre foi débil, pois aqui o processo de extração de mais-valor era mais intenso devido à transferência de mais-valor para o exterior. Além disso, as relações de produção não-capitalistas ainda existiam e tinham que se inserir na nova dinâmica do país no interior do capitalismo mundial. Assim, se desencadeia um acirramento das lutas de classes, que gera o golpe de 1964, caracterizado pela a ascensão das lutas sociais, por um lado, e pela crise do regime de acumulação conjugado, por outro.
A crise do regime de acumulação conjugado ocorre exemplarmente na grande potência imperialista mundial, os Estados Unidos, embora atinja todo o bloco imperialista. A balança comercial norte-americana apresenta, entre 1950 e 1957 um déficit de 16 bilhões de dólares. Esta situação irá se agravar a partir de 1958 (Granou, 1974). Inicia-se a tendência mundial de aumento dos preços e da inflação a partir dos anos 60 (Benakouche, 1981).
Certamente que este processo todo é apenas uma antecâmara do que virá a partir da segunda metade da década de 60 e na década de 70 (Mandel, 1990; Benakouche, 1981; Granou, 1974). No entanto, esta crise marca a necessidade do aumento da exploração internacional que já começa a ser gerado neste momento e se intensifica com a formação da Comissão Trilateral e culmina com a implantação do regime de acumulação integral a partir dos anos 80. Este processo inicial de crise dos Estados Unidos, bem como de todo o mundo capitalista, terá uma grande importância no desenvolvimento da sociedade brasileira e será a determinação fundamental do golpe de 1964, como colocaremos adiante.
As Lutas Sociais no Brasil e a Acumulação Subordinada
As lutas dos trabalhadores no Brasil marcam um questionamento do Estado populista já no final dos anos 50. O desenvolvimentismo do Governo Kubitschek com a expansão da infraestrutura e a atração de capital estrangeiro marcou um processo de desenvolvimento capitalista fundado no crescimento do capital transnacional e no aumento da exploração da força de trabalho, ao lado de várias outras mutações que significavam um avanço do capitalismo no país. A expansão capitalista promove uma politização das lutas pela terra, pois as relações de produção não-capitalistas são destruídas devido à valorização das terras. Esta valorização ocorreu devido à construção de rodovias (Martins, 1986; Dowbor, 1987) e também graças à valorização do açúcar, que depois da desvalorização e arrendamento a foreiros, acabou tendo uma revalorização que gerou a expulsão dos foreiros. Esta valorização das terras proporcionou vários movimentos contestadores no campo, tal como as revoltas e ligas camponesas da segunda metade da década de 50 (Martins, 1986). O movimento estudantil também começa a se agitar e dar mostras de uma mobilização maior do que a de períodos precedentes (Poerner, 1979).
O movimento operário também atravessou um período de mobilização crescente. O movimento grevista cresce a partir do final dos anos 50 e continuam no início da década seguinte (Castro, 1980).
“A escalada inflacionária leva à uma escalada das greves. Ano após ano os recordes de horas perdidas são batidos. Em 1958, destaca-se a paralisação por 7 dias da marinha mercante em todo o país, com a participação de centenas de milhares de marítimos. Malgrado a ilegalidade da greve, JK acabou concedendo à maioria das reivindicações. Nos transportes urbanos, a greve dos carris do Rio de Janeiro, apoiada por fortes e violentas manifestações estudantis, também termina vitoriosa” (Castro, 1980, p. 69).
Ainda em 1958, o movimento operário arranca 53% de aumento salarial do governo JK mas tal aumento foi corroído pela inflação que em 10 meses chegou a 80%.
“Em 1959 não somente as greves se intensificaram, como a desesperação pela contínua erosão dos salários provocou a multiplicação de manifestações de rua com choques violentos com as forças policiais. Protestos contra a alta dos preços seguiam-se frequentemente de pilhagens de armazéns. Em vários casos as forças policiais utilizaram armas de fogo ou baionetas para reprimir os manifestantes, provocando ferimentos e a mote de dezenas destes” (Castro, 1980, p. 70).
O ano seguinte foi marcado pela continuidade da luta operária. Em 1959 houve 954 greves e em 1960, 01 milhão e meio de trabalhadores aderiram ao movimento grevista e a greve geral da cidade de Santos foi o momento mais forte deste processo de lutas. No final de 1960 aumentaram os confrontos entre o governo e os trabalhadores do setor ferroviário, marítimo e portuário. Esta ampla mobilização continua e em 1962 várias greves são desencadeadas pelos aeroviários e estivadores, juntamente com diversas greves parciais, o que leva o Governo Goulart a ceder aumentos salariais. Em outubro deste ano, 700 mil trabalhadores entram em greve em São Paulo e conseguem aumentos salariais (Castro, 1980). Assim, o movimento operário, bem como o movimento estudantil e dos trabalhadores rurais, realizam uma ascensão em suas lutas que dificultava a concretização dos interesses da classe capitalista que era aumentar a taxa de exploração.
Todo este processo de ascensão das lutas sociais fazia com que as forças políticas institucionais conservadoras ficassem temerosas e as populistas buscassem intensificar sua proximidade com a população, radicalizando na medida do possível o seu discurso. A história do salário mínimo dos operários (o que exclui outros setores sociais) aponta para uma lógica de aumento da exploração revezada com diminuição dependendo da força de pressão dos trabalhadores:
“Pode-se perceber claramente três fases no comportamento do salário-mínimo real: a primeira, entre os anos 1944 e 1951, reduz pela metade o poder aquisitivo do salário; a segunda, entre os anos 1952 e 1957, mostra recuperações e declínios alternando-se na medida do poder político dos trabalhadores: é a fase do segundo Governo Vargas, que se prolonga até o primeiro ano do Governo Kubitschek; a terceira, iniciando-se no ano de 1958, é marcada pela deterioração do salário-mínimo real, numa tendência que se agrava pós-anos 64, com apenas um ano de reação, em 1961, que coincide com o início do Governo Goulart” (Oliveira, 1987, p. 51-52).
Assim, temos uma alta taxa de exploração – o que na verdade é algo constante na história brasileira, pois a exploração visa sustentar não somente a acumulação interna como também realizar transferência de mais-valor – que possui altos e baixos no interior dela. É necessário ressaltar isto para não se cair na ilusão da estatística que utiliza a comparação de um dado período com outro sem apresentar o que significa o período que é ponto de partida, isto é, que ele já tem embutido dentro de si uma alta taxa de exploração. No entanto, alguns autores (Moraes, 1991) questionam a segunda fase apontada por Oliveira, colocando que os níveis salariais são mais elevados do que ele apresenta. Sendo assim, ou como coloca Oliveira (revezamento entre altos e baixos dependendo das lutas dos trabalhadores) temos uma taxa de exploração que não cresce linearmente e nem intensamente e ainda encontra obstáculos (tal como no caso de 1961, citado por Oliveira).
A partir de 1961 há uma expansão do processo inflacionário e do déficit estatal e assim começam as dificuldades no processo de acumulação capitalista subordinada no Brasil. Antes de continuar seria interessante caracterizar esta acumulação subordinada, tendo em vista que alguns autores buscaram dar resposta a esta questão. Para alguns autores, o grande problema da acumulação capitalista no Brasil residia no problema da realização, pois o processo de acumulação tornaria necessário uma “terceira demanda”.
Esta é a posição de Tavares (1973), Salama (apud Moraes, 1991), entre outros. Esta terceira demanda seria constituída pelas camadas médias, consumidora de bens de consumo duráveis. Esta tese parte de uma incompreensão da dinâmica da acumulação capitalista, isolando um setor de consumo e tornando ele o centro da reprodução do capital. Na verdade, houve uma expansão da produção de bens duráveis e o grande mercado consumidor destes bens era as classes auxiliares da burguesia (“classes médias”) que também aumentou quantitativamente. Porém, parte deste processo de acumulação era revertida para os países imperialistas e esta expansão proporcionava a expansão (mesmo que em menor medida) de outros setores. A tese complementar presente em Tavares é a de que o grande problema ao lado da demanda foi o do financiamento.
“A inexistência de um volume adequado de investimentos, capaz de assegurar a manutenção de uma alta taxa de expansão econômica, não se relaciona estritamente com limitações da capacidade produtiva (...), mas sim com problemas relacionados com a estrutura de demanda e com o financiamento” (Tavares, 1973, p. 168).
Assim, nesta tese o problema da demanda é complementado pelo problema da incapacidade de financiamento. O problema da demanda, segundo Tavares (e José Serra, que foi coautor do capítulo no qual a autora aborda esta problemática) é derivado do alto grau de concentração de renda eu diminuía a capacidade aquisitiva dos “grupos médios”. A solução seria mudar a composição da demanda em favor das “camadas médias” e altas, beneficiadas com a redistribuição da renda pessoal. Assim, ocorreria um processo de “compressão, até mesmo absoluta, das remunerações à massa de trabalhadores menos qualificados” (Tavares, 1973, p. 169).
Neste contexto, o financiamento de novos investimentos privados se torna comprometido. A relação excedente-salários comprometia este processo já que a escalada inflacionária do período anterior proporcionava um amortecimento das “tensões salários-lucros” e taxa ilusória de lucros que proporcionou novos investimentos, mas que acabou perdendo sua funcionalidade.
“Com o descontrole de seus mecanismos de propagação, a inflação se acelerou, perdendo sua funcionalidade; nem as altas taxas de crescimento poderiam diminuí-la. A maior solidariedade dos preços relativos impedia uma transferência intersetorial dos custos, desmistificava os lucros ilusórios, estrangulava financeiramente as empresas. O acelerado ritmo do aumento dos preços levou à intensificação das pressões trabalhistas, enquanto os salários seguiam de perto os preços, limitando, assim, as possibilidades de redistribuição forçada” (Tavares, 1973, p. 169).
O investimento estatal, por sua vez, estava comprometido pela relação gastos-carga fiscal. Assim, o problema da demanda é reforçado pelo problema do investimento público e privado, formando as causas da crise do início da década de 60.
Esta tese apresenta vários problemas. A questão da demanda ganha a importância que lhe é atribuída por Tavares devido ao fato da autora setorializar e autonomizar os elementos componentes da produção. O setor de produção de bem duráveis é isolado e autonomizado na abordagem de Tavares, ao contrário do que ocorre na realidade concreta. Podemos dizer que o capital transnacional era o principal (mas não único) produtor de bens duráveis e que as classes auxiliares da burguesia eram o seu principal mercado consumidor, tal como na tese de Tavares. No entanto, o consumo de bens duráveis também é realizado pela classe dominante (inclusive com um poder aquisitivo muito mais elevado) e, em menor grau, por alguns setores das classes exploradas em melhores condições financeiras (e isto é mais facilmente compreendido se recordarmos que os diferentes tipos de bens duráveis com diferentes preços, alguns mais acessíveis do que outros). Além disso, para comprovar o problema da demanda seria necessário demonstrar uma diminuição quantitativa das classes auxiliares ou então de seu nível de renda, o que a autora não fez. A relação salarial, no entanto, aponta para uma distribuição de renda favorável às classes auxiliares em detrimento do proletariado:
“A relação entre os salários médios dos burocratas e o dos operários é de 1,18 em 1949 e 2,23 em 1969, para o total da indústria de transformação. Da mesma maneira, a taxa de crescimento do salário médio dos burocratas supera em mais de duas vezes e meia a dos operários em 1949-58 e em quase quatro vezes no período 1958-69 (o índice do valor absoluto do salário médio dos operários passa de 100 em 1949, à 136 em 1969, enquanto que o dos burocratas passa do índice 105 para 320, no mesmo período)” (Moraes, 1991, p. 36).
Além disso, faz parte da dinâmica do desenvolvimento capitalista o processo de burocratização crescente e, por conseguinte, aumento quantitativo das classes auxiliares da burguesia. Como a autora não apresentou nenhuma informação sobre a diminuição quantitativa destas classes, então não existe nenhuma comprovação para o chamado “problema da demanda”.
O processo inflacionário, por sua vez, ao contrário do que diz Tavares, não beneficia os trabalhadores e cria taxas ilusórias de lucro, pois isto só ocorreria se fosse comprovado que os aumentos dos preços fossem inferiores aos aumentos salariais e as informações apresentadas por outros autores apontam justamente para o contrário (Oliveira, 1987). Assim, o suposto problema de demanda se revela uma hipótese não comprovada e que possui muitas informações que lhe contradiz.
O problema do financiamento privado, por conseguinte, é inexistente, pois as taxas de lucro do período não eram “ilusórias” e sim bastante reais. O financiamento estatal derivado da relação custos-carga fiscal também não recebeu nenhuma comprovação e mesmo que os investimentos estatais tenham diminuído no período posterior ao Governo Kubitschek, seria necessário demonstrar que tal diminuição foi significativa e, ainda, que tal diminuição teria efeitos poderosos para o processo de acumulação.
O problema geral da acumulação capitalista subordinada é a convivência de uma alta taxa de exploração e a transferência de mais-valor, o que proporciona uma acumulação mundial elevada acompanhada de uma acumulação nacional limitada, já que parte da acumulação é enviada para os países imperialistas. A principal limitação é a dificuldade em aumentar a já intensa taxa de exploração e não problema de demanda e financiamento, embora estes elementos possam contribuir com as dificuldades da reprodução da acumulação em determinados contextos.
Uma outra tese explica a crise a partir das lutas dos trabalhadores. A crise do início da década de 60 não foi de realização, pois havia um aumento da taxa de exploração e assim um setor era marginalizado no consumo (os setores mais empobrecidos e os trabalhadores, e isto atingia certos bens de consumo, não-duráveis, como vestuário, alimentação, calçados, etc.) que era acompanhado por um crescimento da “classe média”, consumidora de bens duráveis (Oliveira, 1987). O que gerou esta crise foi o rompimento com o pacto populista e luta dos trabalhadores:
“A luta que se desencadeia e que passa ao primeiro plano político se dá no coração das relações de produção. Pensar que, nestas condições, poder-se-iam manter os horizontes do cálculo econômico, as projeções de investimentos e a capacidade do Estado de atuar mediando o conflito e mantendo o clima institucional estável, é voltar ao economicismo: a inversão cai não porque não pudesse realizar-se economicamente mas sim por que não poderia realizar-se institucionalmente” (Oliveira, 1987, p. 63).
Sem dúvida, a luta dos trabalhadores foi fundamental para o desencadeamento do golpe de 64 e das dificuldades de reprodução do capitalismo brasileiro no início da década de 60. Porém, esta abordagem esquece a especificidade da acumulação capitalista no Brasil, que reside em seu caráter subordinado. A luta dos trabalhadores, sem dúvida, dificultava a intensificação da taxa de exploração e ao mesmo tempo assustava os setores mais conservadores.
No entanto, isto não é suficiente para explicar o golpe de 1964. A dificuldade na acumulação capitalista brasileira do início da década de 60 está ligada, por um lado, ao seu caráter subordinado e, por outro, à luta dos trabalhadores. A acumulação subordinada exige uma superexploração dos trabalhadores e esta se intensificaria naturalmente se não houvesse resistência. Mas como esta última existe e naquele contexto histórico estava se tornando mais forte, então o processo de acumulação se encontra diante de uma dificuldade em prosseguir.
A grande questão é que neste período histórico não apenas a acumulação subordinada no Brasil atravessava dificuldades, pois o mesmo processo estava presente nos Estados Unidos, como vimos anteriormente, e nos demais países. Esta crise do regime de acumulação conjugado trazia a necessidade de aumento da exploração em escala mundial no interior deste mesmo regime de acumulação. Isto significava buscar aumentar o processo de exploração sem criar grandes alterações no regime de acumulação[1].
Assim, as lutas dos trabalhadores criavam um obstáculo ao processo de intensificação da exploração necessária para a acumulação subordinada brasileira e também norte-americana. Assim, os setores conservadores (EUA, capital transnacional, burguesia brasileira, classes auxiliares da burguesia) se uniram para combater esta resistência e possibilitar uma intensificação ainda mais forte do processo de exploração, tal como efetivamente ocorreu nos anos posteriores ao golpe de 1964, bem como a exploração internacional, que gerou, na década de 70, a Comissão Trilateral, cuja grande preocupação era com o controle internacional (Asmann, 1979), sendo uma tentativa de solução da crise do regime de acumulação ainda no seu interior e ao mesmo tempo já anunciando elementos que seriam desenvolvidos no regime de acumulação posterior, sendo, pois, expressão de um período de transição. A ampla participação dos norte-americanos no desencadeamento do golpe de 64 não era realizado sem razão, pois era uma necessidade do capitalismo norte-americano em crise e que precisava aumentar a exploração internacional para compensar suas dificuldades de reprodução.
Desta forma, o golpe de 1964 foi produto da ofensiva capitalista realizada pelas potências imperialistas (principalmente os EUA) e, com o apoio da burguesia brasileira e outros setores, consegue produzir um amplo aparato repressivo e ao mesmo tempo desalojar do governo setores populistas e reformistas que tinham dificuldades em atacar diretamente os trabalhadores e aumentar o processo de exploração.
Assim, o discurso segundo o qual o golpe foi realizado para evitar a formação de uma “república sindicalista”, para combater o comunismo ou a corrupção, não passa de pretexto visando justificar e legitimar um processo intensivo de repressão que vem para possibilitar um processo igualmente intensivo de exploração, permitindo aumentar o processo de acumulação capitalista no Brasil para sustentar as necessidades da burguesia brasileira e a transferência de mais-valor para sustentar as necessidades dos países imperialistas, principalmente dos Estados Unidos. Em síntese, é a ascensão da luta operária e outros setores sociais que promoveu a necessidade de transição da democracia burguesa para a ditadura, pois somente esta possibilitaria a ampliação da taxa de exploração naquele contexto, o que era uma necessidade vital do capital neste período.
Bibliografia
Amin, Samir. Uma Crise Estrutural. In: Amin, Samir (org.). A Crise do Imperialismo. Rio de Janeiro, Graal, 1977.
Asmann, H. (org.). A Trilateral. Nova Fase do Capitalismo Mundial. Petrópolis, Vozes, 1979.
Benakouche, Rabah. Acumulação Mundial e Dependência. Petrópolis, Vozes, 1980.
Benakouche, Rabah. Inflação e Crise na Economia Mundial. Petrópolis, Vozes, 1981.
Castro, Sandra. Apogeu e Crise do Populismo: 1954/1964. in: Löwy, M. et al. Movimento Operário Brasileiro. 1900/1979. Belo Horizonte, Vega, 1980.
Dowbor, Ladislau. A Formação do Terceiro Mundo. 8ª edição, São Paulo, Brasiliense, 1987.
Emmanuel, Arghiri. A Troca Desigual. In: Amin, Samir e outros. Imperialismo e Comércio Internacional. São Paulo, Global, 1981.
Gorender, Jacob. A Burguesia Brasileira. 7ª edição, São Paulo, Brasiliense, 1988.
Granou, André. A Crise Internacional do Capital. Porto, Escorpião, 1974.
Mandel, E. A Crise do Capital. São Paulo, Ensaio, 1990.
Martins, J. S. Os Camponeses e a Política no Brasil. 3ª edição, Petrópolis, Vozes, 1986.
Míchin, S. S. Processo de Concentração de Capital no Brasil. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1973.
Moraes, Maria. Considerações sobre a Crise de 1964. in: Mantega, G. e Moraes, M. Acumulação Monopolista e Crises no Brasil. 2ª edição, Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1991.
Oliveira, Francisco. Crítica a Razão Dualista. Petrópolis, Vozes, 1987.
Poerner, Arthur. O Poder Jovem. 2ª edição, Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1979.
Tavares, M. C. Da Substituição de Importações ao Capitalismo Financeiro. Ensaios sobre a Economia Brasileira. 2ª edição, Rio de Janeiro, Zahar, 1973.
Viana, Nildo. Capital, Espaço e Desigualdade. Boletim Goiano de Geografia/UFG. Vol. 20, no 1/2, Dez. 2000.





* Professor da Universidade Estadual de Goiás; Doutor em Sociologia/UnB.
[1] No caso brasileiro, significou a passagem do regime de acumulação intensivo subordinado para o conjugado subordinado.
-----------------------------
VIANA, Nildo. Acumulação Capitalista e Golpe de 1964. Revista História & Luta de Classes, Rio de Janeiro, v. 01, n.01, p. 19-27, 2005.

terça-feira, 30 de abril de 2019

MOVIMENTOS SOCIAIS E INTERNET



MOVIMENTOS SOCIAIS E INTERNET

Nildo Viana*

Os movimentos sociais sofrem mutações com o processo de mudanças sociais. A sociedade contemporânea vem sofrendo mudanças desde a década de 1980 e marca uma nova fase do capitalismo mundial. Um dos elementos dessa mudança social é o uso do computador e da internet, a rede mundial de computadores. A internet permite formas mais ágeis de comunicação, além de maior horizontalidade e possibilidades de participação, com um custo menor. Esse processo vem chamando a atenção de pesquisadores que iniciam estudos sobre a relação entre internet e sociedade (SLEVIN, 2002). Nesse campo de pesquisa, ganha destaque a que busca estabelecer a relação entre internet e movimentos sociais (MARTÍNEZ et al., 2006; CASTELLS, 2013; GOHN, 2013). Tendo em vista esse processo e o impacto da internet e das redes sociais sobre os movimentos sociais e a sociedade civil em geral, pretendemos analisar a relação estabelecida entre esses dois fenômenos e descobrir qual é sua ressonância nas lutas sociais contemporâneas.

A análise da relação entre movimentos sociais e internet pressupõe, além de algumas definições conceituais, a começar pelo conceito de movimentos sociais, uma reflexão mais ampla sobre internet e sociedade. Sendo assim, vamos iniciar com uma análise da internet e sua relação com a sociedade, para, num segundo momento, definir e relacionar movimentos sociais e internet.

Internet e Sociedade

A relação entre internet e sociedade é complexa e envolve um conjunto enorme de questões, que, obviamente, não poderemos abordar aqui. A nossa intenção, nesse item, é mais modesta. O nosso objetivo é apenas destacar os elementos fundamentais nessa relação para poder, a partir disso, explicar as relações entre movimentos sociais e internet. Quais são esses elementos fundamentais? O primeiro ponto a se destacar é a constituição social da internet; o segundo remete ao caráter piramidal da internet, que é uma reprodução da sociedade dividida em classes sociais; o terceiro é a questão da reprodução social; o quarto ponto são as contradições e potencialidades da internet; o quinto e último ponto é uma manifestação específica no interior da internet, que são as redes sociais virtuais.

A internet é um produto social e histórico e, como tal, é determinada e datada, bem como suas mutações expressam mutações sociais. A internet surgiu a partir de um conjunto de mudanças sociais e suas origens remotas remetem ao desenvolvimento tecnológico associado ao aparato militar e capital bélico, bem como ao contexto da guerra fria. Segundo Slevin:

A expressão ‘novos media’ sugere que a internet é, em certa medida, uma invenção súbita, exclusivamente regida por condições inerentes ao seu próprio desenvolvimento tecnológico. Na verdade, nenhuma das nossas modernas tecnologias da comunicação alguma vez surgiu, simples e misteriosamente, saída de um saco de oportunidades tecnológicas independentemente concedidas, como toda moderna tecnologia da comunicação, a Internet está intimamente entretecida no desenvolvimento mais geral do Estado-nação moderno. Num nível diferente, as transmutações introduzidas pels organizações modernas entrelaçam-se diretamente na natureza da vida individual cotidiana. Nessa medida, o desenvolvimento da internet é um resultado simultaneamente intencional e involuntário do esforço humano. Pode portanto ser melhor compreendido como um resultado de condições técnicas e sociais contraditórias e ricas em tensões, exatamente como as consequências da sua utilização (SLEVIN, 2002, p. 31-32).
A internet emergiu através de um processo oriundo da iniciativa militar e sua extensão para meios acadêmicos, o que desembocou em sua constituição após a criação da WWW, HTML, etc., que permitiram seu uso generalizado na sociedade moderna. Não cabe aqui, por questão de espaço, recontar detalhadamente todo o processo que gerou a internet, o que foi abordado de forma mais breve por alguns autores que trabalham com os movimentos sociais (MARTÍNEZ et al., 2006) e de forma mais aprofundada por outros (SLEVIN, 2002). Cabe apenas destacar que ela não surgiu do acaso ou como mera invenção tecnológica. Ela surgiu a partir de interesses e projetos militares, que depois se ampliam com liberação do código TCP/IP para os meios acadêmicos e ganha novas contribuições de outros setores da sociedade (SLEVIN, 2002; MARTÍNEZ et al., 2006).

Uma vez existente, ela ganha novas contribuições e desenvolvimentos, bem como novos usos. Com o passar do tempo, o uso comercial, policial e outros se acrescentam aos anteriores. Por outro lado, o seu desenvolvimento gerou diversas formas de comunicação. No início, após a criação dos navegadores, a comunicação direta era realizada através dos e-mails e, posteriormente, os chats, até chegar às redes sociais virtuais, tais como o Orkut, Facebook, entre outros. A comunicação indireta emergiu através dos sites e se democratizou com os gratuitos (com propaganda) e mais ainda com os blogs, que dispensa maior domínio sobre o html, além de serem mais dinâmicos. Sites de fotos, vídeos, relacionamentos, entre outros, emergem e passam a ser cada vez mais participativos e abertos à comunicação dos usuários. Assim, o Youtube, entre diversos outros semelhantes, mas sendo o mais usado, permite a qualquer indivíduo postar seus vídeos. No início permitia apenas vídeos curtos (até 10 minutos) e depois autorizou os usuários mais ativos a postagem de vídeos de mais de uma hora. Uma forma de interação é os comentários nos vídeos, além das famosas curtidas e inscrições, bem como a comunidade do canal do usuário que posta os vídeos (só acessível a quem tem mais de um mil inscritos). Por detrás de todos estes sites, o interesse de seus proprietários é o lucro. O Youtube, por exemplo, exibe propagandas antes ou durante a exibição de vídeos, vende filmes não disponibilizados, entre outras formas de obtenção de lucro.

O impulso para o desenvolvimento da internet ocorreu, no entanto, com a nova fase do capitalismo, iniciada nos anos 1980. É nessa época que emerge o regime de acumulação integral (VIANA, 2009; BRAGA, 2018; VIANA, 2015a; ORIO, 2014), elemento definidor dessa fase, que marca uma nova onda de mercantilização, gerando a exploração das mercadorias tecnológicas (iniciando com o videocassete e outros produtos tecnológicos, depois passando para computadores, celulares, etc.). Para alguém poder usar a internet, tem que adquirir computador (o que posteriormente se tornou possível via celular, que também precisa ser comprado), ter acesso (pagando um provedor, na maioria dos casos), ter softwares, etc., e quanto mais o uso se expande e universaliza, mais se torna compulsório (o que ocorre inicialmente nas universidades e que acaba se generalizando em toda a sociedade) e mercantilizado. Além disso, outras questões emergem, tal como a burocratização, mas por questão de espaço, nos limitaremos a estas breves observações.

O que se depreende disso tudo é que a internet foi gerada a partir de determinados interesses e objetivos e sofreu uma mutação, passando a atender outros interesses e objetivos. A internet segue a dinâmica das mudanças sociais e não poderia ser diferente. Isso nos remete para o segundo ponto que destacamos na relação entre internet e sociedade, que é o seu caráter piramidal. Nas sociedades de classes, como é o caso da sociedade capitalista, na qual vivemos, as relações sociais se organizam de forma piramidal. A chamada “pirâmide social” é a forma metafórica que melhor expressa essa ordenação da divisão de classes. Numa pirâmide, temos o topo mais restrito e quantitativamente menor e seu alargamento até chegar à base, que é mais ampla e quantitativamente muito superior.

A pirâmide social expressa metaforicamente a relação entre as classes sociais, tendo no topo a classe dominante e no plano intermediário as suas classes auxiliares e, numa escala abaixo, as classes pequeno-proprietárias e mais abaixo, na base, as classes produtoras. No caso da sociedade capitalista, teríamos a burguesia no topo, vindo a seguir pela burocracia e intelectualidade, seguidas pelos pequenos proprietários – o que Marx denominou “lojistas” (MARX, 1986), ou seja, pequenos comerciantes, e pequenos proprietários de empresas – e pelas classes trabalhadoras (proletariado, subalternos, lumpemproletariado, etc.). Ela expressa, no capitalismo, uma ordenação no qual no topo se encontra quem detém poder e riqueza e é seguido pelos demais, até chegar aos totalmente destituídos de poder e riqueza.

A internet também é piramidal, pois ela reproduz a sociedade capitalista. Obviamente que a percepção disso, assim como na sociedade em geral, não é imediata, pois não são relações sociais transparentes. Assim como na sociedade capitalista não observamos os indivíduos capitalistas tomando decisões e desfilando na rua para mostrar suas riquezas, como os reis e senhores feudais fizeram em sociedades anteriores, também não percebemos isso na internet. Na sociedade capitalista, a classe capitalista usa o aparato estatal, as fundações e instituições, bem como as empresas capitalistas, para manifestar seu poder e sua riqueza. Ninguém vê propaganda na televisão do capitalista X, nem compra móveis do capitalista Y (seja um indivíduo capitalista, seja uma corporação de capitalistas). Ele vê a propaganda da empresa: Volkswagen, Fiat, Ford, Philco, Casas Bahia, Lojas Americanas, Intel, Microsoft, SBT, Record, Rede Globo, Facebook, e não dos capitalistas (seja indivíduo ou conjunto de indivíduos, que são os proprietários de tais empresas). E a compra nas empresas capitalistas ocorre via internet, shopping centers, lojas físicas ou virtuais. Se alguém quer comprar um refrigerante, compra Coca-Cola, Pepsi, Guaraná Antártica, não diretamente da empresa capitalista que a produziu e sim da empresa capitalista que a distribui, tal como nos hipermercados, como o Walmart, ou nas distribuidoras de bebidas dos pequenos comerciantes. Da mesma forma, os indivíduos não são dirigidos diretamente pelos indivíduos capitalistas, mas sim pelo aparato estatal, suas fundações, empresas. Um operário recebe ordens diretas dos seus superiores na empresa (burocracia empresarial), segue a legislação trabalhista instituída pelo aparato estatal, obedece às leis geradas por ele, etc. Quando a noite assiste TV, não vê o proprietário capitalista e sim apresentadores, artistas, intelectuais, jornalistas, empresas, etc. na programação. Quando ouve uma música, não vê o capital fonográfico e quando assiste um filme não vê o capital cinematográfico.

Da mesma forma, a classe capitalista não aparece sob a forma de indivíduos na internet. Os indivíduos usam o Facebook, mas não veem Mark Zuckerberg. E nas raras vezes que o veem, não é como o capitalista que ele é e sim como o inventor do Facebook (apesar de todas as controvérsias em relação a isto), um empreendedor, um indivíduo criativo, alguém bem-sucedido. Curtem, no Facebook, empresas, mercadorias, etc., tanto as que são divulgadas por amigos virtuais, quanto as que o são por anúncios pagos (sendo que a maioria nem se atenta para tal detalhe). Os indivíduos não percebem que são manipulados, que em todas as redes sociais, blogs, etc., aparecem milhares de propagandas de milhares de mercadorias.

Qualquer pesquisa mostra quais são os sites mais acessados: são os das grandes empresas capitalistas, das grandes instituições capitalistas, das celebridades, etc. Da mesma forma, o maior número de curtidas nas redes sociais são daqueles que aparecem no capital comunicacional, ou seja, nos meios oligopolistas de comunicação – as grandes redes de televisão, de rádio e grandes jornais.

Desta forma, podemos dizer que a internet é um meio de comunicação que possibilita uma ampla participação da população, sendo muito mais ampla do que a que é permitida pelos meios oligopolistas de comunicação (através de shows de auditório, cartas, participação por telefone, entrevistas, etc.). Na internet, é possível fazer comentários nos sites dos grandes jornais, em suas notícias, e colocar sua opinião, por exemplo. É claro que muitos só são acessíveis para os assinantes, o que significa poder financeiro e estar melhor posicionado na pirâmide social. Ela também permite comentários em blogs, etc., assim como cada indivíduo pode criar gratuitamente seu blog. Da mesma forma, as redes sociais permitem aos indivíduos expor sua vida cotidiana, suas opiniões políticas, seus produtos para venda, etc.

O que tudo isso mostra é que a internet também se organiza de forma piramidal. Ela é marcada, tal como nos meios oligopolistas de comunicação, por uma comunicação assimétrica, convivendo com uma comunicação simétrica. Assim como na sociedade há a hegemonia burguesa e predomina a comunicação assimétrica entre as classes superiores e as classes inferiores (e suas divisões internas) e a comunicação simétrica ocorre entre os semelhantes (por exemplo, dois operários tendem a se comunicar de forma simétrica, ao contrário de uma conversa entre um gerente e um operário, pois aí a forma, nesse caso, é assimétrica), o mesmo ocorre na internet. As chamadas “bolhas” mostram justamente isso. O grande capital domina a internet, tanto no plano mercantil quanto no plano cultural, impondo a hegemonia burguesa. E esse processo assume a forma de uma pirâmide que tem na sua base as classes inferiores, com menor acesso percentual de indivíduos em comparação com as demais classes, com menor bagagem cultural para desenvolver criticidade e questionamento, bem como domínio técnico, menos recursos financeiros para ter conexão com a mesma capacidade e velocidade, menos tempo para pesquisar, etc.

Isso revela, portanto, não apenas o caráter piramidal da internet, mas também o seu caráter reprodutor. A internet reproduz a sociedade capitalista no seu interior. As relações sociais da sociedade capitalista estão reproduzidas na internet. E como ocorre esse processo de reprodução concretamente? Ele ocorre através da divisão de classes e seu caráter piramidal, já aludido, da hegemonia burguesa, da reprodução da sociabilidade capitalista e da mentalidade dominante, dos processos concretos que oferecem um alcance limitado para os indivíduos das classes inferiores e para aqueles que são contestadores e revolucionários, mesmo que alguns destes pertençam às classes superiores.

Se os sites mais acessados, as notícias mais impactantes, as mercadorias mais vendidas, são as do grande capital, então isto reproduz não só a divisão de classes e seu caráter piramidal, mas também reproduz uma determinada mentalidade que é dominante na sociedade capitalista. Trata-se da mentalidade burguesa, que apresenta determinados valores fundamentais (vinculados à competição, burocratização e mercantilização), sentimentos profundos e concepções arraigadas (VIANA, 2007; 2008). A sociabilidade capitalista, marcada pela competição, burocratização e mercantilização também se revela na internet. Esses dois elementos são fundamentais para a reprodução da sociedade moderna e um remete para relações sociais concretas e outro para sua tradução sob a forma de mentalidade.

A burocratização traz o culto à autoridade, a naturalização da necessidade de dirigentes, o formalismo, etc. A internet é marcada por esse processo concretamente, nas relações sociais virtuais estabelecidas, e nos valores e concepções veiculados pelos seus usuários. Os sites possuem dirigentes, assim como toda a internet é marcada por esse processo. O blog tem um dono, que é seu dirigente. E o mesmo vale para as redes sociais (aqui tomamos o Facebook como exemplo principal), que possuem grupos que tem “administradores”, “moderadores”, numa hierarquia burocrática, que, ilusoriamente, parece livre, mas estão dentro de uma rede social que, por sua vez, impõe regras, limites, e dirige o que pode ou não ter nos grupos virtuais, o que pode e não pode ser postado (em nível mais geral), etc. A hierarquia burocrática se estabelece, desde aquele que cria e administra o grupo até a rede social como um todo que tem sua administração, suas regras, sua punição. Por exemplo, no Facebook, é necessário usar nomes pessoais, um e-mail só pode ter uma conta, não é permitido pornografia, e mais uma centena de exigências e regras. Algumas são aceitáveis e coerentes com a civilidade, outras são formas de controle e censura.

A mercantilização já foi exemplificada e ela reaparece a todo o momento na internet. Os indivíduos valem pelo que têm e não pelo que são. O vinho, o restaurante, a praia, são formas de mostrar o que possuem (recursos para usufruir de coisas ou bens materiais, etc.), o que revela a mentalidade burguesa, mercantil (com as devidas exceções existentes, o que não poderemos abordar aqui). E isso gera também a predominância valorativa do ter e do aparecer. Isso manifestam também a competição e a mentalidade competitiva. As fotos de viagens, de jantares, de sorrisos, roupas, de corpo escultural, são formas de competição, no qual a pessoa tenta passar para os competidores o seu relativo sucesso, que é estar no restaurante X consumindo boa comida (ou não tão boa assim, dependendo do gosto, entre outras coisas), na festa Y, no país ou cidade turística que muitos queriam poder ir, etc. O corpo escultural exposto via fotos, mais comum no caso das mulheres, mostra que a garota X ganha a competição em ser a mais bela e atrai possíveis candidatos, também competidores, a um futuro relacionamento amoroso. A competição se reproduz de forma específica nos meios intelectualizados, onde os debates, especialmente em redes sociais, geralmente não possuem o objetivo de chegar a uma verdade ou um aprendizado, e sim a ganhar o debate, ou seja, a competição intelectual. Obviamente que isso não ocorre explicitamente, com raras exceções, pois é tudo muito “polido”, aparentemente o que ocorre é o contrário: são pessoas elogiando e parabenizando umas às outras, e uma grande parte escondendo os sentimentos correspondentes à mentalidade burguesa, a inveja, o ódio e ciúme, por exemplo.

As pessoas, na internet, estão competindo concretamente e manifestando uma mentalidade competitiva. Estão mercantilizando concretamente e manifestando uma mentalidade mercantil. Da mesma forma, estão burocratizando concretamente e manifestando uma mentalidade burocrática. Isso mostra o caráter reprodutor da internet. A razão disso não é apenas as relações instituídas no mundo virtual, mas as relações sociais instituídas no mundo real, a sociabilidade capitalista e mentalidade burguesa que os indivíduos não deixam no mundo real quando adentram no mundo virtual. Os indivíduos que agem no mundo virtual da internet são os mesmos que agem no mundo real da sociedade capitalista e, portanto, a reproduzem espontaneamente, e os mecanismos e características da internet, acima aludidos, apenas reproduzem e reforçam isso.

O mundo real, através do meios oligopolistas de comunicação, do Estado, das instituições educacionais e outras, produzem e reproduzem um determinado paradigma hegemônico. São um conjunto de concepções, ideologias, doutrinas, representações cotidianas, correntes de opinião, que são produzidas e reproduzidas nas relações sociais reais e nas relações sociais virtuais. E nesse contexto há uma convergência entre o atual paradigma hegemônico, o subjetivismo, e o caráter participacionista da internet. Esse novo paradigma, que é correspondente ao regime de acumulação integral, coloca a ênfase no “sujeito” e na “subjetividade”, seja o indivíduo, o grupo social, etc. e gera formas de culturalismo que são reproduzidas no mundo virtual, com seu participacionismo aparentemente livre, e acabam reforçando a ignorância generalizada. A questão da ignorância e superficialidade foi abordada por alguns autores (ECO, 2018; CARR, 2018) e é um dos maiores problemas da internet. Porém, voltaremos a tratar disso adiante. Aqui apenas destacamos as múltiplas faces do caráter reprodutor da internet, que será útil para nossa análise dos movimentos sociais.

Porém, essa análise pode parecer extremamente pessimista. Ela, no mínimo, é bem diferente dos apologistas e outros que colocam a internet como a fonte dos protestos e grandes manifestações sociais. Sem dúvida, a internet é um produto dessa sociedade, que se organiza da mesma forma que ela e que a reproduz e reforça. No entanto, é preciso entender que a internet é perpassada por contradições, por lutas, e que tem possibilidades e potencialidades. Muitas vezes, os indivíduos são polidos em sua competição e manifestação de inveja, mas muitos outros são sinceros ou indiferentes ao relativo sucesso ou alegria alheia. Alguns mostram suas publicações não para mostrar o seu sucesso intelectual, mas para dizer: “leiam, pois estes textos trazem mensagens que criticam a competição intelectual e mostram suas raízes e que é preciso mudar”.

Assim como a sociedade capitalista é competitiva, burocrática e mercantil, bem como piramidal e reprodutora de si mesma, ela também traz em si, geralmente nas classes inferiores, elementos de solidariedade, autarquia, valoração do ser; ela traz luta pela transformação social, teoria e crítica revolucionárias, contestação, etc. Ora, isso também se reproduz na internet. Sem dúvida, assim como é marginal na sociedade capitalista, também é marginal na internet. E assim como os setores progressistas da sociedade reproduzem o capitalismo e sua mentalidade, mesmo sendo uma suposta oposição, também o fazem na internet. As lutas políticas na sociedade, a divisão social, bem como os blocos sociais, as distintas concepções políticas, morais, etc., se manifestam na internet. A oposição moderada tem mais espaço, a oposição mais extremista tem menos espaço, os contestadores e os revolucionários são marginalizados e possuem pouquíssimo espaço. Nada de diferente do que ocorre na sociedade em geral. Um outro elemento, que não poderemos desenvolver, são os efeitos psíquicos de todo esse processo, tal como solidão, evasão, insegurança, depressão, ou seja, formas variadas de insatisfação, o que gera novas contradições na internet e nas redes sociais virtuais.

Mas existe contestação e crítica revolucionária. A solidariedade (a autêntica, não a falsa dos filantropos burgueses ou dos populistas progressistas) também se manifesta, marginalmente, bem como outros valores e concepções. Os interesses antagônicos das classes sociais também se manifestam, embora marginalmente, mesmo porque as classes inferiores não possuem, imediatamente, uma percepção do processo de exploração, dominação, etc., isso só ocorre através da luta. E como isso aparece na internet? Através de alguns poucos sites, um número um pouco maior de blogs, grupos virtuais de debate, ações de organizações e indivíduos no interior das redes sociais virtuais e internet como um todo. Sem dúvida, outros elementos poderiam ser aqui explorados, mas esses são suficientes para mostrar que existem contradições e luta na internet e não apenas reprodução.

O último ponto que precisamos analisar, mesmo que brevemente, são as redes sociais virtuais, pois elas são uma manifestação específica no interior da internet. Por qual motivo precisam ser analisadas? Pelo fato de que elas foram importantes no desencadeamento de protestos em vários lugares do mundo, serem mais abertas a uma comunicação simétrica e por serem mais utilizadas para contestação e luta. As redes sociais virtuais emergem no interior da internet reproduzindo e ampliando as relações do que se convencionou denominar chat ou bate-papo. Os chats reúnem várias pessoas que conversam entre si, diretamente. Assim, se os sites, blogs, etc. permitem comentários, eles podem ou não ser publicados, podem ou não ter regras, etc. Os chats podem ter administrador, mas são mais livres e a forma de comunicação se dá via postagens dos participantes. Os grupos de e-mails são outra fonte de inspiração para as redes sociais. Um indivíduo criava um grupo (o que ocorria muito nas universidades) e debatiam via e-mail, sendo que os e-mails eram enviados para todos do grupo simultaneamente.

As redes sociais virtuais permitem esse mesmo processo de comunicação, de forma ampliada. Nelas é possível a conversa coletiva em um grupo (no antigo Orkut se chamava “comunidade” e no Facebook e WhatsApp se chamam grupo), e permitem as conversas interindividuais (no caso do Facebook, através do bate-papo via Messenger) e passaram a possibilitar, em alguns casos com o desenvolvimento posterior, a postagem de vídeos, textos, links, áudios, etc. Assim, se via e-mail havia a comunicação interindividual, a lista de discussão (grupo de e-mail) gera a comunicação grupal, assim como o chat. As redes sociais virtuais apontam prioritariamente para comunicação grupal, mantendo a interindividual e a global. A comunicação global na internet já ocorria via site e depois blogs, e nas redes sociais ocorrem através das postagens na timeline, ou “linha do tempo”, tal como no Facebook, ou no status, tal como no WhatsApp. Na comunicação global (o que é relativa, pois o indivíduo pode restringir quem tem acesso, dependendo da rede social), todos que têm acesso ao perfil de um indivíduo podem acessar suas postagens. Assim, o usuário pode realizar postagens que significam comunicação interindividual, grupal ou global.

Os processos anteriormente aludidos também ocorrem nas redes sociais virtuais. As redes sociais virtuais são produtos sociais, são piramidais, são reprodutoras e são marcadas por contradições e lutas. As redes sociais não foram criadas pela população e sim por grandes empresas capitalistas que atuam na internet, desde o Orkut, passando pelo Facebook, até chegar ao WhatsApp, entre diversas outras. As pessoas leem notícias sobre a aquisição de uma por outra e o volume de dinheiro gasto nessas transações sem se atentar para isso. As redes sociais virtuais competem umas com as outras (surgindo as cópias e concorrentes semelhantes, algumas sem grandes chances). O caráter piramidal ocorre tanto no processo de quem controla as informações, as regras, etc., quanto em quem tem mais espaço, mais “curtidas”, mais influência, etc. O caráter reprodutor está presente não apenas porque os usuários trazem as marcas da sociabilidade capitalista e mentalidade burguesa consigo, mas também por causa do seu modo de funcionamento, da força do dinheiro (uma página no Facebook pode ser “impulsionada” por um indivíduo, grupo, instituição, desde que tenha dinheiro para pagar e assim aparecer para um grupo maior de usuários), etc.

As contradições e lutas emergem no seu interior por expressarem a insatisfação, os problemas, as disputas, que existem efetivamente na sociedade. Além disso, oposições emergem a partir da competição social que se reproduz no seu interior, que pode ser interindividual, eleitoral (em épocas de eleições, com defesas e críticas a candidatos), esférica (nas disputas no interior das esferas sociais, tal como a científica e artística), etc. E isso é reforçado pelas ideologias, doutrinas, concepções morais, religiosas, políticas, quando são conflitantes, gerando outros motivos para polêmicas nas redes sociais virtuais. Um dos elementos comuns nas redes sociais virtuais é a formação do que se denominou “bolhas”, ou seja, espaços virtuais nos quais convivem apenas os semelhantes e isso fornece a impressão de que é algo generalizado na sociedade, mas é apenas de um setor da sociedade.

As bolhas reproduzem a divisão social do trabalho existente na sociedade capitalista. Podemos dividir as redes sociais virtuais, embora isso seja mais adequado para redes como o Facebook, por classes sociais, blocos sociais, e suas subdivisões. Dentro da bolha das classes superiores, existem subdivisões por classes, concepção política, regiões culturais, etc. E no interior dessas bolhas, emergem consensos, dissidências, correntes de opinião, chavões, etc. Muitos reproduzem isso sem maior reflexão.

No entanto, é necessário compreender que as redes sociais virtuais são dominadas pelos blocos sociais e pela hegemonia regional em cada um deles. Os blocos sociais são expressões políticas, organizadas e conscientes, de classes sociais, sendo que o bloco dominante, conservador, expressa a classe dominante (burguesia); o bloco progressista expressa as classes auxiliares, especialmente os seus setores autonomizados (burocracia e intelectualidade); o bloco revolucionário expressa o proletariado (VIANA, 2015b). As bolhas podem expressar a hegemonia regional de um ou outro bloco social, bem como a hegemonia regional de uma ou outra classe social.

Estes elementos introdutórios apenas oferecem um panorama geral da internet e seu objetivo foi fornecer uma análise preliminar para mostrar a sua complexidade e algumas de suas principais características, bem como contribuir para superar as representações cotidianas e concepções ingênuas a seu respeito, o que prejudicaria a compreensão da relação entre ela e os movimentos sociais.

Movimentos sociais, internet, redes sociais

Muitas vezes se confunde movimentos sociais com outros fenômenos, como manifestações, por exemplo, e, nesse caso, ocorre um processo de abordar manifestações e protestos e sua relação com as redes sociais virtuais (CASTELLS, 2013; GOHN, 2013), gerando um processo analítico distante do que tradicionalmente se define como movimento social. Assim, é necessário expor o conceito de movimentos sociais e analisar sua relação com a internet e seus recursos comunicativos.

Entendemos por movimentos sociais mobilizações de grupos sociais que produzem senso de pertencimento e objetivos gerados por insatisfação social (demandas, necessidades, interesses, etc.) com determinada situação social (VIANA, 2016a). Alguns dos movimentos sociais que mais se destacam são o feminino, negro, estudantil e o ecológico. Os movimentos sociais, portanto, se distinguem dos movimentos de classes sociais (VIANA, 2016b), das organizações mobilizadoras (VIANA, 2017a), entre outros fenômenos semelhantes ou relacionados. Também se distinguem de manifestações e protestos (COSTA, 2016). Para entender isso, é necessário enfatizar que se trata de movimentos de grupos sociais e que são os indivíduos ativistas destes que compõem os movimentos sociais. Os movimentos sociais, no entanto, não são homogêneos, possuem divisões e subdivisões (de classe, cultura, sexo, raça, tendências, organizações, concepções). É fundamental distinguir entre o movimento social e suas ramificações. O movimento feminino, por exemplo, é composto por diversas tendências (orientações políticas), concepções (ideologias, doutrinas), organizações, etc. O sufragismo não é “um” ou “o” movimento feminino e sim uma ramificação do mesmo, assim como o feminismo liberal de Betty Friedan e o feminismo existencialista de Simone de Beauvoir são ramificações do mesmo.

Sendo assim, alguns fenômenos abordados como “movimentos sociais” não constituem efetivamente movimentos sociais. A análise de fenômenos como os Indignados, Ocuppy Walt Street, entre outros (CASTELLS, 2013; GOHN, 2013) realiza uma confusão entre mobilização e movimentos sociais. Ao confundir fluxos de protestos e movimentos sociais, perde-se de vista a diferença entre o esporádico e conjuntural e o permanente e estrutural.

Assim, após expor o conceito de movimentos sociais, podemos focalizar a relação entre estes e a internet. A internet, como colocamos anteriormente, é um novo meio de comunicação que emerge e se desenvolve, aumentando cada vez mais o número de usuários e ganhando usos distintos com objetivos distintos. Qual é o uso da internet pelos movimentos sociais? Essa é uma questão importante, mas não é a única. Outras questões devem ser levantadas, tais como: qual é a influência da internet sobre os movimentos sociais? A complexidade e diferenciação interna da internet revela a complexidade dessa relação. Da mesma forma, a relação entre movimentos sociais e internet não pode ser isolada de outras relações, tais como a da internet e estado, classes sociais, blocos sociais, mercantilização, burocratização, etc.

O uso da internet pelos movimentos sociais é variado. A internet acaba sendo uma ferramenta de comunicação interna dos movimentos sociais e divulgação de suas demandas, ações, etc., para o público externo, tornando-se mais uma forma de atuação dos mesmos. Então podemos elencar os seguintes usos da internet pelos movimentos sociais: a) comunicação interna, na qual os membros de uma organização mobilizadora ou do conjunto do movimento social se comunicam; b) divulgação de suas reivindicações, no qual busca atingir a população ou setores dela divulgando suas demandas, ações, eventos, manifestações, etc.; c) manifestação de suas concepções (ideologias, doutrinas, representações etc.); d) busca de novas adesões, tentando conquistar mais adeptos e ativistas; e) busca de apoio de outros setores da sociedade, como patrocínio, participação em eventos e ações, etc. Esses usos variam de acordo com a ramificação do movimento social, pois existem organizações mobilizadoras, tendências, concepções, com maior força e capacidade de atuação do que outras.

Assim, o uso dos movimentos sociais na internet reproduz a situação piramidal, pois as organizações mobilizadoras com mais recursos, maior número de ativistas, etc., também possuem melhores condições de atuação e uso mais eficaz no mundo virtual. Assim, uma organização mobilizadora poderá ter site e blog, outra apenas blog. O blog, por sua vez, pode ser atualizado raramente ou cotidianamente. Isso depende dos recursos financeiros e humanos. Os recursos humanos podem compensar a falta de recursos financeiros, quando o ativismo é intenso por parte de alguns indivíduos. Por outro lado, as tendências hegemônicas tendem a ser mais eficazes e ter melhor recepção daqueles que atingem virtualmente. Desta forma, não é difícil perceber que as tendências conservadoras e reformistas são hegemônicas na internet e nas redes sociais virtuais. As redes sociais virtuais são outro espaço de atuação, mas com mais debate e polêmicas, e confronto de ideias, concepções, correntes de opinião, etc.

Os movimentos sociais também são atingidos pela internet, especialmente as redes sociais, como o Facebook, pois são apoiados, questionados e reformulados nesse espaço virtual. Na verdade, os ativistas são atingidos pela internet como um todo – assim como fora da internet são atingidos pelos meios oligopolistas de comunicação, instituições, etc. –, mas nos últimos tempos as redes sociais virtuais ganharam maior espaço, especialmente para os ativistas de movimentos sociais, militantes políticos, entre outros, pois permitem uma participação e ação, tal como as elencadas acima. As correntes de opinião atingem os ativistas, bem como as ideologias e doutrinas hegemônicas na sociedade civil e na internet. No fundo, a internet reproduz o paradigma hegemônico, o subjetivismo, e o participacionismo na rede mundial de computadores e, o que é mais forte nas redes sociais virtuais, parece confirmar a concepção subjetivista. Muitos pensam que foram “empoderados”, se tornaram “protagonistas” (inclusive sem saber a origem dessa terminologia e seu significado político), que são expressão de sua própria “subjetividade”, confundindo participacionismo e práxis, espontaneidade e liberdade (VIANA, 2015c).

No caso das redes sociais virtuais, os ativistas dos movimentos sociais tendem a se inserir em bolhas que são ilusórias. As bolhas virtuais são ilusórias por que os indivíduos inseridos nelas, incluindo os ativistas, passam a acreditar que o que é hegemônico no seu interior é verdadeiro, quase consensual (o que é verdade na bolha, mas não fora dela, e existem outras bolhas, opostas e até antagônicas), o que reforça intolerância e incomunicação. Isso, por sua vez, não prejudica apenas os ativistas como indivíduos, mas a sua organização mobilizadora e/ou o grupo social de base do seu movimento social. Os indivíduos ativistas são prejudicados por romperem relações pessoais, criarem expectativas irrealistas, gerarem insatisfação psíquica, entre outros processos. As organizações mobilizadoras são prejudicadas por perderem apoios, simpatizantes, capacidade de mobilização, ao lados dos problemas que atingem seus ativistas e que repercutem na organização.

De qualquer forma, é preciso reconhecer que o caráter piramidal e reprodutor da internet atinge os movimentos sociais, que também são atingidos pelo mundo real. Isso reforça a hegemonia burguesa, a reprodução do subjetivismo e a supremacia do conservadorismo e progressismo nos movimentos sociais. O subjetivismo e a recusa da teoria e da razão, que são produzidas e reproduzidas por diversas ideologias e concepções, reforçam essa situação de debilitamento crítico e político dos movimentos sociais. Isso é mais forte em suas tendências hegemônicas, mas atinge o movimento social como um todo. Nesse contexto, surge, por exemplo, o imaginário conveniente sobre “vivência” e “lugar de fala” (VIANA, 2017b), divulgado via blogs e redes sociais virtuais, entre outros espaços virtuais.

As divisões que perpassam a sociedade, especialmente as lutas de classes, também se reproduzem nos movimentos sociais, no mundo real e no mundo virtual. A internet reproduz e reforça isso. As redes sociais virtuais e bolhas virtuais acabam incentivando manifestações cada vez mais exóticas no seu interior e permitindo emergência de moralismos (conservador e progressista) e do imoralismo. O moralismo se expandiu e virou palco de disputas e polêmicas, ocupando muitas vezes mais espaço que a reflexão, a teoria (ou ideologia), projetos políticos, etc. O moralismo, por suas próprias características, acaba reforçando o conflito, a polêmica, a dissensão, e, por conseguinte, diminui a possibilidade de apoios e adesões de outros setores da sociedade, bem como fortalece a intolerância e incomunicação. Ao lado disso, promove diversas subdivisões. A proliferação de subdivisões é um dos impactos desse processo, inclusive devido ao processo de difusão mais amplas de ideologias, doutrinas, concepções, mesmo que superficialmente apreendidas, mas que geram correntes de opinião que, com a força do coletivo e da pressão social, se tornam convicções, alterando as representações cotidianas de setores de determinado movimento social.

Isso, por sua vez, gera uma divisão dentro dos movimentos sociais entre aqueles que ficam apenas no nível da opinião e aqueles que ficam ao nível da convicção. Esse último caso é um gerador de conflitos, internos e externos, pois gera dogmatismos e processos identitários excludentes, gerando a recusa dos outros (grupos, setores, indivíduos discordantes, etc.). Isso também é reforçado pelos conflitos reais existentes na sociedade, as ações dos grupos e indivíduos e, principalmente, pela competição social e mentalidade competitiva que é dominante na sociedade moderna. Isso envolve um conjunto de questões políticas e culturais, sendo que a internet amplia esses processos e ainda, devido sua dinâmica própria, intensifica os conflitos internos e externos. Diversos outros elementos poderiam ser acrescentados nesse processo de influência da internet nos movimentos sociais, mas nos limitaremos a estes.

Por fim, é necessário entender que a internet e as redes sociais virtuais não estão isoladas das relações sociais reais, e, portanto, as reproduzem e reforçam. Porém, essas relações são marcadas por contradições, conflitos e lutas, que também se reproduzem no mundo virtual. Os indivíduos das classes inferiores tendem, muitas vezes, a recusar ou desconsiderar o que é hegemônico nos meios intelectualizados (maciçamente pertencente às classes superiores), bem como os setores mais politizados trazem novas contradições e isso tudo convive ao lado da competição social em suas múltiplas formas. É por isso que a sociedade é um local de disputas, tanto a competição (disputa dentro da sociedade para melhorar a posição no seu interior) quanto a luta (conflito de classes buscando conservar ou transformar a sociedade). E a internet reproduz esse mesmo processo e em ambos os casos predomina a classe dominante, seja sob a forma conservadora, seja sob a forma progressista, duas formas de reproduzir as relações sociais existentes. Os movimentos sociais são atingidos por esse processo e também o reproduz, tanto na sociedade em geral quanto na internet.

Considerações finais

A internet reproduz a sociedade, incluindo suas contradições. Os movimentos sociais estão presentes tanto no mundo real quanto no mundo virtual. Assim, os movimentos sociais agem na internet, mas são muito mais afetados do que a afetam. No entanto, como há uma certa coincidência discursiva entre os setores hegemônicos dos movimentos sociais e o discurso hegemônico na internet e por isso eles aparecem como agentes livres, mas são muito mais determinados do que determinantes. No entanto, isso não abole a capacidade comunicativa da internet e a sua possibilidade de contribuir com a divergência, crítica, mobilizações, ações, politização e transformação. Porém, a concretização disso depende das lutas reais na sociedade e nas condições reais e concretas da vida. As lutas existentes na sociedade podem se ampliar e assim o uso da internet pode sofrer alterações, os usuários podem se politizar e superar seus usos despolitizados, romper com as concepções hegemônicas, etc. Esse processo ocorreu em diversas mobilizações pelo mundo (CASTELLS, 2013) e no Brasil (2013), na chamada “Revolta Árabe” e outros processos. Também teve outros usos políticos (independente da perspectiva), tais como os realizados pelos EZLN (Exército Zapatista de Libertação Nacional) e MST (Movimento dos Trabalhadores Sem-Terra), Movimento Antiglobalização e o seu uso alternativo como informação, tal como fez o CMI (Centro de Mídia Independente).

Assim, a internet é um espaço de lutas e os movimentos sociais, em suas variadas ramificações e tendências, o disputam. O bloco revolucionário também luta na internet, assim como os demais blocos, e isso ocorre na sociedade como um todo. Em épocas de radicalização das lutas, a internet pode deixar de ser hegemonicamente reprodutora e se tornar hegemonicamente transformadora. Esse é um processo de luta que só ela mesma pode definir.

Em síntese, a internet e as redes sociais virtuais são espaços de luta e os movimentos sociais também. Nesse entrelaçamento entre mundo real e mundo virtual e suas diversas lutas, se revela uma complexidade que não é compreensível imediatamente. Por isso, é necessário ir além da aparência e perceber as contradições e determinações que estão presentes nela. O presente texto buscou apresentar uma introdução ao processo analítico da internet e sua relação com os movimentos sociais, apontando para a necessidade de ir além da aparência, e, nesse sentido, cumpriu com o seu objetivo.

Referências

BRAGA, Lisandro. A Teoria do Regime de Acumulação Integral. In: MARQUES, Edmilson e MAIA, Lucas (orgs.). Nildo Viana: Dialética e Contemporaneidade. Lisboa: Chiado, 2018.

CARR, Nicolas. O Google está nos deixando mais estúpidos? Disponível em:

CASTELLS, Manuel. Redes de Indignação e Esperança. Movimentos Sociais na Era da Internet. Rio de Janeiro: Zahar, 2013

COSTA, Leon. Movimentos Sociais, Protestos e Manifestações Públicas. In: VIANA, Nildo (org.). Movimentos Sociais: Questões Teóricas e Conceituais. Goiânia: Edições Redelp, 2016.

ECO, Umberto. A Conspiração dos Imbecis. Disponível em: https://informecritica.blogspot.com/2008/01/a-conspiracao-dos-imbecis-umberto-eco.html acesso em: 30/12/2018

GOHN, Maria da Glória. Sociologia dos Movimentos Sociais. São Paulo: Cortez, 2013.

MARTÍNEZ, S. L. et al. Internet e Lucha Política. Buenos Aires: Capital Intelectual, 2006.

MARX, Karl. A Luta de Classes na França. São Paulo: Global, 1986.

ORIO, Mateus. O Desenvolvimento Capitalista na Sucessão de Regimes de Acumulação. Ciências Humanas. Revista da Faculdade Estácio de Sá. Goiânia. Vol. 02, nº 09, Jan. 2014.

SLEVIN, James. Internet e Sociedade. Lisboa: Temas e Debates, 2002.

VIANA, Nildo. Blocos Sociais e Luta de Classes. Revista Espaço Livre, Vol. 10, n.º 10, jul./dez. 2015.

VIANA, Nildo. Espontaneidade e Liberdade. Revista Posição. Ano 02, vol. 02, num. 06, jan./jun. 2015. Disponível em: http://redelp.net/revistas/index.php/rpo/article/view/2viana6/222 Acessado em: 06/06/2015.

VIANA, Nildo. Movimentos Sociais e Movimentos de Classes: Semelhanças e Diferenças. Revista Espaço Livre, v. 11, n. 22, 2016b.

VIANA, Nildo. Movimentos Sociais e Organizações Mobilizadoras. Revista Espaço Livre, vol. 12, num. 23, 2017. Disponível em: http://redelp.net/revistas/index.php/rel/article/view/653/562 Acessado em: 14/10/2017a.

VIANA, Nildo. Os Movimentos Sociais. Curitiba: Prismas, 2016a.

VIANA, Nildo. Os Valores na Sociedade Moderna. Brasília: Thesaurus, 2007b.

VIANA, Nildo. Universo Psíquico e Reprodução do Capital. Ensaios Freudo-Marxistas. São Paulo: Escuta, 2008.

VIANA, Nildo. Vantagens Competitivas, Microrreformismo e Imaginário Conveniente. A Integração dos Movimentos Sociais no Capitalismo Contemporâneo. Revista Espaço Livre, vol. 12, num. 24, jul-dez. 2017b.

------------------------------------

Publicado originalmente em:
GUILHERME, William Douglas (org.). A Produção do Conhecimento nas Ciências Sociais Aplicadas 4. Belo Horizonte: Atena, 2019.

-------------------------------------




* Professor da Faculdade de Ciências Sociais e Programa de Pós-Graduação em Sociologia da Universidade Federal de Goiás. nildoviana@ymail.com

Formulário de contato

Nome

E-mail *

Mensagem *

Acompanham este blog: