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quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

A ESFERA CIENTÍFICA NO CINEMA

A ESFERA CIENTÍFICA NO CINEMA
Nildo Viana
Resumo:
A ciência e a produção científica são objetos de representações por elas mesmas e, de forma mais aprofundada, pela sociologia da ciência, filosofia da ciência e história da ciência. O cinema através de suas produções fílmicas também apresentam aspectos da ciência e de sua produção intelectual. O presente artigo objetiva analisar três filmes (A Fúria pela Honra; Óleo de Lorenzo; O Informante) e observar quais representações eles produzem a respeito da ciência, da esfera científica e da produção que esta realiza. A conclusão é que estes filmes revelam a dinâmica dominante na esfera científica, comandada pelo capital, burocracia e Estado, elementos complementares, além da dinâmica interna da mesma.
Palavras-chave: Esfera Científica, Cinema, Competição, Burocracia, Capital.

Resumé:
Des sciences et de la production scientifique sont des représentations d'objets par eux-mêmes et, plus en profondeur, la sociologie de la science, la philosophie de la science et de l'histoire de la science. Le film à travers ses productions filmiques comportent aussi des aspects de la science et de la production intellectuelle. Cet article vise à analyser trois films (Le Fury par honneur, Huile de Lorenzo, L'informateur.) et observer ce qu'ils produisent des représentations sur la science, la sphère scientifique de la production et que cette porte. La conclusion est que ces films révèlent la dynamique dominante dans le domaine scientifique de ses liens avec la capitale, et la bureaucratie d'Etat, étant complémentaires, puisque chaque concentre sur un aspect de ces relations.
Mots-clés: Sphère Scientifique, Cinéma, Competition, Bureaucratie, Capitale.

A ciência e a produção científica possuem diversas características analisadas pelas ciências humanas, especialmente a sociologia da ciência, e a historiografia, bem como também pela filosofia da ciência, entre outras disciplinas. As obras cinematográficas manifestam, muitas vezes, aspectos da ciência e produção científica. Os filmes de ficção científica são bons exemplos, apesar de geralmente ficarem na superficialidade, pelo menos na maioria dos casos. Alguns filmes de terror também mostram[1] questões sobre a ciência, inclusive os seus resultados mais negativos. Há também outras produções além dos filmes de ficção científica e terror que abordam questões relacionadas à ciência. Este é o caso de vários filmes, mas destacamos três para poder extrair uma análise crítica da esfera científica: A Fúria pela Honra, Shi-Zheng Chen (EUA, 2007); O Óleo de Lorenzo, George Miller (EUA, 1993) e O Informante, Michael Mann (EUA, 1999).

Antes de iniciar nossa análise, no entanto, observamos a necessidade de explicar o que significa o conceito de esfera científica. A esfera científica é uma das esferas sociais constituídas na sociedade capitalista, fruto da ampliação da divisão social do trabalho intelectual, e que possui um conjunto de indivíduos que são os seus agentes diretos, os cientistas, instituições, concepções e valores próprios, que possui um modus operandi próprio, entre outros aspectos[2]. Enfim, a esfera científica é um setor da divisão social do trabalho responsável pela produção da ciência e que é composta, principalmente, pelos cientistas.

Esfera científica, competição e academia em A Fúria pela Honra.

O filme A Fúria pela Honra é importante para compreender um aspecto fundamental da esfera científica: a produção científica e suas determinações. Uma das determinações da produção científica é o espaço onde ela se realiza: universidades, institutos de pesquisa, etc. Aqui temos a relação entre esfera científica e instituições. No caso do filme, a produção científica ocorre no interior de uma universidade. O personagem Liu Xing se transfere da China para os Estados Unidos para trabalhar sob a supervisão do renomado cientista Jacob Reiser. A relação entre ambos é de subserviência. O cientista explora o orientando com diversos trabalhos e devido sua competência vai ganhando espaço, ao lado dos demais orientandos, mas com certo destaque.

Assim, Liu Xing tem uma rápida ascensão. Ele tem uma grande ambição, o que está relacionado com as expectativas dos pais e sua vontade de ajudá-los, além dos seus próprios valores e desejo de reconhecimento na esfera científica, o que se percebe pela ideia de ganhar o prêmio Nobel devido a uma grande descoberta que pretende fazer. Um dos pontos fortes do filme é quando o cientista afirma ao estudante que um artigo famoso que ele publicou foi uma crítica ao seu orientador. O estudante retruca dizendo que na China isso não acontece, pois lá é preciso respeitar o orientador, não podendo criticá-lo. O cientista retruca dizendo que nos Estados Unidos ele pode criticar o orientador, inclusive Liu Xing poderia criticá-lo, embora, acrescenta, “ele sempre estaria certo”. Pouco depois, Jacob Reiser, em uma apresentação pública, é questionado pelo seu antecessor e ex-orientador. Reiser fica sem resposta e é salvo pelo orientando, Liu Xing, que meio atrapalhado e com muitos papéis, acaba lhe fornecendo a resposta.  

A partir daí Liu Xing amplia seus estudos e realiza uma descoberta, o que era sua grande ambição e passo necessário para o tão sonhado prêmio Nobel. O problema é que sua tese, embora seja de certa forma uma continuidade da do seu orientador, ia além e realizava uma crítica parcial da mesma. Isso lhe traz inúmeros problemas com as bancas que passa e a publicação de um artigo, sem a “autorização” do seu orientador[3] e possuindo caráter crítico (da mesma forma que ele fez no passado), acaba lhe rendendo uma reprovação através de subterfúgios por parte dos membros da banca, e isso acaba destruindo não somente seus grandes sonhos, mas também lhe fechando as portas e ele acaba como vendedor de cosméticos, uma ironia, já que era especialista em cosmologia, o que uma garota, uma garçonete que ele tinha ilusões de relação amorosa, havia confundido com cosmética no início do filme.

O que o filme mostra, no fundo, são algumas das características fundamentais da produção científica. Nem sempre as melhores ideias são aceitas e muito menos são reconhecidas publicamente. A produção científica é perpassada por relações de poder, aqueles que já possuem fama, posições nas universidades, etc., acabam determinando um processo de reprodução de suas ideias e/ou das concepções estabelecidas. Toda história mostra, também, a competição constante no interior da universidade e dos meios científicos. Nesta competição, há a oposição entre os velhos e os novos, os consagrados/estabelecidos[4] e os iniciantes, professores e estudantes. O conflito entre consagrados e/ou estabelecidos e iniciantes pode ocorrer pelo fato de existir, no último caso, muita pressa em reconhecimento – com ou sem mérito real, entrando em jogo questões psíquicas e outras – ou em destaque real por desenvolvimento de grande potencialidade, sendo que as duas coisas podem ocorrer simultaneamente no mesmo indivíduo, aumentando o potencial de conflito. Este é o caso de Liu Xing. Claro que nem sempre existe tal oposição, pois foi o caso do aluno excepcional que permitiu a superação da subserviência. A disputa entre os antigos professores, que viveram a situação de orientador e orientando, é uma competição de gerações que revelam disputas políticas e por reconhecimento. A nova luta é uma reprodução da antiga, com a diferença de que o cientista Jacob Reiser soube esperar o seu momento, ou seja, após muito tempo e depois de garantir seu espaço institucional é que combateu o seu antigo orientador. Este, no entanto, continua existindo e lhe combatendo. É por isso que Reiser diz que Liu Xing “não é um jogador”, ou seja, não sabe “jogar” e desconhece as regras do jogo, o modus operandi da esfera científica.

Isso revela os valores e interesses dentro da esfera artística. Obviamente que os cientistas, enquanto indivíduos que vivem numa sociedade capitalista, precisam de dinheiro para sobreviver e geralmente estão de acordo com os valores dominantes, que Liu Xing reproduz (veja afirmação de que queria ganhar o premio Nobel e se casar com uma loira americana). Contudo, a luta pelo reconhecimento é um dos elementos mais constantes da esfera científica e isso se faz através de várias formas, e no fundo se dá em torno do que cada um produz. A disputa entre Reiser e Liu Xing expressa justamente a tentativa de um garantir a manutenção do seu reconhecimento com sua descoberta que não poderia ser criticada e o outro tentando produzir algo inovador e original, o que acaba conseguindo, e que é rechaçado por ter entrando em contradição com a descoberta do orientador e, por conseguinte, por causa das relações de poder favorável ao primeiro.

O fracasso de Liu Xing mostra, também, que o compromisso com a verdade não é um valor fundamental na esfera científica, bem como que as ideias hegemônicas nesta esfera não são as melhores e mais fundamentadas. São o resultado de relações de poder num processo competitivo que não ganha o mais apto intelectualmente e sim o mais bem posicionado na esfera científica, com raras exceções. Os alunos de maior sucesso, mais “apto” (no fundo, mais adaptado), em grande parte das vezes, é o subserviente, tal como se percebe no caso do colega de Liu Xing que acabou ganhando a vaga que seria dele caso não houvesse o conflito, ou seja, se ele soubesse ou seguisse “as regras do jogo”, se fosse um jogador, humilde, subserviente.

Assim, a hierarquia acaba sendo uma determinação do processo de quais ideias científicas obterão êxito e reconhecimento e há uma luta constante entre os mais antigos, os consagrados e os estabelecidos, e entre estes e os estudantes, bem como acordos e alianças, tal como se percebe na banca instituída para avaliar o trabalho de Liu Xing. No caso de Liu Xing há uma luta por reconhecimento e ascensão social, o que o envolve numa competição com seu orientador, e com seus colegas, sendo que os demais são cooptados e conseguem se adaptar ao jogo apesar de menos competência.

O diferencial de Liu Xing é sua competência maior, o que lhe colocava em confronto com o orientador e sua persistência em dizer a verdade, não tanto pelo compromisso com a verdade, mas pelo seu interesse de reconhecimento e ascensão social. Em síntese, o filme mostra a competição na academia e na produção científica, demonstrando com a universidade como instituição e seus processos burocráticos e hierárquicos acabam sendo um obstáculo para o desenvolvimento do saber.

Esfera Científica, burocracia e interesses em Óleo de Lorenzo

O filme Óleo do Lorenzo oferece um quadro complementar ao primeiro filme analisado. Neste filme temos o caso de um casal preocupado com uma doença rara que acomete o filho e pai e mãe buscam de todas as formas encontrar uma cura para ela. Eles consultam médicos, organizam um simpósio científico, etc. até que passam, eles mesmos, a estudar medicina e buscar a cura por conta própria.

Nesse processo, baseado em uma história real, alguns elementos são mostrados a respeito da esfera científica. Um deles é o processo burocrático de formação. Apenas os diplomados (os estabelecidos) é que podem exercer medicina e isso é parte de sua formação. É necessário o diploma. Essa oposição é colocada em várias oportunidades no filme, no qual a percepção acrítica da especialização é acompanhada pela desqualificação do saber não especializado e institucionalizado. O saber real é menos importante do que o saber formal representado pelos diplomas, aliás, o que já estava teorizado por Weber (1971) ao destacar sua importância crescente na sociedade moderna e que é expressão do que Marx (1978) chamou “batismo burocrático do saber”, parte do processo de autolegitimação da esfera científica. Isso também reflete a oposição entre intelectuais profissionais, hegemônicos, e intelectuais amadores. Os consagrados e estabelecidos buscam constantemente desqualificar o saber dos amadores e aspirantes, reproduzindo a competição social e ao mesmo tempo realizando sua autolegitimação. Assim, tanto aqueles que são da esfera científica quanto aqueles que são externos e atuam sobre ela, são envolvidos nessa competição e os externos ou aspirantes internos são colocados como “inferiores”, mesmo que possuam uma real competência e contribuição intelectual.

Aqueles que possuem a hegemonia na esfera científica possuem, nessa competição, as instituições ao seu lado, pois seu saber é institucionalizado. Ele é sancionado pela instituição estatal (regularização jurídica) e pelas instituições específicas ligadas à esfera científica (universidade, institutos de pesquisa, associações profissionais). O saber institucionalizado possui não só hegemonia, mas os seus “detentores” possuem o poder de censurar, reprimir, desqualificar, o saber não institucionalizado, tal como ocorre com o casal. E para tanto existem diversos argumentos, que podem ser observados no filme, desde o argumento de autoridade, passando pela necessidade de institucionalização, necessidade de reconhecimento pela esfera científica, etc.

Outro elemento importante da esfera científica apresentada no filme é sua relação com o capital e Estado, o que está intimamente ligado ao ponto anterior. Essa ligação perpassa o processo de formação, principalmente, mas não unicamente, no caso do Estado. Contudo, a interferência estatal na esfera científica não ocorre apenas através da formação, mas também através do financiamento, da regularização jurídica, da regulamentação da profissão, etc. É nesse contexto que novamente emerge a competição e a burocracia na esfera científica. Esse processo não só deixa vagaroso qualquer avanço, como tornam os cientistas extremamente moderados, o que é mais forte em algumas áreas da produção científica. Além disso, devido aos interesses próprios dos cientistas, constituídos na esfera, não se pode ser “ousado” demais e não se deve adotar novas linhas de pensamento ou assumir descobertas e propostas inovadoras. É uma forte tendência da esfera científica, mesmo para os estabelecidos, e até para alguns consagrados, o medo da ousadia, da inovação, da transformação.

Um elemento fundamental do filme é mostrar a força dos interesses e a sua relação com a verdade. Os profissionais da esfera científica possuem interesses próprios e estes limitam suas ações e processos de descoberta, inovação, assimilação de saberes externos, etc. Os interesses próprios constituídos na esfera científica entram em contradição com o compromisso com a verdade.

A ciência submetida ao capital em O Informante

O filme O Informante se passa noutro contexto de produção científica. O filme mostra, baseado em fatos reais, a situação de Jeffrey Wigand, um cientista, doutor em bioquímica, empregado no capital tabaqueiro (ou “indústria do tabaco”), que é despedido e ameaçado por ter informações sigilosas da empresa e, ao mesmo tempo, é procurado por um jornalista, Lowell Bergman, para expor a história na rede de televisão norte-americana CBS. Ao conceder a entrevista, ele sofre as consequências, perda de benefícios advindos da rescisão contratual, ameaça de morte, perseguição, divórcio, e acaba terminando modestamente como professor de química.

O que o filme mostra é a submissão do cientista na situação de trabalhador para empresas privadas. O capital tabaqueiro contrata cientistas, financia pesquisas, e usa isso para seus interesses. O seu interesse é, obviamente, o lucro. Os cientistas, nesse caso, são pagos para produzir aquilo que remete aos seus interesses. No caso do filme, o interesse é afirmar que não sabe que a nicotina possui característica de viciar e outros segredos da produção desta empresa capitalista. Contudo, Wigand revela não apenas que a empresa sabia das características viciantes da nicotina como, ainda, adicionavam aditivos químicos para reforçar tal característica. Obviamente, isso faz parte da necessidade do capital de promover, junto com a produção cada vez maior de suas mercadorias, uma reprodução ampliada do mercado consumidor (VIANA, 2009).

Os cientistas empregados em empresas capitalistas como estas estão totalmente submetidos ao capital. A sua produção científica e suas pesquisas são voltadas para os interesses do capital, mesmo que isso signifique prejudicar, o que geralmente ocorre, a população. É uma situação pior do que a dos cientistas empregados em universidades e outras instituições, pois sua margem de liberdade é muito menor. Isso revela um elemento interessante da esfera científica: ela está submetida ao capital. Isso não só se manifesta no caso das instituições de ensino e pesquisa financiadas e controladas pelo capital, mas também por empresas capitalistas que diretamente usam e financiam pesquisas. Desta forma, a esfera científica possui graus distintos de determinação de sua produção e pesquisa pelo capital, e para aqueles empregados em grandes empresas capitalistas, sua autonomia e liberdade são mínimas. Ou é livre para servir ao capital.

Obviamente que existe a possibilidade de romper com tais empresas. O que o filme mostra, nesse caso, é que devido ao sigilo necessário, a ruptura seria traumática e poderia colocar em risco a própria vida do cientista. As ameaças, a vigilância, se dão simplesmente por sua saída da empresa. Quando resolve expor o que sabia para a imprensa, a pressão aumenta e a vida de Wigand se torna um verdadeiro inferno. Até mesmo o grande capital comunicacional, no caso a CBS, é ameaçado e colocado em questão, o que gera problemas para o jornalista Bergman e toda equipe, sendo este o único que decide comprar a briga. Isso demonstra o poder do capital e como os cientistas (e não só eles, mas também os jornalistas) estão submetidos e podem pagar muito caro por não seguir suas diretrizes.

O processo de pressão começa com os contratos e a burocracia, avança para ameaças e uso do poder financeiro, chega, no momento da denúncia e processo, a vasculhar a vida privada de Wigand, na qual pequenos deslizes e detalhes são utilizados contra ele e ganhando grandes proporções, e as ações do capital tabaqueiro são minimizadas. A ameaça de morte e perseguição à família é apenas um capítulo desse processo de ataque do capital ao cientista. Por conseguinte, há uma grande pressão sobre os cientistas, que ficam acorrentados ao capital. Se o cientista tenta se desvencilhar, sabe que perderá seus privilégios e sua vida tende a ser destruída. Nesse sentido, a esfera científica não possui autonomia absoluta, mas tão-somente relativa, mas isso é variável de acordo com a situação específica e certos setores da esfera científica possuem uma autonomia muito restrita, alguns chegando a não ter autonomia praticamente nenhuma. A proeminência do poder financeiro em certos setores da produção científica é evidente e o filme mostra o seu de tal poder não apenas para financiar, mas para controlar, censurar e reprimir a verdade.

O filme revela, ainda, a dificuldade em dizer a verdade, aspecto já tematizado por Bertolt Brecht, sendo a coragem a primeira delas:
É evidente que o escritor deve dizer a verdade, não a calar nem a abafar, e nada escrever contra ela. É sua obrigação evitar rebaixar-se diante dos poderosos, não enganar os fracos, naturalmente, assim como resistir à tentação do lucro que advém de enganar os fracos. Desagradar aos que tudo possuem equivale a renunciar seja o que for. Renunciar ao salário do seu trabalho equivale por vezes a não poder trabalhar, e recusar ser célebre entre os poderosos é muitas vezes recusar qualquer espécie de celebridade. Para isso precisa-se de coragem (BRECHT, 1982, p. 36).
Assim, O Informante complementa o processo de mostrar o funcionamento da esfera científica e revela sua ligação com o capital e sua reprodução. A saga de Jeffrey Wigand é a que foi seguida por poucos e evitada por milhares, revelando que os discursos sobre a ciência, geralmente produzido pelos próprios cientistas, nem sempre colocam aquilo que deveria colocar a imagem heroica do cientista, que existe e se manifesta em alguns casos, é mais exceção do que a regra, pois sair das regras, além de não ser desejável para quem compartilha os valores dominantes da nossa sociedade, tem consequências prejudiciais para os indivíduos.

Considerações finais

Os filmes aqui comentados são complementares, pois juntos oferecem uma percepção, ainda que longe de ser completa, mais geral da esfera científica. Eles mostram como a esfera científica está envolvida com as instituições (tal como a academia), a burocracia/governos e empresas capitalistas, especialmente manifestando a questão dos interesses constituídos a partir dela pelos cientistas.

Esses interesses, muito longe de beneficiarem o compromisso com a verdade, na maioria dos casos, são obstáculos. O objetivo que predomina na produção científica não é o bem estar da população, nem supostamente a verdade e sim a satisfação de determinados interesses que vão contra ambos. Aqui temos o mesmo caso que na ideologia, um sistema de pensamento ilusório que contribui para o reforço da dominação. Ilusão e dominação se complementam, ao contrário do que afirmam alguns[5]. Esse processo, que ocorre na vida real, na qual os intelectuais, devido suas posições na divisão social do trabalho e na esfera científica mais especificamente, assumem determinados posicionamentos, e assim acabam reproduzindo a sociedade capitalista tanto em suas produções científicas (ideologias, técnicas, tecnologias, etc.), quanto em suas práticas cotidianas.

Os interesses dos consagrados e estabelecidos geralmente é, embora não seja o caso de todos os indivíduos nessa situação, a reprodução da esfera científica e de sua posição privilegiada (quando a tem, quando não a tem, o interesse é adquiri-la)[6], o que pressupõe reproduzir as estruturas burocráticas das instituições e as regras do jogo. Da mesma forma, o interesse do reconhecimento, retorno financeiro, entre outros existem e silenciam milhares de cientistas. Ambos são elementos da sociedade capitalista reforçados por sua sociabilidade e mentalidade dominantes.

Isso é o que ocorre na vida real e é reproduzido no universo ficcional da produção fílmica. Quando se baseiam em “fatos reais” a proximidade, intencional ou não, da equipe de produção, com a realidade, é maior. Estes filmes mostram, através da ficção, a realidade concreta da esfera científica e de seus laços indissolúveis com o capital e o poder.

Nesse sentido, os três filmes aqui apresentados são interessantes para despertar a reflexão crítica sobre a ciência e a esfera científica, com focos diferentes e que, com a sua reunião, possibilitam uma análise mais global desta esfera social e sua dinâmica de funcionamento e envolvido com a sociedade capitalista.

Referências

BOURDIEU Pierre. O Poder Simbólico. Rio de Janeiro: Difel, 1989.

BOURDIEU, Pierre. O Campo Científico. In: ORTIZ, Renato (org.). Bourdieu. São Paulo: Ática, 1994.

BRECHT, Bertolt. As Cinco Dificuldades em Dizer a Verdade. In: Sobre a Verdade. Lisboa: Nova Aurora, 1982.

MARX, Karl. Crítica da Filosofia do Direito de Hegel. Lisboa, Presença, 1978.

ROUANET, Sérgio Paulo. Imaginário e Dominação. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1978.

VIANA, Nildo. A Esfera Artística. Marx, Weber, Bourdieu e a Sociologia da Arte. Porto Alegre: Zouk, 2007.

VIANA, Nildo. A Esfera Científica. Florianópolis: Bookess, 2014b.

VIANA, Nildo. As Esferas Sociais. Curitiba: CRV, 2014a.

VIANA, Nildo. Cinema e Mensagem. Análise e Assimilação. Porto Alegre: Asterisco, 2012.

VIANA, Nildo. Imaginário e Ideologia: As Ilusões nas Representações Cotidianas e no Pensamento Complexo. Revista Espaço Livre, v. 08, num. 15, jan./jun. de 2013. Acessado em 10 de Junho de 2013. Disponível em: http://revistaespacolivre.net/el15.pdf

VIANA, Nildo. O Capitalismo na Era da Acumulação Integral. São Paulo, Idéias e Letras, 2009.

WEBER, Max. Ensaios de Sociologia. Rio de Janeiro, Zahar, 1971.




[1] Aqui deixamos claro que essa mostração não é a mesma coisa que uma mensagem intencional, mas ao reproduzir acontecimentos reais ou mesmo ficções cuja inspiração tem origem na realidade, se mostra a realidade e, ao fazê-lo, permite que aquele que assiste ao filme possa ir além do que o próprio filme coloca e possibilita sua assimilação no sentido crítico e de apoio para objetivos educacionais, psicanalíticos, políticos, etc. (VIANA, 2012).

[2] Uma definição mais detalhada de esferas sociais (VIANA, 2014a) e esfera científica (VIANA, 2014b) seria útil, mas ultrapassaria nossos objetivos e a consulta à bibliografia citada resolve essa lacuna. Claro está que tal concepção tem semelhanças com a concepção de Bourdieu a respeito do “campo científico” (1994) e sua teoria geral dos campos (BOURDIEU, 1989), ou, ainda, com a ideia de esfera especializada em Weber (1971), mas se distingue de ambas em diversos aspectos, incluindo sua não autonomização demasiada, o reconhecimento de sua relação com a luta de classes, etc.

[3] Coisa que no Brasil, em alguns casos, os orientadores querem controlar, e tem casos em que vão mais longe, inclusive até que disciplinas os orientandos devem cursar em pós-graduação, o que é ainda manifesto no regimento de alguns cursos.

[4] Os consagrados são aqueles que já possuem status e fama, enquanto que os estabelecidos são aqueles que apenas possuem posição institucional (são professores estáveis, por exemplo), inclusive há uma hierarquia entre eles, tal como se pode ver no próprio filme na banca, na qual Jacob Reiser, um consagrado, acaba se impondo aos demais, os estabelecidos, mesmo quando um, numa determinada oportunidade, tenta argumentar em favor do aluno. Claro que nem sempre isso ocorre, pois existem outras determinações que podem constituir processos diferenciados. Esse processo de competição é comum tanto na esfera científica (VIANA, 2014b; BOURDIEU, 1994) quanto na esfera artística (VIANA, 2007).

[5] Rouanet (1978) afirma que se a ideologia é ilusão, não pode servir para a dominação, o que é um equívoco grave (VIANA, 2013), pois o processo de produção de representações ilusórias serve para ocultar a realidade e realizar interesses de reprodução do capitalismo, sendo que, as representações verdadeiras, as teorias, são elementos de contradição e luta. Um elemento interessante a se destacar é que as ideologias e representações cotidianas ilusórias não são apenas falsidade, pois possuem momentos de verdade, o que, no entanto, não abole sua essência de pensamento ilusório. Um pensamento totalmente ilusório não teria eficácia, seria considerado pura “ficção”. No entanto, a ideologia é um sistema de pensamento ilusório, pois predomina nela o que é falso, e embora isso entre em contradição com a realidade, acaba mantendo unidade com determinados interesses, valores, concepções e setores da sociedade, e, ainda, é reforçada pelo fato de que vive no mundo das aparências ou do formalismo, sendo que atingir a verdade exige um esforço teórico mais profundo e assim aparentam expressar o real, quando, na verdade, o deformam.

[6] Essa é uma das diferenças entre nossa análise e a de Bourdieu, cuja concepção mostra uma incompreensão da existência de indivíduos fora ou contra o campo. O nosso foco aqui, no entanto, foi a reprodução da esfera científica e os intelectuais marginais (amadores, engajados) ficaram de fora da análise.
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Publicado originalmente em:
VIANA, Nildo. A Esfera Científica no Cinema. Revista Alceu. vol. 15, num. 31, jul./dez. de 2015.
http://revistaalceu.com.puc-rio.br/media/alceu%2031%20pp%2089-98.pdf




Alceu 31

A esfera científica no cinema
Por: Nildo Viana


 ResumoA ciência e a produção científica são objetos de representações por elas mesmas e, de forma mais aprofundada, pela sociologia da ciência, filosofia da ciência e história da ciência. O cinema através de suas produções fílmicas também apresentam aspectos da ciência e de suaprodução intelectual. O presente artigo objetiva analisar três filmes (A fúria pela honra; Óleo de Lorenzo; O informante) e observar quais representações eles produzem a respeito da ciência, da esfera científica e da produção que esta realiza. A conclusão é que esses filmes revelam adinâmica dominante do campo científico e suas ligações complementares com o capital e o Estado burocrático, cada um concentrando-se sobre um aspecto destas relações.
Palavras-chave
Esfera científica. Cinema. Competição. Burocracia. Capital.

 Résumé
Des sciences et de la production scientifique sont des représentations d’objets par eux-mêmes et, plus en profondeur, la sociologie de la science, la philosophie de la science et de l’histoirede la science. Le film à travers ses productions filmiques comportent aussi des aspects de la science et de la production intellectuelle. Cet article vise à analyser trois films (Le fury parhonneur, Huile de Lorenzo, L’informateur) et observer ce qu’ils produisent des représentations sur la science, la sphère scientifique de la production et que cette porte. La conclusion est que ces films révèlent la dynamique dominante dans le domaine scientifique de ses liensavec la capitale, et la bureaucratie d’Etat, étant complémentaires, puisque chaque concentre sur un aspect de ces relations.
Mots-clé
Sphère scientifique. Cinéma. Competition. Bureaucratie. Capitale.

A esfera científica no cinema 

terça-feira, 9 de dezembro de 2014

Entrevista sobre Movimentos Sociais Contemporâneos - Revista Café com Sociologia

Movimentos Sociais, Partidos Políticos e Ações Coletivas: entrevista ao professor e pesquisador Dr. Nildo Viana

Cristiano das Neves Bodart

Resumo


Nildo Viana é graduado em Ciências Sociais pela Universidade Federal de Goiás (1992), mestre em Filosofia pela Universidade Federal de Goiás (1995), Mestre em Sociologia pela Universidade de Brasília (1999) e doutor em Sociologia por essa mesma universidade. Atualmente é professor da Universidade Federal de Goiás. Autor de diversos livros e artigos em revistas especializadas e coordenador da Coleção Biblioteca Universitária Autêntica, Série Ciências Sociais, da Editora Autêntica, tendo se destacado como um dos principais contemporâneos brasileiros estudiosos do marxismo.

Para Ler a Entrevista completa, clique aqui.

Os Movimentos Sociais durante o Capitalismo Oligopolista Transnacional



Os Movimentos Sociais durante o Capitalismo Oligopolista Transnacional 
Nildo Viana

Resumo

Os movimentos sociais seguem a dinâmica do capitalismo, sendo que emergiram na sociedade moderna, possuindo um desenvolvimento marcado por sua inserção particular na mesma. O nosso objetivo é analisar alguns dos elementos básicos dos movimentos sociais durante o capitalismo oligopolista transnacional, caracterizado pela vigência do regime de acumulação conjugado, e mostra que sua dinâmica é marcada tanto por um recuo do movimento operário convivendo com a emergência do aparecimento de um novo contexto para os movimentos sociais e sua radicalização no final dos anos 1960, época da crise do regime de acumulação conjugado.

Para ler o texto completo, clique aqui.

sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

Os Valores Natalinos são Axiológicos




nata


 Os valores natalinos são axiológicos


Nildo Viana


Natal é uma festa cristã realizada no dia 25 de dezembro, data em que se comemora o nascimento de Jesus Cristo. No entanto, é visível a mudança do significado do natal no decorrer da história. A sua origem está ligada a uma festa pagã que antecedeu o cristianismo e foi adaptada pelos valores e concepções cristãs, transformando-se com o passar do tempo. Após isto, ganhou um significado religioso e os símbolos pagãos, bem como a forma da festividade, mudaram.
O natal cristão foi, inicialmente, a partir do século, uma festa religiosa. Inspirado na mitologia babilônica, a figura de Papai Noel – inspirada em Nicolau, Bispo de Mira, século 05  – representava a solidariedade, já que era uma pessoa que presenteava três crianças de família pobre. Posteriormente, Papai Noel foi transformado em um indivíduo que dá presentes para crianças, que os pedem através de cartas. Já não se trata de solidariedade e de crianças pobres e sim do ato de exigir presentes (as crianças, da forma como são socializadas na atualidade) e oferecer presentes, inclusive os usando para disfarçar as dificuldades de afetividade, sendo um oferecimento de uma satisfação substituta a quem é presenteado. Muitos, inclusive, se não forem presenteados (e não só as crianças), pensam que não são amados (VIANA, 2002).
A religiosidade e seus valores acabam sendo substituídos por outros valores e interesses. O natal deixa de ser festa religiosa comemorativa para se tornar festa mundana consumista. Na sociedade capitalista, onde tudo é paulatinamente transformado em mercadoria, temos a mercantilização do natal. O significado mercantil do natal substitui o seu antigo significado religioso. O natal é transformado numa festa consumista, na qual a publicidade e o mercado buscam aumentar o consumo geral e isso é efetivado todos os anos, como comprovam as estatísticas. Ocorre a generalização da troca de presentes, compras de artigos natalinos e o Papai Noel passa a ser o maior símbolo desta festa em substituição à Jesus Cristo. As crianças nascem e são socializadas nesse contexto e por isso tendem a naturalizar, inclusive quando adultos, tal consumismo e percepção do natal.
Desta forma, há uma manipulação de sentimentos e produção de valores visando aumentar o mercado consumidor. Alguns setores específicos ganham mais com este processo e se criam costumes, desejos, fabricados para esta época, como a “ceia natal”, brinquedos, decoração, determinados alimentos (panetone, peru, castanhas, etc.). Isso produz uma euforia e falsa sensação de alegria em uns, insatisfação e conflitos para outros (os que não possuem dinheiro para consumir). Assim, o natal passa a ter um significado predominantemente mercantil na sociedade contemporânea e de nada adianta apelos para a recuperação de seu sentido religioso, pois estes só possuem ecos em círculos restritos, nos quais a religiosidade ainda é importante e se tornam matéria para produção de novas mercadorias e mais consumo (também símbolos natalinos, como presépios etc.) (VIANA, 2002).
Os valores dominantes de cada época tomam as manifestações culturais em geral. Os valores natalinos são apenas mais uma versão dos valores axiológicos, dominantes. Sem dúvida, a palavra “valores” é muito utilizada, mas poucos a definem e, por isso, falta clareza em seu uso em muitos casos. Nós entendemos que os valores são aquilo que é importante e significativo para os indivíduos e que existem valores autênticos, tais como a liberdade e a criatividade, e valores histórico-particularistas, ligados aos interesses da classe dominante, os valores axiológicos (VIANA, 2007). Os valores natalinos, em sua atual configuração, aparentemente são axionômicos (autênticos), pois pregam a solidariedade e fraternidade, tornando-os valores. Contudo, em uma análise mais profunda, no contexto da sociedade capitalista, o discurso da solidariedade e fraternidade apenas disfarça um mundo competitivo (no qual quem vai fazer mais compras e realizar o consumo dos bens mais caros e desejados ganha) e marcado por conflitos sociais diversos, tornando tais palavras a manifestação de pseudovalores, pois estão subordinados e apagados pelos valores dominantes. A existência de pseudovalores apenas mostra a hipocrisia reinante na sociedade moderna.
A solidariedade, ou fraternidade, é um valor axionômico, autêntico, pois o ser humano, enquanto ser social, tem a necessidade psíquica de associação com outros seres humanos, não somente no sentido de estar junto, mas também através de uma comunidade na qual haja relações sociais harmônicas. No período natalino, muitos afirmam a solidariedade como valor e alguns até buscam praticá-la, seja apenas no restrito círculo familiar, seja através da caridade, entre outras formas. No entanto, isso é apenas um dia por ano, cumprindo um papel de reforçar o resto do ano marcado pela competição e conflito. Ou seja, a sua manifestação ocorre no interior de determinadas relações, que são conflituosas e competitivas, e apenas uma vez ao ano, servindo para renovar as práticas comuns ao invés de realmente questioná-las e isso mostra que são subordinadas a outros valores, que são permanentes e dominantes, fazendo com que essa manifestação esporádica de solidariedade seja um reforço da axiologia.
A literatura, o cinema, bem como outras formas de arte, são veículos da reprodução destes pseudovalores. Claro que, na época ou para seus produtores, poderia ser realmente manifestação de seus valores, mas este não é o caso de grande parte das pessoas na atualidade. Desde o clássico “Conto de Natal” de Charles Dickens e suas diversas adaptações cinematográficas até os filmes de Frank Capra, especialmente “A Felicidade não se compra”, o dinheiro e a avareza são apresentados como desvalores ou como valores secundários diante da família, dos amigos, da solidariedade.
A superação dessa festividade mercantil e consumista pressupõe mudanças sociais radicais, nas quais o mundo da mercadoria seja substituído pelo mundo dos seres humanos e os valores axiológicos sejam substituídos por valores axionômicos.
Referências
DICKENS, Charles. Conto de Natal. Rio de Janeiro: Ediouro, 2009.
VIANA, Nildo. O Significado do Natal. In: Capitalismo, Psicanálise e Cotidiano. Goiânia: Edições Germinal, 2002.
 VIANA, Nildo. Os Valores na Sociedade Moderna. Brasília: Thesaurus, 2007.


quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

CAPITALISMO E RACISMO


CAPITALISMO E RACISMO
Nildo Viana


A questão racial vem sendo abordada sob as mais variadas perspectivas teóricas, mas poucas são as análises marxistas a seu respeito. Consideramos que a busca da compreensão do racismo remete, necessariamente, aos recursos teóricos do materialismo histórico-dialético e é este o procedimento que será adotado aqui. Por conseguinte, o estudo do racismo, sob perspectiva marxista, nos obriga a procurarmos na história e no conjunto das relações sociais a sua origem e as determinações que possibilitam sua reprodução nas sociedades capitalistas contemporâneas.
O racismo não é apenas uma ideologia. Ele é, também, um conjunto de práticas sociais. O racismo é uma prática social de discriminação racial. Essa prática discriminatória não ocorre apenas no mundo das idéias e valores, mas também no mercado de trabalho, no nível de renda, nas relações de poder, etc. Podemos dizer que é o racismo (conjunto de práticas sociais de discriminação racial) que cria a ideologia racista, ou seja, a ideologia vem a posteriori para justificar o racismo, tal como definido acima. Não é a ideologia racista que cria o racismo, mas, ao contrário, é o racismo que cria a ideologia racista. Portanto, o racismo é a “fonte” da ideologia racista. Contudo, uma vez existindo, a ideologia racista reforça o racismo. A ideologia racista, como toda ideologia, é mobilizadora, isto é, produz práticas e, desta forma, gera racismo, criando um círculo reprodutor que dificulta a compreensão de que a origem e essência deste fenômeno se encontra nas relações raciais concretas.
Mas falar em racismo pressupõe a definição do conceito de raça. A definição desse conceito é tão variada que alguns, partindo de sua definição, sustentam que existem apenas duas raças enquanto que outros afirmam que existem duzentas raças. Também já se defendeu a identidade do conceito de raça com outros conceitos, tais como: casta, classe, etc. A definição que consideramos mais correta é a que coloca que ela é expressão das diferenças físicas entre membros da espécie humana.
Entretanto, não existe nenhuma fundamentação para se afirmar que existe superioridade de uma raça sobre outra, pois estas diferenças de caracteres físicos não fornece nenhuma vantagem mental, moral ou física de uma raça sobre outra. Além disso, o desenvolvimento físico, mental e moral do ser humano é condicionado socialmente e, portanto, as diferenças só podem ser explicadas pelo seu contexto social e histórico e não por diferenças raciais.
Concordamos, portanto, com a definição de raça apresentada por John Lewis:
“Define-se uma raça como sendo um grupo que tem em comum, certo conjunto de caracteres físicos inatos e uma origem geográfica dentro de certa área. Existem três raças maiores assim definíveis – a caucasóide, a mongolóide e a negróide – além de algumas raças menores. Estas raças originaram-se quando ocorreram variações em alguma raça perdida, em diversas partes do mundo onde, durante séculos, o isolamento manteve separado os tipos resultantes. Entretanto, as raças secundárias não conservaram o menor grau de pureza” (Lewis,1968, p. 106) [1].
A partir desta definição do conceito de raça, podemos definir o que são relações raciais. Segundo Oliver Cox, as relações raciais são “o comportamento que se desenvolve entre as pessoas que estão conscientes das respectivas diferenças físicas, autênticas ou imputadas” (apud. Banton, 1979, p. 149). Entretanto, é necessário um esclarecimento sobre as diferenças físicas “imputadas”: as relações raciais possuem sua particularidade mas não estão desligadas das demais relações sociais (“econômicas”, “políticas”, culturais, etc.) e estas são, geralmente, dominadas pela visão ideológica sobre elas e isto cria a possibilidade de se imputar diferenças físicas inexistentes, pois no conjunto das relações sociais isto pode ser vantajoso para determinados grupos e indivíduos.
Portanto, precisamos descobrir sob quais relações sociais surge o racismo e que tipos de relações sociais tomam possível sua reprodução. Somente uma análise histórica poderá nos esclarecer sobre essas questões. Se analisarmos o período histórico que abrange o escravismo antigo até o século 16 não veremos nenhum caso de discriminação racial, pois, tal como colocou o antropólogo R. Linton: “Antes do século XVI não havia no mundo a consciência de raça, nem havia incentivo algum para que essa consciência surgisse” e ele acrescenta que, na antigüidade:
“Os povos clássicos conheciam apenas um grupo de tipo físico acentuadamente diferente do seu. Eram os negros nilóticos, cujo território ficava a distancia demasiado grande para que lhes dessem importância, fosse como inimigos, fosse como fontes de escravos. Portanto, a atitude clássica em relação a esse povo era neutra. De fato, os poetas gregos mostravam tendências a idealizá-los mais que aos bárbaros seus vizinhos, aos quais conheciam melhor e comumente se referiam aos nilóticos com os ‘felizes etíopes’” (Linton, 1962, p. 62-63).
Assim chegamos à conclusão de que a partir do século 16 houve uma mudança histórica que criou a necessidade do racismo e da ideologia racista[2]. Esta mudança foi a adoção da escravidão negra no novo mundo. Se a escravidão no mundo antigo não tinha nenhuma conotação racial, o mesmo não se pode dizer em relação ao “novo mundo”. Podemos dizer que, no caso especial do Brasil, mas que pode ser generalizado à todos países escravistas do continente americano, a colonização estava ligada às necessidades de acumulação primitiva de capital dos países europeus e que foi graças a ela que se formou um modo de produção escravista colonial-exportador, o que pressupõe a monocultura, a grande lavoura e o trabalho escravo[3].
A acumulação primitiva de capital produziu o modo de produção escravista colonial e o tráfico negreiro. A polêmica sobre os motivos da adoção dos trabalho escravo dos negros africanos continua viva, mas podemos concordar com a tese de que o tipo de produção implantada nos países escravistas exigia uma grande quantidade de força de trabalho não encontrada nem no local de produção nem na Europa ocidental e daí a necessidade de buscá-la na África. Segundo E. Willians:
“Com a população limitada da Europa no século XVI, os trabalhadores livres necessários para cultivar cana-de-açúcar, tabaco e algodão no novo mundo, não podiam ser fornecidos em quantidades adequadas para permitir a produção em grande escala. A escravidão foi necessária por causa disso e para conseguir escravos os europeus recorreram primeiro aos aborígenes e depois à Africa” (Willians, 1975, p. 10).
Portanto, é com o desenvolvimento das sociedades européias no período de transição ao capitalismo e a sua expansão comercial e colonial que se cria uma nova situação histórica que altera o caráter das relações raciais criando e consolidando o racismo. É a adoção do trabalho escravo dos negros e o tráfico negreiro que torna necessário uma ideologia que justifique essa prática social de discriminação racial. Os dominadores europeus não só sentiam necessidade de justificar para si mesmos as condições sub-humanas e a exploração sistemática efetuada por eles sobre os escravos negros como também procuravam, sem muito sucesso, inculcar isto nos escravos para facilitar sua dominação.
A ideologia da superioridade racial atravessou duas fases:
“As primeiras tentativas para racionalizar o domínio europeu baseavam-se em sanções sobrenaturais. Como os europeus eram cristãos e a maioria dos povos dominados não o era, parecia natural que o Deus todo-poderoso dos cristãos recompensasse seu próprio povo. Os proprietários de escravos negros podiam mesmo justificar a prática da escravatura por uma passagem do antigo testamento, na qual os filhos de Ham era condenados a ser ‘cortadores de lenha e tiradores de água’. Essas sanções sobrenaturais, porém, cedo começaram a perder sua força e os brancos procuraram racionalizações naturalistas. A teoria da evolução e da sobrevivência dos mais aptos era o instrumento que precisavam”(Linton, 1962, p. 64).
O darwinismo surge como o mais eficiente fundamento da ideologia racista. O seu evolucionismo com base na “luta pela vida, “sobrevivência dos mais aptos” e na “herança dos caracteres adquiridos” servia para justificar a escravidão negra no Novo Mundo. Geralmente se aceita a diferenciação entre o darwinismo original – utilizado apenas na esfera da biologia – e o darwinismo social – que é a aplicação da “teoria” biológica da seleção natural à sociedade. A razão dessa diferenciação se encontra, segundo seus defensores, no próprio Darwin, que aplicaria suas teses apenas ao mundo dos seres vivos, “biológico” e não ao mundo social, humano. Isto, entretanto, não é verdade. Se isto não ficou claro em A Origem das Espécies, em A Descendência do Homem ficou evidente, pois neste livro ele aplicava suas teorias às sociedade humanas, inclusive utilizando-se das teses malthusianas. O próprio Darwin, como ficou demonstrado em seu diário de bordo publicado sob o título Viagem de um Naturalista ao Redor do Beagle (Darwin, 1979; Darwin, 1974) Darwin, 1981), assumia posições claramente racistas[4]. Entretanto, Darwin apenas foi um dos ideólogos que procuraram, intencionalmente ou não, justificar a nova situação social. Posteriormente, surgiram muitos outros que, baseando-se nele ou não, buscaram fundamentar “cientificamente” a ideologia racista, tais como Gobineau, Lapouge, etc.
Mas se a origem histórica do racismo não é motivo de muita polêmica, o mesmo não ocorre a respeito do que torna possível a reprodução da ideologia racista em nossa época. Existem aqueles que dizem que a ideologia racista sobrevive devido à “herança cultural” enquanto outros sustentam que ela permanece devido à “dominação branca”. Consideramos que para saber por qual motivo a ideologia racista se reproduz nas sociedades contemporâneas é necessário, inicialmente, compreender seu processo de produção e reprodução. Toda ideologia possui uma base real que ela apresenta de forma invertida (Marx & Engels, 1991). Portanto, só pode existir uma ideologia racista existindo uma base real que lhe dê sustentação. A base real da ideologia racista só pode ser o racismo, tal como o definimos anteriormente. O racismo cria a ideologia racista e esta justifica-o e incentiva sua reprodução.
Entretanto, o racismo da época escravista é diferente do racismo da época contemporânea. Explicar esta diferença é o primeiro passo para compreender a permanência da ideologia racista nos dias de hoje. Para compreendermos a situação do negro nas sociedades capitalistas contemporâneas é preciso ver que em todas as sociedades escravistas coloniais a abolição da escravidão significou apenas o fim do cativeiro e do trabalho forçado, ou seja, mudou-se apenas o seu status de escravo para homem livre. Mas qual passou a ser a situação social desse “homem livre”? Quais são as possibilidades da população negra de se reproduzir em igualdade de condições com as outras camadas da população?
Em todas as sociedades em que houve o fim do trabalho escravo (como, por exemplo, o Brasil e os Estados Unidos) a integração do negro nas sociedades pós-escravistas se deu da mesma forma: em uma situação subalterna e de marginalização social. As sociedades escravistas coloniais apresentavam o escravo negro como sendo a “base” da “pirâmide social” em nível de vida. As condições precárias de vida dos escravos negros, a principal classe explorada do modo de produção escravista colonial, quase não era compartilhada por outras camadas sociais. As sociedades pós-escravistas alteram a forma da divisão de classes mas a conserva[5], ou seja, surgem novas relações de classes mas continua existindo classes sociais e aqueles que pertenciam às classes exploradas no modo de produção anterior tendem a pertencer às classes exploradas do novo modo de produção.
A divisão da sociedade em classes no escravismo colonial era, ao mesmo tempo, uma divisão racial, já que os escravos eram negros e o senhores de escravos eram brancos. Nas sociedades pós-escravistas, os negros deixam de pertencer a uma única classe e se dividem entre as diversas classes que compõem a sociedade capitalista. Entretanto, a maioria esmagadora dos negros passam a compor as classes exploradas da sociedade capitalista, tais como o proletariado, o campesinato, o lumpemproletariado, etc., que também possuem condições precárias de vida e, assim sendo, os negros continuam, em matéria de nível de vida, formando, juntamente com os componentes brancos das classes exploradas, a “base da pirâmide social”.
Por conseguinte, as condições de vida da população negra criava a possibilidade de interpretar tal situação como “natural”, ou seja, como produto não de uma determinada situação social mas sim de uma condição natural: a raça. John Lewis nos chamou a atenção sobre esse mesmo assunto:
“É preciso também que se compreenda que quando as pessoas são destituídas de seus direitos, consideradas inferiores, forçadas a viver em más condições e tratadas como animais, elas desenvolverão muitas qualidades más. Então, aqueles que as exploram apontarão as conseqüências do tratamento que lhes dão como razão para mantê-las numa posição de degradação e inferioridade. Privamos as pessoas de instrução e depois queixamo-nos de que são analfabetas. Fazemos delas o que são, depois indagamos como se pode esperar que as recebamos em nossas casa em igualdade de condições” (Lewis, 1969, p. 116).
O modo de produção capitalista condiciona o conjunto das relações sociais e instaura uma verdadeira sociabilidade capitalista. Esta tem como uma de suas principais características a competição social, expressa na busca de status, ascensão social, etc. Isto tudo produz uma forma também específica de mentalidade: a mentalidade burguesa. Esta reproduz, no plano das idéias, a sociabilidade capitalista[6]. Este fato acaba provocando uma rivalidade interna nas classes exploradas.
Segundo Baran e Sweezy:
“O resultado claro disso tudo é que cada grupo de status tem a necessidade psicológica enraizada de compensar os sentimentos de inferioridade e inveja para com aqueles que estão acima, na escala social, pelos sentimentos de superioridade e desprezo em relação aqueles que se acham abaixo. Sucede, pois, que um grupo especial de párias no fundo da estratificação social, funciona como uma espécie de pára-raios par as frustrações e hostilidade de todos os grupos em posição mais elevada. Pode-se dizer que a própria existência do grupo de párias é uma espécie de harmonizador e estabilizador da estrutura social – tanto mais que estes apenas desempenham seu papel passiva e resignadamente. Tal sociedade torna-se com o tempo tão completamente saturada com o preconceito racial que este mergulha no nível do subconsciente, convertendo-se numa parte da ‘natureza humana’ de seus membros” (Baran & Sweezy, 1978, p. 264-265).
As sociedades capitalistas contemporâneas são formadas por classes sociais antagônicas e vivem em uma permanente guerra civil oculta. Por conseguinte, é necessário reconhecer que a ideologia racista também se fundamenta nas contradições do capitalismo, ou seja, na luta de classes. A estratégia do “dividir para conquistar” é adotada eficazmente pela classe dominante desde que Maquiavel escreveu O Príncipe. Isto assume um caráter mais visível no capitalismo contemporâneo que se caracteriza pelo incentivo à competição em todas as esferas da vida social. Vejamos um exemplo. Os trabalhadores são obrigados, devido a existência do exército industrial de reserva, a competir pelo emprego. Isto cria conflitos internos na classe trabalhadora e a preferência dos empregadores pelo trabalhador branco provoca conflitos raciais que ofuscam as verdadeiras determinações do desemprego e dos baixos salários – que é a dinâmica do modo de produção capitalista – e assim amortece a luta de classes.
A sociedade capitalista vive constantes crises cíclicas. Nós sabemos que toda crise apresenta a necessidade de sua solução. A classe revolucionária e a classe dominante precisam fundamentar teórica ou ideologicamente a ação política necessária para se concretizar a “solução” proposta. A solução da classe revolucionária é a revolução social e a da classe dominante é a contra-revolução. Ambas passam a combater um inimigo. A diferença está em que o inimigo apontado pela classe revolucionária é real e o apontado pela classe dominante é imaginário. Toda crise traz insegurança e por isso as classes exploradas buscam descobrir os “responsáveis” ou as determinações que a provoca. A classe dominante busca ocultar o seu papel no processo – que é o de conservar as relações sociais em crise e que geram a crise – e inventa o inimigo imaginário, que é responsabilizado pela crise. Assim, o inimigo real inventa um inimigo imaginário[7].
A invenção de um inimigo imaginário é uma forma de deslocar o conflito de classe para um conflito nacional, racial, religioso, etc. O inimigo real (a classe dominante) cria sua ausência e, ao mesmo tempo, a presença de um inimigo imaginário (por exemplo: os judeus na Alemanha nazista, as “bruxas” na inquisição, os comunistas no golpe de estado de 64 no Brasil, os “agentes do imperialismo”, "contra-revolucionários” ou “inimigos do povo” no capitalismo de estado da URSS, Leste Europeu, China, etc.). A invenção de um inimigo imaginário estrangeiro tem como objetivo criar ou fortalecer a identidade nacional, mas somente porque ela está dilacerada internamente pelos seus conflitos de classes, ou seja, busca-se transformar a contradição interna em externa e com isso “aboli-la” (tal como no caso argentino da guerra das Malvinas).
A concentração do mal em um inimigo imaginário reconstrói a identidade coletiva perdida. Assim, um partido burguês pode apresentar como “inimigo do povo” o atual governo no burguês e com isso ofuscar a visão do verdadeiro inimigo e aparecer como a alternativa que restauraria o equilíbrio social. Contudo, não devemos pensar que a classe dominante faça isso de forma planejada e consciente, embora muitas vezes isto ocorra, tal como no exemplo de Hitler. Uma afirmação dele deixa isto claro:
“Em geral, a arte de todos os verdadeiros chefes do povo de todos os tempos consiste em concentrar a atenção do povo em um único adversário, em não deixar dispersar-se... A arte de sugerir ao povo que os inimigos mais diferentes pertençam à mesma categoria é de um grande chefe... É preciso sempre colocar na mesma pilha uma pluralidade de adversários os mais variados” (apud. Agacinski, 1991, p.136-137).
A partir do momento que a ideologia burguesa triunfa e as classes exploradas aceitam a luta contra o inimigo imaginário personificado e este é destruído, vê-se que isto não significava a destruição da verdadeira fonte da contradição e da crise. Daí surge a necessidade de criar novos “inimigos imaginários” para serem objeto de ataque quando as contradições se acirrarem novamente. É isto que possibilita a produção de “inimigos imaginários potenciais”. Quando se toma necessário para a reprodução capitalista, ou seja, quando a crise se instala, busca-se sua destruição para evitar o acirramento da luta de classes e possibilidade de revolução social.
Da perspectiva da classe revolucionária é um equivoco buscar a destruição de um inimigo (real ou imaginário) personificado em indivíduos reais (burgueses, negros, brancos, judeus, católicos, liberais, fascistas, etc.) ou em um indivíduo particular (o presidente da república, o líder do partido fascista, o chefe da igreja conservadora, etc.), pois isto significa destruir a imagem e não as relações sociais que engendram as classes sociais antagônicas, a exploração, a alienação, etc., e, portanto, o inimigo real que busca conservar estas relações[8]. A destruição de pessoas que sustentam determinadas relações sociais não significa a destruição destas, pois elas poderão se reproduzir e, assim, produzir novas pessoas para sustentá-las. Além disso, isto apenas reforçaria a ideologia dominante, porque o inimigo real é uma classe social que deve sua existência à determinadas relações de produção e a abolição destas (e, conseqüentemente, da classe dominante) não pode ser realizada com o extermínio de indivíduos reais.
Os “inimigos imaginários potenciais” são aqueles grupos diferenciados já existentes na sociedade. Estes podem ser os negros, os estrangeiros, os judeus, os comunistas, etc. Portanto, a luta de classes no capitalismo engendra, através da ação da burguesia, a reprodução do racismo por quatro motivos fundamentais; a) a classe dominante busca, em sua luta contra o proletariado, dividir a classe trabalhadora jogando uma parte dela contra a outra, utilizando-se de suas diferenciações e, entre estas, a diferenciação racial; b) para ofuscar a visão dos conflitos de classes ela busca desviar a atenção para outros tipos de conflitos, tal como o conflito racial; c) para evitar sua identificação com as relações sociais opressoras e em crise, ela busca responsabilizar certas camadas sociais por esta situação, sendo a população negra uma dessas camadas; d) quando as contradições se acirram e ameaçam transformar a guerra civil oculta em guerra civil aberta torna-se necessário, para a classe dominante, concentrar “o mal” em uma camada social especifica e a população negra (assim, como os judeus. os “comunistas”, os homossexuais, etc.) é uma reserva potencial que pode ser utilizada. Além disso, o racismo pode ser reforçado por motivos conjunturais:
“Em 1935, a maior parte dos americanos caracterizava os japoneses como ‘progressistas’, ‘inteligentes’, e ‘industriosos’. Sete anos mais tarde, esses adjetivos cederam lugar a ‘astutos’ e ‘traiçoeiros’. Quando se precisava de trabalhadores chineses na Califórnia, eles eram ‘frugais’, ‘sóbrios’ e ‘respeitadores da lei’, ao passo que, quando se defendia a lei da exclusão, passaram a ser ‘imundos’, ‘repugnantes’, ‘inassimiláveis’, ‘dominados pelo espírito de clã’ e ‘perigosos’ ” (Kluckhon, 1972, p. 132.).
Assim, dependendo da conjuntura, se reforça ou enfraquece os preconceitos e o racismo. A necessidade de força de trabalho pode beneficiar, momentaneamente, imigrantes, estrangeiros, etc., e o seu excesso pode provocar o efeito contrário.
Portanto, estas são as determinações do racismo e da ideologia racista. Mas elas são reforçadas pela “herança cultural” dos tempos da escravidão. Acontece que a tese de que a ideologia racista se reproduz exclusivamente devido à “herança cultural” é simplesmente ideológica. A herança cultural só se sustenta devido às condições reais de vida da população negra e aos conflitos sociais acima citados, pois assim são produzidas “comprovações empíricas” que lhe fornece uma certa credibilidade na esfera das representações cotidianas. Caso contrário, a luta secular dos negros seria suficiente para aboli-la. A herança cultural, na falta de uma “base real” que lhe dê sustentação, desapareceria com o passar do tempo. A tese da “dominação branca”, por sua vez, é apenas uma ideologia racista invertida. Desconhecer as condições históricas concretas que produziram o racismo e possibilitam sua reprodução apresentando-o como resultado da “dominação branca” é dar nova fundamentação ideológica ao racismo. Nesse caso, passa-se a colocar a questão apenas em termos de luta de raças. Tal tese apresenta as seguintes dificuldades: a) o que explica, se o problema é unicamente racial, a dominação branca sobre os negros a não ser sua “superioridade racial”? b) a luta dos negros passa a ser exclusivamente contra os brancos e a solução só seria possível com o aniquilamento dos últimos ou então com a substituição da “dominação branca” pela “dominação negra”, o que significa apenas a mudança da “raça dominante” e não a abolição do racismo; c) ao se colocar os brancos como o inimigo a ser combatido, troca-se inimigo real – a classe dominante que busca conservar as relações de produção capitalistas e as condições de produção e reprodução do racismo – por um inimigo imaginário, caindo numa eterna luta inútil, pois não vai à “raiz’ do problema e por isso ele continua sem solução; e d) reforça-se, assim, a ideologia racista, já que os brancos se sentirão ofendidos por serem tomados como “inimigos” e isto pode gerar antipatias e, conseqüentemente, perdas de aliados potenciais. Com isso se presta um bom serviço a estratégia burguesa do “dividir para conquistar”.
É claro que o racismo do oprimido tem fundamentos diferentes do racismo do opressor. O racismo do oprimido é uma resposta equivocada que alguns negros dão à sua situação de opressão e à necessidade de superá-la. É uma posição política equivocada e que não leva à nenhum resultado positivo, embora seja desculpável para aqueles que compreendem o fenômeno. Acontece que são poucos os que compreendem este fenômeno e sua existência é um retrocesso para o movimento de libertação dos negros.
A base real da ideologia racista, como já dissemos, é o racismo praticado nas sociedades capitalistas contemporâneas. A afirmação de um antropólogo sobre esta questão é extremamente correta: “a discriminação ‘racial’ é, sem nenhuma dúvida, apenas parte do problema mais geral da discriminação social” (Kluckhon, 1972, p. 134). A condição social serve de “naturalização” da “inferioridade” racial. Assim a “inferioridade” social possibilita, juntamente com outros fatores, a ideologia da inferioridade racial.
Na ideologia, esta relação aparece invertida: é a “inferioridade” racial que causa a “inferioridade” social. No entanto, não podemos a partir disto chegar a conclusão simplista de que não existe “discriminação racial”, pois a discriminação social se utiliza das diferenças físicas para se realizar de forma especifica e direcionada a uma parte da população: a negra.
A superação do racismo só pode ser realizada com a concomitante superação do modo de produção capitalista e a implantação do modo de produção comunista. Portanto, o movimento negro deve articular sua luta especifica – anti-racista – com a luta geral das classes exploradas – anti-capitalista. Existe uma unidade entre a luta anti-racista e a luta anti-capitalista. Esta unidade se encontra no fato de ser impossível superar o racismo sem a superação do capitalismo.
Entretanto, a abolição do capitalismo não gera, automaticamente, a abolição do racismo. A superação do racismo só ocorrerá num quadro de transformações sociais que rompam com as relações raciais desiguais produzidas pelo modo de produção capitalista. Acontece que a superação do capitalismo ocorre num processo complexo e contraditório que não elimina imediata e automaticamente as formas capitalistas de regularização das relações sociais, tal como a ideologia racista. E esta, uma vez existindo e se reproduzindo durante o período revolucionário, poderá incentivar a permanência de relações raciais desiguais e, assim, ameaçar a própria construção de uma sociedade autogerida, devido aos conflitos sociais provocados por esta situação. Por isso, torna-se necessário articular a estratégia específica do movimento negro com a estratégia global do movimento operário.
A estratégia específica do movimento negro é aquela que marca a luta desse movimento contra o racismo. Isto inclui desde lutas imediatas como a denúncia do racismo, a luta por uma legislação anti-racista, a crítica das ideologias racistas, a busca de mudanças nas relações raciais nos movimentos sociais, etc., até à outras mais a longo prazo tal como a constituição de relações raciais igualitárias no conjunto da sociedade, e a instauração da autogestão social, sua condição de possibilidade. É principalmente, mas não unicamente, uma luta cultural que se inicia na atual sociedade e só termina com o fim completo do racismo na sociedade comunista já constituída.
Para que a construção de uma nova sociedade, baseada em relações raciais igualitárias, se concretize, é necessário romper com a reprodução do racismo no movimento operário e demais movimentos sociais. Sabemos que mesmo os militantes de organizações “ditas” revolucionárias e dos mais variados movimentos sociais (estudantil, urbanos, etc.) introjetam a mentalidade burguesa e aspectos da ideologia dominante e as reproduzem em sua prática social. Entre estes aspectos da ideologia burguesa que tais militantes reproduzem estão o racismo, o sexismo, etc. Isto se toma possível por causa da pressão das “idéias dominantes” e da sociabilidade capitalista. O movimento negro deve, então, buscar a realização de uma revolução cultural anti-racista desde já, no interior dos movimentos sociais, e deve permanecer realizando este trabalho cultural até mesmo no período de consolidação da sociedade autogerida para combater a “herança cultural” e, assim, evitar retrocesso, já que outros obstáculos estarão atuando simultaneamente e em conjunto podem dificultar a emancipação humana.
Podemos dizer, para concluir, que a razão de ser do movimento negro é a luta contra o racismo e, conseqüentemente, contra o capitalismo. Ele não deve se “anular” diante do movimento operário mas sim se articular com ele buscando a constituição de uma sociedade sem classes e com relação raciais igualitárias.


 Referências Bibliográficas


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Marco, Nélio. O Que é Darwinismo. São Paulo, Brasiliense, 1987.
Marx, Karl & Engels, Friedrich. A Ideologia Alemã (Feuerbach). 8a edicao, São Paulo, Hucitec, 1991.
Prado Júnior, Caio. Formação do Brasil Contemporâneo. 21a edição, São Paulo, Brasiliense, 1989
Viana, Nildo. Darwinismo e Ideologia. Pós- Revista Brasiliense de Pós-Graduação em Ciências Sociais. Ano V, 2001.
Viana, Nildo. Universo Psíquico e Reprodução do Capital. In: Quinet, Antonio e outros. Psicanálise, Capitalismo e Cotidiano. Goiânia, Edições Germinal, 2002.
Willians, Eric. Capitalismo e Escravidão. Rio de Janeiro, Americana, 1975.
Publicado em VIANA, Nildo. Capitalismo e Racismo. Revista Ruptura. Goiânia, Ano 2, No 3, p. 07-17, Dezembro de 1994.
Republicado em: SANTOS, Cleito Pereira dos e VIANA, Nildo (orgs.). Capitalismo e Questão Racial. Rio de Janeiro: Corifeu, 2009.



[1] Faz-se necessário ressaltar que focalizaremos, neste texto, o conflito racial entre negros e brancos, embora haja elementos teóricos e referências generalizáveis a todos os conflitos raciais.
[2] Segundo Sérgio Buarque de Holanda, os escravos negros em Portugal eram vítimas do racismo, mas este era muito mais brando do que o que surgiu posteriormente e persiste até hoje. Além disso, ele não era acompanhado por uma ideologia que o justificasse (cf. Holanda, 1990).
[3] Cf. Prado Júnior  (1989); Furtado (1979).
[4] Para uma crítica ao darwinismo, cf.: Viana (2001); Marco (1987); Hirst (1977); Lewis (1969); Banton ()
[5] Para o caso do Brasil, cf. Camilo Torres (1965); para o caso dos EUA, cf. Baran & Sweezy (1978).
[6] Sobre mentalidade burguesa e sociabilidade capitalista, cf. Viana (2002).
[7] Alguns apontamenos interessantes sobre a criação do inimigo imaginário, apesar das deficiências da análise que “desconhece” a luta de classes como determinação fundamental do fenômeno, são apresentadas por: Agacinski (1991).
[8] “A revolução proletária não precisa do terror para realizar seus fins, ela odeia e abomina o assassinato. Ela não precisa desses meios de luta porque não combate indivíduos, mas instituições, porque não entra na arena cheia de ilusões ingênuas que, perdidas, levariam a uma vingança sangrenta” (Luxemburgo, 1991, p. 103).

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