sexta-feira, 15 de abril de 2011

A Arte de Abrir uma Lata de Extrato de Tomate


A Arte de Abrir uma Lata de Extrato de Tomate
Nildo Viana

Eugênio estava de férias. Ele era considerado um gênio e um dos grandes intelectuais de São Pedro, uma cidade com 15 milhões de habitantes. Depois de dedicar uma vida inteira à ciência e à pesquisa, ele se orgulhava de longa trajetória e dedicação para a humanidade.

Ele fez um balanço de toda sua produção, pensando que ela poderia ser escrita em suas memórias. Ele esperava ganhar um prêmio pela relevância social de suas obras e, principalmente, de seu último livro, A Arte de Abrir uma Lata de Extrato de Tomate. Ele considerava que esta era sua grande obra e a mais importante do ponto de vista da relevância social. Nesta obra, ele explicava que abrir uma lata de extrato de tomate não era algo prosaico, vulgar e sim uma arte. Em primeiro lugar, ele escreveu 50 páginas sobre o que é a arte, distinguindo-a da ciência e da produção artística em geral. Por arte ele queria dizer técnica, e para abrir uma lata de extrato de tomate é preciso uma rigorosa técnica. A história da humanidade já havia mostrado a importância da técnica e, por isso, ele dedicou apenas 10 páginas finais para ressaltar e recordar isto.

Ele expôs com maestria como se deve abrir uma lata de extrato de tomate. Mas antes discorreu sobre a importância do extrato de tomate, principalmente para a macarronada. Os usos do extrato de tomate recebeu 25 páginas. Mas ele, como pesquisador rigoroso e consciencioso, como gostava de dizer, foi mais longe e explicou a importância da lata de extrato de tomate, pois, sem ela, não teríamos acesso ao extrato de tomate. As formas da lata, os tipos de lata, a lata e a conservação dos alimentos, tudo isto foi explicado com maestria. Depois disso tudo, a arte de abrir a lata de extrato de tomate ganhou nova dimensão devido sua importância. Para abrir tal lata era necessário um cálculo minucioso, uma precisão microscópica, além de instrumentos adequados e esterilizados.

Essa obra-prima ganhou reconhecimento internacional e passou a ser referência em todos os centros de pesquisa do mundo. Ele estava feliz, pensava que já havia dado a sua contribuição para a humanidade e que agora só precisaria colher os frutos de sua longa e invejável colheita.

De volta às aulas, Eugênio se deparou com uma situação que o deixou irritado. Uma aluna do mestrado, chamada Graça, entra na sala de aula dez minutos mais cedo e interrompe as reflexões do doutor Eugênio.

Graça – A professora de Economia passou o seu livro, A Arte de Abrir uma Lata de Extrato de Tomate para a gente ler, mas eu não entendi nada. Que importância tem isso?

Eugênio – O quê? Uma vida dedicada à humanidade para ouvir isso dos alunos de mestrado?

Graça – Mas abrir uma lata de extrato de tomate qualquer um dá conta, oras!

Eugênio – Isto é um absurdo!! Qualquer um? Você nem sequer entendeu a importância desta arte e já se julga no direito de fazer uma afirmação destas? Ora, todos os estudiosos reconhecem a importância disso, inclusive os meus críticos. A sutileza do escrito e a importância de seu conteúdo só são acessíveis para quem se dedica e conhece os segredos da arte e você não sabe nada disso. Você mesma disse que não entendeu nada. Logo, se não entende não pode julgar.

Graça – Como faço para entender e depois poder julgar? Na minha casa eu sempre abro uma lata de extrato de tomate e nunca vi mistério nenhum...

Eugênio – Pobre criança! Da mesma forma que um pescador pesca mas nada sabe da Arte de Pescar, escrito pelo grande mestre antropólogo Caio Brandão, também autor, anote aí, de obras inesquecíveis, como Plantar para Comer e Colher, além do clássico As Pamonhas Assadas – Da Arte de Fazer à Arte de Degustar, você nada sabe da arte de abrir uma lata de extrato de tomate apesar de abrir algumas. A arte é um dom, e somente aqueles que possuem o dom entendem a arte. Outros, como você, somente com muito estudo, pesquisa, esforço, sacrifício, é que poderão ter uma noção, mesmo que meio turva, de tal arte.

Graça – Acho que vou largar disso...

Eugênio – Isso, faça isso mesmo, pois quem não tem o dom, não tem futuro. Faça outra coisa, trabalhe numa fábrica de extrato de tomate! Seja operária, já que não leva jeito para intelectual.

Graça – Então preciso aprender outras coisas... de onde vem o extrato de tomate?

Eugênio: Da fábrica.

Graça – Quem produz ele?

Eugênio – O Camponês!

Graça – Mas não vem da fábrica?

Eugênio – Isto não tem importância, não faz parte da arte de abrir a lata de extrato de tomate. Logo, vou responder mas pare de perguntar... O camponês produz o tomate e manda para a fábrica, lá os robôs colocam na lata e pronto, assunto encerrado.

Graça – Mas doutor, como que o camponês produz tomate? E como o tomate vira extrato? E quem fez o robô que faz o tomate? O operário? E de onde vem este operário?

Eugênio – Está fazendo graça?

Graça – Não, quem me fez foi minha mãe mais meu pai...

Eugênio – Eu disse, graça de engraçado. Não discuto coisas irrelevantes como essas.

Graça – Mas não é importante saber da produção do extrato de tomate?

Eugênio – Isso é coisa de trabalho manual e eu não discuto estas coisas pobres. Hoje nós sabemos que a grande produção é o trabalho intelectual, imaterial, não manual. Nada de mão, a não ser para abrir a lata de extrato de tomate, mas com os instrumentos adequados.
Graça – Mas como poderia haver arte de abrir lata de extrato de tomate sem tomate, extrato de tomate, lata de extrato de tomate?
Eugênio – Muito engraçado, mas não tenho tempo para perder com essas futilidades. Vou tomar um café até os outros alunos chegarem e por favor não toque mais neste assunto irrelevante e sem sentido. Caso queira discutir estas trivialidades procure o professor Zeca Samba, que perde seu tempo com estas questiúnculas inoportunas.
Graça – Desculpe tê-lo incomodado com minhas perguntas bobas. Mas eu vou assistir suas aulas e acabo aprendendo alguma coisa.
Eugênio – Espero, isso é possível, afinal, uma lagarta se transforma em borboleta e por quê você não poderia aprender alguma coisa?
Graça ficou sozinha e pensou que já tinha gastado anos estudando e ainda nem tinha chegado no meio do caminho da genialidade de um Eugênio. Ela pensou: “seria isso o sinal de que o embrutecimento tem limites?”
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Publicado originalmente em:
VIANA, Nildo. O Doutor e outros contos incorretos. Rio de Janeiro, Booklink, 2004.

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