Rádio Germinal

RÁDIO GERMINAL, onde a música não é mercadoria; é crítica, qualidade e utopia. Para iniciar clique em seta e para pausar clique em quadrado. Para acessar a Rádio Germinal, clique aqui.

terça-feira, 11 de março de 2025

O CONCEITO DE EPISTEME (TRECHO DO LIVRO "O MODO DE PENSAR BURGUÊS")

 O CONCEITO DE EPISTEME 

(TRECHO DO LIVRO "O MODO DE PENSAR BURGUÊS")*



O Conceito de Episteme

O conceito de episteme é relativamente simples[1]. A episteme é um modo de constituição de ideias (ideologias, teorias, representações, concepções, crenças, doutrinas, etc.), um modo de pensar. Em outras palavras, é um modo de produzir ideias, uma forma de criação cultural. Essa forma de produção cultural tem efeito sobre o conteúdo do pensamento. O modo de pensar influência o resultado do pensamento[2]. O modo de pensar é uma forma e por isso se distingue do conteúdo do pensamento. O conteúdo do pensamento determina a sua forma e essa, uma vez existente e consolidada, determina os demais conteúdos de pensamento. A episteme é uma infraestrutura de pensamento, ou seja, um modo de pensar (ou modo de constituição do pensamento/saber/consciência) que se fundamenta em determinada mentalidade e gera um campo linguístico (composto por um campo lexical e um campo semântico), um campo axiomático e um campo analítico (epistêmicos) que, por sua vez, assume a forma de paradigmas (que geram campos analíticos, axiomáticos e linguísticos paradigmáticos) que criam superestruturas de pensamento, ideologias, doutrinas, métodos, etc., que constituem seus próprios campos linguísticos, axiomáticos e analíticos[3].

É preciso abrir um parêntesis para explicar o conceito de mentalidade. O conceito de mentalidade expressa os elementos mais determinantes na mente humana (valores fundamentais, sentimentos mais arraigados, concepções mais profundas), que, por sua vez, são uma introjeção da sociabilidade dominante a partir de determinados interesses, que, nas sociedades classistas, são interesses de classe (VIANA, 2008a). Sem dúvida, os interesses da classe dominante são distintos dos das demais classes, mas acaba predominando por força de sua correspondência com a sociabilidade, com os interesses imediatos das demais classes, a força das ideias e ideologias dessa classe, com todo o seu poder de imposição. A mentalidade dominante é a mentalidade da classe dominante.

A mentalidade é uma das determinações mais poderosas das formas de consciência e da episteme. A mentalidade é o conteúdo, a episteme é a forma. A mentalidade constitui a episteme e essa, uma vez constituída, a reproduz e reforça. Forma e conteúdo, episteme e mentalidade, formam uma unidade. No caso da episteme burguesa, ela é fruto da mentalidade burguesa e, uma vez existindo, reproduz e reforça tal mentalidade, sendo sua expressão formal e determinação do pensamento, ou seja, de conteúdos derivados desenvolvidos através das diversas formas de consciência. A episteme é uma das determinações da consciência concreta dos indivíduos, do seu saber específico e de sua forma específica de produzir saber.

Aqui é importante uma discussão sobre a relação entre episteme e saber. Não se trata do saber comum, ou seja, das representações cotidianas e sim da noosfera, ou seja, o saber complexo, que emerge em sua forma desenvolvida com o pensamento científico. Em sua forma elementar, apareceu na sociedade escravista com a filosofia e na sociedade feudal com a teologia. O saber noosférico, ou complexo, especialmente a ciência (que, na sociedade moderna, exerce uma grande influência sobre as demais formas de saber), possui uma forma de estruturação específica e que se torna uma camisa de força do pensamento. A episteme é a infraestrutura do saber noosférico[4], exercendo uma determinação formal sobre o mesmo, que é, ao mesmo tempo, substancial, pois a forma impõe limites ao desenvolvimento do conteúdo. E não apenas impõe limites, pois também determina o seu processo criativo e renovador. Ela é um processo mental subjacente e por isso não é facilmente perceptível, já que ela gera milhares de conteúdos de pensamento, ideologias, doutrinas, representações, ou seja, formas de existência que ofuscam a essência. E sua percepção fica ainda mais difícil ao ver a diversidade e oposições entre estes conteúdos de pensamento.

A episteme tem sua origem no saber noosférico, mas tende a se impor, com o passar do tempo, no âmbito das representações cotidianas, embora através de um processo de simplificação e outras mutações que ocorrem no processo de passagem de um para outro (VIANA, 2015a; VIANA, 2008b). Marx já havia colocado que as representações cotidianas eram sistematizadas pela economia política (MARX, 1988), ou, em casos mais gerais, segundo nossa concepção, pelo saber noosférico (incluindo todas as formas de saber complexo e não apenas o científico). Desta forma, as representações cotidianas e o saber noosférico se reforçam reciprocamente. Contudo, a gênese histórica desse processo é diferente do que ocorre na época em que isso já se estabeleceu. A razão disso é que após o estabelecimento de uma determinada hegemonia, uma episteme hegemônica no saber noosférico tende a se generalizar pela sociedade, e quando isso ocorre e as próprias representações cotidianas reproduzem aspectos dessa episteme, o que cria uma unidade e reforço mútuo no processo de desenvolvimento histórico.

Isso parece entrar em contradição com o materialismo histórico. No entanto, não há nenhuma incoerência nessa concepção. Desde Marx é perceptível que as formas de consciência (ciência, religião, representações cotidianas, etc.) são produtos sociais e históricos. Há uma afirmação clássica de Karl Marx sobre isso:

A produção de ideias, de representações, da consciência, está, de início, diretamente entrelaçada com a atividade material e com o intercâmbio material dos homens, como a linguagem da vida real. O representar, o pensar, o intercâmbio espiritual dos homens, aparecem aqui como emanação direta de seu comportamento material. O mesmo ocorre com a produção espiritual, tal como aparece na linguagem da política, das leis, da moral, da religião, da metafísica, etc., de um povo. Os homens são os produtores de suas representações, de suas ideias, etc., mas os homens reais e ativos, tal como se acham condicionados por um determinado desenvolvimento de suas forças produtivas e pelo intercâmbio que a ele corresponde até chegar às suas formações mais amplas. A consciência jamais pode ser outra coisa que o ser consciente, e o ser dos homens é o seu processo de vida real. E se, em toda ideologia, os homens e suas relações aparecem invertidos como numa câmara escura, tal fenômeno decorre de seu processo histórico de vida, do mesmo modo por que a inversão dos objetos na retina decorre de seu processo de vida diretamente físico (MARX e ENGELS, 1982).

Isso quer dizer que é na vida real, a partir das relações sociais concretas, que emergem as formas de consciência, as ideias, as representações. Esse processo remete ao modo de produção e o modo de vida que ele constitui, que, nas sociedades classistas, são distintos, gerando distintas formas de consciência, apesar da hegemonia da classe dominante, pois “as ideias dominantes são as ideias da classe dominante” (MARX e ENGELS, 1988). O saber noosférico não surge do nada. Ele surge do processo real, social. Ele está intimamente ligado ao processo de produção e reprodução da vida material, bem como do conjunto das relações sociais, e dos interesses, valores, etc., gestados a partir disso. Um dos elementos fundamentais é entender que o modo de produção capitalista gera uma sociabilidade burguesa e essa, introjetada pelos indivíduos, engendra uma mentalidade igualmente burguesa (VIANA, 2008a). Essa mentalidade se cristaliza e solidifica, bem como as formas de consciência elaboradas a partir dela. Ela acaba gerando um modo de pensar burguês. É justamente esse modo de pensar burguês que denominamos episteme burguesa.

Antes de tratar da episteme burguesa é necessário abordar como a episteme acaba sendo uma das determinações das produções intelectuais subsequentes. A explicação desse processo não entra em contradição com o materialismo histórico, como já colocamos. Uma episteme é um modo de pensar subjacente (geralmente não-consciente) que é constituído social e historicamente, mas, uma vez existindo, se cristaliza e autonomiza e, por conseguinte, torna-se uma determinação formal do pensamento que interfere diretamente na constituição de seus conteúdos, ou seja, das ideias, das formas de consciência. Ela, de acordo com o materialismo histórico, tem uma base real (modo de produção dominante, sociabilidade, mentalidade, interesses de classe, etc.) que a constitui. Uma episteme, ao ser constituída, torna-se algo real, existente concretamente, e, por conseguinte, é não só algo determinado, como também exerce determinação. Assim, ela determina conteúdos de pensamento e ações derivadas deles. As epistemes antes do capitalismo, tais como a escravista e a feudal, eram processos elementares e seu desenvolvimento ocorre na sociedade moderna, que é onde emergem as duas epistemes mais desenvolvidas, a burguesa e a marxista[5]. A episteme burguesa é um modo de pensar conservador, presentista, fechado, reprodutor do capitalismo. A episteme marxista é um modo de pensar futurista, aberto, crítico do capitalismo e uma consciência antecipadora de uma nova sociedade, fundada na liberdade humana. É por isso que vamos, aqui, nos remeter, para explicar o conceito de episteme, às suas formas mais desenvolvidas, especialmente a burguesa, pois não só facilita a compreensão por sua contemporaneidade, mas também por seu caráter mais desenvolvido e acabado.

O modo de produção capitalista gera uma sociabilidade e uma mentalidade que é correspondente a ele. A mentalidade burguesa se cristaliza, bem como a episteme dela derivada. Elas se tornam sólidas e passam a determinar a constituição do saber noosférico (complexo) e mesmo as representações cotidianas. A cristalização do modo de pensar burguês explica esse processo. É preciso recordar, no entanto, que tal cristalização é produto social e histórico, significa a reprodução não apenas da mentalidade burguesa, mas também da sociabilidade capitalista e os interesses derivados dela[6]. Ou seja, a episteme burguesa tem sua origem na mentalidade burguesa e na sociabilidade capitalista. A sociabilidade capitalista, por sua vez, também é a base da mentalidade burguesa. Em outras palavras, a sociabilidade capitalista atua duplamente sobre a episteme burguesa: diretamente, através da força das relações sociais que a constitui, e indiretamente, através da mentalidade burguesa.

O modo de pensar burguês se cristaliza e autonomiza, sendo uma determinação formal sobre as formas de consciência, mas só faz isso por não entrar em contradição com os interesses, valores, etc., predominantes e nem com o modo de produção capitalista e sociabilidade burguesa. O modo de pensar burguês, ou a episteme burguesa, reproduz a base real, que é a sociedade capitalista, e os interesses, necessidades, valores, bem como a mentalidade que corresponde a ela e é a mais adequada para quem não quer superá-la, para quem quer se mover e se dar bem no seu interior. Isso quer dizer que a episteme burguesa, ou o modo de pensar burguês, corresponde aos interesses da classe capitalista e, por conseguinte, reproduz e reforça a mentalidade burguesa e a sociabilidade capitalista. Ela é uma das formas sociais de reprodução do capitalismo. A episteme burguesa, uma vez existindo, se cristaliza, se generaliza, se autonomiza. Ao invés de ser mero derivado, passa a ser elemento ativo e reprodutor do mundo existente, ou seja, da sociedade capitalista. Através do modo de pensar burguês, não é possível romper com a sociedade capitalista.

A força das ideias e da mentalidade não pode ser desconsiderada[7]. A mentalidade e as ideias são determinações da ação humana e, portanto, parte e determinação da realidade. As ideias determinam a realidade? Não foi essa a afirmação que fizemos e sim que elas também determinam a realidade, sendo parte de suas múltiplas determinações. O que Marx sempre recusou foi a formulação segundo a qual “as ideias constituem ou determinam a realidade”, sob forma unilateral, tal como faz o modo de pensar burguês (GOMES, 2017). Na parte dedicada ao pensamento desse autor retomaremos isso.

É preciso reconhecer o caráter ativo das ideias, das representações, das ideologias, teoria, utopias, etc. E, mais ainda, a força das ideias dominantes, tanto das ideologias quanto das demais formações do pensamento burguês. E é por isso que a análise da episteme burguesa e das renovações hegemônicas se torna fundamental. Há um reforço recíproco entre sociabilidade capitalista e mentalidade burguesa, bem como entre sociedade capitalista e episteme burguesa. A percepção disso é uma conquista do materialismo histórico e por isso há uma coerência epistêmica em nossa análise.

Esclarecido esse aspecto da questão, podemos voltar para a discussão sobre episteme. Afirmamos anteriormente que a episteme exerce uma determinação formal sobre o pensamento. Essa afirmação precisa ser aprofundada, pois essa determinação formal não é apenas na forma e também da forma sobre o conteúdo. Esse processo pode ser visto e exemplificado na vida cotidiana. Um indivíduo religioso, ou seja, portador de uma consciência religiosa do mundo (o que exclui aqueles cuja religião é apenas um apêndice secundário em seu pensamento) vai perceber determinado fenômeno sob forma distinta de um indivíduo racionalista, portador de uma concepção cientificista. O aborto, a prostituição, a homossexualidade, a existência de Deus, o comunismo, serão percebidos sob formas distintas, pois trata-se de formas distintas de pensar. O indivíduo religioso se fundamenta na revelação e o cientificista na razão ou no “empírico”. Para o primeiro, a existência de Deus é inquestionável e para o outro é improvável. Isso exemplifica o fato de que determinados conteúdos da consciência humana são determinados pelo modo de pensar[8].

Todo ser humano age sobre o mundo a partir de sua percepção dele e sua percepção é formada pela consciência. Se Antônio Conselheiro realizou a luta pela terra falando de monarquia, messias, entre outros elementos religiosos, isso se deve ao seu referencial. Ele expressava necessidades e interesses reais, mas a forma do pensamento que ele tinha acesso, que era o seu referencial, não era a marxista, a científica, etc. Era a forma religiosa (e rústica) de pensar e foi ela que esteve na base da luta efetivada naquele contexto. Em poucas palavras, as necessidades e interesses não geram, automaticamente, ação e não determinam, imediatamente, a forma de luta. Existe, nesse processo, uma mediação, que é da consciência. Essa, por sua vez, trabalha com referenciais, modos de pensar, epistemes, conteúdos de pensamento, que geram interpretações e ações determinadas. Isso deveria ser tão cristalino para aqueles que se dizem marxistas[9], pois é ela é uma das determinações da não concretização da revolução proletária e instauração da sociedade autogerida.



[1] É possível se questionar sobre a razão do uso do termo “episteme” ao invés de “epistemologia”. O campo linguístico marxista geralmente reserva ao sufixo “logia” um caráter ideológico e axiológico (como em “ideologia”, “axiologia”, etc.) e prefere usar outros sufixos, como “nomia”, por exemplo. Além disso, o termo “epistemologia” é de uso comum e com sentidos distintos do que atribuímos a episteme (tais como um “ramo da filosofia”, uma “ciência particular”, etc.), um termo raramente usado e que por isso tem menos possibilidade de confusão terminológica. Foucault, em As Palavras e as Coisas, usou o termo episteme e há uma semelhança entre o significado que ele atribui a esta palavra e o que nós atribuímos. Ele coloca que a episteme está no âmbito da discussão epistemológica e seria como “códigos fundamentais de uma cultura”, vista sob forma abstratificada. A semelhança entre a abordagem foucaultina e a aqui explicitada se limita ao uso da palavra “episteme” e uma percepção, sob formas diferentes, de que se trata de um processo mental subjacente. As principais diferenças são derivadas da episteme burguesa e paradigma estruturalista de Foucault, que é uma concepção metafísica, e seu antagonismo com a episteme marxista, base de nossa concepção. Assim, os elementos constitutivos das epistemes, sua durabilidade, entre outros aspectos, são bem distintos, além da diferença fundamental que é que a concepção marxista aponta para a percepção das raízes sociais das epistemes, seus vínculos históricos e de classe social.

[2] Marx já havia demonstrado, quando discutiu o trabalho alienado, que o controle de atividade gera um controle do produto da atividade, ou seja, o não-trabalhador ao controlar a atividade do trabalhador, controla também o seu resultado. A ideia de Marx era mostrar que o trabalho é que cria a propriedade através da dominação ou controle (MARX, 1983) e que, portanto, era uma relação de classes fundada na exploração (embora esse termo só seja utilizado em suas obras posteriores). Sem dúvida, no caso do trabalho alienado, o controle é direto, do proprietário sobre o trabalhador. No caso da atividade mental o controle é indireto. Os adeptos do paradigma hegemônico atual discordariam disso, afirmando que não há controle, que o indivíduo é “livre” na sua produção de pensamento. Isso é totalmente falso, pois os indivíduos não escolhem o idioma do seu país e que é constrangido a utilizar, assim como não escolhem o campo lexical, etc. e, fundamentalmente, não escolhem o seu modo de pensar, a sua episteme, a não ser após um certo desenvolvimento intelectual que permite a sua autonomização. Isso será desenvolvido adiante, mas o que interessa aqui é colocar que a atividade mental é indiretamente controlada e uma das formas de controle (além das diversas formas sociais) é através da episteme.

[3] Adiante vamos esclarecer os conceitos de campo, campo linguístico, campo axiomático e campo analítico.

[4] Antes do capitalismo, podemos dizer que existiu uma noosfera elementar, bem como uma episteme elementar. Essa episteme elementar existiu até mesmo nas sociedades simples, sendo que sua forma elementar determinava seu caráter igualmente elementar.

[5] A episteme marxista é uma episteme proletária, mas como não está imediatamente encarnada no proletariado, pois apenas realiza isso em momentos revolucionários, quando o proletariado se torna classe autodeterminada, e se caracteriza por ser uma consciência antecipadora expressa no marxismo, então esse é o nome mais adequado. Isso evita, por exemplo, as confusões de obreiristas, autonomistas e outros, que fazem apologia do proletariado como classe determinada pelo capital. O encontro do proletariado como classe concreta, com a episteme marxista (enquanto modo de pensar e não no sentido de toda sua complexa e ampla produção teórica) ocorre com a fusão revolucionária no momento da revolução proletária. Uma das diferenças da episteme marxista para a episteme burguesa é que a primeira é autoconsciente, enquanto que a segunda é predominantemente não consciente (em seu caráter epistêmico, mas no caso das ideologias e paradigmas e seus vínculos com interesses de classe e valores, geralmente é consciente, embora muitas vezes possa não perceber ou recusar intencionalmente sua existência).

[6] E, não custa recordar, o mesmo processo atinge a mentalidade burguesa.

[7] A esse respeito, o pseudomarxismo, do qual trataremos adiante, acaba reproduzindo a episteme burguesa. Num antinomismo destituído de concreticidade, típico do modo de pensar burguês considera que as ideias são meros epifenômenos e que, segundo esta ideologia pseudomarxista, postular qualquer aspecto ativo ao pensamento é “idealismo”. Muitos nem sequer percebem que o seu “materialismo” é burguês. Korsch (1977), nos anos 1920, já havia refutado isso ao colocar que as ideias fazem parte da realidade e por isso atuam sobre ela. A confusão pseudomarxista sobre a questão das ideias revela a força do modo de pensar burguês que consegue deformar um modo de pensar antagônico em seu semelhante (GOMES, 2017). Adiante, quando abordarmos a revolução epistêmica de Marx, retomaremos essas questões.

[8] E isso mostra também que cada modo de pensar vai gerando formas de se expressar, ou seja, uma linguagem própria.

[9] E isso deveria ser mais evidente ainda se percebessem que o seu marxismo, ou o que é mais comum, o seu pseudomarxismo, é a fonte de suas interpretações e ações, mesmo quando é uma mera concepção materialista vulgar (no caso das concepções pseudomarxistas).

segunda-feira, 30 de dezembro de 2024

Identidade - Nau dos Insensatos

 Identidade - Nau dos Insensatos



Música: Identidade

Banda: Nau dos Insensatos

Composição: Nildo Viana

Álbum: Vetos e Anelos

Ano: 2024


A música da banda Nau dos Insensatos traz uma forte crítica social ao discurso identitários e ideologias da identidade. Criticando tanto a concepção essencialista quanto a culturalista de identidade, a música coloca que o indivíduo perde sua individualidade ao ficar preso numa determinada "identidade" que é criada socialmente e cujo objetivo é integrar o indivíduo na sociedade capitalista visando sua reprodução. A identidade de mera autoimagem que o indivíduo cria sobre si mesmo passa a ser, no reino nebuloso das ideologias e concepções ilusórias da realidade, bem como na vida prática de muitas pessoas, uma prisão. Esse reducionismo produz uma redução do indivíduo em toda sua complexidade (e diversos pertencimentos, como os de classe, raça, sexo, região, cultura, etc.) a um ser limitado e estereotipado, que se vê com um ser unilateral ao invés de onilateral, o que tem efeitos sociais e políticos danosos e reforça o processo de reprodução da sociedade existente.

quarta-feira, 18 de dezembro de 2024

Psicologia Social e Afetividade - Emoções, Sentimentos e Sociedade

 PSICOLOGIA SOCIAL E AFETIVIDADE - EMOÇÕES, SENTIMENTOS E SOCIEDADE





Título: Psicologia Social e Afetividade
Subtítulo: Emoções, Sentimentos e Sociedade
Autor: Nildo Viana
Editora: Ragnatela
Edição: 01
Ano: 2024
Páginas: 94
Coleção: Labirintos Psíquicos. 02.
ISBN: 978-65-84983-41-0
ISBN EBOOK: 978-65-84983-45-8


SINOPSE

Psicologia Social e Afetividade é uma obra que aborda a relação entre emoções, sentimentos e sociedade. Nildo Viana discute o processo social de formação das emoções e dos sentimentos, bem como aborda o processo de regularização social da afetividade. Assim, o autor traz uma abordagem esclarecedora e crítica sobre os fenômenos afetivos, sendo leitura indispensável para todos que se interessam por psicologia e psicanálise, bem como em desenvolver autoconsciência sobre suas emoções e sentimentos e seus vínculos sociais.

Texto da orelha:

O que são as emoções? O que são os sentimentos? O que é a afetividade? Qual a relação desses fenômenos psíquicos com a sociedade? Essas são questões que o leitor procurará em vão na maioria das obras psicológicas, incluindo as de psicologia social. Nildo Viana se dedica a responder essas questões tomando como ponto de partida as poucas reflexões existentes no interior da psicologia social. O objetivo do autor é explicar esses elementos a partir de uma perspectiva crítica e dialética. Para tanto, aborda a formação histórica das emoções e sentimentos na história da humanidade e a sua constituição no processo individual. A análise de Viana se mostra não somente esclarecedora e inovadora, mas também abre uma clareira para o desenvolvimento de análises mais profundas e desenvolvidas sobre as emoções e os sentimentos.

Sobre o autor:

NILDO VIANA é especialista em Psicanálise e Psicologia Social; Mestre em Filosofia (UFG) e Sociologia (UnB); Doutor em Sociologia e autor de diversos livros, entre os quais “Teses Sobre os Sentimentos”; “Cérebro e Ideologia”; “Universo Psíquico e Reprodução do Capital”; Inconsciente Coletivo e Materialismo Histórico”; “O Modo de Pensar Burguês”; “Hegemonia Burguesa e Renovações Hegemônicas”; “A Dialética Revolucionária”.

terça-feira, 17 de dezembro de 2024

Vetos e Anelos - Novo Álbum da Nau dos Insensatos

 

Álbum: Vetos e Anelos

Banda: Nau dos Insensatos

Composição: Nildo Viana

Ano de lançamento: 2024

 

Faixas:

00:00:00 – O Rio.

00:03:34 – Vidas Negras.

00:06:54 – Identidade.

00:09: 35 – Júlia (Barreira Invisível).

00:12:56 – Rock sem Nota.

00:16:21 – O Barco da Insensatez (Nau dos Insensatos II).

00:19:58 – Teatro Noturno.

00:25:20 – Serenidade.

00:28:16 – Nosso Encontro Sideral.

00:30:57 – Pedra e Flor.

 

O segundo álbum da Nau dos Insensatos, “Vetos e Anelos” traz dois elementos que predominam nas dez músicas que o compõe. Cinco músicas são “vetos” às relações sociais e/ou suas expressões ideológicas, ou seja, são músicas marcadas por críticas sociais. Cinco músicas são “anelos”, ou seja, expressões de anseios vinculados às necessidades psíquicas dos seres humanos. Sem dúvida, existem anelos nas cinco músicas em que predominam a crítica social, bem como crítica social nas cinco músicas que tratam de anelos, sendo, pois apenas questão de predomínio, embora muitas vezes a sutileza e a ficcionalidade impeça uma percepção imediata desses elementos. Por outro lado, são os anelos (vinculados aos sentimentos simpáticos) que incentivam e geram a crítica social.

 

As dez músicas do álbum são as seguintes:

 

“O Rio” (00:00:00) trata do anelo da esperança, da mudança, da utopia, através da capacidade de se reanimar e recuperar as energias, renovando as forças para a luta pela transformação radical e total das relações sociais. O “Rio” é uma metáfora da esperança (utopia), animus, amor, meio ambiente, etc. Em síntese, é uma “multimetaforização” do rio que carrega várias submensagens, mas todas giram em torno do tema fundamental da esperança e do animus que se articula com os demais sentidos metafóricos.

 

“Vida Negras” (00:03:34) denuncia o racismo e suas raízes sociais e de classe e, ao mesmo tempo, a falsa luta contra ele, bem como a falsa comoção e preocupação com a questão racial de muitas pessoas na sociedade atual, inclusive ativistas e outros que visam retorno pessoal e vantagem competitiva ao invés de solucionar o problema da população negra, que é social. O vínculo da questão racial com as questões sociais e de classe social é o principal elemento da crítica social tanto ao racismo quando aos seus supostos opositores, verdadeiros ou falsos, sinceros ou insinceros.

 

“Identidade” (00:06:54) é uma crítica social ao discurso identitário, caracterizado por reduzir os seres humanos em sua totalidade e complexidade a uma mera “identidade”, sendo que esta é produzida socialmente, mesmo quando os indivíduos a consideram uma “essência” ou “autocriação”. O ser humano reduzido a uma identidade significa que ele abandona a luta por suas necessidades humanas mais profundas – que o colocariam em confronto com a sociedade capitalista – e passa a girar em torno de sua “identidade” como uma prisão, sendo que suas reivindicações podem ser parcialmente atendidas nessa sociedade, embora com suas oposições e contradições, bem como gerando conflitos e afastamentos. A prisão da identidade faz da vida cotidiana dos seus prisioneiros um “eterno harakiri”.

 

“Júlia” (Barreira Invisível) (00:09:35) é um convite para todas as “Júlias”, ou, ainda, a todos os seres humanos a superar as “coisas perecíveis” e romper com a “barreira invisível” que impede a luta pela libertação humana. Num mundo “dominado pelos boçais” é preciso que os “românticos de todo mundo” se unam, criando um novo romantismo, união dos sentimentos simpáticos e amorosos com a vontade revolucionária e “exigindo o impossível”, como fizeram os estudantes durante a rebelião estudantil de Maio de 1968.

 

“Rock Sem Nota” é uma crítica ao formalismo e superficialidade do rock trivial que busca o sucesso a qualquer custo, bem como sua ligação com a mercantilização da música e domínio do capital comunicacional. A música critica o formalismo musical em geral e faz um jogo de palavras com a palavra “nota” e seus vários sentidos: nota musical, nota de provas (avaliação, exame escolar), nota de dinheiro (moeda), nota do verbo notar (ação de observar).

 

"O Barco da Insensatez" (Nau dos Insensatos II) (00:16:21) é uma recapitulação da música “Nau dos Insensatos”, que saiu no álbum “Homem ao Mar”. Uma forte crítica social à sociedade capitalista em sua totalidade e diversos aspectos e elementos dela. Nesse processo aparecem as classes sociais, contradições, competição social, ilusões, esquerda, direita, religiosos, professores, filósofos, burocratas, cantores, artistas, jornalistas, ativistas, jovens, psicopatas e muitos outros agentes e elementos do capitalismo. Por fim, a mensagem fundamental: “se você quer esperança, saia do (desse) barco da insensatez, e lute pela mudança” (radical e total).

 

"Teatro Noturno" (00:19:58) é uma música que tematiza os sonhos e o universo onírico. Os sonhos são apresentados como um teatro no qual histórias irreais são apresentadas e não possuem sentido e ordem, como uma “casa sem porta”. O sonho com um teatro no qual o psicanalista Erich Fromm é o astro do show explica o que isso significa. Os sonhos expressam necessidades humanas e conflitos psíquicos, os anelos e outros processos psíquicos se manifestam, mas sob forma onírica. O final da música revela o anelo dos anelos, a libertação humana: voo (símbolo de liberdade), pessoas felizes, crianças brincando, comemorando a autoemancipação.

 

"Serenidade" (00:25:20) é uma música que trata do anelo de sossego e superação dos conflitos e competições da vida cotidiana, indo da luta de classes, passando pela competição social, até chegar nos seus derivados, os conflitos interindividuais. Essa busca de serenidade só poderá se concretizar plenamente numa sociedade futura, mas hoje os seres humanos precisam de momentos serenos para poder se reanimar e renovar suas energias e forças para continuar na luta por uma nova sociedade. A criação de um espaço de serenidade individual, uma pequena ilha de sossego, é fundamental psiquicamente para continuar na luta e manter acesa a chama utópica e revolucionária.

 

"Nosso Encontro Sideral" (00:28:16) relaciona a esperança e o romance, mostrando um momento em que o amor erótico é um incentivo para a luta pela libertação e generalização dos sentimentos simpáticos. O anelo humano fundamental, produto do processo de humanização, de unidade com outro ser humano realizando uma autossatisfação/satisfação mútua e complementação sexual e afetiva, é apresentado. Isso é importante pelo motivo de que tal anelo é reprimido na sociedade capitalista, pois ela apenas incentiva a sua idealização (o amor romântico) e impede sua realização plena, a não ser em casos raros. O “encontro” permite a reanimação para a luta e generalização dos “encontros siderais”.

 

"Pedra e Flor" (00:30:57) também aborda o anelo do amor erótico e mostra o processo contraditório entre as pessoas enamoradas, cuja relação pode ser marcada por momentos de rigidez/frieza com momentos de delicadeza/amor, tal como nas expressões metafóricas “pedra e flor”. O amor erótico autêntico e pleno é anticapitalista e o capitalismo é a negação do amor erótico autêntico e pleno e por isso a contradição no seu interior e a repressão desse anelo.




Formulário de contato

Nome

E-mail *

Mensagem *

Acompanham este blog: