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quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Uma crítica a Michel Foucault e sua impostura



Clique no título para acessar local original da publicação:

VIANA, Nildo. Uma Crítica a Michel Foucault e sua Impostura. Revista Espaço Acadêmico.

Resenha:
MANDOSIO, Jean-Marc. A Longevidade de uma Impostura: Michel Foucault. Rio de Janeiro: Achiamé, 2011.

Uma Crítica a Michel Foucault e sua Impostura

Nildo Viana

Jean-Marc Mandosio é um autor polêmico e crítico. No seu livro recém lançado sobre Foucault, contendo dois ensaios, um que leva o título do livro, A Longevidade de uma Impostura: Michel Foucault e o outro Foucófilos e Foucólatras, fazem uma crítica arrasadora e nada “politicamente correta” (também criticada numa passagem pelo autor) do filósofo francês. Para um autor que não poupa nem os situacionistas (especialmente Vaneigen, mas a Internacional Situacionista como um todo), nesta obra faz um balanço sintético da obra de Foucault e apresenta diversas considerações críticas sobre a mesma, bem como sobre Foucault.

O autor tem como alvo as concepções e práticas de Michel Foucault e dos foucaultianos. A sua crítica a Michel Foucault tem dois aspectos: um é sobre suas concepções e outro sobre suas práticas, que são elementos complementares. Mandosio afirma que as críticas que ele conhece sobre a obra de Foucault, de George Steiner, Jean Baudrillard, Jaime Semprun, José Guilherme Merquior, Ian McLean, entre outros, foram ignoradas pela academia e pelos foucaultianos. Ele refuta a teoria das epistemes históricas contidas nas obras consideradas estruturalistas de Foucault, sua “genealogia” e “arqueologia”, principalmente As Palavras e as Coisas (1987a) e Arqueologia do Saber (1987b). As inconsistências das “idades” inventadas por Foucault na primeira obra acima é explicitada por Mandosio, bem como uma apresentação de foucaultianos e outros que, inclusive reconhecendo sua inaplicabilidade ao processo histórico concreto, lançam mão da obra do “Mestre”, que, aliás, recordam o personagem que repetia infinitamente esta palavra no filme de Drácula, Morto mas Feliz (Mel Brooks, EUA, 1995).

Mandosio, após a crítica das ideias de Foucault, passa para o que chama “as aventuras da prática”, que é um momento do livro onde a crítica e a comicidade se unem, não só pelas ironias do autor, mas pelo próprio caráter risível da evolução de Foucault. Mandosio mostra que a alegação de “marginalizado” do filósofo francês, é uma invenção, pois sempre esteve muito bem posicionado nas instituições francesas, desde as universidades até as estruturas estatais. Segundo Mandosio, “antes de Maio de 1968, a única coisa marginal em Foucault é sua homossexualidade, e ele se preocupa sobretudo com sua carreira universitária” (Mandosio, 2011, p. 40). Mandosio revela suas ligações com o gaullismo e inclusive sua participação na elaboração do plano Fouchet para reforma universitária, um dos estopins da rebelião estudantil de maio de 1968. Seria desnecessário elencar todas as peripécias de Foucault reveladas por Mandosio, tal como sua aproximação com os maoistas (e estruturalistas “marxistas”, ligados aos grupos althusseriano e lacaniano) e as atividades acadêmicas efetivadas sob sua direção nesse período, tal como um curso sobre “A dialética materialista e a criação de porcos”... Sem dúvida, os demais períodos também são retratados e mostra como Foucault caminhava de acordo com o sabor das modas (a originalidade de Foucault também é questionada por Mandosio), mostrando seus zigue-zagues ideológicos e práticos, passando ao pós-estruturalismo (ou “pós-modernismo”) e seus malabarismos até sua morte, em 1984, inclusive sua pretensão de conseguir cargo no governo do Partido Socialista Francês, em coligação com o Partido Comunista Francês, antes rejeitados pelo ideólogo da “microfísica do poder”.

Para encerrar esta parte basta um fato cômico (a partir de um acontecimento dramático da vida real, um estupro e assassinato de uma moça), na qual Foucault tomou partido no julgamento de um tabelião acusado de ser o criminoso a partir de suas observações do local onde a moça foi encontrada, uma sebe, de carpinos (e não de espinheiros, como alguns disseram, corrige Foucault...), “muito alta, cortada justo em frente ao lugar onde foi encontrado o corpo” (Foucault, apud, Mandosio, p. 49) e daí chegou a brilhante conclusão de que o tabelião era o responsável pelo crime. Mandosio ironiza a investigação do “Sherlock Holmes” da filosofia francesa, com sua “precisão botânica inesperada”, suficiente para delimitar quem foi o assassino. Mandosio continua ironizando: “recordemos que este lamentável investigador é supostamente não só um grande filósofo, como também um eminente especialista em ‘dispositivo’ judiciário e penal” (Mandosio, 2011, p. 50).

Mandosio realiza uma interessante crítica à ideologia do “intelectual específico”, o “cientista perito” e retoma a crítica de Semprun sobre o maio de 1968 sobre a recuperação das críticas dessa época pelo pós-estruturalistas. Sem dúvida, nesse momento Mandosio poderia ter desenvolvido mais a análise e chegado a compreender o processo de contrarrevolução cultural preventiva após o maio de 1968, realizado no mundo da arte e das ciências sob o nome de “pós-modernismo” (Viana, 2009), mas apesar de suas observações críticas, passa para o envolvimento de Foucault com os “Novos Filósofos”, grupo conservador cujo maior expoente foi André Glucksmann, ex-maoísta após a rebelião estudantil e conservador assumido pouco depois.

Mandosio também oferece apontamentos críticos interessantes sobre a microfísica do poder foucaultiana e outras obras e concepções, presentes principalmente na coletânea sobre poder (Foucault, 1989) e seu livro sobres as prisões (Foucault, 1983). Ele centra sua crítica aos termos “governamentalidade” e “biopolítica”, “dois excelentes exemplos de proliferação conceitual”, que hoje são usadas “a torto e a direito para dar aparência de profundidade filosófica a discursos que dela carecem cruelmente” (Mandosio, 2011, p. 66). Mandosio critica o uso destes termos e a razão pela qual são utilizáveis, sua imprecisão e até mesmo confusão entre os dois termos.

Não seria possível apresentar as outras críticas endereçadas a Foucault por Mandosio, tal como sua posição diante da revolução iraniana, suas diversas contradições, e concepções, tal como “processo de subjetivação”, entre outras. Podemos encerrar com a seguinte frase: “o principal talento de Foucault sem dúvida terá sido dar uma forma filosófico-literária aos lugares comuns de uma época” (Mandosio, 2011, p. 76). Este é justo o papel que Marx (1988) atribuía aos ideólogos: transformar as representações cotidianas ilusórias em ideologia, dando-lhe sistematicidade.

Também vamos nos abster de suas críticas aos foucófilos e foucólatras, nas quais mostra que se os erros do mestre são risíveis, os erros dos discípulos são elevados ao cubo. A apologia de Foucault não tem senso de ridículo, tal como na afirmação que ele teria um “corpo de esquerda”, que é explicado nesse trecho do cineasta René Allio citado por Mandosio: “com todo o seu ser, ele tende a se assemelhar, culminando com sua cabeça raspada, a um sexo ereto; e com toda sua inteligência penetrante” (Mandosio, 2011, p. 89). E Mandosio conclui, ironicamente, afirmando que se trata então, literalmente, de um “cabeça-dura”, fazendo um trocadilho em idioma francês cujo significado não será aqui revelado por excesso de pudor e para instigar a leitura do livro, onde se encontra a explicação numa nota de rodapé.

Enfim, o livro de Mandosio é uma leitura essencial para quem quer conhecer melhor a vida e obra de Foucault, apesar de ser extremamente sintética (e de leitura rápida e agradável, com bons momentos “humorísticos”). Ao criticar as concepções de Foucault, algumas já realizadas e outras inovadoras, e mostrar suas contradições na prática e entre discurso e prática, Mandosio mostra o Foucault “de carne e osso”, tornando-o mais conhecido em sua concreticidade e não a figura do ídolo dos adoradores de modas e apologistas de ideólogos em evidência. Nesse sentido, a obra de Mandosio é fundamental para quem quer conhecer um dos ideólogos mais famosos da atualidade, além de ser muito divertida.

Por outro lado, também não podemos fazer apologia de Mandosio. Não fizemos nenhuma pesquisa aprofundada sobre sua produção em geral e por isso podemos expor apenas nossas conclusões relativas a esta obra especificamente. As críticas às concepções de Foucault são corretas em quase todos os pontos. Porém, seria importante desenvolver e aprofundar algumas delas e realizar uma crítica mais profunda e globalizante deste filósofo. Talvez Mandosio efetive isso em outra obra. A sua análise das práticas de Foucault é um momento importantíssimo da obra, pois é nesse momento que Foucault e seus vínculos com o poder (não no sentido abstrato e ideológico que ele fornece ao termo, mas relativo ao poder estatal e às relações de poder nas instituições universitárias pelas quais passou), deixando claro que o crítico do poder é aliado do mesmo e, portanto, sua crítica é a de um aliado e não de um real opositor e, por isso, é uma pseudocrítica. É assim um crítico oficial, um “marginal consagrado”, termo de Adorno retomado por Michel Suárez no prefácio. Outro momento importante da obra é quando, sem aprofundar, mostra os vínculos de Foucault com a contrarrevolução cultural preventiva após o maio de 1968.

Claro que, apesar da crítica correta de Mandosio, isso não quer dizer que nada na obra de Foucault tenha importância. Toda ideologia possui “momentos de verdade” (Viana, 2010), e embora Foucault seja um ideólogo (Viana, 2000), existem elementos em sua obra que são assimiláveis por uma concepção verdadeiramente crítica. Porém, só é possível reconhecer os momentos de verdade na obra de Foucault se se reconhecer sua essência e totalidade formada por uma falsa consciência, ou seja, seus momentos predominantes de falsidade. E é aí que a obra de Mandosio contribui, principalmente mostrando suas raízes sociais ao colocar suas práticas, relações, posições, apesar de faltar uma percepção da totalidade da época, o que enriqueceria a crítica e daria um caráter explicativo mais profundo. Para quem não é francês, eis uma obra que traz um conjunto de materiais dificilmente acessíveis, ao lado daqueles que são mais acessíveis.

Enfim, a obra de Mandosio deve ser lida por todos os estudiosos de Foucault e também aqueles que possuem compromisso com a verdade e não com os modismos, ou seja, aqueles que não estão interessados apenas em suas carreiras profissionais, mas sim com as questões sociais e o destino da humanidade.

Referências
FOUCAULT, Michel. A Arqueologia do Saber. 3.ª ed. Rio de Janeiro: Forense, 1987b.
__________, Michel. As Palavras e as Coisas. 4.ª ed. São Paulo: Martins Fontes, 1987a.
__________, Michel. Microfísica do Poder. 8.ª ed. Rio de Janeiro: Graal, 1989.
__________, Michel. Vigiar e Punir. 2.ª ed., Petrópolis, Vozes, 1983,
MANDOSIO, Jean-Marc. A Longevidade de uma Impostura: Michel Foucault. Rio de Janeiro: Achiamé, 2011.
MARX, Karl. O Capital. Vol. 1, 3.ª ed., São Paulo: Nova cultural. 1988.
VIANA, Nildo. Cérebro e Ideologia. Jundiaí, Paco Editorial, 2010.
______, Nildo. Foucault: Filosofia ou Fetichismo? In: A Filosofia e sua Sombra. Goiânia, Edições Germinal, 2000.
______, Nildo. O Capitalismo na Era da Acumulação Integral. São Paulo, Ideias e Letras, 2009.


domingo, 23 de outubro de 2011

Livro "Anton Pannekoek e a Questão da Organização"


Acaba de ser publicado o livro "A Questão da Organização em Anton Pannekoek", organizado por Lisandro Braga e Nildo Viana, e contando com textos de Edmilson Marques, Lucas Maia, Nildo Viana e Renato Souza. Para ter acesso ao sumário e dados do livro, clique aqui.

Trechos da Apresentação do livro:

"Pannekoek foi desenvolvendo suas teses com o passar do tempo, sendo que algumas ideias manteve até o final de sua vida e aprofundou algumas, enquanto que outras ele repensou e reconsiderou. Para analisar as ideias de Pannekoek é necessário ter em mente o seu percurso intelectual. O seu pensamento atravessou algumas fases. Vamos resumir rapidamente estas fases para compreender mais adequadamente o seu pensamento".
...
"Após isto, Pannekoek cada vez mais se coloca numa posição semelhante a de outros militantes e teóricos da época (Otto Rühle, Paul Mattick, Herman Gorter, etc.) e as experiências das revoluções proletárias serviram para que a ênfase nas formas de auto-organização proletária, os conselhos operários, se tornasse mais nítido. Neste contexto, a crítica a partidos e sindicatos se torna mais ampla, bem como a oposição às burocracias em geral e ao capitalismo de estado russo".
...
"A sua obra Os Conselhos Operários é uma síntese das experiências e reflexões de Pannekoek durante este período e é por isso que ele discute o processo de formação dos conselhos, seu papel, sua importância – além de análises breves de questões específicas, como a Revolução Russa – e discute não só a questão organizacional proletária como também a questão do pensamento e das ideologias (no sentido amplo do termo), além de analisar a guerra e o fascismo".
...
"A afirmação segundo a qual a questão da organização é fundamental para Pannekoek pode gerar a ideia de que ele poderia pensar os conselhos operários de forma fetichista. No entanto, não é este o caso. A questão das organizações recebeu tratamento diferenciado por Pannekoek, dependendo da época em que escrevia e do tipo de organização. Lembrando que o pensamento de Pannekoek atravessou algumas fases e que nestas algumas idéias permaneceram, algumas foram abandonadas e novas foram gestadas, é preciso compreender a concepção de organização em Pannekoek vinculado a este processo".
...
"Um questionamento pode ser feito ao terminar esta breve análise sobre a questão da organização em Pannekoek: como fica a questão das organizações dos revolucionários?" 
...
"Nesse sentido, o livro inicia com o capítulo A questão da Organização Proletária escrito por Edmilson Marques no qual ele apresenta a concepção de Pannekoek sobre a mesma, acompanhado dos capítulos de Nildo Viana, Anton Pannekoek e a Questão Sindical, e de Renato Dias, Anton Pannekoek e os Partidos Políticos, nos quais eles discutem a posição de Pannekoek sobre os sindicatos e os partidos políticos. No último capítulo intitulado Os Conselhos Operários de Anton Pannekoek: Uma Utopia-Concreta da Revolução Proletária, Lucas Maia apresenta a revolução proletária como uma tendência histórica na sociedade capitalista".

BRAGA, Lisando e VIANA, Nildo. A Questão da Organização em Anton Pannekoek. Rio de Janeiro: Achiamé, 2011.

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

O Dinheiro como Valor Fundamental


O Dinheiro como Valor Fundamental

Nildo Viana

Na sociedade capitalista, o dinheiro, para muitas pessoas, torna-se um valor fundamental. Todo indivíduo possui uma escala de valores, alguns são mais importantes e por isso constituem valores fundamentais (Viana, 2007). O dinheiro como valor fundamental significa que está acima de outros valores (caso ele seja o único valor fundamental, estará acima da saúde, amor, amizade, poder, desenvolvimento de potencialidades, solidariedade, etc.).

A sociedade capitalista é uma “sociedade do dinheiro”. O dinheiro nasceu antes do capitalismo, mas é graças ao modo de produção capitalista que se torna um elemento fundamental da sociedade, tornando-se “meio de troca universal”, o “equivalente geral” pelo qual toda e qualquer mercadoria pode ser trocada, como já dizia Marx (1988). Desde as mercadorias mais necessárias, tal como os alimentos, até as mais supérfluas, tais como enfeites de geladeira, todas são compradas por intermédio do dinheiro. A mercantilização das relações sociais, produto do desenvolvimento capitalista, se amplia e intensifica cada vez mais (Viana, 2008) e, no capitalismo neoliberal, sob o regime de acumulação integral, temos um processo de hipermercantilização (Viana, 2009), no qual a mercantilização se intensifica, principalmente da cultura e tecnologia, além de novas estratégias para intensificar o consumo individual e criação de nichos de mercado.

Isso tende a gerar o fetichismo do dinheiro. Ele parece adquirir vida própria, ter um processo de desenvolvimento independente, gerar mais dinheiro (essa é a ilusão da poupança e daqueles que acham que dinheiro gera dinheiro por si próprio). O que muitos esquecem é que o dinheiro é um equivalente geral acaba valendo não por seu valor de uso e nem pelo seu valor de troca (que é artificialmente criado, pois uma nota de 100 reais possui o mesmo quantum de trabalho socialmente necessário que uma nota de um real) e sim pela medida de valor que ele expressa e este é trabalho materializado. Assim, não é apenas “fictício”, como alguns pensam de forma ingênua, e sim bastante real, tanto é que com ele é possível comprar uma fábrica e produzir mais-valor explorando operários. Assim, dinheiro traz capacidade de consumo, de aquisição de bens (de consumo e de produção), poder, etc.

A mentalidade burguesa, reprodutora da sociabilidade capitalista (caracterizada pela competição, burocratização e mercantilização) acaba tornando o dinheiro um valor fundamental, estando, para algumas pessoas, acima da vida dos demais seres humanos, tanto é que matam por ele. Obviamente que o dinheiro é uma necessidade para quem vive no capitalismo, pois sem ele não poderá satisfazer suas necessidades básicas (comer, habitar, etc.). Porém, a grande maioria da população não se contenta com o dinheiro apenas para isso, ele tem o papel de medir o grau de poder da pessoa, o seu status social, etc. Ele está envolvido na competição social, que produz uma “personalidade competidora” (Wright Mills, 1970) e onde o ter passa a ser mais importante do que o ser (Fromm, ) e isso mostra a pobreza do ser, pois só vem valor por ter. Isso, com a mercantilização das relações sociais, se espalha pela sociedade, influenciando o conjunto das relações sociais, tal como demonstra Alberoni no caso do erotismo feminino (Alberoni, 1988), que revela como de forma não-consciente a atração sexual é determinada pelos valores dominantes.

Existem muitos tipos de pessoas para as quais o dinheiro é um valor fundamental. O caso mais visível e conhecido, bem como retratado pela literatura e outras formas de arte, é o avarento. Desde Esopo, ainda na sociedade escravista, essa figura já aparecia. Ele mostra um elemento comum no avarento, que é guardar para não gastar e assim valorar o que nunca irá usar. Na concepção cristã medieval, a avareza é um dos sete pecados capitais. Mas é no capitalismo que o número e a intensidade – bem como o despropósito – do avarento atingem o seu grau máximo.

O AVARENTO
ESOPO

Um avarento tinha enterrado seu pote de ouro num lugar secreto do seu jardim. E todos os dias, antes de ir dormir, ele ia até o ponto, desenterrava o pote e contava cada moeda de ouro para ver se estava tudo lá. Ele fez tantas viagens ao local que um Ladrão, que já o observava há bastante tempo, curioso para saber o que o Avarento estava escondendo, veio uma noite, e sorrateiramente desenterrou o tesouro levando-o consigo.

Quando o Avarento descobriu sua grande perda, foi tomado de aflição e desespero. Ele gemia e chorava enquanto puxava seus cabelos.

Alguém que passava pelo local, ao escutar seus lamentos, quis saber o que acontecera.

“Meu ouro! Todo meu ouro!” chorava inconsolável o avarento, “alguém o roubou de mim!”

“Seu ouro! Ele estava nesse buraco? Por que você o colocou aí? Por que não o deixou num lugar seguro, como dentro de casa, onde poderia mais facilmente pegá-lo quando precisasse comprar alguma coisa?”

“Comprar!” exclamou furioso o Avarento. “Você não sabe o que diz! Ora, eu jamais usaria aquele ouro. Nunca pensei de gastar dele uma peça sequer!”

Então, o estranho pegou uma grande pedra e jogou dentro do buraco vazio.

“Se é esse o caso,” ele disse, “enterre então essa pedra. Ela terá o mesmo valor que tinha para você o tesouro que perdeu!”

Uma das mais conhecidas obras artísticas sobre avarentos é a peça teatral de Molière, de 1668, encenada de inúmeras formas até os dias de hoje (veja abaixo, peça com Paulo Autran). A mesma figura se encontra no filme O Avarento (Jean Girault, França, 1980) ou as diversas versões cinematográficas baseadas nos contos de natal de Charles Dickens, no qual o personagem avarento Ebenezer Scrooge recebe a visita de três fantasmas que o faz repensar sua vida de avareza. O avarento aparece também em novelas, como Amor com Amor se Paga, na qual o personagem Nonô Correia nega até comida para seus familiares devido sua avareza.





Nas revistas em quadrinhos, o personagem avarento mais famoso é o Tio Patinhas. Ele foi inspirado no personagem avarento de Dickens, e seu nome original era Scrooge McDuck, referencia direta a ele e sua primeira aparição, em 1947, em “Natal nas Montanhas” (“Christmas on Bear Mountain”). 

                 
A avarento é apenas um indivíduo doentio que transforma o seu desejo por dinheiro e posse material algo que pode ser sua razão de viver. A explicação disso ocorre através da análise da história de vida do indivíduo avarento, tal como se pode observar na história do personagem de Charles Dickens. Para sustentar sua avareza, o avarento pode criar racionalizações, tais como o medo paranoico de “perder tudo”.

Porém, o dinheiro como valor fundamental não gera apenas avareza (que se manifesta sob múltiplas formas e graus de intensidade, existem os muito avarentos e os avarentos moderados, aqueles que são com todo mundo ou apenas com os mais distantes, etc.). Na sociedade capitalista, há uma grande parte da população que tem o dinheiro como valor fundamental sem ser exatamente um avarento ou manifestando apenas algumas características deste e de forma moderada. Um consumista, portanto, não avarento, pode ter o dinheiro como valor fundamental, mas considerado mais como meio do que como objetivo. O avarento toma o dinheiro como objetivo, tal como no conto de Esopo ou o de Dickens. Isso difere da pessoa pobre que economiza e busca guardas suas economias, já que não é o dinheiro em si que é o valor, mas o meio de realizar coisas no futuro ou prevenir a perda e a situação de penúria (cuja possibilidade pode ou não ser realista, mas isso é uma questão que não altera o quadro).

No caso do dinheiro como valor fundamental, ela reforça a competição social e a “corrida do ouro”, tema de filmes e novelas. Desde o filme “Em Busca do Outro” (Charles Chaplin, EUA, 1925) até a novela Corrida do Ouro, da Rede Globo, de 1974/1975, em época de ditadura militar, o tema é recorrente na cultura capitalista.


CORRIDA DO OURO
CORAL SOM LIVRE

Muito dinheiro fora de hora
Sempre modifica as pessoas
Muito dinheiro
Quando chega ninguém espera
Modifica todas as coisas

Muito dinheiro
Quando pinta na vida
Modifica tudo na vida

Mas as pessoas vivem todas
Correndo atrás
De muito dinheiro

Muito dinheiro fora de hora
Dá um revertério na cuca

Muito dinheiro
Prá quem não sabe
O que é dinheiro
Põe toda a moçada maluca

Muito dinheiro no bolso
E no banco
É pior do que pouco dinheiro

Mas as pessoas vivem todas
Correndo atrás
De muito dinheiro

Quem corre atrás do tesouro
Da mina de ouro
Tem conta secreta
No banco suíço
Se esquece que a vida
Existe só prá ser vivida

Quem pensa que a grana
Que pinta de graça
Resolve os problemas
Do amor e da vida
Perdeu a sua chance
De ter a tal felicidade
De verdade

Muito dinheiro fora de hora
Sempre modifica as pessoas
Muito dinheiro

Quando chega ninguém espera
Modifica todas as coisas
Muito dinheiro

Quando pinta na vida
Modifica tudo na vida

Mas as pessoas vivem todas
Correndo atrás
De muito dinheiro

Essas pessoas
Correm atrás do dinheiro
Todo mundo correndo
Sempre atrás do dinheiro

Essas pessoas vivem todas correndo
Atrás de muito dinheiro


O processo contemporâneo reforça essa tendência, pois a intensificação da mercantilização das relações sociais gera uma hipermercantilização e os efeitos disso na cultura e universo psíquico dos indivíduos tende, igualmente, a se intensificar. A irracionalidade do modo de produção capitalista se generaliza e a destruição ambiental é um de seus resultados, e, mesmo assim, o processo se reproduz. Surgem até ideologias neurológicas e outras para naturalizar a avareza e a ganância (veja documentário abaixo). Assim, as representações cotidianas são reforçadas pelas ideologias e estas se inspiram naquelas. O círculo vicioso e destrutivo do capitalismo continua, mas poucos fazem alguma coisa para mudar esta situação, já que “essas pessoas vivem todas correndo atrás de muito dinheiro”.

Referências Bibliográficas

Alberoni, Francesco. O Erotismo. Fantasias e Realidade do Amor e da Sedução. Rio de Janeiro, Círculo do Livro, 1988.
Fromm, E. Ter Ou Ser? 4a Edição, Rio de Janeiro, Zahar, 1987.
Marx, Karl. O Capital. Vol. 1. 3ª Edição, São Paulo, Nova Cultural, 1988.
Viana, Nildo. O Capitalismo na Era da Acumulação Integral. São Paulo, Idéias e Letras, 2009.
Viana, Nildo. Os Valores na Sociedade Moderna. Brasília, Thesaurus, 2007.
Viana, Nildo. Universo Psíquico e Reprodução do Capital. Ensaios Freudo-Marxistas. São Paulo, Escuta, 2008.
Wright Mills, C. Poder e Política. Rio de Janeiro, Zahar, 1970.

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