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quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

O PROBLEMA DA IDENTIFICAÇÃO DA POSTURA INTELECTUAL



O PROBLEMA DA IDENTIFICAÇÃO DA POSTURA INTELECTUAL

Nildo Viana

Os intelectuais são os indivíduos que compõem a classe social denominada intelectualidade. No entanto, todas as classes sociais possuem subdivisões, bem como distintas manifestações políticas, culturais. A classe intelectual possui suas frações de classes (artistas, cientistas, técnicos, etc.) e isso gera diferença de valores no seu interior, o que é mantido em outras subdivisões no seu interior (os cientistas possuem elementos em comum enquanto fração de classe, mas também possuem divisões internas, a começar entre os cientistas sociais e os cientistas naturais).

Uma das divisões mais importantes no interior da intelectualidade é a postura intelectual de cada indivíduo. O que é “postura intelectual”? Como definimos em outro lugar, elas “são as posturas dos intelectuais, indivíduos pertencentes à classe intelectual, que expressa sua posição social no interior desta classe e seu posicionamento, diante dela e da sociedade como um todo, incluindo suas concepções políticas” (VIANA, 2015a, p. 12). Ou seja, a postura intelectual está ligada a posição do intelectual na hierarquia da classe e das esferas sociais (VIANA, 2015b). Ela se caracteriza por sua posição social e seu posicionamento (diante da classe, da sua esfera específica e da sociedade e suas divisões de classes e política).

Posição social e posicionamento tendem a ser semelhantes, embora, em alguns casos, possa haver certa discrepância, que só a pesquisa de casos concretos pode delimitar e explicar. Essa hierarquia pode ser dividida em segmentos, entre os quais os hegemônicos e dissidentes, que são aqueles que competem pelos espólios da sua esfera científica e da classe intelectual, tal como o reconhecimento dos seus próprios pares e dos meios intelectualizados da sociedade. Estes são os integrados dentro da classe intelectual e das esferas sociais, sendo que o que os distingue é a competição pelo lugar principal, com os dissidentes querendo se tornar hegemônicos. Os hegemônicos estão no topo da hierarquia intelectual e/ou esférica[1], e conseguem manter a hegemonia no âmbito da classe intelectual e sua esfera social particular. Isso significa que uma postura intelectual remete não apenas para sua posição na hierarquia da classe intelectual e esfera científica, mas também seu posicionamento. Os hegemônicos geralmente se posicionam a partir das concepções hegemônicas na classe intelectual e esferas sociais tanto no que se refere a sua autoimagem quanto em seu posicionamento político. Os dissidentes são aqueles que estão em segundo plano e querem passar para o primeiro plano. Trata-se de uma oposição que revela, no fundo, uma competição.

Essas duas posturas, as mais comuns e predominantes, convive com outras, que já se separam do eixo central da classe intelectual e das esferas sociais. Esse é o caso dos intelectuais venais, cujo valor fundamental não é o mesmo dos setores mais integrados na classe e esfera, e sim o dinheiro. Por isso são “venais”. Existem também os intelectuais ambíguos, que ficam entre a reprodução da mentalidade da classe intelectual e da esfera que pertencem e outras instituições (igrejas, partidos, etc.). Um outro caso é o dos intelectuais amadores, que são aqueles que são marginalizados e não conseguem se inserir adequadamente na classe intelectual e em suas esferas e por isso não se integram no modus operandi seja da classe ou esfera que se aproxima e nem possuem condições de disputar seus espólios. Por último, temos outra postura intelectual, que é a dos intelectuais engajados, que se afastam da mentalidade e competição pelos espólios da classe intelectual e de sua esfera particular, geralmente realizando a sua crítica e apontando a transformação social radical e total como objetivo ao invés dos espólios da classe e esferas sociais.

Politicamente, os hegemônicos e dissidentes tendem a ser conservadores ou progressistas moderados, os venais são geralmente conservadores, os amadores são mais afastados da política institucional e mais heterogêneos em suas concepções políticas, os ambíguos tendem a ser predominantemente progressistas (com um setor conservador, ligados a instituições conservadoras) e os engajados são revolucionários. Obviamente, que indivíduos concretos podem romper com essa tendência, mas é algo difícil, especialmente no caso dos hegemônicos.

Essa hierarquia na classe intelectual e no interior de suas subdivisões (esferas sociais) acaba criando um forte problema para o pesquisador que quer identificar qual segmento que um intelectual pertence, ou seja, qual sua postura intelectual. No caso dos amadores, por sua posição, é mais fácil. Existem casos, no entanto, que é mais difícil, como, por exemplo, no caso de indivíduos que historicamente mudaram sua postura intelectual (dissidentes que se tornaram hegemônicos e vice-versa, hegemônicos que se tornaram engajados ou vice-versa, ambíguos que se tornaram dissidentes ou vice-versa, além dos casos nos quais ocorreu mais de uma mudança na postura intelectual). Além disso, muitas vezes intelectuais ambíguos podem ser confundidos com intelectuais engajados, dissidentes com hegemônicos, venais com dissidentes e ambíguos, etc.

Machado de Assis era um intelectual hegemônico? Lima Barreto era um intelectual engajado? Paulo Coelho é intelectual venal? Enes da Cunha Teles é um intelectual amador? Jorge Amado era um intelectual ambíguo? Essas questões remetem a um problema metodológico que é o de como identificar a postura intelectual de um indivíduo pertencente ou aspirante a pertencer à classe intelectual. Em certos casos, isso é relativamente mais fácil, que é quando o intelectual em questão deixa explícitos sua posição e posicionamento. No entanto, mesmo nestes casos pode haver controvérsias, pois a autodefinição não é suficiente. Como Marx afirmou, não se define uma época de transformação social pelo que ela diz de si mesma assim como não se analisa um indivíduo por sua autoimagem.

A autodefinição é a parte do discurso no qual um intelectual diz o que é (a qual corrente intelectual adere, qual concepção política defende, qual seu posicionamento diante das questões políticas e sociais, etc.). O pesquisador não pode se contentar com a autoimagem ou autodefinição dos indivíduos e, no caso que abordamos aqui, dos intelectuais. A autodeclaração do indivíduo é um dos elementos que devem ser analisados para identificar a sua postura intelectual. No entanto, esta autodeclaração deve ser vista criticamente e acompanhada por outras fontes de informação. O material informativo necessário para se identificar qual é a postura intelectual de um indivíduo é, além da autodeclaração (o discurso sobre si mesmo e sua posição e posicionamento), a prática efetiva e sua prática discursiva. Desta forma, é necessário: a) analisar sua autodefinição: como ele definia sua própria posição diante da sociedade e dos meios intelectuais (academia, esfera social e/ou intelectualidade), b) analisar sua prática discursiva: o conjunto do seu discurso no qual explicita sua real posição diante da sociedade, política, intelectualidade, etc. e c) analisar sua prática efetiva: como ele, efetivamente, se relacionava com a academia, esfera social e/ou intelectualidade e com a política e a sociedade.

Assim, cabe ao pesquisador acessar esse material informativo e realizar sua análise. A autodeclaração, após ser acessada, pode dizer o que corresponde à realidade ou não. Por exemplo, um intelectual pode se autodeclarar social-democrata, progressista, liberal, conservador, comunista, etc. Essa é sua autodefinição política. Da mesma forma, esse mesmo intelectual pode defender a tese da “autonomia da ciência” e da neutralidade e que os intelectuais devem representar o “universal”. Essa seria sua autodeclaração no que diz respeito ao seu posicionamento diante da ciência e da intelectualidade. Mas também, se for um sociólogo, poderia se autodefinir como um “sociólogo crítico” ou “neutro” ou, se fosse um geógrafo, se autodefinir como “marxista”, “humanista” ou “positivista”. Essa é sua autodefinição intelectual. Ao pesquisar um intelectual é preciso buscar sua autodefinição. Uma vez acessada a sua autodefinição, torna-se necessário pesquisar se ela é verdadeira ou falsa. Em muitos casos é verdadeiro, bem como em muitos outros é falsa.

Como verificar se a autodefinição é verdadeira ou falsa? É por isso que é necessário analisar sua prática discursiva e sua prática efetiva. Esses dois itens permite concluir se a autodefinição é verdadeira ou falsa. Por exemplo, se um intelectual se diz “crítico do poder”, um contestador e adepto da transformação social, é possível verificar se isso é verdadeiro ou falso analisando sua prática discursiva e sua prática efetiva. A prática discursiva é o que ele efetivamente realiza em seus discursos. Um indivíduo pode fazer um discurso democrático de forma autocrática. A frase “você deve se submeter ao regime democrático” é um bom exemplo para mostrar que a afirmação discursiva aponta para pensar que o seu autor é um democrata, mas, ao mesmo tempo, a forma como ele efetiva o discurso é autocrático. É por isso que a afirmação deve ser analisada e necessita da confirmação: “A afirmação é uma declaração afirmada conscientemente no discurso e confirmação é a efetivação disso no discurso, a prática discursiva. A afirmação discursiva é o que o discurso diz e a confirmação é o que efetivamente faz. Pode haver coerência ou contradição entre afirmação e confirmação” (VIANA, 2015c, p. 55). Assim, a afirmação discursiva pode ser coerente ou não com a efetividade discursiva e por isso torna-se necessária a sua confirmação. A análise da prática discursiva é fundamental para descobrir a efetividade discursiva, a coerência ou incoerência entre o dito e o efetivado.

A prática discursiva vai além da autodeclaração. Um intelectual que afirma ser progressista e escreve artigos defendendo ideias conservadoras e outro que se diz anarquista, mas escreve textos apoiando candidatos para eleições, mostram a incoerência entre o dito e o efetivado e isso significa que a prática discursiva refuta a autodeclaração. Cabe ao pesquisador, portanto, demonstrar que sua autodeclaração é falsa e isso é comprovado por sua prática discursiva e que, portanto, trata-se de um pseudoprogressista e um pseudoanarquista, respectivamente.

Sem dúvida, existem muitos casos opostos. Um intelectual pode se autodeclarar marxista e demonstrar isso em sua prática discursiva. Isso ocorre quando ele, efetivamente, utiliza os conceitos, teorias e concepções marxistas e na perspectiva do proletariado. Cabe ao pesquisador analisar o uso dos conceitos, teoria, etc. e assim ter a confirmação de que a autodeclaração corresponde à prática discursiva, sendo, portanto, verdadeira.

Existem alguns casos em que não existe autodeclaração ou ela não é clara e objetiva. Um cientista pode simplesmente não declarar qual é sua concepção política e sua concepção de ciência. Nesse caso, a prática discursiva se torna um material informativo basilar. Em outros casos, o cientista pode ser confuso, contraditório, volúvel (quando em uma oportunidade afirma ser algo e em outra já se autodeclara de outra forma) em suas declarações sobre si mesmo. Nesse caso, o pesquisador deve observar se a volubilidade é devido ao decorrer do tempo, significando mudanças de postura (um hegemônico que com o passar do tempo se torna dissidente ou um engajado que se torna ambíguo, por exemplo), confusão ou ambivalência, formação intelectual deficiente, indecisão por certas determinações, tal como a pressão social (alguns intelectuais podem, por covardia ou situações determinadas, dizer que é o que não é, ou, então, se mostrar definido e sem ambivalência apesar de ser indefinido e ambivalente).

No entanto, é preciso ir além da análise da autodeclaração e da prática discursiva. A identificação da postura intelectual de um indivíduo se concretiza com sua prática efetiva, ou seja, o que efetivamente ele faz e se isso é coerente ou não. Por exemplo, Foucault se dizia um crítico do poder (autodeclaração) e escrevia textos de crítica ao poder (efetividade discursiva)[2], mas, no entanto, passou sua vida atrelado ao poder (MANDOSIO, 2011). Assim, a autodeclaração e a prática discursiva são importantes para verificar a verdadeira concepção de um intelectual e por isso a prática efetiva se torna um complemento necessário. Obviamente que este exemplo é apenas uma possibilidade, pois existem diversos casos de coerência entre autodeclaração, prática discursiva e prática efetiva. No caso de incoerência entre autodeclaração e prática discursiva, a prática efetiva pode oferecer a resposta final ao descobrir se, nas relações sociais concretas, o intelectual em questão confirma a autodeclaração ou a prática discursiva, embora o mais comum seja a coerência com a última.

A prática efetiva é aquela na qual o intelectual exerce sua profissão e atividades intelectuais, o que permite observar se existe coerência entre sua autodeclaração e prática discursiva com relação à sua profissão, e aquela em que desempenha práticas políticas, se posiciona em relação às questões sociais, etc., o que pode ser efetivado tanto na sua própria vida profissional e acadêmica quanto em outros lugares (imprensa, partidos, grupos políticos, meios de comunicação em geral, comunidade, associações diversas, etc.). No caso citado de Foucault, a sua prática efetiva mostra o seu atrelamento e relação com o aparato estatal e outras instituições, bem como sua volubilidade em seguir os modismos acadêmicos (MANDOSIO, 2011). Assim, a sua autodeclaração de posição política é incoerente com sua prática efetiva. Da mesma forma, alguns intelectuais podem criticar a academia, a ciência, a sua esfera social, mas se encontra totalmente integrado na mesma, inclusive assumindo presidência de associações científicas hegemônicas, o que significa uma incoerência. Claro que cada caso concreto deve ser analisado em sua especificidade, bem como o processo evolutivo do referido intelectual, entre outras determinações.

Em síntese, a identificação da postura intelectual de um indivíduo da classe intelectual precisa ser pautada por esses três aspectos: autodeclaração, prática discursiva, prática efetiva. No entanto, isso é complementado, como no caso de qualquer discurso, pela análise do contexto social (a sociedade numa determinada época) e cultural (a cultura da época). Esse elemento é importante para inserir a evolução intelectual do indivíduo em questão na totalidade das relações sociais, tanto nas relações sociais concretas quanto no mundo cultural onde emerge e ganha significado. As mutações de um intelectual são explicadas tanto pela sua evolução biográfica, quanto pela sua evolução social, pois as mudanças sociais atingem os indivíduos, podendo mudar sua postura intelectual, seja por pressão, necessidades, etc. A análise apenas da prática efetiva não poderia mostrar isso. Da mesma forma, se dizer “esquerda” nos Estados Unidos tem um significado distinto do que no caso brasileiro ou francês.

Desta forma, identificação da postura intelectual de um indivíduo possui esses cinco aspectos fundamentais (autodeclaração, prática discursiva, prática efetiva, contexto social, contexto cultural) que são separadas e reunidas no momento da análise. De acordo com o método dialético, o “concreto é o resultado de suas múltiplas determinações” (MARX, 1983; HEGEL, 1980) e assim é essa totalidade de elementos e determinações que permitem a reconstituição de qual é a postura intelectual de um determinado pensador. Através desse procedimento é possível identificar qual é a postura intelectual de um determinado integrante da intelectualidade.

Referências

FOUCAULT, Michel. Microfísica do Poder. 8.ª ed. Rio de Janeiro: Graal, 1989.

FOUCAULT, Michel. Vigiar e Punir. Petrópolis: Vozes, 1983.

HEGEL, G. W. F. Introdução à História da Filosofia. 4ª edição, Coimbra: Armênio Amado, 1980.

MANDOSIO, Jean-Marc. A Longevidade de uma Impostura. Michel Foucault. Rio de Janeiro: Achiamé, 2011.

MARX, Karl. Contribuição à Crítica da Economia Política. 2a edição, São Paulo: Martins Fontes, 1983.

VIANA, Nildo. As Esferas Sociais. A Constituição Capitalista da Divisão do Trabalho Intelectual. Rio de Janeiro: Rizoma, 2015b.

VIANA, Nildo. Intelectuais Venais e Axiologia. Revista Axionomia (GPDS/UFG). Vol. 01, num. 01, jan./jun. de 2015a.

VIANA, Nildo. Introdução à Crítica da Ideologia Gramsciana. Marxismo e Autogestão. Ano 02, num. 03, jan./jun. 2015c.





[1] Um intelectual hegemônico numa determinada esfera social pode estar abaixo na hierarquia da classe intelectual, dependendo da função e prestígio de tal esfera.
[2] Sobre isso, consulte suas obras Vigiar e Punir (FOUCAULT, 1983) e Microfísica do Poder (FOUCAULT, 1989).

2 comentários:

  1. Assim como todas as suas abordagens sobre a intelectualidade, esta é mais uma excelente análise e contribuição para entender esta classe social, os intelectuais e suas subdivisoes internas. Uma leitura agradável que quando começa a lleitura, tem se a vontade de saber o desfecho. Sucesso ilustre Nildo.

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