sábado, 9 de maio de 2015

Reflexões sobre o maoísmo


REFLEXÕES SOBRE O MAOÍSMO
Nildo Viana

Mao Tse-Tung foi o grande líder da Revolução Chinesa, tirando o país do atraso e com resquícios do modo de produção feudal[1], e, ao mesmo tempo, realizando o processo de construção do socialismo na China, além de dar continuidade ao marxismo-leninismo e aprofundando os ensinamentos de Marx, Engels, Lênin e Stálin. Essa é, possivelmente, a versão que alguns podem ler em textos de apresentação de Mao por algum maoísta-stalinista. Aqui se junta apologia, dogmatismo e inverdades. O maoísmo, infelizmente, não morreu em 1976 com Mao Tse-Tung. O “grande timoneiro” viu seu navio ficar desgovernado e depois suas próprias ideias receberam as mais fantásticas interpretações pelos não-leitores ou mau-leitores, o que em parte é responsabilidade dele por suas posições diante da teoria. Nesse sentido, torna-se importante discutir o maoísmo, desde Mao até hoje, no sentido de explicitar a razão pela qual ele ainda sobrevive apesar de seus limites, fraquezas e distanciamento da realidade concreta.

O que é o Maoísmo?

Para compreender o maoísmo é fundamental conhecer a história da Revolução Chinesa, além dos escritos de Mao Tse-Tung e sua biografia, bem como de seus “seguidores”. O maoísmo pode ser considerado uma tendência do bolchevismo (também conhecido como leninismo, a forma mais consolidada de pseudomarxismo). No entanto, é necessário reconhecer que, se o maoísmo mantém as teses básicas que caracterizam o leninismo, ele também possui elementos distintos em alguns aspectos e promoveu alguns acréscimos à sua ideologia matriz.

O maoísmo pode ser definido por seu conteúdo ideológico e por seu caráter de classe, que são complementares. O caráter de classe do maoísmo pode ser identificado a partir dos problemas e respostas que oferece no contexto de sua constituição e desenvolvimento. É esse o procedimento que Marx (1986) aponta para se identificar a relação entre classe social e seus representantes intelectuais. Mas isto precisa ser complementado com a análise da formação da ideologia maoísta e suas ações concretas no processo histórico da revolução chinesa, bem como pela origem e/ou pertencimento de classe dos ideólogos que produziram tal ideologia.

O primeiro ponto a ser esclarecido é, portanto, qual é a problemática e a solução apresentada pelo maoísmo. Mao Tse-Tung sempre quis contribuir com a Revolução Chinesa e sempre buscou pensar a transformação da China em uma sociedade moderna e “socialista”. A questão fundamental que se colocava para Mao Tse-Tung é a passagem de uma sociedade semicolonial para o socialismo. Nesse sentido, Mao seguia totalmente a linha leninista: o partido deve ser o guia das massas no processo revolucionário. O comunismo é produto da ação do partido que garante a revolução e a implantação do socialismo. Assim, a matriz leninista é conservada, embora tenha alguns pontos secundários posteriormente alterados.

Segundo Mao, “um partido revolucionário é o guia das massas e nunca uma revolução pode triunfar se o partido revolucionário não a conduz pelo caminho correto” (MAO, 1971, p. 186). Esta e diversas outras passagens de Mao repete a ideologia leninista da vanguarda, segundo a qual o partido é a vanguarda dirigente do proletariado. Ele também reproduz a ideologia do “centralismo democrático”, para a qual os dirigentes do partido são sua vanguarda e por isso devem comandar os demais. Ele explicita isso, por exemplo, numa passagem de polêmica interna dentro do Partido Comunista Chinês (PCC):
Certos camaradas veem apenas os interesses da parte e não os do todo; indevidamente, acentuam a importância do setor de trabalho de que estão encarregados e buscam uma subordinação dos interesses do todo aos interesses da parte. Não compreendem o sistema de centralismo democrático do Partido; não veem que o Partido necessita de democracia mas necessita ainda mais de centralismo. Esquecem que, no centralismo democrático, a minoria deve submeter-se à maioria, os escalões inferiores aos escalões superiores, a parte ao todo, o conjunto dos membros do Partido ao Comitê Central (MAO, 1979a, p. 54).
A defesa do uso da violência é muito comum na concepção maoísta. Isto é coerente, como colocaremos adiante, com a inspiração militar do maoísmo. Assim, o objetivo é o desenvolvimento das forças produtivas e para isso o uso da violência e derrota do inimigo é fundamental: “O propósito de nossa revolução é o desenvolvimento das forças produtivas da sociedade. Para este fim devemos primeiro derrotar o inimigo. A seguir, devemos reprimir sua resistência” (MAO, 1982, p. 39). O objetivo, colocado inicialmente por Mao, seria a revolução democrático-burguesa para posteriormente passar para a revolução socialista (MAO, 2011a). No decorrer do processo mais avançado da luta, Mao já passa a pensar em revolução socialista ao invés de “democrático-burguesa”. A concepção de socialismo de Mao não difere essencialmente da concepção leninista e stalinista, pois trabalha com os mesmos elementos ideológicos: industrialização e desenvolvimento das forças produtivas, estado proletário, transição ao comunismo, etc. Há divergência em aspectos secundários, tal como colocaremos adiante.

Em síntese, a concepção maoísta aponta para uma burocracia (partidária) que guia as massas e efetiva uma “revolução” e se aquartela no aparato estatal e efetiva a “transição” ao comunismo[2]. Ou seja, é uma reprodução, em nível geral, da concepção leninista, ou seja, burocrática. Os problemas colocados (quem deve dirigir a revolução e como deve encaminhá-la) e a resposta (a burocracia partidária e estatal) apontam para o caráter de classe do maoísmo: uma ideologia da classe burocrática. O seu conteúdo ideológico é bem visível, uma produção ideológica cujo elemento essencial é o burocratismo.

Essa conclusão é reforçada por diversos outros aspectos do pensamento maoísta. Porém, o pertencimento de classe de Mao acaba reforçando essa conclusão. Mao surge de uma família rural de pequenos latifundiários[3], mas tão logo adentra na juventude já passa a pertencer à burocracia partidária e militar. A sua classe de pertencimento, quando começa a desenvolver o maoísmo, é, portanto, a burocracia. Com a vitória da Revolução Chinesa em 1949, e a fusão entre burocracia partidária e estatal, bem como entre burguesia e burocracia, ele passa a pertencer à burguesia de Estado ou “burguesia burocrática”[4]. As ações concretas de Mao durante o processo revolucionário chinês apontam para a mesma conclusão. Ele sempre foi dirigente (partido, militar, estado, oposição, etc.) e sempre defendeu e usou práticas burocráticas, até mesmo no período da chamada Revolução Cultural, como mostraremos adiante, ao contrário das mistificações a respeito. A sua prática militar e estudo sobre guerra e estratégia sempre foram fundamentais em suas ações e por isso sua oposição na China acabou tendo mais efeito do que a de Trotsky na Rússia. Mao era um estrategista político e militar e usou um conjunto de estratégias para vencer o exército nacionalista e o Kuomitang (o partido nacionalista chinês que combatia o imperialismo e se aliou em alguns momentos aos comunistas, embora sempre entrando em confronto com este), bem como nas disputas políticas internas do partido e do estado chinês, sempre visando à direção e o controle.

A formação da ideologia maoísta é outro elemento que confirma o seu caráter de ideologia da burocracia. A principal fonte inspiradora de Mao era Lênin, o grande ideólogo da burocracia e Stálin, seu continuador e empobrecedor. Ele constantemente citava, como argumento de autoridade, os “quatro clássicos” do “marxismo”: Marx, Engels, Lênin e Stálin[5]. A sua compreensão do pensamento de Marx era diminuta, bem como sua leitura[6]. É correto afirmar que “Mao Tsé-Tung chega ao marxismo através de Lênin” (KERKHOF, 1979, p. 25) ou, mais ainda, através dos manuais soviéticos e Stálin. Outra fonte do pensamento maoísta, embora com menos peso, é o confucionismo (MATZKEN, 1979), apesar de algumas críticas endereçadas a ele. Do confucionismo Mao vai extrair uma valoração do indivíduo e das “relações humanas” (MATZKEN, 1979), que será a base de sua diferenciação em relação ao leninismo-stalinista[7]. Uma outra fonte de inspiração de Mao é os escritos sobre guerra e processos históricos concretos de combate militar, especialmente o caso chinês, mas também o russo. Isso terá um efeito sobre suas ações concretas e o fato de ter se tornado um estrategista político e militar.

A especificidade da sociedade chinesa também tem um efeito sobre a concepção maoísta. Para muitos, o maoísmo é uma concepção estritamente chinesa, o que explicaria sua “chinização” (ou “sinização”) do “marxismo” (na verdade, do leninismo)[8]. O elemento camponês é sempre destacado nesse processo, não só pelo fato de que a China era composta predominantemente por camponeses, mas também pela importância que Mao atribuía ao campesinato. Segundo o próprio Mao, cerca de 80% da população chinesa, em 1940, era camponesa (MAO, 2011c). Esse é o motivo principal para a importância atribuída ao campesinato por Mao e sua divergência com Stálin a este respeito, marcando uma das especificidades do maoísmo.

A Especificidade do Maoísmo

A partir de 1927 a política do PCC começa a mudar e o grande artífice dessa mudança é Mao. As organizações urbanas do PCC são dizimadas após a derrota de 1927 e o afastamento de Chen Tu-Siu leva Mao a ser o dirigente de fato do partido, o que fez reformular a estratégia do mesmo, já que ele “sempre manifestou velada oposição ao descaso que a direção partidária tinha para com os camponeses” (SCHILLING, 1984, p. 33). Isso não significou que as tendências pró-leninistas e fundadas na luta do proletariado tenham sido abolidas, apenas começaram a perder espaço (REIS FILHO, 1981). Nesse momento inicia-se o processo de valoração do campesinato e as estratégias maoístas ganham terreno paulatinamente. As ideias de guerra de guerrilhas, guerra prolongada, etc. vão ganhando espaço e Mao se destaca como um grande estrategista político-militar. As especificidades do maoísmo são derivadas desse aspecto em particular.

A guerra serve como modelo para Mao Tse-Tung pensar a luta de classes. É a estratégia militar que oferece as bases da estratégia e ação política maoísta. Em seus diversos textos ele apresenta não só a importância da guerra e da estratégia, mas também afirma a proximidade entre guerra e luta de classes e alerta para a especificidade do caso chinês. Segundo Mao:

As leis da guerra constituem um problema que deve ser estudado e resolvido por todos os que dirigem uma guerra.
As leis da guerra revolucionária constituem um problema que deve ser estudado e resolvido por todos os que dirigem uma guerra revolucionária.
As leis da guerra revolucionária na China constituem um problema que deve ser estudado e resolvido por todos os que dirigem a guerra revolucionária na China.
Estamos atualmente empenhados em uma guerra; é uma guerra revolucionária; e nossa guerra revolucionária está sendo travada no território semifeudal e semicolonial da China. Devemos, pois, não só estudar as leis da guerra em geral, mas também as leis de uma guerra revolucionária especial, e, acima de tudo, as leis da guerra revolucionária na China (MAO, 1961a, p. 168-169).
Aqui se nota o doutrinarismo de Mao Tse-Tung[9]. Além do apelo às “leis” para justificar e legitimar suas práticas, temos também o normativismo presente nas afirmações (“deve ser estudado”, repetido nas três primeiras frases, “devemos estudar” na quarta). Além disso, ele coloca a existência de leis específicas da guerra e da guerra revolucionária, incluindo a da China. Isso serve para pensar a guerra na China de forma independente da Rússia, que era o modelo seguindo pelo PCC. Mao buscava com esse discurso, defender a especificidade do caso chinês, e, desta forma, se livrar do modelo russo, que apostava todas as suas fichas no proletariado. Mao elaborou um conjunto de reflexões sobre a guerra e estratégia, se destacando suas análises, que não poderemos desenvolver por questão de espaço, de guerra prolongada, guerra de guerrilhas, guerra de posições, guerra de movimento, etc.

A compreensão desse elemento fundamental do pensamento de Mao é essencial para romper com a concepção equivocada de que o maoísmo é uma tendência ou ideologia camponesa (ou “pequeno burguesa”)[10], devido o papel estratégico atribuído ao campesinato. Em especialmente o seu complemento, que é destacar a necessidade de “comando” com visão do todo e suas partes, no sentido de elaborar a melhor estratégia e aplicá-la devidamente. O comando só pode ser, por sua vez, o Partido Comunista, “vanguarda” do proletariado. Isso é uma lei geral, mas no caso específico da China, a coisa é um pouco diferente, já que a maioria da população é camponesa. Nesse caso:
Somente o proletariado e o Partido Comunista podem liderar o campesinato, a pequena burguesia urbana e a burguesia, superar a estreiteza de visão do campesinato e da pequena burguesia, a tendência das massas desempregadas à destruição  e a vacilação e inconsequência da burguesia (desde que o Partido Comunista não cometa erros em sua política) e, assim, levar a revolução e a guerra ao caminho da vitória (MAO, 1961a, p. 182).
Mao defende a vanguarda do partido, como leninista, como o comando dirigente da revolução e reconhece o proletariado como “sujeito revolucionário”. No entanto, no caso chinês, devido ao peso do campesinato (e outros elementos que ele acrescenta, como sua disposição para a guerra, o que ocorria efetivamente na China), era fundamental sua participação. A estratégia maoísta apontava para usar como apoio fundamental entre “o povo” (expressão muito utilizada por Mao e pelos maoístas, o que tem o papel de confundir as classes e sua concreticidade com um conjunto indiferenciado que de forma oportunista é composto por aqueles que estão do lado do PCC e suas estratégias, até a burguesia nacional quando combate o imperialismo)[11], o campesinato. Não se trata, pois, de uma ideologia camponesa e nem de substituir o proletariado pelo campesinato e sim reconhecer o papel-chave deste último na revolução chinesa, como um aliado dirigido pelo partido[12].

É nesse contexto, com uma população composta em sua maioria por camponeses, que a estratégia maoísta do “campo cercar a cidade” é apresentada e significando, de acordo com seus princípios, não a conquista imediata da cidade e sim realizar ataques para enfraquecer o inimigo. Mao Tse-Tung defende, na guerra chinesa contra o Japão e o imperialismo, a estratégia de atuar numa frente ampla, realizando avanços e retiradas rápidas, utilizando a guerra de movimento em grande escala e colocando a guerra de posições em segundo plano, buscando preservar as defesas e postos conquistados. O “eixo da estratégia”, no entanto, é a guerra de movimento (MAO, 2011d). Segundo Mao, as “massas camponesas” possuíam “forças potenciais enormes” e poderiam vencer as tropas japonesas se estivessem corretamente organizadas e dirigidas.

Até aqui entendemos uma das características específicas do maoísmo, uma ideologia da burocracia que usa o campesinato como elemento principal na guerra (nacional e civil, como veremos a seguir). Esse papel atribuído ao campesinato se deve às condições particulares da sociedade chinesa. Ela está intimamente ligada à outra especificidade do maoísmo, que é o voluntarismo. Isso gera um diferencial em relação ao leninismo original (de Lênin e mais ainda do seu derivado, o stalinismo). Esse diferencial, no entanto, é de grau e não de conteúdo. O voluntarismo de leninismo original é moderado diante do maoísta. E de onde Mao retira o seu voluntarismo? Em parte de Lênin e dos processos da revolução russa e outros acontecimentos históricos, em parte do confucionismo, como colocamos anteriormente. Mas o elemento fundamental que gera o seu voluntarismo exagerado é a guerra. A guerra, ao contrário da “matéria” ou da “natureza”, é o modelo exemplar e máximo de Mao. É por isso que ele critica o que denomina “teoria da onipotência das armas”. Para Mao, essa é uma concepção mecânica da guerra, bem como subjetivista e unilateral. Segundo Mao:
A nossa maneira de ver é contrária a essa; nós consideramos as armas e também os homens. As armas são um fator importante na guerra, mas não são o fator decisivo. É o homem, e não as coisas, quem constitui o fator decisivo. A correlação de forças não é apenas uma correlação de poder militar e económico, ela é também uma correlação de recursos humanos e força moral. O poder militar e econômico está necessariamente dominado pelo homem (MAO, 2011d, p. 224).
Daí Mao ressaltar o papel dinâmico do homem na guerra. A guerra prolongada e a vitória final só são possíveis através da ação do homem. A eficácia dessa ação depende de pessoas que, partindo dos fatos objetivos, formulem as concepções e planos (diretivas, linhas políticas, estratégias, táticas, etc.) que, junto com a prática, transformam o subjetivo em objetivo, sendo esse o papel dinâmico dos seres humanos (MAO, 2011d). É esse papel dinâmico consciente do homem que o distingue dos outros seres (MAO, 2011d). As condições objetivas (condições militares, políticas, econômicas, geográficas, apoio internacional, das duas partes em guerra) não decidem sozinha a vitória ou derrota. Elas apresentam a possibilidade de vitória ou derrota, mas a decisão efetiva vem dos esforços subjetivos, a direção e realização da guerra, revelando esse papel dinâmico. Logo, Mao enfatiza a ação humana na decisão da guerra e para isso coloca a força da consciência, que significa conhecer as condições objetivas (ou fatos) e ter planos para agir, especialmente estratégia e tática. Segundo suas próprias palavras, “como leis de condução da guerra, a estratégia e a tática constituem a arte de nadar no oceano da guerra” (MAO, 2011d).

Esse raciocínio diante da questão da guerra se reproduz diante da política, embora com algumas diferenças. Mao repete o dito popular segundo o qual a guerra é continuação da política. A guerra é, ela mesma, política e ato político. Por isso, “a guerra não deve, nem por um só momento, ser separada da política” (MAO, 2011d). A citação de Lênin e da famosa frase de Carl von Clausewitz (“a guerra é uma continuação da política por outros meios”) vem para justificar a afirmação seguinte de que a guerra tem características específicas próprias, pois “a política é guerra sem derramamento de sangue e a guerra, política sangrenta” (MAO, 2011d).

Nesse sentido, a direção assume um papel fundamental, afinal é ela que analisa as condições objetivas e elabora as estratégias, etc. Mao defende a tese de que uma direção subjetiva incorreta pode levar ao fracasso, mesmo havendo superioridade e iniciativa, pois assim podem ser transformadas em inferioridade e passividade. Uma direção subjetiva correta, ao contrário, pode produzir o inverso, possibilitando exércitos pequenos e fracos vencerem exércitos grandes e poderosos.

Esses aspectos revelam a especificidade do maoísmo. Sem dúvida, alguns outros derivados também aparecem, tal como na polêmica com Stálin a respeito das relações de produção e forças produtivas (MAO, 1982), pois o papel do homem é ressaltado, muito mais do que as forças produtivas. Nesse sentido, os principais elementos específicos do maoísmo, em relação à sua matriz leninista, são os seguintes: a) voluntarismo exacerbado; b) estrategismo; c) doutrinarismo e dogmatismo; e) papel do campesinato no processo revolucionário; f) interpretação específica da dialética como “lei da contradição”[13]. Ou seja, ao término observamos que o que muitos julgam o fundamental ou mais original no maoísmo é apenas um derivado e ainda dentro de um determinado contexto, que é o da sociedade chinesa e os demais sendo mais importantes, anteriores e determinantes dessa posição diante do campesinato.  

Do Maoísmo Original às Tendências Maoístas

O desenvolvimento histórico do maoísmo precisa ser abordado, mesmo que brevemente. O maoísmo pode ser dividido em sua formação original, cujo expoente máximo e principal doutrinador é Mao Tse-Tung, e as tendências maoístas que surgem a partir dessa versão inicial. O maoísmo original, no entanto, atravessou duas fases, o que é importante para entender as tendências maoístas. O maoísmo original emerge do leninismo, sem grandes distinções, até que Mao começa a desenvolver suas próprias concepções de acordo com suas experiências de luta armada na China. A partir do modelo exemplar da guerra, Mao cria uma sinonímia entre guerra/política; direção militar/direção partidária; partido/exército; povo/base, etc. Diante da situação chinesa, Mao elabora uma concepção na qual o campesinato tem um papel fundamental e coloca no partido o papel-chave de dirigir a revolução popular, inicialmente democrático-burguesa para instaurar a “nova democracia”[14].

É possível observar algumas mudanças no maoísmo, que acompanham a história da China desse período, mas que são “estratégicas”, seguindo as diretrizes maoístas de “defesa estratégica”, alianças e rompimentos, etc. No entanto, a doutrina não se altera, apenas é aplicada de forma diferente em contextos diferentes, como está em seus próprios pressupostos. Essa concepção começa a ser formada em 1927 e vai se desenvolvendo e consolidando até os anos 1940. Ela se mantém e se desenvolve a partir da tomada do poder estatal em 1949, quando começa a implantação do capitalismo estatal na China. No início, o modelo russo é seguido, mas logo começa a ver divergências e problemas. A denúncia dos crimes de Stálin, os conflitos internos (campesinato e burguesia burocrática, por exemplo, bem como as lutas interburocráticas), vão desembocar no conflito sino-soviético e no “Grande Salto Adiante”, buscando redirecionar a política chinesa, gerando uma forma específica de capitalismo estatal.

A partir desse momento, Mao começa a escrever alguns textos de crítica da economia soviética (MAO, 1982), no contexto de tentativa de redirecionamento da sociedade chinesa abandonando a proximidade com o modelo russo (e a “acumulação socialista primitiva às expensas do campesinato”) e do conflito sino-soviético. O foco principal da crítica de Mao é a questão das relações de produção, pois a ênfase dos russos no desenvolvimento das forças produtivas era refutada por considerar a primeira o determinante. Da mesma forma, Mao acusa Stálin (MAO, 1982) de não abordar a superestrutura em seu livro sobre o socialismo na URSS (STÁLIN, 1985). Alguns atribuem a Mao uma retomada do pensamento de Marx para realizar tal processo de crítica do economicismo (NAVES, 2005), o que é um equívoco, pois as poucas referências dele ao pensador alemão e o pouco que desenvolve em termos analíticos (demonstrando estar muito distante do materialismo histórico-dialético) revelam isso. No entanto, é mais uma manifestação do seu voluntarismo, pois, segundo sua abordagem voluntarista, as relações de produção, são ações humanas, e as forças produtivas, são condições objetivas, mas que não definem o futuro da economia, assim como as armas não definem o resultado da guerra. Nesse contexto, as referências elogiosas a Stálin são substituídas por críticas:
Em nenhuma parte do livro de Stálin se diz nada acerca da superestrutura. O livro não se ocupa de gente; considera as coisas, não as pessoas. A classe do sistema de abastecimento de bens de consumo ajuda ou não a estimular o desenvolvimento econômico? Stálin devia ter se ocupado disso, pelo menos. É preferível ter ou não uma produção de bens? Todos devem estudar isso. O ponto de vista expresso por Stálin em sua última carta está quase que totalmente errado. O erro básico é a desconfiança em relação aos camponeses (MAO, 1982, p. 129).
Essa nova fase do maoísmo original aponta para uma concepção crítica da União Soviética e aprofundamento de suas concepções sobre economia e “transição”. Afinal, Mao estava na direção de um país que estava em “transição para o socialismo” e suas preocupações se voltaram para o perigo da “restauração capitalista” e outros relacionados[15], bem como em relação à política internacional (na qual a China vai se envolver em conflitos externos, além do rompimento com a URSS). Assim, além do trotskismo, emerge uma nova dissidência no interior do leninismo, o maoísmo.

Esse processo, no entanto, culmina com a chamada “revolução cultural”. A revolução cultural (muito mais uma “reforma moral”) foi resultado de um processo de crescente descontentamento das classes trabalhadoras na China e das contradições da burguesia burocrática a nível internacional (além do conflito sino-soviético, as mudanças na política russa e chinesa, bem como a questão da Hungria, Tchecoslováquia, etc.) e nacional, com o ziguezague dos capitalistas estatais chineses. Isso também mantinha relação com os problemas industriais e agrícolas dos anos anteriores (BERGÈRE, 1980). Diante disso, setores da burguesia burocrática chinesa entram em confronto para decidir os rumos e resolver os conflitos. Mao, como estrategista político-militar, lança apelo para as “massas”, para reforçar suas posições, que no interior da classe dominante não era tão sólida e hegemônica.

A política das “cem flores”[16] e o “movimento de educação socialista” era expressão desse duplo processo de descontentamento crescente nas classes trabalhadoras e luta pelo poder mais aguda no interior da classe dominante. Mao, no entanto, para manter ou recuperar o poder, sempre lançava mão das classes trabalhadoras, pois esta era sua estratégia político-militar desde a guerra nacional até a guerra civil e a Revolução Chinesa. Logo, ao contrário do que historiadores e outros dizem, acreditando no discurso de Mao, a sua preocupação fundamental não era com a possibilidade da “recuperação do capitalismo” na China e nem com a “transição ao socialismo” e sim as lutas interburocráticas e ascensão ou manutenção do poder, dependendo da época. Tanto é verdade que todas as vezes que Mao lançava apelo aos trabalhadores e estes, entre outros (juventude, intelectuais, etc.) agiam, começavam a se agitar e ir além do mero apoio e agir fora dos limites impostos, ele voltava atrás[17]. Foi assim com a política das “cem flores” e o mesmo com a “reforma moral” posterior.

A chamada “revolução cultural” seguiu a mesma lógica. O processo iniciou-se com lutas interburocráticas e logo Mao usa sua velha estratégia de apelar para as classes trabalhadoras ao propor uma reforma moral[18]. É nesse contexto que se estabelece uma nova luta interburocrática entre a burguesia burocrática predominante e seus oponentes, entre os que detinham o poder central e os que estavam em segundo plano na hierarquia burocrática, ou seja, entre a burguesia burocrática superior e a inferior. Essa luta foi traduzida ideologicamente como luta dos maoístas (na época, burocracia inferior) contra os revisionistas (na época, burocracia superior), o que um autor denominou, equivocadamente, como disputa entre a “elite funcional” e a “elite militante” (AUDREY, 1976). A luta dos maoístas acaba gerando a Circular de 16 de Maio e revela os seus objetivos: combater a burguesia burocrática superior através da reforma moral realizada pelas “massas” em apoio aos maoístas, taxando-a de “revisionista” e adepta da “via capitalista”, criar uma base de apoio popular para a tendência maoísta e, por fim, impor a concepção e direção maoísta para a população. Ou seja, no fundo, não havia nenhum questionamento real sobre as relações de produção, sobre a burocracia (e sobre os próprios maoístas como setor burocrático inferiorizado na hierarquia que passava, novamente, a ser um setor superior)[19].

Os 16 pontos mostram a aparente contradição do maoísmo: apelo para a participação popular e liberdade de crítica e exigência de seguir a doutrina maoísta. No segundo ponto é colocado que as amplas massas (soldados, intelectuais, operários, camponeses, jovens, quadros revolucionários) são a força principal da Reforma moral e que, através de “grandes debates”, críticas, etc., surgem novos caminhos. Da mesma forma, no ponto 06, coloca que “todos os revolucionários devem saber refletir por sua própria conta e desenvolver o espírito comunista de pensar com audácia, falar com audácia e atuar com audácia”. No último ponto, temos a conclusão final de tamanha liberdade proporcionada pela Reforma moral:
Na grande revolução cultural proletária é indispensável manter no alto a grande bandeira vermelha do pensamento de Mao Tse-Tung e por no posto de mando a política proletária. O movimento para o estudo e aplicação criadores das obras do presidente Mao deve ser impulsionado para frente, entre as amplas massas de operários, camponeses, soldados, quadros e intelectuais, e deve-se tomar o pensamento de Mao Tse-Tung como guia para a ação na revolução cultural. Nesta grande Revolução cultural tão complexa, os comitês do Partido em todos os níveis possuem a maior necessidade de estudar e aplicar conscientemente e criativamente os escritos do presidente Mao. Em particular, devem estudar repetidamente as obras do presidente Mao referentes à Revolução cultural e aos métodos de direção do Partido, tais como Sobre a Nova Democracia, Intervenções nos Colóquios de Yenan sobre Literatura e Arte; Sobre o Tratamento Correto das Contradições no Seio do Povo; Discurso diante da Conferência Nacional do Partido Comunista Chinês sobre o Trabalho de Propaganda; Acerca de alguns Problemas de Método de Direção e Métodos de Trabalho dos Comitês do Partido. Os comitês do Partido em todos os níveis devem seguir as diretrizes dadas pelo presidente Mao ao longo dos anos, aplicar cabalmente a linha “das massas às massas” e ser alunos antes de converter-se em mestres. Devem esforçar-se para evitar a unilateralidade e estreiteza de visão. Devem promover a dialética materialista e opor-se à metafísica e ao escolasticismo (Apud. DAUBIER, 1977, p. 413-414)[20].
A aparente contradição se desfaz. Liberdade de crítica, iniciativa, etc., sim, mas desde que seja maoísta (...). Os 16 pontos se revelam, no fundo, uma tentativa de reforçar e reafirmar a hegemonia maoísta contra os “revisionistas”. As classes trabalhadoras são apenas bucha de canhão e são livres desde que sejam maoístas. Se saírem da linha maoísta e forem para a “linha capitalista” (revisionista), estarão erradas e fora da reforma moral. No entanto, isso se torna ainda mais grave se a saída não for pela direita (revisionistas) e sim pela esquerda (proletariado) e foi isso que aconteceu. As lutas interburocráticas se tornam mais acirradas, bem como a ação das classes trabalhadoras ficam mais intensas, até gerar setores mais radicais, que culmina com a chamada Comuna de Xangai. Essa reproduzia a ideia da Comuna de Paris do autogoverno dos produtores e tinha expressão política e intelectual em outros setores da sociedade, bem como a tendência, que se iniciou, de expansão do movimento grevista e acirramento da luta de classes[21].
A reação de Mao mostra a verdadeira essência do maoísmo, uma ideologia da burocracia. Certamente, em seu pensamento, de acordo com sua dialética, ele entendia que havia uma “contradição principal” no interior da burguesia burocrática e uma “contradição secundária” entre esta e os trabalhadores. A sua estratégia, como sempre, foi vencer os adversários na luta interburocrática com o apoio das “massas”. Contudo, essas últimas saíram do seu controle e, ainda segundo terminologia maoísta, a contradição secundária se tornou principal e vice-versa, daí a posição burocrática de Mao.

Proclamada em 5 de fevereiro de 1967, a Comuna de Xangai sobreviveu apenas até o dia 24 de fevereiro, quando foi substituída por um Comitê Revolucionário. Não foi uma simples mudança de nome e sim um recuo político e cultural de importância decisiva. Determinada por Mao e pela direção maoísta, essa mudança revelou os limites da reforma moral e do próprio maoísmo. Na justificativa que Mao apresentou para a sua atitude, além de razões secundárias ou pouco relevantes, como alguns comentaristas perceberam, aparece a razão de fundo: “se o sistema de Comunas se generalizasse”, pergunta Mao, “o que seria do Partido?; não haveria mais um núcleo dirigente?; isso não acarretaria uma mudança no sistema político?” (NAVES, 2005, p. 90)[22].

A preocupação de Mao não é realizar o comunismo, a autogestão generalizada, que é vista por ele como ameaça, e sim lutar contra seus adversários pelo poder, e se o proletariado ameaça o poder, se torna adversário. Essa ação de Mao revelou, mais uma vez, o seu caráter. O seu apelo às forças armadas para retomar a ordem foi o último ato de sua peça teatral pseudocomunista. Em breve ele seria, novamente, alijado do poder. Esse foi o triste fim de Mao Tse-Tung. Pouco depois sua vida termina, em 1976, novamente na situação de membro da burocracia inferior.

Esse foi o fim do maoísmo original. A partir dele emergiram diversas tendências. A primeira é o maoísmo no interior da China, na qual Mao ganhou notoriedade, liderança e culto à autoridade. Os adversários de Mao, por oportunismo, também se diziam “maoístas” e representantes dessa tendência, pois o culto à autoridade e hegemonia cultural dele era evidente[23]. No entanto, havia os seguidores verdadeiros de Mao, que revezavam, junto com ele, como setor superior e inferior da burguesia burocrática chinesa. Porém, fora da China emergiram outras tendências no interior do maoísmo.

O maoísmo, mesmo fora do mundo asfixiante da sociedade chinesa, não conseguiu superar o doutrinarismo e dogmatismo. A base social do maoísmo nos demais países é composta geralmente por burocratas (principalmente pequenas burocracias partidárias), camponeses e estudantes, bem como alguns poucos intelectuais. Um grupo de partidos maoístas se aglutina no Movimento Revolucionário Internacionalista, tais como o Partido Comunista do Peru (Sendero Luminoso), Partido Comunista do Nepal, Partido Comunista Revolucionário (EUA), Partido Comunista da Índia, entre alguns outros. Alguns pequenos grupos também existem em outros países.

O maoísmo não conseguiu inspirar muitos intelectuais e ficou geralmente restrito a grupos e partidos, com pouco desenvolvimento das concepções e processo de maior sistematização intelectual. Samir Amin e Charles Bettelheim são alguns poucos exemplos. No entanto, Samir Amin se dedica mais ao estudo do imperialismo e apesar de alguns aspectos interessantes, acaba deixando a desejar e no âmbito da análise política (e concepção de socialismo) apenas reproduz o maoísmo[24].

Charles Bettelheim, por sua vez, dedicou a maior parte de suas pesquisas ao chamado “socialismo real” (1977; 1972; 1971; 1969; 1979; 1976), que em suas primeiras obras ele denominava “países socialistas” e posteriormente passa a defini-los como capitalismo de Estado. Em sua grande obra, A Luta de Classes na URSS (BETTELHEIM, 1983), apresenta de forma mais acabada sua concepção do capitalismo estatal[25]. Porém, esta obra, apesar de rica em informações e bastante útil para analisar o caso do capitalismo estatal russo, apresenta diversos defeitos, oriundos de sua matriz ideológica, o maoísmo, a começar por enfatizar a questão camponesa como a chave explicativa da “restauração capitalista”[26].

A ascensão do estruturalismo na França permitiu alguns intelectuais franceses se aproximar do maoísmo e o Maio de 1968 e o ativismo maoísta gerou alguns ideólogos e estudantes ligados ao mesmo. Porém, o maoísmo não é exatamente uma “ideologia”, por não ser um sistema de pensamento, sendo mais uma doutrina. Podemos considerar o maoísmo uma ideologia por sua base no bolchevismo. Apesar de Lênin também não ser um grande pensador, sendo como Mao um político burocrata muito mais do que um intelectual (que de forma risível é “modelo” de “pensador” para muitos “militantes”), ele não só se baseou numa deformação do pensamento de Marx, simplificando-o, mas realizando relações e tentando criar um sistema de pensamento, como também conseguiu aglutinar outros ideólogos que melhoraram e deram mais consistência e quantidade para suas produções ideológicas. O leninismo, apesar de suas debilidades e falta de maior sistematicidade, pode ser considerado uma ideologia, agora o maoísmo só pode assim ser considerado se reunido com sua matriz ideológica.

É por isso que o maoísmo é pouco influente junto aos intelectuais e no capitalismo mais desenvolvido, com raras exceções como a acima citada. No capitalismo subordinado, não só por sua simplicidade e doutrinarismo semirreligioso, ele consegue adeptos entre camponeses e burocratas de pequenas organizações burocráticas, como parte da juventude com vontade de ativismo, que o seu voluntarismo justifica, e débil formação intelectual. É isso também que explica a existência de um maoísmo-stalinista, que é aquele que desconhece as críticas de Mao a Stálin, pois, seja por falta de leitura ou por interesses determinados, prefere as citações de Mao de seu período pró-stalinista. Por outro lado, um maoísmo mais à esquerda também emerge a partir do Maio de 1968, mas que não conseguiu superar a matriz bolchevista e, por conseguinte, seu caráter burocrático, por mais que tenha avançado em certas análises[27].

Considerações Finais

Os setores mais atraídos pelo maoísmo são geralmente os dos países mais pobres, com uma população camponesa e tradição cultural persistente, situação na qual se reúne pouco desenvolvimento das formas de pensamento complexo (ciência, filosofia, marxismo, etc.) aliado com fortes necessidades sociais, situação na qual o doutrinarismo e dogmatismo podem florescer as flores de Mao. Outro setor é parte da juventude, atraída principalmente pelo forte voluntarismo e doutrinarismo, devido ao ativismo que é típico de jovens apressados querendo uma mudança imediata e pensando que uma vontade de bronze é suficiente para isso, aliado com pouco estudo e reflexão, ou seja, falta de formação teórica.

O maoísmo facilita esse processo por suas características próprias, como o doutrinarismo, dogmatismo e voluntarismo. Ele se torna força de atração para líderes e jovens que querem ardentemente tomar o poder ou ter um “papel” na história[28] e geralmente se recusam a pesquisas profundas. Como todo voluntarismo, ele não nega apenas o “economicismo”, mas também a teoria[29]. O voluntarismo e o doutrinarismo são dois elementos atrativos e que conseguem aglutinar os setores mais débeis da militância política que encarna uma certa insatisfação com a sociedade capitalista e desejo de ativismo.

Algumas obras de Mao são fundamentais para entender esse papel do voluntarismo[30] e pode ser exemplificado em Como Yukong Removeu as Montanhas (MAO, 1979d, p. 432-433), que narra a fábula que mostra como a vontade de um velho chinês que queria remover uma montanha que impedia a sua passagem, usando picaretas com seus dois filhos tenta removê-la, o que provoca riso de outro velho chinês, mas ele refuta o pessimismo deste e continua com sua empreitada. A refutação é realizada com o argumento de que a montanha não iria crescer e ele continuaria seu trabalho e quando morresse seus filhos o faria e depois seus netos. Isso teria, segundo a fábula contada por Mao, comovido os céus que mandou dois anjos remover a montanha.

O mesmo ocorre com outras doutrinas voluntaristas, que, tal como o maoísmo, fundamentam-se na eterna autorreferência de sua doutrina ou tradição política. Nesse sentido, o maoísmo é uma concepção de mundo totalmente distinta do marxismo, possuindo um caráter semirreligioso. DUNAYEVSKAYA percebeu isso:
A alternativa que Mao oferece é o intento de reconciliar todas as contradições, tanto na produção como no pensamento, mediante um fetiche, o “Livrinho vermelho” – o “Pensamento de Mao Tse-Tung”. Mais ainda: este não inclui nenhuma das circunstâncias históricas que determinaram a expressão de qualquer um desses “pensamentos”. Em troca, ele é convertido em um princípio regulador, aprendido como um catecismo, aplicável a todo e a qualquer coisa. O inconveniente desse método não está só na natureza antidialética dos catecismos. O problema é a contradição absoluta entre as três “revoluções” especificadas – “ideologia e cultura”, “ciência” e “promover a produção”. O que não tocou o “nervo” das massas, o que motivou sua rebelião, e que suscitará sua permanente oposição, é a ideia de “promover a produção”, algo que durante muito tempo padeceram na forma de exploração de classe. Não lhes importa, absolutamente, que, como antes, esta questão se encontre ao cuidado do partido ou do exército, ou da “tríplice aliança” – o exército, o Partido Comunista e os “comitês revolucionários”, sempre encabeçados por Mao, aliados ou divididos, de acordo com a sorte dos herdeiros designados (DUNAYEVSKAYA, 1989, p.188).
Assim, Mao, transformado em “deidade fetichizada” (DUNAYEVSKAYA, 1989), é apresentado como a fonte do comunismo e da prática comunista. De onde surgem as ideias maoístas? O que comprova seu caráter tão importante e irrefutável? Mao disse, está dito? A gênese das ideias maoístas remete à sociedade chinesa de sua época e ao indivíduo Mao inserido na mesma. A sociedade chinesa era predominantemente camponesa e, por isso, Mao percebeu sua importância política não para uma revolução proletária, que nunca ocorreu na China, e sim para uma revolução burguesa sem burguesia, tal como ocorreu na Rússia, outro país predominantemente camponês. O campesinato foi usado para alavancar a revolução burguesa num país em transição para o capitalismo e que convivia com os restos do modo de produção despótico. O maoísmo é, portanto, produto dessa sociedade. E do indivíduo Mao, que expressou isso de uma forma particular, de acordo com seu voluntarismo e estrategismo, no sentido de garantir a vitória do Exército Vermelho e do Partido Comunista, os agentes concretos da instauração do capitalismo estatal na China.

E Mao desenvolveu tais ideias no seu processo de formação e experiência, no exército e partido, pensando como um burocrata. Um burocrata num país agrário que precisava de modernização e sonhava com um “socialismo” que nem sequer compreendia o significado. Mao não leu quase nada de Marx, muito menos sob forma rigorosa, e, portanto, não tinha grande domínio do materialismo histórico-dialético, da teoria do capitalismo, da teoria da revolução proletária. Da mesma forma, sua consciência da história se resumia a história das guerras, da China e as duas “revoluções” que ele detinha certa informação foram as contrarrevoluções burocráticas na Rússia e China.

Também pouco conhecia de outros marxistas e até mesmo pseudomarxistas. As únicas leituras, que se deduz por suas obras e textos nas quais cita textualmente os autores, são as de Lênin e Stálin, o primeiro um ideólogo da burocracia muito limitado e o segundo ainda mais. Se o primeiro deformou e simplificou o pensamento de Marx, o segundo elevou isso ao máximo possível. Logo, um leitor de Lênin e Stálin, numa sociedade predominantemente agrária, conseguiu produzir o pensamento guia do futuro da humanidade. Resta saber como o leitor, certamente não muito profundo, de dois autores limitados pode produzir algo tão grandioso[31].

Uma comparação entre Marx e Mao é mais do que esclarecedora, apesar de apenas nesse sentido. Marx era um erudito, leitor de pensadores diversos, com amplo saber da filosofia (especialmente a alemã), da economia política (especialmente a inglesa), do pensamento socialista de sua época (especialmente o francês), de historiografia e antropologia em surgimento, bem como estudos de ciências naturais. Nesse sentido, Marx compreendia profundamente diversas concepções que tinha proximidade e que discordava, possibilitando compreender diversas formas de pensamento, métodos, ideologias, etc. Mao, por sua vez, só conhecia o pensamento chinês, de forma não muito profunda, e dos seus inspiradores (Lênin e Stálin) e partidários e adversários (todos supostamente “maoístas”) e um pouco de cultura geral, cujo alcance e qualidade deveriam ser restritos. O curioso é que Marx seria a fonte inicial e Lênin e Stálin continuadores, mas, na China e para os maoístas em geral, Mao, que era intelectualmente inferior aos demais, se tornou a leitura fundamental e suficiente, acima dos anteriores.

Mao certamente nunca ouviu falar de Pannekoek, Korsch, Bloch e outros marxistas. Também pouco conhecia da produção ideológica burguesa de outros países, que, mesmo com seus limites, ajudam a perceber que existem formas diferentes de pensamento e permite brotar a dúvida, que mesmo os mais convictos pensadores sempre possuem, pois somente um saber petrificado e inquestionável, um dogma, não gera dúvidas. Certamente nunca leu um livro de sociologia, antropologia, teoria da história, etc. A formação intelectual de Mao foi extremamente limitada e as condições sociais em que a produziu, sendo muito mais um burocrata (militar e partidário, depois estatal), com pouco tempo para as pesquisas e reflexões necessárias para ampliar o seu saber e contribuir com a revolução teórica que é o marxismo.

E nesse contexto que se percebe o voluntarismo aliado ao dogmatismo e doutrinarismo, a “vontade de ferro” gerando uma suposta superioridade intelectual imposta como dogma e doutrinamento, o que recorda o vínculo com as crenças religiosas. É por isso que um certo maoísmo contemporâneo, totalmente deslocado da realidade concreta e reprodutor acrítico e descontextualizado de Mao, “o profeta do novo e puro comunismo chinês” (MACGREGOR-HASTIE, 1968), é uma concepção semirreligiosa e fundamenta mais na fé, o que se pode ver no fanatismo de alguns militantes. A “deidade fetichizada” (DUNAYEVSKAYA, 1989) não é gratuita, bem como a relação que alguns estabeleceram com o confucionismo (GARAUDY, 1968; MATZKEN, 1979), a religião e a teologia da libertação (MATZKEN, 1979) ou quando lhe atribui um “idealismo mágico” em contraposição ao materialismo histórico (GARAUDY, 1968). No fundo, o maoísmo é uma doutrina não-religiosa que possui uma semelhança estrutural com o pensamento religioso, especialmente sua manifestação messiânica e que, em algumas de suas manifestações, acaba se tornando semirreligioso. Mao aparece como o messias e o salvador dos camponeses e oprimidos, mas, ao mesmo tempo, carrega o que de pior acontece com a religião, gera dogmatismo e burocratização, nascendo no partido, depois no exército e no Estado. Logo, a pobreza gera uma vontade enorme de transformação social e necessidade de esperança e também os messias, religiosos ou seculares, tal como aconteceu na China e fez emergir o maoísmo e especialmente algumas de suas manifestações.

Curiosamente, apesar de estarmos em pleno século 21, ainda existem focos de maoísmo. Nos países de capitalismo subordinado mais atrasados e ainda com grande população rural e pobreza, é algo compreensível, tal como Peru, Nepal, etc. No entanto, no capitalismo imperialista e nos países de capitalismo subordinado mais modernizados, onde ocorreu a modernização de sua pobreza e miséria, é algo de difícil compreensão. As contradições da sociedade capitalista e as novas formas de miséria (política, cultural, psíquica, sexual, etc.) são fontes para o reaparecimento do maoísmo, especialmente nos meios juvenis e estudantis, tanto por causa dessa miséria aliada quanto graças ao voluntarismo e desejo de transformação social. A miséria gera mais miséria e, assim, a nova forma de miséria gerada pelo capitalismo contemporâneo que atinge a juventude gera sua miséria política chamada maoísmo.

Referências

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[1] Na verdade, tratava-se do modo de produção despótico (também chamado “asiático” ou “tributário”), mas de acordo com a vulgata stalinista também reproduzida por Mao Tsé-Tung, as relações de produção anteriores e em processo de extinção seriam “feudais”.
[2] “A tarefa central e a forma suprema da revolução é a conquista do poder político pelas armas, é a solução desse problema pela guerra. Esse princípio revolucionário do Marxismo-Leninismo é válido universalmente, tanto na China como em todos os outros países” (MAO, 2011b, p. 357).
[3] O conceito de latifundiário, aqui, é, obviamente, distinto da leninista e maoísta, por um lado, e da terminologia geralmente usada no Brasil, na maioria das vezes pelas representações cotidianas. Na terminologia leninista-maoísta, a família de Mao seria de “camponeses médios” e na terminologia em voga no Brasil, “minifundiário” ou “camponês”. Contudo, seguindo a concepção marxista das classes sociais, camponês é o pequeno proprietário familiar/parcelar, o que não era o caso da família de Mao, já que possuía diversos trabalhadores rurais empregados (a ponto de Mao falar em “luta de classes” em sua família e contando com a participação destes...). A concepção leninista de camponês pobre, médio e rico é derivada de sua concepção ideológica e economicista das classes sociais, pois os distingue por nível de renda. A classe latifundiária, em nossa definição, é aquela que é proprietária de terra, grande ou pequena, que vive da exploração de trabalhadores rurais ou de arrendamento.
[4] Mao sempre ocupou cargos burocráticos na China e, na maioria das vezes como Presidente. Ele inclusive, em certos momentos, acumulava cargos na alta hierarquia burocrática no partido, exército e governo: “O Conselho Consultivo e seu Comitê permanente exerciam o poder legislativo, sendo o executivo atribuído ao Conselho Central do governo popular, cujo presidente é Mao Tsé-Tung, igualmente presidente do Conselho Militar Revolucionário. É o Partido Comunista, no entanto, o órgão que exerce o poder real, sendo o seu núcleo, a Comissão permanente do Bureau Político, composta, entre outros, de Mao (também presidente do Partido), Liu Shaoqi e Zhou Enlai” (NAVES, 2005, p. 48-50).
[5] Um exemplo entre milhares: “Marx, Engels, Lênin e Stálin ensinam-nos que há que partir da realidade objetiva e extrair daí as leis que nos guiarão na ação” (MAO, 1979b, p. 7). Ele nem desconfiava que isso nada tinha a ver com a teoria de Marx (...). Essas citações, no entanto, podem ter sido acrescentadas pelos “editores” chineses de suas obras, intelectuais responsáveis por isso (SPENCE, 2003).
[6] Como diz um detrator bolchevista russo, nesse caso com razão: “É pouco provável que ele tenha alguma vez estudado seriamente as obras de K. Marx” (BURLATSKI, 1974, p. 9). Na verdade, ele leu algumas seções do Manifesto Comunista (NAVES, 2005; SPENCE, 2003) que estava sendo traduzido para chinês em sua juventude, e não a obra inteira, como afirma Deutscher (1968). Mao posteriormente, quando efetiva a crítica a Stálin e ao stalinismo, parece que leu algumas obras de Marx e Engels, caso não tenha sido os editores chineses ou mera reprodução das citações das obras analisadas, embora não cite título de nenhuma obra e quando vai exemplificar afirma que não se pode limitar a obra destes e cita alguns títulos de Lênin e Stálin (MAO, 1982).
[7] Matzken coloca uma terceira tendência que teria influência no pensamento de Mao: o evolucionismo. Isso, no entanto, não parece ter bases sólidas para sua defesa e por isso descartamos tal tese.
[8] “Os adeptos mais fieis de Mao Tsé-Tung, Chen Po Ta, por exemplo, atribuem-lhe o mérito de ter ‘sinizado’ o marxismo. Deve dizer-se a este propósito que a noção de ‘sinização’ corresponde inteiramente ao espírito das tradições históricas de um país que sempre quis manejar para seu entendimento as teorias vindas exterior” (BURLATSKI, 1974, p. 10). Tanto partidários quanto adversários de Mao apontava para a percepção de que o maoísmo era uma manifestação específica do leninismo devido à própria especificidade da sociedade chinesa: “a supremacia do elemento pequeno-burguês na sociedade chinesa oferecia um favorável meio social capaz de desenvolver amplamente no PCC o egoísmo e a estreiteza nacional” (KÓRSBASH, 1975, p. 5). Claro que tanto Burlatski quanto Kórsbash apenas realizam uma luta cultural interburocrática representando o capitalismo estatal russo contra o capitalismo de Estado chinês, mas isso os fez perceber aspectos importantes da diferenciação entre o leninismo e o maoísmo, retirado a linguagem equivocada de ambos. O historiador trotskista Isaac Deutscher, como não poderia deixar de ser, também reconhece o seu distanciamento do marxismo, devido sua “relativa estreiteza de horizontes” e “falta de qualquer contato direto com as evoluções críticas do marxismo contemporâneo” (DEUTSCHER, 1968, p. 110).
[9] Para uma análise do dogmatismo e doutrinarismo de Mao, no que se refere à dialética, confira: Viana, 2007. Nesse texto são demonstradas as estratégias discursivas de Mao, incluindo o normativismo de suas afirmações, entre as quais o uso da palavra “devemos”. Um elemento que facilita esse doutrinarismo é a ideia de “lei”, tal como se observa na citação acima.
[10] Obviamente que tal acusação vem de outros setores da burocracia, tal como os stalinistas-hoxhaistas, pró-albaneses, e russos durante o conflito sino-soviético (e depois por alguns outros). Não se trata de nenhuma análise profunda do maoísmo e apenas reproduz o velho jogo da burocracia de se esconder em seu embate com seus semelhantes, escondendo também o outro.
[11] Mao recorda uma carta do Comitê da Frente à direção partidária para explicar sua tática, ressaltando que ela difere que qualquer outra, tanto em relação às adotadas nos tempos antigos quanto as dos tempos modernos, seja na China ou no exterior. Ele coloca que essa tática (na tradução citada está no plural, mas consideramos o mais correto no singular) é a de guerrilhas e consistem essencialmente em: a) dispersar as tropas entre as massas para despertá-las, concentrar as tropas para combater o inimigo; b) Recuar quando o inimigo avança, avançar quando o inimigo recua, atacar quando o inimigo cansa, perseguir quando ele foge; c) para estabelecer bases de apoio, adota a tática de avançar numa série de ondas e quando for perseguido por um inimigo forte, fazer um movimento circular sem se afastar da base; d) despertar as massas em maior quantidade possível e utilizando os melhores métodos. Essa tática seria semelhante à de um pescador, que lança a rede para ganhar o apoio das massas e a puxa para lidar com os inimigos (MAO, 1961b, p. 117).
[12] “A tarefa principal do partido do proletariado chinês, tarefa a que foi obrigado a fazer face quase desde o começo da sua existência, tem sido a de unir-se ao maior número possível de aliados e, de acordo com as circunstâncias, organizar lutas armadas para a libertação nacional e social, dirigidas contra a contrarrevolução armada do interior ou exterior. Sem luta armada não haveria lugar na China para o proletariado e para o Partido Comunista e seria impossível cumprir-se qualquer tarefa revolucionária” (MAO, 2011b, p. 362).
[13] O estrategismo de Mao desemboca num oportunismo e esse se reproduz em sua concepção de dialética. A “lei da contradição”, segundo ele (MAO, 1979c) está em tudo, mas existem contradições antagônicas e não-antagônicas, principais e secundárias, aspectos principais da mesma, etc., e podem se alterar (...). No fundo, a dialética de Mao é uma adequação de sua estratégia militar e uma justificativa e legitimação da mesma, pois faz parte das leis da história e da natureza (VIANA, 2007). Os diversos problemas dessa concepção de dialética já foram abordados em outro lugar (VIANA, 2007) e por questão de espaço não entraremos nessa discussão no presente texto.
[14] Tal “democracia” é tão “nova” quanto o título de um certo jornal maoísta atual no Brasil...
[15] Obviamente que esse é o discurso maoísta e não a realidade concreta. A preocupação de Mao era a luta interburocrática no interior da China, por um lado, e a acumulação capitalista e disputa interimperialista com a URSS. O discurso da “restauração capitalista” é apenas uma estratégia para criar um inimigo impopular e contrário aos interesses da maioria (burocracia chinesa contrária a Mao e burocracia russa), para ganhar adeptos (burocratas aliados) e apoio das “massas”.
[16] “Mas os efeitos da desestalinização também chegou à China, fazendo com que Mao Tse-Tung anunciasse a políticas das cem flores. Promete aos intelectuais melhores condições de trabalho e deplora o sectarismo da maioria dos quadros e militantes contra eles. A Campanha deveria representar uma experiência de liberdade, na expressão e na crítica, até então desconhecida” (SCHILLING, 1984, p. 68); “A política de ‘Que cem flores desabrochem’ e ‘Que cem escolas rivalizem’ é a política para estimular o progresso da arte e da ciência e o florescimento da cultura socialista em nosso país” (MAO, 2012, p. 487). Esse documento mostra a dicotomia proposital de Mao, que ao mesmo tempo em que fazia esse discurso, colocava a necessidade do leninismo como escola de pensamento e combate aos “contrarrevolucionários”, ou seja, a ideia é todos podem discordar e discutir, desde que no interior da concepção maoísta.
[17] Após lançar a política das “Cem Flores”, Mao voltou atrás quando a reação ameaçava sair do controle: “Os resultados foram surpreendentes. Uma onda de protestos varreu o país. Ressentimentos de toda ordem afloraram numa intensidade inesperada e Mao Tse-Tung, que espera apenas críticas construtivas, teve que deparar-se não apenas com reclamos contra os quadros do partido comunista chinês, como também contra o seu princípio do monopólio político” (SCHILLING, 1984, p. 69); “No mesmo mês, Mao Tse-Tung anuncia o fim da política de tolerância e passa a conclamar todos os Partidos Comunistas a lutarem contra o revisionismo” (SCHILLING, 1984, p. 69).
[18] O termo “revolução cultural” é totalmente equivocado, pois a hegemonia cultural permaneceu a mesma com suas ideologias, doutrinas, etc. O que ocorreu foi um uso de ideias dominantes, algumas não praticadas concretamente (ligadas ao socialismo, de acordo com a ideologia dominante supostamente existia na China), para moralizar a burocracia, marcada pelo combate à corrupção, privilégios, etc. Ou seja, não houve nenhuma “revolução”, já que apenas se enfatizou e desenvolveu alguns elementos já existentes, bem como não teve a amplitude que o termo cultura traz (como conjunto das produções intelectuais), sendo apenas uma mudança no âmbito da moral.
[19] Sobre isso, cf. “Circular de 16 de Maio ou as lutas interburocráticas por detrás da Reforma Moral Chinesa”, disponível em: http://informecritica.blogspot.com.br/2015/02/circular-de-16-de-maio-ou-as-lutas.html
[20] Não deixa de ser curioso como alguns autores omitem essa passagem, que é a última e conclusiva, bem como a que revela a real posição do documento, seja quem resume (NAVES, 2005) ou quem cita parte do documento (SCHILLING, 1984).
[21] Sobre a Comuna de Xangai dedicaremos um artigo exclusivo em outra oportunidade e uma exposição mais detalhada pode ser vista em: Robinson, 1969.
[22] Diversos pseudomarxistas enxergaram nessa atitude de Mao, como sempre nesses casos, como sendo produto de “equívocos”, falta de compreensão, etc. Nessa ficção pseudomarxista, que jamais pode admitir o caráter de classe do bolchevismo em todas as suas variantes, o problema é apenas de consciência dos líderes, equivocada ou desvio dela (revisionismo) e não a perspectiva de classe burocrática que eles são portadores e revelam cotidianamente. Para uma efetiva revolução proletária na China, seria necessária a abolição do Estado e do capital, da burguesia burocrática que lhe sustentava, o que significa a superação tanto do revisionismo quanto do maoísmo.
[23] “É uma característica primordial da vida política chinesa que os adversários de Mao Tse-Tung se precaverem frequentemente de afirmar a si mesmos dessa forma e, pelo contrário, se declaram seus adeptos e adotam geralmente suas bandeiras, ainda que o façam para modificar os objetivos e desnaturalizar seu conteúdo” (DAUBIER, 1977, p. 98-99).
[24] Sua concepção maoísta, e, por conseguinte, burocrática, é visível em sua crítica à autogestão: “a autogestão é um projeto social complexo, que não conseguiríamos reduzir a uma de suas características. O projeto tem, com certeza, um aspecto democrático essencial; e foi, aliás, o movimento operário na sua espontaneidade revolucionária quem o produziu, através dos Conselhos operários ou dos sovietes. Mas ele fez com que a classe operária se arrebentasse em coletivos concorrentes, e, devido a isso, o seu funcionamento não tarda a ocultar a lucidez política das escolhas, desde que a fase revolucionária terminou, durante a qual ele expressou a tomada da posse dos meios de trabalho pelos trabalhadores. A autogestão não pode, portanto, ser total e não deve excluir o Plano. Caso contrário, ela irá gerar uma forma nova de alienação economista que reproduz a divisão da classe operária, como o ilustra a experiência iugoslava” (AMIN, 1986, p. 147-148). Além de Amin reproduzir o mesmo tipo de discurso que Mao para combater a Comuna de Xangai e fazer apologia da centralização, ele também demonstra desconhecimento das teorias da autogestão (inclusive a começar por Marx) e mostra que não ultrapassa o leninismo, a ideologia da burocracia e seu discurso da necessidade do plano e da centralização, além de não compreender a diferença entre capitalismo e comunismo.
[25] Não deixa de ser curioso a escotomização das teorias do capitalismo de Estado que surgiram nos anos 1920 na Rússia (Grupo Verdade Operária de Bogdanov e Grupo Operário de Miasnikov), Alemanha e Holanda (Comunistas de Conselhos), Itália (Rodolfo Mondolfo e depois Amadeo Bordiga), bem como outras posteriores, como a dos trotskistas de esquerda.
[26] O problema das supostas “teorias” do capitalismo de estado russo, de origem leninista, é o seu oportunismo ideológico. Para os trotskistas, o capitalismo estatal emergiu a partir de Stálin (e derrota de Trotsky); para os maoístas-stalinistas, com a morte de Stálin (e denúncia de seus crimes por Kruschev) e assim por diante. Ao invés de luta de classes e do caráter de classe da burocracia antes da revolução e da burguesia burocrática após a mesma, o que ocorre são lutas interburocráticas, mas isso não pode ser perceptível a partir das ideologias burocráticas, pois, desde a sua origem, a classe burocrática deve disfarçar e fazer de conta que a luta expressa outras classes (burguesia e proletariado), pois, segundo o leninismo, ela não é uma classe. Assim, quando a burocracia que corresponde à matriz ideológica do ideólogo é derrotada, aí temos oportunisticamente a emergência do discurso de “restauração capitalista” e “capitalismo estatal”.
[27] Esse é o caso de Magaline (1977), que, devido ao voluntarismo maoísta, crítica o economicismo e a ideia do primado das forças produtivas, retomando a questão da luta de classes na produção. No entanto, essa contribuição se mostra parcial não só por manter a base leninista, mas também por ter problemas intrínsecos relacionados. O mesmo ocorre no caso de Bettelheim (1979).
[28] E os bem-intencionados, que querem realmente efetivar uma luta revolucionária por vínculo sentimental com o proletariado ou as classes exploradas. Estes, no entanto, logo que possuem acesso a teorias e informações, tendem a abandonar o maoísmo.
[29] Um exemplo do próprio Mao aponta para isso: “tudo que vem nos livros é correto, ainda é hoje a concepção dos camponeses da China que estão culturalmente atrasados. O surpreendente, porém, é que nas discussões no seio do Partido Comunista se encontram igualmente pessoas que, a propósito de tudo, dizem: mostra-me isso no teu livro” (MAO, 1979e, p. 77). Sem dúvida, o próprio Mao disse o contrário, sobre a necessidade da investigação, etc. No entanto, a “investigação” que ele fala é a do leninismo-stalinista ou do próprio maoísmo. E, como ele coloca no texto citado, essa “teoria” se revela correta “na prática”, o que no fundo ele quer dizer que ela serve para legitimar a prática e só quando é útil a ela (MAO, 1979e). Esse culto da prática, também reproduzido por situacionistas e anarquistas, sob forma dogmática, apenas mostra a primazia sentimental e irracional de certos militantes e grupos, que, como o maoísmo, reproduzem o messianismo religioso em linguagem pseudocientífica ou pseudomarxista. O seu desprezo pelos intelectuais e formação intelectual inferior a de seus próprios secretários, que revisavam seus textos, pode ser acompanhado através de sua biografia (SPENCE, 2003).
[30] “Mao Tse-Tung que, na sua juventude, escrevera um ensaio significativamente intitulado “O Poder do Espírito”, sempre professou um extremo voluntarismo que se exprime na dupla afirmação de que se pode transformar sem limite a natureza e se pode transformar sem limite os homens” (GARAUDY, 1968, p. 114).
[31] A doutrinação com o pensamento de Mao era constante e se tornou ainda mais rígida com a reforma moral (SPENCE, 2003). É nesse contexto que o “Livro Vermelho” (MAO, 1972) se torna cada vez mais lido por pressão da burguesia burocrática chinesa e sendo também leitura exportada para o exterior, chegando a ser, segundo alguns dizem, o livro mais lido no mundo depois da Bíblia, tendo sido impressos 820 milhões de exemplares. 

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VIANA, Nildo. Reflexões sobre o Maoísmo. Revista Enfrentamento. Ano 09, num. 16, jan./jun. 2015.
Veja também: Mao Tsé-Tung: Dialética ou Estratégia do PCC? clicando aqui.
Leia Revista Enfrentamento, 16, no qual esse texto foi publicado e contém outros artigos de crítica à outras concepções semelhantes. http://enfrentamento.net

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