quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

A Utopia em "O Passado e o Futuro"


A Utopia em "O Passado e o Futuro"



O conto angolano "O Passado e o Futuro" mostra um caráter utópico que é interessante destacar, inclusive para ampliar o conhecimento sobre a cultura popular angolana. O conto, disponível na internet (clique aqui), é parte integrante do folclore quimbundo e foi publicado no Brasil junto com outros contos angolanos (Moutinho, 2000). A leitura da coletânea mostra a riqueza dos contos populares angolanos, com elementos contraditórios, tal como é comum na cultura popular, apresenta uma percepção crítica mesclada com a moral dominante da época em que foram produzidos, o que não retira o mérito e a importância cultural de tais contos.

Um dos melhores contos, "O Passado e o Futuro", é curto e aponta para uma percepção utópica da realidade. Colocando em termos temporais e espaciais (o temporal se encontra no título "O Passado e O Futuro" e o espacial no nome dos personagens, embora ainda sendo temporal, já que liga lugar e ida, espaço e tempo), opõe os personagens "De Onde Venho" e "Para Onde Vou". Os dois caminham e encontram um vendedor de vinho de palma [1], e pedem um copo do vinho e este coloca uma condição para tal: dizer seus nomes. Um deles se chamava "De Onde Venho" e o outro "Para Onde Vou". O vendedor de vinho não gostou do segundo nome e ofereceu o vinho apenas para o De Onde Venho. Isto gerou uma discussão e acabaram indo resolvê-la diante de um juiz, que decidiu a seguinte sentença: "O vendedor de vinho de palma perdeu. Para Onde Vou é que tem razão, porque De Onde Venho já nada se pode obter e, pelo contrário, o que se puder encontrar está Para onde vou" (Moutinho, 2000, p. 21).

O caráter utópico da mensagem se encontra na oposição entre passado e futuro, no qual o futuro acaba ganhando. A oposição é construída a partir dos nomes dos dois personagens, mas que, no final, revela que não são apenas nomes, são significados, um significando o passado, de onde não se pode obter nada, e o outro significando o futuro, de onde se pode obter algo, esperar algo, ou seja, a esperança.

Se Thomas Morus (1980) afirma no final de A Utopia que "aspiro, mais que espero", no conto popular angolano, o futuro ganha porque é dele que se espera algo. A oposição também se revela nas preferências do Vendedor de Vinho de Palma e nas do Juíz, um prefere o passado e outro o futuro. Porém, não é gratuito que quem prefere o passado é o vendedor de vinho de palma e quem prefere o futuro é o juiz. O vendedor de vinho de palma é um vendedor, um mercador que vende mercadorias e sua mercadoria é o vinho de palma, que provoca um amortecimento dos sentidos e o juiz é aquele que julga, avalia, logo, tem um papel moral (e talvez ético). Isto quer dizer que as preferências e personsagens não são gratuitos, revelam significados e valores. Assim, o conto tem um significado utópico, pois o que interessa é o futuro, são as aspirações e desejos, é o que queremos, ou seja, o ainda-não-existente, para utilizar expressão de Ernst Bloch (cf. Bicca, 1987).

Referências

BICCA, Luiz. Marxismo e Liberdade. São Paulo, Edições Loyola, 1987.

MORUS, Thomas. A Utopia. Rio de Janeiro, Ediouro, 1980.

MOUTINHO, Viale (org.). Contos Populares de Angola. Folclore Quimbundo. São Paulo, Landy, 2000.
Nota:

[1] - Vinho de Palma ou vinho de palmeira é uma bebida alcoolica extraída da seiva de palma, utilizada em certas regiões da Àfrica. Clique aqui para ver uma lenda de Serra Leoa sobre como o vinho de palma foi descoberto.

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