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domingo, 10 de dezembro de 2017

MOVIMENTOS SOCIAIS E ORGANIZAÇÕES MOBILIZADORAS


MOVIMENTOS SOCIAIS E ORGANIZAÇÕES MOBILIZADORAS

Nildo Viana*

As organizações mobilizadoras são aqui compreendidas como ramificações dos movimentos sociais. Os movimentos sociais são movimentos de grupos sociais e que geram diversas tendências, organizações, etc. A análise dos movimentos sociais necessita incorporar uma discussão que diferencie o movimento de suas organizações e abordar mais profundamente a questão das organizações mobilizadoras. Assim, uma teoria dos movimentos sociais deve contemplar o significado e a dinâmica das organizações mobilizadoras. O nosso objetivo é esclarecer o que são as organizações mobilizadoras, qual sua relação e importância para os movimentos sociais, e, ainda, qual sua dinâmica e tendência real. Para tanto, abordaremos a relação entre movimentos sociais e organizações mobilizadoras, bem como a inserção destas numa discussão sobre as formas organizacionais e a análise de sua dinâmica e significado.
Movimentos Sociais e Organizações Mobilizadoras
Existe uma tendência, nos estudos sociológicos, em confundir movimentos sociais e organizações mobilizadoras. A análise do significado e dinâmica das organizações mobilizadoras pressupõe, portanto, uma distinção entre estes dois fenômenos e um conceito de organizações mobilizadoras. Para tanto, um esclarecimento conceitual acerca destes dois termos se torna fundamental para evitar confusões.
Os movimentos sociais já foram definidos sob inúmeras formas e não cabe aqui retomar as diversas definições existentes. Utilizaremos a concepção de movimentos sociais que julgamos a mais adequada. Consideramos que o conceito elaborado por Jensen (2014) e desenvolvido por Viana (2016) é suficiente para nossos propósitos. Segundo Jensen, os movimentos sociais são “movimentos de grupos sociais” e, segundo Viana, os movimentos sociais são movimentos de grupos sociais que geram mobilizações oriundas de determinada situação e insatisfação sociais que promovem um senso de pertencimento e objetivo (VIANA, 2016).
Não poderemos desenvolver detalhadamente cada elemento constitutivo dos movimentos sociais e presente neste conceito, mas apenas destacar que os elementos que julgamos fundamentais para nossa discussão. Esses elementos são a ideia de que os movimentos sociais são movimento de grupos sociais (ideia retomada de Jensen). No entanto, não se deve confundir movimentos sociais com grupos sociais. Um grupo social pode existir e não gerar movimento, bem como nem todos indivíduos pertencentes ao grupo social é atuante do movimento social gerado pelo mesmo. O grupo social é mais amplo que o movimento social, pois reúne a totalidade dos indivíduos do grupo e o último só reúne os atuantes. O movimento social surge quando o grupo “entra em fusão” (VIANA, 2016) e apenas os atuantes do mesmo são integrantes do movimento social.
A constituição do objetivo dos movimentos sociais e o senso de pertencimento pressupõem um certo grau de consciência e organização[1]. Nesse sentido, é fundamental entender a relação entre movimento social e organização. Antes, porém, é preciso destacar que determinados grupos sociais (negros, mulheres, estudantes, etc.) geram movimentos sociais (negro, feminino, estudantil, etc.). Já distinguimos grupo social e movimento social (este sendo apenas a parte do grupo que está “em fusão”), sendo um gerador do outro, mas não contido em sua totalidade no mesmo. Agora é preciso distinguir movimentos sociais e o conjunto de organizações, tendências, indivíduos, subgrupos, gerados pelo mesmo. O grupo social das mulheres pode gerar o movimento feminino. Este, uma vez existente, gera, devido à complexidade da sociedade moderna e suas divisões e subdivisões sociais, diversas organizações, tendências, setores, subgrupos, etc. Desta forma, surgem diversas concepções, como a liberal, socialista, radical, anarquista, etc., e diversas organizações. O mesmo processo ocorre nos demais movimentos sociais. O que é fundamental destacar aqui é que o movimento social é a totalidade do grupo social em fusão e não partes do mesmo. Assim, o movimento feminino engloba todas as organizações, tendências, setores, organizações, que são expressão do grupo das mulheres em fusão. Porém, o Clube das Mães que existiu em São Paulo nos anos 1970 e 1980 não é o movimento feminino, bem como o “Coletivo Maria Maria”, composto por estudantes da Universidade Federal de Juiz de Fora e o “Núcleo de Mulheres Clarissas”, de Divinópolis/MG não são, isoladamente, “o” movimento feminino e nem cada grupo “um” movimento feminino. Da mesma forma, a UNE – União Nacional dos Estudantes ou o MPL – Movimento Passe Livre, não são “o” movimento estudantil e nem cada grupo “um” movimento estudantil. Por isso é fundamental a distinção entre movimento social e suas ramificações.
Um movimento social pode ser considerado um caule do qual brotam diversos ramos. Essa metáfora ajuda a entender o conceito de ramificação no sentido que aqui o utilizamos, significando derivações dos movimentos sociais, sendo partes deles sem ser sua totalidade ou ele mesmo. Um movimento social pode gerar manifestações, organizações, subgrupos, representações, ideologias, etc. (VIANA, 2016a).
O que nos interessa aqui é uma determinada forma de ramificação gerada pelos movimentos sociais: as organizações mobilizadoras. As organizações mobilizadoras são assim chamadas por serem organizações dos movimentos sociais criadas para efetivar a mobilização dos mesmos. Nesse sentido, as organizações mobilizadoras não são “o” ou “um” movimento social e sim ramificações de tais movimentos. E como ramificação de um movimento social, a organização mobilizadora é parte do mesmo. Cada movimento social tende a gerar diversas organizações mobilizadoras, o que é explicado pela divisão dentro dos grupos sociais constituída pela sociedade moderna. Essas organizações mobilizadoras podem ser concorrentes, opostas ou até antagônicas.
Assim, um movimento social gera um conjunto de organizações mobilizadoras. O movimento social é plural e as organizações mobilizadoras podem ser plurais (quando aglutinam no seu interior diferentes setores, tendências, concepções) ou homogêneas. Os objetivos também variam em distintas organizações mobilizadoras, bem como a forma de mobilização. Algumas organizações mobilizadoras apresentam objetivos mais restritos, como, por exemplo, em seu local de moradia ou estudo, ou ainda em seu país ou para determinado subgrupo dentro do grupo social de base do movimento, enquanto que outras apresentam objetivos mais amplos, como, por exemplo, a nível mundial ou transformação situacional ou social. Existem organizações mobilizadoras que atuam apenas no plano cultural, enquanto que outras atuam em ações diversas (manifestações, articulações com outras organizações, etc.), bem como existem aquelas que efetivam várias formas de mobilização.
Em síntese, as organizações mobilizadoras são diversas e isso gera, também, uma diversidade de objetivos e formas de mobilização. A divisão de classes, a existência de subgrupos, as ideologias e concepções hegemônicas e divergentes, as influências de outras organizações (estado, partidos, etc.) promovem essa ampla diferenciação de organizações mobilizadoras. Os estudos sociológicos sobre movimentos sociais geralmente confundem movimentos sociais e organizações mobilizadoras[2]. Muitos atribuem a determinadas organizações (como a UNE, o MST, o MPL) o rótulo de movimentos sociais, o que é equivocado. Isso é derivado da falta de um conceito adequado e completo de movimento social e da indistinção entre eles e as suas ramificações.
Formas Organizacionais e Organizações Mobilizadoras
As organizações mobilizadoras são que forma de organização? Essa é uma questão importante. A importância é derivada do caráter de organização mobilizadora. Quando uma organização deixa de ser mobilizadora? A princípio, a resposta é fácil, quando ela deixa de mobilizar. Porém, a mobilização pode continuar existindo, mas os interesses podem ser outros, distintos dos estabelecidos pelos movimentos sociais ou desligados dos interesses do grupo social de base de um determinado movimento social. Logo, a determinação se uma organização é mobilizadora ou não remete ao problema do objetivo dos movimentos sociais.
Os objetivos dos movimentos sociais constituem um tema complexo e que não poderemos retomar aqui. Essa discussão pode ser vista em outros lugares de forma mais aprofundada (VIANA, 2016a; VIANA, 2016b). As concepções sociológicas geralmente apontam a “mudança social” como objetivo dos movimentos sociais. Isso está presente em alguns dos mais representativos sociólogos que abordam os movimentos sociais (BOTTOMORE, 1981; TOURAINE, 1997). No entanto, essa é uma concepção problemática. Apenas algumas ramificações dos movimentos sociais realmente almejam mudança social. A não ser que se compreenda “mudança social” num sentido muito amplo, o que gera confusão e entra em contradição com a tradicao sociológica. Para aqueles que compreendem, como Touraine, mudança social no sentido de mudança na sociedade, o equívoco é visível, sendo mais uma atribuição do sociólogo ao movimento do que uma característica real do mesmo.
O objetivo fundamental dos movimentos sociais é a transformação situacional (VIANA, 2016b). Essa transformação situacional significa a mudança da situação social do grupo, que é o elemento propulsor da existência do movimento. Claro que a compreensão de como pode ser tal transformação e o que ela significa pode gerar distinções internas nas ramificacões dos movimentos sociais. Existem ramificacões que entendem que a transformação situacional do grupo só pode ocorrer com a concomitante transformação social (instituição de uma nova sociedade) e outras que concebem que bastam reformas ou então defendem que a alteração apenas na situação grupal é possível e suficiente (VIANA, 2016b).
Assim, os princípios apresentados por Berger contribuem para compreender esse processo. Segundo ele:
O elemento fundamental do projeto, portanto, é o objetivo final, pois é ele que oferece a finalidade e razão de existência de um movimento social. O projeto só existe verdadeiramente se houver um objetivo final e se os objetivos imediatos estão coerentes ou pelo menos não entram em contradição com ele. Assim, a correspondência, e em alguns casos, devido condições sociais e históricas, a não-contradição, entre objetivos imediatos e objetivo final é fundamental para a existência de um projeto. O princípio da correspondência expressa a necessidade do objetivo imediato corresponder, reforçar, apontar, para o objetivo final. O princípio da não-contradição expressa a necessidade do objetivo imediato não-contradizer o objetivo final, o que significa não promover ações e decisões que sejam obstáculos, presentes ou futuros, para sua concretização (BERGER, 2015).
A discussão de Berger remete ao processo de necessidade de correspondência e não-contradição entre objetivos imediatos e objetivo final dos movimentos sociais. Porém, podemos retirar esses princípios deste contexto e usá-los no contexto da análise das organizações mobilizadoras. Uma organização é uma ramificação de um movimento social quando não estabelece uma contradição com o objetivo (final) do mesmo, ou seja, quando há correspondência entre o seu objetivo e o do movimento social.
Em síntese, uma organização mobilizadora deixa de ser ramificação de um movimento social (o que significa que deixa de ser organização mobilizadora) quando não expressa mais o objetivo do movimento social que lhe deu origem. Sem dúvida, ela também pode deixar de sê-lo ao deixar de existir ou deixar de mobilizar. No primeiro caso, é uma obviedade, pois não existirá mais a organização. No segundo caso, a organização continua existindo, mas não mobiliza e, portanto, mudou de objetivo.
A questão fundamental é: por qual motivo a organização mobilizadora muda de objetivo? Aqui é que se torna importante discutir as formas organizacionais e o processo de mercantilização. As organizações mobilizadoras são, geralmente (e principalmente com o seu surgimento), organizações autárquicas. As organizações autárquicas são não-burocráticas, isto é, são formas de auto-organização. As organizações burocráticas se caracterizam por possuir um quadro dirigente (a burocracia) assalariado que exerce a direção e se legitima através de normas escritas e se estrutura e organiza através de meios formais de admissão, hierarquia, concentração do poder de decisão e meios de administração nas mãos dos dirigentes[3], cujo objetivo é realizar o controle institucional cujo fim último é a reprodução do capitalismo (VIANA, 2015)[4]. As organizações autárquicas não possuem quadro dirigente, sua legitimação ocorre via processos decisórios coletivos e sua organização é caracterizada pelo nivelamento e se houver “funções” e “atribuições”, elas não são hierárquicas e permanentes e sim niveladas e provisórias. A diferença fundamental, embora não seja a única, é que nas organizações burocráticas há um quadro dirigente, uma burocracia, e nas organizações autárquicas há uma indistinção de posições no processo decisório e na execução.
Sem dúvida, é possível confundir as organizações autárquicas com organizações burocráticas em formação ou com obstáculos para completar seu processo de burocratização. As organizações burocráticas informais são burocracias incipientes, nas quais podem faltar algumas características das mesmas, como o assalariamento, meios de administração, etc. O aparato estatal, as universidades, as grandes igrejas, os partidos políticos legalizados, os sindicatos, são organizações burocráticas. Um grupo político que almeja se torna um partido legalizado pode ser uma burocracia informal ou formal, dependendo do caso.
As organizações mobilizadoras são, em sua maioria[5], organizações autárquicas, mas pode assumir a forma de organizações burocráticas formais ou informais. Quando as organizações mobilizadoras surgem das mobilizações ou da atuação dos integrantes do grupo social de base do movimento social, elas são geralmente autárquicas. No entanto, se a origem é outra ou com o passar do tempo, elas podem surgir como organização burocrática ou realizar a passagem de uma forma organizacional a outra, se burocratizando. Para aquelas que nascem como organizações autárquicas, o caminho é, geralmente, se tornar burocracia informal, para, posteriormente, se tornar formal. Esse processo tem um impacto nos objetivos da organização mobilizadora e quando chega a um determinado ponto, perde o seu caráter mobilizador, ou seja, seu vínculo com o movimento social.
Esse processo foi denominado por Etzioni (1976), ao tratar de organizações em geral, como substituição de objetivos. A substituição de objetivos não significa, necessariamente, que o objetivo original seja totalmente abandonado, pois ele pode sobreviver como “objetivo declarado”, embora já não seja mais o “objetivo real” (ETZIONI, 1976). Assim, quanto maior a organização, maior é a tendência à burocratização, gerando o que foi denominado “lei férrea da oligarquia” (MICHELS, 1981).
Esse processo é reforçado e completado pelo fenômeno da mercantilização. O processo de mercantilização é aquele no qual tudo é paulatinamente transformado em mercadoria ou mercancia (VIANA, 2016b)[6]. Existe um processo de mercantilização das ramificações dos movimentos sociais. Esse processo gera “escalas de mercantilização”, que expressam a necessidade de dinheiro no seu interior[7]. A escala de mercantilização vai da mínima, passando pela média, até chegar a máxima (VIANA, 2016a). Quando a mercantilização ultrapassa a escala máxima e isso ocorre no âmbito de uma organização burocrática, ou acontece, simultaneamente, a passagem para a escala máxima e a burocratização formal (total), a organização mobilizadora deixa de ser uma ramificação de um movimento social. A mercantilização reforça a burocratização e vice-versa.
E por qual motivo, nesse momento, a organização deixa de ser mobilizadora, ou seja, ramificação de um movimento social? Esse processo ocorre por causa que a mercantilização gera a necessidade de recursos financeiros. Uma pequena organização autárquica pode realizar mobilização com a contribuição dos integrantes, uso de formas de arrecadação de dinheiro (festas, rifas, etc.), que não são permanentes e dispendiosas. Isso significa a escala mínima de mercantilização. No entanto, quando passa a ter despesas financeiras permanentes (uma sede que pode, por exemplo, trazer despesas de aluguel, energia, etc.), passando para a escala média de mercantilização. Nesse caso, o objetivo da organização mobilizadora passa a conviver com a necessidade de arrecadação, mesmo que sua existência seja para garantir as mobilizações. Nesse momento, há uma alteração no interior da organização, os recursos financeiros se tornam uma necessidade e o cálculo mercantil se impõe[8]. A intensificação desse processo gera a escala máxima de mercantilização, que é quando os recursos financeiros se tornam um objetivo ao lado da mobilização e do objetivo final a que se propunha a organização mobilizadora. O seu caráter de organização mobilizadora já se encontra comprometido. Quando a escala máxima de mercantilização é acompanhada pela burocratização formal, então deixa de ser organização mobilizadora e passa a ser organização burocrática, rompendo com seu caráter de ramificação de um movimento social.
Esse processo é explicado pelo fato de que a burocratização gera interesses próprios para a burocracia[9] e a mercantilização reforça isso, além de gerar o objetivo da autorreprodução financeira da organização. A autorreprodução da burocracia (quadro dirigente) e financeira gera um objetivo superior ao original. O objetivo original é substituído e abandonado ou secundarizado, virando objetivo declarado, mas não objetivo real (ETZIONI, 1976). O vínculo com o movimento social se torna apenas aparente ou fonte de legitimação de uma organização burocrática que visa sua própria reprodução e seus próprios interesses.
Significado e Dinâmica das Organizações Mobilizadoras
As organizações mobilizadoras são fundamentais para os movimentos sociais. Os movimentos sociais possuem várias ramificações, mas as organizações mobilizadoras são as mais estruturadas e que possibilitam uma maior mobilização e eficácia. Uma grande parte dos estudos sociológicos e de outras ciências humanas sobre os movimentos sociais se dedicam, na verdade, a analisar organizações mobilizadoras. Esse caso é mais comum no que se refere ao movimento estudantil[10].
As organizações mobilizadoras são não somente a face mais visível dos movimentos sociais e um dos seus principais elementos propulsores, mas também uma das fontes da hegemonia no interior dos mesmos. Por isso é importante entender a dinâmica e significado das organizações mobilizadoras. Podemos afirmar que existe uma dinâmica tendencial nas organizações mobilizadoras. A dinâmica tendencial é a que descrevemos anteriormente: surgimento como organização autárquica, processo de burocratização e mercantilização, que gera sua transformação em organização burocrática e desvinculação real (que pode se manter discursivamente ou formalmente) do movimento social do qual emerge. Essa é a dinâmica tendencial de grande parte das organizações mobilizadoras, especialmente as que conseguem “sucesso”.
É possível pensar outras dinâmicas de desenvolvimento das organizações mobilizadoras. Algumas não se tornam organizações burocráticas, outras perecem rapidamente, etc. Não é impossível que uma organização burocrática informal possa se tornar organização autárquica, apesar das dificuldades disso ocorrer e, mais ainda se manter. Esse é o caso de um Centro Acadêmico, ou seja, uma organização mobilizadora do movimento estudantil. Ele pode ser já uma burocracia informal, mas uma nova chapa ou contexto político institucional ou nacional pode transformá-lo em organização autárquica. Um caso concreto pode demonstrar isso. O Centro Acadêmico de Ciências Sociais da Universidade Federal de Goiás se organizou como burocracia informal durante algum tempo (desde sua formação até 1987), sendo que se democratizou ao passar a ter uma direção colegiada (1988) e após isso se tornou uma organização autárquica (1989-1996) e, posteriormente, voltou a se organizar como burocracia informal. Esse processo possui várias determinações, entre as quais, os indivíduos envolvidos no processo, as teorias, ideologias, concepções organizacionais, existentes, as condições institucionais, etc.
Para entender essa dinâmica é preciso compreender não apenas as organizações mobilizadoras em si, mas também as suas determinações, as suas relações com outras instituições (Estado, partidos, universidades), a hegemonia e luta cultural no seu interior e na sociedade civil, etc. A tendência é que as organizações burocráticas externas reforcem o processo de burocratização interna das organizações mobilizadoras e contribuam com o desvirtuamento de seus objetivos originais e grupais. Esse processo é suficiente para demonstrar a complexidade da dinâmica das organizações mobilizadoras e suas tendências.
É neste contexto que podemos discutir o significado das organizações mobilizadoras. Já apontamos sua importância: maior estruturação, capacidade de mobilização e eficácia. Porém, isso, inserido em sua dinâmica e formas de desenvolvimento, alteram um pouco o quadro analítico. As organizações mobilizadoras autárquicas são mais estruturalmente ligadas ao objetivo grupal que é a transformação situacional do grupo social de base do movimento social do qual é ramificação. Para aumentar sua capacidade de mobilização, sua eficácia, precisa, e geralmente busca, o crescimento e racionalização. Isso gera a tendência à burocratização. A sua transformação em burocracia informal traz a busca de resultados e a mercantilização que pressionam para a sua transformação em organização burocrática[11].
Esse é o dilema das organizações mobilizadoras: quanto mais fortes e eficazes, mais distantes do objetivo dos grupos sociais de base dos movimentos sociais dos quais são ramificações. Por outro lado, quanto menos organizações mobilizadoras e menos estruturadas elas forem, menor tende a ser sua capacidade de mobilização, bem como sua eficácia. Isso, no entanto, nem sempre ocorre. Determinadas situações sociais, como épocas de crise de regime de acumulação, ascensão e radicalização das lutas de classes, etc., permite um certo processo de estruturação e crescimento que possui maior dificuldade de desembocar em burocratização formal das organizações mobilizadoras. A dinâmica do movimento social do qual é ramificação, bem como suas lutas internas (culturais, organizacionais, etc.), são outra determinação importante para compreender sua dinâmica e dilemas.
Existe, no entanto, outras possibilidades que permitem uma maior organização, capacidade de mobilização e eficácia sem ocorrer o processo de burocratização. Esse processo pode ocorrer através da associação autárquica de diversas organizações mobilizadoras de um movimento social. Uma associação autárquica é não burocrática, não tendo divisão entre dirigentes e dirigidos, nem hierarquia, ou seja, ela une organizações autárquicas sob forma nivelada, formando uma associação fundada na autarquia[12]. Historicamente, algumas iniciativas nesse sentido foram esboçadas, mas sob forma ainda incipiente.
Em síntese, o significado das organizações mobilizadoras é sua dubiedade, pois ao mesmo tempo em que pode promover um avanço, pode efetivar o seu recuo, sendo uma necessidade dos movimentos sociais e, ao mesmo tempo, um risco. Elas podem fazer avançar a luta, mas podem gerar o seu recuo e fracasso. Podem apontar para a ruptura ou para a integração, dependendo de sua dinâmica inserida na totalidade das relações sociais.
Considerações Finais
A compreensão das organizações mobilizadoras como ramificações dos movimentos sociais é importante para evitar confusões e avançar na compreensão destes fenômenos sociais. Da mesma forma, analisar as formas organizacionais, as formas desenvolvidas pelas organizações mobilizadoras, a sua dinâmica e significado, são fundamentais. O presente artigo teve o objetivo de fazer uma breve discussão a tal respeito.
O nosso ponto de partida foi a conceituação de movimentos sociais e organizações mobilizadoras. Depois, realizamos, a partir das abordagens de Marx, Weber, Michels, Etzioni e outros autores, uma discussão sobre as formas de organização e as organizações mobilizadoras, seus objetivos e mutações. A formação, desenvolvimento e declínio das organizações mobilizadoras são explicadas a partir de sua inserção na totalidade da sociedade e em sua relação com os movimentos sociais dos quais fazem parte. A tendência é a de transformação das organizações mobilizadoras em organizações burocráticas[13], abandonando, assim, o seu caráter de ramificação de um movimento social.
A reflexão aqui apresentada sobre as organizações mobilizadoras deve ser enriquecida com novas reflexões e análises de casos concretos, que permitem trazer novos problemas, novas hipóteses e novas teorias. Por conseguinte, é uma reflexão inicial que pode se desdobrar em outras reflexões mais profundas e pesquisas concretas.

Referências


BERGER, Patrick. Movimentos Sociais, Futuro e Utopia. Marxismo e Autogestão, 02(03), p. jan./jun., 2015.

BOTTOMORE, Tom. Sociologia Política. Rio de Janeiro: Zahar, 1981.

CONCEIÇÃO, Marcus Vinicius. Reflexões sobre o Movimento Estudantil e o Maio de 1968. In: O Movimento Estudantil em Foco. Goiânia: Edições Redelp, 2016.

ETZIONI, Amitai. As Organizações Modernas. 5ª edição, São Paulo: Pioneira, 1976.

JENSEN, Karl. Que Fazer?. Goiânia: Edições Redelp, 2016.

MARX, Karl. O Dezoito Brumário e Cartas a Kugelmann. 2a ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987.

McCARTHY, J. e ZALD. M. Mobilização de Recursos e Movimentos Sociais: Uma Teoria Parcial. Movimentos Sociais, 01(01), 2016..

MICHELS, Robert. Sociologia dos Partidos Políticos. Brasília: Edunb, 1981.

TOURAINE, Alain. Os Movimentos Sociais. In: MARTINS, José de Sousa e FORACCHI, Marialice. (orgs.). Sociologia e Sociedade. Rio de Janeiro: LTC, 1997.

VIANA, Nildo. Burocracia: Forma Organizacional e Classe Social. Marxismo e Autogestão, 2(3), 2015.

VIANA, Nildo. Marx e a Burocracia. Plural, 5(02), 2015.

VIANA, Nildo. Os Movimentos Sociais. Curitiba: Prismas, 2016.

VIANA, Nildo. A Mercantilização das Relações Sociais. Rio de Janeiro: AR editora, 2016.

VIANA, Nildo. Os Objetivos dos Movimentos Sociais. Movimentos Sociais, 01(01), 2016.

VIANA, Nildo. Organizações: Reprodução ou Transformação?. Espaço Livre, 11(21), 2016c.

WEBER, Max. Ensaios de Sociologia. Rio de Janeiro: Zahar, 1971.



* Professor da Faculdade de Ciências Sociais e do Programa de Pós-Graduação em Sociologia da Universidade Federal de Goiás; Doutor em Sociologia pela UnB e Pós-Doutor pela USP.
[1] O objetivo pressupõe certo grau de consciência e também de organização, pois não se trata de objetivo pessoal, embora este se confunda com o objetivo atribuído ao grupo pelo movimento social. O senso de pertencimento, por sua vez, pressupõe determinada forma de consciência (grupal) e tende a gerar identificação e/ou organização.
[2] Uma exceção é a abordagem institucionalista, mais conhecida como TMR – Teoria da Mobilização de Recursos. Essa escola é geralmente acusada de tratar de organizações e não de movimentos sociais, que ela confundiria. No entanto, essa interpretação é equivocada.
[3] Alguns desses elementos estão nas características apresentadas por Max Weber em seu tipo ideal de burocracia (WEBER, 1971). No entanto, não se trata de um “tipo ideal” e sim um conceito e sua fonte de inspiração principal é a concepção de Marx (VIANA, 2015), embora tenha outras fontes de inspiração além desses dois autores clássicos.
[4] Marx explicitou que a burocracia é um fenômeno da sociedade moderna (VIANA, 2015; MARX, 1987). Apesar disso, se tornou comum atribuir a sociedades pré-capitalistas a existencia de uma burocracia, incluindo o que Marx denominou “modo de produção asiático”. Contudo, os leitores atentos percebem facilmente que ele não utilizou tal termo para analisar este modo de produção (VIANA, 2015).
[5] O que significa quantidade e não força, poder de pressão, etc.
[6] As mercadorias são os bens materiais produzidos no âmbito do modo de produção capitalista, sendo produtos do trabalho humano e portadoras de valor de uso e valor de troca, enquanto que as mercancias são bens culturais e coletivos (em alguns casos podem ser bens materiais, como obras de arte) produzidas fora do âmbito do modo de produção capitalista e por isso possuem a forma de uma mercadoria (valor de uso e valor de troca), mas não sua substância, sua materialidade, já que são constituídas em outras relações sociais, as formas sociais burguesas, ou, simplesmente, “superestrutura”.
[7] A questão da burocratização recebeu algum tratamento na produção sociológica sobre os movimentos sociais e a questão da mercantilização raramente foi citada, mesmo usando outra linguagem. Uma exceção é a abordagem institucionalista, mais conhecida como TMR – Teoria da Mobilização de Recursos. Essa escola é geralmente acusada de tratar de organizações e não de movimentos sociais, que ela confundiria. No entanto, essa crítica é equivocada, pois tal escola distinguia entre movimentos sociais, organizações dos movimentos sociais, e indústria de movimentos sociais, sendo que suas pesquisas se voltavam para as organizações (McCARTHY e ZALD, 2016). Apesar do mérito em colocar o foco na questão das organizações e destacar a necessidade de recursos, a abordagem institucionalista padece de falta de base teórica e por isso seu caráter mais descritivo que explicativo. De qualquer forma, a abordagem institucionalista destacou o que diversas outras abordagens dos movimentos sociais evitou ou desconheceu: o significado da burocracia e do dinheiro nos movimentos sociais.
[8] O cálculo mercantil é semelhante ao que Weber denominou “cálculo racional” e Bettelheim denominou “cálculo econômico” (VIANA, 2016b).
[9] A este respeito há uma produção sociológica que vai desde Michels (1981), passando por Etzioni (1976), até chegar a Viana (2015).
[10] “Muitas das pesquisas realizadas no Brasil sobre movimento estudantil são na verdade sobre organizações estudantis, especialmente a União Nacional dos Estudantes – UNE” (CONCEIÇÃO, 2016, p. 80).
[11] Existem algumas exceções, como, por exemplo, organizações burocráticas informais limitadas por seu vínculo com outras instituições, como as organizações estudantis no interior de uma universidade, pois isso impede o assalariamento e outros processos burocratizantes.
[12] O termo “autarquia” tem vários significados, desde “poder absoluto” até instituição estatal com relativa autonomia. Autarquia, aqui, quer dizer “uma organização sem divisão entre dirigentes e dirigidos, sem quadro dirigente, sem burocracia, e, por conseguinte, o que é seu aspecto positivo, a sua direção é coletiva, bem como a decisão, no plano interno, da organização” (VIANA, 2016c).
[13] O que pode ser ilustrado com o caso do Greenpeace, um entre milhões de casos.

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Publicado originalmente em:
VIANA, Nildo. Movimentos Sociais e Organizações Mobilizadoras. Revista Espaço Livre, Vol. 12, num. 23, 2017.
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