sábado, 4 de abril de 2015

O Cineasta é um autor?














O CINEASTA É UM AUTOR?

Por Nildo Viana

A idéia de autoria no cinema tem seus primeiros passos com o próprio surgimento do cinema, mas se sistematiza e torna-se mais polêmico a partir do final dos anos 50, com o surgimento da chamada “política dos autores”, que foi traduzido normalmente como “teoria do autor”, forma equivocada de tradução. A política dos autores apontou para uma valoração do diretor/cineasta e partir de um programa que visava torná-lo o centro da produção cinematográfica. É claro que isto gerou uma justificativa ao nível ideológica, embora sem grande sistematização. Após o nascimento, apogeu e crise da política dos autores, a discussão em torno do cineasta como autor diminuiu mas continua viva. Na esfera das representações cotidianas, no chamado “senso comum”, a tese defendida pela política dos autores ainda é hegemônica, e é por isso que algumas locadoras dividem o seu acervo não por gênero (outra questão polêmica que não poderemos tratar aqui) e sim pelo “realizador”, bem como muitas pessoas cultuam autores e suas obras. O nosso propósito é justamente questionar as bases ideológicas desta concepção. Alguns críticos de cinema que trabalhavam na revista Cahiers du Cinéma e posteriormente se tornaram cineastas, foram os principais arquitetos da chamada política dos autores. François Truffaut foi o seu grande ideólogo, mas também contava com Jean-Luc Godard, Claude Chabrot, Erich Romer e outros. Segundo suas colocações mais exageradas, temos a seguinte de François Truffaut: “toda a gente sofre a tentação de arranjar o mundo à sua imagem. Ao realizador é dado um poder enorme, o de fazer encontrarem-se duas personagens que não estava previsto encontram-se. Creio que, dispondo desse poder, há a tentação de o usar. Cada realizador, mesmo o menos ambicioso, perante uma câmara e as pessoas – técnicos e artistas – que estão ao seu dispor, torna-se que como uma criança que organiza numa garagem miniatura uma batalha de soldados de chumbo. O realizador regressa aos jogos da sua infância e reorganiza o mundo segundo seus desejos”.

As bases desta posição ideológica, tal como alguns de seus críticos já colocaram, é a filosofia existencialista, produto de uma época, a da recusa do mundo burocrático e mercantil, concentracionário, que esmaga o indivíduo, o que gera a sobrevaloração do indivíduo e idéia imaginária de sua liberdade. A política dos autores acaba caindo no mesmo equívoco de determinada variante existencialista –, ao supor uma autonomia do cineasta que seria um verdadeiro criador, autor. Aqui se confunde o ser e o dever-ser, isto é, a realidade concreta e o ideal que não existe concretamente.

O cineasta não é um autor. Um escritor de obra literária é um autor, bem como um pintor, um escultor, mas não um cineasta, devido a especificidade da produção de um filme. Um filme é uma produção coletiva, que tem uma enorme equipe de produção, desde os técnicos e atores/atrizes, passando pelo diretor, roteirista, até chegar ao produtor e aos empresários. O diretor pode ter maior ou menor autonomia, mas por maior que seja esta (o que alguns poucos conseguem, seja pelo sucesso anterior, seja pela personalidade), ainda não é um “realizador” tal como aqueles que produzem em outras linguagens artísticas. Um dos cineastas de maior autonomia, como Luis Buñuel, teve que produzir filmes comerciais, tal como Robinson Crusoé, e os diversos conflitos que existem nas produções de diversos filmes, entre cineastas e roteiristas, atores/atrizes, produtoras, etc. mostra bem a fragilidade do diretor. Na verdade, um filme é uma produção coletiva, com diversos “autores”, com destaque para o diretor e os roteiristas, que, no entanto, estão bem acompanhados pelos responsáveis pela equipe de produção. Os filmes de Sérgio Leone possuem, por exemplo, o destaque das trilhas sonoras, produzidas por Ennio Morricone, se devem a este último. Sem dúvida, a valoração da trilha sonora e a escolha de Morricone foram de Sérgio Leone, mas o mérito da produção musical se deve a Morricone.

Além do trabalho de produção de um filme ser coletivo, existe também elementos externos que influenciam na sua produção mais do que em outras produções artísticas e culturais. A censura estatal ou da produtora também entra aqui. A influência da produção na elaboração da cena final de um filme é bastante conhecida, bem como a censura e pressões existentes. Um dos casos mais conhecidos é o filme Cidadão Kane, de Orson Welles, palco de polêmicas, pressões financeiras e uma carreira prejudicada pela decisão de autonomia por parte de Welles. Os cineastas que decidem por uma maior autonomia acabam, geralmente, entrando em confronto com a grandes produtoras, com a censura estatal, com o insucesso de bilheteria. Nos Estados Unidos, por exemplo, Charles Chaplin e Joseph Losey foram vítimas da perseguição estatal. Sem dúvida, Chaplin foi um dos cineastas mais autônomos de todos, pois além de diretor, muitas vezes era o roteirista, o ator principal, e até responsável pela produção, como ocorreu em sua grande obra Tempos Modernos. Também as tendências da época são mais importantes para entender determinados filmes do que os diretores, pois estes acompanham uma ou outra tendência e é por isso que alguns cineastas são de difícil classificação, pois em determinada época foi surrealista, em outra realista, e assim por diante. Este é o caso de Fritz Lang, que foi expressionista, depois, dizem, representante da Nova Objetividade, e terminou em Hollywood. É o caso de cineastas franceses, que passaram rapidamente do impressionismo para o surrealismo ou realismo poético ou dos cineastas italianos, sendo que alguns trabalharam em filmes fascistas, depois aderiram ao neo-realismo (que se pretende de “esquerda”) e depois passam para as produções de caráter individualista (“autorista”, com Bertolucci e semelhantes) ou então produzindo gêneros americanizados (o western-spaghetti).

Se os cineastas que possuem maior autonomia já encontram tais dificuldades, então os de menor autonomia realmente não são “autores” em hipótese nenhuma. Mas foi justamente os ideólogos do “autorismo”, para utilizar expressão utilizada pelo tradutor de Introdução à Teoria do Cinema, de Robert Stam, fizeram, pois produziram exageros tal como a “recuperação” de cineastas norte-americanos de Hollywood. Tal como colocou Andrew Tudor em seu livro Teorias do Cinema, “o que os críticos dos Cahiers fizeram foi descobrir auteurs onde ninguém tinha sonhado”. Assim, não é difícil perceber as “extravagâncias” que este raciocínio pode levar, a avaliação dos filmes passa a ser feita pelo “autor” e um filme já é pré-julgado naturalmente pelo “autor” que o fez. Se o “autor” é bom, o filme também é, e, assim, nem é preciso assisti-lo para saber disso. Assim, segundo Tudor, um filme ruim de Hawks (Hatari) é melhor do que um filme bom de Zinneman (Matar ou Morrer).

Por fim, resta lembrar que o cineasta não é um autor, mas, no máximo, um co-autor, junto com um conjunto de colaboradores. Embora mesmo os mais fracos cineastas tenham um papel importante na produção de um filme, somente aqueles que são mais autônomos ou possuem mais condições para isto, é que exercem um papel determinante no resultado final. Todos cineastas são co-autores ao lado de diversos outros co-autores. Alguns deles com maior autonomia, outros com menor, mas nenhum deles é um autor no sentido que lhe deu a ideologia do autorismo e seus derivados contemporâneos.

Fonte:
VIANA, Nildo . O Cineasta é um autor?. Jornal Opção, Goiânia, v. 1253, p. 25 - 25, 01 set. 2006.

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