sábado, 31 de janeiro de 2015

IMAGINÁRIO E IDEOLOGIA: As Ilusões nas Representações Cotidianas e no Pensamento Complexo

IMAGINÁRIO E IDEOLOGIA:
As Ilusões nas Representações Cotidianas e no Pensamento Complexo

Nildo Viana*

A história da consciência humana é marcada por um conjunto de mudanças que só podem ser compreendidas se inseridas no interior da história das sociedades humanas. A consciência pode ser entendida, tal como no pensamento de Marx, como “real” ou “ilusória”. O nosso foco aqui será aquilo que Marx denominou “representações ilusórias” da realidade, o que, obviamente, nos faz remeter às “representações reais”, pois a discussão de uma gera a necessidade, inevitavelmente, de abordar a outra. A discussão sobre as ilusões numa sociedade em que essas predominam na mente humana é algo fundamental e que remete à questão das suas raízes sociais, ou seja, ao processo de constituição social das ilusões. O objetivo aqui, no entanto, é apenas observar as relações entre duas formas fundamentais de ilusões, o imaginário e a ideologia, no sentido de perceber o processo de transformar de uma em outra e assim avançar na compreensão desse fenômeno onipresente na sociedade contemporânea.
A história da consciência humana é, no fundo, uma história de ilusões. As ilusões sempre existiram, mas sob formas e por razões distintas. A palavra ilusão tem vários sentidos, tal como “esperanças improváveis”, mas aqui utilizamos no sentido de distorção da realidade, uma consciência falsa, equivocada, da realidade. Assim, a consciência pode ser ilusória ou verdadeira, o que significa que pode expressar a realidade tal como ela é ou distorcer a mesma.
A história das ilusões começa com os mitos antigos e chega até os dias de hoje sob a forma de ciência, filosofia, etc. O mito enquanto forma de explicação do mundo se revela ilusório, assim como as explicações do mito também podem e na maioria das vezes são ilusórias (VIANA, 2011). Contudo, as raízes das ilusões em geral são variadas, embora a determinação fundamental, no caso da nossa sociedade, seja social. Nas sociedades simples, o que temos são relações dos seres humanos com o meio ambiente marcadas pela dependência e por uma cultura ainda demasiadamente marcada por formas de reflexão cuja movimento de retorno a si mesmo do ser pensante é realizado sob forma não consciente, sendo mais uma projeção irrefletida. Com a emergência da sociedades de classes e a separação entre trabalho manual e intelectual, os pensadores originários, os filósofos, avançaram no sentido de pensar este retorno a si mesmo de forma consciente. Quando Protágoras lança a máxima “o homem é a medida de todas as coisas” (PLATÃO, 1977), marca uma revolução no pensamento humano.
Na sociedade escravista, contudo, se há um avanço da consciência humana, ela sofre outras limitações antes inexistentes. A formação dos indivíduos especializados no trabalho intelectual, graças à exploração do trabalho escravo, permite ampliar as reflexões sobre o mundo e ampliar a consciência humana, inclusive devido ao maior domínio dos seres humanos sobre a natureza com o desenvolvimento das forças produtivas, mas cria um novo obstáculo: a divisão da sociedade em classes e as subdivisões derivadas ou subordinadas a ela gera modos de vida distintos, interesses, valores, sentimentos, também distintos. Se nas sociedades simples havia uma cultura única e homogênea, se todos acreditavam no mesmo mito, nas sociedades de classes a divisão social promove formas de consciência distintas.
As representações ilusórias passam a ter como principal determinação não mais a dependência em relação à natureza e sim a divisão social do trabalho que expressa a existência de diferentes e antagônicas classes sociais e tudo que deriva disso. Inclusive, a divisão entre trabalho manual e intelectual faz emergir a figura do ideólogo, ou seja, do especialista no trabalho intelectual que produz um sistema de pensamento ilusório, o que Marx denominou ideologia. Assim, passa a existir não somente as representações ilusórias produzidas espontaneamente pelos indivíduos das variadas classes a partir de sua posição na divisão social do trabalho, interesses, valores, sentimentos, etc., mas também um tipo novo de representações ilusórias, sistemáticas e cujo produtores são os trabalhadores intelectuais. É nesse contexto histórico que nasce a ideologia (MARX e ENGELS, 1992).
O processo de desenvolvimento da história da humanidade foi, desde esse momento, marcado pela produção e reprodução de ilusões, seja sob uma ou outra forma, a forma simples ou a forma complexa. A forma complexa é o reino da ideologia, dos especialistas no trabalho intelectual que geram verdadeiros sistemas de pensamento, sob a forma de filosofia, teologia, ciência, etc. e a forma simples é o que posteriormente esse pensamento complexo denominou “senso comum”, “cultura popular”, “saber popular”, “conhecimento cotidiano”, “representações sociais”, entre outros nomes. E sobre essas formas de consciência se produziu interpretações e explicações, na maioria das vezes, ilusórias. Nesse caso, trata-se de ilusões produzidas sobre outras ilusões. Um verdadeiro mundo ilusório passa a reinar absoluto nas sociedades de classes e na sociedade capitalista. Sem dúvida, assim como a filosofia nascente proporcionou certos avanços no plano da consciência humana, os desdobramentos posteriores também, em muitos casos, também possibilitou outros avanços, mas que, no entanto, ainda não conseguiram uma superação da primazia da ilusão no pensamento humano. E além da inversão da realidade realizada de forma sistemática pela ideologia e pelas representações cotidianas ilusórias, há também um mundo de ilusões que realiza uma mediação da interpretação dessas mesmas ilusões.
O Conceito de Ideologia
Após essa contextualização histórica, é importante esclarecer os conceitos de ideologia e representações cotidianas ilusórias, ou imaginário, para podermos avançar na discussão sobre a relação entre estas duas formas de consciência. A palavra ideologia tem vários significados, sendo polissêmica. Ela pode ser compreendida como “ciência das ideias”, tal como a definiu Destutt de Tracy (CHAUÍ, 1992); como “visão de mundo” (GRAMSCI, 1989); entre outros significados. Essas são concepções ideológicas de ideologia. E por ideologia se entenda o conceito elaborado por Marx e mal interpretado (e muitas vezes interpretado ideologicamente) pelos seus intérpretes.
A ideologia, na concepção de Marx, é uma falsa consciência sistematizada, um sistema de pensamento ilusório. O caráter sistemático da ideologia é seu traço distintivo do imaginário, ou seja, das representações cotidianas ilusórias. Marx identifica o nascimento da ideologia com a divisão entre trabalho manual e intelectual, com o surgimento da figura do ideólogo e com a autonomização do mundo das ideias por parte dos pensadores, dos especialistas na produção cultural. A crítica que Marx efetiva aos ideólogos é aquela aos filósofos idealistas neohegelianos, que produziam verdadeiros sistemas a partir da obra de Hegel e contra ele. Marx não abordava a ilusão dos escravos, dos servos, dos operários, dos guerreiros, burocratas, etc. O conceito de ideologia, por conseguinte, remete aos seus produtores, os ideólogos e estes são os trabalhadores intelectuais (cientistas, filósofos, teólogos).
Se a ideologia é um sistema de pensamento ilusório, ela não é a única forma de manifestação de ilusões. Devido à divisão social do trabalho e tudo que deriva disso, bem como do processo de exploração e dominação que constitui tal divisão, há um processo constante de produção de ilusões. Tanto os indivíduos das classes exploradas quanto os indivíduos das classes dominantes produzem ilusões, mas sob forma não sistemática. Cabe aos ideólogos, ou, tal como em casos raros, a alguns indivíduos destas classes que conseguem, apesar da sua posição na divisão social do trabalho, tempo para criar sistemas de pensamento, a produção de uma falsa consciência sistematizada. Em Marx, essa oposição existe desde a sua crítica das ideologias filosóficas em A Ideologia Alemã (MARX e ENGELS, 1992) até sua crítica das ideologias científicas, a economia política, em O Capital (MARX, 1988). Marx afirmou que as “concepções cotidianas” dos agentes do processo de produção eram sistematizadas e transformadas em ciência pelos economistas políticos. Vamos retornar a isso mais adiante.
O conceito de ideologia remete, portanto, a um sistema de pensamento ilusório. Nesse sentido, as obras de Aristóteles, Platão, Hegel, Durkheim, Weber, Locke, Baumann, Giddens, entre milhares de outras, são produtos ideológicos. A ideologia, no entanto, sendo um sistema de pensamento, não só tem um conteúdo ilusório, ou seja, inverte a realidade, mas também possui uma forma. Trata-se de um sistema de pensamento e o seu caráter sistemático lhe fornece suas características formais. As ideologias são uma totalidade, um conjunto de ideias que se estruturam sistematicamente, constituindo construtos, falsos conceitos (VIANA, 2007), que são interrelacionados com diversos outros, produzindo assim um sistema construtal (VIANA, 2012; VIANA, 2007). As ideologias produzem um conjunto de construtos organizados sistematicamente Não será possível apontar aqui as diversas características da ideologia, mas o fundamental é entender que se trata de uma forma de consciência ilusória da realidade e sua distinção em relação às outras formas de consciência ilusória é o seu caráter sistemático, formando um conjunto organizado de construtos.
Representações Cotidianas e Imaginário
A ideologia surge com as sociedades de classes. É nesse contexto que surge diversos sistemas de pensamento (que vão ganhando maior sistematicidade com o decorrer do processo histórico e da acumulação de ideologias, e o platonismo e aristotelismo são algumas de suas primeiras formas de manifestação, já com um certo grau elevado de sistematização, principalmente no caso de Aristóteles). O mito é uma concepção da realidade relativamente organizada e coerente, mas que não se constitui ainda como um sistema. A ideologia é produção dos ideólogos, dos especialistas no trabalho intelectual. E aqueles que não são ideólogos? Eles desenvolvem sua consciência da realidade e o fazem sob diversas formas, com diversos conteúdos. Se a ideologia assume a forma de ciência, filosofia, teologia, as demais formas de consciência são o que denominamos representações cotidianas, o que outros chamam de “senso comum”, “conhecimento cotidiano”, “representações sociais”, etc.
A ideia de senso comum é produto da ideologia, ou, mais especificamente, da ciência (VIANA, 2008). A constituição da nova forma dominante de ideologia, a ciência, a partir da ascensão da burguesia e sua conquista do aparato estatal com as revoluções burguesas, em confronto com as ideias disseminadas na sociedade sob a forma de socialismo utópico, anarquismo, marxismo, produz a necessidade de separar ambas as formas de pensamento e a desqualificação da cultura popular, influenciadas por tais concepções. A razão disso é muito simples: o que surge espontaneamente são as representações cotidianas (“senso comum”) e é somente quando emerge uma forma de pensamento complexo é que a distinção se torna possível. O antecessor mais antigo dessa oposição entre pensamento complexo e representações cotidianas se encontra em Platão (1974), que realizou a distinção entre doxa e logos, opinião e razão, ou, mais precisamente, o mundo das opiniões, daqueles que confundem as sombras da realidade com ela mesma, e aqueles que enxergam as luzes, os que saíram do mundo das sombras e chegaram ao mundo das luzes, os filósofos.
A oposição platônica entre doxa e logos e, posteriormente, entre ciência e senso comum, expressam a autoilusão dos ideólogos cujo elemento fundamental em sua distinção é opor o verdadeiro e o falso. A filosofia ou a ciência seriam o saber verdadeiro, a doxa ou o senso comum seriam o saber falso. Com a mudança histórica e social, as interpretações do senso comum se alteram, alguns ideólogos até o colocam como sendo um saber verdadeiro (VIANA, 2008). Contudo, o que nos interessa aqui é o fato de que as representações cotidianas antecedem o pensamento complexo, as representações complexas da realidade. Mas quando estas últimas surgem, elas buscam se distinguir das representações cotidianas. Sem dúvida, ambas as formas de representação existem, porém, o que diferencia uma da outra não é o caráter verdadeiro de uma e o caráter falso de outra. As ideologias são, por essência, falsas. As representações cotidianas, no entanto, podem ser falsas ou verdadeiras, ou como diz Marx, “reais ou ilusórias” (MARX e ENGELS, 1992). No entanto, afirmar que todas as ideologias são falsas não quer dizer que todas as representações complexas sejam falsas. A ideologia é um pensamento complexo, mas além da ideologia existe a teoria (VIANA, 2007; VIANA, 2012). A teoria, ao contrário da ideologia, é uma expressão da realidade, consciência correta da realidade, para usar expressão do jovem Lukács (1989). Essa concepção de teoria como expressão da realidade em contraposição à ideologia como falsa consciência tem suas origens em Hegel (GOMBIM, 1972) e se manifesta em Marx[1] e posteriormente em Korsch (1977), sem, no entanto, promover uma elaboração mais estruturada sobre isso.
Marx não elaborou nenhuma teoria das diversas formas de representações de modo aprofundado. Mas fica claro em A Ideologia Alemã e em O Capital, que ele concebia a existência de um pensamento complexo, a ideologia e a teoria, e formas de pensamento não complexas. O pensamento complexo pode ser verdadeiro (teoria ou outro termo para expressar isso, que varia em Marx) ou falso (ideologia), assim como as representações podem ser “reais” ou “ilusórias” (MARX e ENGELS, 1992). Em O Capital ele coloca que a ideologia dos economistas políticos significa, na verdade, a sistematização das representações cotidianas (ele usa a expressão “concepções cotidianas”) dos agentes do processo de produção (capitalistas, gerentes, proletários). No entanto, Marx dedicou análises mais aprofundadas às ideologias, contra a qual surge a teoria, ou seja, o marxismo, e à realidade concreta e não aprofundou suas reflexões sobre as representações cotidianas.
As representações cotidianas podem ser definidas como o conjunto das ideias ou concepções que as pessoas produzem na sua vida cotidiana, reproduzindo sua estrutura: a simplicidade, regularidade e naturalidade (VIANA, 2008). Aqui nos interessa o seu aspecto que lhe distingue do pensamento complexo: a simplicidade. As representações cotidianas são produzidas por todos aqueles que não são especialistas no trabalho intelectual e por estes também quando se trata de questões fora de sua formação especializada[2] ou no conjunto do seu pensamento antes de tornarem-se trabalhadores intelectuais especializados. Elas fornecem explicações simples da realidade. Não possuem a complexidade, a coerência e sistematização (ou articulação, no caso da teoria) do pensamento complexo. Seu conteúdo concreto, no entanto, ao contrário do que algumas concepções ideológicas afirmam, pode ser falso ou verdadeiro e não apenas falso ou apenas verdadeiro (VIANA, 2008). Obviamente que seu conteúdo verdadeiro possui limites, pois falta-lhe estruturação e aprofundamento. As representações cotidianas verdadeiras são mais raras, estão geralmente ligadas a ascensão das lutas das classes exploradas e muitas vezes se mesclam com outras formas de pensamento. Elas não conseguem possuir a estruturação, articulação, aprofundamento e complexidade da teoria.
Contudo, o nosso interesse fundamental não são as representações cotidianas em geral e sim o imaginário, as representações cotidianas falsas, ilusórias. Desta forma, o conceito de imaginário expressa as representações cotidianas ilusórias, ou seja, carrega em si todas as características das representações cotidianas e tem como elemento distintivo o seu caráter ilusório e por isso se aproxima da ideologia. O imaginário compartilha com a ideologia o seu conteúdo ilusório, embora se distinga dela por sua simplicidade em comparação com a complexidade do pensamento ideológico. O seu conteúdo falso é mais facilmente criticado e percebido do que no caso das ideologias. O imaginário e a ideologia são formas de consciência ilusória, naturalizam o que é histórico e social, invertem a realidade. No entanto, o que temos aqui são semelhanças e diferenças entre imaginário e ideologia. É importante analisar as relações concretas entre ambas as formas de consciência ilusória, pois na realidade concreta elas convivem e se influenciam reciprocamente. A partir de agora analisaremos tal relação, que pode ocorrer sob duas formas principais, a saber: a passagem do imaginário para a ideologia e o inverso, a passagem da ideologia para o imaginário. Vamos abordar as duas formas, mas focalizaremos o último caso, já que é este o menos tratado geralmente.
Do Simples ao Complexo: A Produção de Ideologia
A produção da ideologia tem como ponto de partida as relações sociais concretas e as representações cotidianas ilusórias produzidas na sociedade, bem como os valores, sentimentos, interesses, das classes sociais existentes. O imaginário, portanto, é uma das fontes das ideologias. Marx expressou isso muito bem ao dizer que os economistas sistematizam as concepções cotidianas dos agentes do processo de produção, dando-lhe o caráter científico, sistemático. A transformação do imaginário em ideologia pressupõe aqueles que irão realizar tal processo, os ideólogos, bem como o processo de sistematização das representações cotidianas.
Isso é mais compreensível ao recordamos um fenômeno determinado e suas interpretações. Se os indivíduos observam o aparecimento do sol e seu desaparecimento no horizonte, então pode criar a representação ilusória de que ele se move. Se isso é sistematizado, torna-se ideologia. Aristóteles foi o primeiro a dar esse passo e Cláudius Ptolomeu aprofundou e deu forma ideológica para essa concepção. Se já na Grécia antiga existiam aqueles que discordavam, como Aristarco de Samos, a concepção dominante era a que povoava o imaginário e, posteriormente, as ideologias dominantes, até chegar a Galileu e Bruno, quando foram refutadas de forma mais estruturada e abriu caminho para sua superação. Contudo, essas duas posições não surgiram apenas da passagem das representações cotidianas para o pensamento complexo, mas também dos interesses, valores, processos sociais existentes em sua época.
O processo de produção da ideologia, no entanto, emerge a partir de uma fonte de inspiração que lhe é anterior e, por conseguinte, o imaginário é uma de suas determinações. Sem dúvida, numa época dominada pelas ideologias, a constituição de novas ideologias se faz a partir do desenvolvimento, reformulação, mescla, das já existentes, mas para o caso do ideólogo como indivíduo, ele primeiro se formou no mundo das representações cotidianas, do imaginário que é dominante, para inclusive se adequar, convencer, escolher, determinada ideologia anterior para produzir a sua própria[3]. A produção de ideologias, portanto, é marcada por um processo progressivo de passagem do imaginário, as ilusões simplistas, para o pensamento complexo do mundo ideológico, as ilusões sistematizadas.
Do Complexo ao Simples: A Produção de Ideologemas
O processo de constituição do imaginário é distinto. Sem dúvida, as representações cotidianas, ilusórias ou verdadeiras, antecedem o pensamento complexo, tanto na história da humanidade quanto na história dos indivíduos. Ninguém nasce filósofo, cientista ou teólogo. Contudo, em certo momento da história da humanidade, emerge a ideologia e essa para a influenciar as representações cotidianas, de forma mais ou menos intensa, abarcando um número maior ou menor de pessoas, dependendo da época e sociedade. A questão é que, com a sociedade capitalista, esse processo adquire contornos específicos, por diversos motivos, tal como a emergência da ciência enquanto forma dominante de ideologia dominante (superando a supremacia da filosofia e da teologia, que sofrem um processo de marginalização ou subordinação à forma dominante) e sua expansão para domínios especializados e conjunto de atividades sociais, popularização, processo de racionalização e burocratização da sociedade como um todo. É neste contexto que vamos abordar a questão da passagem das ilusões complexificadas, da ideologia, para as ilusões simplistas.
Marx não abordou esse processo e poucos foram os que se atentaram para isso. Sem dúvida, isso vai ocorrer com maior incidência num certo momento histórico, que é em determinado nível de desenvolvimento da sociedade capitalista. Esse processo possui diversas determinações. Sem dúvida, a própria consolidação da ciência é uma precondição para isso. O seu domínio temático, ou seja, os temas e fenômenos que abarca também são fundamentais. Dentre as ciências, as que mais exercem influência na população são as humanas, especialmente a psicologia, que apresenta uma explicação dos comportamentos individuais numa sociedade individualista. Em menor grau, as demais ciências humanas, tal como a geografia, sociologia, ciência política, etc., influenciam as representações cotidianas na sociedade capitalista. Isso começa no século 19, especialmente com uma certa influência da psicologia, sociologia, e de outras formas de pensamento complexo, como o marxismo, a filosofia, etc. Entre as ciências naturais, a biologia, especialmente a ideologia darwinista, acaba tendo um maior impacto na sociedade, tanto por causa do domínio temático quanto por seu caráter político que se opunha ao pensamento religioso e, ainda, por sua influência nas ciências humanas nascentes.
Essa influência aumenta após a Segunda Guerra Mundial, especialmente com o crescimento do mercado editorial, das universidades, dos meios oligopolistas de comunicação em geral. É nesse contexto que ocorre a primeira reflexão mais sistematizada sobre tal fenômeno, com o estudo de Serge Moscovici (1977) sobre “as representações sociais da psicanálise”. A escolha da psicanálise não foi gratuita, pois a sua presença nos meios oligopolistas de comunicação e sua popularização era evidente. Contudo, a análise de Moscovici apresenta alguns elementos interessantes, mas em sua totalidade é insuficiente. De qualquer forma, foi um primeiro passo para a reflexão sobre a relação entre ideologia e imaginário no sentido da assimilação do pensamento complexo pelas representações cotidianas.
Uma característica desse processo é a simplificação que tal assimilação promove. Essa simplificação não significa apenas tornar simples, pois geralmente também deforma o pensamento complexo. Assim como a ideia de Darwin foi deformada no sentido de se acreditar que ele afirmou que o homem descende do macaco, também as ideias de Freud e dos psicanalistas (que inclusive não é diferenciado nas representações cotidianas, que, na maioria dos casos, desconhecem as diversas e às vezes antagônicas concepções psicanalíticas) são simplificadas e deformadas[4].
O processo de assimilação das ideologias pelo imaginário é realizado geralmente sob a forma de produção de ideologemas. A palavra “ideologema” já foi utilizada em sentidos diferentes por Bakhtin (1990) e Kristeva (1978), apesar de algumas semelhanças, e não é nosso interesse aqui discuti-los. Entendemos ideologema sob forma distinta, com um novo significado. Um ideologema é um fragmento de uma ideologia, seja um construto (falso conceito) isolado, seja uma parte mais ampla ou uma síntese simplificadora de uma determinada concepção ideológica ou, ainda, a redução de uma ideologia a um chavão ou uma ideia-chave.
Em outras palavras, um ideologema é uma mutação formal de uma ideologia no sentido de promover sua simplificação e redução, transformando um fragmento da mesma em mensagem ou elemento principal de um discurso, texto, mensagem, etc. Esse fragmento nunca é uma ideologia em sua totalidade, pois, se assim fosse, teria que reproduzir o conjunto de ideias que a constitui e seria complexo, o que não só pressupõe compreensão da mesma (e esse domínio é raro em não especialistas), como também espaço e condições para sua reprodução.
Dificilmente em uma história em quadrinhos, num filme, numa coluna de jornal, numa poesia, para citar alguns poucos exemplos, é possível reproduzir uma ideologia sem realizar essa processo de simplificação que gera o ideologema. Se até mesmo os “ideólogos passivos” (meros reprodutores) possuem dificuldades em resumir em obras de divulgação científica ou em aulas as ideologias sem provocar uma forte simplificação e em grande parte das vezes sua deformação, então isso é mais difícil e comum no caso daqueles que trabalham com as representações cotidianas.
Assim, em um filme se pode repassar a concepção elitista de arte, reproduzindo determinada ideologia, mas sob a forma de ideologema. A compreensão desse processo fica mais fácil com um exemplo concreto de manifestação ideologêmica no cinema, o nosso próximo passo.
"Teoria Mortal": O Ideologema que Mata

O filme "Teoria Mortal" (Kill Theory, Chris Moore, EUA, 2009) tem como ponto de partida um ideologema (ou uma "teoria", tal como é colocado no título do filme). A importância do ideologema no referido filme faz dele um excelente caso para analisar a reprodução fílmica de ideologemas, bem como para outros tipos de ficção. Geralmente, os ideologemas estão embutidos no universo ficcional e não são facilmente perceptíveis, assim como os valores, sentimentos, inconsciente, etc. Por isso o filme "Teoria Mortal" acaba assumindo grande importância ao tomar como ponto de partida e motivação do psicopata um ideologema. Obviamente, é apenas a motivação consciente do psicopata, pois são seus problemas psíquicos que estão na origem do ato, sendo o ideologema apenas uma racionalização, no sentido freudiano do termo, e autojustificativa.
Qual ideologema é exposto no filme? O filme inicia com a história do assassino. Ele, em suas conversas com o psicólogo, trava um debate sobre o que o levou à prisão. Ele escalava uma montanha com amigos e, em certa altura, teve que decidir entre salvar sua vida cortando a corda que o ligava aos demais, o que os faria cair e morrer, ou continuar e ser solidário, e provavelmente morrer junto com eles. Após realizar este ato e ser preso, ele afirma que todos fazem isso. Ao ser libertado, o psicólogo pergunta se ele ainda acredita nisso e a resposta é que não.
A cena muda radicalmente, passando para jovens que foram para uma casa de verão para comemorar o fato de terem terminado a graduação. Porém, logo aparece o assassino, que busca colocá-los na mesma situação que ele teve para comprovar sua tese (ideologema) de que todos os seres humanos lutam pela sobrevivência e, seguindo seus instintos, podem matar até os amigos. A casa é totalmente isolada e não havia comunicação e ele exige que eles matem uns aos outros e o sobrevivente que restar até as 06 horas da manhã, sairá vivo, mas, se nesse horário ainda estiver mais de um vivo, ele matará a todos. A trama do filme gira em torno disso, mostrando as tentativas de fuga, conflitos, etc.
O ideologema em questão é fragmento comum de várias ideologias que apontam para o determinismo biológico, mas tem como base a ideologia darwinista e sua tese da luta pela sobrevivência e a sobrevivência dos mais aptos[5]. A competição e a luta intraespécie é naturalizada e reforçada por essa ideologia e pela sua vulgarização e popularização, na qual determinados ideologemas podem ser identificados em frases, tal como "luta pela vida", "lei do mais forte", etc.
A princípio, o ideologema parece ser confirmado, pois os grandes amigos, que no início da noite festejavam e o filho do dono da casa afirmou que amava a todos, logo entram em conflito, e alguns buscam se salvar independentemente dos demais, até que, no final, começam a entrar no jogo do assassino e tentam matar os amigos para escapar da morte. Porém, o final do filme acaba sendo marcado por um ato de solidariedade, o que refuta o ideologema. Nesse sentido, o filme não é ideologêmico, pois realiza a refutação de ideologema. E ainda mostra que um ideologema, tal como as ideologias, é mobilizador, produz ação, interfere na realidade[6].
Considerações finais
A sociedade capitalista é pródiga em produzir ilusões. O capitalismo é a sociedade das ilusões. Claro que a racionalização e a pretensa crença nos avanços da ciência e da tecnologia, entre outros aspectos, produzem uma ilusão de superação das ilusões. A ilusão sobre as ilusões é a mais problemática das ilusões. Obviamente que o esforço intelectual, a pesquisa, a reflexão, são importantes para tal superação, mas insuficientes, se não partir de uma perspectiva que tenha como necessidade, valor, objetivo, a superação das ilusões e, principalmente, se as relações sociais que estão na base da sociedade das ilusões for superada. É por isso que Marx afirmou que “a exigência de superar as ilusões sobre sua condição é a exigência de superar uma condição que necessita de ilusões” (MARX, 1968). 
Abordamos as duas principais formas de ilusão na sociedade contemporânea, o imaginário e a ideologia, bem como a transformação de uma em outra. Em obra anterior já havíamos colocado uma discussão sobre essa questão (VIANA, 2008), mas sentimos a necessidade de voltar ao assunto para esclarecer alguns aspectos que não estavam desenvolvidos nem percebidos naquele momento, tal como a existência dos ideologemas e este foi o foco principal de nossa análise. Para esclarecer melhor o significado do conceito de ideologema, partimos de um exemplo de um filme que manifestou um determinado ideologema. No caso, escolhemos um filme que manifestava um ideologema sem, no entanto, afirmá-lo. Isso mostra uma das possibilidades de manifestação de ideologemas na produção artística, pois ela pode ser a posição expressa daqueles que produzem uma determinada obra artística ou pode ser apresentada para ser refutada. O mais comum, contudo, é que os ideologemas sejam o ponto de vista dos produtores de cultura e obras artísticas, pois está de acordo com as representações cotidianas dominantes, as ideias dominantes.
Enfim, o presente texto abre um espaço para uma discussão que deve ser aprofundada e que apenas lança uma reflexão inicial que deve ter aprofundamentos e desdobramentos, visando ampliar a compreensão do imaginário, das ideologias e dos ideologemas.
Referências


BAKHTIN, Mikhail. Questões de Literatura e de Estética: A teoria do romance. São Paulo: HUCITEC, 1990.

CHAUÍ, Marilena. O Que é Ideologia. 32ª Edição, São Paulo: Brasiliense, 1992.

GOMBIM, Richard. As Origens do Esquerdismo. Porto: Dom Quixote, 1972.

GRAMSCI, Antonio. Concepção Dialética da História. 7ª edição, Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1989.

KORSCH, Karl. Marxismo e Filosofia. Porto: Afrontamento, 1977.

KRISTEVA, Júlia. Semiótica do Romance. 2ª edição, Lisboa: Arcádia, 1978.

LUKÁCS, Georg. História e Consciência de Classe. 2ª Edição, Rio de Janeiro, Elfos, 1989.

MARX, Karl. A Miséria da Filosofia. 2a edição, São Paulo: Global, 1989.

MARX, Karl. O Capital. 5 Vols. 3ª Edição, São Paulo: Nova Cultural, 1988.

MARX, Karl e ENGELS, Friedrich. A Ideologia Alemã (Feuerbach). São Paulo: Hucitec, 1992.

MARX, Karl. Critica de la Filosofia del Derecho de Hegel. Notas Aclaratorias de Rodolfo Mondolfo. Buenos Aires: Ediciones Nuevas, 1968.

MOSCOVICI, Serge. A Representação Social da Psicanálise. Rio de Janeiro: Zahar, 1977.

PLATÃO. A República. São Paulo: Hemus, 1974.

PLATÃO. Protágoras. Porto Alegre: Globo, 1977.

VIANA, Nildo. A Consciência da História. Ensaios Sobre o Materialismo Histórico-Dialético. 2ª edição, Rio de Janeiro: Achiamé, 2007.

VIANA, Nildo. Cérebro e Ideologia. Uma Crítica ao Determinismo Cerebral. Jundiaí: Paco Editorial, 2010.

VIANA, Nildo. Darwin Nu. Revista Espaço Acadêmico. num. 95, Abril de 2009. Disponível em: http://www.espacoacademico.com.br/095/95esp_viana.htm acessado em 30 de abril de 2009.

VIANA, Nildo. Mito e Ideologia. Cronos. Revista do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais/UFRN, Vol. 12, num. 01, jan./jun. 2011. Disponível em: http://www.periodicos.ufrn.br/index.php/cronos/article/view/2122/pdf acessado em: 25 de abril de 2013.

VIANA, Nildo. O Que é Marxismo? Florianópolis: Bookess, 2012.

VIANA, Nildo. Senso Comum, Representações Sociais e Representações Cotidianas. Bauru: Edusc, 2008.

Artigo publicado originalmente em:
VIANA, Nildo. Imaginário e Ideologia. As Ilusões nas Representações Cotidianas e Pensamento Complexo. Revista Espaço Livre, Vol. 08, num. 15, jan./jun. de 2013.



*Professor da Faculdade de Ciências Sociais da Universidade Federal de Goiás e Doutor em Sociologia pela Universidade de Brasília.

[1] Marx, ao realizar a crítica das ideologias, produz um pensamento complexo sobre a realidade e a isto forneceu alguns nomes, como “socialismo científico” (utilizado poucas vezes e apenas para se contrapor ao socialismo utópico), “ciência” (usando a palavra no sentido hegeliano e não no sentido habitual e dominante, nem no que usamos aqui) e “teoria”. Em alguns momentos Marx explicita que a ciência é uma ideologia. Essa frase, por exemplo, deixa entrever o caráter ideológico da ciência e a oposição entre ela e a teoria: “assim como os economistas são os representantes científicos da classe burguesa, os socialistas e os comunistas são os teóricos da classe proletária (MARX, 1989, p. 118).”

[2] Uma análise mais profunda das representações cotidianas não podem ser aqui desenvolvida e podem ser vistas na obra Senso Comum, Representações Sociais e Representações Cotidianas (VIANA, 2008).

[3]Claro que aqui enfatizamos o que Marx denominou “ideólogos ativos”, os produtores de ideologias, e não os “ideólogos passivos”, consumidores e reprodutores (MARX e ENGELS, 1992), embora também se aplique a estes quando eles “escolhem” entre as ideologias existentes.

[4] Sem dúvida, esse processo também ocorre com o marxismo, ou seja, com a teoria. A apropriação do marxismo pelas representações cotidianas é um processo de simplificação e deformação, o que é reforçado pela produção ideológica que tem o interesse em fazer isso para assim refutá-lo mais facilmente. Contudo, esta relação será abordada em outro momento, dedicado ao tratamento da produção de teoremas e da deformação do marxismo por sua simplificação.

[5] Sobre darwinismo, confira Viana (2009).

[6] Em outra oportunidade apresentamos uma análise mais desenvolvida sobre caráter mobilizador da ideologia (VIANA, 2010), o que também vale para o ideologema e através dele ela se torna ainda mais mobilizadora.

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