sábado, 14 de setembro de 2013

A MÁGICA DE HOBSBAWM OU O PSEUDOMARXISMO EM DEFESA DO CAPITALISMO



A MÁGICA DE HOBSBAWM OU O PSEUDOMARXISMO EM DEFESA DO CAPITALISMO

Nildo Viana


Recentemente o historiador Eric Hobsbawm produziu um artigo em que aborda o que ele denomina o fracasso do socialismo e a quebra do capitalismo, apresentando uma possível saída para esta situação. Trata-se de um breve artigo publicado em The Guardian, jornal inglês (Hobsbawm, 2009).

Abaixo iremos desenvolver uma polêmica em torno do referido texto, devido sua base teórico-metodológica, os valores e concepções incorporados no texto, suas conseqüências práticas e políticas. Em textos polêmicos, é comum se utilizar determinados recursos, entre eles a ironia, além de outros recursos. Um texto polêmico, também, pode se distanciar – e é o que ocorre no presente caso – dos cânones acadêmicos de escrita e debate, pois na guerra (polêmica é um termo derivado de pólemos, palavra grega que significa guerra) não se pode seguir estruturas formais fixas, neutralidade e insensibilidade. Neste sentido, retomamos Karl Marx:

“Guerra ao estado de coisas alemão! É certo que se encontram abaixo do nível da história, abaixo de toda critica, mas continua a ser, apesar disto, objeto de crítica, assim como o criminoso, por não se achar abaixo do nível da humanidade, não deixa de ser objeto do verdugo. Na luta contra eles, a crítica não é uma paixão do cérebro, mas o cérebro da paixão. Não é o bisturi anatômico, mas uma arma. Seu objeto é o adversário, que não procura refutar, mas destruir. O espírito daquelas situações já foi refutado. Não são dignas de ser lembradas; devem ser desprezadas como existências proscritas. Não há necessidade da crítica esclarecer este objeto frente a si mesma, pois dele já não se ocupa. Esta crítica não se conduz como um fim em si, mas, simplesmente, como um meio. Seu sentimento essencial é a indignação; sua tarefa essencial, a denúncia” (Marx, 1978, p. 3-4).

Assim, a motivação do presente texto é a indignação e sua tarefa é a denúncia. Por isso é um texto polêmico e realiza o que Marx denominou “crítica desapiedada do existente” (Marx, e Engels, 1979). A vã e fria neutralidade não se encontra aqui e isto está de acordo com a teoria que está em sua base e significa a coerência intelectual do autor, ao contrário de outros que se dizem “marxistas” e preferem realizar a defesa do indefensável, tudo para manter as aparências e deixar intacto o edifício das ideologias e o compromisso com as instituições conservadoras e ainda, buscar espaço nas mesmas. Eis aqui um problema grave da esfera acadêmica: as disputas no mundo acadêmico são em torno de questões que podem ser muito abstratas e distantes, mas que, no entanto, revela, no fundo, os interesses dos que estão na disputa. A defesa de um autor é sempre uma autodefesa. Valorar um determinado autor que é objeto de estudo é se autovalorar, pois assim se pesquisa algo relevante. A crítica a um autor pode parecer – e muitas vezes é – apenas uma competição na esfera científica para conseguir reconhecimento, sucesso, status, e assim por diante. Bourdieu fez um estudo interessante sobre isso (Bourdieu, 1994).

Porém, o problema reside em não ultrapassar Bourdieu, ou seja, não perceber que na esfera científica (ou, como ele diz, “campo científico”) pode existir (tal como em outros campos, o que está ausente da análise do sociólogo francês), aqueles que não estão na competição interna com objetivos internos e sim pertencem à esfera profissionalmente, mas não em sua mentalidade e projetos. Estes também lutam. E por qual motivo? Para os representantes da esfera acadêmica e científica, que a vivem sob a forma de imanência, isso é um absurdo e algo impossível. Se alguém faz alguma crítica ou defesa, é competição acadêmica, pois é assim que os referidos analistas fazem, são e pensam. É por isso que é preciso ir além de Bourdieu e resgatar Marx, retomando a ideia de totalidade e observando que além das diversas formas de competição em diversas esferas das relações sociais (expressões da divisão social do trabalho), existem as lutas de classes, que buscam não apenas um espaço institucional e realizar “práticas institucionais” e sim a superação da sociedade existente, o que pressupõe a superação da própria esfera à qual se pertence e com a qual não se identifica. Portanto, além das lutas dentro da esfera, as mais comuns e que não ultrapassam o nível da competição social (sociabilidade capitalista), existem as lutas contra a esfera, ou seja, anti-esféricas, que negam a divisão social do trabalho.

Depois desta breve explicação, ainda resta, antes de começar, um esclarecimento sobre a crítica ao texto realizada a seguir. Obviamente, que muitos zelosos defensores de Hobsbawm, poderão argumentar de que se trata de um mero artigo de jornal e, portanto, sem muito desenvolvimento e fundamentação (alguns podem até reconhecer que é fraco e equivocado). É um texto de jornal, sem dúvida, que foi reproduzido em diversos sites da internet e que, sendo assim, obviamente, não poderia ter certo nível de desenvolvimento e profundidade. Porém, o que se critica não é a falta de desenvolvimento e profundidade, ou seja, o que não está presente no texto e sim o que está presente nele e que, portanto, apesar dos limites de tamanho e possibilidade de desenvolvimento, foi dito. Da mesma forma, se eu fosse o autor do texto e tendo o mesmo espaço e veículo, escreveria algo radicalmente diferente. O fato de ser um artigo para jornal não impediria Hobsbawm de desenvolver idéias fundamentais, e não o faz por não tê-las, devido sua posição. E é exatamente a sua posição que é criticada aqui. Depois desse esclarecimento, passemos para a análise do texto.

O texto de Hobsbawm publicado no The Guardian foi traduzido e publicado no Brasil no site Carta Maior e reproduzido em inúmeros sites. Em quase todos Hobsbawm é apresentado como “historiador marxista”. Não deixa de ser curioso como o rótulo de “marxista” é aplicado tão facilmente a pessoas que não compartilham nem sequer as teses fundamentais do marxismo, muito menos sua totalidade ou seu objetivo final: a autogestão social. Este é o caso de um conjunto de pensadores e pesquisadores acadêmicos, tal como o famoso historiador Eric J. Hobsbawn, que sempre evitou discutir a história contemporânea porque discordava da versão oficial do seu partido e não tinha coragem suficiente para desafiá-lo. Atitude nem um pouco marxista, pois a covardia não faz parte daqueles que querem “duvidar de tudo” e realizar a “crítica desapiedada do existente”. Assim, Hobsbawm poderia ser considerado marxista? Sem dúvida, para qualificar ou não determinado autor como marxista é necessário definir o que é o marxismo. O marxismo não é outra coisa senão a “expressão teórica do movimento revolucionário do proletariado” (Korsch, 2008; Viana, 2008). E esta teoria, inaugurada por Marx e desenvolvida por alguns outros teóricos, possui determinadas características essenciais que, uma vez ausentes, marcam o caráter não-marxista mesmo que aparentemente e superficialmente o seja. As tendências que não são expressão teórica de tal movimento, mesmo que se digam “marxistas”, não podem ser assim consideradas. Seria mais adequado, nesses casos, utilizar a expressão pseudomarxismo (Viana, 2007). Neste sentido, afirmar que um determinado autor é pseudomarxista não é, como alguns pensam, uma ofensa, é apenas a constatação de que não é marxista e diz sê-lo e que, portanto, é outra coisa. Essa outra coisa é variada, pode ser stalinismo, por exemplo. O stalinismo é um pseudomarxismo, mas nem todo pseudomarxismo é stalinismo, já que ele assume várias formas. A palavra pseudomarxismo, portanto, não é ofensa e sim um termo que está ligado a vários outros termos, formando um universo conceitual, uma teoria, e, por conseguinte, é uma discussão fundamentada e coerente e não mero adjetivo pejorativo.

Neste sentido, a obra de Hobsbawm não pode ser considerada marxista. Isto está expresso no referido artigo de Hobsbawm. E o fato de ser um artigo de jornal não muda isto, pois um texto marxista, por mais resumido e pouco desenvolvido que seja, apresenta os aspectos essenciais desta forma de pensamento e, portanto, não há como sair disso. Abaixo transcrevemos alguns trechos e depois fazemos um comentário sobre seu conteúdo.

O título do texto de Hobsbawm é sugestivo (“Socialismo fracassou, capitalismo quebrou: o que vem a seguir?”), embora possa não ser de Hobsbawm e sim do jornal ou mesmo do tradutor. Em primeiro lugar, reproduz a ideologia dominante e a idéia de qualificar os regimes ditatoriais do capitalismo estatal (União Soviética, China, Cuba, Leste Europeu, etc.) como socialismo. Além disso, coloca uma oposição entre um capitalismo estatizante (e, na ideologia de Hobsbawm, “pública”) e o capitalismo privado, sendo que ambos mostraram suas deficiências e partir disso sai o coelho da cartola: uma solução mista: mais Estado menos capital.

A fórmula bolchevista (capitalista estatal) é + Estado - Capital, a fórmula liberal/neoliberal é + Capital - Estado e estas duas fórmulas fracassaram, então resta a terceira fórmula, a social-democrata/trabalhista: Capital + Estado, ou seja, a manutenção e equilíbrio dos dois elementos. Todas as três formas se movimentam dentro da lógica capitalista e da mentalidade burguesa, ou seja, não ultrapassam um pobre realismo político e consciência coisificada e manipuladora, que, diante da realidade, apenas consegue manipular seus elementos, mas nunca pensar para além deles.

“Seja qual for o logotipo ideológico que adotemos, o deslocamento do mercado livre para a ação pública deve ser maior do que os políticos imaginam. O século XX já ficou para trás, mas ainda não aprendemos a viver no século XXI, ou ao menos pensá-lo de um modo apropriado. Não deveria ser tão difícil como parece, dado que a idéia básica que dominou a economia e a política no século passado desapareceu, claramente, pelo sumidouro da história. O que tínhamos era um modo de pensar as modernas economias industriais – em realidade todas as economias –, em termos de dois opostos mutuamente excludentes: capitalismo ou socialismo” (Hobsbawm, 2009).

Outro coelho sai da cartola aqui. Aliás, dois. O primeiro coelho que sai da cartola mágica de Hobsbawn, é para resolver a atual crise financeira, é “mudar o modo de pensar”, indo além da ênfase no livre mercado ou no monopólio estatal. Depois deste coelho mágico sair da cartola, fica fácil pensar que, “mudando o modo de pensar”, os políticos (profissionais, que fazem parte desta realidade e Hobsbawn jamais se permitiria abolir algo, mas tão somente dispô-lo de forma diferente) vão descobrir que o peso da ação pública deve ser maior do que “imaginam”. O primeiro coelho é “mudar o modo de pensar” (claro que uma mudança bem moderada, no qual o mais e o menos entre capital e estado é re-equilibrado e nunca abolido) e o segundo coelho é “o voluntarismo dos políticos profissionais” para colocar isto em prática (mais uma mudança de quantidade, e nunca abolição dos burocratas e políticos profissionais).

Mas, se pensarmos bem, veremos um terceiro coelho saltitante que foi originado na cabeça mágica de Hobsbawm e que, transferido magicamente para a cartola, sai como um rebento no mundo jornalístico: o problema do mundo atual é de mera percepção e boa vontade, e assim viveremos no “melhor dos mundos possíveis”, segundo o historiador panglossiano pseudomarxista. Se fosse marxista, saberia que além da “percepção” e “boa vontade”, há a acumulação de capital e sua dinâmica, os interesses de classes, e a impossibilidade de voltar ao mundo do Estado integracionista (“bem estar social”, providencial, keynesiano), pois isto entra em contradição com a necessidade de maximização do lucro e se houvesse algum governo estúpido o bastante para fazê-lo, iria provocar um aprofundamento dos problemas da acumulação capitalista na atualidade.

Mas vejamos outras pérolas que sai da cabeça mágica deste Houdini pseudomarxista:

“A impotência, por conseguinte, ameaça tanto os que acreditam em um capitalismo de mercado, puro e desestatizado, uma espécie de anarquismo burguês, quanto os que crêem em um socialismo planificado e descontaminado da busca por lucros. Ambos estão quebrados. O futuro, como o presente e o passado, pertence às economias mistas nas quais o público e o privado estejam mutuamente vinculados de uma ou outra maneira. Mas como? Este é o problema que está colocado diante de nós hoje, em particular para a gente de esquerda” (Hobsbawm, 2009).

A magia das palavras se manifesta novamente: uma vez que o privatismo e o estatismo (capitalismo privado e capitalismo de Estado, para não cedermos ao canto de sereia dos construtos/palavras ideologêmicos de Hobsbawn e seu efeito mágico), o que resta é misturar os dois. Hobsbawn coloca sua cartola mágica em cima da mesa, joga um punhado de estrume e um copo de fel e depois retira um delicioso suco de laranja que oferece para o seu público, principalmente o mais crédulo, que terá coragem de experimentar esta mistura explosiva.

O nosso ilusionista não se cansa de nos enganar com seus truques e diz que este tipo de mágica é o problema que se coloca para a esquerda... Porém, como é tudo ilusão, então sua proposta é, na verdade, a saída para a pseudo-esquerda travestida de marxista, ou seja, a social-democracia, que, magicamente, ele quer ressuscitar. Mas nada é impossível para um prestigiditador como ele. Até acusa a social-democracia de se comprometer com o neoliberalismo, palavra que desapareceu em seu texto, o que é comum para um mágico.

Ele continua incansavelmente com seus truques:

“Efetivamente, desde o momento da queda da URSS até hoje não recordo nenhum partido ou líder que denunciasse o capitalismo como algo inaceitável. E nenhum esteve tão ligado a sua sorte como o New Labour, o novo trabalhismo britânico. Em suas políticas econômicas, tanto Tony Blair como Gordon Brown (este até outubro de 2008) podiam ser qualificados sem nenhum exagero como Thatchers com calças. O mesmo se aplica ao Partido Democrata, nos Estados Unidos” (Hobsbawm, 2009).

O que ele diz neste trecho é que todo mundo virou neoliberal, se bem que essa palavra foi magicamente transferida para outra dimensão e virou: “Thatchers com calças”. Esse foi o problema do trabalhismo inglês, ou seja, não foi a impossibilidade de manter o Estado Integracionista e sim seguir as idéias de Thatcher (em outra dimensão: neoliberalismo). E o capitalismo agora já não é mais inaceitável, pois, desde a queda da URSS nenhum líder partidário, nenhum burocrata, aparece na memória de Hobsbawm, para dizer o contrário e, portanto, ele se torna aceitável. Eis o critério de Hobsbawm.

Porém, neste mundo mágico, tudo é possível, inclusive capitalismo com “distribuição equitativa”:

“A idéia básica do novo trabalhismo, desde 1950, era que o socialismo era desnecessário e que se podia confiar no sistema capitalista para fazer florescer e gerar mais riqueza do que em qualquer outro sistema. Tudo o que os socialistas tinham que fazer era garantir uma distribuição eqüitativa”.

Portanto, “mais que qualquer outro sistema”, o capitalismo poderia fazer florescer e gerar mais riquezas. A mágica de Hobsbawn aqui é não dizer para quem, como e por quê... Sem dúvida, com sua arte do desaparecimento, Hobsbawn fez desaparecer o fato de que o capitalismo hoje produz mais mercadorias (produtos, riquezas, seja qual o nome que se queira dar a bens materiais e também culturais) como nunca antes visto na história da humanidade e que, ao mesmo tempo, nunca houve na humanidade um índice tão grande de fome no mundo. Outra mágica de Hobsbawn: ele consegue se transformar no ministro brasileiro dos anos 1970, durante da ditadura militar, Delfim Neto: “vamos fazer o bolo crescer, depois a gente distribui”!! O mundo está cheio de mágicos!!! E assim eles fazem o socialismo se tornar desnecessário, já que o capitalismo produz mais riquezas que qualquer sistema, inclusive o socialismo. Basta garantir distribuição equitativa e pronto.

Porém, as mágicas não param por aí. O trabalhismo estava certo, é possível o capitalismo crescer e distribuir as riquezas de forma mais equitativa. Isso, porém, não aconteceu... e é aí que aparece o novo truque hobsbawsiano:

“Mas, desde 1970, o acelerado crescimento da globalização dificultou e atingiu fatalmente a base tradicional do Partido Trabalhista britânico e, em realidade, as políticas de ajudas e apoios de qualquer partido social democrata. Muitas pessoas, na década de 1980, consideraram que se o barco do trabalhismo não queria ir a pique, o que era uma possibilidade real, tinha que ser objeto de uma atualização”.

O pseudomarxista trabalhista tem que defender o seu partido. Ele tinha a percepção correta e o caminho adequado. O problema foi a tal globalização!! O fato dos trabalhistas terem se tornado “Thatchers com calças” desapareceu magicamente, mas tudo é possível no mundo mágico de Hobsbawn. E a palavra mágica, que curiosamente é uma das poucas magias que ele não tirou de sua cartola, pois é de domínio público de todo os ilusionistas, “globalização”, explica tudo sem explicar nada. A social-democracia fracassou. Curiosamente, Hobsbawm havia percebido que o “socialismo” (capitalismo estatal) fracassou, o privatismo (neoliberalismo) quebrou e não notou que antes dos dois a social-democracia já tinha sido implodida e agora ele quer ressuscitá-la (os seus dotes mágicos de ressuscitamento funcionam nesse caso, apenas com a social-democracia).

O trecho abaixo apenas merece ser citado pelo desaparecimento da palavra “neoliberalismo” do dicionário hobsbawsiano:

“Mas não foi. Sob o impacto do que considerou a revitalização econômica thatcherista, o New Labour, a partir de 1997, engoliu inteira a ideologia, ou melhor, a teologia, do fundamentalismo do mercado livre global. O Reino Unido desregulamentou seus mercados, vendeu suas indústrias a quem pagou mais, deixou de fabricar produtos para a exportação (ao contrário do que fizeram Alemanha, França e Suíça) e apostou todo seu dinheiro em sua conversão a centro mundial dos serviços financeiros, tornando-se também um paraíso de bilionários lavadores de dinheiro. Assim, o impacto atual da crise mundial sobre a libra e a economia britânica será provavelmente o mais catastrófico de todas as economias ocidentais e o com a recuperação mais difícil também” (Hobsbawm, 2009).

Hobsbawn avança em sua magia ao apresentar a receita de uma poção mágica:

“É possível afirmar que tudo isso já são águas passadas. Que somos livres para regressar à economia mista e que a velha caixa de ferramentas trabalhista está aí a nossa disposição – inclusive a nacionalização –, de modo que tudo o que precisamos fazer é utilizar de novo essas ferramentas que o New Labour nunca deixou de usar” (Hobsbawn, 2009).

Pronto, está tudo resolvido. Basta pegar a receita hobsbawsiana e pronto. Mas ele mesmo diz: “No entanto, essa idéia sugere que sabemos o que fazer com as ferramentas. Mas não é assim”. Sim, há problemas, pois “não sabemos como superar a crise atual. Não há ninguém, nem os governos, nem os bancos centrais, nem as instituições financeiras mundiais que saiba o que fazer: todos estão como um cego que tenta sair do labirinto tateando as paredes com todo tipo de bastões na esperança de encontrar o caminho da saída”. Sim, temos a idéia, a boa vontade e a receita. Mas, assim como houve a globalização (...) agora temos outra pedra no caminho: “a crise atual”, outras palavrinhas mágicas que tudo explicam sem nada explicar.

Mas, “por outro lado, subestimamos o persistente grau de dependência dos governos e dos responsáveis pelas políticas às receitas do livre mercado, que tanto prazer lhes proporcionaram durante décadas”. Sim, existe a receita hobsbawsiana trabalhista, mas tem o prazer da outra receita... Os governos “se livraram do pressuposto básico de que a empresa privada voltada ao lucro é sempre o melhor e mais eficaz meio de fazer as coisas?” e outras tantas perguntas que ficam no mesmo nível servem de um processo de acusação. Curiosamente, ele fala do “crescente abismo entre os bilionários e o resto da população não é tão importante, uma vez que todos os demais – exceto uma minoria de pobres – estejam um pouquinho melhor?” e mais curioso é o seu pressuposto segundo o qual a causa disso tudo é apenas uma determinada concepção política e econômica, nunca nomeada, mas é a chamada por outros mais corajosos de neoliberal.
A palavra neoliberal desaparece, mas os culpados são os neoliberais, suas concepções e práticas. A receita trabalhista estava incompleta e Hobsbawn resolve completá-la: “No entanto, uma política progressista requer algo mais que uma ruptura um pouco maior com os pressupostos econômicos e morais dos últimos 30 anos. Requer um regresso à convicção de que o crescimento econômico e a abundância que comporta são um meio, não um fim. Os fins são os efeitos que têm sobre as vidas, as possibilidades vitais e as expectativas das pessoas”. Logo, tudo é um problema de convicção que os fins são as pessoas e o crescimento é apenas um meio. Ele quer desabar a dinâmica do capitalismo com uma mera convicção e quer fazer a mágica de manter o capitalismo sem que o “crescimento econômico” (lucro) seja o fim e se torne “meio”. Eis um pseudomarxista que nada entende de capitalismo.

Os exemplos que ele cita são prova de sua maravilhosa magia: as pessoas são meios e não fins e mais exemplos apenas explicitam isso, seja sobre escola e desigualdade social ou qualquer outro. E ele continua querendo preservar suas receitas miraculosas: “a prova de uma política progressista não é privada, mas sim pública. Não importa só o aumento do lucro e do consumo dos particulares, mas sim a ampliação das oportunidades e, como diz Amartya Sen, das capacidades de todos por meio da ação coletiva”. Para Hobsbawn conseguir realizar esta mágica, no entanto, precisa de uma outra mágica anterior: fazer aparecer uma cartola gigante, do tamanho do globo terrestre, para concretizar isto.
As palavras mágicas de Hobsbawn chegam ao absurdo:

“Em nenhum âmbito isso será mais importante do que na luta contra o maior problema com que nos enfrentamos neste século: a crise do meio ambiente. Seja qual for o logotipo ideológico que adotemos, significará um deslocamento de grande alcance, do livre mercado para a ação pública, uma mudança maior do que a proposta pelo governo britânico. E, levando em conta a gravidade da crise econômica, deveria ser um deslocamento rápido. O tempo não está do nosso lado” (Hobsbawm, 2009).

Por fim, Hobsbawn quer que o lucro não seja o fim, que não haja mais destruição ambiental, que haja distribuição equitativa de renda, e que as pessoas sejam a finalidade das ações governamentais e do crescimento econômico. Uma mágica gigantesca! Capitalismo sem capitalismo!! Só mesmo o grande Hobsbawn para promover tamanho ilusionismo! Basta a poção mágica do trabalhismo hobsbawsiano e pronto!!

O mundo dos mágicos é realmente maravilhoso, pois consegue produzir acumulação de capital sem concentração e centralização, destruição ambiental, etc., tudo isto apenas com mera mudança de “idéias” e “convicções”, sem mudar as relações sociais concretas, e de governo. Ou seja, uma mágica muito prosaica no mundo da política institucional e dos políticos profissionais: basta mudar o governo que “tudo muda” (sem nada mudar! Eis a mágica!!). E dizer que esqueceu luta de classes, acumulação de capital, totalidade e diversos outros conceitos e categorias fundamentais do marxismo e necessários para entender o capitalismo se deve apenas ao tamanho do texto ou pelo fato de ser um texto jornalístico, é ser tão mágico quanto Hobsbawn. Assim, ferozes e radicais comunistas, anarquistas e autonomistas, quando escrevem textos curtos também acabariam defendendo a social-democracia... O capitalismo produz um encantamento e também humoristas assistentes de mágicos.

Porém, Hobsbawn é um bom mágico apenas com as palavras e para aqueles que não conseguem acompanhar a rapidez de seus movimentos com os copinhos e as moedas em seu ziguezague constante. No fundo, o que Hobsbawn propõe é criar vida a partir da morte, ou seja, resolver problemas insolúveis com a matéria-prima que utiliza, tal como o Doutor Frankenstein fez com sua criatura. Porém, ao criar magicamente este monstrengo, ele cria sua própria destruição, que, no fundo será a morte ambulante se alimentando da vida, como zumbis. Hobsbawn é um criador de zumbis, e se tal criatura nascesse, ou seja, um governo trabalhista estatista, devoraria seu criador, um historiador que não esconde os “limites de sua consciência burguesa” (Marx, 1988). Porém, é apenas mais um mágico no meio de tantos outros existentes por aí.

Referências:

BOURDIEU, Pierre. O Campo Científico. In: ORTIZ, Renato (org.). Bourdieu. Col. Grandes Cientistas Sociais. São Paulo, Ática, 1994.

HOBSBAWM, Eric. O Socialismo Fracassou, O Capitalismo Quebrou, o que vem a seguir? Disponível em: http://cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=15937 acessado em 18 de abril de 2009.

KORSCH, Karl. Marxismo e Filosofia. Rio de Janeiro, Eduerj, 2008.

MARX, K. e ENGELS, F. A Sagrada Família. Lisboa, Presença, 1979.

MARX, K. Introdução á Crítica da Filosofia do Direito de Hegel. São Paulo, LECH, 1979.

MARX, Karl. O Capital. Vol. 1. 3ª edição, São Paulo, Nova Cultural, 1988.

VIANA, Nildo. O Fim do Marxismo e outros Ensaios. São Paulo, Giz Editorial, 2007.


VIANA, Nildo. O que é Marxismo? Rio de Janeiro, Elo, 2008.

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