segunda-feira, 5 de agosto de 2013

RADICALISMO E HUMANISMO



RADICALISMO E HUMANISMO

Nildo Viana

Os seres humanos são capazes dos atos e discursos mais belos e, ao mesmo tempo, de concepções e atitudes mais ignóbeis. Podem agir com extrema grandeza e generosidade, por um lado, e uma extrema pequeneza e mesquinharia, por outro. Esse processo assume uma particular importância no campo da militância revolucionária, no qual o extremismo muitas vezes se confunde com radicalismo e quando isso ocorre há uma confusão entre ser revolucionário e ser sanguinário. Por isso torna-se importante discutir a relação entre humanismo e radicalismo, pois um indivíduo revolucionário deve unir as duas coisas em uma só, o que nem sempre acontece e a reflexão sobre isso pode esclarecer e ajudar a superar essa dicotomia existente em alguns casos individuais.

O objetivo de um revolucionário é, obviamente, a revolução. Sem dúvida, não se pode cair no equívoco de acreditar que todo mundo que se diz revolucionário o seja só por ter afirmado tal coisa. Não se analisa um indivíduo pela consciência que ele tem de si mesmo, já dizia Marx (1983a). Mesmo porque, o que se entende por “revolução” e “revolucionário” varia de acordo com as pessoas. Um revolucionário, no sentido aqui utilizado e que obviamente exclui muitos casos, é aquele indivíduos que tem como objetivo a revolução e compreende esta como um processo de emancipação humana via emancipação dos trabalhadores, ou, mais precisamente, do proletariado. Logo, nesse sentido exclui aqueles que pensam que uma revolução é uma tomada do poder estatal, substituição de um governo, entre outras formas de se pensar apenas no sentido de uma “revolução política”, pois a emancipação humana só pode ocorrer através de uma revolução social, ou seja, com a transformação radical do conjunto das relações sociais. Se o objetivo do revolucionário é a revolução que emancipa a humanidade em seu conjunto, então há uma base humanista nesse objetivo. Não existe, portanto, dicotomia entre o radicalismo de um revolucionário, que quer a transformação radical das relações sociais para libertar os seres humanos da exploração, dominação, opressão, e humanismo. No entanto, concretamente esta dicotomia muitas vezes aparece e é sobre isso que temos que refletir.

A palavra humanismo também pode ser entendida sob diversas formas. Não cabe aqui uma discussão conceitual e nem abordar todas as suas formas de manifestação, basta expor as duas formas básicas de humanismo existente. Uma é o humanismo romântico, ou “abstrato”, que, tal como Rousseau (1989), considera que o ser humano é “bom por natureza” e atribui tal qualidade a todos os seres humanos indistintamente, partindo desse princípio. O ser humano aqui é um valor fundamental e isso é positivo, embora problemático. Para entender o seu caráter problemático é preciso avançar até o humanismo radical, que é um humanismo concreto.

Em oposição ao abstrato (no sentido metafísico do termo), o concreto é “resultado de suas múltiplas determinações” (MARX, 1983a). Nessa concepção, o ser humano não é bom nem mau por natureza. O que caracteriza a essência humana é o trabalho e a sociabilidade, tal como Marx já apontava (MARX, 1983b; MARX, 1988; MARX e ENGELS, 1991). O ser humano é ativo. Ele, ao contrário dos demais animais, age sobre o mundo, transforma a natureza e humaniza ela e a si mesmo. Ele faz isso em associação, ou cooperação, com outros seres humanos, sendo também um ser social.  Desta forma, o trabalho teleológico consciente, a práxis, e a associação com outros seres humanos, são necessidades humanas, são parte de sua essência. No entanto, com a emergência da sociedade de classes, essa essência é negada. O trabalho e a sociabilidade são pervertidos, deturpados. O trabalho se torna alienado, dirigido por outros, fundando a exploração e a dominação e a sociabilidade se torna, devido a isso, conflituosa. No capitalismo, mais especificamente, a exploração e dominação no trabalho ocorre através da extração de mais-valor e a sociabilidade passa a ser comandada, além dos conflitos de classes, pela competição. Nesse sentido, as sociedades de classes negam a essência humana e a sociedade capitalista leva ao extremo tal negação.

Nessas sociedades, e de forma mais ampla no capitalismo, a essência humana é negada e deformada. Surgem monstruosidades, desde as praticadas por indivíduos até as coletivas, tal como se pode exemplificar pelo caso de um psicopata, no primeiro caso, e do nazismo, no segundo. Assim, o humanismo romântico é ilusório. O humanismo radical é aquele que não desconsidera a história e a negação da natureza humana no capitalismo, fonte dos desequilíbrios psíquicos, mas também não se ilude com o mundo da aparência caindo no anti-humanismo, pensando que o ser humano é “egoísta” por natureza, entendendo o processo social mais amplo fundado na luta de classes. Contudo, o humanismo radical também não confunde existência com essência, não se ilude com “empírico” e sabe que por detrás da destruição psíquica dos seres humanos e de todos os outros problemas como valores deformados, consciência coisificada, etc., a essência existe, sufocada e reprimida, mas está lá. Todo ser humano tem a necessidade psíquica de associação com outros seres humanos e realizar suas potencialidades e se isso não se concretiza, existem efeitos, inclusive os revolucionários são produtos disso. Os indivíduos revolucionários o são por manifestarem o desejo da emancipação humana, dos demais e deles mesmos, embora muitos também saibam que podem nem viver para ver isso. Sem dúvida, isso é diferente do revoltado ou do rebelde. O primeiro apenas sonha com a destruição pura e simples, no fundo não quer transformar nada, quer apenas destruir aquilo que ele identificou como sendo a causa de seus males. O rebelde é aquele que apenas questiona o que lhe atinge e ao invés de transformar radicalmente as relações sociais quer, no fundo, mudar sua posição no interior dessa sociedade, por isso é facilmente cooptado e corrompido[1].

Desta forma, o humanismo radical mantém a unidade entre humanismo e radicalismo. Como já dizia Marx, “ser radical é ir até a raiz, e a raiz, para o homem, é o próprio homem” (1977). Radicalismo sem direção não existe, é pseudorradicalismo. Não se pode gerar a libertação humana se tornando desumano. O humanismo sem radicalismo é romantismo e o “radicalismo” sem humanismo é extremismo inconsequente. O humanismo romântico gera reformismo ou sentimentalismo e o extremismo gera autoritarismo, moralismo, niilismo. Para a práxis revolucionária nem o humanismo abstrato nem o extremismo são adequados. Apenas o humanismo radical é correspondente a tal prática. O humanismo radical evita ações ingênuas derivadas do humanismo romântico, tal como pensar que numa manifestação popular durante lutas sociais radicalizadas é possível apelar para a bondade e não violência do aparato repressivo do Estado (polícia, exército). Da mesma forma, evita também a prática do terror jacobino. Tal como colocava Rosa Luxemburgo,
“A revolução proletária não precisa do terror para realizar seus fins, ela odeia e abomina o assassinato. Ela não precisa desses meios de luta porque não combate indivíduos, mas instituições, porque não entra na arena cheia de ilusões ingênuas que, perdidas, levariam a uma vingança sangrenta. Não é a tentativa desesperada de uma minoria de moldar o mundo à força, de acordo com o seu ideal, mas ação da grande massa dos milhões de homens do povo, chamada a cumprir sua missão histórica e a fazer da necessidade histórica uma realidade” (LUXEMBURGO, 1991, p. 103).
Nesse sentido, não é possível cair nos equívocos do humanismo romântico e seus derivados (sentimentalismo, pacifismo, reformismo)[2] e nem no extremismo inconsequente (autoritarismo, moralismo, niilismo, agressividade ou violência desnecessárias), tanto nos momentos revolucionários quanto nos períodos de recuo do movimento operário, pois esses dois tipos de ação apenas dificultam o avanço da luta pela transformação radical da sociedade. É por este motivo que tanto o humanismo romântico quanto o extremismo devem ser superados pelo humanismo radical.

Referências

FROMM, Erich. O Dogma de Cristo. 5ª edição, Rio de Janeiro, Zahar, 1986.

LUXEMBURG, Rosa. O Que Quer a Liga Spartacus? In: LUXEMBURG, Rosa. A Revolução Russa. Petrópolis, Vozes, 1991.

MARX, Karl e ENGELS, Friedrich. A Ideologia Alemã (Feuerbach). 3ª Edição, São Paulo, Hucitec, 1991.

MARX, Karl. Contribuição à Crítica da Economia Política. 2ª Edição, São Paulo, Martins Fontes, 1983a.

MARX, Karl. Crítica da Filosofia do Direito de Hegel. Introdução. Revista Temas de Ciências Humanas. São Paulo, Grijalbo, vol. 2, 1977.

MARX, Karl. Manuscritos Econômicos e Filosóficos. In: Fromm, E. O Conceito Marxista do Homem. 8ª Edição, Rio de Janeiro: Zahar, 1983b.

MARX, Karl. O Capital. Vol 1. 3ª Edição, São Paulo, Nova Cultural, 1988.

ROUSSEAU, Jean-Jacques. Discurso Sobre a Origem e os Fundamentos da Desigualdade entre os Homens. São Paulo: Ática, 1989.






[1] Sobre isso é interessante a discussão de Erich Fromm a respeito do “caráter rebelde” e do “caráter revolucionário”, na qual através de sua caracterologia coloca a questão da personalidade do rebelde (FROMM, 1986).
[2] A mesma Rosa Luxemburgo contesta tais ilusões: “não passa de delírio extravagante acreditar que os capitalistas se renderiam de bom grado no veredicto socialista de um parlamento, de uma Assembleia Nacional, que renunciariam tranquilamente à propriedade, ao lucro, aos privilégios da exploração. Todas as classes dominantes, com a mais tenaz energia, lutaram até o fim por seus privilégios. Os patrícios de Roma, assim como os barões feudais da Idade Média, os gentlemen ingleses, assim como os mercadores de escravos americanos, os boiardos da Valáquia, assim como os fabricantes de seda de Lyon – todos derramaram rios de sangue, caminharam sobre cadáveres, em meio a incêndios e crimes, provocaram a guerra civil e traíram seus países para defender privilégios e poder” (LUXEMBURGO, 1991, p. 104).

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