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domingo, 1 de novembro de 2026

REGIME DE ACUMULAÇÃO INTEGRAL E SUBJETIVISMO - NILDO VIANA

 


Regime de acumulação integral e Subjetivismo


Nildo Viana



Sem dúvida, muitos podem pensar que é um problema apenas “cultural”, que o subjetivismo caiu do céu e que basta mudar as ideias e a realidade se alterará. Uma doce ilusão pode gerar uma amarga realidade. O subjetivismo tem uma longa história desde o seu nascimento, mas sua manifestação contemporânea, que começa a ser gestada após a derrota da rebelião estudantil de maio de 1968, possui características específicas. O subjetivismo contemporâneo faz parte de toda uma política cultural internacional, envolvendo Estados nacionais (no início o norte-americano, mas que agora “mudou de lado” com o governo Trump), organismos internacionais (FMI, Banco Mundial, UNESCO, etc.)[1], fundações internacionais (Ford, Rockfeller, entre diversas outras), capital comunicacional (com destaque, por seu impacto na vida cotidiana, especialmente das classes superiores, para Hollywood e Netflix, mas incluindo redes de televisão, agências de notícias e milhares de outras empresas capitalistas de comunicação). Os governos neoliberais progressistas[2] lançam seus tentáculos e americanizam as esquerdas brasileiras (Lindgreen Alves, 2019). E isso tudo vai ser reproduzido pelos partidos políticos populistas, ideólogos (produtores e reprodutores), ativistas, professores, etc.

Poderíamos continuar descrevendo diversos outros elementos ou aprofundar alguns destes aspectos (tal como a expansão do neoliberalismo e seus meios de difusão ou então a expansão do conservantismo, com sua força fundada no moralismo conservador). Porém, o que interessa é que isso tudo é gerado a partir da realidade concreta, pois o subjetivismo e a política cultural efetivada há algumas décadas (com seus desdobramentos de acordo com as mudanças sociais) emergem a partir da instauração do regime de acumulação integral, gerando mutação nas relações de trabalho (toyotismo), na forma estatal (neoliberalismo), na exploração internacional (hiperimperialismo) (Viana, 2009; Almeida, 2020; Viana, 2019; Braga, 2018).

O regime de acumulação integral gera mudanças sociais e culturais, tal como a emergência do paradigma subjetivista. Há uma ampliação da mercantilização e burocratização das relações sociais, bem como intensificação da competição social, elementos basilares da sociabilidade capitalista (Viana, 2008), gerando mais-repressão, maior controle social, mais insatisfação e menos possibilidade de extravasá-la para vastos setores da população (especialmente os indivíduos das classes inferiores e os mais conservadores das classes superiores).

Por outro, o neoliberalismo promove, com sua ideia de redução de gastos estatais e redirecionamento da renda estatal para os interesses do capital, um processo de responsabilização da sociedade civil, o que promove as propostas de voluntariado, Organizações Não-Governamentais, entre outros processos, que são complementados pelas ideologias subjetivistas (pós-estruturalismo, por exemplo), representações cotidianas (“faça você mesmo”) e ideologemas dos movimentos sociais (“lugar de fala”, “vivência”, “autonomia”). Tudo isso remete para as ideias voluntaristas, de autonomia do “sujeito” e importância da “subjetividade”. Essa relação complementar também está presente no toyotismo e na chamada “reestruturação produtiva” e o novo participacionismo para aumentar a produtividade e a extração de mais-valor (Viana, 2009). Quanto mais os prisioneiros se julgam “livres”, menor é a possibilidade de rebeliões. Porém, a prisão continua sendo um cárcere e mesmo que na consciência muitos não reconheçam sua ausência de liberdade autêntica, no seu universo psíquico reina a insatisfação. Disso deriva a evasão dos jogos, das drogas, do futebol, do fanatismo religioso e político (tanto faz, nesse caso, qual é a religião, partido ou político profissional que se passa a seguir fanaticamente), o suicídio e várias formas de mal-estar psíquico (burnout, depressão, etc.).



[1] Lyotard (1993) ganhou notoriedade a partir da palestra proferida para a Unesco, assim como no passado ocorreu com Lévi-Strauss e o estruturalismo (Viana, 2019).

[2] Nancy Fraser (2018) usou o termo “neoliberalismo progressista”, que é adequado, desde que compreendamos que é uma metamorfose do liberalismo democrático. Claro que a compreensão disso requer a compreensão, pouco desenvolvida, de que o liberalismo assumiu e possui várias formas: liberal-nacionalismo, liberal-conservantismo, liberalismo democrático, etc. E isso é mais complexo ainda pelo fato de que o liberalismo é uma das tendências do pensamento conservador, que conta ainda com o nazismo, fascismo, conservantismo (mais conhecido como “pensamento conservador”), republicanismo, etc. A ciência política, os pensadores progressistas, entre outros, não avançaram muito nesse sentido e por isso muitos caem no erro de qualificar como “liberal” quase todas as formas do pensamento burguês, o que é um equívoco.

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O presente texto é um trecho do artigo "O Ovo da Serpente: Psicanálise do Capitalismo Contemporâneo" e pode ser acessado em sua versão completa no seguinte link:

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