Regime de acumulação integral e Subjetivismo
Nildo Viana
Sem dúvida, muitos podem pensar que é um problema
apenas “cultural”, que o subjetivismo caiu do céu e que basta mudar as ideias e
a realidade se alterará. Uma doce ilusão pode gerar
uma amarga realidade. O subjetivismo tem uma longa história desde o seu
nascimento, mas sua manifestação contemporânea, que começa a ser gestada após a
derrota da rebelião estudantil de maio de 1968, possui características específicas.
O subjetivismo contemporâneo faz parte de toda uma política cultural
internacional, envolvendo Estados nacionais (no início o norte-americano, mas
que agora “mudou de lado” com o governo Trump), organismos internacionais (FMI,
Banco Mundial, UNESCO, etc.)[1],
fundações internacionais (Ford, Rockfeller, entre diversas outras), capital
comunicacional (com destaque, por seu impacto na vida cotidiana, especialmente
das classes superiores, para Hollywood e Netflix, mas incluindo redes de
televisão, agências de notícias e milhares de outras empresas capitalistas de
comunicação). Os governos neoliberais progressistas[2]
lançam seus tentáculos e americanizam as esquerdas brasileiras (Lindgreen
Alves, 2019). E isso tudo vai ser reproduzido pelos partidos políticos
populistas, ideólogos (produtores e reprodutores), ativistas, professores, etc.
Poderíamos continuar descrevendo
diversos outros elementos ou aprofundar alguns destes aspectos (tal como a
expansão do neoliberalismo e seus meios de difusão ou então a expansão do
conservantismo, com sua força fundada no moralismo conservador). Porém, o que
interessa é que isso tudo é gerado a partir da realidade concreta, pois o
subjetivismo e a política cultural efetivada há algumas décadas (com seus
desdobramentos de acordo com as mudanças sociais) emergem a partir da
instauração do regime de acumulação integral, gerando mutação nas relações de
trabalho (toyotismo), na forma estatal (neoliberalismo), na exploração
internacional (hiperimperialismo) (Viana, 2009; Almeida, 2020; Viana, 2019;
Braga, 2018).
O regime de acumulação integral gera
mudanças sociais e culturais, tal como a emergência do paradigma subjetivista.
Há uma ampliação da mercantilização e burocratização das relações sociais, bem
como intensificação da competição social, elementos basilares da sociabilidade
capitalista (Viana, 2008), gerando mais-repressão, maior controle social, mais
insatisfação e menos possibilidade de extravasá-la para vastos setores da
população (especialmente os indivíduos das classes inferiores e os mais
conservadores das classes superiores).
Por outro, o neoliberalismo promove, com
sua ideia de redução de gastos estatais e redirecionamento da renda estatal
para os interesses do capital, um processo de responsabilização da sociedade
civil, o que promove as propostas de voluntariado, Organizações
Não-Governamentais, entre outros processos, que são complementados pelas
ideologias subjetivistas (pós-estruturalismo, por exemplo), representações
cotidianas (“faça você mesmo”) e ideologemas dos movimentos sociais (“lugar de
fala”, “vivência”, “autonomia”). Tudo isso remete para as ideias voluntaristas,
de autonomia do “sujeito” e importância da “subjetividade”. Essa relação
complementar também está presente no toyotismo e na chamada “reestruturação
produtiva” e o novo participacionismo para aumentar a produtividade e a
extração de mais-valor (Viana, 2009). Quanto mais os prisioneiros se julgam
“livres”, menor é a possibilidade de rebeliões. Porém, a prisão continua sendo
um cárcere e mesmo que na consciência muitos não reconheçam sua ausência de liberdade
autêntica, no seu universo psíquico reina a insatisfação. Disso deriva a evasão
dos jogos, das drogas, do futebol, do fanatismo religioso e político (tanto
faz, nesse caso, qual é a religião, partido ou político profissional que se
passa a seguir fanaticamente), o suicídio e várias formas de mal-estar psíquico
(burnout, depressão, etc.).
[1]
Lyotard (1993) ganhou notoriedade a partir da palestra proferida para a Unesco,
assim como no passado ocorreu com Lévi-Strauss e o estruturalismo (Viana,
2019).
[2]
Nancy Fraser (2018) usou o termo “neoliberalismo progressista”, que é adequado,
desde que compreendamos que é uma metamorfose do liberalismo democrático. Claro
que a compreensão disso requer a compreensão, pouco desenvolvida, de que o
liberalismo assumiu e possui várias formas: liberal-nacionalismo,
liberal-conservantismo, liberalismo democrático, etc. E isso é mais complexo
ainda pelo fato de que o liberalismo é uma das tendências do pensamento
conservador, que conta ainda com o nazismo, fascismo, conservantismo (mais
conhecido como “pensamento conservador”), republicanismo, etc. A ciência
política, os pensadores progressistas, entre outros, não avançaram muito nesse
sentido e por isso muitos caem no erro de qualificar como “liberal” quase todas
as formas do pensamento burguês, o que é um equívoco.
