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sexta-feira, 30 de outubro de 2026

Hipermercantilização e Burocratização na Contemporaneidade - Nildo Viana

 


Hipermercantilização e Burocratização na Contemporaneidade


Nildo Viana


Ao lado disso, o processo de crescente mercantilização e burocratização das relações sociais, que é o gerador da racionalização, traz mais motivos para ampliação das insatisfações. A mercantilização traz a necessidade do cálculo mercantil e do dinheiro, o que torna a venda da força de trabalho necessária e no contexto das relações de trabalho já aludidas e que não se limita ao trabalho produtivo e se reproduz no trabalho improdutivo[1]. O lazer é mercantilizado (Orio, 2019; Viana, 2018), assim como a vida cotidiana. A mercantilização gera a burocratização. A burocratização das relações sociais, por sua vez, significa criação ou ampliação de organizações burocráticas e aumento de controle social.

A “sociedade da vigilância”, termo muito usado (mas sob forma equivocada a partir de bases ideológicas), exerce um controle cada vez mais amplo sobre os indivíduos, inclusive em sua vida privada. A videovigilância e as câmaras em todos os lugares tornam real o Big Brother de Georg Orwel e os reality shows são uma versão em miniatura do que ocorre na sociedade capitalista contemporânea. A vigilância através do mundo virtual da internet, incluindo as redes sociais virtuais, ampliam esse processo. Quanto mais o capitalismo se desenvolve, mais se intensifica a mercantilização e a burocratização das relações sociais. E quanto mais se desenvolve o controle social e menos há espaço de privacidade e tranquilidade, mesmo que momentânea, e mais a insatisfação, consciente ou insciente, se amplia. O exibicionismo avança nesse contexto, ligado a processos como corpolatria, narcisismo, etc., mas que é planejado e ocorre apenas nos “bons momentos”, pois quando a exposição é involuntária e/ou dos “maus momentos”, a sensação deixa de ser agradável e ter um significado social de aprovação para ser desagradável e ter um significado social de reprovação.

O moralismo subjetivista reforça esse processo de controle sobre a vida cotidiana com sua tese da “politização da vida privada”. O controle chega até a casa dos indivíduos e alguns querem controlar até os pensamentos dos outros, ditando o que eles devem ou não fazer e ainda fazendo discurso contra “regras”. É o predomínio da razão cínica. A suposta “politização da vida privada” é uma politização despolitizada, pois se fundamenta num reducionismo de relações grupais e interindividuais, sendo que, no fundo, é apenas a vida privada é que é “politizada”. Um jogo de interesses, oportunismo, versões da realidade (ao invés da verdade sobre ela), razoabilização[2], etc. é o que ocorre ao invés de politização.

“‘O pessoal é político’ emerge como discurso oportunista e que o apelo para abordar a ‘vida cotidiana’ é num sentido parcial, no que beneficia oportunistas de todos os tipos” (Leroy, 2021, p. 50). No entanto, é preciso acrescentar que muitos que pregam e que respeitam esse chavão são hipócritas, sendo que alguns depois são acusados de práticas que são condenáveis por qualquer um sem precisar apelar para tal discurso, como o assédio sexual, por exemplo. Claro que isso vale para os casos em que esse processo tenha efetivamente e realmente ocorrido. É preciso entender que, no capitalismo e sua sociabilidade fundada na competição, existem exageros, tal como o caso do indivíduo que foi preso por “olhar para uma mulher” no meio da rua ou falsas acusações que oportunistas usam para desmoralizar certos indivíduos, embora em alguns casos seja difícil saber o que é realmente falsa acusação e o que ocorreu efetivamente. Esses elementos duvidosos fazem parte do processo contemporâneo de dubiedade informativa, antes aludido[3].

Ao invés de busca de reais soluções o que ocorre é um processo de busca de vantagens competitivas, uso vantajoso em conflitos interindividuais, etc. Não existe nenhuma politização através do maniqueísmo e reducionismo de questões muito mais amplas (que envolve processos psíquicos e sociais muito mais complexos do que o que vem sendo defendido pelos moralistas subjetivistas) e complexas. E, no fundo, numa sociedade comandada pela sociabilidade capitalista (competitiva, burocrática e mercantil), tudo pode ser degradado e transformado em seu contrário.



[1] O trabalho produtivo é aquele realizado pelos proletários no processo de produção capitalista de mercadorias, que é produção de mais-valor. O trabalho improdutivo é aquele efetivado fora das relações de produção capitalistas, seja nas relações de distribuição, seja nas formas sociais (“superestrutura”) (Viana, 2018).

[2] O que Ernst Jones denominou “racionalização” e Sigmund Freud e sua filha, Ana Freud, trabalharam posteriormente, significando tornar “razoável”, ou “aceitável”, desejos, sentimentos, etc., dos indivíduos, e foi alterado para o novo termo por Ruck (2016).

[3] Sobre o problema do assédio moral e sexual, numa perspectiva crítica, cf. https://redelp.net/index.php/renf/article/view/1653

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O presente texto é um trecho do artigo "O Ovo da Serpente: Psicanálise do Capitalismo Contemporâneo" e pode ser acessado em sua versão completa no seguinte link:

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