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quarta-feira, 22 de julho de 2026

OS CONFLITOS PSÍQUICOS EM “SETE MINUTOS DEPOIS DA MEIA-NOITE” - Nildo Viana


OS CONFLITOS PSÍQUICOS EM “SETE MINUTOS DEPOIS DA MEIA-NOITE”

Nildo Viana*

O filme “Sete Minutos Depois da Meia-Noite”, de J. A. Bayona[1], é uma obra cinematográfica complexa e que envolve fantasia, sonho, imaginação, com um fundo sentimental bastante forte, o que dificulta as interpretações da obra. Como não foi um grande sucesso cinematográfico, junto com a dificuldade interpretativa, não atraiu muitos materiais de análises mais desenvolvidas. O filme é um excelente exemplo de união entre universo ficcional fílmico e psicanálise, pois as temáticas que emergem na obra são psicanalíticas, embora também tragam questões que são comuns em análises de outras ciências, da filosofia, marxismo, etc.

O que pretendemos aqui é entender a mensagem de Sete Minutos Depois da Meia-Noite. Tratar-se-ia de um filme que aborda a questão do luto, verdade, amadurecimento, entre outras questões, tal como aparece em comentários na internet? Esses aspectos estão presentes na obra, mas reduzi-lo a um deles, isoladamente, é um equívoco. Por isso é importante retomar o universo ficcional e observar o que é fundamental na mensagem explícita e o que se pode encontrar como submensagens, mensagens implícitas, etc. Sem dúvida, não poderemos fazer uma análise mais profunda do filme e teremos que focalizar a sua relação com os temas psicanalíticos. Uma análise mais totalizante dessa obra cinematográfica fica para outra oportunidade. A nossa análise aqui será mais sintética e vinculando a mensagem do filme com questões abordadas pela psicanálise[2].

Antes de iniciar a análise fílmica, no entanto, é importante fazer um alerta. O filme aborda questões que os psicanalistas tratam frequentemente, como os sonhos, o inconsciente, etc. Contudo, uma análise do filme sob forma psicanalítica pode conter um equívoco grave. O filme não é uma obra psicanalítica e nem foi produzida por psicanalistas, embora vários elementos – inclusive mostraremos alguns – possam ser coincidentes com afirmações de determinados psicanalistas[3]. O que interessa é entender que se trata de um filme, uma obra artística, baseado em obra literária (outra forma de obra de arte) e não “um sonho” ou algo do tipo. No filme, aparecem sonhos e imaginação, mas dentro de um exercício mais profundo do uso da imaginação que foi a criação do universo ficcional de Sete Minutos Depois da Meia-Noite. Esse esclarecimento é importante para evitar reducionismos psicanalíticos muito comuns e na diferença metódica entre analisar sonhos e analisar imaginação, e, mais ainda, esses dois fenômenos psíquicos no interior de um outro, que é um universo ficcional fílmico.

Para ver o texto completo consulte a obra "Filme e Psicanálise".



* Professor da Universidade Federal de Goiás; Doutor em Sociologia pela Universidade de Brasília (UnB); autor de diversos livros, entre os quais “A Concepção Materialista da História do Cinema”; “Cinema e Mensagem” e “Como Assistir um Filme”.

[1] O filme foi baseado no livro homônimo (no original, em inglês, “A Monster Calls”, cuja tradução mais comum seria “Um Monstro Chama”), escrito por Patrick Ness, que desenvolveu a ideia da obra idealizada por Siobhan Dowd, que não pôde conclui-la ao morrer de câncer (e não conseguimos informações sobre o grau de desenvolvimento em que estava a obra quando a autora morreu). Segundo Ness, “ela tinha os personagens, uma premissa e um começo. O que lhe faltava, infelizmente, era tempo” (https://en.wikipedia.org/wiki/Siobhan_Dowd). O filme foi dirigido por J. A. Bayona a partir do roteiro produzido por Patrick Ness.

[2] Utilizamos “psicanálise”, aqui, no sentido amplo, ou seja, envolvendo todas as abordagens psicanalíticas, desde a de Freud, passando por seus dissidentes mais ou menos famosos (Jung e Adler, por exemplo) até chegar nas escolas psicanalíticas posteriores (incluindo o chamado “freudo-marxismo”) e não apenas a de orientação freudiana.

[3] No caso desse filme, especialmente as de Erich Fromm, embora, secundariamente, também é possível estabelecer vínculos com a obra de Jung, como mostraremos adiante. Uma análise “freudiana” do filme seria muito problemática.


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