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sábado, 28 de dezembro de 2013

sábado, 21 de dezembro de 2013

Os valores natalinos são axiológicos

Os valores natalinos são axiológicos

Nildo Viana

O Natal é uma festa cristã realizada no dia 25 de dezembro, data em que se comemora o nascimento de Jesus Cristo. No entanto, é visível a mudança do significado do natal no decorrer da história. A sua origem está ligada a uma festa pagã que antecedeu o cristianismo e foi adaptado pelos valores e concepções cristãs transformando-se com o passar do tempo. Após isto ganhou um significado religioso e os símbolos pagãos, bem como a forma da festividade mudou.
O natal cristão foi, inicialmente, a partir do século, uma festa religiosa. Inspirado na mitologia babilônica, a figura de Papai Noel – inspirada em Nicolau, Bispo de Mira, século 05 – representava a solidariedade, já que era uma pessoa que presenteava três crianças de família pobre. Posteriormente, Papai Noel foi transformado em um indivíduo que dá presentes para crianças e estas pedem presentes através de cartas. Já não se trata de solidariedade e de crianças pobres e sim do ato consumista de exigir presentes (as crianças, da forma como são socializadas na atualidade) e oferecer presentes, inclusive usando este para disfarçar as dificuldades de afetividade, sendo um oferecimento de uma satisfação substituta a quem é presenteado. Muitos, inclusive, se não forem presenteados (não só crianças) pensam que não são amados (VIANA, 2002).
A religiosidade e seus valores acabam sendo substituídos por outros valores e interesses. O natal deixa de ser festa religiosa comemorativa para se tornar festa mundana consumista. Na sociedade capitalista, onde tudo é paulatinamente transformado em mercadoria, temos a mercantilização do natal. O significado mercantil do natal substitui o seu antigo significado religioso. O natal é transformado numa festa consumista, na qual a publicidade e o mercado buscam aumentar o consumo geral e isso é efetivado todos os anos, como comprovam as estatísticas. Ocorre a generalização da troca de presentes, compras de artigos natalinos e o Papai Noel passa a ser o maior símbolo desta festa em substituição à Jesus Cristo. As crianças nascem e são socializadas nesse contexto e por isso tendem a naturalizar, inclusive quando adultos, tal consumismo e percepção do natal.

Desta forma, há uma manipulação de sentimentos e produção de valores visando aumentar o mercado consumidor. Alguns setores específicos ganham mais com este processo e se criam costumes, desejos, fabricados para esta época, como a “ceia natal”, brinquedos, decoração, determinados alimentos (panetone, peru, castanhas, etc.). Isso produz uma euforia e falsa sensação de alegria em uns, insatisfação e conflitos para outros (os que não possuem dinheiro para consumir). Assim, o natal passa a ter um significado predominantemente mercantil na sociedade contemporânea e de nada adianta apelos para a recuperação de seu sentido religioso, pois estes só possuem ecos em círculos restritos, nos quais a religiosidade ainda é importante e se tornam matéria para produção de novas mercadorias e mais consumo (inclusive os símbolos natalinos, mas também presépios, etc.) (VIANA, 2002).
Os valores dominantes de cada época dominam as manifestações culturais em geral. Os valores natalinos são apenas mais uma versão dos valores axiológicos, dominantes. Sem dúvida, a palavra “valores” é muito utilizada, mas poucos a define e por isso falta clareza em seu uso em muitos casos. Nós entendemos que os valores são aquilo que é importante e significativo para os indivíduos e que existem valores autênticos, tais como a liberdade e a criatividade e valores histórico-particularistas, ligados aos interesses da classe dominante, os valores axiológicos (VIANA, 2007). Os valores natalinos, em sua atual configuração, aparentemente são axionômicos (autênticos), pois pregam a solidariedade e fraternidade, tornando-os valores. Contudo, em uma análise mais profunda, no contexto da sociedade capitalista, o discurso da solidariedade e fraternidade apenas disfarça um mundo competitivo, no qual quem vai fazer mais compras e realizar o consumo dos bens mais caros e desejados, e marcado por conflitos sociais diversos, tornando tais palavras a manifestação de pseudovalores, pois estão subordinados e apagados pelos valores dominantes. A existência de pseudovalores apenas mostra a hipocrisia reinante na sociedade moderna.
A solidariedade, ou fraternidade, é um valor axionômico, autêntico, pois o ser humano, enquanto ser social, tem a necessidade psíquica de associação com outros seres humanos, não somente no sentido de estar junto mas também através de uma comunidade na qual haja relações sociais harmônicas. No período natalino, muitos afirmam a solidariedade como valor e alguns até buscam praticá-la, seja apenas no restrito círculo familiar, seja através da caridade, entre outras formas. No entanto, isso é apenas um dia no ano, cumprindo um papel de reforçar o resto do ano marcado pela competição e conflito. Ou seja, a sua manifestação ocorre no interior de determinadas relações, que são conflituosas e competitivas, e apenas uma vez no ano, servindo para renovar as práticas comuns ao invés de realmente questioná-las e isso mostra que são subordinadas a outros valores, que são permanentes e dominantes, fazendo com que essa manifestação esporádica de solidariedade seja um reforço da axiologia.
A literatura, o cinema, bem como outras formas de arte, são veículos da reprodução destes pseudovalores. Claro que na época ou para seus produtores, poderia ser realmente manifestação de seus valores, mas este não é o caso de grande parte das pessoas na atualidade. Desde os clássicos “contos de Natal” de Charles Dickens e suas diversas adaptações cinematográficas até os filmes de Frank Capra, especialmente “A Felicidade não se compra”, o dinheiro e a avareza são apresentados como desvalores ou como valores secundários diante da família, dos amigos, da solidariedade.
A superação dessa festividade mercantil e consumista pressupõe mudanças sociais radicais, nas quais o mundo da mercadoria seja substituída pelo mundo dos seres humanos e os valores axiológicos sejam substituídos por valores axionômicos.

Referências

DICKENS, Charles. Conto de Natal. Rio de Janeiro: Ediouro, 2009.

VIANA, Nildo. O Significado do Natal. In: Capitalismo, Psicanálise e Cotidiano. Goiânia: Edições Germinal, 2002.


VIANA, Nildo. Os Valores na Sociedade Moderna. Brasília: Thesaurus, 2007.

Veja Mais:


segunda-feira, 18 de novembro de 2013

O capitalismo e o significado do Natal


O natal é uma festa religiosa ou capitalista? Clique aqui para conferir artigo sobre natal e capitalismo.

sábado, 2 de novembro de 2013

Dossiê Juventude - Chamada de artigos


Chamada de artigos para o dossiê temático:

GERAÇÕES: juventude e velhice na sociedade moderna
Org.: Isolda Belo (FUNDAJ/PE), Luís Antonio Groppo (UNISAL/SP), Nildo Viana (UFG/GO) e Revalino Antonio de Freitas (UFG/GO)

A revista SOCIEDADE E CULTURA torna pública a chamada de artigos para o dossiê temático “Gerações: juventude e velhice na sociedade moderna”, organizado pelos profs. Isolda Belo (FUNDAJ/PE), Luís Antonio Groppo (UNISAL/SP), Nildo Viana (UFG/GO), Revalino Antonio de Freitas (UFG/GO). A publicação é prevista para o v. 17, n. 1, 1º semestre de 2014.
Serão aceitos artigos escritos em português, inglês ou espanhol, que estejam em conformidade com as normas da revista (disponíveis em www.revistas.ufg.br/index.php/fchf), e que digam respeito ao tema proposto pelo/a/s organizador/a/s, assim formulado:

As gerações se encontram entre os temas em evidência na contemporaneidade e o seu conceito comporta múltiplas significações. De acordo com o “olhar” recortado de cada campo de conhecimento ou instituição, elas adquirem contornos que lhes dão conformidade e permitem que sejam identificadas, reconfiguradas, normatizadas, tendo como centralidade temporal os ciclos de vida. Na sociologia, o esforço teórico para apreendê-las como um objeto de investigação tem sido considerável, com destaque para as reflexões teóricas de Karl Mannheim, que de certo modo apresenta à sociologia uma conceituação mais próxima ao conhecimento desse campo científico. Não obstante, do ponto de vista sociológico, o debate teórico e conceitual se encontra em aberto, exigindo atenção e rigor cada vez maior, na medida em que a complexidade da sociedade contemporânea insere novos problemas, tornando mais fluidos os recortes temporais dos ciclos de vida. Esse dossiê se propõe a continuar o salutar debate em curso, a partir de duas fases distintas do processo geracional: a juventude e a velhice. O tema da juventude vem ganhando cada vez mais espaço nas discussões sociológicas. Ao lado da produção mais antiga, novas abordagens e pesquisas passaram a ser realizar, principalmente a partir dos anos 1960 e ganhando novo impulso a partir do início do novo século, o que está relacionado com a mobilização juvenil e estudantil gestada nesse período. As culturas e grupos juvenis, suas lutas e manifestações sociais, suas condições de vida e envolvimento com outros setores da sociedade, tais como escola, meios de comunicação, políticas públicas, são alguns dos temas específicos mais desenvolvidos nessa área. A velhice é a mais recente das gerações a se inserir no campo de investigação sociológica. Sua irrupção resulta da longevidade que tem caracterizado a sociedade contemporânea nas últimas décadas, trazendo à tona a existência social de uma geração até então à margem, e que tem ocupado um espaço crescente na estrutura etária, trazendo novas necessidades e exigindo cuidados próprios de um ciclo de vida que, em si, evoca a preservação dos valores, a memória e a tradição de uma dada sociedade. 

As contribuições devem ser enviadas diretamente para os organizadores, através dos e-mails: nildoviana@ymail.com e freitas@cienciasociais.ufg.br (ou através do portal da revista).
Prazo para o envio: 20 de novembro de 2013.
Além dos artigos para o dossiê, SOCIEDADE E CULTURA também recebe, em fluxo contínuo, outras contribuições: artigos sobre temas diversos, notas de pesquisa, resenhas de livros relevantes nas ciências sociais. Tais textos devem ser enviados aos editores da revista, conforme os meios indicados nas normas para submissão.

Convocatoria de artículos para dossier temático sobre

GENERACIONES: juventud y vejez  en la sociedad moderna
Org.: Isolda Belo (FUNDAJ/PE), Luiz Antonio Groppo (Unisal/SP), Nildo Silva Viana (UFG/GO) e Revalino Antonio de Freitas (UG/GO)

La revista SOCIEDADE E CULTURA torna pública la convocatoria de artículos para el dossier temático “Generaciones: juventud y vejez en la sociedad moderna”, organizado por los profes. Isolda Belo (FUNDAJ/PE), Luiz Antonio Groppo (Unisal/SP), Nildo Viana (UFG/GO) Revalino Antonio de Freitas (UFG/GO). La publicación está prevista para el volumen  v. 17, n. 1, 1º semestre de 2014.
Serán aceptados artículos escritos en portugués, inglés o español, que estén en conformidad con las normas de la revista (consultar en: www.revistas.ufg.br/index.php/fchf), y que se circunscriban al tema propuesto por los organizadores, así formulado:
Las generaciones se encuentran entre los temas en evidencia en la contemporaneidad y su concepto comporta múltiples significados. Bajo un “mirar” recortado en cada campo del conocimiento o institución, ellas adquieren contornos que les dan conformidad y permiten que sean identificadas, reconfiguradas, normatizadas, teniendo como centralidad temporal los ciclos de la vida. En la sociología, el esfuerzo teórico para aprehenderlas en cuanto objeto de investigación, ha sido considerable, con énfasis para las reflexiones teóricas de Karl Mannheim, que de cierto modo presenta a la sociología una conceptualización más próxima al conocimiento de esa campo científico. Sin embargo, el debate teórico y conceptual se encuentra abierto, exigiendo atención y rigor cada vez mayor, en la medida en la complejidad de la sociedad contemporánea insiere nuevos problemas, tornando más fluidos los recortes temporales de los ciclos de la vida. Este dossier, se propone continuar el saludable debate en curso, a partir de dos fases distintas del proceso generacional: la juventud y la vejez. El tema de la juventud viene ganando cada vez más espacio en las discusiones sociológicas. Al lado de la producción más antigua, nuevos abordajes e investigaciones pasaron a ser realizadas, principalmente a partir de los años 1960 para luego ganar impulso a partir de inicio del nuevo siglo, y que está relacionado con la movilización juvenil gestada en ese periodo. Las culturas y grupos juveniles, sus luchas y manifestaciones sociales, sus condiciones de vida y envolvimiento con otros sectores de la sociedad, tales como la escuela, medios de comunicación políticas públicas, son algunos de los temas específicos más desarrollados en esa área. La vejez es la más reciente de las generaciones a incorporarse en el campo de la investigación sociológica. Su irrupción resulta de la longevidad que ha caracterizado a la sociedad contemporánea en las últimas décadas, tornando visible la existencia de una generación hasta entonces al margen, y que ha ocupado un espacio creciente en la estructura etaria trayendo nuevas necesidades y exigiendo cuidados propios de un ciclo de vida que, en sí, evoca la preservación de los valores, la memoria y la tradición de una dada sociedad.

Las contribuciones deben ser enviadas directamente para los organizadores a través de los e-mails: nildoviana@ymail.com y freitas@cienciassociais.ufg.br. (o a través del sitio http://www.revistas.ufg.br/index.php/fchf)
Plazo para envío: 20 de noviembre de 2013.
Además de los artículos para el dossier, SOCIEDADE E CULTURA también recibe, en flujo continuo, otras contribuciones: artículos sobre diversos temas, notas de investigación, reseñas de libros relevantes en las ciencias sociales. Tales textos deben ser enviados a los editores de la revista, conforme los medios indicados en las normas de edición.




Call for papers for thematic dossier:
GENERATIONS: youth and old age in modern society
Org.: Isolda Belo (FUNDAJ/PE), Luiz Antonio Groppo (Unisal/SP), Nildo Silva Viana (UFG/GO) and Revalino Antonio de Freitas (UFG/GO)

SOCIEDADE E CULTURA  (CULTURE AND SOCIETY) publicly announces a call for papers for the thematic dossier " Generations: youth and old age in modern society”, organized by the scholars Isolda Belo (FUNDAJ/PE), Luiz Antonio Groppo (Unisal/SP), Nildo Silva Viana (UFG/GO) and Revalino Antonio de Freitas (UFG/GO)
The v. 17, n. 1, is expected to be released by early 2014.
Articles written in Portuguese, English or Spanish are accepted in conformity with the journal submission guidelines (available in www.revistas.ufg.br/index.php/fchf), in accordance to the theme proposed by the organizers, as follows:
The generations are among the topics highlighted in the contemporaneity and its concept involves multiple meanings. According to the "look" cut off from each field of knowledge or institution, they acquire contours that give them conformity and allow them to be identified, reconfigured, normalized, and having the life cycles as its temporal centrality. In sociology, the theoretical effort to understand it as an object of research has been considerable, with emphasis on the theoretical reflections of Karl Mannheim, which somehow presents to sociology a conceptualization closer to this scientific field. However, from the sociological standpoint this conceptual and theoretical discussion remains open, requiring attention and increasing accuracy, to the extent that the complexity of contemporary society brings new problems, making more fluid the temporal approaches of life cycles. This dossier aims to continue this salutary debate, from two different stages of the generational process: youth and old age. The Youth is gaining more and more space in sociological discussions. Along with the oldest production, new approaches and researches began to be carried out, mainly from the 1960s and gaining new momentum from the beginning of the new century, which is related to youth and student mobilization gestated during this period. Cultures and youth groups, their struggles and social manifestations, their living conditions and involvement with other sectors of society, such as school, media, public policy, are some of the more specific themes developed in this area. Old age is the most recent generation category to enter the field of sociological research. Its irruption is the result of longevity that has characterized contemporary society in recent decades, bringing to the fore the social existence of a generation that had been left, and it has occupied an increasing space in the age structure, bringing new needs and requiring proper care of a lifecycle which itself evokes the preservation of values, memory and tradition of a given society.

Contributions should be sent directly to the organizers via e-mail: nildoviana@ymail.com and freitas@cienciassociais.ufg.br (or at journal’s website http://www.revistas.ufg.br/index.php/fchf)
Deadline for submission: November 20th, 2013.
SOCIEDADE E CULTURA  (CULTURE AND SOCIETY) is an open access, peer-reviewed journal published by Faculdade de Ciências Sociais of the Universidade Federal de Goiás, Brazil.  S&C is published in both print and online versions.
In addition of papers for the dossier, the journal is continuously receiving other contributions: papers on various subjects, research notes, and reviews on relevant books in social sciences.  Papers must be sent to the journal editors according to submission guidelines (see at: www.revistas.ufg.br/index.php/fchf).

A BANALIZAÇÃO DA VIOLÊNCIA E A MANIFESTAÇÃO ESTUDANTIL - Segunda Versão

 


A BANALIZAÇÃO DA VIOLÊNCIA E A MANIFESTAÇÃO ESTUDANTIL

 

Nildo Viana

 

Uma onda de protestos referentes ao aumento do preço das passagens de ônibus vem ocorrendo no Brasil. Em Goiânia, houveram cinco manifestações e em outras cidades já aconteceram vários. Destes vários protestos e movimentos, dois se destacaram, o do dia 28 de maio em Goiânia e o do dia 13 de junho em São Paulo, principalmente pela força do protesto e pela violência policial. Os manifestantes, principalmente estudantes secundaristas e universitários, foram acusados de vandalismo, terrorismo. As imagens na imprensa e na internet mostram a violência e truculência da polícia militar. Isso não gerou nenhuma reação por parte dos governos, da imprensa, de diversos setores da população. Esse fenômeno precisa ser explicado.

A explicação que podemos fornecer a isso é a de que ocorre uma banalização da violência em nossa sociedade. A violência é uma relação social de imposição, na qual indivíduos ou grupos impõem, sobre outros indivíduos ou grupos, algo contra sua vontade e natureza (Viana, 2004; Viana, 2002). Esse conceito de violência permite perceber que a violência é um fenômeno mais amplo e universal, se manifestando sob múltiplas formas. Ao contrário das ideologias que definem a violência apenas como agressão física ou criminalidade, o que significa que ela se torna um atributo principalmente dos mais empobrecidos da sociedade, aqui se torna possível compreender que a violência se manifesta através da cultura, das instituições, etc. Na concepção restrita e ideológica de violência ela é um ato comum realizado principalmente pelas classes inferiores e na concepção aqui apresentada ela é um ato cotidiano realizado principalmente pelos indivíduos das classes superiores e a primeira forma, quando ocorre, é muitas vezes uma resposta à uma violência anterior. Assim, dependendo da perspectiva de quem analisa o fenômeno da violência, ela pode ser entendida como principalmente produzidas pelas inferiores ou pelas classes superiores. A primeira forma é a mais perceptível para as representações cotidianas e para algumas ideologias científicas e a segunda é menos perceptível e, por conseguinte, estará menos presente nas representações cotidianas e aparecerá nas produções teóricas.

A violência está no nosso cotidiano, mas ela está mais constantemente, em quantidade e intensidade, presente na vida das classes inferiores. A violência no transporte coletivo é constante: o ônibus lotado é a expressão simbólica máxima desse processo. Algumas pessoas jamais imaginam o que é todos os dias acordar às 05 horas da manhã, esperar um ônibus e pegar mais um ou dois, muitas vezes dependurado na porta pelo número de pessoas dentro do mesmo, bem como do esforço e luta para entrar e depois para sair. Essa violência é banalizada e gera mau humor, conflitos, entre outros efeitos. Mas, se não bastasse a violência exercida cotidianamente pelo mau serviço prestado, com inúmeros outros problemas que não iremos citar aqui, ainda tem uma tarifa com valor que pesa no bolso dos setores mais pobres da sociedade, e o seu aumento é um novo ato de violência.

Apesar dessa violência cotidiana e de aparentemente não haver fortes reações, o volume de insatisfação uma hora gera resistência e protesto. O que ocorreu em Goiânia no dia 28 de maio foi uma reação natural e extremamente legítima por parte daqueles que protestavam, bem como no caso de São Paulo no dia 13 de junho. O que para os proprietários das empresas de transporte, os governantes, entre outros, são migalhas, para os setores mais empobrecidos da sociedade, para os estudantes, e mesmo para os setores com melhores condições de vida, o conjunto do gasto mensal pesa no bolso e sem aumentos salariais, significa abrir mão de coisas necessárias ou importantes para pagar um valor mais elevado da tarifa.

Portanto, há uma violência cotidiana em nossa sociedade e no transporte coletivo e a reação é de se esperar e ela ocorreu sob a forma de manifestação legítima. No entanto, a resposta dos governantes foi a violência brutal e truculenta da polícia que agrediu e prendeu aleatoriamente qualquer indivíduo que estivesse no protesto. As cenas não deixam dúvidas e a truculência não provocou nenhuma reação por parte do resto da sociedade. A violência policial é algo que não espanta, nem quando ela é desproporcional e despropositada e nem quando assume a forma virulenta que assumiu.

A violência cotidiana no transporte, que atinge um ápice com o aumento da passagem, gera protesto que, por sua vez, gera a violência estatal sob forma brutal. A violência cotidiana é banalizada, ninguém se espanta com ela. A violência policial também é banalizada, até quando comete excessos e age com virulência. Agora, um ato de violência isolado é razão para acusações de vandalismo e terrorismo. Um ato de violência esporádico e isolado chama a atenção quando a violência de todos os dias e a agressão física e moral do sistema policial é algo tido como normal. Como já dizia o psicanalista Erich Fromm (1976), numa sociedade doente é preciso desconfiar do que é normal e, hoje, mais do que nunca, é fundamental superarmos a banalização da violência.

 

Referências

 

FROMM, Erich. Psicanálise da Sociedade Contemporânea. 2ª edição, Rio de Janeiro: Zahar, 1976.

 

VIANA, Nildo. A Dinâmica da Violência Juvenil. Rio de Janeiro: Booklink, 2004.

 

VIANA, Nildo. Violência Urbana: A Cidade como Espaço gerador de Violência. Goiânia, Edições Germinal, 2002.

 

 

Nildo Viana é Professor da Faculdade de Ciências Sociais da Universidade Federal de Goiás e Doutor em Sociologia pela Universidade de Brasília; autor de várias obras sobre violência.

* A primeira versão desse texto foi publicada no Blog Informe e Crítica e a segunda versão foi publicada no site "Debates Culturais", , por solicitação dos responsáveis, que deixou de existir. 

 

terça-feira, 15 de outubro de 2013

Revista Ciências Humanas Online

Revista Ciências Humanas - Estácio de Sá, com textos de Jaciara Reis Veiga, Nildo Viana, André de Melo, Jean Isídio e outros.

http://www.saps.com.br/sites/estacio/downloads/revista/revista08_cienciashumanas.pdf

domingo, 13 de outubro de 2013

quarta-feira, 2 de outubro de 2013

Histórias em quadrinhos e crítica social



VIANA, Nildo. Quadrinhos e Crítica Social. O Universo Ficcional de Ferdinando. Rio de Janeiro: Azougue, 2013.

Abaixo sinopse, orelha e sumário.

O livro 'Quadrinhos e Crítica Social' analisa o universo ficcional de Ferdinando utilizando uma base teóricometodológica. O livro tem como méritos a elaboração de uma base teórica para análise dos quadrinhos através de sua relação com a sociedade; o desenvolvimento de um método de análise das HQ; a análise das formas de manifestação de crítica social; a análise do universo ficcional de Ferdinando e algumas de suas principais histórias nas quais emergem criaturas fantásticas que provocam uma desordem social.

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Sumário


Pág.
Prefácio: Para uma Sociologia das Histórias em Quadrinhos
Introdução...................................................................................................
  04
0
Quadrinhos e Sociedade.............................................................................
09
Método Dialético e Análise dos Quadrinhos...............................................
24
Ferdinando, Quadrinhos e Crítica Social...................................................
46
O Universo Ficcional de Ferdinando..........................................................
64
Shmoos, Kigmeus e outras Criaturas Fantásticas – O Extraordinário e a Crítica Social..............................................................................................

71
Considerações Finais..................................................................................
93
Referências..................................................................................................
96


http://www.livrariacultura.com.br/scripts/resenha/resenha.asp?nitem=42142700&sid=01256918115510349185882211