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sábado, 31 de outubro de 2026

SUBJETIVISMO E IRRACIONALISMO - NILDO VIANA

 


Subjetivismo e Irracionalismo


Nildo Viana


Esse processo todo vem acompanhado, por mais incrível que pareça, por uma força crescente do irracionalismo. Nas relações sociais concretas ocorre racionalização e mesmo os irracionalistas efetivam um processo racionalizador em sua vida cotidiana. No mundo nebuloso das ideologias (sistemas de pensamento ilusório) e do imaginário (representações cotidianas ilusórias), o irracionalismo avança. No fundo, o irracionalismo de alguns é apenas forma de manifestação do paradigma hegemônico no regime de acumulação integral, o subjetivismo. O fenômeno vem sendo descrito sob diversas formas pelos opositores e manifesto igualmente sob diversas formas pelos seus defensores: culturalismo, hedonismo, narcisismo, autoctonismo, identidade, lugar de fala, vivência, etc. Isso gera em muitos uma predisposição mental marcada por querer o prazer a qualquer custo, deixando a totalidade da vida de lado, gerando mais um reducionismo.

É nesse contexto que emerge uma hipersexualidade convivendo, contraditoriamente, com uma forte repressão sexual. Por um lado, os meios oligopolistas de comunicação (indo desde a pornografia até as redes de TV) apresentam e incentivam a sexualidade e as universidades, sob hegemonia subjetivista, a colocaram como tema fundamental, mas ao mesmo tempo se mantém um alto grau de repressão, desde a permanência, para inúmeros setores da sociedade, em sua forma antiga, até as mais desenvolvidas, como o desejo de ascensão social e consumo, enquanto inibidores de relações sociais não submetidas aos interesses característicos da sociedade capitalista e coloca a sexualidade como meio para atingir esses objetivos, o que tem consequências para os demais seres humanos.

O subjetivismo[1] reinante aponta para uma crescente irracionalidade nas relações sociais. A ideologia da identidade, por exemplo, gera uma proliferação de “identidades” que não deixam de mostrar o grau de irracionalidade e desequilíbrio psíquico em nossa sociedade. Deixando de lado os casos mais exagerados, como os cães humanos e outras bizarrices[2], hoje se espalha a ideia da normalidade de tudo desde que corresponda à “subjetividade” dos indivíduos. E isso permite o surgimento de organizações que defendem pedofilia[3], que “ainda” é considerada crime, e outras coisas que fogem completamente de uma racionalidade humanista, emancipadora. A proliferação de “gêneros” é apenas mais um exemplo de irracionalidade a partir de uma racionalidade fragmentária[4].

Os indivíduos agora podem escolher sua “identidade” e vivem em função disso, esquecendo-se que tais “identidades” são produzidas socialmente (e não “culturalmente”, pois é muito mais complexa e envolve um conjunto de determinações que o culturalismo é incapaz de perceber com seu reducionismo). É uma identidade produzida no capitalismo e para o capitalismo, submetida à divisão social do trabalho e à mentalidade dominante (burguesa), aos indivíduos formados nessa sociedade, entre diversos outros elementos que, para quem diz ter uma percepção crítica e histórica da sociedade, é mais um problema a ser superado ao invés de uma postura a ser adotada.

O indivíduo que “escolhe” uma identidade e se reduz a ela apenas se desumaniza e passa a ser um ser unilateral – uma imposição do capitalismo devido ao processo de especialização gerada por sua divisão e subdivisão do trabalho – voluntariamente, se reduzindo a um suposto “gênero”, “sexualidade”, “estilo de vida”, etc. Essa autoilusão é frustrante e aumenta os desequilíbrios psíquicos ao ponto de gerar distúrbios psíquicos. A sexualidade é uma das necessidades/potencialidades humanas e quando o indivíduo se reduz a ela como sua “identidade” e “modo de vida”, se priva de satisfazer suas outras necessidades e o homo sexualis revela uma miséria psíquica e social autodestrutiva. O mesmo vale para as outras “identidades” (e a preocupação excessiva com isso, o que significa preocupar-se com sua autoimagem, já revela como o paradigma subjetivista e seus derivados, como o narcisismo e hedonismo, revela mais um sintoma do capitalismo contemporâneo e sua miséria psíquica), que, no fundo, são prisões socialmente produzidas e individualmente escolhidas.

Esses produtos e subprodutos do paradigma subjetivista promovem efeitos políticos, pois realiza um impacto nos movimentos sociais, na juventude, etc. Isso, além de afastar muitos da luta política, para cuidar do seu prazer e nada mais além disso, incentiva outros para apenas o “ativismo” (muitas vezes “festivo” ou “virtual”, nas redes sociais virtuais) a favor de sua “identidade”, “grupo” ou qualquer outra ideomania (ideia-fixa). No máximo, também apoiam os governos supostamente “progressistas” (no fundo, neopopulistas, prometendo muito e fazendo pouco, segundo os ditames neoliberais que vão além dos governos e suas promessas irrealizáveis) que reproduzem determinados discursos e políticas estatais em troca de votos e apoio.



[1] Sobre o paradigma subjetivista e sua hegemonia, cf. Hegemonia Burguesa e Renovações Hegemônicas (Viana, 2019).

[2] Os casos mais graves servem para mostrar o que é menos perceptível nos casos menos graves. Os desequilíbrios psíquicos são relativizados e “tudo é normalizado”. Nesse sentido, é útil ver duas reportagens sobre estes casos “pós-modernos”:  

 

Sobre os “cães humanos”:

http://g1.globo.com/mundo/noticia/2016/05/o-curioso-universo-dos-homens-que-vivem-como-caes.html;

 

Sobre a pessoa transexual que quer ser cavalo:

https://www.youtube.com/watch?v=cwHP4CnSTfw

 

Não custa informar que esse artigo começou a ser escrito há alguns anos atrás (a primeira versão incompleta foi escrita em 2016, sendo revisto parcialmente em 2021 e completado agora em 2026 com uma pequena revisão e alguns acréscimos em relação à parte anteriormente escrita) e ficou incompleto e abandonado devido a outros projetos. Hoje, a emergência da popularização dos therians apenas reforçam o que já havia sido percebido e a ampliação da dubiedade informativa, pois muitos casos de supostos “seres humanos que se identificam como animais” são farsas de influenciadores virtuais (geralmente apresentados, a posteriori, como ironia), gerando ainda mais confusão num mundo já excessivamente confuso (e mais uma vez é manifestação da dubiedade informativa).

 

[4] E aqui se revela mais uma vez um misto de racionalização e irracionalidade. O desejo de identificar o “gênero” (que agora seriam “múltiplos”) é uma autodefinição supostamente racional e racionalizada gerando todo um sistema classificatório inútil e que serve apenas para reforçar estereótipos e comportamentos padronizados em nome de uma suposta “liberdade”. Aqui a noção de liberdade é a de escolher sua própria prisão. Isso é uma irracionalidade.

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O presente texto é um trecho do artigo "O Ovo da Serpente: Psicanálise do Capitalismo Contemporâneo" e pode ser acessado em sua versão completa no seguinte link:

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