Subjetivismo e Irracionalismo
Nildo Viana
Esse processo todo vem acompanhado, por mais incrível
que pareça, por uma força crescente do irracionalismo. Nas relações sociais
concretas ocorre racionalização e mesmo os irracionalistas efetivam um processo
racionalizador em sua vida cotidiana. No mundo nebuloso das ideologias
(sistemas de pensamento ilusório) e do imaginário (representações cotidianas
ilusórias), o irracionalismo avança. No fundo, o irracionalismo de alguns é
apenas forma de manifestação do paradigma hegemônico no regime de acumulação integral,
o subjetivismo. O fenômeno vem sendo descrito sob diversas formas pelos
opositores e manifesto igualmente sob diversas formas pelos seus defensores:
culturalismo, hedonismo, narcisismo, autoctonismo, identidade, lugar de fala,
vivência, etc. Isso gera em muitos uma predisposição mental marcada por querer
o prazer a qualquer custo, deixando a totalidade da vida de lado, gerando mais
um reducionismo.
É nesse contexto que emerge uma hipersexualidade
convivendo, contraditoriamente, com uma forte repressão sexual. Por um lado, os
meios oligopolistas de comunicação (indo desde a pornografia até as redes de
TV) apresentam e incentivam a sexualidade e as universidades, sob hegemonia
subjetivista, a colocaram como tema fundamental, mas ao mesmo tempo se mantém
um alto grau de repressão, desde a permanência, para inúmeros setores da
sociedade, em sua forma antiga, até as mais desenvolvidas, como o desejo de
ascensão social e consumo, enquanto inibidores de relações sociais não
submetidas aos interesses característicos da sociedade capitalista e coloca a
sexualidade como meio para atingir esses objetivos, o que tem consequências
para os demais seres humanos.
O subjetivismo[1] reinante
aponta para uma crescente irracionalidade nas relações sociais. A ideologia da
identidade, por exemplo, gera uma proliferação de “identidades” que não deixam
de mostrar o grau de irracionalidade e desequilíbrio psíquico em nossa
sociedade. Deixando de lado os casos mais exagerados, como os cães humanos e
outras bizarrices[2],
hoje se espalha a ideia da normalidade de tudo desde que corresponda à
“subjetividade” dos indivíduos. E isso permite o surgimento de organizações que
defendem pedofilia[3],
que “ainda” é considerada crime, e outras coisas que fogem completamente de uma
racionalidade humanista, emancipadora. A proliferação de “gêneros” é apenas
mais um exemplo de irracionalidade a partir de uma racionalidade fragmentária[4].
Os indivíduos agora podem escolher sua “identidade” e
vivem em função disso, esquecendo-se que tais “identidades” são produzidas
socialmente (e não “culturalmente”, pois é muito mais complexa e envolve um
conjunto de determinações que o culturalismo é incapaz de perceber com seu
reducionismo). É uma identidade produzida no capitalismo e para o capitalismo,
submetida à divisão social do trabalho e à mentalidade dominante (burguesa),
aos indivíduos formados nessa sociedade, entre diversos outros elementos que,
para quem diz ter uma percepção crítica e histórica da sociedade, é mais um
problema a ser superado ao invés de uma postura a ser adotada.
O indivíduo que “escolhe” uma identidade e se reduz a
ela apenas se desumaniza e passa a ser um ser
unilateral – uma imposição do capitalismo devido ao processo de
especialização gerada por sua divisão e subdivisão do trabalho – voluntariamente, se reduzindo a um
suposto “gênero”, “sexualidade”, “estilo de vida”, etc. Essa autoilusão é
frustrante e aumenta os desequilíbrios psíquicos ao ponto de gerar distúrbios
psíquicos. A sexualidade é uma das necessidades/potencialidades humanas e
quando o indivíduo se reduz a ela como sua “identidade” e “modo de vida”, se
priva de satisfazer suas outras necessidades e o homo sexualis revela uma miséria psíquica e social autodestrutiva.
O mesmo vale para as outras “identidades” (e a preocupação excessiva com isso,
o que significa preocupar-se com sua autoimagem, já revela como o paradigma
subjetivista e seus derivados, como o narcisismo e hedonismo, revela mais um
sintoma do capitalismo contemporâneo e sua miséria psíquica), que, no fundo,
são prisões socialmente produzidas e individualmente escolhidas.
Esses produtos e subprodutos do paradigma subjetivista
promovem efeitos políticos, pois realiza um impacto nos movimentos sociais, na
juventude, etc. Isso, além de afastar muitos da luta política, para cuidar do
seu prazer e nada mais além disso, incentiva outros para apenas o “ativismo”
(muitas vezes “festivo” ou “virtual”, nas redes sociais virtuais) a favor de
sua “identidade”, “grupo” ou qualquer outra ideomania (ideia-fixa). No máximo,
também apoiam os governos supostamente “progressistas” (no fundo, neopopulistas,
prometendo muito e fazendo pouco, segundo os ditames neoliberais que vão além
dos governos e suas promessas irrealizáveis) que reproduzem determinados
discursos e políticas estatais em troca de votos e apoio.
[1]
Sobre o paradigma subjetivista e sua hegemonia, cf. Hegemonia Burguesa e
Renovações Hegemônicas (Viana, 2019).
[2]
Os casos mais graves servem para mostrar o que é menos perceptível nos casos
menos graves. Os desequilíbrios psíquicos são relativizados e “tudo é
normalizado”. Nesse sentido, é útil ver duas reportagens sobre estes casos
“pós-modernos”:
Sobre os “cães humanos”:
http://g1.globo.com/mundo/noticia/2016/05/o-curioso-universo-dos-homens-que-vivem-como-caes.html;
Sobre a pessoa transexual que quer ser cavalo:
https://www.youtube.com/watch?v=cwHP4CnSTfw
Não custa informar que esse artigo começou a ser
escrito há alguns anos atrás (a primeira versão incompleta foi escrita em 2016,
sendo revisto parcialmente em 2021 e completado agora em 2026 com uma pequena
revisão e alguns acréscimos em relação à parte anteriormente escrita) e ficou
incompleto e abandonado devido a outros projetos. Hoje, a emergência da
popularização dos therians apenas reforçam o que já havia sido percebido
e a ampliação da dubiedade informativa, pois muitos casos de supostos “seres
humanos que se identificam como animais” são farsas de influenciadores virtuais
(geralmente apresentados, a posteriori, como ironia), gerando ainda mais
confusão num mundo já excessivamente confuso (e mais uma vez é manifestação da dubiedade
informativa).
[3]
http://fdc.br/Arquivos/Mestrado/Revistas/Revista10/Discente/SuheylaFonseca.pdf
Uma síntese pode ser vista em (Verhoeven, 2007).
[4]
E aqui se revela mais uma vez um misto de racionalização e irracionalidade. O
desejo de identificar o “gênero” (que agora seriam “múltiplos”) é uma
autodefinição supostamente racional e racionalizada gerando todo um sistema
classificatório inútil e que serve apenas para reforçar estereótipos e
comportamentos padronizados em nome de uma suposta “liberdade”. Aqui a noção de
liberdade é a de escolher sua própria prisão. Isso é uma irracionalidade.

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