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quarta-feira, 31 de julho de 2019

MEMÓRIA E MOVIMENTOS SOCIAIS



MEMÓRIA E MOVIMENTOS SOCIAIS

Nildo Viana

Resumo:
Os movimentos sociais ganham cada vez mais espaço nas pesquisas sociológicas. O desenvolvimento da compreensão dos movimentos sociais requer avanços no sentido de desbravar novos aspectos em sua análise. Esse é o caso da relação entre memória social e movimentos sociais. A memória social é um tema sociológica também antigo, embora venha recebendo um interesse renovado mais recentemente e que remete ao problema dos grupos e classes sociais e seus discursos, produzidos socialmente, sobre o passado. Os discursos sobre o passado, por sua vez, são perpassados por lutas. Os movimentos sociais, com toda sua complexidade, divisões, mutações, também precisam resgatar sua memória e há uma luta nesse processo de recordação das suas ações. O nosso tema é, por conseguinte, a relação entre memória social e movimentos sociais. O objetivo é analisar o significado da memória social para os movimentos sociais e suas lutas. Para efetivar tal análise, utilizaremos o método dialético visando reconstituir, a partir da categoria de totalidade, essa relação. Utilizaremos, como ilustração, o caso da rebelião estudantil de maio de 1968, para mostrar a luta em torno da memória. Os resultados da análise apontam para a percepção da luta em torno da memória e do caráter seletivo das recordações a partir de distintas perspectivas de classe. O caso do maio de 1968 em Paris mostra como esse momento de radicalização do movimento estudantil é recordado sob diversas formas, dependendo de que o interpreta.

O tema que abordaremos é a relação entre memória social e movimentos sociais. O objetivo é analisar o significado da memória social para os movimentos sociais e suas lutas. Os movimentos sociais ganham cada vez mais espaço nas pesquisas sociológicas. O desenvolvimento da compreensão dos movimentos sociais requer avanços no sentido de desbravar novos aspectos em sua análise. Esse é o caso da relação entre memória social e movimentos sociais. A memória social é um tema sociológico também antigo, embora venha recebendo um interesse renovado mais recentemente e que remete ao problema dos grupos e classes sociais e seus discursos, produzidos socialmente, sobre o passado. Os discursos sobre o passado, por sua vez, são perpassados por lutas.
Para efetivar tal análise, utilizaremos o método dialético visando reconstituir, a partir da categoria de totalidade, essa relação. O método dialético foi desenvolvido por Marx (1983; 1988) e retomado por outros autores (KORSCH, 1977; LUKÁCS, 1989). O método dialético é uma ferramenta intelectual para reconstituir o real no pensamento (VIANA, 2007), buscando superar o ponto de partida natural (a “intuição”, a consciência imediata dos fenômenos) através do processo de abstração, visando descobrir as determinações dos fenômenos pesquisados, que aparece no final da pesquisa como concreto-determinado (MARX, 1983). Nesse sentido, é preciso destacar que o fenômeno é sempre uma totalidade, inserida numa outra totalidade. As ideias, por exemplo, fazem parte da totalidade que é a sociedade e, por isso, não são meros epifenômenos, são também determinações do processo histórico (KORSCH, 1977). Assim, os fenômenos devem ser analisados como totalidades e envolvidas em totalidades mais amplas. Isso significa que, para o método dialético, os fenômenos não podem ser isolados, separados da totalidade. O uso do método dialético para analisar a relação entre memória social e movimentos sociais aponta para compreender estes dois fenômenos como totalidades inseridas na totalidade da sociedade capitalista e, por conseguinte, sendo afetados por ela.
Assim, é preciso entender os conceitos de memória social e movimentos sociais para poder avançar no processo analítico da relação entre esses dois elementos. A questão da memória é discutida em diversas ciências, recebendo destaque especial na psicologia e na filosofia, e acabou se inserindo nas análises sociológicas através da ideia de uma “memória coletiva” ou “memória social”, bem como na historiografia. Assim, os estudos pioneiros de Bergson (1999), Blondel (1960) e outros, abriram espaço para as posteriores discussões sociológicas sobre memória coletiva ou social (HALBWACHS, 1990; BOSI, 1995; SANTOS, 2003; FENTRESS; WICKHAM, 1994; VIANA, 2006).
Para avançar nessa discussão, julgamos necessário realizar a distinção entre memória individual, memória social e memória coletiva (VIANA, 2019a). A memória individual, em nossa concepção, é uma consciência latente, ou seja, uma possibilidade suscetível de se realizar, uma potencialidade, que é ativada pela consciência, que realiza uma evocação de lembranças. Em outras palavras, é o conjunto de lembranças gravadas na mente humana e que são recordadas de acordo com as necessidades e mecanismos de seleção gerado por ela. A memória social é o conjunto de lembranças (relativas, obviamente, ao passado) existentes na sociedade, e expressas na cultura, ou seja, no conjunto de produções intelectuais de uma determinada época, bem como nos bens materiais (construções, objetos, etc.), indivíduos (quando exteriorizam sua memória individual ou quando estão vivos e são portadores de memória), meio ambiente em sua relação com a sociedade, etc. A memória coletiva, por sua vez, já aponta para a memória de classes e grupos sociais. Ela se refere ao conjunto de lembranças que são dessas classes e grupos[1]. O nosso foco aqui será a memória social, ou seja, ao processo mais amplo a nível global de uma sociedade.
Outro conceito importante para nossos objetivos é o de movimentos sociais. Eles são compreendidos aqui como sendo “movimentos de grupos sociais” (JENSEN, 2014; VIANA, 2016). Existem diversas outras definições de movimentos sociais (ALONSO, 2009; GOHN, 2002; VIANA, 2016), mas não poderemos apresentá-los por questão de espaço. Essa concepção de movimentos sociais aponta, também, para a diferenciação entre grupos sociais e movimentos sociais. Os grupos sociais geram movimentos sociais, mas nem todos os indivíduos de um grupo social participam do movimento social gerado por ele. O movimento negro é um movimento social do grupo social composto pelos indivíduos negros, mas apenas os seus ativistas da causa negra fazem parte do movimento. Outro elemento importante é distinguir o movimento social de suas ramificações. O movimento negro gera um conjunto de organizações, tendências, etc., tais como a Frente Negra, o Movimento Negro Unificado, o Movimento Negro Socialista, entre diversas outras organizações. Essas organizações não são, cada uma, um movimento negro e sim ramificações dele.
Os movimentos sociais são, portanto, complexos, marcados por divisões internas, subdivisões, distintas tendências, concepções (ideologias, doutrinas, representações, etc.). A questão da memória assume um significado importante para os movimentos sociais. A memória faz parte do processo de resgate das lutas, conquistas, experiências, por parte do movimento social, gerando um conjunto de elementos que reforçam a luta. Assim, a figura de Zumbi dos Palmares, no caso do movimento negro, assume importância, bem como os Quilombos (e surgiu, baseado na evocação de lembranças dessa forma de resistência ao escravismo colonial, a proposta do “quilombismo”).
A memória coletiva nos movimentos sociais não só resgata a história de um grupo social e suas lutas, mas é um elemento de aglutinação e reforço da luta deste grupo, entre outros significados que adquirem no processo de lutas sociais. Porém, a complexidade dos movimentos sociais se manifesta em suas divisões e tendências. O movimento feminino, por exemplo, pode resgatar personagens do passado, mulheres que se destacaram política ou intelectualmente, ações ou organizações, mas cada resgate é uma opção e uma posição que reforça determinada tendência. Uma coisa é resgatar Sylvia Pankhurst, outra coisa é resgatar o sufragismo. O resgate do sufragismo por um setor do movimento feminino significa uma posição política de crença na democracia representativa, tática de uso do processo eleitoral e um conjunto de valores e concepções. O resgate de Sylvia Pankhurst (filha e irmã de duas das mais destacadas representantes do sufragismo, com as quais rompeu política e pessoalmente) já aponta para a inseparabilidade entre lutas femininas e lutas proletárias e recusa do parlamentarismo. Isso quer dizer que há, no interior dos movimentos sociais, uma luta em torno da memória e que cada recordação ou cada esquecimento, é uma seleção que tem um significado político. Esse significado político, por sua vez, se insere no conjunto da sociedade, estando envolvido nas lutas de classes, concepções políticas e ideológicas, entre outros processos que permitem sua explicação.
A memória social é, por conseguinte, palco de lutas. Nesse contexto, podemos colocar a questão das formas de acessar a memória social. A primeira forma é a institucionalizada, que é realizada, na sociedade capitalista, pelo aparato estatal. Este, através de instituições (como as voltadas para preservação do patrimônio histórico, museus, etc.) e datas comemorativas, entre outras formas, realiza uma rememoração do passado de acordo com seus interesses, tanto os gerais (reprodução do capitalismo) quanto mais concretos (governos, etc.). O capital comunicacional (grandes redes de TV, Rádio, grandes jornais, etc.) é outro determinante na rememoração hegemônica na nossa sociedade. Por outro lado, os intelectuais, com destaque para os historiadores, também são responsáveis pela versão do passado que é interiorizada nas memórias individuais[2]. Desta forma, temos uma versão da história que é, geralmente, a história dos vencedores (BENJAMIN, 1994).
A luta em torno da memória ocorre via rememoração. Rememorar é o ato de lembrar o passado. A rememoração é um processo seletivo, no qual se resgata/recupera da memória social (o conjunto de lembranças existentes numa determinada sociedade e época) aquilo que é de interesse de quem rememora. Isso ocorre através da interiorização que os indivíduos fazem da memória social, ou seja, através de sua consciência (determinada por sua personalidade) ele resgata/recupera acontecimentos, ideias, etc., e o reforça sua reprodução social. Esse indivíduo, estando em determinadas instituições, tende a fazê-lo de acordo com os interesses desta, realizando a sua recuperação. A rememoração também ocorre quando o indivíduo exterioriza sua memória individual, ou seja, torna público suas recordações pessoais[3]. Nesse momento, tais recordações tornam-se parte da memória social.
A rememoração gera versões da história ou sua reconstituição. A reconstituição da história é uma rememoração que se mantém, em sua essência e totalidade, fiel aos acontecimentos. As versões da história, por sua vez, são invenções memoriais, intencionais ou não. Assim, percebemos que a rememoração pode assumir várias formas. Ele pode ser um resgate da história, quando extrai da memória social aquilo que é verdadeiro, ou pode ser uma recuperação, ou seja, readquirir a posse da memória, que foi perdida[4]. Uma outra forma é a apropriação, na qual um acontecimento, indivíduo, etc. é apropriado por uma concepção, ideologia, etc. A apropriação da memória é um processo que muitas vezes é realizado sob forma inintencional, mas também pode ser intencional. Ela é, independente da forma, uma deformação, uma falsificação da história, mais ou menos intensa, dependendo de quem o faz, quais objetivos e base apropriadora.
Assim, a luta pela memória se manifesta através da rememoração como resgate e como recuperação, ou seja, a partir da perspectiva burguesa (ou burocrática) e da perspectiva proletária, respectivamente. A perspectiva de classe determina se o que ocorre é resgate ou recuperação, ou, ainda, apropriação. No entanto, é possível desvios, seja pelo motivo de que a tentativa de resgate foi realizado por um revolucionário ambíguo ou num contexto desfavorável (acesso a poucas informações, influência de interpretações deformadoras, etc.), seja por que o agente da recuperação tenha contradições e uma honestidade intelectual que faz retomar os acontecimentos e outras lembranças de forma mais fidedigna.
Esse foi o caso da Comuna de Paris, a primeira experiência histórica de revolução proletária. Artistas como Zola e outros execraram esse acontecimento extraordinária, bem como caluniaram os operários parisienses (VIANA, 2011; LIDSKY, 1971; VALLÉS, 1992), bem como historiadores (PINHEIRO CHAGAS, 1872). Essa não é uma recuperação crítica, na qual se coloca o acontecimento revolucionário como sanguinário e desumano. O domínio do acontecimento foi perdido concretamente, mas idealmente ele é recuperado ao ser execrado. Aqui estamos no reino da mentalidade burguesa manifesta de forma mais cristalina. A forma clássica de recuperação foi realizada por Lênin (1987; VIANA, 2011), na perspectiva burocrática. A Comuna de Paris é elogiada, mas, ao mesmo tempo, criticada. A crítica aponta para a falta de liderança, de decisão, a falta da tomada do poder estatal. Essa ladainha será repetida pelos trotskistas, com seu eterno discurso da falta de “direção revolucionária” (LUQUET, 1968). Por outro lado, a perspectiva proletária se manifestou através de Marx, que não fez apenas apologia, mas mostrou o seu significado revolucionário (VIANA, 2011; MARX, 2011)[5], “a forma política finalmente encontrada de emancipação proletária” (MARX, 2011).
A relação entre memória e movimentos sociais é semelhante. Cada grupo social gera lembranças coletivas, que se conservam ou se perdem com o passar do tempo. Porém, os movimentos sociais são apenas o “grupo em fusão”, o setor ativista dos grupos sociais. Assim, nos grupos sociais temos a exteriorização da memória individual que gera uma memória social que pode ser posteriormente resgatada ou recuperada, bem como outras formas de transmissão memorial, como obras, bens materiais, etc. Alguns ativistas dos movimentos sociais realizam o mesmo processo. Porém, uma grande parte realiza o processo inverso, de buscar interiorizar a memória social a respeito do grupo e do movimento social. No entanto, ano apenas eles fazem isso, pois o aparato estatal, os meios oligopolistas de comunicação, entre outros, também realizam esse processo e geram uma memória social que, posteriormente, pode ser interiorizada pelos grupos ou movimentos sociais. Nesse sentido, a luta pela memória é constante nos movimentos sociais, bem como nos grupos e classes sociais e na sociedade em geral.
A memória de grupos sociais foi pouco pesquisada e pouco rememorada. Além dos estudos de Halbwachs, pouco se tratou disso, tal como Fentress e Wickham, que abordam num item de um capítulo do livro sobre Memória Social, a “memória das mulheres”. A memória dos movimentos sociais já foi um pouco mais trabalhada, seja pelos ativistas, seja pelos pesquisadores. Sader (1995), por exemplo, traz elementos de memória de ativistas dos movimentos sociais, tal como o “Clube das Mães”, uma ramificação do movimento feminino.
O primeiro elemento é entender que memória coletiva de classe se distingue de memória coletiva de grupo. As classes sociais existem a partir da sua posição na divisão social do trabalho e os grupos existem a partir de uma unidade que emerge a partir de diferentes processos, como os corporais, situacionais, culturais. Uma classe social tem uma unidade de interesses diante de outra classe social (MARX; ENGELS, 1982), enquanto que os grupos sociais possuem divisões de interesses, inclusive pela maioria deles ser policlassista[6]. O foco aqui são os movimentos sociais, e por isso vamos abordar mais este caso.
Os movimentos sociais realizam o mesmo processo que o aparato estatal em relação à memória. Eu recordo que, uma vez, conservando com uma amiga militante do movimento negro, a quem solicitei um texto para um jornal de curso de graduação que eu coordenava, sobre a questão da mulher e ela disse: “sim, posso fazer, posso começar com Rosa Luxemburgo”. A lembrança de Rosa Luxemburgo era interessante, mas o motivo de expor minha recordação é que o texto solicitado foi sobre a questão da mulher ou o movimento feminino e não sobre indivíduos e logo emerge uma figura feminina de destaque. Isso revela um procedimento comum que é a criação do memorável.
Os ativistas dos movimentos sociais tendem a querer criar o memorável: indivíduos, acontecimentos, lutas, etc. A criação do memorável é, muitas vezes, acompanhada pela comemoração. Assim como o movimento operário, os movimentos sociais querem rememorar os grandes momentos de sua história, gerando datas comemorativas. O movimento negro brasileiro, por exemplo, recorda Zumbi dos Palmares, produz o “Dia da Consciência Negra” (que é dia 20 de novembro ao invés da data oficial, 13 de maio, “Dia da Abolição da Escravidão”).
A rememoração por parte dos ativistas assume, muitas vezes, a forma de adaptação memorial[7]. Essa adaptação memorial é muitas vezes apologética ou projetiva. A forma apologética se constitui a partir da supervaloração de indivíduos, acontecimentos, ideias, etc. Isso, às vezes, está mais ou menos de acordo com o significado político de determinado indivíduo, mas na maioria das vezes é exagerado. O caso de Che Guevara, santificado por uns e demonizado por outros (MOREIRA, 2019), é um exemplo desse processo, no qual a realidade concreta e os seres humanos reais e históricos, são substituídos por imagens apologéticas. A forma projetiva é aquela na qual os ativistas de hoje, ou com suas concepções atuais, reinterpreta os acontecimentos e ideias a partir da projeção de seus desejos, suas ideias ou teses, etc. Essa adaptação memorial geralmente é, com exceção quando assume a forma projetiva, uma recuperação, mesmo quando feita por ativistas ex-ativistas.
A rememoração das lutas de classes, dos movimentos sociais, entre outros processos, também é realizada pelo aparato estatal, pelas instituições, pelos intelectuais, etc. O intercâmbio entre memória coletiva e memória social é constante. A memória oficial visa recuperar a memória coletiva e inseri-la em sua versão da história. A memória coletiva, muitas vezes, se constitui a partir do resgate de elementos da memória social, realizando sua interiorização ou reinterpretação. Em certos casos, quando ultrapassa os mecanismos recuperadores e as versões deformadoras, é resgate. Isso faz parte da luta pela memória. Vamos abordar os mecanismos recuperadores da memória a seguir, tratando do caso concreto do Maio de 1968.
Após essa breve reflexão sobre a memória coletiva e os movimentos sociais, passamos para a análise de um caso concreto. Utilizaremos, como ilustração o caso da rebelião estudantil de maio de 1968, para mostrar como ocorre concretamente a luta em torno da memória. Quem recorda o maio de 1968 hoje? Por quais motivos e com quais objetivos? E de que forma? Existem análises que focalizam a questão da relação entre movimento estudantil e movimento operário, seja para afirmar que se tratou de uma verdadeira revolução (WOODS, 2016), seja para dizer que a autogestão nas fábricas não passa de um “mito” (PORHEL, 2000). Assim, esse acontecimento histórico pode ser apresentado com uma luta juvenil cuja questão básica era a sexualidade (HOBSBAWN, 1999), como coisa de “estudantes esquerdistas” (NIETO, 1971), ou, ainda, como uma luta reivindicativa que se torna revolucionária (BRINTON, 2018), entre diversas outras formas de rememoração. Assim, as “vidas posteriores” do Maio de 1968 (ROSS, 2008) mostram uma recuperação do movimento por seus adversários no sentido de lhe retirar sua radicalidade e, por outro, aqueles que recordam essa luta para justamente inspirar lutas radicalizadas no presente e para isso realizam o seu resgate.
Essa rememoração do movimento de maio de 1968 via análises sociológicas (TOURAINE, 1970) ou marxistas (VIANA, 2019b), ou através do trabalho historiográfico (HOBSBAWN, 1999), autobiográfico (THIOLLENT, 1998) ou narrativo (BRINTON, 2018) efetivam processos seletivos e possuem impacto na memória social do movimento estudantil atual e das lutas sociais em geral. A sua variedade se reproduz no interior dele, bem como distintos usos. A memória social do Maio de 1968 dos intelectuais expressam distintas perspectivas e por isso apresentam distintas seleções, interpretações, etc. Isso ajuda a recompor a memória social dos ativistas do movimento estudantil atual, pois estes possuem sua memória desse evento histórico a partir das informações e leituras, pois eles não viveram naquela época e não participaram dele. É uma memória fundamentada não na experiência e sim na herança cultural deste acontecimento histórico. Isso significa que os ativistas do movimento estudantil atual, bem como outros (militantes de grupos políticos, ativistas de outros movimentos sociais, etc.), vão selecionar qual dessas rememorações é legítima, verdadeira e isso não será algo homogêneo, pois distintas perspectivas de classe estão na base dessas escolhas.
Assim, observamos que há uma luta em torno da memória do Maio de 1968 e esta é marcada pela seletividade das rememorações a partir de distintas perspectivas de classe, tanto na análise dos intelectuais quanto na recepção de ativistas do movimento estudantil. O caso do maio de 1968 em Paris mostra como um momento de radicalização do movimento estudantil é rememorado sob diversas formas, dependendo de quem o interpreta. Isso ocorre também no caso de outros eventos históricos que possuem importância para outros movimentos sociais. O caso do Maio de 1968, no entanto, se destaca pela importância histórica que teve.
Tão logo se encerra o Maio de 1968, que segundo setores da versão oficial se encerra, “oficialmente”, no dia 30 de maio, e, para outros, somente em fins de junho, enquanto que outros já apontam para uma duração muito mais longa, começa a se apresentar testemunhos e depoimentos[8]. As análises se iniciam durante o próprio acontecimento, como ocorre quase sempre. Elas, posteriormente, tornam-se alvos de análises e interpretações. O encerramento do evento rememorado pode ser acompanhado pela amnésia social, para utilizar linguagem de Jacoby (1977), ou por sua rememoração, que pode assumir, como já colocamos, várias formas. No caso do Maio de 1968, houve um processo ininterrupto de rememoração. Ele se tornou memorável e motivo de comemoração. A cada dez anos, se comemora o maio de 1968. E o curioso é que ele é comemorado por amigos e inimigos, pela memória oficial e por memórias coletivas diversas. É isso que permitiu a denúncia das vidas posteriores do Maio de 1968 (ROSS, 2008).
A limitação de “Maio” ao mês de maio tem diversas repercussões. O recorte temporal reforça uma redução geográfica da esfera da atividade a Paris, mais concretamente ao Bairro Latino [Quartier Latin – NV], e, ao mesmo tempo, se baseia nesta limitação. De novo, desaparecem da cena os operários em greve de fora de paris e o resto da França e se evaporam os exitosos experimentos de solidariedade entre operários, estudantes e camponeses das províncias. Segundo algumas versões, nas províncias se produziram manifestações mais violentas e sólidas que em Paris em maio e junho, porém isto não se apresenta na versão oficial. Se ignora desta forma o que se viveu nas fábricas de Nantes, e longe de Paris, assim como toda uma constelação de práticas e ideias sobre a igualdade que não podem ser assimiladas pelo atual paradigma liberal/libertário que muitos atores de maio adotaram (ROSS, 2008, p. 36).
A obra de Ross é um marco para quem quer discutir a relação entre Maio de 1968 e suas “vidas posteriores”, ou seja, as suas rememorações. A autora aponta para algo importante, a luta pela memória, e mostra algumas das formas de rememoração desse acontecimento histórico que foi um divisor de águas na sociedade moderna (VIANA, 2009). Porém, ela ainda o faz, apesar de sua radicalidade e criticidade, sem superar totalmente as ideias de sua época, e, por conseguinte, a sua própria rememoração do Maio de 1968 acaba sendo uma adaptação memorial projetiva, embora trazendo o resgate de elementos importantes desse acontecimento[9].
Ross apresenta o conjunto de rememorações do Maio de 1968, o peso da televisão e suas comemorações a cada dez anos, bem como daqueles que ela chama de “ex-esquerdistas”, ou seja, os militantes radicais da época ou intelectuais engajados que abandonaram a adesão ao movimento contestador, as publicações posteriores (e círculos intelectuais oriundos desse evento, tal como a revista Revoltas Lógicas), os intelectuais conservadores e suas críticas e sua condenação. A tentativa do sociólogo Raymond Aron de exorcizar o Maio de 1968, bem como outros, é apresentado e mostra uma das formas de rememoração. Ross (2008) não esquece as exceções e aqueles que tentavam resgatar o Maio de 1968 da recuperação.
Como não é possível analisar o conjunto das rememorações desse acontecimento histórico, então teremos que apenas apontar e analisar algumas delas. Uma das versões mais comuns do Maio de 1968 é atribuir este evento a um problema da juventude, conflito de gerações, entre outros processos (ROSS, 2008). Outra versão bem conhecida é a que a busca a reduzir a uma questão de mudança cultural e nos costumes, especialmente a questão da sexualidade (ROSS, 2008). Essas duas interpretações são formas de recuperação do Maio de 1968. Por esse motivo vamos tomar essas duas rememorações como base para a nossa crítica dessa recuperação, no sentido de que, ao criticar a deformação, contribuímos com o resgate da memória social e da história real.
Jean-Franklin Narot observou que a rememoração do Maio de 1968 pela memória oficial tem semelhança com o modo de relatar da atividade de sonhar, apesar de considerar que faz isso com prudência, pois desconfia do uso de conceitos para além da sua esfera de atividade. Mas, a partir dos termos psicanalíticos para explicar os sonhos, ele aponta a forma como se realiza a deformação do Maio de 1968. Segundo Narot, os sonhos usam quatro mecanismos de deformação:
1) A condensação (um nome, uma “personalidade”, contém, representa, reabsorve uma multidão de atores, seus atos e seu pensamento); 2) o deslocamento (substituição das questões levantadas no Maio de 1968 por problemáticas secundárias ou heterogêneas; confecção de pseudorresponsabilidades dos movimento escolhidos preferencialmente entre que combatiam, eram periféricos ao mesmo ou simplesmente anódinos); 3) A figurabilidade (preponderância de imagens na conceituação e análise, mas também recodificação de 68 através de toda uma bateria de referências imaginárias contemporâneas recorrentes: o “retro”, o “idealismo-generoso-porém-ingênuo”, a “violência”, a “moda”, o “individualismo”, a “comunicação”, etc.; e, por último, 4) a elaboração secundária (reescrita linear de “acontecimentos”, imputações causais realizadas com demasiada naturalidade, redução a finalidade reivindicativas, uma clara consciência postulada dos atos e das apostas de então, positivações múltiplas, coerência fática, integração na ordem da política, inteligibilidade globalmente dominada) (NAROT, 1988, p. 181).
Podemos observar que as análises que rememoram o Maio de 1968 a partir do “conflito de gerações” ou “problema juvenil”, bem como aqueles que o reduzem a uma questão cultural e de sexualidade, utilizam todos alguns destes elementos apontados por Narot (1988). Não que a juventude não tenha tido nenhuma relação com o processo. Sem dúvida, os jovens e a condição juvenil, especialmente na sociedade capitalista francesa após 1960, teve um significado político importante. Contudo, tanto a condição juvenil quanto a estudantil estão relacionadas com o Maio de 1968, mas não foram essa situação de grupo social que fez emergir o Maio de 1968 e, muito menos, lhe deu sentido. A gênese do Maio de 1968 remete ao problema da acumulação de capital e projeto de reforma da universidade, um elemento derivado, que atingiu diretamente os estudante e promoveu manifestações, que, depois se radicalizaram e se transformaram numa rebelião. A questão dos costumes teve um peso muito mais restrito, bem como a sexualidade. Sem dúvida, havia elementos, mas nem são como muitos depois quiseram fazer crer, nem ganhou um destaque no conjunto das lutas e das mudanças.
As rememorações do Maio de 1968 como questão juvenil ou de conflito de gerações, ou cultura e sexual, só não efetiva o que Narot denominou “condensação”. Sem dúvida, grande parte das rememorações realizam a condensação, ao destacar e tornar Daniel Cohn-Bendit ou Alain Geismar os “líderes” do movimento, bem como outros que apontam para o significado de De Gaulle, o que remete para a rememoração que conta a história dos vencedores. Porém, nessas versões da história ocorre o deslocamento da luta estudantil e operária e suas exigências radicais para questão meramente juvenil, estudantil, cultural, sexual. A figurabilidade aparece com a criação imaginária contemporânea que supervalorar a sexualidade e outros processos. A elaboração secundária aparece com a transformação dessas questões em questão fundamental, gerando uma imputação causal inexistente.
Em síntese, o que ocorreu nesse caso foi uma adaptação memorial que realiza um conjunto de processo que exorciza a radicalidade do movimento, as suas exigências mais profundas de transformação, ou mesmo, em seus setores mais moderadas, as reivindicações concretas, substituindo-as por coisas imaginárias, inexistentes na época ou muito marginais, ou, ainda, que tiveram espaço antes da eclosão da rebelião. Essa adaptação memorial serve ao propósito de promover uma enfatização excessiva em certos elementos e assim desviar da determinação fundamental e processos políticos mais amplos e importantes.
Desta forma, é possível perceber que a luta pela memória em relação ao Maio de 1968 é apenas um capítulo de uma obra histórica muito mais vasta que se tem como palco a história da humanidade e, mais recentemente, a história da modernidade. A rememoração fica entre o resgate e a recuperação e isso atinge todos os movimentos sociais, bem como os movimentos políticos e de classe. Nesse contexto geral, a luta pela memória faz parte da luta mais ampla pela conservação ou pela transformação radical e total das relações sociais. Isso revela, por sua vez, a importância da discussão sobre memória e movimentos sociais, bem como o resgate das lutas sociais do passado. O “enquadramento da memória” gera o amnésia social e essa pode não só permitir o retorno da barbárie (ADORNO, 1995), como é mais um obstáculo para a superação da selvageria atual.


Referências

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[1] A relação entre memória e grupos sociais foi realizada, pioneiramente, na sociologia, por Halbwachs (1990) e depois recebeu vários tratamentos. Fentress e Wickham (1994) usam o termo “memória social” e aborda classes sociais (camponeses, proletários) e grupos sociais (mulheres). Assim, alguns preferem utilizar “memória coletiva” e outros “memória social”. A nossa opção foi utilizar os dois termos (como alguns fazem, mas sem realizar distinção) sob forma distinta: a memória social é a do conjunto da sociedade e a coletiva de classes, grupos, etc., no seu interior, pois existem diferenças entre ambos na realidade concreta e por isso deve ser expressa conceitualmente (VIANA, 2019a).
[2] “O indivíduo não pode “recordar” o que não viveu. O que ele pode fazer é rememorar, ou seja, trazer elementos da memória social de volta, através da interiorização” (VIANA, 2019a, p. 37).
[3] Isso pode ser feito através de autobiografia, publicação (ou não, mas que pode se tornar público após a morte) de diário, crônicas divulgadas em meios de comunicação, depoimentos para entrevistadores, agentes policiais, jornalistas, etc.
[4] Sem dúvida, aqui tratamos de recuperação memorial. A recuperação memorial é aquela na qual quem detinha o seu domínio a perdeu e a retoma novamente. Nesse sentido, é a classe dominante que possui a posse da memória social e se acontecimentos e exteriorizações memoriais antagônicas surgem em determinado momento, após a derrota da experiencia revolucionária ou lutas radicalizadas, ela a retoma, a recupera. No sentido mais geral (indo além da memória), o termo “recuperação” ganhou sentido semelhante através da chamada Internacional Situacionista (KHAYATI, 2019). No sentido comum, a palavra resgate tem vários significados, tal como pagar dívida, libertar do cativeiro, etc. Aqui assume o significado de libertar lembranças que estavam esquecidas pelo domínio da memória social pelos detentores do poder, sendo apenas resgate memorial. O resgate memorial tem um sentido positivo, significar trazer de volta lembranças verdadeiras e a recuperação memorial é algo negativo, significa o contrário, ou seja, sufocar lembranças verdadeiras transformando-as em falsas.
[5] Um exemplo de desvio seria o caso de Karl Korsch (2011a; 2011b), que, por desânimo com as derrotas proletárias e aproximação temporária com o anarcossindicalismo, acabou ambiguamente aceitando a interpretação leninista de Marx a respeito da Comuna de Paris (VIANA, 2011).
[6] Os negros, as mulheres e os estudantes, entre inúmeros outros grupos sociais, são policlassistas, pois os indivíduos que os compõem pertencem a várias classes sociais. Os grupos sociais monoclassistas são geralmente os conservadores, em alguns casos, e os das classes inferiores, tal como os sem-teto tendem a ser todos do lumpemproletariado, no significado mais amplo do termo (BRAGA, 2013; VIANA, 2018). Sobre a diferença entre movimentos sociais e movimentos de classe, cf. Viana (2016a; 2016B).
[7] “O termo adaptação significa, nas representações cotidianas, um processo de modificação visando que algo se ajuste a uma nova situação, contexto, padrão, etc. A adaptação memorial é o processo no qual a memória, o conjunto de lembranças do indivíduo, se adapta a uma nova situação social, condição mental, etc.” (VIANA, 2019a, p. 38).
[8]  b
[9] O apelo à subjetividade e outros elementos mostra que sua análise mantinha certa influência do que Jacoby (1977) denominou “política da subjetividade”.
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Apresentado em: 19º Congresso Brasileiro de Sociologia -9 a 12 de julho de 2019 - UFSC - Florianópolis, SC


quarta-feira, 24 de julho de 2019

Pearl Harbor: Manifestação de valores axiológicos no cinema


Pearl Harbor: 

Manifestação de valores axiológicos no cinema

Nildo Viana*
Verônica Martins Moreira**
Resumo
A produção cinematográfica realiza uma reprodução da sociedade e do seu processo histórico de desenvolvimento. O filme passa uma mensagem e esta é marcada por um conjunto de valores e, por isso, ele é uma manifestação concreta deles. O nosso objetivo foi analisar os valores expressos no filme Pearl Harbor (Michael Bay, EUA, 2001). O ponto de partida foi uma discussão sobre a relação entre cinema e valores e, posteriormente, como, concretamente, eles se manifestam nos filmes e, a partir disso, analisar este processo especificamente no caso da obra cinematográfica Pearl Harbor. A análise desse filme revela a predominância axiológica, pois reproduz valores dominantes convivendo com outros que são autênticos, mas os insere num contexto valorativo mais amplo que os deforma e reforça a axiologia.
Os primeiros passos do cinema se iniciam a partir do final do século 19, mas ele se constitui efetivamente no início do século 20. O filme, propriamente dito, surge no século 20, sendo um elemento da totalidade das relações sociais e reprodutor destas. Esta reprodução, por sua vez, revela uma manifestação da sociedade, sendo uma determinada percepção dela que é constituída socialmente. Estudar o cinema como produto social e histórico significa analisar o seu processo de constituição, suas determinações (VIANA, 2009a).
Analisar o cinema como agente da história, tal como sugerido por Ferro (1992), significa observar sua influência na sociedade. Além disso, como coloca Ferro (1992, p.19), o filme “coloca para o historiador o problema de sua própria leitura do passado”. No entanto, o nosso propósito, aqui, não é analisar o filme como agente da história e sim compreender o cinema enquanto um determinado veículo de comunicação que, através do filme, reproduz as relações sociais. No entanto, ele passa uma mensagem e esta é marcada por um conjunto de valores (VIANA, 2009a). Desta forma, um filme é uma manifestação concreta de determinados valores, bem como também de concepções, sentimentos, etc.
O nosso objetivo central é analisar a manifestação desses valores no filme Pearl Harbor. O ponto de partida será, portanto, uma discussão sobre a relação entre cinema e valores e, posteriormente, observar como, concretamente, estes se manifestam nos filmes.
Valores e Sociedade
No mundo acadêmico contemporâneo é perceptível uma abissal indiferença no que tange ao tratamento de alguns conceitos importantes, tal como o conceito de valores. Há uma falta de consenso em sua definição, apesar de sua importância para compreender os processos sociais e culturais. A criação de valores é uma criação social, essencialmente humana. A constituição dos valores é um processo social que produz diferentes valores, tanto os valores autênticos quanto os inautênticos, tal como serão definidos adiante. Nosso objetivo é discutir a relação entre cinema e valores e analisar a manifestação de certos valores em um exemplo específico, visando apresentar, a título de ilustração, um exemplo de manifestação valorativa axiológica que comprova ser o filme uma produção cultural valorativa.
Os valores são constituídos socialmente. Não são, portanto, resultado do acaso ou da imprevisibilidade. Nas sociedades divididas em classes sociais, temos valores antagônicos, expressando as diferentes classes sociais existentes. Temos, por um lado, os valores dominantes, que expressam os interesses da classe dominante; por outro, os valores de outras classes sociais, que tendem a ser, quando não influenciados pelos valores dominantes, valores autênticos, expressando os interesses humanos universais. Na sociedade capitalista, os valores dominantes estão ligados ao processo de produção e reprodução desta sociedade. O poder do capital impõe valores que se tornam dominantes e generalizados em nossa sociedade, restando pouco espaço para os valores autênticos, que são marginalizados. Dessa forma, é importante definir o conceito de valores.
O valor é algo significativo, importante, para um indivíduo ou grupo social. Os valores, por conseguinte, são o conjunto de “seres” (objetos, ações, ideias, pessoas, etc.) que possuem importância para os indivíduos ou grupos sociais. Portanto, se dissermos que algo é um valor, queremos simplesmente dizer que ele é significativo, importante. (VIANA, 2008a, p. 17-18)
Em todas as esferas da nossa vida atribuímos valor a determinados objetos, sentimentos, atitudes, etc., em detrimento de outros que julgamos pouco ou sem importância, deixando-os marginalizados. A aplicação de características qualificativas positivas ou negativas a esses mesmos objetos, sentimentos e atitudes, em todo o âmbito social, se dá então de forma exterior, como uma atribuição. A colocação de que o amor romântico é eterno, sublime, divino, é uma valoração; da mesma perspectiva, a infidelidade é maléfica, suja, nociva, prejudicial à consolidação da família e dos valores monogâmicos da sociedade burguesa. No entanto, partindo de outros valores, nem sempre o amor romântico é eterno e nem sempre a infidelidade é maléfica. A atribuição de valores, na maioria das vezes protagonizada pela classe dominante, torna esse processo de valoração múltiplo, plural e não homogêneo, por se tratar de um mecanismo intrínseco ao indivíduo e a classe social a que pertence o mesmo e que sofre várias interpretações e nomeações. Segundo Viana (2008a):
Os valores não são atributos naturais dos seres, pois são atributos fornecidos a eles pelos seres humanos e o fato de não haver consenso entre estes demonstra isto. No entanto, as valorações que os seres humanos fornecem às coisas não são consensuais devido à divisão social. As informações etnográficas sobre as sociedades simples (indígenas, pré-históricas) nos deixam ver a existência de um processo de valoração homogêneo, ao invés de um processo heterogêneo, tal como nas sociedades divididas em classes sociais. (VIANA, 2008a, p.18)
Podemos assinalar duas formas de valoração: a primeira é a valoração primária, que é o processo no qual os valores fundamentais dos indivíduos são os critérios para outras valorações. Os valores fundamentais são aqueles que são essenciais para os indivíduos, que são os mais importantes em sua escala de valores. A segunda é a valoração secundária, aquela que é produzida a partir da valoração primária, o que não impede casos concretos de contradição, em determinados indivíduos. Assim, os valores fundamentais do indivíduo, por exemplo, no caso de uma pessoa religiosa, é sua religião. Isto constitui sua valoração primária, que é o mecanismo pelo qual o indivíduo tende a fazer a valoração secundária, ou seja, definir suas escolhas, gostos, preferências, tendo tais valores fundamentais como ponto de partida. A valoração primária é não só manifestação dos valores fundamentais, mas também recurso mental (valorativo) para realização de escolhas e outras valorações (derivadas) (VIANA, 2008a).
Tal como é importante analisar a valoração primária e derivada é mister também ressaltar a existência e diferença entre valores autênticos e valores inautênticos.  Os valores autênticos são universais, correspondem à natureza humana. São expressão da essência humana e das necessidades e potencialidades humanas, tal com o trabalho, a sociabilidade, a liberdade, etc. (MARKUS, 1974; FROMM, 1988; VIANA, 2008a). Os valores inautênticos são históricos, transitórios, particularistas. Os valores inautênticos, portanto, não pertencem à essência humana, mas que são resultados das relações sociais marcadas pelo conflito e pela divisão, gerando interesses opostos aos do desenvolvimento do ser humano onilateral, que manifesta o conjunto de suas necessidades e potencialidades. Estes valores, na nossa sociedade, seriam os da acumulação de capital, o dinheiro, a competição, o poder, status, etc.
A cada sociedade distinta temos valores distintos. Por mais homogênea que uma determinada sociedade pareça, os valores estão presentes, pois eles, como já mencionado, são intrínsecos ao ser humano. A edificação dos valores por serem produtos da espécie humana e, por conseguinte, da sua atuação sobre o aparelho social, atuam como reflexo dos indivíduos e da malha social na qual operam. Contudo, devido à divisão social, o antagonismo de valores se instala, bem como valores sobrepostos a outros, os valores dominantes. De acordo com Hessen, “… todo aquele que conhecer os verdadeiros valores e, acima de todos, os do bem, e que possuir uma clara consciência valorativa, não só realizará o sentido da vida em geral, como saberá ainda achar sempre a melhor decisão a tomar em todas as suas situações concretas. (HESSEN, 1974, p. 23)
Em se tratando de uma sociedade classista, a constituição dos valores é mais complexa e multifacetada, resultado direto das relações sociais também complexas e conflitantes, embora no que se refere a sociedades tidas como simples¹ este processo tem um caráter mais homogêneo, uma vez que lutas de classes e competição social são inexistentes. Marx (1978) aborda a heterogeneidade das sociedades classistas mostrando que as lutas de classes perpassam o conjunto das relações sociais e cuja base está no modo de produção fundado no processo de exploração de uma classe sobre outra. Assim, as relações de produção dominantes, nas sociedades classistas, não só produzem conflitos de classes, mas outros derivados e, no caso da sociedade capitalista, a competição social é outra forma de conflito desenvolvida e que atinge o conjunto das relações sociais (VIANA, 2008a).
Relacionado com esse processo de competição social, há também o processo de burocratização e mercantilização das relações sociais. A competição perpassa as hierarquias burocráticas e luta pelo poder, e, ao mesmo tempo, as disputas de mercado e luta pelo dinheiro e pela riqueza (VIANA, 2008b). Uma herança cruenta da sociedade burguesa seria a imposição do valor do ter em detrimento do valor do ser. Debord (1997) apresenta-nos outra especificidade desse processo. Segundo o autor, em um primeiro momento a consolidação do capital sobre a substância humana levou a uma anulação da mesma (ilusoriamente docilizado e amansado o trabalhador foi transformado em consumidor). No entanto, hoje, a sociedade do espetáculo (DEBORD, 1997) se ateve aos mais eficazes mecanismos de alienação e criou uma teia de dominação a partir de imagens que transformam a realidade em representação e mera aparência. Esse estado de letargia conserva a manutenção da inconsciência amorfa que é interessante aos meios burgueses de dominação e manipulação, daí um dos pressupostos que explica o esforço em se defender a noção do ter para parecer a partir de uma falsa ideia de inserção.
A primeira fase da dominação da economia sobre a vida social acarretou, no modo de definir toda a realização humana, uma evidente degradação do ser para o ter. A fase atual, em que a vida social esta totalmente tomada pelos resultados acumulados da economia, leva a um deslizamento generalizado do ter para o parecer, do qual todo “ter” efetivo deve extrair seu prestígio imediato e sua função última. (DEBORD, 1997, p.18).
Esta falsa ideia de inserção e a própria noção de anulação/alienação, ainda de acordo com Debord, só foi possível com a preeminência dos valores da classe dominante sobre os demais. A produção capitalista centrada na busca do lucro, nas relações de exploração, etc., criou uma falsa noção de liberdade e de escolha. O poder de comprar, de votar para presidente, de optar por um determinado filme dentre vários outros nos transforma em sujeitos e nos oferece uma inebriante sensação de protagonistas de nossas próprias vidas.
O que não é perceptível – e isso acontece da forma mais sutil possível – é a transformação desses mesmos consumidores em indivíduos nulos, desses mesmos eleitores em marionetes e desses mesmos expectadores em meros receptores. Os valores da sociedade capitalista esfacelam as relações de autenticidade impondo a competição, o dinheiro e a burocracia como valores inerentes aos seres humanos, mas que na íntegra não passam de formas inautênticas de sociabilidade e valores. Dessa forma, a axiologia – ideologicamente² definida como “ciência dos valores” – serve tão somente para conservar esta ordem já estabelecida, e por isso, segundo Viana (2008a), necessita uma nova definição. Assim, a axiologia é definida como determinada configuração dos valores dominantes, ou seja, ela se refere aos valores dominantes em determinada sociedade, expressando os interesses da classe dominante, sendo valores particularistas, históricos, transitórios. Tais valores são impostos ao conjunto da sociedade, em contradição com os valores autênticos, que se tornam marginais nas sociedades de classes e, mais especificamente, na sociedade capitalista.
Isto provoca a necessidade de elaboração de um novo conceito que cumpra o papel de expressar a manifestação dos valores autênticos, isto é, dos valores contrários aos dominantes. É preciso uma expressão oposta e contrária ao conceito de axiologia. O autor propõe o conceito de axionomia, que seria a manifestação dos valores autênticos – como demonstra a seguir:
A axionomia, por conseguinte, é um fenômeno existente realmente, concretamente, embora marginal na sociedade moderna. Tendo em vista a hegemonia dos valores dominantes e, por conseguinte, da axiologia, a axionomia é algo marginalizado e em oposição a ela. Da mesma forma como existem, objetos, seres, obras, que são axiológicas, também existem aqueles que são axionômicos. (VIANA, 2008a, p. 34)
Outro fator que merece atenção é que os valores enquanto componentes básicos da ideologia. Os valores, tal como mencionado anteriormente, são produtos de um conjunto de relações sociais protagonizadas pelos indivíduos a partir de sua interação com a sociedade, não sendo inatos tampouco naturais. Os valores são produtos sociais e devido à classe dominante, que impõe os valores dominantes, todos os demais valores são marginalizados. Um indivíduo forma seus valores através das relações sociais que realiza ao longo de sua vida, mas é claro que muitos desses valores são frutos da nossa própria consciência (ela também um produto social) e outros são predominantemente predeterminados e pré-escolhidos por outrem (impostos socialmente). Desses valores já predeterminados cria-se um padrão de valores, que se tornam dominantes e passam a ser considerados universais, e que são reproduzidos pela maioria da população, por isso há a impossibilidade da não atribuição de valores, seja em um livro, em uma critica, ou em um filme. Os valores são parte da forma humana de existir, pois toda e qualquer situação manifesta valores, na qual os indivíduos fazem os escolhem e atribuem. Se não o fizesse, não escolheria, tudo seria indiferente, e, para os seres humanos, a vida não é assim. Ela é um mundo de valores, logo, um mundo humano.
Cinema e valores
Dos estudos já realizados sobre a historiografia do cinema poucos conseguiram um resultado significativo. De acordo com Viana (2009a), um desses problemas remete ao fato da historiografia tradicional do cinema não ter sido feita por historiadores e sim por não-historiadores e outros cientistas sociais que se mostraram subordinados a uma ideologia cinematográfica dominante. Ainda segundo o autor, estes deveriam ter desenvolvido e avançado nas questões referentes a uma base teórico-metodológica para superar uma historiografia descritiva, e não reproduzir e conservar as ideologias cinematográficas, ou seja, ir além das interpretações e concepções dos agentes da produção cinematográfica. Os valores que são próprios a uma determinada expressão artística são impressos inevitavelmente pelos agentes envolvidos em seu método de produção/reprodução, ou seja, aqueles que atribuem valoração a obra, julgando-o como boa ou ruim ou como “cult” ou “trash”, o fazem por que estão envoltos nas concepções valorativas da classe dominante, tidas como potencialmente superiores e universais as demais.
O filme geralmente manifesta as concepções, valores e interesses dominantes. Desta feita, a divinização dos valores burgueses cria uma cadeia de interesses e de critérios de análise que marginalizam todas as demais expressões culturais, tornando-as incipientes, e passando a ser vistas como sendo demasiado simplistas, distantes da “verdadeira obra de arte”. Como resultado desse processo, e não menos ligado aos valores dominantes que os demais, as ideologias cinematográficas revelam as perspectivas dos indivíduos comprometidos com a esfera artística, ou com a subesfera cinematográfica (VIANA, 2007), que se mantém de acordo com os interesses dominantes, e com a conservação do status quo.
Isto tudo ligado ao processo de produção e reprodução capitalista, no qual o processo de mercantilização atinge a produção e recepção artística. O indivíduo que valora a arte se torna um consumidor. O consumidor real torna-se consumidor de ilusões. Segundo Debord (1997):
A alienação do espectador em favor do objeto contemplado (o que resulta de sua própria atividade inconsciente) se expressa assim: quanto mais ele contempla, menos vive; quanto mais aceita reconhecer-se nas imagens dominantes da necessidade, menos compreende sua própria existência e seu próprio desejo. Em relação ao homem que age, a exterioridade do espetáculo aparece no fato de seus próprios gestos já não serem seus, mas de um outro que os representa por ele. (DEBORD, 1997, p. 24)
No entanto, o grande consumo e aceitação dos filmes comerciais pela grande “massa”³ não quer dizer necessariamente que esta não possua senso critico apurado para avaliar a qualidade de uma obra de arte. O que de fato merece nossa atenção é que a própria noção de qualidade já é um valor atribuído (valores distintos, qualidades distintas) e generalizar a perspectiva de que “todo” filme comercial é de pouca qualidade é sistematizar o elitismo cultural. Partindo do pressuposto de que um filme é um produto construído historicamente e socialmente, logo, as mudanças sociais são fundamentais para sua análise. O filme é uma produção coletiva de caráter ficcional que passa uma mensagem cheia de valores, ideias e sentimentos que atendem a certo objetivo. Sendo o filme uma ficção, o importante, por parte do público ou do pesquisador, não é exigir uma reprodução fiel da realidade (o chamado “realismo” enquanto concepção estética) e sim entender quais valores, sentimentos e concepções são manifestos por ele.
A estética, a linguagem e outros elementos presentes em uma obra fílmica são condicionados socialmente, pois fazem parte e estão consideravelmente imbricadas em uma teia de relações sociais que orientam nossos valores.
O cinema é um testemunho da sociedade que o produziu e, portanto, uma fonte documental para a ciência histórica por excelência. Nenhuma produção cinematográfica está livre dos condicionamentos sociais de sua época [...] A forma com o filme reflete a sociedade não é em hipótese alguma, direta e jamais apresenta-se de maneira organizada (em circuitos lógicos e coerentes), mesmo que assim o aparente (NOVA, 2007, p. 11)
Uma vez que a recíproca é verdadeira (a sociedade influencia a produção fílmica e vice-versa), tanto o processo de escolha do tema, quanto a uma grande parte do conteúdo do mesmo são determinadas pelos gostos e pelas expectativas do público, que posteriormente serão manipulados por esses mesmos filmes (NOVA, 2007). Os valores dos agentes do processo de produção, bem como suas concepções, são os elementos fundamentais no processo de produção fílmica (VIANA, 2009a).
Pearl Harbor: Patriotismo e Americanismo
Assim, os filmes manifestam valores4 e isso é visível no filme Pearl Harbor (Michael Bay, EUA, 2001). Este filme se desenvolve a partir de uma trama amorosa, que assinala aspectos relevantes acerca da construção ora mítica ora demasiada heroica da formação social estadunidense. Em termos gerais, o romance na qual seus protagonistas se veem envoltos ao contexto histórico abrange o episódio concernente ao ataque japonês à base aérea americana de Pearl Harbor no oceano Pacífico, validando a entrada norte-americana no conflito. A complexa relação de um triângulo amoroso, no qual dois amigos – quase irmãos pelo laço de afetividade que os une – se apaixonam pela mesma mulher, é o pano de fundo onde se cumprem as intrigas e os martírios sentimentais e morais, em que a capacidade de renúncia e a ética mesclada de atitudes compreensivas balizam todas as atitudes ufanistas no decorrer do filme.
Os valores se manifestam nos estereótipos que nos são apresentados no filme, os mesmos trazem uma imagem dos japoneses – que lutavam em lado oposto aos Estados Unidos – associada a assassinos sanguinários, velhos, feios, carrancudos, enquanto que os norte-americanos, pelo contrário, são associados a heróis, envoltos em gentileza, solidariedade, delicadeza e extrema amabilidade como características inerentes a sua constituição.
O grande destaque dado à imagem como forma de identificação e autoafirmação social é absorvido através do filme como um projeto de construção de um homem norte-americano integral. Salientando neste sua capacidade tanto física, no sentido anatômico do termo, quanto intelectual, provido de capacidades pelas quais o tornam indiscutivelmente superiores para intentarem uma guerra já em si mesma desonesta, pois fica claro no transcorrer do filme a posição nipônica de culpados diretos pela eclosão do conflito, enquanto que os americanos são “pegos de surpresa”, submetendo-se a uma autodefesa forçada em nome da passividade e inocência. Assim, responsabilizam os “perversos e maldosos” japoneses pela justificação de sua entrada na segunda guerra mundial.
Essa mensagem caracterizada por florear a guerra com motivos nobres, calcados na autodefesa, não está presente somente neste filme e sim em quase toda a produção do capital cinematográfico estadunidense. A própria ideia de “salvar” o mundo, seja de um ataque alienígena, ou do comunismo, legitima um projeto de tutela mundial, em que a democracia da sociedade estadunidense deve servir de modelo para o restante do mundo e que justifica e legitima a exploração imperialista dos demais países. O valor da democracia liberal de tipo americano, aliado ao ideologema que o une a uma ideia de civilização, resulta em uma forte mensagem axiológica e ideologêmica.
Outra questão que merece ser mencionada é a imagem feminina dentro do filme e como a posição da mulher é representada. De forma bastante clara, nos é passada a imagem da mulher como submissa às intempéries masculinas, uma vez que o trato com os soldados mazelados pela guerra e o próprio entretenimento dos mesmos no período anterior ao conflito são cabíveis a elas como função primordial a sua condição, ou seja, sempre estar submetidas às exigências do homem, para que se limite a sua função social de mulher como objeto sexual para divertimentos, de fragilidade, de meiguice e de vocação à maternidade para o exercício da enfermagem, além da considerável inferioridade intelectual em relação a uma figura masculina inegavelmente superior. Aqui temos mais uma manifestação axiológica.
A questão racial também se encontra presente nesta produção fílmica. A figura do negro é representada, de forma facilmente perceptível, através da concepção do “politicamente correto”. O filme mostra uma posição “inclusiva”, de acordo com a ideologia dominante, que serve como disfarce para a situação real de segregação racial ainda gritante no contexto histórico proposto pela obra, somada a uma falsa noção de inserção, uma vez que o filme esboça a união de todos os cidadãos pertencentes à grande democracia norte-americana, na qual todos se comprometem a lutar contra um inimigo comum: a guerra que ameaça a integridade da nação. A crítica ao racismo nos é mostrada no filme como uma mensagem de falsa noção de igualdade racial, que existiria nos Estados Unidos e seria praticada sob a forma de inclusão social. Nos EUA, segundo a representação fílmica, os negros, latinos ou asiáticos são também considerados filhos da nação como qualquer outro norte-americano. Sendo assim, toda forma de humilhação e preconceito que possa ser direcionada a qualquer pessoa é, no filme, considerada desprezível e é recriminada. No filme é assim que ocorre, mas na realidade concreta da época (e ainda hoje), o que impera é o contrário. Esta é outra manifestação axiológica, na qual se projeta no passado valores (e concepções) do presente.
Sem dúvida, a igualdade racial é um valor autêntico, assim como todas as formas de igualdade e liberdade. No entanto, o filme Pearl Harbor não manifesta os valores da época em que busca retratar e sim os da época de sua produção. Nesse momento histórico, marcado pela ascensão de um novo regime de acumulação capitalista, o regime de acumulação integral, e pela hegemonia de novas ideologias, entre elas a da exclusão social (VIANA, 2009b), concepção dualista que visa incluir o excluído e assim reproduzir a sociedade atual sem maiores mudanças, ou mesmo grandes reformas, é que explica essa produção fílmica. Um valor autêntico (igualdade, por exemplo) é utilizado de forma manipulatória para evitar conflitos, realizar cooptação, etc., e, nesse contexto, coloca a inclusão social como valor fundamental, e escondendo que ela existe apenas com a permanência do seu par antagônico, a exclusão social, bem como o significado do que é incluir numa sociedade marcada pela exploração e dominação. Assim, um valor autêntico é incluído de tal forma envolvido por valores inautênticos, axiológicos, que perde seu caráter axionômico e emancipador.
Ao findar o filme, algo que merece nossa particular atenção, refere-se à imagem de uma nação vitoriosa sobre a tirania e a corrupção que ameaçavam a integridade de seus cidadãos, uma vez que o horror do ataque somado à infinidade de vidas rematadas, trazem para o telespectador a certeza de que realmente os estadunidenses foram pegos de surpresa, pois a guerra não pertence a sua égide de democracia e que dentro da sua própria formação humanitária, nenhum deles desejaria participar de um duelo por si só desumano. O que se revela aqui é o processo de ordem, desordem e retorno à ordem, na qual a anomalia é externa, é a guerra, são os japoneses, etc. A situação paradisíaca inicial é ameaçada pela intervenção de forças externas, o que é suficiente para criar um inimigo imaginário, a ser destruído. Sendo uma anomalia, então, a guerra se justifica. Valores e concepções dominantes se unem para reproduzir a ideia da superioridade moral e bélica dos Estados Unidos.
Dessa forma, é perceptível a emoção por parte do telespectador ao ver o espírito altruísta norte-americano, tomando-o como realmente verdadeiro. Isto proporciona a concordância com qualquer atitude tomada no intuito de vingar-se dos japoneses, pois ela seria adequada e mereceria reconhecimento, já que o filme transmite que nada será capaz de trazer de volta os mortos no ataque e que o mesmo, se não for maior, se identifica precisamente com os bombardeios no Japão. O que é interessante salientar é que, como já sabemos, e como a historiografia demonstra, o número de mortos no caso japonês é imensamente maior do que no caso americano. Curiosamente, nenhuma referência ao ataque nuclear de Hiroshima e Nagasaki ocorre, permanecendo a retórica maniqueísta estadunidense e a mensagem que tais ofensivas foram uma resposta legítima de autodefesa, pois se limitam a uma réplica justa ao ataque em Pearl Harbor.
Assim sendo, visto como aparentemente ingênuo, o filme Pearl Harbor – que atingiu uma bilheteria considerável no Brasil e no mundo – é um conjunto de valores axiológicos inautênticos. Os valores expressos pelo filme são aqueles que reforçam os interesses norte-americanos, tal como a proeminência do amor romântico, o que oculta a submissão feminina; o padrão ocidental de beleza apresentado na oposição “beleza americana” e “feiura japonesa”, a capacidade de renúncia em favor de alguém como um irmão (assim como aqueles que vão para a guerra renunciam a vida em favor de seus compatriotas)5, o patriotismo como valor fundamental e que une os diferentes (negros e brancos, por exemplo) e os semelhantes, criando uma “unidade nacional”; o papel da liderança (individual e nacional, já que os EUA, na produção cultural axiológica e ideológica, é o “líder mundial” e justiceiro universal), entre outros, revelam que o filme Pearl Harbor é uma produção fílmica axiológica. O patriotismo e o americanismo são os valores fundamentais repassados pelo filme.
Os valores, porém, também se manifestam nas imagens e naquilo que elas simbolizam. E por imagem se pode considerar o fotograma ou imagens dentro do fotograma, ou conjunto de imagens, etc. Ou seja, tudo que é visto no filme, não apenas as expressões orais e escritas, mas também imagéticas. As imagens não são neutras, estão dentro de um conjunto e têm seu papel e significado no seu interior. A imagem da mulher, do negro, etc., são alguns exemplos. No entanto, vamos analisar apenas um elemento, pois não haveria condições de analisar o conjunto de imagens que aparecem no filme. Por isso vamos destacar apenas uma cena que mostra determinada imagem e revelar o seu papel axiológico.
A imagem do casal sobreposta mostra a situação dramática e sentimental que envolve os personagens, ressaltando a importância fundamental do amor romântico na vida das pessoas. A sobreposição é um processo que mostra oposição e reconciliação, conflitos individuais e a união imagética que simboliza simultaneamente o conflito sentimental (manifesto nas expressões faciais) e a união nacional acima dos conflitos amorosos (manifesto na sobreposição). O valor do amor romântico aparece na imagem, e reflete um valor tomado como fundamental no filme e que reforça e reproduz a força do outro valor, que é a fraternidade, pois mesmo separados pelo sentimento amoroso, os americanos – homens e mulheres, homens rivais no amor – são uma “família”, uma “nação”, e, assim, a união nacional deve estar acima dos conflitos amorosos. Aqui se revela uma escala de valores, o patriotismo é o valor fundamental, o amor romântico está abaixo na escala e assim sucessivamente.
Os Valores Materializados em Pearl Harbor
O filme manifesta valores. Os valores são materializados no filme. Uma vez concretizada a obra cinematográfica, os valores estão manifestos nela. Porém, os valores materializados no filme são objetos de novas valorações. Essas valorações são do filme e não só dele, mas do seu conteúdo, de suas partes, etc. Um assistente, ou seja, a pessoa que assiste o filme6, é portador de valores e por isso irá selecionar, destacar, discordar ou concordar, com base nos valores que já possui, mas também pode mudar alguns de seus valores no processo da assistência (não os valores fundamentais, mas os menos importantes). Os valores materializados nos filmes são avaliados pelos assistentes, embora existam casos de assistência mecânica ou contemplativa (VIANA, 2009c). A produção fílmica realizada pelo capital cinematográfico, porém, é realizada na mesma época e sociedade que os assistentes irão assistir – quando é lançado – e por isso os valores dominantes são os mesmos e, assim, tende a ver uma convergência entre os valores manifestos nos filmes e os da maioria dos assistentes.
Porém, esta valoração realizada pelo assistente já está incorporada pelo capital cinematográfico no processo de produção, não somente pela coincidência de valores, mas também pelo processo de produção do filme e a busca de lucro e bilheteria que o faz levar em consideração os valores dominantes ou, pelos menos, os valores de determinados setores da sociedade que podem dar retorno em audiência e, por conseguinte, lucro (o que inclui um amplo conjunto de pessoas, incluindo imprensa, críticos de cinema, etc.).
Apesar dos assistentes (“o público”), não serem, em sua totalidade, uma massa amorfa totalmente manipulável, há uma manipulação que envolve um conjunto de indivíduos, grupos, empresas. Assim, retirando o setor mais crítico, composto pelos indivíduos com valores divergentes (que varia, inclusive a divergência varia de acordo com os valores específicos repassados por cada filme), a produção cinematográfica consegue reproduzir os valores dominantes e reforçar o predomínio da axiologia na sociedade moderna.
A vida real e cotidiana dos indivíduos na sociedade capitalista, marcada por conflitos, competição, burocracia, mercantilização, traz a necessidade de muitos indivíduos de buscar fugir dela e se refugiar no mundo da ficção. O capital cinematográfico manipula valores, sentimentos, concepções, inconsciente, no sentido de produzir obras fictícias que permitem o escapismo, a fuga da realidade, e, ao mesmo tempo, legitimam e reforçam essa mesma realidade.
Se a realidade social com suas enfermidades é sufocante, o cinema (e muitos outros meios de comunicação) transforma esta mesma realidade em magia, tornando assim mais fácil viver e suportar as dores de um mundo capitalista, um mundo irracional. Isso merece nossa atenção, já que o cinema é um dos mais eficazes meios de propagação valorativa da sociedade existente. E mais ainda que não só permite a fuga da realidade e por isso um alívio imediato e momentâneo que reanima o indivíduo para continuar vivendo sob forma desumana, mas, também, através dos valores e concepções repassados reforça também a adesão a esta sociedade. Este é o caso de Pearl Harbor, uma ficção que provoca a distração e, ao mesmo tempo, a adesão aos valores dominantes, inclusive os valores estadunidenses, que acabam sendo reforçados até em países distintos e submetidos às suas políticas imperialistas.
Considerações Finais
Observamos que os valores são parte inseparável da experiência humana. O ser humano é um ser valorativo. Por isso, os valores estão presentes na vida cotidiana, na cultura, nas relações sociais, e, como não poderia deixar de ser, nos filmes. Os filmes são produções valorativas, manifestam valores, são valores materializados. Sem dúvida, também manifestam sentimentos, concepções, inconsciente, etc., mas todos relacionados com os valores, que foi o nosso foco analítico. Também colocamos que os valores não são equivalentes, existem aqueles que manifestam as necessidades humanas, os valores autênticos, e existem valores transitórios, particularistas, que entram em contradições com tais necessidades e que, nas sociedades de classes, são dominantes. A axiologia é uma determinada configuração de valores dominantes que estão presentes em todos os momentos de nossa vida e, por conseguinte, também se manifestam nos filmes. A axionomia, determinada configuração dos valores autênticos, são marginais em nossa sociedade e, portanto, nas produções fílmicas.
A análise do filme Pearl Harbor possibilitou explicitar os valores dominantes presentes em seu universo ficcional. A mensagem do filme é axiológica. O patriotismo e o “americanismo”, ou seja, a supervaloração dos Estados Unidos – intimamente ligada com a concepção da supremacia americana e seu papel de polícia do mundo, são os valores fundamentais encontrados neste filme, que é reforçado por diversos outros valores dominantes. Alguns valores autênticos aparecem, mas subordinados e reforçando os valores dominantes. Sendo assim, a pesquisa sobre a manifestação de valores nos filmes precisa ser um campo de pesquisa mais explorado, tanto por sua importância teórica ao fazer avançar a compreensão da produção fílmica como também prático, já que serve de antídoto para as manifestações axiológicas no mundo cinematográfico e cultural em geral.
Referências
DEBORD, Guy. A sociedade do espetáculo. Rio de Janeiro: Contraponto, 1997.
FERRO, Marc. Cinema e História. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1992.
FROMM, Erich. Ter ou Ser? 4ª edição, Rio de Janeiro: Zahar, 1987.
HESSEN, Johannes. Filosofia dos Valores. 4° edição. Coimbra, Armênio Amado, 1974.
MARKUS, G. Marxismo y “Antropologia”. Barcelona: Grijalbo, 1974.
MARX, Karl. O 18 Brumário e Cartas a Kugelmann. 4° edição. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1978.
NOVA, Cristiane. “O cinema e o conhecimento da História”. Revista Olho da História. N° 3. Disponível em: http://www.ufba.br/^revistao/o3cris.html acessado em 10/10/2007.
VIANA, Nildo. A Concepção Materialista da História do Cinema. Porto Alegre: Asterisco, 2009a.
VIANA, Nildo. A Esfera Artística. Marx, Weber, Bourdieu e a Sociologia da Arte. Porto Alegre: Zouk, 2007.
VIANA, Nildo. Como Assistir um Filme? Rio de Janeiro: Corifeu, 2009c.
VIANA, Nildo. O Capitalismo na Era da Acumulação Integral. São Paulo: Ideias e Letras, 2009b.
VIANA, Nildo. Os Valores na Sociedade Moderna. Brasília: Thesaurus, 2008a.
VIANA, Nildo. Universo Psíquico e Reprodução do Capital. Ensaios Freudo-Marxistas. São Paulo: Escuta, 2008b.
*Nildo Viana é professor da Faculdade de Ciências Sociais da Universidade Federal de Goiás; Doutor em Sociologia pela Universidade de Brasília.
**Verônica Martins Moreira é graduada em História pela Universidade Estadual de Goiás; Pós-Graduanda no Mestrado Interdisciplinar em Educação, Linguagens e Tecnologias/UEG.

¹ Segundo Viana (2008), as sociedades ditas homogêneas são assim por não haver, no seu interior, a divisão de classes. Quanto aos valores produzidos, segundo o autor, estes são homogêneos, pois estas sociedades partem de uma relação direta de dependência com o meio ambiente.
² No sentido marxista do termo, ou seja, ideologia compreendida como sistema de pensamento ilusório ou falsa consciência sistematizada.
³ Viana afirma que, segundo a ideologia leninista, as massas não possuem uma consciência de classe desenvolvida, faltando a elas a capacidade de “reflexão ativa e crítica”, por isso a assertiva que o trabalho intelectual de elaboração de uma consciência de classe proletária deve ser produzido por quem possui acesso a ciência (Viana, 2009a, p. 316).
4 Assim como concepções, sentimentos, etc. Contudo, nosso foco, na presente análise, são os valores manifestos no filme.
5 Aqui o filme revela a manifestação de valores (a beleza, segundo o padrão ocidental) e os desvalores (aquilo que não se encaixa no padrão ocidental), pois sempre o processo de valoração é acompanhado pela atribuição de desvalores (Viana, 2008a). A renúncia em favor de um irmão pode parecer manifestação do valor da solidariedade, um valor autêntico, porém, incluído e subjugado por um conjunto de valores axiológicos, ou seja, a competição e a guerra, uma forma beligerante e sangrenta da primeira.
6 Tomamos por base a discussão sobre a assistência e suas formas na qual o indivíduo que assiste ao filme realiza um ato singular (Viana, 2009c), diferente de outras atividades (tal como a leitura, por exemplo) e por isso o qualificamos como assistente e não sob outras denominações (espectador, telespectador, público).
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