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terça-feira, 27 de fevereiro de 2018

JUNG E A INDIVIDUAÇÃO


JUNG E A INDIVIDUAÇÃO

Nildo Viana*

Resumo: O presente artigo apresenta uma análise da concepção junguiana sobre o desenvolvimento da personalidade e uma breve consideração sobre esse processo e a formação social do indivíduo tal como é entendido por outros autores. Assim, após uma síntese da concepção de Carl Gustav Jung, que remete ao problema da individuação, a comparamos com a concepção oriunda da sociologia e outras abordagens que tratam do fenômeno da socialização. Disso resulta uma perspectiva crítica da análise junguiana, sem descartar o conjunto de suas contribuições. O maior problema da análise de Jung é, simultaneamente, o seu grande mérito: a análise da mente como totalidade psíquica. Essa concepção tem como problema a autonomização da psique humana, o que a desliga do social, sendo este o determinante da mente humana. O mérito foi ter focalizado o universo psíquico do ser humano, desde que entendamos não como ele o fez, como autonomização, e sim como foco. Desta forma, compreendendo como foco e não autonomia, podemos usar a concepção junguiana para compreender o fenômeno psíquico.

Palavras-chave: Jung, Individuação, Socialização, Mente, Personalidade.

A obra de Carl Gustav Jung é uma das mais importantes no interior da psicanálise. A psicanálise, fundada por Freud, teve um desenvolvimento que promoveu algumas cisões internas, sendo que a cisão de Adler foi a primeira que gerou forte impacto e toda uma corrente psicanalítica distinta da freudiana e a de Jung, a segunda que gerou uma nova tendência no interior da psicanálise[i]. Após a colaboração com Freud e o rompimento, Jung desenvolve uma nova concepção psicanalítica que abrange um grande número de teses, termos, temas. No interior da vasta produção intelectual de Jung escolhemos o tema da individuação, não só por considerar que é um tema fundamental para a psicanálise, mas também por ser uma questão central no pensamento junguiano.
No curto espaço que temos para desenvolver a nossa análise da concepção junguiana, teremos que ser sintéticos e nos limitarmos aos aspectos essenciais. O presente artigo é composto por duas partes: uma que visa expor a concepção junguiana e outra que visa refletir sobre ela. Após uma breve síntese da análise junguiana da individuação, trabalhando com sua terminologia e explicação do desenvolvimento da personalidade, passaremos para uma análise crítica da mesma, explicitando elementos para uma psicanálise orientada criticamente e tendo a sociedade como pressuposto, ou seja, abordando o processo de individuação e desenvolvimento da personalidade no interior do conjunto das relações sociais. Esse último procedimento tem como principal aspecto o reencontro entre individuação e socialização, o indivíduo e a sociedade.

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Abstract: This article presents an analysis of the Jungian conception about the development of personality and a brief consideration about this process and the social formation of the individual as understood by other authors. Thus, after a synthesis of the conception of Carl Gustav Jung, which refers to the problem of individuation, we compare it with the conception coming from sociology and other approaches that deal with the phenomenon of socialization. This results in a critical perspective of the Jungian analysis, without discarding the set of its contributions. The major problem of Jung's analysis is, at the same time, his great merit: the analysis of the mind as a psychic totality. This conception has as its problem the autonomization of the human psyche, which disconnects it from the social, which is the determinant of the human mind. The merit was to have focused the psychic universe of the human being, provided we understand not how he did it, as autonomization, but as focus. In this way, understanding as focus and not autonomy, we can use the Jungian conception to understand the psychic phenomenon.


Keywords: Jung, Individuation, Socialization, Mind, Personality.


Teses sobre os Sentimentos



TESES SOBRE OS SENTIMENTOS

Nildo Viana

As teses aqui apresentadas são apenas esboços de uma obra mais ampla e profunda que ainda será produzida. Portanto, não se trata de uma “teoria dos sentimentos”. O que apresentamos aqui são alguns elementos que, uma vez desenvolvidos, podem gerar uma teoria dos sentimentos. As dez teses aqui apresentadas apontam para uma compreensão dos sentimentos que se distingue de diversas outras e buscam esclarecer o processo de constituição, moldagem, diferenciação, distinção em relação a outros fenômenos psíquicos, sua relação com a sociedade (especialmente a capitalista), e, ainda, o seu significado e importância política na sociedade moderna e sua manipulação na contemporaneidade.

1.             Os sentimentos são energias psíquicas semiconscientes que solidificam determinadas relações psíquicas estáveis.

Os sentimentos são processos psíquicos complexos desenvolvidos pelos seres humanos. Esses processos psíquicos são complexos, e por isso se distinguem dos processos psíquicos simples, tal como discutiremos mais adiante. Os sentimentos são energias psíquicas semiconscientes dos indivíduos. Essas energias psíquicas geralmente não são controladas pelos indivíduos, embora com o processo de desenvolvimento da consciência em geral e especificamente sobre eles, seja possível que se consiga atuar sobre os sentimentos. Isso é mais fácil no caso de sentimentos menos intensos e fortes. É muito mais difícil nos sentimentos mais arraigados nos indivíduos e grupos. Os sentimentos são uma forma específica de energia psíquica e por isso sua especificidade precisa ser compreendida. A sua especificidade é a do vínculo sentimental que ela estabelece com o mundo. O ser humano, enquanto ser consciente, se relaciona com a realidade (sociedade, natureza), com uma finalidade racional, visando sua compreensão e explicação. O seu objetivo é fundamentalmente dizer o que é, como, por qual motivo, etc.[1] O ser humano, enquanto ser sentimental, se relaciona com a realidade (sociedade, natureza) também sob uma forma sensível, que pode ser harmônica ou desarmônica. Os sentimentos são relações psíquicas estáveis caracterizadas pelo ato de sentir que gera uma sensibilidade harmônica ou desarmônica com o mundo ou parte dele. Quando os sentimentos são direcionados para os demais seres humanos, o que é o mais comum, são relações sociopsíquicas.
O sentir é algo mais integral do que o meramente racional, embora menos consciente e que pode ser mais enganoso ou mais acertado, dependendo de várias determinações. É uma predisposição integral do indivíduo em relação ao mundo (pessoa, natureza, etc.) gerando uma forma de sensibilidade. Assim, se vejo um mendigo na rua, posso entender racionalmente (e sob várias formas, dependendo do indivíduo, suas crenças, formação intelectual, valores, etc.) o que ele significa: um ser humano integrante das frações mais empobrecidas do lumpemproletariado, o que significa ser um produto social e histórico do capitalismo (que teve semelhantes no pré-capitalismo, mas com diferenças e especificidades); ou um indivíduo que não trabalha e vive às custas dos demais, aumentando as despesas estatais ou as esmolas individuais, que deveriam ser recusadas para não incentivar a sua existência; ou, ainda, um fenômeno universal de todas as sociedades e, portanto, inevitável[2]. Porém, eu posso sentir algo por este ser humano, desenvolvendo uma sensibilidade, como a compaixão. Mas pode ser também um sentimento antipático. Se o sentimento desencadeado é simpático ou antipático isso depende de múltiplas determinações, tais como a consciência (expressa sinteticamente nas interpretações acima), os valores e outros sentimentos, especialmente os mais arraigados no universo psíquico do indivíduo.
A racionalidade é uma forma superior de sensibilidade, no sentido que coordena racionalmente a consciência e os sentimentos do indivíduo. Ela, no entanto, pode ser determinada pelos sentimentos. Quando mais consciente são os sentimentos e suas motivações, mais a consciência ou a razão coordena e pode harmonizar os processos psíquicos complexos ou maior pode ser a contradição individual, dependendo dos indivíduos e sua situação sociopsíquica. Obviamente que isso também depende do desenvolvimento da consciência do indivíduo ou grupo, pois sua forma mais elementar pode torná-la incapaz de uma coordenação mais equilibrada e assim os sentimentos se tornarem os motores da ação humana com pouca racionalidade, o que pode gerar um sentimentalismo simpático (que gera relações sociopsíquicas harmônicas) prejudicial ao indivíduo em certos contextos ou um sentimentalismo antipático (que gera relações sociopsíquicas desarmônicas) igualmente prejudicial, e de forma mais grave em determinados contextos. Da mesma forma, a baixa racionalidade facilita a manipulação dos sentimentos por outros indivíduos ou grupos.
A relação harmônica com o mundo (seja a natureza ou outros seres humanos) é agradável, prazerosa, acolhedora. Aqui reside a ideia de integração com a natureza, tal como no Paraíso da mitologia cristã, no qual ser humano e natureza estão em completa harmonia. A relação desarmônica com o mundo é marcada pelo processo contrário, o desprazer, o desagradável, hostil. A expulsão do Paraíso é o rompimento da harmonia e o início da desarmonia: a natureza não doará mais o alimento, é preciso trabalhar e conquistá-lo com o “suor do seu rosto”, arrancando-o do meio ambiente (caça, pesca, coleta de frutos, etc.). A situação intrauterina e pós-uterina do ser humano é outra forma de entender a harmonia e desarmonia, pois o útero é um mundo harmônico e que doa tudo, inclusive o alimento, e a saída dele é para um mundo desarmônico, que, em muitos casos, é marcado pela violência (a começar pelo próprio nascimento, que pode, por exemplo, começar com um tapa de um médico).
Essa sensibilidade harmônica e/ou desarmônica é introjetada e constitui relações sentimentais estáveis, ou seja, sentimentos. É uma relação psíquica específica. A especificidade é que é uma relação sentimental. O medo do relâmpago ou o amor à mãe são relações psíquicas que se iniciam com a experiência do indivíduo e a partir de certo tempo se tornam estáveis. Elas se tornam, assim, cada vez mais solidificadas, tornando-se sentimentos, ou seja, energias psíquicas semiconscientes que manifestam as relações psíquicas estáveis do indivíduo com o mundo através da sensibilidade. Elas são semiconscientes por não serem totalmente conscientes (embora determinados indivíduos possam, progressivamente, aumentar sua consciência de seus sentimentos e/ou de suas motivações, mas que dificilmente conseguiria fazer isso em relação a sua totalidade) e por não serem “inconscientes”. Se um indivíduo ama sua esposa e odeia seu chefe, ele geralmente sabe, mais ou menos, disso. Em relação à esposa, isso é mais consciente, pois é um sentimento considerado “positivo” (simpático) e a própria relação exige declarar sua existência. Em relação ao chefe, o ódio pode ser “sentido”, mas poucas vezes refletido e entendido conscientemente. O caráter semiconsciente, no entanto, é derivado mais do desconhecimento das motivações para tal sentimento do que dele em si.
Por qual motivo despertou o amor por uma mulher que depois se tornou sua esposa? Por qual motivo odeia o seu chefe? A motivação é geralmente semiconsciente. A mulher pode ter sido por sua beleza, o chefe por seu autoritarismo. Mas isso é o que o indivíduo em questão interpreta, pois nem sempre tem consciência de diversas outras coisas, entre as quais a razão da beleza feminina ser tão importante para ele e por qual motivo não ter levado em consideração a inteligência desde o primeiro encontro com ela, e por qual motivo o autoritarismo é tão repudiado e não ter percebido o elemento de injustiça que lhe acompanha ou suas razões mais profundas. Essa é uma possibilidade, pois será distinta em indivíduos diferentes, com diferenciados universos psíquicos e formação social e intelectual. O ódio pelo chefe pode ser despertado mesmo que esse não seja autoritário, pois pode ser provocado por inveja, um sentimento antipático que revela simultaneamente, determinados valores constituídos socialmente, mas nem sempre conscientes para indivíduo que os possuem.
Assim, os sentimentos só existem através de relações estabelecidas com algo ou alguém. Os sentimentos são geralmente voltados para outros seres humanos (indivíduos, grupos, etc.), gerando relações sociopsíquicas, embora também possa ser, por transferência ou por impacto psíquico, também relação à natureza (incluindo outros seres vivos) e fenômenos naturais, gerando relações psíquicas específicas. De qualquer forma, trata-se da relação do indivíduo com outros indivíduos ou com a natureza. Essa relação gera um impacto psíquico, provocando a introjeção dessa relação e sua estabilização, ou seja, promove uma materialização semiconsciente sob forma de energia psíquica. Enquanto energia psíquica, os sentimentos tornam-se uma das determinações das ações e consciência dos indivíduos. A relação psíquica é, portanto, uma introjeção da relação real, social ou com a natureza.
Em síntese, os sentimentos são energias psíquicas semiconscientes que orientam a relação dos seres humanos com o mundo num sentido harmônico ou desarmônico a partir da sensibilidade. Eles são processos psíquicos complexos constituídos histórica e socialmente e que são forças que determinam o comportamento humano ao lado de outras forças existentes, como a consciência, os valores e interesses, as necessidades, etc.
No entanto, o conceito de sentimentos é insuficiente para sua compreensão. Por isso é necessário avançar e entender sua diferenciação interna. Sem dúvida, existem inúmeros sentimentos e cada um expressando uma determinada especificidade. Aqui o nosso objetivo é discutir os sentimentos em geral, deixando para o futuro uma obra em que aborda os sentimentos específicos. No entanto, podemos elencar alguns sentimentos específicos: medo, remorso, amor, ódio, inveja, ciúme, etc. Essa diferenciação é importante, inclusive a percepção da especificidade de cada sentimento (no singular) para uma melhor compreensão dos sentimentos (no plural). Outra diferenciação é entre os sentimentos mais arraigados e os sentimentos menos arraigados. Os mais arraigados são os mais fortes e permanentes e que condicionam o desenvolvimento dos outros (ao lado das outras determinações existentes) e os menos arraigados são mais facilmente (em comparação com os anteriores) removidos e menos intensos. Contudo, existe uma outra diferenciação que é fundamental para a compreensão dos sentimentos e que por isso precisa ser abordada.
Essa diferenciação é que existe entre os sentimentos simpáticos e os sentimentos antipáticos. Os sentimentos que expressam simpatia podem ser denominados simpáticos e os que expressam antipatia, antipáticos. Isso é um truísmo, mas necessário para a compreensão da divisão, pois nos remente para a definição de simpatia e antipatia. A simpatia é a tradução sentimental de uma relação harmônica (que pode ser unilateral, ou seja, de um indivíduo para outro ou algo, sem que exista reciprocidade, mas só é plena quando é bilateral, ou seja, os envolvidos possuem o mesmo sentimento simpático)[3]. A origem da palavra aponta para algo semelhante. Simpathia, termo originado no latim, significa “comunhão de sentimentos”, e sympatheia, do grego, significa sentimento de união (syn = junto; pathos = sentimento). Contudo, a simpatia não é “comunhão de sentimentos” e sim “sentimento de comunhão”, ou seja, a simpatia é um sentimento de comunhão com algo (indivíduo, grupo, objeto, etc.) ou alguém, mas que não é necessariamente recíproco, não é uma relação social e sim uma relação psíquica, sendo que uma pode se transformar na outra, mas é apenas na situação concreta é que isso se concretiza ou não. Sinteticamente, a simpatia é um sentimento de comunhão que quando é recíproco é uma comunhão de sentimentos e o primeiro pode gerar o segundo. Mas esta formulação ainda é problemática, pois simpatia não é um sentimento em si e sim uma característica comum presente em determinados sentimentos. Os sentimentos simpáticos são caracterizados por serem direcionados para a harmonia, gerando comunhão. Nesse caso, podemos dizer que simpatia é a característica comum dos sentimentos de comunhão.
A antipatia é a tradução sentimental de uma relação desarmônica (que também pode ser unilateral, no caso de relações interindividuais, não havendo reciprocidade, mas também só é plena quando é bilateral ou recíproca, na qual os envolvidos sentem o mesmo sentimento antipático)[4]. A origem dessa palavra também remete ao grego (chegando até nós via latim, antipathia), antipatheia, que significa “sentimento de oposição” (anti = contra, oposto; pathos = sentimentos), embora geralmente se coloque que se trata de “oposição de sentimentos”. O mais correto seria entender o termo como um sentimento negativo diante de algo (indivíduos, etc.) ou sentimento de oposição/antagonismo a algo ou alguém. Esses dois termos (oposição ou antagonismo) não são os mais adequados e por isso o termo “repulsão” está mais de acordo com o significado da palavra. Também é uma relação psíquica e que se contrapõe à simpatia. Assim, antipatia é um sentimento de repulsão que pode ser unilateral ou não. Se for unilateral, a outra pessoa não compartilha o mesmo sentimento. Se for bilateral, a outra pessoa também possui sentimento antipático, havendo reciprocidade. Em síntese, a antipatia é um sentimento de repulsão e quando é reciproco é uma comunhão de sentimentos, só que negativos, e, da mesma forma, o despertar desse sentimento em um indivíduo pode gerar o mesmo em outro. Essa formulação, tal como a anterior e inicial sobre a simpatia, também é problemática, pois a antipatia não é um sentimento e sim uma característica comum presente em determinados sentimentos, caracterizados por serem direcionados para a desarmonia, gerando repulsão. Sendo assim, definimos a antipatia de forma mais adequada como uma característica comum dos sentimentos de repulsão.
Desta forma, simpatia e antipatia não são sentimentos em si, mas sim uma característica comum de um conjunto de sentimentos[5]. A simpatia é expressão do predomínio de sentimentos de comunhão e a antipatia é expressão do predomínio de sentimentos de repulsão. Os sentimentos simpáticos são o amor, a compaixão, etc., e os antipáticos são o ódio, a inveja, etc. Um indivíduo real, concreto, carrega em si tanto sentimentos simpáticos quanto antipáticos e pode direcioná-los para indivíduos ou grupos humanos distintos. Por exemplo, há pessoas que limitam seus sentimentos simpáticos aos seus familiares e para o resto desenvolve sentimentos antipáticos ou apatia (“indiferença”), bem como alguns elegem a nação ou qualquer outro grupo (raça, sexo, etnia, etc.) como objeto de sentimentos simpáticos e dedica ao resto sentimentos antipáticos (ou, novamente, apatia). Outros dedicam os sentimentos simpáticos a toda à humanidade, alguns de forma indistinta (os humanistas generalistas) e outros reconhecendo as diferenças dos seres humanos concretos (humanismo radical), mesmo que no nível geral mantenha sentimentos simpáticos generalizados[6]. Há também aqueles que desenvolvem misantropia, um ódio indiferenciado por toda humanidade, ou seja, apenas um sentimento antipático em relação a todos os seres humanos. Em certos casos, devido a solidão reinante na sociedade moderna, alguns acabam limitando seus sentimentos simpáticos a apenas uma pessoa, tal como no caso do amor romântico ou no amor materno/paterno em relação a apenas um(a) filho(a) ou então a animais, especialmente os domésticos.
Os sentimentos simpáticos podem gerar sentimentos antipáticos. Se um indivíduo que vê as pessoas que amam ser prejudicadas por outras, tende a desenvolver sentimentos antipáticos em relação a essas. Isso é amplamente tematizado em filmes hollywoodianos, quando o protagonista busca a vingança, motivado pelo ódio, do responsável pela morte de uma pessoa amada. O processo contrário é muito raro, mas é possível que o sentimento de ódio em relação a tiranos pode gerar simpatia com relação aos demais seres humanos submetidos à sua tirania.
Há também a possibilidade de ausência parcial de sentimentos. A isso denominamos, até aqui, como apatia, ou seja, falta de sentimentos, mais facilmente entendido como “indiferença”. Assim, alguns indivíduos, por causa de desequilíbrios psíquicos ou por mecanismo de defesa, pode ser tornar sem sentimentos, ou indiferente, aos demais seres humanos e natureza, seja de forma selecionada ou generalizada (esse seria um caso extremamente grave e seria uma ausência total de sentimentos). No caso de desequilíbrio psíquico, é o processo histórico de vida do indivíduo que explica a sua existência. No caso de mecanismo de defesa, a explicação requer o mesmo processo, mas geralmente isso ocorre por insegurança e medo, sendo que os sentimentos estão mais presentes, mesmo como determinações da ausência de determinados sentimentos em relação aos outros.
Essa distinção entre sentimentos simpáticos e sentimentos antipáticos é fundamental para entender o universo psíquico dos seres humanos e a história da sociedade humana. O entendimento dos sentimentos requer essa distinção, pois são dois grupos distintos de sentimentos que possuem duas formas diferentes de expressão e que precisam ser analisados separadamente e que manifestam relações harmoniosas ou desarmoniosas dos seres humanos entre si e com o resto do mundo.

2.             Os sentimentos e emoções são processos psíquicos diferentes.

A energia sentimental é de longa duração enquanto que as emoções são momentâneas. O ódio é um sentimento e a raiva é uma emoção. Se alguém pisa no pé de uma pessoa por acidente, esta pode ficar com raiva, mas não ódio. A raiva passa rapidamente. O ódio, ao contrário, é duradouro. Desta forma, é possível entender que raiva, tristeza, alegria, temor, etc., são emoções, são passageiras e provocadas por determinados acontecimentos que se enfraquecem junto com o desaparecimento destes e acabam desaparecendo também.
O exemplo clássico é a distinção entre raiva e ódio. A raiva é sempre momentânea e é despertada por um ato de alguém ou acontecimento, seja cotidiano ou não. Assim, amigos podem brigar em momento de raiva durante um debate sobre questões políticas, religiosas ou sexuais, mas a amizade não termina. Por outro lado, se alguém odeia outra pessoa, jamais a tornará sua amiga, a não ser que esse sentimento seja removido[7] ou então que finja que o removeu (mas aí não deixará de existir, apenas deixará de se manifestar). Em síntese, as emoções são processos psíquicos simples e passageiros enquanto que os sentimentos são processos psíquicos complexos e duradouros[8].

3.             Os sentimentos são uma potencialidade humana, uma energia psíquica.

Os sentimentos são uma potencialidade humana, pois alguns deles podem ou não se desenvolver, embora existam sob forma latente, desenvolvendo-se ou não. No fundo, os sentimentos são uma energia psíquica, emergem no universo psíquico como uma força mental e que se desdobra em ações e comportamentos. Não é uma energia psíquica separada das demais e está intimamente relacionada com os valores, a consciência, os interesses, etc.
Os sentimentos simpáticos são uma potencialidade humana, o que significa que seu desenvolvimento é uma necessidade. Uma das necessidades humanas radicais é a socialidade, ou seja, o vínculo social harmônico. O ser humano é um ser social e fora da sociedade não se constituiria como ser humano e geralmente longe do contato humano não suporta a existência. Contudo, os sentimentos simpáticos podem ser seletivos e, nas sociedades marcadas pela luta de classes, por conflitos sociais, por competição, tende a gerar tal seletividade e quanto maior é a divisão social e os conflitos derivados, maior tende a ser a seletivo, bem como determinadas ideologias e doutrinas podem gerar ou reforçar essa tendência em determinados indivíduos.
Os sentimentos antipáticos não são necessidades humanas, mas podem ser despertados quando estas não são atendidas, ou seja, tal como quando os sentimentos simpáticos não podem se concretizar. Desta forma, se os sentimentos simpáticos são impedidos de se concretizar ou limitados, a tendência é o fortalecimento e desenvolvimento de sentimentos antipáticos. Isso é derivado das relações sociais concretas e cada sociedade acaba gerando uma determinada correlação entre a força dos sentimentos simpáticos e antipáticos. As sociedades tribais, por exemplo, tendem a desenvolver de forma mais generalizada sentimentos simpáticos (com as especificidades de cada sociedade tribal em questão) enquanto que as sociedades de classes (e mais ainda a sociedade capitalista) tendem a desenvolver de forma mais generalizada sentimentos antipáticos.
Em síntese, os sentimentos simpáticos são uma necessidade, bem como uma potencialidade, humana e os sentimentos antipáticos são processos derivados e geralmente constituídos a partir da não realização dos sentimentos simpáticos, o que está relacionado com determinadas relações sociais concretas.

4.             Os sentimentos são constituídos social e historicamente

Os sentimentos são produtos históricos e sociais. Eles emergem com o processo de humanização, ou seja, um longo processo histórico de maturação e desenvolvimento da humanidade. O desenvolvimento do cérebro humano possibilitou o desenvolvimento do universo psíquico e a constituição de processos psíquicos complexos, entre eles os sentimentos. Uma vez constituídos, passam a ser parte dos seres humanos e isso independe da sociedade e da história, o que essas podem fazer é afetá-los, no sentido de incentivar seu desenvolvimento, sua repressão, sua manifestação ou não-manifestação, seu deslocamento, ou gerar desequilíbrios psíquicos que constituem a apatia.
Os sentimentos específicos, por sua vez, também são constituídos social e historicamente. Tudo indica que os sentimentos simpáticos e antipáticos surgiram simultaneamente. Os sentimentos simpáticos surgiram devido à necessidade de associação e, por conseguinte, de socialidade, enquanto que os sentimentos antipáticos emergiram devido à relação de dependência em relação ao meio ambiente, gerando escassez e guerras intertribais.
A formação dos sentimentos nos indivíduos ocorre, inicialmente, através do processo de socialização (infância) e continuam no decorrer da vida. A família constitui, entre outras coisas, uma unidade sentimental e os vínculos paternos e maternos harmônicos tendem a gerar a formação de sentimentos simpáticos, enquanto que os vínculos paternos e maternos desarmônicos tendem a gerar sentimentos antipáticos (outros processos atuam, tal como a relação dos pais entre si, as relações entre os filhos, etc.). Outra tendência é que isso tende a se estender para as demais relações sociopsíquicas (é uma tendência, pois isso depende de múltiplas determinações que atuam no processo histórico de vida de um indivíduo).
A época da juventude, devido inserção em outros grupos (juvenis) e instituições (escolas técnicas, universidade, etc.), em seu processo de ressocialização, os filhos ganham maior autonomia e, ao mesmo tempo, outras fontes de interpretação e vínculos afetivos (amor sexual, unidade grupal, novas experiências, novos saberes, etc.), o que pode gerar mais ou menos conflitos familiares, dependendo da família, da relação sociopsíquica no seu interior, etc. Os filhos podem se tornar o relativamente oposto aos pais, ou podem manter relações harmônicas, dependendo das relações familiares anteriormente existentes e das mutações nessa época (da sociedade e do seu impacto sobre a juventude). As mudanças culturais, especialmente devido ao fato de que a juventude, em sua maioria, tende a ser volúvel e atraída pelas novidades existentes em sua época juvenil, também pode gerar conflitos (os chamados “conflitos geracionais”), mesmo quando as relações sociopsíquicas familiares são boas. Isso ocorre de forma mais forte quando os valores e concepções se tornam mais distantes. Após a época juvenil, a relação entre pais e filhos tende a ser menos conflituosa, tanto pelo processo de maturação dos filhos e desenvolvimento de maior paciência e tolerância, quanto pelas novas relações sociais estabelecidas (maior autonomia dos filhos, agora adultos e responsáveis por si mesmos, inclusive financeiramente, mais reconhecimento e respeito por parte dos pais, por exemplo). Isso é uma tendência, pois depende das famílias concretas e das suas relações sociopsíquicas estabelecidas.
No capitalismo, as famílias mais frias, como são geralmente as das classes auxiliares da burguesia e da própria classe capitalista, tendem a gerar uma consciência coisificada e forte presença de sentimentos antipáticos ou de apatia. Isso pode ser visto, por exemplo, em casos de jovens vindos de famílias dessas classes sociais e atos de agressão gratuitos (como queimar mendigos em praças públicas) ou em adesão ao neonazismo. As famílias destruídas pela miséria que gera relações sociopsíquicas desarmônicas também podem desenvolver esse processo naqueles que são socializados no seu interior.
Em todos os indivíduos, na sociedade moderna, coexistem sentimentos simpáticos e antipáticos. Os indivíduos que possuem uma existência malograda tendem a desenvolver em maior escala sentimentos antipáticos. A existência malograda é aquela na qual os indivíduos não conseguem desenvolver suas potencialidades através da práxis, nem sua socialidade, bem como ainda não consegue desenvolver sua persona, ou, como diria Freud, efetivar a sublimação. Nesses casos, os indivíduos geram desequilíbrios psíquicos e os sentimentos antipáticos geralmente os acompanham, a não ser quando se troca a destrutividade alheia pela autodestrutitividade.

5.             Os sentimentos são moldados socialmente.

A sociedade molda os sentimentos dos indivíduos. Determinados sentimentos são incentivados e outros são desmotivados e/ou reprimidos, dependendo das relações sociais. Sociedades fundadas em exploração e dominação tende a gerar sentimentos antipáticos em alto grau, bem como as fundadas em relações igualitárias tendem a incentivar sentimentos simpáticos.
Nas sociedades de classes, a divisão social do trabalho e outras divisões sociais geram uma socialização diferencial que pode incentivar distintos sentimentos por parte de distintos indivíduos, grupos e/ou classes sociais. Esse é o caso, por exemplo, da socialização feminina e da socialização masculina, que incentiva um grau maior de sentimentos simpáticos no primeiro caso e de sentimentos antipáticos no segundo, dependendo da sociedade. Há outros processos que interferem nessa constituição social de sentimentos específicos e geram vínculos e relações específicas, como a maternidade, a função na divisão social do trabalho (o guerreiro, por exemplo, deve ter uma ressocialização para desenvolver sentimentos antipáticos, pois de outra forma encontraria dificuldades em exercer sua função).
Antes do capitalismo, a unidade doméstica era simultaneamente unidade de produção e unidade de consumo. No capitalismo, a transformação da unidade doméstica em apenas unidade de consumo, deixando de ser unidade de produção, gera processos diferenciados na formação sentimental dos indivíduos. As mulheres, nos casos daquelas que se limitam à unidade doméstica (cujo proporção altera historicamente com o desenvolvimento da sociedade moderna), e os homens, quando são responsáveis pelo trabalho assalariado, tendem a um desenvolvimento sentimental distinto derivado das diferenças oriundas das diferentes relações sociais a que estão submetidos. No caso das mulheres, a tendência é de um desenvolvimento mais intenso dos sentimentos simpáticos (maternidade, relações com os filhos, etc.) e, no caso dos homens, dos sentimentos antipáticos (derivados da submissão à exploração e dominação no trabalho, competição, etc.)[9].
A diferença maior, no entanto, é que no primeiro caso há incentivo para a manifestação dos sentimentos e, no segundo, a sua não manifestação, pois nas relações familiares elas não são prejudiciais (especialmente os simpáticos) e nas relações no trabalho e outras (na sociedade civil, política, etc.) podem ser prejudiciais para os indivíduos.
A manifestação dos sentimentos também pode ser incentivada ou reprimida. Uma coisa são os indivíduos possuírem certos sentimentos, outra coisa é manifestá-los. Em determinadas sociedades, alguns sentimentos específicos são incentivados e outros são desmotivados e isso atinge eles em sua existência ou sua manifestação, pois podem existir, mas não se manifestar. Na sociedade capitalista, a compaixão, o amor universal[10], entre outros sentimentos, são desmotivados e por isso nem sempre se manifestam. Eles não deixam de existir, mas, por causa da repressão e da própria dinâmica das relações sociais, muitas vezes não se manifestam.

6.             Os sentimentos são uma das determinações das ações individuais e coletivas.

Os sentimentos atuam sobre os valores e consciência dos indivíduos, bem como são poderosos mobilizadores. Os valores são constituídos socialmente, mas os sentimentos, uma vez existentes, também atuam sobre sua constituição. É o caso, por exemplo, de uma pessoa que muda ou acrescenta novos valores por causa das demais pessoas de que gosta (grupo, amor sexual, etc.). Um indivíduo que nunca gostou de Rock and Roll pode passar a gostar ao integrar um grupo que valora esse gênero musical ou então por se enamorar com uma pessoa com esse gosto. Da mesma forma, os valores incentivam o desenvolvimento de certos sentimentos[11]. Um indivíduo extremamente competitivo e reprodutor dos valores dominantes tende a desenvolver sentimentos antipáticos em maior escala do que sentimentos simpáticos.
Os sentimentos são, também, uma das determinações da consciência e do seu desenvolvimento. Os sentimentos simpáticos, como o amor e a compaixão, podem mobilizar pessoas para descobrir cura de doenças, entender as relações sociais para propor reformas ou revolução, etc. O bloco revolucionário, mesmo reconhecendo a inevitabilidade da violência e gerar sentimentos antipáticos em relação aos exploradores e reprodutores da sociedade capitalista, tem nos sentimentos simpáticos a sua razão de ser e é por isso que o humanismo (mesmo que generalista) é geralmente o ponto de partida dos indivíduos que posteriormente se tornam revolucionários[12]. Eles também influenciam nos temas, posições, etc., que os indivíduos mais se aproximam.
A consciência também determina os sentimentos. Um indivíduo que julgava que seus males pessoais eram provocados por um determinado grupo social, motivo pelo qual ele o odiava, e descobre que não era esse o problema, pode diminuir ou abandonar esse sentimento antipático em relação a tal grupo. Se um indivíduo acredita que é o governo que é responsável por sua miséria, ele vai odiar o governo. Se um indivíduo considera que o governo é quem vem lhe concedendo um pouco de bem-estar, então tende a desenvolver sentimentos simpáticos a ele. Por esse motivo, quando mais é desenvolvida a consciência, mais tende a tornar seus sentimentos adequados às relações sociais concretas. O contrário também é verdadeiro: quanto menos consciência, mais provável é o desenvolvimento de sentimentos inadequados. Por conseguinte, o acesso a teoria do Estado, o seu significado, o que é a burocracia governamental, os seus objetivos reais, etc., tende a produzir um sentimento adequado em relação a ele, caso ele tenha interesse e valores que apontem para isso. Uma frase do filósofo Hegel sintetiza esse processo: “não basta amar, é preciso saber amar”[13].
Os sentimentos, ao lado dos valores, são poderosos elementos de mobilização de indivíduos e grupos. Isso é ainda mais verdadeiro no caso dos sentimentos mais arraigados nos indivíduos, grupos, classes sociais. O caso individual ajuda a explicar o processo em outros casos concretos (grupos, classes, nações, etc.). Os sentimentos arraigados são aqueles que prevalecem no universo psíquico de um indivíduo, o que lhe permite fazer escolhas ou tomar decisões difíceis mesmo passando por cima de outros sentimentos que possui. Assim, para um humanista radical pode ser dolorido se afastar de determinadas pessoas, por causa do sentimento simpático em relação a elas, mas se os seus sentimentos mais arraigados (que anda lado a lado como seus valores fundamentais e consciência), isso será efetivado. Da mesma forma, algo tomado pelo sentimento de ódio poderá destruir pessoas próximas que se opõem ao seu ataque em relação aqueles que ele odeia. A percepção disso reforça a necessidade de uma teoria dos sentimentos e o reconhecimento da manipulação dos sentimentos por certos indivíduos, partidos e governos.

7.             A sociedade capitalista incentiva o desenvolvimento seletivo de determinados sentimentos.

O capitalismo incentiva a constituição e desenvolvimento de sentimentos antipáticos (inveja, ciúme) e alguns simpáticos (amor romântico, uma versão empobrecida do amor sexual). Ele busca adaptar os sentimentos para que eles sirvam aos seus objetivos de reprodução. Ao mesmo tempo, ele reprime sentimentos que podem ser prejudiciais para sua reprodução.
A sociabilidade capitalista (fundada na competição, mercantilização e burocratização) e a mentalidade burguesa que ela cria, incentivam determinados sentimentos ligados ao processo de competição e possessividade, como a inveja e o ciúme, mas também o ódio e outros por causa da derrota na competição e outros processos similares.
O aparato estatal, por sua vez, busca incentivar o sentimento simpático de patriotismo, ou seja, o amor à nação. Através disso ele busca criar uma unidade imaginária e evita a percepção dos interesses antagônicos das classes sociais fundamentais e outras animosidades derivadas da divisão social do trabalho. Ele pode realizar isso através do discurso ou ideologias nacionalistas, promulgar uma lei obrigando os estudantes a cantar o hino nacional nas escolas, divulgando o patriotismo através de disciplinas, temas, valores, símbolos, ensinados nas escolas, etc. O sentimento patriótico é uma faca de dois gumes e ao mesmo tempo que é um sentimento simpático, é, ao mesmo tempo, potencial desenvolvedor do sentimento antipático em relação a outras nações, povos, etnias e pode ser manipulado para gerar sentimento antipático em relação aos “não-patriotas” ou aqueles que o aparato estatal ou determinados partidos propagandeiam que são “inimigos da nação”. O aparato estatal incentiva esse sentimento antipático de ódio às demais nações (xenofobia) principalmente em épocas de crises e de guerras, pois não só reforça a unidade nacional e evita a luta de classes interna como também permite a culpabilização dos países estrangeiros.

8.             A manipulação dos sentimentos é uma arma usada para realizar a reprodução do poder.

Existe uma manipulação dos sentimentos por parte de setores da sociedade, tal como a classe dominante, governos, partidos políticos, indivíduos. O nazismo[14] foi o exemplo maior de manipulação dos sentimentos para conquistar e manter o poder estatal e reproduzir o capitalismo em um momento de crise. A manipulação dos sentimentos ocorre também em disputas eleitorais, luta pelo poder, etc.
A manipulação dos sentimentos é quando alguém (indivíduo, partido, classe, governo) visa, conscientemente e intencionalmente, provocar determinados sentimentos antipáticos para seus adversários ou inimigos e sentimentos simpáticos para os seus aliados e para isso lança mão de todos os recursos, inclusive os imorais, antiéticos (seja qual for sua ética), ilegais, rumores, mentiras, informações falsas, etc. O Partido Nazista, por exemplo, buscou concentrar nos judeus os sentimentos antipáticos da população alemã. Para isso contava com uma já existente tradição antissemita e uma deterioração das condições de vida, tal como o alto grau de desemprego e crescimento da miséria. Isso facilitou seu sucesso com uma forte propaganda que culpabilizava os judeus. Aqui, no caso brasileiro, a manipulação de sentimentos ocorreu nos processos eleitorais de 1989 e 2014, sendo que o primeiro foi o candidato Fernando Collor de Mello que buscou provocar medo na eleição de um candidato de esquerda (Lula) e, em 2014, a candidata Dilma Roussef, do partido de Lula, realizou o mesmo processo em relação ao candidato Aécio Neves, por poder acabar com os supostos “avanços” dos governos petistas.
A manipulação dos sentimentos é utilizada para conquistar ou preservar o poder e se baseia no obscurantismo, em ideologias (sistemas de pensamento ilusório), doutrinas, mentiras, rumores, informações falsas, etc. e trabalham com o medo, ódio, etc. Se os nazistas mobilizam o ódio contra os judeus, outros buscam ganhar eleições relacionando o adversário com um suposto perigo gerador de medo, sendo duas formas de manipulação de sentimentos, ao lado de outras.

9.             Existe a necessidade de desenvolver uma teoria dos sentimentos.

O marxismo depois de Marx desconsiderou a questão dos sentimentos e esse é um grave problema, pois não dota o bloco revolucionário de elementos para combater a manipulação dos sentimentos. Marx não focalizou a questão dos sentimentos e nem desenvolveu uma teoria sobre isso, bem como sobre inúmeros outros fenômenos. O seu foco foi a análise da sociedade e do desenvolvimento dos modos de produção, especialmente do modo de produção capitalista e da possibilidade de emancipação humana. As suas considerações sobre sentimentos são no interior dessa imensa produção sobre os processos sociais. Isso é compreensível por causa de sua focalização e também por que seria necessário lançar as bases da compreensão da sociedade para ter acesso a uma compreensão dos sentimentos. A sua morte impediu de completar sua análise do capitalismo e outros processos que ele pretendia desenvolver e somente por ignorância ou má fé alguém iria querer que ele tratasse de todos os fenômenos sociais e humanos e mais ainda de forma aprofundada.
A deformação do pensamento de Marx realizada posteriormente pela social-democracia, leninismo e outras concepções (os ecletismos acadêmicos, por exemplo) e a marginalização do marxismo autêntico dificultou avanços deste de forma mais ampla, só avançando em algumas questões mais específicas (Korsch e a questão metodológica, Pannekoek e a questão dos conselhos operários, Rühle e a crítica dos partidos políticos, Bourdet e questão da autogestão, etc.). No plano geral, houve uma certa estagnação do marxismo, especialmente em momentos de estabilidade do capitalismo.
Por outro lado, a psiquiatria, com seu reducionismo exacerbado, tem pouco a dizer sobre sentimentos e a psicologia se dedicou mais para os chamados “processos cognitivos” e outros fenômenos do que a questão sentimental, com raras exceções. A psicanálise é que teria mais potencial para contribuir com uma teoria dos sentimentos, mas de certa forma priorizou outros processos sociopsíquicos (o inconsciente, a sexualidade, etc.) e por isso se limitou nesse processo, apesar de ter gerado avanços na compreensão do universo psíquico e, no caso de alguns psicanalistas, desenvolvido teses e análises sobre determinados sentimentos específicos.
A análise marxista da sociedade e alguns elementos da psicanálise, reunidos, formam um ponto de partida para a constituição de uma teoria dos sentimentos. A compreensão da necessidade de entender os sentimentos no interior de uma totalidade (a sociedade) e não isoladamente, sua historicidade, sua especificidade, entre outros aspectos, são elementos que podem ser perceptíveis através do método dialético e da análise que ele proporciona sobre este fenômeno. Por isso o marxismo é a base adequada para a elaboração de uma teoria dos sentimentos e é a fonte de inspiração das teses aqui apresentadas e que necessitam ser desenvolvidas.
A importância de uma teoria dos sentimentos é perceptível não apenas para a compreensão dos indivíduos, seu universo psíquico e suas ações, mas também para entender as classes e grupos sociais e a dinâmica social, incluindo as lutas de classes e os processos políticos em geral. A compreensão da dinâmica da sociedade moderna é facilitada com a compreensão dos sentimentos. A desconsideração desse elemento é, por exemplo, um dos motivos da incompreensão do pseudomarxismo da ascensão do nazifascismo e de sua ineficácia no combate a esse processo. O combate em relação à manipulação dos sentimentos pelos detentores do poder (aparato estatal, burocracia governamental, meios oligopolistas de comunicação, etc.) ou seus aspirantes (partidos, indivíduos, etc.) requer uma reflexão mais profunda sobre a dinâmica sentimental no interior da sociedade capitalista. Se os sentimentos são expulsos do campo perceptivo da episteme burguesa ou são abordados de forma reducionista, anistórica e antinômica, então é necessário superar esse processo elaborando uma teoria que seja, simultaneamente, uma crítica das poucas ideologias que abordaram a questão sentimental. Em síntese, é fundamental a elaboração de uma teoria dos sentimentos tanto para o avanço da consciência quanto para a luta pela libertação humana.

10.         A luta por uma sociedade humanizada pressupõe uma transformação sentimental.

O processo de humanização gerou os sentimentos simpáticos e possibilitou os sentimentos antipáticos. No entanto, esse é um processo incompleto. A humanização possibilitou o desenvolvimento da consciência e dos sentimentos, mas, ao mesmo tempo, com a emergência das sociedades classistas, os limitou e impediu o seu desenvolvimento pleno. O desenvolvimento da consciência é limitado pelo imaginário (representações cotidianas ilusórias) e ideologias, além de outros processos (como inacessibilidade ao processo de alfabetização, informações, etc., dependendo da classe social, época, lugar, etc.).
A forma de sociedade mais avançada tecnologicamente que existiu na história da humanidade, a capitalista, não permitiu a todos os seres humanos o acesso às informações (e, mais ainda, à informações verdadeiras), ao desenvolvimento mais amplo de sua consciência, à satisfação de suas necessidades básicas (um bilhão de indivíduos passando fome, 01 a cada 07 pessoas do planeta, é mais do que suficiente para se perceber isso) e muito menos de suas necessidades especificamente humanas (práxis e socialidade, ou seja, autorrealização via trabalho teleológico e consciente e relações sociais satisfatórias). O processo de humanização foi limitado e a sociedade capitalista vem gerando um processo que pode gerar o seu retrocesso, gerando uma nova época de barbarismo modernizado. É necessário lutar pelo avanço do processo de humanização e por uma sociedade humanizada de forma plena. A forma de sociedade que pode concretizar esse projeto e essa necessidade é a sociedade autogerida.
A constituição de uma sociedade autogerida, que consiga gerar a libertação humana, só pode ocorrer como uma transformação total e radical das relações sociais. Isso significa a necessidade de abolir o capitalismo (o que pressupõe abolição do capital, das classes sociais, do mercado, do aparato estatal, etc.) e constituir relações sociais radicalmente diferentes. A revolução proletária é uma revolução total, que atinge o modo de produção, as formas sociais, a cultura, incluindo os sentimentos.
No processo de luta pela transformação social é necessário o desenvolvimento de sentimentos simpáticos, mas no interior das classes desprivilegiadas e em relação àqueles que apoiam tal transformação. Isso significa que os sentimentos simpáticos generalizados devem ser controlados no interior das lutas de classes e mais ainda num momento de guerra civil. Não é possível tratar o carrasco com amor. Não é através do amor generalizado que se transforma a sociedade, pois existem interesses antagônicos entre as classes fundamentais, interesses opostos no conjunto da sociedade, valores antagônicos, desequilíbrios psíquicos, sentimentos antipáticos arraigados entre outros processos, que impedem uma transformação com base na racionalidade ou na sentimentalidade.
O sentimentalismo puro é um obstáculo para a libertação humana[15], ou seja, para a instituição de uma sociedade na qual as relações sociopsíquicas sejam radicalmente diferentes e humanizadas. Isso é tão evidente que basta ver a manipulação contemporânea dos sentimentos através do incentivo do sentimentalismo ao lado da recusa da razão e da teoria para perceber que ele é de interesse da classe dominante, pois permite uma maior manipulação. Esse é outro obstáculo para o desenvolvimento integral do universo psíquico dos indivíduos na sociedade capitalista: os interesses da classe dominante. O bloco dominante (as forças conscientes e organizadas da classe capitalista e suas classes auxiliares), bem como o bloco progressista (as forças conscientes e organizadas das classes auxiliares que buscam se autonomizar e competir com a classe dominante) buscam a todo o momento manipular as classes desprivilegiadas para garantir o seu controle, o seu apoio, etc. No plano do sentimentalismo, a comunicação é obstaculizada, pois quando os sentimentos são antipáticos, o que resta é a guerra e a destruição e assim é possível canalizar os sentimentos antipáticos em relação a inimigos imaginários e manter a exploração e dominação. Sem a mediação da razão, quando se trata de sentimentos antipáticos, a comunicação é substituída pela guerra e pela destruição. A reprodução disso no interior do bloco revolucionário e das classes desprivilegiadas significa o seu enfraquecimento e fortalecimento da classe dominante. Por conseguinte, o desenvolvimento da consciência e o uso da razão é um elemento fundamental para a libertação humana e é interesse do proletariado e dos seus aliados, enquanto que é algo que não pode ser desenvolvido livremente para a perspectiva da classe capitalista, o que gera as suas formas de controle da produção cultural.
Da mesma forma, não se deve incentivar sentimentos antipáticos generalizados, pois o objetivo da revolução autogestionária é a emancipação humana via transformação das relações sociais e não destruição de indivíduos. Se o objetivo é abolir a classe capitalista, isso deve ser entendido como abolição de uma classe social, que existe a partir de determinadas relações sociais, e não dos indivíduos concretos que compõem tal classe. Sem dúvida, a transformação social sofrerá oposição, inclusive armada, de indivíduos dessa e de outras classes, e num embate muitos perecerão. A abolição da produção de mais-valor e do trabalho assalariado significa a abolição do proletariado (e dos demais assalariados) e da burguesia, pois essas classes só existem em sua relação. Porém, indivíduos dessa classe poderão passar para o lado da transformação radical e por isso não precisam ser punidos por causa do seu passado. Como a classe dominante foi a responsável pela miséria de milhões, pela exploração, dominação, morte, etc., direta (em alguns casos) ou indiretamente, então é previsível que num momento de revolução social muitos indivíduos possuirão sentimentos antipáticos em relação a esta classe (e também em relação às suas classes auxiliares, especialmente a burocracia, sua fiel servidora). E num contexto de guerra civil, isso tende a se intensificar, inclusive pela violência física que tende a ser desencadeada. No entanto, é preciso distinguir entre indivíduo e classe. Os sentimentos antipáticos em relação à classe capitalista e suas classes auxiliares é inevitável, mas é preciso entender que não se trata de destruir indivíduos e sim relações sociais.
Outro motivo para não incentivar sentimentos antipáticos generalizados é a existência de milhares de pessoas com fortes desequilíbrios psíquicos[16] e revoltados, que podem tornar a destruição o foco de suas práticas e isso prejudicar o próprio processo revolucionário (divisões internas derivadas de atrocidades e outras formas de violência, precipitações por excesso de sentimentalismo em detrimento de reflexão sobre os acontecimentos e indivíduos, etc.). Assim, não há como evitar a existências de sentimentos antipáticos, mas é possível evitar sua generalização e buscar através do desenvolvimento consciente coordená-los para que não sejam obstáculos para a constituição da sociedade autogerida. Esse processo permite autorreflexão sobre os seus próprios sentimentos, no caso dos indivíduos, e dos grupos e da coletividade, no caso da sociedade. Esse processo já é uma transformação sentimental – pois ela deixa de ser dissociada da racionalidade e dos valores axionômicos, se tornando mais autoconsciente. É também um elemento da revolução proletária, pois como revolução social, ou seja, total, gera uma transformação cultural e sentimental.
Assim, a revolução proletária é, simultaneamente, uma revolução sentimental. Com o fim da pré-história da humanidade, também chega ao fim a pré-história dos sentimentos humanos. A história da humanidade passa a ser controlada pela própria humanidade ao invés da reprodução de relações sociais automatizadas, como o domínio do capital. E isso pressupõe um alto grau de desenvolvimento da consciência da realidade, incluindo a realidade sentimental.

Notas

[1] Seja por necessidade própria do universo psíquico humano, que busca uma explicação para o mundo, seja para atingir determinados objetivos (sobrevivência, autorrealização, realização de interesses, desejos socialmente produzidos, etc.) e direcionar sua ação sobre o mundo.
[2] Cada uma dessas concepções está ligada a determinados sentimentos. Não se trata de uma relação automática, mas é uma tendência de unicidade entre determinados sentimentos e determinadas ideias, mas que as informações, grau de reflexão, etc. interferem na constituição da representação produzida. Por exemplo, a concepção de que o mendigo pertence ao lumpemproletariado tende a ser acompanhada de compaixão, por parte do marxismo autêntico, e nem sempre no caso do pseudomarxismo (que inclusive vê o lumpemproletariado preconceituosamente); a percepção de que o mendigo é um preguiçoso que só traz despesa é a posição dos liberais conservantistas, que culpabilizam os indivíduos e demonstram apatia em relação ao dilema humano deste indivíduo; a ideia de que o mendigo é um fenômeno universal geralmente está ligado a um certo sentimento de culpa e a busca de reprimir a consciência disso, criando o mecanismo de defesa da razoabilização.
[3] Uma pessoa pode gostar muito de cães e ao encontrar um na rua, pode querer acariciá-lo, mas este, pode estar com raiva ou ser hostil por diversos motivos. O mesmo vale para o chamado “amor não correspondido”. Apenas um da relação demonstra sentimento simpático, pois o outro pode ser indiferente ou possuir (no caso de outro ser humano) um sentimento antipático. A questão dos animais será abordada na próxima tese.
[4] Uma pessoa pode simpatizar com outra e até querer ajudá-la ou se aproximar dela, mas a outra pode odiá-la. A primeira pessoa não sabe ou não entende isso, pois não fez nada diretamente contra a outra pessoa. O ódio do outro pode ser provocado por outros sentimentos (inveja, ciúme, medo, etc.) ou por determinadas relações sociais (relações de poder ou generalização afetiva, mal-entendidos, conflitos de interesses, relação sentimental em relação ao grupo social que o outro pertence, etc.).
[5] Uma pessoa simpática é uma pessoa que expressa sentimentos simpáticos e uma pessoa antipática, obviamente, é uma pessoa que expressa sentimentos antipáticos. No entanto, não existe pessoa apenas simpática ou apenas antipática, pois todos os seres humanos possuem potencialmente tais sentimentos e, na sociedade capitalista, inevitavelmente, manifestam ambos. Uma pessoa considerada simpática é geralmente aquela que tem maior civilidade, calma e modo de comportamento amistoso, o que pode ocorrer até em relação a pessoas com as quais não se simpatiza. Aqui temos uma simpatia convencional que pode ser o ethos (modo de ser) de um indivíduo, sendo distinto do que estamos analisando aqui, embora relacionado (se a pessoa for sincera, está relacionado no sentido da coerência entre sentimentos reais e convencionalidade, se for falsa, a relação é apenas aparente, pois são outros sentimentos, valores e concepções que geram a convencionalidade). Uma pessoa considerada antipática é geralmente aquela que tem maior agressividade, é mais desagradável, etc. Essa caracterização dos indivíduos tem relação com a forma que o indivíduo se comporta e expressa seus sentimentos e seu impacto psíquico sobre os outros.
[6] Não às classes sociais ou determinados grupos, mas aos indivíduos reais, independente do grupo do qual fazem parte, pois são seres humanos. As exceções são aqueles excessivamente destruídos psiquicamente e dominados por sentimentos antipáticos, o que gera, por conseguinte, uma antipatia recíproca. Esse é um dos sentidos atribuídos ao termo quando alguém afirma que uma pessoa é antipática, ou seja, ela executa ações que expressam, predominantemente, sentimentos antipáticos. Uma pessoa considerada antipática é geralmente aquela que tem maior incivilidade, agressividade e modo de comportamento belicoso, o que pode ocorre de forma generalizada, até mesmo em relação às pessoas com as quais ela simpatiza. É o mesmo caso da pessoa simpática, mas nesse caso não se trata de convencionalidade e sim uma certa personalidade ou, no caso da pessoa antipática, certo desequilíbrio psíquico (de forma mais amena, na neurose, por exemplo) que pode ser o ethos de determinado indivíduo.
[7] O ódio, assim como todo sentimento, é duradouro e enraizado na mente dos indivíduos e não é removido facilmente. Mas ele não é irremovível. Ele pode ser removido e por vários motivos dependendo dos casos concretos (o tempo, a mudança na relação entre os indivíduos, informações que mudam a percepção da pessoa odiada, a atração sexual, o deslocamento do ódio para outro indivíduo ou grupo social, etc.). Isso também ocorre com os demais sentimentos, inclusive o amor, cada um com suas determinações, especificidades e com suas diferenças em casos concretos.
[8] Para uma diferenciação entre processos psíquicos simples e processos psíquicos complexos, veja a nossa obra “Cérebro e Ideologia”.
[9] Isso apenas mostra que as relações entre os sexos são muito mais complexas do que as ideologias contemporâneas (tal como a que se fundamenta na ideia de “gênero”) imaginam. Além do processo histórico e social mais amplo que gera mutações sociais (tal como a separação entre unidade de produção e unidade de consumo), há as consequências culturais, políticas e psíquicas desse processo, indo muito além do reducionismo da chamada “relações de gênero”. Obviamente essas ideologias são constituídas socialmente e tendo por base mudanças sociais e culturais, bem como sociopsíquicas, que, aliados a idiossincrasias e casos concretos (o que pode gerar “generalização afetiva”, especialmente a partir de determinada relação concreta com o pai), geram um crescimento de sentimentos antipáticos por parte de muitas mulheres em relação aos homens. E isso, por sua vez, pode gerar reciprocidade e mais motivo para a antipatia numa espiral crescente de irracionalidade e fortalecimento da simplória ideia de “guerra dos sexos”.
[10] É uma das formas de amor, um sentimento simpático que, nesse caso, é direcionado para a humanidade como um todo e que tem sua expressão consciente no humanismo, sob as variadas formas que esse assume.
[11] Para aprofundar a questão dos valores, sugerimos a leitura de nossa obra “Os Valores na Sociedade Moderna”.
[12] Obviamente que isso não vale para todos os casos concretos, pois no interior do bloco revolucionário existem casos concretos de pessoas destruídas psiquicamente, pessoas revoltadas ou simplesmente rebeldes, que não se encaixam no caso acima. No caso dos indivíduos revoltados, são os sentimentos antipáticos que os guiam, especialmente o ódio. E isso ajuda a explicar um dos motivos pelos quais certos indivíduos fazem apologia da violência.
[13] Uma pessoa que ama outra e por isso a sufoca (possessividade, por exemplo), acaba gerando problemas nessa relação e para a pessoa amada, assim como o humanista generalista ao amar a humanidade e não fazer distinções concretas existentes, apela para ações e soluções que são, no fundo, obstáculos para a emancipação humana.
[14] E, secundariamente, o fascismo.
[15] Sentimentos sem razão assim como razão sem sentimentos produzem monstruosidades. A razão sem sentimentos gera o calculismo, a frieza, a coisificação. Os sentimentos sem razão na melhor das hipóteses, quando é predominantemente simpática, gera um sentimentalismo que pode ser ingênuo e prejudicial, e, na pior das hipóteses, gera agressividade e destrutividade.
[16] Na sociedade capitalista não existe indivíduos sem desequilíbrios psíquicos. No entanto, eles variam em quantidade e intensidade em indivíduos diferentes (e mesmo num caso individual se altera, de acordo com seu processo histórico de vida). Assim, a expressão “fortes desequilíbrios psíquicos” se refere aos casos mais graves, que, por sua vez, geram um maior grau de agressividade e violência, no qual a sombra (energias psíquicas destrutivas) é predominante em determinados indivíduos. Uma análise da sombra pode ser vista na nossa obra “Inconsciente Coletivo e Materialismo Histórico”.