Rádio Germinal

RÁDIO GERMINAL, onde a música não é mercadoria; é crítica, qualidade e utopia. Para iniciar clique em seta e para pausar clique em quadrado. Para acessar a Rádio Germinal, clique aqui.

quarta-feira, 3 de janeiro de 2018

A Força do Dinheiro em A Nova Califórnia, de Lima Barreto


A Força do Dinheiro em A Nova Califórnia, de Lima Barreto


Nildo Viana*


Lima Barreto aborda, no seu conto A Nova Califórnia, a transformação mental de uma pequena cidade, chamada Tubiacanga. A obra de Lima Barreto é marcada por uma forte crítica social e esse conto mostra vários aspectos de sua criticidade. A história narra a força dos interesses e como estes podem passar por cima da moral, dos valores, dos sentimentos (LIMA BARRETO, 2010).
A crítica social de Lima Barreto, neste conto, inicia-se com a chegada de um estrangeiro, Raimundo Flamel, na pacata Tubiacanga, que é descrita com sua pequena população, apresentada como pacífica e ordeira. Os três ou quatro mil habitantes da cidade já contavam cinco anos sem nenhum furto ou roubo. As portas e janelas só eram usadas por causa de sua existência no Rio de Janeiro. Flamel procura o farmacêutico Bastos e lhe faz uma solicitação curiosa: fez uma grande descoberta e precisava de três testemunhas para garantir a “prioridade de sua invenção”. Pouco depois, a pacata cidade começa a ser palco de diversos atos “sacrílegos”: violações de sepultura para roubar ossos. Isso foi condenado moralmente pela população, que fez vigilância, pois as violações e saque de ossos continuavam. Até que em certo momento, os três saqueadores foram descobertos. Dois foram pegos e morreram. O terceiro era o farmacêutico Bastos. Esse conta o motivo do roubo de ossos: Flamel havia inventado uma fórmula de transformar simples ossos humanos em ouro. Inicialmente, alguns ficaram céticos com tal possibilidade, mas, com o passar do tempo, a população inteira acabou saqueando o cemitério em busca de ossos, ao ponto de matarem uns aos outros. Apenas o bêbado da cidade escapou dessa busca desenfreada pelo ouro.
A crítica social é a forma mais rica de obra literária para quem objetiva realizar uma análise da sociedade e das relações sociais. Lima Barreto realiza crítica social com maestria e usa algumas fórmulas para tal, tal como a formula crítica-progressiva em determinadas obras, como O Triste Fim de Policarpo Quaresma e A Cartomante[1]. Nesse conto, que foi adaptado para o cinema e telenovela, ele usa outra fórmula crítica. A narração elege um foco principal para sua crítica social, o que não o impede de realizar outras que seriam periféricas. É o que se vê, por exemplo, em sua exposição da competição social e do formalismo quando trata do Capitão Pelino, mestre escola e redator do Gazeta de Tubiacanga:
Ninguém escrevia em Tubiacanga que não levasse bordoada do Capitão Pelino, e mesmo quando se falava em algum homem notável lá no Rio, ele não deixava de dizer: “Não há dúvida! O homem tem talento, mas escreve ‘um outro’, ‘de resto’...” E contraía os lábios como se tivesse engolido alguma cousa amarga (LIMA BARRETO, 2010, p. 71).
O narrador afirma que todos em Tubiacanga o respeitavam solenemente e, ironicamente, coloca que ele era “um sábio...”. Ele saía para conversar, mas era “avaro de palavras”, “limitando-se tão-somente a ouvir”. Mas corrigia qualquer incorreção de linguagem dos demais. Isso afastava os “palestradores”, “mas, Pelino, indiferente, seguro dos seus deveres, continuava o seu apostolado de vernaculismo” (LIMA BARRETO, 2010, p. 71).
Essas passagens mostram uma crítica da competição social e como um indivíduo específico, Pelino, supervalora a sua especialidade, já que ele era gramático, e a usava para competir e ganhar dos demais. A ironia aparece ao afirmar que “conversar”, no caso dele, “era um modo de dizer”, pois Pelino pouco usava as palavras, limitava-se a ouvir, ao invés de efetivamente conversar. A crítica remete, nesse caso, aos adeptos do que Lima Barreto denominou “gramatiquice nacional”. Lima Barreto era criticado por questões formais da linguagem e são os críticos literários, que pouco escrevem, que geralmente realizavam tal crítica. No entanto, no caso de Pelino, isso também se aplicava aqueles que escrevem de forma precária, pois o indivíduo real (Pelino Guedes) que inspirava o personagem, escrevia biografias e foi ironizado por Lima Barreto (2017) em crônica a seu respeito.
O foco da crítica social de Lima Barreto, no entanto, é a hipocrisia social que esconde a verdadeira mentalidade dos indivíduos, seus interesses, seus reais valores, colocando em seu lugar a moral e/ou o moralismo[2]. A contraposição entre a moral e o moralismo e os reais valores e interesses dos indivíduos em Tubiacanga, uma metáfora para a sociedade capitalista, ocorre no momento em que se noticia o roubo de ossos no cemitério. O narrador mostra a reação moral da população:
A indignação na cidade tomou todas as feições e todas as vontades. A religião da morte precede todas e certamente será a última a morrer nas consciências. Contra a profanação, clamaram os seis plesbiterianos do lugar – os bíblicos, como lhes chama o povo; clamava o Agrimensol Nicolau, antigo cadete, e positivista do rito Teixeira Mendes; clamava o Major Camanho, presidente da Loja Nova Esperança, clamavam o turco Miguel Abudala, negociante de armarinho, e o cético Belmiro, antigo estudante, que vivia ao deus-dará, bebericando parati nas tavernas. A própria filha do engenheiro residente da estrada de ferro, que vivia desdenhando aquele lugarejo, sem notar sequer os suspiros dos apaixonados locais, sempre esperando que o expresso trouxesse um príncipe a desposá-la, a linda e desdenhosa Cora não pôde deixar de compartilhar da indignação e do horror que tal ato provocara em todos do lugarejo” (LIMA BARRETO, 2010, p. 74)[3].
O narrador, no entanto, coloca um caso especial:
O mais indignado, porém, era Pelino. O professor deitara artigo de fundo, imprecando, bramindo, gritando: “na estória do crime, dizia ele, já bastante rica de fatos repugnantes, como sejam: o esquartejamento de Maria de Macedo, o estrangulamento dos irmãos Fuoco, não se registra um que o seja tanto como o saque às sepulturas do “Sossego” (LIMA BARRETO, 2010, p. 75)[4].
A reação foi forte: não havia mais paz, os namoros estavam suspensos, etc. Mas o saque continuava e quando os responsáveis foram descobertos, e, principalmente, as razões de sua realização, os comportamentos mudaram. Ao descobrirem que o “químico” Raimundo Flamel descobriu como transformar ossos humanos em ouro, a dúvida pairou, mas o comportamento geral mudou. A indignação moral é substituída pelos interesses e pela ambição.
O carteiro, cujo velho sonho era a formatura do filho, viu logo ali meios de consegui-la. Castrioto, o escrivão do juiz de paz, que no ano passado conseguiu comprar uma casa, mas ainda não a pudera cercar, pensou no muro, que lhe devia proteger a horta e a criação. Pelos olhos do sitiante Marques, que andava desde anos atrapalhado para arranjar um pasto, pensou logo no prado verde do Costa, onde os seus bois engordariam e ganhariam forças... (LIMA BARRETO, 2010, p.76)
Nesse contexto, os interesses falam mais alto do que a moral. A hipocrisia se revela. Assim como, no início, houve uma indignação geral na cidade por causa do roubo de ossos, ao saber que isso poderia gerar “ouro”, ou seja, “dinheiro”, “riqueza”, atendendo aos interesses (“necessidades”) de cada um, todos mudaram para a ambição amoral:
Às necessidades de cada um, aqueles ossos que eram ouro viriam atender, safisfazer, e felicitá-los; e aqueles dous ou três milhares de pessoas, homens, crianças, mulheres, moços e velhos, como se fossem uma só pessoa, correram à casa do farmacêutico (LIMA BARRETO, 2010, p. 76).
Após irem à casa do farmacêutico e terem mais informações sobre o processo de transformação de ossos em outro, a população, “docilmente, com aquela doçura particular às multidões furiosas”, retornaram para casa. O narrador após colocar a existência de certa incredulidade na sala de jantar, depois mostra a voracidade com a qual a população, na qual cada indivíduo ocultava do outro suas intenções, se lançou para conseguir os tão preciosos ossos:
À noite, porém, o doutor percebendo que a mulher dormia, saltou a janela e correu em direitura ao cemitério; Cora, de pés nus, com as chinelas nas mãos, procurou a criada para irem juntas à colheita de ossos. Não a encontrou, foi sozinha; e Dona Emília, vendo-se só, adivinhou o passeio e lá foi também. E assim aconteceu na cidade inteira. O pai, sem dizer nada ao filho, saía; a mulher, julgando enganar o marido, saía; os filhos, as filhas, os criados – toda a população, sob a luz das estrelas assombradas, correu ao satânico rendez-vous no “Sossego”. E ninguém faltou. O mais rico e o mais pobre lá estavam. Era o turco Miguel, era o professor Pelino, o doutor Jerônimo, o Major Camanho, Cora, a linda e deslumbrante Cora, com seus lindos dedos de alabastro, revolvia a sânie das sepulturas, arrancava as carnes, ainda podres agarradas tenazmente aos ossos e deles enchia o seu regaço até ali inútil (LIMA BARRETO, 2010, p. 77).
Esse processo aponta para uma questão comum na sociedade moderna. No capitalismo, há a mercantilização das relações sociais e tudo vai paulatinamente se transformando em mercadoria (incluindo os bens materiais que são necessidades básicas, como alimentação, habitação, etc.) ou mercancia, bens culturais e coletivos que passam a possuir valor de troca (VIANA, 2016). Nessa sociedade, o dinheiro se torna o principal meio de sobrevivência, mas também o principal meio de ganhar a competição social. O portador de dinheiro tem o “poder aquisitivo” e quanto mais dinheiro, maior poder aquisitivo, e, junto com ele, mais poder, mais status, maior possibilidade de conseguir todo o resto. Isso, junto com outras características da sociedade capitalista, tal como a competição social, gera uma verdadeira “corrida do ouro” (expressão que já foi título de filme de Charles Chaplin e telenovela brasileira).
No entanto, isso não poderia ser assumido e explicitado para todos. Se os valores dominantes e o sentimento de ambição, a competição social, a busca pela ascensão social e a ânsia por possuir dinheiro (e capital, no caso dos capitalistas), fossem assumidos publicamente e assim reconhecidos, a barbárie tomaria conta de toda a sociedade. A lei do mais forte (fisicamente falando) talvez se impusesse e os possuidores seriam ameaçados pelos não-possuidores. Por isso, cria-se formas de regularizar tais relações sociais para que se aceite a propriedade privada alheia, o dinheiro alheio, etc. Dessa forma, um conjunto de leis são produzidas para proteger os possuidores em detrimento dos não-possuidores (de propriedade, de dinheiro, etc.), bem diversas formas de legitimação (a começar pelas próprias leis). Isso é complementado pelo aparato repressivo do Estado para punir aqueles que desrespeitam as leis (especialmente, mas não unicamente, a propriedade e o dinheiro alheio), ou seja, os criminosos.
Outro complemento é necessário: a moral. A moral, tal como já foi definida, é um conjunto de normas de comportamento e essas normas são relativamente introjetadas pelos indivíduos. A moral dominante[5] é uma poderosa força de conservação da sociedade, seja se tornando parte do que muitos pensam e fazem, seja sendo apenas discurso e reprodução sem compromisso para se adequar ao que é hegemônico ou ter aparência de fazer as coisas certas. Alguns se arvoram em defensores da moral, mas a defendem apenas discursivamente. Estes são geralmente denominados “falsos moralistas”, gerando o pseudomoralismo. O conto de Lima Barreto mostra o pseudomoralismo dos moradores de Tubiacanga, uma metáfora da sociedade moderna, um reino de pseudomoralistas. Os interesses falam mais alto e a moral é defendida até o momento em que se está na sala de jantar, pois o anoitecer traz à tona o predomínio dos interesses, ou, freudianamente, a censura da moral se enfraquece e emerge aquilo que se quis esconder.
A crítica aos moralistas atinge o seu ápice no trecho abaixo:
A desinteligência não tardou a surgir; os mortos eram poucos e não bastavam para satisfazer a fome dos vivos. Houve facadas, tiros, cachações. Pelino esfaqueou o turco por causa de um fêmur e mesmo entre as famílias questões surgiram. Unicamente, o carteiro e o filho não brigaram. Andaram juntos e de acordo e houve uma vez que o pequeno, uma esperta criança de onze anos, até aconselhou ao pai: “Papai vamos aonde está mamãe; ela era tão gorda...” (LIMA BARRETO, 2010, p. 77).
O caso de Pelino é exemplar, pois foi quem denunciou implacavelmente na Gazeta de Tubiacanga, o crime infame de roubar ossos e não só faz o que condenou, mostrando sua hipocrisia, como ainda vai mais longe esfaqueando os vivos para saquear os ossos dos mortos. A baixeza atinge seu ponto máximo quando o filho do carteiro sugere roubar os ossos da própria mãe, por supostamente, em sua cabeça, ela ter ossos mais robustos por ser gorda. O que Marx (1988) discutiu como o fetichismo da mercadoria reaparece como fetichismo do dinheiro. O dinheiro aparece como algo com vida própria e os seres humanos como coisas sem vida. Ao não perceber que o mundo das coisas é produzido pelos seres humanos e que estes não são meros objetos de trocas e interesses, surge a possibilidade de coisificação dos próprios seres humanos. Os seres humanos são coisificados e uma vez que esse ato de consciência é realizado, eles podem ser tratados como coisas, desumanizados. A consciência coisificada permite a coisificação dos seres humanos e a desumanização. A vida humana perde valor e o dinheiro se torna um valor superior. As coisas são valoradas e os seres humanos desvalorados. A consciência coisificada, fetichista, uma vez existente, torna possível o processo de valoração das coisas em detrimentos dos seres humanos.
Assim, o conto de Lima Barreto traz uma crítica ao moralismo e à hipocrisia, mostrando que na sociedade moderna, o que predomina é a competição e o dinheiro[6]. No conto ele destaca, portanto, dois elementos da sociabilidade capitalista (VIANA, 2008): a mercantilização (o dinheiro ou o ouro sendo sua expressão simbólica) e a competição. Lima Barreto mostra a força das relações sociais concretas, reais, e o poder dos interesses gerados a partir delas, muito acima da moral e do moralismo, e revelando a real motivação dos indivíduos em suas ações.
E tudo começa com Raimundo Flamel. Apontado como químico, mas era, no fundo, um alquimista. A origem do nome escolhido reforça essa interpretação[7]. Nicolas Flamel ficou conhecido como alquimista e que teria conseguido através da alquimia produzir prata e ouro e com sua esposa teria fabricado a pedra filosofal. A sua casa foi saqueada por caçadores de tesouros, que acreditavam na veracidade do poder da alquimia. Aqui temos não apenas o nome de Flamel, mas também outros elementos de inspiração para Lima Barreto. O nome Flamel remete, por conseguinte, ao alquimista que transformava coisas em ouro. O nome do conto, por sua vez, remete a uma “Nova Califórnia”, O estado norte-americano da Califórnia, ex-estado mexicano, que declarou sua independência e se anexou ao país vizinho, ficou conhecido como “Estado Dourado” (Golden State), por causa da corrida pelo ouro que atraiu milhares de pessoas em 1849. Assim, nota-se que os nomes não foram escolhidos aleatoriamente. Flamel e Califórnia remetem ao ouro. Ambos simbolizam a corrida do ouro, a transformação do dinheiro em valor fundamental. E o dinheiro é um valor fundamental na sociedade capitalista, o motor das ações de milhões de pessoas.
Lima Barreto mostra as motivações mais profundas das pessoas na sociedade capitalista, a busca do vil metal (ouro, dinheiro, riqueza), expressando as relações sociais concretas, a sociabilidade capitalista, bem como a farsa da moral burguesa e a hipocrisia daqueles que dizem defendê-la. Os homens considerados mais respeitados da cidade (doutores, médicos, químicos, professores, padres), a bela jovem (Cora), os trabalhadores (o carteiro, entre outros), os pobres e mais humildes, o moralista esbravejante (Pelino). Ninguém escapa.
Na verdade, se esse fosse o final, Lima Barreto realizaria uma crítica pessimista e sua concepção de ser humano se mostraria limitada[8]. Felizmente, ele não encerra o conto dessa forma. O cemitério, o rendez-vous do Sossego, como ele diz, teve uma única ausência. Recordando que a palavra francesa rendez-vous significa “ponto de encontro”, mas também pode significar prostíbulo, ou seja, o local onde se vende o corpo por dinheiro, o que significa se trocar pelo dinheiro e novamente esse produto da sociedade capitalista aparece soberano. Um indivíduo não foi ao encontro, não entrou na corrida do ouro.
Esse indivíduo é Belmiro, o bêbado. Ele entra em uma venda e não encontra ninguém. Pega uma garrafa de Parati e fica bebendo na “margem do Tubiacanga”. Se compreendermos que Tubiacanga é uma metáfora da sociedade moderna, ficar à sua margem é algo significativo. Alguém que está na margem da sociedade moderna é portador de valores diferentes, sendo, portanto, indiferente à corrida do ouro. Essa é a mensagem de esperança do final do conto. Não existe apenas moral e hipocrisia, existem pessoas portadoras de valores distintos. Belmiro simboliza todos aqueles que escapam dos interesses e valores dominantes. Simboliza a divergência e a esperança de superação da desumanização e possibilidade de criação de uma sociedade verdadeiramente humana.

Referências

LIMA BARRETO, A. H. A Cartomante. São Paulo: Ática, 1993.

LIMA BARRETO, A. H. A Nova Califórnia. In: Os Melhores Contos. 1ª reimp. São Paulo: Martin Claret, 2010.

LIMA BARRETO, A. H. Cada Raça tem um Calino. Disponível em: https://pt.wikisource.org/wiki/Cada_ra%C3%A7a_tem_um_calino acessado em: 03/11/2017.

LIMA BARRETO, A. H. O Triste Fim de Policarpo Quaresma. São Paulo: Ática, 1991.

MARX, Karl. O Capital. Vol. 1, 3ª edição, São Paulo: Nova Cultural, 1988.

MEIRELES, Maurício. Pseudônimo pornô de Lima Barreto é descoberto na Biblioteca Nacional. In: Folha de São Paulo, 09/09/2017. Disponível em: http://www1.folha.uol.com.br/colunas/mauricio-meireles/2017/09/1916839-pseudonimo-porno-de-lima-barreto-e-descoberto-na-biblioteca-nacional.shtml acessado em: 03/11/2017.

SOUZA, Renato Dias. As representações do nacionalismo em Lima Barreto. Tese de Doutorado. Pós-Graduação em Sociologia/UFG, 2017.

VIANA, Nildo. A Filosofia e sua Sombra. Goiânia: Edições Germinal, 2000.

VIANA, Nildo. A Literatura Crítico-Progressiva de Lima Barreto. Revista Possibilidades. Ano 01 no 01, Jun./Set. 2004.

VIANA, Nildo. A Mercantilização das Relações Sociais. Modo de Produção Capitalista e Formas Sociais Burguesas. São Paulo: Ar Editora, 2016.

VIANA, Nildo. Universo Psíquico e Reprodução do Capital. São Paulo: Escuta, 2008.



* Professor da Faculdade de Ciências Sociais e Programa de Pós-Graduação em Sociologia/UFG. Doutor em Sociologia pela UnB.
[1] Essas duas obras (LIMA BARRETO, 1991; LIMA BARRETO, 1993) apontam para um processo de crítica progressiva através da evolução dos protagonistas das histórias, que vão progressivamente se conscientizando (VIANA, 2004).
[2] É preciso esclarecer que moral e ética são coisas distintas. A ética é um modo de ser caracterizado pela coerência entre os valores fundamentais do indivíduo e sua prática cotidiana. A moral, por outro lado, é um conjunto de normas, sendo estas externas aos indivíduos e impostas pela sociedade ao indivíduo (VIANA, 2000). Moralismo pode ser entendido como a tentativa de enquadrar todos os indivíduos nas normas de conduta estabelecidas (ou por ser estabelecer, dependendo da moral em questão, já que toda sociedade ou época possui uma moral hegemônica, mas que não é única).
[3] O narrador explica a razão de Cora entrar no coro dos indignados: era o medo da “morte implacável e onipotente”, que também a levaria e ela queria seus ossos descansando sossegadamente no cemitério. Aqui Lima Barreto faz uma crítica às pessoas como Cora, que se julgam muito superiores aos demais, e, mais especificamente, a certo tipo de mulher, que, por serem consideradas possuidoras de grande beleza, desdenha os demais, mas que, ironicamente, terão o mesmo destino dos “humildes roceiros”.
[4] Seria necessária uma análise linguística para saber se Lima Barreto ironizava Pelino com essa citação, pois a construção gramatical e ortográfica do especialista em gramática tem pontos questionáveis, tal como o uso do termo “estória” ao invés de história, especialmente no sentido que ganha no contexto da afirmação.
[5] A moral dominante é a moral conservadora, embora em alguns casos e setores da sociedade possa ser a moral progressista (que padece dos mesmos problemas, só que com ênfases diferentes e diferenças em questões que não colocam em xeque a reprodução da sociedade existente), que em suas tendências mais extremas pode se aproximar do imoralismo. Não existe uma “moral revolucionária” em oposição a ambas e sim uma ética revolucionária, emancipadora, que não quer reorganizar o comportamento dentro desta sociedade e sim a transformação social e superação da moral que reproduz essa sociedade, do moralismo e dos problemas e dilemas dos comportamentos individuais e sociais marcadas pela luta de classes, competição social, interesses de classes, desequilíbrios psíquicos, etc.
[6] A competição aparece em outro momento periférico da narrativa, quando emerge uma crítica aos políticos profissionais e disputas políticas institucionais. O último assassinato ocorrido na cidade foi durante as eleições municipais, mas nada aconteceu, pois “o assassino era do partido do governo, e a vítima da oposição” e assim “o acontecimento em nada alterou os hábitos da cidade” (LIMA BARRETO, 2010, p. 74).
[7] Os nomes nas obras literárias de Lima Barreto são carregados de significados. O nome “Pelino”, por exemplo, é utilizado em várias oportunidades por Lima Barreto. Recentemente se descobriu que o próprio Lima Barreto utilizou o pseudônimo de “Pelino Língua” ao escrever dois “contos pornográficos” (MEIRELES, 2017). Esse nome se relaciona com um desafeto de Lima Barreto, um burocrata que emperrou a aposentadoria de seu pai, cujo nome era Pelino João da Costa Guedes, mais conhecido como Pelino Guedes. Pelino simboliza não apenas um burocrata, mas também um suposto entendido em literatura e gramática. Tanto é que Lima Barreto escreve uma crônica na qual um suposto professor alemão resenha um livro de Pelino Guedes, uma sátira a uma suposta biografia de um prefeito e ex-ministro (LIMA BARRETO, 2017). E Pelino Guedes, além de burocrata, também escrevia biografias e outras obras, como, por exemplo, O Marechal Carlos Machado de Bittencourt, de 1898. O nome “Cora” também, devido ao contexto da beleza da jovem personagem, pode ter relação com o verbo corar. Esses aspectos, no entanto, demandam pesquisa e análise mais detalhada e profunda para avaliar seu real significado.
[8] Uma análise do conjunto da obra de Lima Barreto que expõe seu caráter crítico é apresentada por Souza (2017).

Nenhum comentário:

Postar um comentário

[box type=”download” icon=”none”] [/box]