terça-feira, 12 de julho de 2016

Capitalismo e Neurose


Capitalismo e Neurose

Nildo Viana

O presente ensaio visa discutir uma questão fundamental para a sociedade contemporânea: a relação entre neurose e sociedade capitalista. Os estudos psicanalíticos de Freud e dos demais psicanalistas abriram caminho para se pensar tal relação e isto abre espaço para pensarmos o papel da neurose no processo das lutas de classes.

A primeira questão consiste em definir o que é a neurose e ver suas condições de possibilidade, ou seja, como ela é produzida. Existem várias definições de neurose e, segundo algumas dessas, há vários tipos de neurose. Freud, por exemplo, distinguia psiconeuroses de defesa, neurose de angústia etc. No entanto, ele não define neurose de forma clara, bem como a maioria dos psicanalistas posteriores. Iremos aqui, inspirando em Karen Horney, mas diferenciando-nos dela, definir neurose como um problema psíquico específico, caracterizado por uma insegurança estrutural do indivíduo diante da sociedade, o que gera dois mecanismos de defesa principais e complementares: a fuga e a hostilidade.

A fuga promove o isolamento, restrição de contatos e amizades, inibição. A hostilidade gera agressividade e complementa o quadro anterior. O indivíduo neurótico resolve o seu problema de insegurança estrutural fugindo e hostilizando as pessoas, o que mantém, por um lado, um círculo de pessoas (geralmente a família e poucas amizades) que servem de refúgio do contato com outros e a hostilidade para os estranhos e não-eleitos em geral. Sem dúvida, a hostilidade também ocorre junto ao círculo mais restrito de contatos, mas apenas para complementar a necessidade de segurança através do controle, o que gera conflitos e agressividade. Isto também promove um terceiro elemento que é uma certa rigidez psíquica, voltada para a fuga, a agressividade, a rispidez cotidiana, a busca de ordem e que tudo seja organizado e coerente com o seu costume, o que lhe dá a sensação de segurança.

Por conseguinte, esta insegurança estrutural do indivíduo que caracteriza a neurose é entendida e manifesta através do medo, o que faz com alguns pesquisadores focalizem este aspecto da neurose (Horney, 1984). A insegurança estrutural promove no indivíduo uma vontade de fuga, de “volta ao útero”, para escapar do mundo, criando uma necessidade exagerada de segurança. Isto promove dificuldade de amar, relacionar, desconfiança exagerada, isolamento, agressividade, rigidez, possessividade. Também, devido à necessidade exagerada de segurança, também promove uma preocupação excessiva com a ordem e promove comportamentos irracionais e restritivos de relacionamentos, nos quais a família e pessoas próximas, são eleitas como suficientes e o afastamento de desconhecidos ou pessoas não “confiáveis”, segundo os critérios restritos produzidos na situação acima são os mais importantes.

No que se refere ao mundo afetivo, acaba gerando laços afetivos restritos, afinal isto é “mais seguro”. Da mesma forma, a possessividade garante maior segurança e a irracionalidade do comportamento e pensamento sofre o processo que psicanaliticamente foi denominado racionalização. Isto cria não somente conflitos com as demais pessoas, mas também conflitos interiores, pois o desejo de relação afetiva (no sentido amplo da palavra) e a dificuldade em concretizar isso, devido a busca de segurança, cria uma seletividade restritiva. Essa seletividade, para garantir confiança e controle, acaba elegendo pessoas mais subservientes, recatadas, menos intelectualizadas ou questionadoras (ou seja, menos ameaçadoras), se não em geral, pelo menos em relação ao indivíduo neurótico.

No que se refere ao processo intelectual, promove uma inibição intelectual (o que gera uma certa segurança ao evitar exposição), o que também produz restrição na produção intelectual, já que isso evita conflito e permite uma confiança ilusória. Desta forma, a iniciativa e capacidade crítica e criativa acabam sendo prejudicadas e diminuídas[1]. A dificuldade de iniciativa e desenvolvimento da criatividade, necessidades radicais de todo ser humano, acaba piorando a situação do indivíduo neurótico. A capacidade crítica é obliterada, pela insegurança geral e pelos conflitos que isso pode gerar[2]. Isso gera também um pensamento rígido sobre questões cotidianas, afetivas, familiares.

Esta situação acaba também afetando os valores do indivíduo neurótico. Alguns valores acabam sendo bastante evidentes nesse caso: família, autoridade, subserviência, ordem. Em casos concretos, obviamente, pode haver conflitos de valores nestes indivíduos, principalmente dependendo de outras determinações, como consciência, sentimentos, outros valores, etc., que são mais fortes quando derivado de pessoas significativas para tal indivíduo. Isto se deve ao complexo problema da formação dos valores nos indivíduos concretos (Viana, 2007) e ao processo de informação e formação intelectual do indivíduo, entre outras determinações.

Assim, o indivíduo neurótico sempre está próximo ou manifesta autoritarismo, possessividade, controle das pessoas próximas, agressividade, e, quando se trata de relações fora deste círculo, a hostilidade é a resposta para garantir a segurança diante do mundo ameaçador, ou então a submissão e subserviência que solicita dos outros e, em situação desfavorável, pode fazê-lo para se sentir seguro diante das autoridades e pessoas vistas como “ameaçadoras”. Em casos de indivíduos concretos, a solução da submissão e subserviência pode ser mais constante devido sua situação nas relações sociais, entre outras determinações.

Porém, é preciso ter em vista que a neurose está ligada a uma insegurança estrutural e não qualquer insegurança, que todos os indivíduos possuem, em maior ou menor grau, com mais ou menos intensidade dependendo do contexto, etc. uma certa insegurança[3]. Trata-se de uma insegurança estrutural, que perpassa a “personalidade” total do indivíduo. Neste sentido, é possível se pensar, como faz Horney (1984), numa “personalidade neurótica”. Algumas pessoas neuróticas são tão agressivas que podem desviar a percepção de sua grande insegurança, pois assim passam a falsa sensação de que são seguras e racionalizam o seu comportamento agressivo sem admitir sua raiz ligada à sua insegurança estrutural, sendo que alguns destes indivíduos nem sequer possuem uma consciência clara disso.

O que gera a neurose? Esta é uma questão importante para entender a questão da relação desse problema psíquico com a transformação social. A formação da neurose está ligada ao processo de socialização repressiva-coercitiva, que promove a repressão de determinadas potencialidades humanas, principalmente durante a infância e juventude[4], aliado com uma forte coerção, ou seja, produção de comportamentos, ideias, sentimentos, etc. A socialização repressiva impede a manifestação de potencialidades humanas e isso, durante a infância, pode ser extremamente prejudicial psiquicamente. Quando a repressão é muito forte, quando é uma mais-repressão (Viana, 2008), tende a provocar problemas psíquicos. O caráter coercitivo da socialização pode reforçar este processo e, no caso da neurose, assume um papel complementar e fundamental.

No caso da sociedade capitalista, a socialização impõe valores e busca instituir uma mentalidade burguesa nos indivíduos, nos quais a competição, a busca do sucesso, riqueza, poder, etc., se tornam fundamentais. Para conseguir realizar isto, é necessário disciplina, estudos, dedicação e isto se sobreporá, numa socialização comandada pela sociabilidade capitalista e mentalidade burguesa, a liberdade e a criatividade. Em síntese, a coerção sendo forte, a repressão também será, pois para se dedicar intensivamente ao trabalho (alienado) é necessário o abandono de outras atividades e necessidades.

A família acaba tendo um papel fundamental nesse processo, já que é a principal instância de socialização. Se os valores dos pais apontam para este processo de reprodução da mentalidade burguesa, então constitui num elemento importante para se pensar o processo de produção de um indivíduo neurótico. A repressão existente nesse caso não produz, necessariamente e em todos os casos, neurose nos indivíduos submetidos a ela. Mas se isto for acompanhada por algumas outras determinações, isto se torna cada vez mais provável. Se a mentalidade burguesa dos pais é excessiva, então um alto grau de cobrança familiar existirá (maior grau de coerção). Os estudos deverão sobrepor à brincadeira e a criatividade, por exemplo. Só serão valoradas as atividades que são manifestações diretas dos valores dominantes, e as outras serão desvaloradas. Isso tende a ser mais forte ainda se os laços afetivos no interior da família são frios e ocorre a depreciação dos filhos. Assim, a afetividade, a realização sentimental, é reprimida. A depreciação e desconsideração do filho/a tende a gerar uma forte insegurança. O neurótico geralmente aceita os valores dominantes, pelo menos parcialmente, e nesse sentido assume para si metas que são tipicamente as da sociabilidade capitalista e mentalidade burguesa, promovendo um anseio por ascensão social, riqueza e poder:
“Sem descer a minúcias, as linhas gerais do círculo vicioso que surge do anelo neurótico por poder, prestígio e posses podem ser, aproximadamente indicadas da seguinte forma: ansiedade, hostilidade, respeito próprio abalado; anelo pelo poder e coisas semelhantes; aumento da hostilidade e de ansiedade; tendência para esquivar-se à competição (associada a tendências para subestimar-se); fracassos e discrepâncias entre potencialidades e realizações (acompanhados de inveja); incremento das idéias de grandeza (com medo da inveja); sensibilidade exacerbada (com tendência renovada para retrair-se); aumento da hostilidade e da ansiedade, que reinicia, novamente, todo o ciclo” (Horney, 1984, p. 165)[5].
Isto tudo pode ser reforçado pela educação escolar, que pela sua estrutura já tende a um processo de reprodução da mentalidade e sociabilidade dominantes. Porém, quando isto é mais intenso, ou seja, quando a escola reforça em demasia a competição, os valores dominantes, etc., tal como ocorre na educação mais tradicional, autoritária e burocrática, a tendência para formação de indivíduos neuróticos aumenta ainda mais.

A singularidade individual também pode reforçar esta possibilidade. Esta possibilidade se concretiza quando ocorre algum trauma, por exemplo. Também pode ocorrer devido determinadas características físicas (naturais ou acidentais, por elas mesmas ou pela percepção social das mesmas, tal como o preconceito, etc.) ou, ainda, determinados acontecimentos, amizades, etc., atuam no sentido de reforçar as suas bases.

Em síntese, quando a socialização é extremamente repressiva e coercitiva, há a tendência de produzir indivíduos neuróticos. Se esse processo é muito intenso e marcado por valores burgueses e não se cria nenhuma outra possibilidade de superação parcial desse quadro[6], então a formação da neurose no indivíduo é o que ocorre. A neurose é produzida nos indivíduos que, devido a mais-repressão a que são submetidas, acabam possuindo uma sombra, energia destrutiva, bastante poderosa[7]. Porém, isso ocorre quando o indivíduo não consegue desenvolver sua persona, energia construtiva, seja se destacando em atividades intelectuais, artísticas, etc. Obviamente que a mais-repressão tende a inibir tal desenvolvimento nestas pessoas, porém, devido outras determinações é possível que o indivíduo consiga superar esta tendência.

Desta forma, a mais-repressão, aliada a outras determinações, especialmente uma forte coerção, tende a promover a formação de indivíduos neuróticos. Devido aos processos sociais acima aludidos relacionados existem certos setores da sociedade mais propícios para desenvolvimento da neurose. Este é o caso das classes auxiliares da burguesia (burocracia, intelectualidade, etc.) e as mulheres. Segundo Schneider:
“Já que a posição social na família de classe média baseia-se em geral no status profissional (especialmente entre funcionários de qualquer espécie, empregados de alto nível e ‘profissionais liberais’) e não em propriedade geradora de capital, esse status só pode ser mantido através de qualificações similares entre as crianças” (Schneider, 1977, p. 246).
As mulheres já são mais tendenciosamente expostas à neurose devido ao processo de opressão da mulher e sua repressão ser maior, bem como a coerção (que pode ser tanto no sentido da competição social como na reclusão para atividades domésticas e cuidado dos filhos, sendo que este último caso só tende a fortalecer a formação da neurose, se houver uma recusa ou falsa aceitação destas atividades e/ou pouca relação afetiva com os filhos).

No caso das classes exploradas, o que ocorre é que as situações de mais-repressão tendem a gerar, tendencialmente, psicose e não neurose.

“De fato, Langner e Michael conseguiram provar que as perturbações psicóticas e as características da personalidade patológica são significativamente mais freqüentes entre as classes baixas, mas que as perturbações neuróticas, por outro lado, são significativamente mais freqüentes nas classes média e alta (da sociedade americana). O “Estudo de New Haven”, de Holligshead e Redlich, demonstra também que nas classes alta e média as neuroses predominam, enquanto que nas classes proletárias a psicose é claramente dominante” (Schneider, 1977, p. 245).
Obviamente que não é possível concordar com a explicação que Schneider oferece para esse quadro de repartição tendencial de problemas psíquicos pelas classes sociais. Sua tese de que a explicação disto está no fato de que existe uma educação mais rígida das famílias proletárias e educação mais permissiva nas classes privilegiadas é bastante questionável. Afinal, muitas famílias das classes privilegiadas, devido à competição social e ambição, promovem um processo educativo altamente repressivo e rígido, enquanto que muitas famílias proletárias são menos rígidas. Porém, existem outras determinações, tal como a afetividade, a maior ou menor facilidade de atingir as metas educativas ou sociais, o tipo de escola e relação familiar, etc. Na verdade, a neurose é uma tendência mais forte nas classes privilegiadas porque nestas há um maior número de famílias comandadas totalmente pela mentalidade burguesa e pela dinâmica da competição desenfreada, o que provoca várias tendências que apontam para a formação de neuroses nos filhos: laços frios ou distantes devido ao tempo dedicado ao trabalho[8]; exigências e cobranças excessivas, visando preparar os filhos para a competição social. Assim, existe um alto grau de repressão e coerção no caso das classes privilegiadas, que incentiva a formação de pessoas neuróticas.

No caso das famílias das classes exploradas, a realidade cotidiana sofrível, a falta de perspectiva de ganhar a competição social, entre outras determinações, promovem uma recusa e fuga desta realidade. A grande questão é que grande parte da repressão não é produzida via família e sim devido a condições sociais externas (renda baixa, por exemplo). Isso possibilita uma mais-repressão que, no entanto, não convive com uma coerção familiar ou outras tão intensas. A baixa coercitividade tende a não gerar uma insegurança tão intensa e sim uma insatisfação devido ao confronto entre desejos e necessidades e sua não realização, criando um confronto do indivíduo com sua situação social e, por conseguinte, com sua percepção da realidade. Assim, somente em famílias de classes exploradas marcadas por um forte domínio da mentalidade burguesa, que gera praticamente uma forte coerção, é que – junto com outras determinações que remete a casos concretos – pode promover a formação de neuroses.

Porém, é preciso reconhecer que existe uma relação entre classes sociais e problemas psíquicos. Há uma tendência entre as classes privilegiadas de desenvolver neuroses e entre as classes exploradas em desenvolver psicoses, quando ocorre situação de mais-repressão. Nesse aspecto, Schneider está correto. Essa tendência dos indivíduos das classes privilegiadas desenvolverem neurose em situação de mais-repressão, pode ser explicitada pelo fato de que se trata de um problema psíquico que tem como efeito uma adaptação (problemática, mas aceitável) à sociedade tal como ela se organiza. A psicose, por sua vez, já é problema psíquico que revela inadaptação. Na concepção freudiana, o conflito entre id e ego se resolve de forma diferente na neurose e psicose:
“Segundo Freud, na neurose o ‘id’ está em conflito com o ‘ego’, isto é, o superego, que reprime o desejo instintivo em nome da realidade frustrante. (...). Na psicose, ao contrário, o ego encontra-se a serviço do id, o desejo instintivo, isto é, renuncia à realidade frustrante de modo a substituí-la por sua realidade ilusória” (Schneider, 1977, p. 244).
Em termos freudianos, a neurose se pende para o superego e a psicose para o id (Schneider, 1977; Freud, 1976a). Desta forma, fica evidente que a psicose tende a ocorrer de forma mais freqüente nas classes exploradas e a neurose nas classes privilegiadas. A neurose se forma quando há uma mais-repressão e não há criação, em um indivíduo concreto, de satisfação substituta ou persona forte e a psicose ocorre da mesma forma. A diferença é que, no caso da neurose, a repressão é reforçada pela coerção, isto é, além do impedimento de manifestação e desenvolvimento de determinadas necessidades-potencialidades, há um processo de constrangimento para o desenvolvimento de determinados comportamentos, atividades, valores, sentimentos, etc., que o indivíduo não consegue materializar. No caso da psicose, o processo de insatisfação gera uma remodelação da realidade, na qual parte da realidade existente é substituída por uma imaginária[9]. O indivíduo psicótico é aquele que apresenta uma insatisfação profunda com a sua situação e as relações sociais, mas não possui mecanismos de negação, porquanto não compactua com os objetivos e valores postos pela mentalidade burguesa, tornando-se inapto socialmente. A psicose produz como mecanismo de defesa a recusa da realidade e sua remodelação imaginária.

Sendo assim, a mais-repressão gera problemas psíquicos e estes assumem características diferentes dependendo de outras determinações existentes[10]. A situação de classe e outras determinações sociais acabam proporcionando maior tendência ao desenvolvimento de neurose ou psicose.

Agora que já definimos neurose e seu processo de formação, é necessário observar suas relações com a sociedade capitalista e com as lutas sociais. A relação entre capitalismo e neurose é evidente a partir das considerações sobre o processo de gênese deste fenômeno psíquico. A base geral da neurose é a sociedade repressiva-coercitiva que exerce mais-repressão e um alto grau de coerção. Obviamente que casos de neurose existiram em sociedades pré-capitalistas, tal como o caso descrito por Freud de “neurose demoníaca”, no período de transição do feudalismo para o capitalismo (Freud, 1976b), mas devido a processos sociais bem diferentes e em muito menor grau.

Os indivíduos neuróticos, tal como colocamos anteriormente, possuem processos de inibição e dificuldades em relações afetivas, produção intelectual, etc. No que se refere ao posicionamento político dos indivíduos a questão da consciência e seus limites nos indivíduos neuróticos assume papel importante.
“O mundo externo não pode recusar impulsos se não for através do ego. Porém, as percepções externas podem ser recusadas, quem sabe, com o que poderia tomar parte de um conflito neurótico. Ao ocuparmos das neuroses traumáticas fica demonstrado, pelo fenômeno do desmaio e o bloqueio de percepções exteriores, que o mundo externo (as percepções) pode ser recusado. Nas psiconeuroses ocorre um fenômeno similar: há alucinações negativas que representam a rejeição de certa porção do mundo externo. Existe o esquecimento ou a má interpretação de fatos externos devido objetivo de alcançar a satisfação de um desejo; há toda classe de erros em uma “prova pela realidade”, que se produzem sob a pressão de derivados de desejos ou temores inconscientes. Sempre que um estímulo faz surgir sensações dolorosas, se produz uma tendência não só a rejeitar as sensações, mas também o estímulo” (Fenichel, 1966, p. 156).
Assim, a personalidade neurótica tem limitações para reconhecer a realidade tal como ela é, e isso é reforçado se percebermos, como colocamos anteriormente, que este problema psíquico atinge principalmente as classes auxiliares da burguesia, que possuem valores dominantes e sua reprodução da mentalidade burguesa é um dos fortes incentivos para a formação de neurose. A consciência do neurótico tende a reproduzir sua insegurança básica, o que provoca rigidez no pensamento e inibição em produção intelectual. Além disso, tende a provocar um excessivo temor do que é tido como desconhecido ou estrangeiro, tanto no sentido espacial quanto temporal (medo do outro e medo da mudança), e isto promove o desejo de controle rígido e hostilidade para quem escapa do controle. Nesse sentido, a pessoa neurótica tende a aderir ao pensamento conservador[11].

Um dos grandes problemas é o processo de produção capitalista que tende a produzir um grande número de pessoas neuróticas, o que significa que os problemas individuais do neurótico possuem conseqüências sociais e políticas e que se torna mais intenso quando isto atinge muitas pessoas e mais ainda em determinados momentos históricos. A ascensão do nazismo na Alemanha, por exemplo, teve como base inicial pessoas neuróticas. O pensamento nazista assume nítidas características neuróticas. O próprio Hitler tinha uma personalidade neurótica[12], embora em grau bastante elevado e acima da média de um neurótico comum. A própria prática nazista mostra semelhança com as características neuróticas: insegurança (nacional, medo dos “judeus” e “bolchevistas”); hostilidade (internamente e externamente) principalmente com os “inimigos imaginários” produzidos (Viana, 2007), luta por superioridade (a arte nazista, o exército nazista, “superiores”, assim como a ideologia da raça ariana superior, que era complementada pela destruição da arte moderna, “degenerada”, pela eutanásia e eugenia dos judeus, deficientes, etc.), posição autoritária e/ou subserviente, inclusive no plano intelectual.

A base de apoio do nazismo se encontrava, especialmente em seu início, justamente nas classes auxiliares da burguesia (“classes médias” ou “pequena burguesia”, segundo linguagem ideológica dominante). Reich defende a tese de que o movimento fascista expressa uma união da “pequena burguesia” e relaciona isso com a “psicologia de massa”:
“Encontramos a resposta a essa pergunta na posição dos funcionários e dos pequenos e médios empregados. O empregado médio está numa situação econômica mais desvantajosa que o operário médio qualificado; essa situação mais desvantajosa é em parte compensada pela perspectiva mínima de uma carreira, mas sobretudo, para o funcionário, pelo fato do seu futuro estar garantido para o resto da vida. Estando assim nessa situação de dependência em relação às autoridades estabelecidas, forma-se igualmente nessa camada uma atitude psicológica de concorrência em relação aos colegas, que se opõe ao desenvolvimento de solidariedade de classe. A consciência social do funcionário não se caracteriza pela consciência de comunidade de destino com os seus colegas de trabalho, mas pela sua posição em relação à autoridade pública e á ‘nação’. Essa posição consiste numa completa identificação com o poder de estado, no empregado consiste numa identificação com a empresa que serve. É tão explorado quanto o operário. Por que razão não desenvolve como este um sentimento de solidariedade? Devido à sua posição intermediária entre a autoridade e o proletariado. Subalterno em relação ao topo, é frente à base o representante dessa autoridade e, enquanto tal, goza de uma certa proteção moral (não material). Encontramos nos sub-oficiais dos diferentes exércitos a formação perfeita desse tipo psicológico de massa” (Reich, 1974, p. 47).
O que Reich descreve acima é a posição social das classes auxiliares, a sociabilidade capitalista e sua expressão na mentalidade burguesa. Sem dúvida, isso expressa os valores dominantes e sua introjeção em indivíduos pertencentes às classes auxiliares, mas é vivido e experenciado de forma diferente por parte de indivíduos neuróticos que sustentam a mesma posição. Nos indivíduos neuróticos, isso se manifesta de forma mais intensa e fornece a “vanguarda” da prática nazista[13]. Sem dúvida, os médicos e artistas que aderiram à medicina e arte nazistas logo de início, tendiam a ser neuróticos, e por isso o fato de compartilhar com as práticas nazistas sem maior remorso ou resistência, o que muitos indivíduos das classes auxiliares fariam e alguns efetivamente fizeram, mesmo reproduzindo os valores dominantes. O mais importante é que não só Hitler era neurótico, como também grande parte do núcleo original do nazismo era composto por indivíduos neuróticos que ganharam apoio de outros indivíduos neuróticos e de setores não-neuróticos das classes privilegiadas, devido ao temor social de revolução, do bolchevismo russo, da crise, e da falta de outra solução, devido ao fracasso da social-democracia e competição social generalizada.

Em síntese, o capitalismo produz neurose em grande parcela da população e esta assume posições predominantemente conservadoras, reproduzindo a mentalidade dominante. Em momentos de crise, indivíduos não-neuróticos são acometidos por maior insegurança e assumem comportamento semelhante ao dos neuróticos e estes, nesta situação, agravam mais ainda seu conservadorismo, hostilidade e relação simbiótica com a autoridade (autoritarismo e subserviência).

Em casos raros o neurótico pode se alinhar com as forças revolucionárias ou que se dizem “progressistas”. Muitos conseguem, nesse processo, avançar e até mesmo superar os traços mais fortes da neurose, seus sintomas mais explícitos. Porém, esses casos são mais exceção, pois para a superação da neurose através da prática revolucionária (a reformista não permite isso, pois logo se caracteriza como oportunismo e forma de competição social) só ocorre quando o indivíduo consegue superar em grande parte os valores dominantes (o que dificilmente ocorre totalmente, mesmo se tratando de revolucionários autênticos e mais dedicados), abandonar vários sentimentos, pensamentos, típicos da sociedade moderna ou das classes auxiliares. Na maioria dos casos, porém, o que ocorre é a formação do que Fromm chama “caráter rebelde” (que não é necessariamente neurótico, pois muitos são assim devido a outras determinações, como valores, etc., sem ter problemas psíquicos, mas isto sendo mais consciente):
“Defino o rebelde como a pessoa profundamente ressentida contra a autoridade por não ser apreciada, amada, aceita. O rebelde deseja derrubar a autoridade devido ao seu ressentimento e, em conseqüência, constituir-se na autoridade, em substituição à derrubada. Muito freqüentemente, no momento mesmo em que atinge tal objetivo, torna-se amigo da própria autoridade que combatia tão acerbamente, antes” (Fromm, 1986, p. 116).
Assim, a neurose é um grave problema social e político, e mais ainda a existência de um grande número de neuróticos, principalmente na perspectiva da emancipação humana, pois é um obstáculo para ela. Sem dúvida, nestes casos a terapia psicanalítica ameniza e não cumpre um papel totalmente conservador, mesmo porque atinge as classes privilegiadas principalmente. Porém, a terapia psicanalítica não é suficiente para resolver o problema da neurose individual e apesar de amenizar e “apaziguar” indivíduos neuróticos e diminuir sua hostilidade e capacidade destrutiva, não apresenta uma alternativa real ao não questionar os valores dominantes e a mentalidade dominante, não reforçar a contestação da socialização repressiva e coercitiva (familiar, escolar, etc.), não apontar para a realização das verdadeiras necessidades-potencialidades humanas e seus reais obstáculos ao invés de propor mera sublimação e reforço da persona[14].

Nesse sentido, o movimento revolucionário (claro que esse não é o caso da pseudo-esquerda comandada por setores das classes auxiliares da burguesia, especialmente a burocracia, que reproduz tudo o que está na base da formação neurótica) é uma alternativa que pode apontar para uma superação das bases neurotizantes da sociedade capitalista – e também da situação de classe que reforça este processo – apesar das dificuldades neste sentido, que reside nos conflitos interiores das pessoas neuróticas. Mas além dessa ação prática derivada da adesão que alguns indivíduos podem fazer, existem outras ações – que não são específicas para este caso – como o combate aos valores dominantes, a crítica das ideologias, a denúncia e recusa das organizações burocráticas, apresentação de um projeto autogestionário de sociedade, etc., e ações mais específicas, como a produção teórica para esclarecer as bases sociais e capitalistas da neurose moderna, o esclarecimento do sofrimento psíquico individual e sua impossibilidade de resolução total no interior da atual sociedade, entre outras ações, que podem afetar a tendência neurotizante da sociedade moderna, que é parte da luta mais geral pela emancipação humana.

O desenvolvimento da luta operária marca, em seu próprio processo de estabelecimento, bases para uma nova forma de sociabilidade, não fundada na competição e sim na solidariedade, não buscando realização de necessidades socialmente fabricadas e futilidades e sim necessidades autênticas e essenciais, superando o processo de intensa repressão e coerção (em que pese isto não desapareça de imediato, pois resquícios e o combate com a classe dominante e suas classes auxiliares pode exigir certas ações, decididas, no entanto, coletivamente, e não por dirigentes destacados da luta, o que significa que mesmo quando isso ocorre é sob outras relações sociais e sem autoritarismo e determinados tipos de conflitos). No processo de luta, os valores dominantes, os sentimentos predominantes, e tudo o que constitui a mentalidade burguesa é solapada pela hegemonia proletária, que aponta para valores autênticos, novas relações sociais, renovação dos sentimentos, etc.

A autonomização do proletariado e a instituição desta nova sociabilidade e formas de consciência e organização, tendem a romper com as bases neurotizantes da sociedade capitalista. Isto, uma vez ocorrendo, abre espaço para a superação da neurose e psicose, entre outros problemas psíquicos. Este é um passo fundamental para a abolição da neurose.

A superação da neurose em determinados indivíduos é algo bastante difícil, mas não impossível, principalmente nos casos menos graves. A superação da neurose, como fenômeno coletivo emerge com o processo de autonomização do proletariado e com a autogestão das lutas sociais. A superação total da neurose pressupõe a abolição da sociedade que gera a neurose.

Referências

Adler, Alfred. El Sentido de La Vida. 6ª edição, Barcelona, Miracle, 1955.
Fenichel, Otto. Teoría Psicoanalítica de las Neurosis. Buenos Aires, Paidós, 1966.
Freud, Sigmund. Da Perda da Realidade na Neurose e Psicose. In: Obras Escolhidas Completas. Vol. XIX. Rio de Janeiro, Imago, 1976b.
Freud, Sigmund. Neurose e Psicose. In: Obras Escolhidas Completas. Vol. XIX. Rio de Janeiro, Imago, 1976a.
Freud, Sigmund. Uma Neurose Demoníaca do Século XVI. In: Obras Escolhidas Completas. Vol. XIX. Rio de Janeiro, Imago, 1976c.
Fromm, Erich. Anatomia da Destrutividade Humana. Rio de Janeiro, Zahar, 1975.
Fromm, Erich. O Dogma de Cristo. 5ª edição, Rio de Janeiro, Zahar, 1986.
Horney, Karen. A Personalidade Neurótica do Nosso Tempo. 10ª edição, São Paulo, Difel, 1984.
Reich, Wilhelm. Psicologia de Massa do Fascismo. Porto, Publicações Escorpião, 1974.
Schneider, Michael. Neurose e Classes Sociais. Uma Síntese Freudiano-Marxista. Rio de Janeiro, Zahar, 1977.
Viana, Nildo. A Invenção do Inimigo Imaginário. Revista Antítese, v. 2, num. 4, p. 95-111, 2007.
Viana, Nildo. Inconsciente Coletivo e Materialismo Histórico. Goiânia, Edições Germinal, 2003.
Viana, Nildo. Os Valores na Sociedade Moderna. Brasília, Thesaurus, 2007.
Viana, Nildo. Universo Psíquico e Reprodução do Capital. Ensaios Freudo-Marxistas. São Paulo, Escuta, 2008.



[1] Isso, por sua vez, significa que a manifestação de algumas potencialidades são dificultadas para estes indivíduos e mais uma fonte de insegurança, reforçando o processo já instituído de formação da neurose.
[2] A crítica traz sempre um ser que é criticado, seja um ser humano ou algo (uma obra de arte, por exemplo), sempre vinculado ou defendido por alguém, colocando em evidência a possibilidade de conflito.
[3] É por isso que Horney relaciona medo e ansiedade com neurose, tal como outros autores. Tanto o medo quanto a ansiedade são normais em determinadas situações, mas quando se torna exagerada e sem motivo real, então já se torna traço neurótico e que é expressão da insegurança estrutural do indivíduo. Análise semelhante, embora com muitas diferenças em outros aspectos, é fornecida por Alfred Adler, que relaciona neurose e sentimento de inferioridade, que gera suscetibilidade e luta pela superioridade (Adler, 1955).
[4] Alguns julgam que os traumas seriam a determinação da neurose, o que é correto em alguns casos individuais. Porém, determinados indivíduos que vivem situação traumática na infância, dependendo de outras condições sociais e históricas concretas de sua vida, poderão superar e evitar neurose. Porém, aqueles que já possuem um processo de socialização intensamente repressivo, não possuem estrutura para superar esta situação.
[5] Claro que há diferenças em casos individuais diferentes e que as afirmações acima parecem entrar em contradição, seja com passagens anteriores do livro, no qual fala da “competição neurótica”, seja pelo próprio significa do anelo por poder, posses e prestígio, pois ambos entram em contradição com a ideia de “esquivar-se da competição”. Porém, essa fuga da competição ocorre ao mesmo tempo em que se reproduz a luta competitiva, embora nem sempre explícita. O indivíduo neurótico sempre cai em contradições, tal como sua relação com autoridade e pessoas subservientes, no qual se torna subserviente no primeiro caso e autoritário no segundo.
[6] Tal como no caso do indivíduo de família que reproduz a mentalidade burguesa e sociabilidade capitalista, mas mantém relações afetivas fortes, então a insegurança do indivíduo não se torna, necessariamente, estrutural, o que lhe permite evitar a neurose, ou então quando conhece pessoas que apontam para outras perspectivas e mantém relações afetivas, ou consegue manifestar criatividade e desenvolver algumas potencialidades apesar do ambiente hostil.
[7] “A sombra é a energia destrutiva que está na origem dos problemas psíquicos e da agressividade, duas faces da mesma moeda. A formação da sombra, no entanto, ocorre quando existe um alto grau de repressão tanto no sentido quantitativo (quantum de potencialidades reprimidas) quanto qualitativa (intensidade). Porém, numa sociedade repressiva (dividida em classes sociais), todos os indivíduos possuem em seu universo psíquico um certo quantum de sombra, só que em proporções  insignificantes nas pessoas que possuem um baixo grau de recalcamento ou uma persona forte, ou, ainda, consegue se satisfazer parcialmente com as satisfações substitutas produzidas pela sociedade” (Viana, 2002, p. 61).
[8] Isso é expresso com muita freqüência nos filmes norte-americanos que buscam revalorar a família (O Mentiroso; Click, etc.)
[9] “Na neurose, um fragmento da realidade é evitado por uma espécie de fuga, ao passo que na psicose ele é remodelado” (Freud, 1976b, p. 231).
[10] Claro que a sociedade capitalista é repressiva e coercitiva e, por isso, todo indivíduo tem um quantum de sombra e todos possuem dificuldades psíquicas, desde os menores até os mais graves problemas psíquicos. A grande diferença entre psiquismo relativamente equilibrado (sem problemas psíquicos graves) e desequilibrado (ou seja, quando existem problemas psíquicos graves, como neurose, psicose, etc.) é de grau. A suscetibilidade, irritabilidade, entre outros sintomas de neurose, são comuns em pessoas não-neuróticas. Adler afirmou que “muitos desses aspectos [da neurose – NV] são, com efeito, exatos e podem ser tomados em conta para explicar certos fenômenos parciais mais ou menos importantes da neurose. A maior parte deles se observam até em pessoas que não sofrem neurose nenhuma” (Adler, 1955, p. 159). Por isso, alguns elementos semelhantes ao que ocorre em casos de neurose e psicose se encontram em pessoas sem problemas psíquicos. A fantasia, por exemplo, também tem ligação com o processo de insatisfação com a realidade, mas não em termos psicóticos. Também devemos deixar claro que existem outros tipos de problemas psíquicos e que, ao contrário de alguns, não consideramos a esquizofrenia como um tipo de psicose – nem tipo de neurose, como pensa Fenichel (1966) – e sim outro tipo de problema psíquico. Além disso, a psicose e a neurose podem assumir maior ou menor gravidade dependendo de suas origens e situação social do indivíduo neurótico ou psicótico.
[11] É uma tendência e, portanto, não é uma “lei”, pois em certos casos individuais concretos, devido origem de classe, relações pessoais, valores conflituosos, etc., determinados indivíduos neuróticos podem se aproximar do pensamento contestador ou revolucionário, com certas limitações, e sempre mais próximo do que Erich Fromm denominou “caráter rebelde”, muito mais do que o “caráter revolucionário” (Fromm, 1986).
[12] Os estudos de Fromm (1975) e Reich (1974) mostram os problemas psíquicos de Hitler, embora sem maior precisão conceitual quanto ao seu caráter neurótico, mostram algumas características típicas dos neuróticos, porém em grau extremamente exagerado, derivado de seu processo histórico de vida que lhe tornou um “necrófilo”, para usar expressão de Fromm (1975).
[13] Basta ver a composição social dos neonazistas nos Estados Unidos e Alemanha, principalmente, para ver a base fundada nas classes auxiliares da burguesia, principalmente devido às dificuldades de vencer a competição social e pressionando (coercitivamente) os indivíduos reprimidos a lutar para vencer com poucas possibilidades disso ocorrer, aumentando, portanto, as condições sociais para aumento de indivíduos neuróticos.
[14] Sobre conceito de persona, cf. Viana, 2002.
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Publicado originalmente em: 
VIANA, Nildo. Capitalismo e Neurose. Revista Sociologia em Rede, vol. 4, num. 4, 2014.

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