terça-feira, 14 de julho de 2015

AS REPRESENTAÇÕES DA VIOLÊNCIA NO DISCURSO JORNALÍSTICO


AS REPRESENTAÇÕES DA VIOLÊNCIA NO DISCURSO JORNALÍSTICO


Nildo Viana*

 

Resumo: O artigo aborda as representações da violência no discurso jornalístico. O objetivo central é demonstrar que o que predomina no discurso jornalístico é uma posição ideologêmica. Para tanto, se utiliza da análise do discurso em sua vertente crítica para analisar um caso que reproduz a prática constante de grande parte dos discursos jornalísticos sobre o fenômeno da violência. Esse caso exemplar é reforçado por outros casos concretos e a conclusão do artigo é a de que a maioria dos discursos jornalísticos possui uma posição ideologêmica que se manifesta em suas representações sobre a violência.

Palavras-chave: discurso jornalístico, representações, violência, ideologema, análise do discurso.

Abstract: The paper explores the representations of violence in journalistic discourse. The central objective is to demonstrate that the predominant speech is a journalistic position ideologemical. Therefore, using discourse analysis in its critical stance to analyze a case that reproduces the constant practice of most journalistic discourses on the phenomenon of violence. This exemplary case is reinforced by other individual cases and conclusion of the article is that most of the journalistic discourse has a position ideologemical which manifests itself in their representations of violence.

Keywords: journalistic discourse, representations, violence, ideologem, discourse analysis.

A violência é um dos temas mais debatidos na atualidade, tanto nos meios acadêmicos e políticos, quanto nos meios de comunicação e na vida popular em geral. Assim, existe o fenômeno e as representações do fenômeno. Nosso objetivo é justamente analisar uma das representações deste fenômeno, a representação presente no discurso jornalístico. O objetivo é, portanto, analisar o discurso jornalístico focalizando sua discussão sobre violência. Para tanto, vamos discutir o conceito de violência e após isto discutiremos o processo de produção do discurso jornalístico e suas características, para, por fim, abordar as manifestações discursivas sobre violência no jornalismo.

Elementos para uma Análise do Discurso

O ponto de partida de nossa análise remete a uma discussão sobre o conceito de discurso e seu processo de produção. O discurso é sempre proferido por alguém. Ele não é autônomo e nem é neutro. Todo discurso é discurso de alguém e a compreensão das razões do discurso nos leva a buscar compreender quem o proferiu e em que condições sociais ele foi produzido. A partir destas colocações já podemos deixar claro que não partiremos da perspectiva da lingüística estruturalista, tal como fundada por Saussure (1995) e desenvolvida por seus continuadores. Também não nos inspiraremos em outras correntes da lingüística (gramática gerativa, pragmática, etc.), embora possamos, num momento ou noutro, em casos específicos, lançar mão desta ou daquela contribuição de algumas das correntes ou “escolas” da lingüística.

Porém, buscaremos, de forma mais constante, utilizar a contribuição de algumas abordagens da lingüística que estão mais próximas de uma perspectiva sociológica, em especial a teoria da enunciação ¾ tal como representada por Mikhail Bakhtin (1990) ¾ e da análise do discurso. Bakhtin irá trazer para a instância da linguagem a idéia de luta de classes e assim rompe com a idéia de pretensa inocência do discurso, pois ele é perpassado (até em suas unidades mais simples, tal como o signo) pelos conflitos de classes e, portanto, possui caráter social e está intimamente ligado com as relações de poder na sociedade.

A análise do discurso, por sua vez, nos trará diversas contribuições. Esta se caracteriza, entre outras coisas, em romper com a dicotomia rígida entre língua (estrutura invariante da linguagem) e fala (manifestação concreta da linguagem) inaugurada pela lingüística estruturalista de Saussure:
Embora reconhecendo o valor da revolução lingüística estruturalista provocada por Saussure, logo se descobriram os limites dessa dicotomia pelas conseqüências advindas da exclusão da fala do campo dos estudos linguísticos (BRANDÃO, 1997, p. 9).
O discurso é produzido e reproduzido socialmente e seu estudo, portanto, deve incorporar não apenas sua estrutura formal mas principalmente o seu caráter social (VIANA, 2009). Porém, nem sempre os adeptos da análise do discurso conseguiram efetivar este projeto. Coube à chamada “escola francesa da análise do discurso” (PECHEUX, 1997; PECHEUX, 1998; BRANDÃO, 1997) levar esta perspectiva até suas últimas consequências e isto proporcionou, segundo alguns afirmam, a demolição do muro que separava lingüística e sociologia.

A escola francesa de análise de discurso nasce da tentativa de articulação entre lingüística, marxismo e psicanálise e tem como característica articular “o lingüístico com o social” (BRANDÃO, 1997, p. 17), trabalhando de forma interdisciplinar ao tomar em consideração as contradições de diversas ciências humanas (história, sociologia, psicologia, etc.). Porém, a análise do discurso busca se distinguir das demais correntes da lingüística e para fazer isto deve incluir novas dimensões, tal como colocou Maingueneau (apud. BRANDÃO, 1997), a saber:

1. O quadro das instituições em que o discurso é produzido, as quais delimitam fortemente a enunciação; 2. Os embates históricos, sociais, etc. que se cristalizam no discurso; 3. O espaço próprio que cada discurso configura para si mesmo no interior de um interdiscurso.

Portanto, temos aqui uma concepção que remete ao estudo da instituição onde o discurso é produzido, aos conflitos históricos e sociais, além de levar em consideração a configuração do espaço próprio de um discurso no contexto de um meio discursivo. Assim, extrairemos da escola francesa da análise do discurso alguns elementos para nossa análise, complementada com outras concepções (BAKHTIN, 1990; VIANA, 2009), que compõem o nosso referencial teórico a respeito do discurso.

Para os objetivos do presente artigo é fundamental reter a idéia de que o discurso é produzido no interior de uma instituição e é marcado pelo conflito. Neste momento devemos colocar em discussão a relação entre discurso e poder. Nesta discussão retomaremos algumas considerações de Foucault sobre este tema, lembrando que ele exerce uma grande influência sobre a escola francesa de análise do discurso. Segundo Foucault,
Em toda sociedade a produção do discurso é ao mesmo tempo controlada, selecionada, organizada e redistribuída por certo número de procedimentos que têm por função conjurar seus poderes e perigos, dominar seu acontecimento aleatório, esquivar sua pesada e temível materialidade (FOUCAULT, 1996, p. 8-9).
Assim, o poder impede a manifestação livre do discurso. Cria um processo de exclusão através da interdição e também (no caso da oposição entre razão e loucura) da separação e rejeição. Aqui podemos nos reencontrar com Bakhtin (1990) e a teoria da luta de classes em torno do signo. Também nos reencontramos com a tese de Ardiner a respeito dos grupos silenciados. Segundo esta teoria, os grupos dominantes na sociedade silenciam a voz dos grupos dominados e a voz destes – quando aparece, nos raros casos em que isto ocorre – o faz sob a linguagem própria dos dominantes. Este silenciamento dos grupos dominados (ARDINER, apud. MOORE, 1991) ou o predomínio da classe dominante na esfera do discurso (BAKHTIN, 1990) são elementos que podem ser integrados numa análise que utiliza a concepção foucaultiana de discurso em sua relação com o poder.

Porém, não devemos esquecer as diferenças entre Foucault e as demais abordagens acima apresentadas. Foucault apresenta uma concepção metafísica de poder (VIANA, 2000), pois ele está difuso na sociedade e está em todo lugar, sendo mais uma relação do que uma propriedade (FOUCAULT, 1986; FOUCAULT, 1983). Em Bakhtin (1990), por exemplo, existe o poder, mas ele não é autônomo e sim a incorporação da dominação de classe que também se encontra na esfera do discurso. A fonte da diferença, neste caso, está no pós-estruturalismo de Foucault e na influência do marxismo no caso de Bakhtin.

De qualquer forma, a relação que Foucault faz entre discurso e poder – que pode muito bem ser integrada numa concepção conflitual fundamentada na luta de classes, tal como expresso nas obras de Bakhtin (1990) e Viana (2009), bem como em determinada fase da escola francesa de análise do discurso – que lança mão explicitamente da obra de Foucault – é de fundamental importância para se compreender o engendramento de um discurso no interior de uma instituição. Segundo Foucault, toda forma de saber é produto das relações de poder e um “novo poder” gera um “novo saber” (MACHADO, 1981). Assim se pode dizer que o poder sobre os “loucos” gera a psiquiatria, o poder exercido sobre os estudantes a pedagogia, etc.

Esta discussão é importante para percebermos o entrelaçamento entre discurso e poder, instituição, interesses. Assim, o discurso é um produto social que atua sobre as relações sociais. Mas o que é o discurso? Podemos dizer que é uma manifestação específica, concreta, delimitada, da linguagem e por isso se distingue dela. O discurso é uma forma de manifestação da linguagem e esta pode produzir diversos discursos, desde os semelhantes aos antagônicos. O discurso é uma totalidade que possui como partes constituintes a estrutura, que é unissêmica, e a conjuntura, que é polissêmica. Neste sentido, o discurso é sempre algo concreto, é sempre discurso de alguém, de um autor, um grupo social, etc., sendo, por isso, um todo coerente e organizado (cujo grau de coerência e organização depende de quem profere o discurso e em que contexto) e isto se revela em sua estrutura e seu caráter unissêmico (VIANA, 2009).

O discurso é sempre discurso de alguém, ou seja, uma manifestação específica de um determinado indivíduo e sua consciência. A consciência, contudo, não é mais que o indivíduo consciente e, desta forma, é manifestação deste ser social, histórico, que possui um processo histórico de vida específico e por isso possui sua singularidade (VIANA, 2011), que pode, também, manifestar a singularidade de um grupo ou instituição. Nesse sentido, não existe discurso destacado de quem o produz e este é um ser humano, um ser social e histórico. Por conseguinte, o discurso é um produto social (VIANA, 2009). O passo seguinte após a definição de discurso, é analisar seu processo social de constituição.

 Discurso Jornalístico e Propaganda Ideologêmica

Portanto, o discurso é produzido socialmente. Em grande parte dos casos é constituído no interior de uma instituição e por isso possui características próprias em cada instituição. O processo de constituição do discurso remete ao contexto social e cultural. O contexto social remete ao conjunto das relações sociais que, na sociedade moderna, é marcada pela luta de classes. O contexto cultural, por sua vez, remete ao conjunto das produções intelectuais e também traz em si a manifestação do conflito entre as classes sociais. Nesse sentido, o discurso é perpassado por relações de poder na sociedade capitalista (VIANA, 2009). Porém, cada forma de discurso possui suas próprias determinações e por isso a análise de sua constituição e característica se torna fundamental.

Isto significa que existem formas de discurso que correspondem a formas de poder. A forma de discurso que aqui nos interessa é o discurso jornalístico (em sentido estrito, ou seja, limitando-se ao jornalismo escrito, pois este é mais fácil de analisar, embora os mesmos procedimentos possam ser utilizados para analisar outras manifestações). A instituição, nesse caso, é a imprensa escrita. Para compreender o complexo problema das relações entre saber e poder nesta instituição é preciso levar em consideração não apenas as relações internas desta instituição como também as relações externas. Isto nos remete, novamente, a uma análise que vai além de Foucault, que, embora utilizando sua contribuição, insere a questão do conjunto das relações sociais e das relações de poder na sociedade. O caso da censura e da repressão policial durante o regime militar no Brasil[1] coloca em questão o caráter mais amplo das relações de poder que ultrapassam os limites de uma instituição[2].

O discurso jornalístico não está envolvido pelas relações de poder externas apenas em períodos políticos conturbados, pois existe todo um conflito que envolve a imprensa escrita, tais como os anunciantes, o público leitor, etc., que remete às relações de poder em toda a sociedade. O discurso jornalístico é fundamentalmente uma forma de transmitir propaganda. Isto pode parecer estranho à primeira vista, pois, em que pese a propaganda comercial que é realizada pelo jornal, o seu sentido, ou sua razão de ser, é a informação. Isto pode ser esclarecido se retomarmos a análise realizada por Aranguren a respeito da diferença entre informação e propaganda. Segundo Aranguren, a fronteira entre informação e propaganda é bastante tênue:
Como todos sabemos, esses veículos de comunicação de massa não podem, como qualquer outro negócio, ser lucrativo sem publicidade. A informação é fornecida gratuitamente ao público pelo rádio e pela televisão e muito abaixo do custo pela imprensa. Para tanto a comunicação de massa tem de ser mantida viva pela publicidade e é, num grau cada vez mais elevado, controlada pelos anunciantes. (...). Assim, vê-se que as notícias e as comunicações publicitárias estão intimamente vinculadas, numa tal extensão que é impossível, muitas vezes, dizer se uma reportagem jornalística sobre um astro cinematográfico, ou uma nova unidade industrial (‘orgulho desta nação e eloqüente prova do progresso que nos colocou em plano de igualdade com as nações mais avançadas’), ou uma estância turística em grande voga, é apenas material noticioso oferecido desinteressadamente ao leitor ou ouvinte, ou se é publicidade para manter o jornal ou a emissora (ARANGUREN, 1975, p. 139-140).
Aranguren diz que a fronteira entre informação e propaganda é difícil de delimitar devido também a dois outros fatores: a interferência política e a dificuldade lingüística.  A respeito da interferência política ele afirma que:
Todo e qualquer evento é significativo, mas o seu significado é inequívoco; precisa ser interpretado com uma completa objetividade, que muitas vezes se almeja, mas dificilmente se atinge. Cada jornal interpreta os acontecimentos de acordo com o seu ponto de vista ou, nos países onde a imprensa não é livre, de acordo com as diretrizes do governo. A distinção entre órgãos de informação e órgãos de opinião é puramente relativa. Os órgãos de informação não estão menos condicionados por interesses do que os de opinião; simplesmente os interesses são de uma espécie diferente – mais econômicos do que políticos (ARANGUREN, 1975, p. 140).
Sobre a dificuldade de natureza lingüística ele afirma que existe uma extrema dificuldade, para não dizer impossibilidade, de distinguir entre informação e publicidade ou propaganda. Para se observar isso basta fazer uma superposição do significado das três palavras.
A definição de dicionário para ‘publicidade’ é a qualidade ou estado de ser público e o meio de fazer uma coisa pública através da informação ou comunicação. Etimologicamente, ‘propaganda’ é a ação de propagar ¾ quer dizer, difusão ou informação. Contudo, excetuando-se em contextos muito especiais, como ‘dar publicidade a’ (sinônimo de ‘tornar público’) ou o latim ‘propaganda Fidei’ (‘propagação da fé’), as palavras propaganda e ‘publicidade’ são entendidas no sentido de um anúncio na imprensa ou para transmissão por um veículo de telecomunicação, que divulga um produto ou serviço e é pago pelo comerciante ou fabricante, nada tendo a ver com a difusão de notícias ou informações. Mas, por uma inversão compensatória de significados, a propaganda política ¾ que merece o nome tanto quanto a sua congênere comercial ¾ rejeitou esse nome e o que costumava ser o Ministério da Propaganda chama-se hoje Ministério da Informação (ARANGUREN, 1975, p. 141).
Portanto, a imprensa escrita (bem como a imprensa em geral) transmite propaganda, ou seja, realiza a difusão de alguma idéia ou acontecimento. Porém, não é qualquer idéia ou acontecimento que são veiculados pela imprensa. Há um processo de seleção. Este é um processo complexo que se inicia com os jornalistas (às vezes com os redatores, que indicam que tipo de notícias quer para o jornal e que os jornalistas devem ir atrás, às vezes os próprios jornalistas possuem autonomia de buscar as notícias, dependendo do jornal e do contexto, mas uma vez apresentado o tipo de notícia a ser objeto de reportagem, então é o jornalista quem faz a primeira seleção do material no próprio processo de coleta), que realizam uma seleção inicial, e termina com a edição e redação, que realiza uma seleção da seleção, que é uma seleção final. Neste processo de seleção – tal como se depreende do próprio nome – algo se torna material de propaganda e algo é excluído e assim notamos o processo de interdição e de rejeição, tal como apresentado por Foucault.

Esse processo de seleção é realizado através de uma diversidade de critérios e objetivos, no qual se destacam a linha editorial do jornal, o interesse dos anunciantes, a opinião do leitor, as ideologias e mentalidade da equipe do jornal e dos seus diretores e proprietários, etc., mas existe outra determinação mais ampla que é a fornecida pelo conjunto das relações sociais e de poder na sociedade, o que inclui todo o complexo da formação cultural, dos interesses de classe e das disputas ideológicas e políticas em determinada sociedade e em um dado momento histórico.

Porém, é preciso distinguir entre dois tipos de propaganda que são transmitidos pela imprensa escrita: a propaganda ideologêmica[3] e a propaganda comercial. Embora não se possa falar em distinção absoluta entre ambas, pois a propaganda comercial traz em si elementos ideologêmicos (isto é, fragmentos de ideologias) e a propaganda ideológica muitas vezes está relacionada com a comercial e reforça a existência de uma mercantilização das relações sociais. A propaganda comercial foi objeto de vários estudos de especialistas das ciências sociais (BARAN e SWEEZY, 1977; MOLINÉ, 1980; LAGNEAU, 1981; PIETROCOLLA, 1985) e foi relacionada com o capitalismo monopolista e com a “sociedade de consumo”. A propaganda ideologêmica também recebeu diversos estudos[4] (JAHR GARCIA, 1980; BROWN, 1971), juntamente com a propaganda política (DOMENACH, 1963; BROWN, 1971; JAHR GARCIA, 1980), embora não se possa confundir propaganda ideologêmica e propaganda política (no sentido usual do termo), pois a propaganda política é apenas uma modalidade de propaganda ideologêmica.

Como não é possível discutir aqui o complexo e polêmico tema da ideologia, bem como as diversas concepções de ideologia (ALTHUSSER, 1989; CHAUÍ, 1990; HALL et al., 1983; AGOSTI, 1984; EAGLETON, 1997; MANNHEIM, 1986; VIANA, 2013; VIANA, 2010), nos limitaremos a apresentar brevemente a concepção que utilizaremos. A ideologia, tal como Marx colocou, surge com a divisão entre trabalho intelectual e trabalho manual (MARX, 1992). Com esta divisão surgem os ideólogos e a ideologia possui como característica, por conseguinte, a sistematização de uma falsa consciência da realidade. A ideologia é uma inversão da realidade e é produzida pelas classes sociais que possuem em sua consciência “limites intransponíveis” (MARX, 1988) derivados de sua posição diante das relações de produção. A ideologia, devido seu caráter sistemático, se erige como uma verdadeira mentalidade, portadora não somente do sistema de pensamento explícito, mas também de valores, sentimentos, geralmente implícitos. Porém, a ideologia possui um círculo de produtores (que são os responsáveis pela sua produção) e reprodutores (aqueles que compreendem e divulgam tal ideologia) mais ou menos restrito dependendo da sociedade em que se manifesta. Uma grande parte da população possui uma mentalidade desarticulada, tal como colocou GRAMSCI (1987) e a ideologia ao atingir esta população acaba sofrendo o mesmo processo de desarticulação ou de perda de sistematicidade (VIANA, 2008), devido ao processo realizado pelos receptores. Em síntese, a recepção da ideologia geralmente destrói a ideologia enquanto sistema, embora muitas vezes conserve aspectos que são seus componentes, que são mesclados com outros elementos, muitas vezes contraditórios.

A propaganda é um processo de difusão generalizada de ideias, acontecimentos, valores, etc. e esse elemento promove, por sua vez, um obstáculo para sua difusão mantendo sua forma sistemática: os meios oligopolistas de comunicação e suas formas de difusão são incompatíveis com a complexidade do pensamento complexo, tal como o ideológico. As notícias e reportagens devem ser breves e mais acessíveis possível ao grande público. Nesse sentido, não há exatamente uma “propaganda ideológica” nos meios oligopolistas de comunicação e sim propaganda ideologêmica e axiológica, na qual há a difusão de fragmentos de ideologias e dos valores dominantes.

A manifestação da ideologia no discurso jornalístico encontra outros três obstáculos: a) os produtores do discurso jornalístico (jornalistas, copidesque, redatores, etc.) nem sempre conseguem dominar ou compreender a ideologia que querem e/ou acreditam reproduzir e desta forma eles passam uma falsa consciência da realidade mas geralmente de forma assistemática; b) como o discurso jornalístico visa o grande público ele deve simplificar e resumir a mensagem e isto dificulta a transmissão de uma mentalidade sistematizada; c) tal discurso também deve levar em consideração a reação do público e por isso muitas vezes deve buscar aparentar “neutralidade” e “ética” em sua propaganda ideologêmica. Desta forma, o discurso jornalístico é fragmentário e assistemático, carregando em si elementos contraditórios.

Essa propaganda ideologêmica se efetiva por diversos meios. Os meios oligopolistas de comunicação são os mais utilizados, pois atingem uma parcela mais ampla da população. A propaganda ideologêmica, que, tal como já colocamos, vai além da propaganda política-institucional, também ocorre através do discurso jornalístico e reflete as relações de poder na sociedade. Porém, isto não quer dizer que sempre haja intencionalidade em se fazer isto, pois, como se trata de uma mentalidade, isto ocorre naturalmente e acaba se tornando inevitável.

Neste sentido podemos dizer que na imprensa escrita o que existe é uma propaganda ideologêmica, embora em alguns momentos possa tentar repassar um pensamento ideológico, pois um jornal sempre traz algumas partes (cadernos de opinião, debate, etc.) em que é possível apresentar uma concepção sistematizada. Mas isto não ocorre com toda imprensa escrita, pois em revistas é mais fácil veicular tal concepção. Porém, o que se conclui é que a propaganda ideológica é limitada na imprensa escrita (e mais ainda em suas outras formas) e que ela acaba se aproximando mais das representações ilusórias da realidade (MARX e ENGELS, 1990) do que da ideologia, no sentido em que utilizamos esta palavra, como sistema de pensamento ilusório (MARX e ENGELS, 1990; VIANA, 2010), o que significa que está mais para as representações cotidianas (VIANA, 2008), o “senso comum”, do que para um pensamento sistemático, mas geralmente é uma propaganda ideologêmica, mesclando representações cotidianas e ideologia, sendo que esta aparece fragmentada e perdendo sua sistematicidade. Nesse sentido, não se trata de ideologia propriamente dita, mas representações cotidianas com elementos isolados de alguma ideologia. Essas representações cotidianas são ilusórias, ou seja, expressam um imaginário social.

É desta forma que o discurso jornalístico cria imagens dos fenômenos sociais. Não há espaço aqui para discutir as concepções filosóficas e psicológicas da imagem (tanto a imagem visual quanto a imagem artística)[5], mas podemos dizer que entendemos por imagem (social, ou seja, distinta da imagem visual e da artística) uma determinada percepção de um fenômeno social que não ultrapassa o seu aparecer social, sendo portanto, uma representação ilusória da realidade[6]. Essas representações cotidianas ilusórias compõem um imaginário social, uma falsa consciência da realidade. Contudo, se o imaginário é manifestação das representações cotidianas, isso não quer dizer que toda representação cotidiana é ilusória. Desde Marx há a percepção de que existem representações verdadeiras ou falsas da realidade (Marx e Engels, 1990). Contudo, essa posição não é compartilhada por todos, pois alguns entendem que as representações são sempre falsas (LEFEBVRE, 2006) ou verdadeiras, tal como na abordagem das representações sociais (MOSCOVICI, 1977), o que é criticado por outros (VIANA, 2008; PEIXOTO, 2010).

Existe um processo de produção e substituição da imagem (SHOTTER, 1977) e o discurso jornalístico também realiza este processo. Tal discurso realiza a criação de imagens sob os mais variados fenômenos sociais, mas aqui nos interessa tão-somente a imagem sobre a violência contra as crianças. Qual é a imagem que o discurso jornalístico produz sobre a violência? O que é violência?

A questão da violência é muito ampla e possui diversas abordagens (MICHAUD, 1989). Consideramos a violência como um fenômeno social caracterizado pela imposição de algo – pela força física ou por qualquer outra forma de se constranger outro a aceitar algo indesejável ou prejudicial ao desenvolvimento natural do indivíduo ou grupo social – realizada por um indivíduo ou grupo social a outro indivíduo ou grupo social (VIANA, 1999; VIANA, 2002). Por isso se pode falar em diversas formas de exercício da violência: física, simbólica, sexual, etc.

Mas cabe ressaltar a diferença entre violência e imagem ou representação da violência, pois é preciso enfatizar esta diferença para não se cair em equívocos. O discurso jornalístico apresenta uma imagem da violência e, portanto, apresenta uma representação da violência. Podemos dizer que

“não se pode tomar a realidade da violência pelas representações dela produzidas. Sobretudo porque, não é supérfluo relembrar, diferentes conteúdos valorativos e ideológicos são responsáveis por diferentes representações sociais da violência” (PORTO, 1995, p.266).
No caso do discurso jornalístico isto é bastante visível em relação à violência, tal como foi objeto de análise de alguns pesquisadores. Diversos pesquisadores já se debruçaram sobre a questão da imprensa e da violência (VENTURA, 1995; IMBERT, 1995; CARDIA, 1995). Trata-se de uma relação complexa e que tem vários aspectos. O nosso foco aqui é a questão do discurso jornalístico sobre a violência. Nesse caso, vamos partir de uma análise de um caso concreto para depois passarmos para uma análise do editorial de um jornal relacionando com nossa ideia de que o discurso jornalístico geralmente reproduz um imaginário que repassa ideologemas.

Renata Veloso e Miguel Alsina se debruçaram sobre o caso da atriz Daniella Perez tal como apresentado pelo Jornal O Globo e revelaram a existência de uma mentalidade por detrás da imagem do crime cometido, onde se apresenta a vítima como boa por natureza e o assassino como mau por natureza e faz isto construindo uma versão do crime que é muito mais uma construção do que uma informação. Tal construção é verificada em seus diversos mecanismos e após isto os autores concluem que se revela uma visão de mundo por detrás da pretensa informação. Segundo estes autores,

a construção discursiva de O Globo, apesar de falar de um crime, revela-nos muito mais que versões sobre um crime. Revelou-nos uma explicação do mundo onde não havia espaço para uma reflexão crítica sobre os acontecimentos. O fato real – ou seja, o crime – foi tirado do seu contexto (complexo) e justificado mediante os mecanismos demonstrados: construção de uma estrutura maniqueísta e preconceituosa (ALSINA e VELOSO, 1995, p. 214-215).

Aí se trata de um tipo específico de violência, a violência criminal. Esta não se enquadra nas formas de exercício da violência, pois as formas de exercício da violência se referem ao meio que ela se manifesta (através da agressão física, cultural, sexual, etc.). Neste caso, temos que diferenciar também quem realiza a violência e quem é vítima da violência, pois, tal como colocamos anteriormente, a violência é uma relação social. Por conseguinte, existem aqueles que são os agentes da violência e aqueles que são as vítimas da violência e com isso a classificação da violência também se torna mais complexa indo além de suas formas para enquadrar também os grupos e indivíduos que realizam a violência e aqueles que são atingidos por ela. Assim se pode falar de violência criminal quando ela é executado por indivíduos considerados criminosos, violência policial quando é realizada por policiais, violência estatal quando é efetivada pelo Estado, etc. Em síntese, a violência é uma relação social e por isso existem aqueles que estão envolvidos em sua existência.

Desta forma podemos dizer que a violência pode ser classificada através da forma como ela é realizada, através dos agentes que a executam e também através daqueles que são suas vítimas. Mas isto pode ser mesclado. Por exemplo, a violência estatal pode ter diversas vítimas (divergentes políticos, criminosos, etc.) e diversas formas de se manifestar (cultural, física, etc.); as vítimas da violência também podem ser objetos de diversas formas de violência, tal como é o caso da juventude (violência simbólica, física, etc.) que podem ser realizados por diversos agentes (policiais, criminosos, familiares, outros jovens, etc.); as formas de exercício da violência, por sua vez, são utilizadas nos mais variados casos e muitas vezes se apresentam mesclados (as violências cultural e física em muitos casos caminham juntas).

As representações da violência no discurso jornalístico não são homogêneas, assim como existem divisões e brechas no capital comunicacional, bem como divisão entre os jornalistas e outros profissionais da área da comunicação, bem como as formas alternativas de comunicação (rádios universitárias, por exemplo), criam um espaço para manifestação de representações marginais ou com concepções mais críticas e sem origens ideológicas ou axiológicas.
O caso citado acima do jornal O Globo é apenas um exemplo entre milhares. O processo de reportagens por parte de jornais impressos, radiofônicos e televisivos. Há uma seleção de quem são os entrevistados, quais são as perguntas, qual é o foco. Os entrevistados vão ter suas entrevistas reduzidas e editadas. A consulta rápida e aleatória a determinados jornais impressos (ou mesmo televisivos) confirma isso, pois geralmente os sociólogos entrevistados ocupam uma parte mínima do espaço e delegados e outros que confirmam a posição do jornal ganham um espaço muito maior.

Esse processo de edição mostra uma determinada preferência e opinião, sub-repticiamente manifesta por ao abordar duas posições distintas, enfatiza e oferece mais tempo para a posição dos detentores dos meios de comunicação e seus representantes. A preferência pelo discurso do delegado, nos dois exemplos citados, em detrimento do discurso do sociólogo, revela o discurso jornalístico, reprodutor das ideias dominantes. O discurso dos delegados acaba naturalizando a violência, o que é típico em diversas ideologias (VIANA, 2004; VIANA, 2002) e isso legitima a reivindicação de mais repressão, aparato policial, redução da idade penal, pena de morte, etc. É um discurso ideologêmico, fundado em representações que naturalizam a violência e a sociedade existente, reproduzindo os valores dominantes.

Ao analisar um editorial do jornal Folha de São Paulo temos mais elementos para entender o discurso jornalístico, analisando um caso concreto. Esse caso é exemplar, pois sendo o editorial do referido jornal, então revela a posição assumida pelo mesmo diante do tema apresentado. O editorial do Jornal Folha de São Paulo do dia 18 de janeiro de 2013 inicia-se assim:

A onda de violência que se abateu sobre a Grande São Paulo no segundo semestre do ano passado parece ter sofrido um refluxo após a posse do novo secretário da Segurança Pública, Fernando Grella Vieira, que assumiu o cargo no final de novembro. Ainda assim, a insegurança persiste na periferia.
A afirmação aparentemente é mera informação. Contudo, o discurso jornalístico, assim como o científico e todos os que precisam aparentar neutralidade, convive com a presença do explícito e do implícito. O explícito é aquilo que é dito diretamente, o que é transparente, direto, declarado, admitido. O implícito é aquilo que fica oculto, subliminar, sub-reptício, indireto, subentendido, o que fica nas “entrelinhas”. Este é próximo ao “não dito”, para usar expressão de Foucault (1996). O trecho acima citado tem informações explícitas: houve uma onda de violência no segundo semestre na cidade de São Paulo de 2012; Fernando Grella Vieira assumiu a Secretaria de Segurança Pública de São Paulo no final de novembro de 2012; persiste a insegurança na periferia da capital paulista. Contudo, ao lado das meras informações, há o implícito, que começa com uma relação estabelecida: a onda de violência “parece ter sofrido um refluxo após a posse do novo secretário”. A palavra “parece” é, obviamente, inconclusiva, mas passa uma determinada mensagem que relaciona diminuição da violência com posse de novo secretário. O editorial continua:

Na sexta-feira à noite, 14 homens encapuzados mataram sete pessoas em um bar na zona sul da cidade. A chacina se deu na mesma rua em que, dois meses atrás, cinco policiais militares assassinaram um suspeito desarmado --cena deplorável exibida na televisão.
A ocorrência desse tipo de episódio mostra que o sangrento 2012 ainda não cicatrizou totalmente, sem que a população tenha sido informada sobre as verdadeiras razões da escalada de violência.
O número de chacinas na região metropolitana de São Paulo vinha caindo de forma constante desde 2007. Subitamente, as matanças saltaram de 12, em 2011, para 24 no ano passado, e o número de mortos nesses casos foi de 41 a 80.
De todos esses homicídios múltiplos cometidos em 2012, até agora apenas um foi solucionado pelo Estado --e seis policiais militares terminaram presos acusados de participar do crime.
A falta de esclarecimento infunde medo na população, que se sente à mercê da violência. Pior, alimenta a hipótese, sinistra, de que policiais estejam envolvidos em outros episódios. Sintoma desse quadro, pesquisa Datafolha do final de novembro mostrou que 53% dos paulistanos sentiam mais medo do que confiança na Polícia Militar.

Novas informações são apresentadas. O editorial informa sobre mortes na zonal sul de São Paulo: no mesmo local onde no ano passado policiais militares assassinaram um suspeito desarmado. Isto seria uma “cena deplorável”. Esta afirmação revela um valor atribuído ao acontecimento. A informação é fornecida para justificar a afirmativa de que “a escalada de violência do ano anterior ainda não havia cicatrizado totalmente”, ou seja, o alto índice de violência não havia sido totalmente superado. As verdadeiras razões desta escalada de violência não foi informada à população. Ora, se não informada a verdadeira razão, então outra, provavelmente falsa, era conhecida. Isso fica implícito. Outra informação: de todos os crimes do ano anterior, apenas um foi solucionado e envolvia policiais militares. O editorial continua afirmando que o não esclarecimento da população sobre as verdadeiras razões de tal violência provoca medo na população, inclusive da polícia militar, pois alimenta a hipótese, “sinistra”, do envolvimento policial. Isso é complementado com a informação de uma pesquisa que demonstra que a maioria da população (53%) sente mais medo do que confiança na polícia militar, que seria “sintoma desse quadro”. A expressão sinistra, que significa, tal como se observa nos dicionários, “apavorante”, “alarmante”, “aterrorizante”, mas também “perversa”, “maldita” pode ser interpretada como sendo uma hipótese lamentável (devido ao não esclarecimento das causas da escalada de violência), o que seria um eufemismo e consideração do editorial amenizando o que viria depois ou poderia ser colocada no sentido de ser assustador, o que colocaria a posição do jornal contra o envolvimento da polícia militar em crimes ou, ainda, uma ambiguidade premeditada para não deixar explícito o seu posicionamento. No entanto, o conjunto das afirmações e até a seleção das informações (diversos outros atos de violência sem envolvimento da polícia poderiam ter sido selecionados e citados) apontam para uma posição crítica em relação à polícia militar.

As afirmações seguintes trazem novos elementos analíticos:
Para o sociólogo Ignacio Cano, coordenador do Laboratório de Análise da Violência da Universidade do Estado do Rio de Janeiro: a troca de comando na Secretaria da Segurança Pública já melhorou a situação. A diminuição no número de homicídios dolosos na capital corrobora a impressão.
Apesar disso, as suspeitas não se dissiparam. Moradores da região de São Paulo onde ocorreu a primeira chacina de 2013 atribuíram as mortes a agentes da PM, o que não foi comprovado.
O secretário Fernando Grella Vieira parece empenhado em reparar os estragos e restaurar a confiança no trabalho da polícia. É imprescindível que o faça, e esclarecer esses morticínios é um dos primeiros passos nessa direção.

O passo seguinte foi seguir a lógica das reportagens e lançar mão de um especialista, logo, uma “autoridade no assunto”, o sociólogo Ignacio Cano, que afirma que a situação melhorou com a troca no comando da Secretaria da Segurança Pública. A diminuição dos homicídios, a afirmação seguinte, “confirma” a “impressão”. Isso não promoveu o fim das “suspeitas” a respeito da participação de policiais militares na chacina de 2013. O último parágrafo termina com a afirmação de que o novo secretário “parece” estar empenhado em “reparar os estragos” e “restaurar a confiança no trabalho da polícia”. O editorial novamente se posiciona ao afirmar que tal esclarecimento a respeito desses “morticínios” é “imprescindível” e “um dos primeiros passos nessa direção”.

O discurso presente no editorial aponta para algumas afirmações e posicionamentos. As afirmações (fatos, avaliações, etc.) são principalmente a de que há uma escalada de violência em São Paulo, que há um possível envolvimento da polícia militar, que a população não foi esclarecida e isso reforça essa hipótese de envolvimento, bem como que o novo secretário parece estar interessado em resolver o problema, pois já teve uma diminuição. A posição do jornal está mais ou menos explícita: há um medo da população provocado pelo não esclarecimento das razões da escalada de violência na cidade de São Paulo e uma relação com a polícia militar. Implicitamente o jornal confirma tal relação entre escalada de violência e ação policial. E se posiciona no sentido de que o novo secretário esclareça a situação, como primeiro passo, para organizar a polícia militar e impedir a continuação da “escalada da violência”.

Em outras palavras, a posição do jornal parece ser progressista e contra a violência policial. Contudo, uma análise mais pormenorizada pode explicitar o implícito e mostrar que, se a posição do jornal não é abertamente reacionária e não é favorável à polícia militar, mas também não é progressista e crítica. Os elementos implícitos ajudam a entender o caráter ideologêmico do posicionamento do editorial do jornal. Em primeiro lugar, o editorial evita acusar a polícia militar da responsabilidade de diversos atos de violência, o que pode ser interpretado como “cautela”. No entanto, além da cautela há outros elementos. O primeiro elemento é a força atribuída ao novo secretário de esclarecer e agir sobre esse processo. A ideia de que cabe a um indivíduo fazer isso poderia ser um fragmento de uma ideologia individualista, mas repassa a ideia de que o Estado, através do governo (e, por conseguinte, da Secretaria de Segurança Pública) representa a sociedade como um todo e é neutra, acima da sociedade de classes. O caso da polícia militar é apenas, nesse caso, um elemento “disfuncional”, que, pode ser resolvido com um ato do governo. Essa concepção repassada é voluntarista e estatista, pois o Estado é que deve resolver os problemas sociais, mesmo quando é ele que cria o problema.

O discurso jornalístico tem um impacto sobre as representações cotidianas e é um elemento que possibilita a monotonia repetitiva da argumentação, algo que já foi identificado em outros casos (ALVIM, 1994). Tal “monotonia repetitiva da argumentação”, no caso, era a ideia de que é melhor a criança trabalhar do que ficar na rua (ALVIM, 1994). Como esse processo ocorre em diversos outros casos e é muito presente nos discursos desenvolvidos por pessoas não especializadas, ou seja, no campo das representações cotidianas, então é interessante discutir seu significado e processo de constituição. Esse fenômeno pode ser melhor denominado como o uso de chavões para sustentar uma posição. Para sustentar a posição de que deve haver trabalho infantil, apela-se para o chavão segundo o qual “é melhor trabalhar do que ficar na rua”. As representações cotidianas têm como uma de suas características a simplicidade (Viana, 2008) e por isso é necessário entender que os chavões são recursos constantes e acabam recebendo difusão e generalização na população. A constituição dos chavões era realizada pela tradição oral, mas, com a emergência dos meios oligopolistas de comunicação (jornal impresso, rádio, TV), estes acabam sendo outras fontes da produção, reprodução e/ou difusão de chavões. Um destes chavões foi criado recentemente no Brasil, principalmente por policiais, referente à discussão sobre redução da maioridade penal, segundo o qual “a partir dos 14 anos o indivíduo já sabe o que faz”, embora alguns podem “mudar a idade”, seja para mais ou para menos. Quando os meios oligopolistas de comunicação apresentam tais chavões através de entrevistas ou outras formas e, geralmente concordando[7], há uma generalização do chavão junto à maioria da população. Posteriormente, ao entrevistar a população sobre determinado acontecimento e essa lança mão desse chavão, ela apenas reproduz o que o discurso jornalístico produziu. E isso acaba gerando um círculo vicioso caracterizado pela propagação expandida do chavão. Um exemplo disso são as entrevistas de determinados telejornais, mostrando o apelo ao chavão pela maioria dos entrevistados para sustentar sua posição, ou, em alguns casos, todos os entrevistados (apesar de ser isso questionável, não somente por questão de poder se duvidar da honestidade do telejornal, mas também pelo local, tamanho da amostra ou outras características das pessoas entrevistadas e não ter mostrado outra posição)[8].

Obviamente que o discurso jornalístico e o chavão de que o menor de 18 anos já é consciente e responsável, traz, implicitamente, outra determinada representação da violência, que é a de que ela se constitui como responsabilidade individual – o que está de acordo com as concepções neoliberais e pós-estruturalistas que hoje são hegemônicas – e que de que o remédio para esse mal é a punição, o que também está de acordo com a ideologia neoliberal, fundada na prática repressiva do “Estado penal”, para utilizar expressão de Löic Wacquant (2001).

O impacto do discurso jornalístico na população é forte, mas ele atua em grande parte no nível da opinião e não no nível da convicção, dois elementos constituintes das representações cotidianas (VIANA, 2008). É por isso que é importante utilizar as brechas dos meios oligopolistas de comunicação para superar os chavões e a reprodução das representações conservadoras, ideologêmicas, axiológicas, bem como ampliar as formas e meios de divulgar uma reflexão mais crítica e profunda do que as veiculadas em tais meios.

Considerações finais

A conclusão geral que chegamos é a de que as representações da violência no discurso jornalístico repassam uma determinada mensagem marcada pela manifestação de uma concepção ideologêmica, ou seja, um fragmento de ideologia, geralmente aquelas que naturalizam o fenômeno social da violência. A análise do discurso jornalístico em alguns casos comprova isso. Contudo, a abordagem aqui apresentada não tem caráter generalizador, pois é mais que conhecido o fato de que existem exceções, ou seja, essa conclusão não se aplica a todo e qualquer discurso jornalístico. A realização de novas pesquisas sobre o discurso jornalístico e o que fica implícito nele é uma das mais instigantes e promissoras da sociologia contemporânea.

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* Professor da Faculdade de Ciências Sociais da Universidade Federal de Goiás; Doutor em Sociologia pela Universidade de Brasília; autor dos livros “O Capitalismo na Era da Acumulação Integral” (São Paulo: ideias e Letras, 2009); “Cinema e Mensagem” (Porto Alegre: Asterisco, 2009); “Quadrinhos e Crítica Social” (Rio de Janeiro: Azougue, 2013); “Cérebro e Ideologia” (Jundiaí: Paco, 2010), entre outros.
[1] Sobre isto consulte-se Faria (1979); sobre a história da imprensa escrita, veja-se Terrou (1964).
[2] Daí a idéia de totalidade, criticada e ausente na obra de Foucault. Sobre totalidade, pode-se ler Lukács (1989); Korsch (2008), Viana (2007) e Marx (1983).
[3] O ideologema é um fragmento de uma ideologia (VIANA, 2013), entendendo-se por esse um sistema de pensamento ilusório e cuja sistematicidade não pode ser reproduzida pelo discurso jornalístico.
[4] Os autores citados, no entanto, usam a expressão “propaganda ideológica”.
[5] Um histórico da concepção de imagem na filosofia e psicologia pode ser visto em Sartre (1987) e Paim (1972).
[6] A aparência e a essência não coincidem imediatamente na consciência humana, tal como colocou Marx, pois se isto ocorresse a ciência seria supérflua (Marx, 1988).
[7] Como foi colocado anteriormente, não existe neutralidade e os discursos jornalísticos expressam valores, representações, sentimentos, embora geralmente moderados, camuflados ou implícitos.

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Publicado originalmente em:
VIANA, Nildo. As Representações da Violência no Discurso Jornalístico. Comunicação e Política. Vol. 31, num. 02, Mai./Ago. 2013b.

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