quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

A ESFERA CIENTÍFICA NO CINEMA

A ESFERA CIENTÍFICA NO CINEMA
Nildo Viana
Resumo:
A ciência e a produção científica são objetos de representações por elas mesmas e, de forma mais aprofundada, pela sociologia da ciência, filosofia da ciência e história da ciência. O cinema através de suas produções fílmicas também apresentam aspectos da ciência e de sua produção intelectual. O presente artigo objetiva analisar três filmes (A Fúria pela Honra; Óleo de Lorenzo; O Informante) e observar quais representações eles produzem a respeito da ciência, da esfera científica e da produção que esta realiza. A conclusão é que estes filmes revelam a dinâmica dominante na esfera científica, comandada pelo capital, burocracia e Estado, elementos complementares, além da dinâmica interna da mesma.
Palavras-chave: Esfera Científica, Cinema, Competição, Burocracia, Capital.

Resumé:
Des sciences et de la production scientifique sont des représentations d'objets par eux-mêmes et, plus en profondeur, la sociologie de la science, la philosophie de la science et de l'histoire de la science. Le film à travers ses productions filmiques comportent aussi des aspects de la science et de la production intellectuelle. Cet article vise à analyser trois films (Le Fury par honneur, Huile de Lorenzo, L'informateur.) et observer ce qu'ils produisent des représentations sur la science, la sphère scientifique de la production et que cette porte. La conclusion est que ces films révèlent la dynamique dominante dans le domaine scientifique de ses liens avec la capitale, et la bureaucratie d'Etat, étant complémentaires, puisque chaque concentre sur un aspect de ces relations.
Mots-clés: Sphère Scientifique, Cinéma, Competition, Bureaucratie, Capitale.

A ciência e a produção científica possuem diversas características analisadas pelas ciências humanas, especialmente a sociologia da ciência, e a historiografia, bem como também pela filosofia da ciência, entre outras disciplinas. As obras cinematográficas manifestam, muitas vezes, aspectos da ciência e produção científica. Os filmes de ficção científica são bons exemplos, apesar de geralmente ficarem na superficialidade, pelo menos na maioria dos casos. Alguns filmes de terror também mostram[1] questões sobre a ciência, inclusive os seus resultados mais negativos. Há também outras produções além dos filmes de ficção científica e terror que abordam questões relacionadas à ciência. Este é o caso de vários filmes, mas destacamos três para poder extrair uma análise crítica da esfera científica: A Fúria pela Honra, Shi-Zheng Chen (EUA, 2007); O Óleo de Lorenzo, George Miller (EUA, 1993) e O Informante, Michael Mann (EUA, 1999).

Antes de iniciar nossa análise, no entanto, observamos a necessidade de explicar o que significa o conceito de esfera científica. A esfera científica é uma das esferas sociais constituídas na sociedade capitalista, fruto da ampliação da divisão social do trabalho intelectual, e que possui um conjunto de indivíduos que são os seus agentes diretos, os cientistas, instituições, concepções e valores próprios, que possui um modus operandi próprio, entre outros aspectos[2]. Enfim, a esfera científica é um setor da divisão social do trabalho responsável pela produção da ciência e que é composta, principalmente, pelos cientistas.

Esfera científica, competição e academia em A Fúria pela Honra.

O filme A Fúria pela Honra é importante para compreender um aspecto fundamental da esfera científica: a produção científica e suas determinações. Uma das determinações da produção científica é o espaço onde ela se realiza: universidades, institutos de pesquisa, etc. Aqui temos a relação entre esfera científica e instituições. No caso do filme, a produção científica ocorre no interior de uma universidade. O personagem Liu Xing se transfere da China para os Estados Unidos para trabalhar sob a supervisão do renomado cientista Jacob Reiser. A relação entre ambos é de subserviência. O cientista explora o orientando com diversos trabalhos e devido sua competência vai ganhando espaço, ao lado dos demais orientandos, mas com certo destaque.

Assim, Liu Xing tem uma rápida ascensão. Ele tem uma grande ambição, o que está relacionado com as expectativas dos pais e sua vontade de ajudá-los, além dos seus próprios valores e desejo de reconhecimento na esfera científica, o que se percebe pela ideia de ganhar o prêmio Nobel devido a uma grande descoberta que pretende fazer. Um dos pontos fortes do filme é quando o cientista afirma ao estudante que um artigo famoso que ele publicou foi uma crítica ao seu orientador. O estudante retruca dizendo que na China isso não acontece, pois lá é preciso respeitar o orientador, não podendo criticá-lo. O cientista retruca dizendo que nos Estados Unidos ele pode criticar o orientador, inclusive Liu Xing poderia criticá-lo, embora, acrescenta, “ele sempre estaria certo”. Pouco depois, Jacob Reiser, em uma apresentação pública, é questionado pelo seu antecessor e ex-orientador. Reiser fica sem resposta e é salvo pelo orientando, Liu Xing, que meio atrapalhado e com muitos papéis, acaba lhe fornecendo a resposta.  

A partir daí Liu Xing amplia seus estudos e realiza uma descoberta, o que era sua grande ambição e passo necessário para o tão sonhado prêmio Nobel. O problema é que sua tese, embora seja de certa forma uma continuidade da do seu orientador, ia além e realizava uma crítica parcial da mesma. Isso lhe traz inúmeros problemas com as bancas que passa e a publicação de um artigo, sem a “autorização” do seu orientador[3] e possuindo caráter crítico (da mesma forma que ele fez no passado), acaba lhe rendendo uma reprovação através de subterfúgios por parte dos membros da banca, e isso acaba destruindo não somente seus grandes sonhos, mas também lhe fechando as portas e ele acaba como vendedor de cosméticos, uma ironia, já que era especialista em cosmologia, o que uma garota, uma garçonete que ele tinha ilusões de relação amorosa, havia confundido com cosmética no início do filme.

O que o filme mostra, no fundo, são algumas das características fundamentais da produção científica. Nem sempre as melhores ideias são aceitas e muito menos são reconhecidas publicamente. A produção científica é perpassada por relações de poder, aqueles que já possuem fama, posições nas universidades, etc., acabam determinando um processo de reprodução de suas ideias e/ou das concepções estabelecidas. Toda história mostra, também, a competição constante no interior da universidade e dos meios científicos. Nesta competição, há a oposição entre os velhos e os novos, os consagrados/estabelecidos[4] e os iniciantes, professores e estudantes. O conflito entre consagrados e/ou estabelecidos e iniciantes pode ocorrer pelo fato de existir, no último caso, muita pressa em reconhecimento – com ou sem mérito real, entrando em jogo questões psíquicas e outras – ou em destaque real por desenvolvimento de grande potencialidade, sendo que as duas coisas podem ocorrer simultaneamente no mesmo indivíduo, aumentando o potencial de conflito. Este é o caso de Liu Xing. Claro que nem sempre existe tal oposição, pois foi o caso do aluno excepcional que permitiu a superação da subserviência. A disputa entre os antigos professores, que viveram a situação de orientador e orientando, é uma competição de gerações que revelam disputas políticas e por reconhecimento. A nova luta é uma reprodução da antiga, com a diferença de que o cientista Jacob Reiser soube esperar o seu momento, ou seja, após muito tempo e depois de garantir seu espaço institucional é que combateu o seu antigo orientador. Este, no entanto, continua existindo e lhe combatendo. É por isso que Reiser diz que Liu Xing “não é um jogador”, ou seja, não sabe “jogar” e desconhece as regras do jogo, o modus operandi da esfera científica.

Isso revela os valores e interesses dentro da esfera artística. Obviamente que os cientistas, enquanto indivíduos que vivem numa sociedade capitalista, precisam de dinheiro para sobreviver e geralmente estão de acordo com os valores dominantes, que Liu Xing reproduz (veja afirmação de que queria ganhar o premio Nobel e se casar com uma loira americana). Contudo, a luta pelo reconhecimento é um dos elementos mais constantes da esfera científica e isso se faz através de várias formas, e no fundo se dá em torno do que cada um produz. A disputa entre Reiser e Liu Xing expressa justamente a tentativa de um garantir a manutenção do seu reconhecimento com sua descoberta que não poderia ser criticada e o outro tentando produzir algo inovador e original, o que acaba conseguindo, e que é rechaçado por ter entrando em contradição com a descoberta do orientador e, por conseguinte, por causa das relações de poder favorável ao primeiro.

O fracasso de Liu Xing mostra, também, que o compromisso com a verdade não é um valor fundamental na esfera científica, bem como que as ideias hegemônicas nesta esfera não são as melhores e mais fundamentadas. São o resultado de relações de poder num processo competitivo que não ganha o mais apto intelectualmente e sim o mais bem posicionado na esfera científica, com raras exceções. Os alunos de maior sucesso, mais “apto” (no fundo, mais adaptado), em grande parte das vezes, é o subserviente, tal como se percebe no caso do colega de Liu Xing que acabou ganhando a vaga que seria dele caso não houvesse o conflito, ou seja, se ele soubesse ou seguisse “as regras do jogo”, se fosse um jogador, humilde, subserviente.

Assim, a hierarquia acaba sendo uma determinação do processo de quais ideias científicas obterão êxito e reconhecimento e há uma luta constante entre os mais antigos, os consagrados e os estabelecidos, e entre estes e os estudantes, bem como acordos e alianças, tal como se percebe na banca instituída para avaliar o trabalho de Liu Xing. No caso de Liu Xing há uma luta por reconhecimento e ascensão social, o que o envolve numa competição com seu orientador, e com seus colegas, sendo que os demais são cooptados e conseguem se adaptar ao jogo apesar de menos competência.

O diferencial de Liu Xing é sua competência maior, o que lhe colocava em confronto com o orientador e sua persistência em dizer a verdade, não tanto pelo compromisso com a verdade, mas pelo seu interesse de reconhecimento e ascensão social. Em síntese, o filme mostra a competição na academia e na produção científica, demonstrando com a universidade como instituição e seus processos burocráticos e hierárquicos acabam sendo um obstáculo para o desenvolvimento do saber.

Esfera Científica, burocracia e interesses em Óleo de Lorenzo

O filme Óleo do Lorenzo oferece um quadro complementar ao primeiro filme analisado. Neste filme temos o caso de um casal preocupado com uma doença rara que acomete o filho e pai e mãe buscam de todas as formas encontrar uma cura para ela. Eles consultam médicos, organizam um simpósio científico, etc. até que passam, eles mesmos, a estudar medicina e buscar a cura por conta própria.

Nesse processo, baseado em uma história real, alguns elementos são mostrados a respeito da esfera científica. Um deles é o processo burocrático de formação. Apenas os diplomados (os estabelecidos) é que podem exercer medicina e isso é parte de sua formação. É necessário o diploma. Essa oposição é colocada em várias oportunidades no filme, no qual a percepção acrítica da especialização é acompanhada pela desqualificação do saber não especializado e institucionalizado. O saber real é menos importante do que o saber formal representado pelos diplomas, aliás, o que já estava teorizado por Weber (1971) ao destacar sua importância crescente na sociedade moderna e que é expressão do que Marx (1978) chamou “batismo burocrático do saber”, parte do processo de autolegitimação da esfera científica. Isso também reflete a oposição entre intelectuais profissionais, hegemônicos, e intelectuais amadores. Os consagrados e estabelecidos buscam constantemente desqualificar o saber dos amadores e aspirantes, reproduzindo a competição social e ao mesmo tempo realizando sua autolegitimação. Assim, tanto aqueles que são da esfera científica quanto aqueles que são externos e atuam sobre ela, são envolvidos nessa competição e os externos ou aspirantes internos são colocados como “inferiores”, mesmo que possuam uma real competência e contribuição intelectual.

Aqueles que possuem a hegemonia na esfera científica possuem, nessa competição, as instituições ao seu lado, pois seu saber é institucionalizado. Ele é sancionado pela instituição estatal (regularização jurídica) e pelas instituições específicas ligadas à esfera científica (universidade, institutos de pesquisa, associações profissionais). O saber institucionalizado possui não só hegemonia, mas os seus “detentores” possuem o poder de censurar, reprimir, desqualificar, o saber não institucionalizado, tal como ocorre com o casal. E para tanto existem diversos argumentos, que podem ser observados no filme, desde o argumento de autoridade, passando pela necessidade de institucionalização, necessidade de reconhecimento pela esfera científica, etc.

Outro elemento importante da esfera científica apresentada no filme é sua relação com o capital e Estado, o que está intimamente ligado ao ponto anterior. Essa ligação perpassa o processo de formação, principalmente, mas não unicamente, no caso do Estado. Contudo, a interferência estatal na esfera científica não ocorre apenas através da formação, mas também através do financiamento, da regularização jurídica, da regulamentação da profissão, etc. É nesse contexto que novamente emerge a competição e a burocracia na esfera científica. Esse processo não só deixa vagaroso qualquer avanço, como tornam os cientistas extremamente moderados, o que é mais forte em algumas áreas da produção científica. Além disso, devido aos interesses próprios dos cientistas, constituídos na esfera, não se pode ser “ousado” demais e não se deve adotar novas linhas de pensamento ou assumir descobertas e propostas inovadoras. É uma forte tendência da esfera científica, mesmo para os estabelecidos, e até para alguns consagrados, o medo da ousadia, da inovação, da transformação.

Um elemento fundamental do filme é mostrar a força dos interesses e a sua relação com a verdade. Os profissionais da esfera científica possuem interesses próprios e estes limitam suas ações e processos de descoberta, inovação, assimilação de saberes externos, etc. Os interesses próprios constituídos na esfera científica entram em contradição com o compromisso com a verdade.

A ciência submetida ao capital em O Informante

O filme O Informante se passa noutro contexto de produção científica. O filme mostra, baseado em fatos reais, a situação de Jeffrey Wigand, um cientista, doutor em bioquímica, empregado no capital tabaqueiro (ou “indústria do tabaco”), que é despedido e ameaçado por ter informações sigilosas da empresa e, ao mesmo tempo, é procurado por um jornalista, Lowell Bergman, para expor a história na rede de televisão norte-americana CBS. Ao conceder a entrevista, ele sofre as consequências, perda de benefícios advindos da rescisão contratual, ameaça de morte, perseguição, divórcio, e acaba terminando modestamente como professor de química.

O que o filme mostra é a submissão do cientista na situação de trabalhador para empresas privadas. O capital tabaqueiro contrata cientistas, financia pesquisas, e usa isso para seus interesses. O seu interesse é, obviamente, o lucro. Os cientistas, nesse caso, são pagos para produzir aquilo que remete aos seus interesses. No caso do filme, o interesse é afirmar que não sabe que a nicotina possui característica de viciar e outros segredos da produção desta empresa capitalista. Contudo, Wigand revela não apenas que a empresa sabia das características viciantes da nicotina como, ainda, adicionavam aditivos químicos para reforçar tal característica. Obviamente, isso faz parte da necessidade do capital de promover, junto com a produção cada vez maior de suas mercadorias, uma reprodução ampliada do mercado consumidor (VIANA, 2009).

Os cientistas empregados em empresas capitalistas como estas estão totalmente submetidos ao capital. A sua produção científica e suas pesquisas são voltadas para os interesses do capital, mesmo que isso signifique prejudicar, o que geralmente ocorre, a população. É uma situação pior do que a dos cientistas empregados em universidades e outras instituições, pois sua margem de liberdade é muito menor. Isso revela um elemento interessante da esfera científica: ela está submetida ao capital. Isso não só se manifesta no caso das instituições de ensino e pesquisa financiadas e controladas pelo capital, mas também por empresas capitalistas que diretamente usam e financiam pesquisas. Desta forma, a esfera científica possui graus distintos de determinação de sua produção e pesquisa pelo capital, e para aqueles empregados em grandes empresas capitalistas, sua autonomia e liberdade são mínimas. Ou é livre para servir ao capital.

Obviamente que existe a possibilidade de romper com tais empresas. O que o filme mostra, nesse caso, é que devido ao sigilo necessário, a ruptura seria traumática e poderia colocar em risco a própria vida do cientista. As ameaças, a vigilância, se dão simplesmente por sua saída da empresa. Quando resolve expor o que sabia para a imprensa, a pressão aumenta e a vida de Wigand se torna um verdadeiro inferno. Até mesmo o grande capital comunicacional, no caso a CBS, é ameaçado e colocado em questão, o que gera problemas para o jornalista Bergman e toda equipe, sendo este o único que decide comprar a briga. Isso demonstra o poder do capital e como os cientistas (e não só eles, mas também os jornalistas) estão submetidos e podem pagar muito caro por não seguir suas diretrizes.

O processo de pressão começa com os contratos e a burocracia, avança para ameaças e uso do poder financeiro, chega, no momento da denúncia e processo, a vasculhar a vida privada de Wigand, na qual pequenos deslizes e detalhes são utilizados contra ele e ganhando grandes proporções, e as ações do capital tabaqueiro são minimizadas. A ameaça de morte e perseguição à família é apenas um capítulo desse processo de ataque do capital ao cientista. Por conseguinte, há uma grande pressão sobre os cientistas, que ficam acorrentados ao capital. Se o cientista tenta se desvencilhar, sabe que perderá seus privilégios e sua vida tende a ser destruída. Nesse sentido, a esfera científica não possui autonomia absoluta, mas tão-somente relativa, mas isso é variável de acordo com a situação específica e certos setores da esfera científica possuem uma autonomia muito restrita, alguns chegando a não ter autonomia praticamente nenhuma. A proeminência do poder financeiro em certos setores da produção científica é evidente e o filme mostra o seu de tal poder não apenas para financiar, mas para controlar, censurar e reprimir a verdade.

O filme revela, ainda, a dificuldade em dizer a verdade, aspecto já tematizado por Bertolt Brecht, sendo a coragem a primeira delas:
É evidente que o escritor deve dizer a verdade, não a calar nem a abafar, e nada escrever contra ela. É sua obrigação evitar rebaixar-se diante dos poderosos, não enganar os fracos, naturalmente, assim como resistir à tentação do lucro que advém de enganar os fracos. Desagradar aos que tudo possuem equivale a renunciar seja o que for. Renunciar ao salário do seu trabalho equivale por vezes a não poder trabalhar, e recusar ser célebre entre os poderosos é muitas vezes recusar qualquer espécie de celebridade. Para isso precisa-se de coragem (BRECHT, 1982, p. 36).
Assim, O Informante complementa o processo de mostrar o funcionamento da esfera científica e revela sua ligação com o capital e sua reprodução. A saga de Jeffrey Wigand é a que foi seguida por poucos e evitada por milhares, revelando que os discursos sobre a ciência, geralmente produzido pelos próprios cientistas, nem sempre colocam aquilo que deveria colocar a imagem heroica do cientista, que existe e se manifesta em alguns casos, é mais exceção do que a regra, pois sair das regras, além de não ser desejável para quem compartilha os valores dominantes da nossa sociedade, tem consequências prejudiciais para os indivíduos.

Considerações finais

Os filmes aqui comentados são complementares, pois juntos oferecem uma percepção, ainda que longe de ser completa, mais geral da esfera científica. Eles mostram como a esfera científica está envolvida com as instituições (tal como a academia), a burocracia/governos e empresas capitalistas, especialmente manifestando a questão dos interesses constituídos a partir dela pelos cientistas.

Esses interesses, muito longe de beneficiarem o compromisso com a verdade, na maioria dos casos, são obstáculos. O objetivo que predomina na produção científica não é o bem estar da população, nem supostamente a verdade e sim a satisfação de determinados interesses que vão contra ambos. Aqui temos o mesmo caso que na ideologia, um sistema de pensamento ilusório que contribui para o reforço da dominação. Ilusão e dominação se complementam, ao contrário do que afirmam alguns[5]. Esse processo, que ocorre na vida real, na qual os intelectuais, devido suas posições na divisão social do trabalho e na esfera científica mais especificamente, assumem determinados posicionamentos, e assim acabam reproduzindo a sociedade capitalista tanto em suas produções científicas (ideologias, técnicas, tecnologias, etc.), quanto em suas práticas cotidianas.

Os interesses dos consagrados e estabelecidos geralmente é, embora não seja o caso de todos os indivíduos nessa situação, a reprodução da esfera científica e de sua posição privilegiada (quando a tem, quando não a tem, o interesse é adquiri-la)[6], o que pressupõe reproduzir as estruturas burocráticas das instituições e as regras do jogo. Da mesma forma, o interesse do reconhecimento, retorno financeiro, entre outros existem e silenciam milhares de cientistas. Ambos são elementos da sociedade capitalista reforçados por sua sociabilidade e mentalidade dominantes.

Isso é o que ocorre na vida real e é reproduzido no universo ficcional da produção fílmica. Quando se baseiam em “fatos reais” a proximidade, intencional ou não, da equipe de produção, com a realidade, é maior. Estes filmes mostram, através da ficção, a realidade concreta da esfera científica e de seus laços indissolúveis com o capital e o poder.

Nesse sentido, os três filmes aqui apresentados são interessantes para despertar a reflexão crítica sobre a ciência e a esfera científica, com focos diferentes e que, com a sua reunião, possibilitam uma análise mais global desta esfera social e sua dinâmica de funcionamento e envolvido com a sociedade capitalista.

Referências

BOURDIEU Pierre. O Poder Simbólico. Rio de Janeiro: Difel, 1989.

BOURDIEU, Pierre. O Campo Científico. In: ORTIZ, Renato (org.). Bourdieu. São Paulo: Ática, 1994.

BRECHT, Bertolt. As Cinco Dificuldades em Dizer a Verdade. In: Sobre a Verdade. Lisboa: Nova Aurora, 1982.

MARX, Karl. Crítica da Filosofia do Direito de Hegel. Lisboa, Presença, 1978.

ROUANET, Sérgio Paulo. Imaginário e Dominação. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1978.

VIANA, Nildo. A Esfera Artística. Marx, Weber, Bourdieu e a Sociologia da Arte. Porto Alegre: Zouk, 2007.

VIANA, Nildo. A Esfera Científica. Florianópolis: Bookess, 2014b.

VIANA, Nildo. As Esferas Sociais. Curitiba: CRV, 2014a.

VIANA, Nildo. Cinema e Mensagem. Análise e Assimilação. Porto Alegre: Asterisco, 2012.

VIANA, Nildo. Imaginário e Ideologia: As Ilusões nas Representações Cotidianas e no Pensamento Complexo. Revista Espaço Livre, v. 08, num. 15, jan./jun. de 2013. Acessado em 10 de Junho de 2013. Disponível em: http://revistaespacolivre.net/el15.pdf

VIANA, Nildo. O Capitalismo na Era da Acumulação Integral. São Paulo, Idéias e Letras, 2009.

WEBER, Max. Ensaios de Sociologia. Rio de Janeiro, Zahar, 1971.




[1] Aqui deixamos claro que essa mostração não é a mesma coisa que uma mensagem intencional, mas ao reproduzir acontecimentos reais ou mesmo ficções cuja inspiração tem origem na realidade, se mostra a realidade e, ao fazê-lo, permite que aquele que assiste ao filme possa ir além do que o próprio filme coloca e possibilita sua assimilação no sentido crítico e de apoio para objetivos educacionais, psicanalíticos, políticos, etc. (VIANA, 2012).

[2] Uma definição mais detalhada de esferas sociais (VIANA, 2014a) e esfera científica (VIANA, 2014b) seria útil, mas ultrapassaria nossos objetivos e a consulta à bibliografia citada resolve essa lacuna. Claro está que tal concepção tem semelhanças com a concepção de Bourdieu a respeito do “campo científico” (1994) e sua teoria geral dos campos (BOURDIEU, 1989), ou, ainda, com a ideia de esfera especializada em Weber (1971), mas se distingue de ambas em diversos aspectos, incluindo sua não autonomização demasiada, o reconhecimento de sua relação com a luta de classes, etc.

[3] Coisa que no Brasil, em alguns casos, os orientadores querem controlar, e tem casos em que vão mais longe, inclusive até que disciplinas os orientandos devem cursar em pós-graduação, o que é ainda manifesto no regimento de alguns cursos.

[4] Os consagrados são aqueles que já possuem status e fama, enquanto que os estabelecidos são aqueles que apenas possuem posição institucional (são professores estáveis, por exemplo), inclusive há uma hierarquia entre eles, tal como se pode ver no próprio filme na banca, na qual Jacob Reiser, um consagrado, acaba se impondo aos demais, os estabelecidos, mesmo quando um, numa determinada oportunidade, tenta argumentar em favor do aluno. Claro que nem sempre isso ocorre, pois existem outras determinações que podem constituir processos diferenciados. Esse processo de competição é comum tanto na esfera científica (VIANA, 2014b; BOURDIEU, 1994) quanto na esfera artística (VIANA, 2007).

[5] Rouanet (1978) afirma que se a ideologia é ilusão, não pode servir para a dominação, o que é um equívoco grave (VIANA, 2013), pois o processo de produção de representações ilusórias serve para ocultar a realidade e realizar interesses de reprodução do capitalismo, sendo que, as representações verdadeiras, as teorias, são elementos de contradição e luta. Um elemento interessante a se destacar é que as ideologias e representações cotidianas ilusórias não são apenas falsidade, pois possuem momentos de verdade, o que, no entanto, não abole sua essência de pensamento ilusório. Um pensamento totalmente ilusório não teria eficácia, seria considerado pura “ficção”. No entanto, a ideologia é um sistema de pensamento ilusório, pois predomina nela o que é falso, e embora isso entre em contradição com a realidade, acaba mantendo unidade com determinados interesses, valores, concepções e setores da sociedade, e, ainda, é reforçada pelo fato de que vive no mundo das aparências ou do formalismo, sendo que atingir a verdade exige um esforço teórico mais profundo e assim aparentam expressar o real, quando, na verdade, o deformam.

[6] Essa é uma das diferenças entre nossa análise e a de Bourdieu, cuja concepção mostra uma incompreensão da existência de indivíduos fora ou contra o campo. O nosso foco aqui, no entanto, foi a reprodução da esfera científica e os intelectuais marginais (amadores, engajados) ficaram de fora da análise.
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Publicado originalmente em:
VIANA, Nildo. A Esfera Científica no Cinema. Revista Alceu. vol. 15, num. 31, jul./dez. de 2015.
http://revistaalceu.com.puc-rio.br/media/alceu%2031%20pp%2089-98.pdf




Alceu 31

A esfera científica no cinema
Por: Nildo Viana


 ResumoA ciência e a produção científica são objetos de representações por elas mesmas e, de forma mais aprofundada, pela sociologia da ciência, filosofia da ciência e história da ciência. O cinema através de suas produções fílmicas também apresentam aspectos da ciência e de suaprodução intelectual. O presente artigo objetiva analisar três filmes (A fúria pela honra; Óleo de Lorenzo; O informante) e observar quais representações eles produzem a respeito da ciência, da esfera científica e da produção que esta realiza. A conclusão é que esses filmes revelam adinâmica dominante do campo científico e suas ligações complementares com o capital e o Estado burocrático, cada um concentrando-se sobre um aspecto destas relações.
Palavras-chave
Esfera científica. Cinema. Competição. Burocracia. Capital.

 Résumé
Des sciences et de la production scientifique sont des représentations d’objets par eux-mêmes et, plus en profondeur, la sociologie de la science, la philosophie de la science et de l’histoirede la science. Le film à travers ses productions filmiques comportent aussi des aspects de la science et de la production intellectuelle. Cet article vise à analyser trois films (Le fury parhonneur, Huile de Lorenzo, L’informateur) et observer ce qu’ils produisent des représentations sur la science, la sphère scientifique de la production et que cette porte. La conclusion est que ces films révèlent la dynamique dominante dans le domaine scientifique de ses liensavec la capitale, et la bureaucratie d’Etat, étant complémentaires, puisque chaque concentre sur un aspect de ces relations.
Mots-clé
Sphère scientifique. Cinéma. Competition. Bureaucratie. Capitale.

A esfera científica no cinema 

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