quarta-feira, 1 de outubro de 2014

Tempo de Eleições, Tempo de Ilusões



Tempo de Eleições, Tempo de Ilusões

Nildo Viana
             
As eleições são "armadilhas para tolos", já se disse. E existem tolos em todos os lugares e com as mais diversas ideologias. O que nos surpreende é existirem "tolos revolucionários'", se me permitem o excesso de aspas. É devido a isto que iremos fazer algumas considerações sobre o fenômeno eleitoral e a esquerda revolucionária. 
O capitalismo é o mais complexo modo de produção que a humanidade criou. A burguesia, para sustentar sua dominação e reproduzir as relações de produção capitalistas, precisou criar um conjunto de instituições burguesas sob o comando do Estado Capitalista. A democracia burguesa (com seu sistema eleitoral e partidário) é uma destas instituições e é através dela que se busca legitimar a mais poderosa instituição burguesa: o estado capitalista. 
A esquerda revolucionária já denunciou o caráter burguês e manipulatório da democracia representativa. Mas ela é tão eficaz que conseguiu corromper grande parte das organizações "ditas" de esquerda. A capitulação da pseudo-esquerda foi justificada ideologicamente por Berstein, Kautsky, Gramsci, entre muitos outros. A crítica radical à democracia burguesa foi realizada por Sorel, Bordiga, Pannekoek, entre outros. Sartre demonstrou que compreendeu o seu significado quando escreveu um artigo intitulado "Eleições: Armadilha para Tolos". 
Deixemos, por um momento, as eleições e a democracia burguesa para os tolos e façamos uma crítica da pseudo-esquerda. Se a pseudo-esquerda, com sua ignorância total, não percebe que a crítica à direita está implícita na crítica das instituições burguesas e que a crítica à pseudo-esquerda se faz necessária devido sua influência nos movimentos sociais e por isto também é preciso nomeá-la, é devido ao fato de sua visão só consegue chegar até as fronteiras da sociedade burguesa e da sua democracia. A pseudo-esquerda quer que a esquerda revolucionária critique os partidos de direita e não percebe que isto é função dela, devido ao fato de sua integração no capitalismo e abandono do projeto revolucionário, que faz com que ela se oponha a partidos que são seus adversários eleitorais. Assim, a luta de classes se transforma em luta de partidos, a luta pela derrubada das instituições burguesas torna-se uma luta pela conquista destas instituições, o ataque às relações de produção capitalistas (cuja expressão jurídica se encontra na propriedade privada) é substituído pelo ataque a indivíduos e partidos. Basta olhar a prática dos diversos partidos da pseudo-esquerda no processo eleitoral para ver esta verdade cristalina. A pseudo-esquerda, assim, executa o papel que a burguesia lhe reservou: legitimar a democracia burguesa e, conseqüentemente, o estado e a sociedade capitalista. 
Infelizmente, a pseudo-esquerda acaba convencendo pessoas bem intencionadas e não corrompidas a participarem deste processo. Este convencimento não ocorre devido à capacidade argumentativa e teórica de seus representantes ideológicos e sim graças à correspondência entre o discurso da pseudo-esquerda e o conjunto de valores e sentimentos produzidos e reproduzidos pela sociedade capitalista. Nisso a pseudo-esquerda (tanto a social-democrata quanto a bolchevista) e a direita assumida são idênticas, pois a mesma estrutura de argumentos é utilizada. O paraíso só depois da morte e por isso sejamos servos bem comportados esperando aquele esqueleto vestido de negro com sua foice para nos levar para o caixão conviver com os vermes a as minhocas. Ela só esquece de nos avisar que já convivemos com vermes e minhocas... 
O que a esquerda revolucionária deve fazer em relação a isto? Buscar combater a ideologia pseudo-esquerda e desfazer seu domínio sobre tais pessoas. Destruir a ideologia eleitoral como ponto de partida para destruir sua base, a mentalidade burguesa. Muitos poderão superar estas ilusões e juntar-se à luta revolucionária. 
Voltemos ao processo eleitoral. Estamos vivendo mais um ano eleitoral. O que predomina na vida política, como em todos os outros anos eleitorais, é a demagogia, as promessas irrealizáveis e, principalmente, as ilusões. Sem dúvida, a época das eleições é a época das ilusões. Mas onde existem ilusões existem os iludidos e estes últimos só existem havendo aqueles que iludem. Quem são estes? São os políticos profissionais, aqueles que vivem da política. 
Eles iludem grande parte da população através dos mais variados artifícios e subterfúgios. A pseudo-esquerda reproduz tal processo de produção de ilusões. Em tempos de eleições presidenciais e para senado e câmara federal, eles criam uma causa de todos os males para servir de objeto de ataque: a inflação, a corrupção, o imperialismo, etc. Ao lado disso, e complementarmente, acusam os adversários eleitorais de conivência ou produtor da causa. Vejamos um exemplo, o da corrupção.  
Segundo o discurso de muitos políticos profissionais, o problema do Brasil é a corrupção. Ela seria a causa de todos os males do país. O discurso de Fernando Collor, então candidato a presidência da república, era contra os "marajás", contra a corrupção. Foi eleito e depois foi retirado do cargo pelos seus adversários e pelas manifestações populares, devido à corrupção...  
Entretanto, ninguém se levantou contra a corrupção oculta ocorrida durante a ditadura militar ou a de partidos e pessoas que dirigem "movimentos pela ética na política", nos movimentos sociais (inclusive intitulados de "extrema-esquerda"...). O problema do Brasil, evidentemente, não é a corrupção, e a superação desta não ocorrerá sem a simultânea abolição das relações sociais que a produz e reproduz. 
Assim, é necessário, inicialmente, compreendermos o que é a corrupção. Ela não é a ação maldosa de alguns indivíduos malignos, pois não é o corrupto que cria a corrupção e sim a corrupção que cria o corrupto. A corrupção é uma relação social produzida por uma sociedade competitiva, mercantil e burocrática e que se espalha por todas as instituições e relações sociais existentes. Portanto, a simples troca de corruptos (tanto faz se é Collor, Lula, Brizola, Maluf, Itamar Franco, etc.) não muda nada. O que é preciso é abolir a corrupção e esta não pode ser abolida sem a transformação radical da sociedade que a produz.
Seria necessário aqui discutir o problema da corrupção no seio da pseudo-esquerda, que é reforçada com sua participação no processo eleitoral. As próprias organizações partidárias, que reproduzem o caráter mercantil, burocrático e competitivo da sociedade burguesa, são uma poderosa fonte de corrupção dos seus integrantes e, devido sua influência na sociedade, dos movimentos sociais. Ora, participando do processo eleitoral e conquistando cargos, o processo de corrupção irá crescer assustadoramente. Historicamente todos sabem que a social-democracia se torna cada vez mais conservadora quanto mais conquista vitórias eleitorais. Esta é uma tendência que não possui contra-tendências, pois as dissidências internas sempre são derrotadas e a pressão popular nunca tem efeito. O bolchevismo, por sua vez, quando consegue espaços no parlamento ou poder executivo, logo se transforma em social-democracia com discurso mais extravagante.  
A corrupção atinge não só a pseudo-esquerda, mas também membros das classes exploradas que atuam em movimentos sociais. Eles são cooptados pelos partidos da direita ou da pseudo-esquerda, pois trazem retorno eleitoral.  
Notem que tudo isso serve ao propósito da reprodução da sociedade capitalista, pois provocam um amortecimento da luta de classes. Cria-se uma corrupção geral de indivíduos, partidos, grupos, etc., e, o que é pior, inclusive ligados organicamente às classes exploradas e que fazem discurso para elas.  
Tomamos aqui o exemplo da corrupção, tema dos políticos profissionais para ganhar votos, mas tratado de forma falsa. O problema da corrupção é apresentado de forma falsa e assim se desvia da sua real fonte, uma sociedade fundamentada na sua produção e reprodução constante, e das questões mais importantes. 
A época de eleições vem acompanhada pelas promessas irrealizáveis, pois não basta apontar o problema, é preciso criar a ilusão da solução. A corrupção será abolida? É o que dizem os corruptos...  
Quando se trata de eleições para governador ou prefeito e vereadores, as promessas são mais modestas, mas continuam irrealizáveis... Certa feita, um candidato a prefeito prometeu "piscinas populares" para a periferia da cidade... sofreu impeachment logo depois de assumir o cargo de prefeito... um candidato a governador prometeu um metrô de superfície para a capital do estado e depois de quatro anos de mandato ninguém viu metrô nenhum... agora tem candidato prometendo "farmácia cidadã", que irá distribuir remédios gratuitamente... serviço policial por toda a cidade com helicópteros e toda uma parafernália junto... serviço de ambulância gratuito para toda a população carente... mas a pseudo-esquerda também não fica atrás: prometem um "governo dos trabalhadores" numa cidade capitalista... 
Mas parafraseando Marx, a crítica das ilusões não vem para fazer com que os seres humanos agüentem seus sofrimentos sem ilusões e sim para que reconheçam a realidade tal como ela é e assim possam buscar transformá-la e retomar assim, a ação e a esperança. A corrupção, por exemplo, não pode ser abolida sem a transformação radical da sociedade que a produz. Então devemos deixar a corrupção de lado e lutar pela transformação social? Não devemos ficar esperando a instauração da autogestão social para superarmos a corrupção. Devemos articular a luta pela autogestão com a luta contra a corrupção. Embora a abolição da corrupção não possa ocorrer sob o capitalismo, é necessário combatê-la. É preciso combatê-la nas nossas próprias relações sociais, no interior da própria organização revolucionária, e também nos movimentos sociais. Além disso, é preciso elaborar estratégias para limitar a corrupção e estas devem ter como base a democratização e fiscalização das instituições burguesas pelas classes exploradas, além da formação de centros de contra-poder e da auto-organização das classes exploradas. Isto, obviamente, para reforçar a luta pela revolução autogestionária. O processo eleitoral, por sua vez, é outra ilusão que deve ser combatida. Ao reconhecermos que o processo eleitoral não provocará nenhuma mudança na vida do proletariado e outros grupos e classes sociais oprimidos, é necessário colocarmos que é preciso, em primeiro lugar, negá-lo, e, em segundo lugar, apresentar um projeto alternativo. A negação do sistema eleitoral se dá através de algumas ações que buscam corroer sua eficácia, no qual se destaca a estratégia da propaganda pelo voto nulo. O projeto alternativo é a participação direta nos movimentos sociais, buscando democratizar todas as relações sociais e criar a auto-organização dos trabalhadores, estudantes, etc. (sem a tutela dos partidos políticos), visando a transformação social e a instituição de uma sociedade autogerida.

Artigo publicado originalmente em Revista Enfrentamento, num. 01, jul./dez. 2006.

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