sábado, 25 de outubro de 2014

Psicanálise da Ilusão Eleitoral 03: A Alienação Generalizada



PSICANÁLISE DA ILUSÃO ELEITORAL 03:
A ALIENAÇÃO GENERALIZADA

Nildo Viana

O desejo coisificado[1] não emerge do nada, ele tem uma fonte social. Nesse sentido, é fundamental entender as fontes do desejo coisificado, não só para compreendê-lo, mas também para poder pensar sua superação, o que pressupõe romper com a alienação, o burocratismo, o imobilismo e o conformismo, condições para uma verdadeira esperança e utopia concreta.

O desejo coisificado ocorre sob várias formas e uma delas é o fetichismo eleitoral. Assim como o fetichismo da mercadoria é explicado pela existência do trabalho alienado, o desejo coisificado (ou fetichismo eleitoral) é explicado pela generalização da alienação na sociedade capitalista. O trabalho alienado é aquele no qual o trabalhador não possui controle de sua atividade e com isso perde o controle do produto do seu trabalho, gerando a alienação do produto (propriedade privada). A alienação é, assim, uma relação social na qual alguns controlam a atividade de outros e assim usurpam o produto da mesma[2]. Esse processo é mais amplo do que parece à primeira vista, pois a sociedade capitalista realiza um processo de ampliação da divisão social do trabalho, mercantilização e burocratização das relações sociais. A burocratização das relações sociais acaba gerando um processo de controle da vida cotidiana dos indivíduos, através do Estado e seus aparatos (democracia burguesa, aparato repressivo, aparato educacional, aparato comunicacional, etc.) e as empresas e instituições privadas, promovendo também a burocratização da sociedade civil em geral (igrejas, partidos, sindicatos, etc.). Nesse contexto, que desde 1945 já atinge o conjunto da sociedade, os indivíduos passam a estar submetidos a diversas instâncias sociais que dirigem sua vida em geral. Os indivíduos são controlados no trabalho, nos estudos, no lazer, estando submetidos a especialistas e burocratas em todos os lugares.

A alienação generalizada da sociedade capitalista promove a mentalidade burocrática, tanto a de caráter dirigista daqueles das classes privilegiadas, especialmente os burocratas (do estado e governos, empresas, instituições em geral) quando a sua versão submissa dos dirigidos em sua maioria. O que ambos concordam é que há a necessidade de dirigentes e os dirigidos aceitam resignadamente em grande parte e outra parte aceita por ambicionar passar de dirigido para dirigente, esperando acender ao poder. A mentalidade burocrática é a do controle total e dirigista, produzidas e reproduzidas por burocratas, capitalistas e pretendentes. Para aqueles que são das classes exploradas, isso se revela, em grande parte dos casos, como submissão e se manifesta mais como mentalidade submissa que justifica e legitima a dominação e direção. A nível da sociedade, isso reforça a estratégia burguesa de canalizar todas as lutas sociais para o Estado, via democracia representativa, na qual as pessoas trocam sua luta direta por escolha de representantes, adesão a partidos e candidaturas, etc., o que significa, em alguns casos, abrir mão da luta para que outro supostamente a faça.

Assim, temos relações sociais concretas marcadas pela alienação e burocratização e mentalidade burocrática e submissa gerada por tais relações e confirmadas cotidianamente por elas e pela própria mentalidade que lhe reforça. Nesse contexto, existe uma recusa da alienação, do burocratismo, do controle e falta de liberdade, mas em grande parte dos casos é inconsciente ou relegado a mero desejo coisificado. Aqui temos um processo de alienação generalizada e produção de desejo coisificado.

O processo de superação do desejo coisificado de liberdade e de eliminação da burocracia e da alienação, elementos inseparáveis, ocorre através da luta e, especialmente, da práxis. A luta é necessária e é a primeira forma de liberdade e superação da alienação e burocratismo, pois nós mesmos agimos em busca da liberdade, já sendo sua manifestação inicial. Contudo, isso deve ser teleológico (com uma finalidade, a liberdade real, autoemancipação e autogestão das lutas visando a autogestão social), consciente e ativo, por isso práxis. A negação prática é mais rica, profunda e eficaz quando é também negação consciente e teórica.

Ora, se há uma alienação generalizada na sociedade capitalista, então devemos lutar também sob forma generalizada contra ela. Trata-se de uma luta generalizada visando instaurar e generalizar a autogestão (das lutas para conseguir torná-la autogestão do conjunto das relações sociais, ou seja, da sociedade como um todo). Esse processo de luta não pode ser, no entanto, abstraído das relações sociais existentes e por isso não é num esforço de imaginação que isso se realiza ou de um dia para o outro. Se alguns indivíduos buscam e tentam efetivar isso, eles encontrarão a oposição da classe dominante, do Estado, do capital, bem como de suas classes auxiliares e até mesmo de amplas parcelas das classes exploradas que ainda não terão superado isso. Inclusive haverá oposição das próprias pessoas que querem a transformação radical, em sua mentalidade, pois ninguém rompe com a mentalidade dominante e milhares de outros elementos culturais e sociais de uma hora para outra e em sua totalidade. Esse é um processo de luta onde milhares estão lutando e por isso é preciso lutar contra nós mesmos em muitos aspectos, principalmente tendo em vista que nem tudo que é apresentado como “revolucionário” o é realmente. É preciso entender que muito do que se coloca como contestador é, no fundo, mera luta por vantagens competitivas dentro do capitalismo e isso acaba criando divisões e promovendo influências para os que acreditam em tais discursos. Por isso a reflexão deve ser mais profunda.

Assim, a luta cultural tem um papel fundamental e a luta em todos os lugares. O voto nulo e a luta antiparlamentar é uma das formas – que não é a única e nem a mais importante, pois existem milhares de outras, inclusive mais profundas e necessárias. A questão é que o voto nulo (ou abstenção) é uma ação que não é dirigida por ninguém, o que significa que é uma forma de luta que rompe tanto na prática quando na consciência, com a alienação e o burocratismo. Nesse sentido, é um dos lugares de luta, que não pode, no entanto, aparecer como o único ou principal, bem como esse fato não deve servir de pretexto para omissões oportunistas e convenientes a nível pessoal de supostos revolucionários, que querem evitar conflitos e problemas e ficar em sua situação de conforto nas relações sociais com conservadores, oportunistas, etc.

Obviamente que existem outras consequências do voto nulo (protesto, deslegitimação da democracia burguesa e estado capitalista, etc.)[3], principalmente se articulado com outras lutas (tal como a luta cultural mais geral, a luta pela auto-organização e autoeducação da população em seu conjunto, o projeto autogestionário, etc.)[4]. Nesse sentido, a luta[5] pelo voto nulo é um processo de superação do desejo coisificado e elemento da luta cultural pela autogestão social e contra a alienação generalizada do capitalismo. A superação do desejo coisificado pode ser conquistada, em alguns casos individuais, com a luta cultural e pelo voto nulo, mas é com a superação da alienação generalizada no conjunto das relações sociais que isso pode ocorrer de forma também generalizada.





[5] Luta e não “campanha”, pois quem faz campanha são os políticos profissionais e partidos políticos. Embora isso não nos faça, como alguns, condenar aqueles que usam tal terminologia (“campanha pelo voto nulo”) como se isso fosse fundamental e motivo para divisionismo, pois apenas sugerimos a mudança e usamos outra e se houvesse menos “sectarismo” e “dogmatismo”, muitos poderiam alterar, sendo que poucos fazem isso e outros avançam mas fazem questão de fazer de conta que não sabem a fonte de tal alerta e criticam os que chamaram atenção para o fato e inventam críticas infundadas para manter sua luta por espaço ao invés de buscar a solidariedade revolucionária, compromisso com a verdade e reconhecimento da luta dos demais.

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