sábado, 11 de outubro de 2014

PSICANÁLISE DA ILUSÃO ELEITORAL 01: O DESEJO COISIFICADO




PSICANÁLISE DA ILUSÃO ELEITORAL 01:
O DESEJO COISIFICADO

Nildo Viana

A época das eleições revela um conjunto de comportamentos e discursos irracionais, sendo que alguns são racionalizados. No entanto, diversas pessoas que passam a sua vida inteira alheia às questões políticas e sociais mais amplas, de repente, como num passe de mágica, se tornam ardorosos defensores de candidatos A ou B. Depois de três anos de completo apoliticismo emergem figuras que do nada se julgam entendidos em política e que devem convencer os demais a qualquer custo. Um comportamento extremamente irracional. Sendo que sua motivação não é racional, então talvez seja interessante descobrir quais suas reais motivações. Obviamente que excluímos da análise aqueles que possuem interesses (pessoais, grupais, etc.) envolvidos em sua escolha eleitoral, que abordamos em outra oportunidade[1]. Aqui se trata do caso de pessoas que não possuem nenhum interesse pessoal ou grupal no processo eleitoral e se tornam, repentinamente, defensores insistentes de determinados candidatos, o que torna a irracionalidade ainda mais perceptível.

A psicanálise[2] é extremamente útil para explicar esse comportamento irracional. E nada melhor do que um psicanalista servir de exemplo para análise. Um psicanalista profissional geralmente é alheio às questões políticas, mas não deixa de se envolver no processo eleitoral. Vejamos que diz o psicanalista Contardo Calligaris:
Votar talvez seja um rito e uma espécie de ato de fé. Mas o momento crucial desse rito não é coletivo – ao contrário, ele é estritamente reservado ao indivíduo. Rito de qual culto, então? E ato de fé em quê? Pois é, ninguém (salvo ilusões e delírios) acredita que, depositando nosso voto na urna, a gente possa mudar o mundo. Mas, paradoxalmente, votamos exatamente por isso, para confirmar nossa fé no poder de os indivíduos modificarem o mundo[3].
Essa é a questão fundamental que atinge grande parte da população. A ilusão eleitoral se fundamenta, em grande parte dos casos, numa “fé”, num desejo. A questão é que não é um desejo como os outros que temos na nossa vida. É um tipo específico de desejo. É um desejo que entra em contradição com a realidade, sendo ilusório, mas que se sustenta por ser coisificado. É um caso semelhante ao de pessoas que, dominadas pelos valores burgueses da competição, busca de ascensão e riqueza, querem se tornar milionários, mas nada fazem para concretizar tal desejo. Esse tipo de pessoa fica esperando “a grande sorte”, o “destino”, “Deus” ou qualquer outra coisa que produza um resultado sem o trabalho de lutar para consegui-lo. Algumas pessoas ficam esperando a riqueza sem fazer nenhum esforço para tal. Outros jogam na loteria esperando um dia ser contemplados.

Todos estes exemplos revelam desejos coisificados. O desejo ganha vida própria, passa a ser um agente da história ou da vida dos indivíduos, se autorrealizando, pois aquela que deseja nada faz para sua realização. Essa forma de desejo é produto da sociedade capitalista e da alienação generalizada (isso será abordado em outro texto), mas se reproduz na época das eleições. É isso que explica pessoas geralmente alheias às questões políticas, tanto institucionais (as políticas estatais e processos políticos partidários e parlamentares, ações governamentais) quando no sentido mais amplo (local de trabalho, moradia, estudo, manifestações, movimentos sociais, reflexões, etc.), repentinamente começam a querer discutir política e colocar como fundamental algo que nem sequer faz parte de sua vida cotidiana.

O desejo coisificado tem na democracia representativa a sua forma mais cristalina de existência, pois basta você escolher seu “representante” e governante e pronto, pois continuar alheio à vida política. A valoração da política se dá apenas no momento eleitoral, bem como a ação política se reduz ao voto. Depois de heroicamente, como nosso psicanalista acima, votar, o cidadão vai para casa e passa a cuidar de sua vida privada. O desejo coisificado de mudança ou qualquer outro é fetichista e por isso tem a ver com a fé, tendo um mecanismo psíquico semelhante. Ele é uma mistura de vontade intensa com conformismo prático. Em alguns, o conformismo prático pode até gerar um certo ativismo para que o desejo coisificado, ainda sob forma fetichista, seja “realizado” (pedir votos, fazer “promessas” – como algumas pessoas religiosas fazem, ir na loteria toda semana jogar, etc.).

O desejo coisificado provoca uma pseudestesia (falsa sensação) de esperança. No caso eleitoral, o eleitor vota e vai cuidar da vida privada, só reaparecendo nas próximas eleições, alguns anos depois. Se o candidato dele perdeu, ele tenta votar no mesmo ou semelhante. Se ganhou e não cumpriu as promessas, ele aceita as supostas explicações ou esquece tal fato e vota novamente. Alguns, nesse caso, podem trocar de candidato. Esse mecanismo psíquico é o mesmo do jogador de loteria que quer ficar milionário: ele joga e perde, mas na semana seguinte e nas posteriores, está novamente fazendo sua “fezinha”[4], nome esclarecedor. Ele continua com sua crença irracional de que da próxima vez ele poderá ganhar.

A superação do desejo coisificado em época eleitoral pode ocorrer sob a forma positiva, que é sua substituição por uma esperança verdadeira, na qual o indivíduo busca efetivamente realizar e percebe que depende dele para se concretizar, ou sob a forma negativa, que é a sua substituição pelo niilismo, o desejo de destruição de si e/ou dos outros. A psicanálise pode apenas mostrar esse processo psíquico e explicar suas fontes, trazendo a necessidade de superação da situação que gera o desejo coisificado. O marxismo é fundamental para a explicação dessa situação e por apresentar um projeto alternativo de sociedade, a autogestão social. Da perspectiva da luta política, a luta contra a ilusão eleitoral e o desejo coisificado deve se aliar com análise da totalidade da sociedade e projeto autogestionário como alternativa.
(Continua).





[2]   Trata-se, aqui, de psicanálise social, e não o freudismo ortodoxo ou as ideologias psicanalíticas de Lacan, Jung e outros. Além de Freud, é possível citar Fromm, Adler, entre outros, bem como a “sociologia psicanalítica” de Mannheim e Roger Bastide.
[4]  A expressão popular "fezinha" (fezinha é diminutivo de fé) é usada quando uma pessoa vai apostar numa casa lotérica.

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