quinta-feira, 2 de outubro de 2014

A DEMOCRACIA BURGUESA COMO VALOR UNIVERSAL



A DEMOCRACIA BURGUESA COMO VALOR UNIVERSAL

Nildo Viana

A questão democrática é um tema que vem sendo muito discutido no Brasil. A crise do Leste Europeu coloca em discussão a relação entre socialismo e democracia. Neste debate surge a tese que diz que a democracia é um valor universal. O Brasil importou esta tese da Europa Ocidental, onde desde Kautsky aos euro-“comunistas” é defendida, e colocou-a em evidencia no debate sobre a democracia. Mas não se deve estranhar que o “universal” não seja nativo e sim estrangeiro. Nesse caso nós apenas assimilamos algo estranho a nós como se fosse “nosso”. Isto é normal a povos subjugados pelo imperialismo. Mas onde existe submissão existe rebelião. Então, é hora de começar a nos rebelar.
A democracia representativa vem sendo apresentada principalmente como: a) uma conquista da classe trabalhadora; b) condição para implantação do socialismo; e c) um valor estratégico permanente que será conservado no comunismo. Para os que defendem tal tese, a democracia representativa surgiu das lutas dos trabalhadores e por isso é uma conquista da classe operária. Esta concepção considera que a classe operária molda as instituições e a sociedade de acordo com sua vontade arbitrária. As demais classes sociais não participam da história. Mas abandonando esta concepção positivista e substituindo-a por uma concepção dialética, afirmamos que a democracia representativa é um resultado da luta de classes.
A classe operária ao lutar com a burguesia queria ir além da democracia representativa e a burguesia não queria chegar até ela. Este resultado da luta de classes significou a vitória da burguesia, pois se ela recuou foi para manter sua dominação e o avanço do proletariado levou-a apenas a mudar a forma de dominação burguesa. Nessa luta o proletariado não atingiu o seu objetivo (o comunismo) e a burguesia atingiu o seu (a conservação do capitalismo). Pode-se dizer que essa derrota do proletariado trouxe-lhe algumas vantagens para a sua luta posterior contra a burguesia, mas não se deve esquecer que elas foram muito limitadas e que trouxeram simultaneamente várias desvantagens e que parte das vantagens conquistadas se perderam com o desenvolvimento histórico devido ao fato da burguesia integrar esse sistema (democracia representativa) com cada vez mais eficiência na sua lógica de dominação.
Os ideólogos da “democracia como valor universal” nos dizem que ela é condição necessária para a implantação do socialismo. Esta tese se sustenta com a argumentação de que as liberdades políticas beneficiam a luta dos trabalhadores e se complementa na sociedade comunista que conservará certos “institutos democráticos”, necessários para a existência de uma vida democrática.
Vê-se claramente o caráter evolucionista de tal concepção. Segundo um autor brasileiro: “do mesmo modo como as forças produtivas materiais necessárias à criação da nova formação econômico-social já começam a se desenvolver no seio da velha sociedade capitalista, assim também esses elementos da nova democracia  (da democracia de massa) já se esboçam – em oposição aos interesses burgueses e aos pressupostos teóricos do liberalismo clássico – no seio dos regimes políticos democráticos ainda dominados pela burguesia. No primeiro caso, trata-se de suprimir as relações de produção capitalistas para que as forças produtivas materiais possam se desenvolver plenamente, de modo adequado à emancipação humana; no segundo caso, trata-se de eliminar o domínio burguês sobre o Estado a fim de permitir que esses institutos políticos democráticos possam alcançar pleno florescimento e, desse modo, servir integralmente à libertação da humanidade trabalhadora”[1].
Assim afirma-se que a democracia burguesa é uma condição para a democracia “socialista” e que a “evolução” das forças produtivas e a “evolução” da democracia política levam ao socialismo. Este evolucionismo unilinear que considera as forças produtivas e o estado como instrumentos que se aperfeiçoam na história é, como notou Rosa Luxemburgo, o caminho do reformismo: “a teoria da realização progressiva do socialismo por intermédio de reformas sociais implica – e é aí que se encontra o seu fundamento – um certo desenvolvimento objetivo tanto na propriedade privada como do estado”[2]. Acrescente-se a isso a visão instrumentalista das forças produtivas e do estado que mudariam “automaticamente”, eliminando-se as relações de produção e o domínio burguês[3]. Esquece-se o que é o estado e, pior ainda, adota-se uma visão simplista e mecânica a respeito das forças produtivas.
Pelo visto este autor dá um grande valor à questão do método. Apesar disto não só fez as afirmações acima citadas como também esta: “a relação da democracia socialista com a democracia liberal é uma relação de superação (aufhebung): a primeira elimina, conserva e eleva a nível superior as conquistas da segunda”[4]. Como se vê, a ênfase é colocada na “conservação” e na “elevação” ao invés de ser na eliminação (que superação mais conservadora!). Marx, comentando Hegel, disse que para este “a negação da negação não é a confirmação do verdadeiro ser pela negação do ser ilusório” mas “é a confirmação do ser ilusório”[5]. O mesmo se aplica à tese acima exposta: a negação da negação não é a confirmação da verdadeira democracia pela negação da democracia ilusória mas é a confirmação da democracia ilusória.
Outro equívoco desta abordagem está em não tomar as sociedades contemporâneas como uma totalidade concreta e onde o modo de produção  é a determinação fundamental. A ênfase na “democracia política” e na “teoria ampliada do estado” significa desconhecer a essência e se iludir com a aparência. O modo de produção é apagado e substituído pela formação social criando-se uma “totalidade abstrata”. É o que o filósofo Karel Kosik chama de o “mundo da pseudoconcreticidade”[6].
Partindo desses pressupostos chega-se a conclusão evidente de que se deve formar uma aliança de classes, incluindo até “setores da burguesia”, e aprofundar a democracia de massas. Vê-se que tal posição defende a reforma legal para aprofundar a democracia e chegar ao socialismo. Mas desde Rosa Luxemburgo sabemos que “a reforma legal e a revolução não são métodos diferentes do progresso histórico que se possam escolher a vontade como se se escolhessem salsichas ou carnes frias para almoçar, mas fatores diferentes da evolução da sociedade classista, que se condicionam e se completam reciprocamente, excluindo-se, como, por exemplo, o pólo norte e o pólo sul, a burguesia e o proletariado”[7]. Adere-se a política da burguesia e apesar das citações de Marx, Engels, Lênin e Gramsci, os defensores destas teses, são, na realidade, herdeiros de Kautsky e Bernstein.
Mas será que eles não têm razão? As liberdades políticas não beneficiam a luta dos trabalhadores? A resposta é a seguinte: em uma democracia representativa há liberdade de organização, de reunião, de manifestação e principalmente há espaço para uma “guerra de posição” que possibilita a classe operária dominar certos institutos democráticos e utilizá-los para implantar a sua “hegemonia”. Mas vejamos tudo isto mais de perto. Comecemos pela liberdade de organização: para se organizar em partido político é necessário atender a certas exigências do sistema político nacional, que só é possível tendo uma sólida estrutura financeira e burocrática, pois é preciso contratar funcionários, ter local para os diretórios, de uma gráfica (ou recursos para as despesas de publicação), etc. Isto cria uma dificuldade enorme para a classe trabalhadora devido ao seu baixo nível de renda. Isto também se reflete na possibilidade de existência e eficiência de todas as outras organizações operárias, exceto os sindicatos, devido à contribuição sindical obrigatória, mas ela se torna isolada das massas já que o seu campo de ação é a categoria profissional, onde geralmente uma minoria é sindicalizada, e também é um lugar propício à burocratização e à subordinação a outras organizações mais amplas (partidos, estado).
A liberdade de reunião, por sua vez, só é possível havendo locais para realizá-las e as classes exploradas não possuem estes locais e nem os recursos para consegui-los. Finalmente, a liberdade de manifestação é uma ficção. Além das dificuldades de organização e reunião que influenciam as possibilidades de “livre manifestação”, ela é limitada pelas leis e pelo fato dos trabalhadores não terem tempo, acesso a informações e condições financeiras para sistematizar suas idéias e manifestá-las.
É claro que tudo isso só é aplicável à classe trabalhadora. Para a burguesia é o contrário que vale, como demonstra, para ficar em apenas um exemplo, o seu monopólio sobre os meios de comunicação de massas. As chamadas “liberdades políticas” na sociedade burguesa consistem no “direito à liberdade” que na verdade contradiz a liberdade real, pois tal direito é uma impossibilidade prática (exceto para a burguesia). A desigualdade financeira faz da “liberdade” burguesa uma ficção.
Resta-nos analisar o campo que a “democracia” nos reserva para a “guerra de posição”. Todos sabem que para conquistar a famosa “hegemonia” é necessário forjar os meios materiais que a tornem possível. Esses meios materiais, segundo alguns teóricos, são conquistados pelas forças populares na disputa com as forças reacionárias e são os que se pode chamar “institutos democráticos”. Estes se encontram na sociedade civil e na sociedade política. Mas quem deve conquistá-los? As massas populares e os partidos democráticos. Podemos dizer que as “massas populares” acabam submetendo os “institutos democráticos” que conquistaram a organizações burocráticas (partidos, estados, etc.). As causas disto são as seguintes: a) as classes exploradas, no capitalismo, devido suas condições de vida (condições financeiras, falta de tempo, cansaço, etc.) e a corrupção generalizada da sociedade burguesa não participam nestes “institutos democráticos”, sendo coisa de minorias; b) entre essas minorias participantes, surgidas das massas, grande parte persegue seus interesses pessoais (por exemplo, utilizar um cargo na associação de bairro como trampolim para se candidatar a vereador); c) outra parte dessas minorias participantes, que poderíamos denominar de “esquerda” utilizam estes institutos como correias de transmissão dos seus partidos; e d) essas minorias, a carreirista e a de “esquerda”, acabam seguindo a dinâmica do estado capitalista e da “conjuntura política”. Mas não se deve esquecer que existem exceções entre estas “minorias”. De tudo que foi visto, o que se nota é que a política continua sendo definida de “cima para baixo” e não como quer os ideólogos da democracia como valor universal, de “baixo para cima”. A idéia contrária só é possível quando não se compreende a relação entre estado/sociedade e de ambos com os partidos políticos.
Segundo a ideologia da democracia como valor universal, as forças populares precisam manter uma unidade na sua luta que é realizada no(s)  partido(s) democrático(s) de massa, principalmente os da classe operária. O partido é a síntese das forças populares e busca pressionar/conquistar a sociedade política. Esta tese revela mais uma vez a visão instrumentalista: o partido é um instrumento das forças populares. Na verdade, os partidos políticos não são instrumentos e não representam as classes exploradas (“massas”, “forças populares”).
Contudo, não há espaço aqui para colocar a questão do partido de forma aprofundada e por isto faremos apenas alguns apontamentos[8]. O partido político para disputar o espaço da sociedade política tem que atender as exigências do sistema político que inclui sua adaptação ao sistema partidário e eleitoral. Para se adaptar ao sistema partidário é preciso cumprir as exigências legais como possuir diretórios em diversas cidades para ser registrado e não fazer propaganda política contrária ao “regime democrático”. Isto coloca, conseqüentemente, dois tipos de exigência:  de um lado estrutura financeira e burocrática; de outro lado, limites à divulgação de sua concepção política.
Mas além disso, o sistema partidário cumpre um papel ideológico junto às classes exploradas: “é o sistema partidário que permite indivíduos com pontos de vista ideológicos opostos a manter lealdade ao Estado: livre pensamento implica em pontos de vista divergentes assim como preferências, e indivíduos com preferências partidárias diferentes podem sempre aspirar a que seu partido possa subir ao poder através de eleições livres, e se isto termina por não se concretizar, pelo menos isto sucedeu no jogo eleitoral justo (oferecido pelo estado através do sistema eleitoral)”[9].
A adaptação ao sistema eleitoral coloca como exigências: a existência de diretórios ou executivas provisórias, o registro de candidaturas, etc. Mas isto é seu aspecto puramente formal. O sistema eleitoral é muito mais complexo do que deixa transparecer as exigências legais de participação. Ele revela seu “lado oculto” quando notamos que o objetivo dos partidos e candidatos é ganhar as eleições. Aliás, os próprios sistemas partidário e eleitoral forçam os partidos a isto sob pena de marginalização (por exemplo, nos meios de comunicação). Para conquistar a vitória eleitoral é necessário deter enormes somas de recursos financeiros. É isto que possibilita a propaganda de massas (panfletos, outdoors, comitês, automóveis, aparelham de som, distribuição de brindes, etc.) e sem ela é muito difícil um bom desempenho nas eleições.
A propaganda de massas é outro elemento necessário nos grandes centros urbanos com sua população densa. Ela consiste, essencialmente, em divulgar para a maior camada possível da população o nome dos candidatos. Nós sabemos que outdoors, adesivos, etc., não apresentam nenhuma mensagem política e que os panfletos, geralmente com o nome, o número e a foto e a biografia do candidato (alguns melhor elaborados contém mensagens políticas genéricas ou demagógicas), também não trazem nenhum conteúdo político criterioso e por isso não é difícil perceber o caráter despolitizante da propaganda de massas, mesmo quando feita pelas “esquerdas”.
Outro fator importante que serve para amortecer a reprodução da luta de classes na disputa eleitoral é o condicionamento do discurso pelo sistema eleitoral, principalmente quando o objetivo é a vitória eleitoral. Os partidos de “esquerda” tendem a considerar a classe trabalhadora “despolitizada” e como realmente o voto desta vai para diversos partidos (de direita e de “esquerda”), ele se torna fragmentário e a conquista dos votos das classes auxiliares da burguesia passa a ser necessário. Entretanto, a classe trabalhadora e as classes auxiliares da burguesia possuem interesses diferentes e por isso o discurso político se torna moderado e voltado para atender os mais variados interesses. Os partidos burgueses também tentam conquistar os votos de todas as classes sociais. O discurso eleitoral é, por sua natureza, um discurso policlassista e, portanto, despolitizante.
De nada adianta os partidos de “esquerda” lamentarem que os trabalhadores votem nos conservadores, pois são eles que reproduzem a política da burguesia. Daí o voto nulo, que em muitos casos representa a negação do sistema eleitoral, ser mais politizado do que pode parecer à primeira vista. Mas o rompimento com a política da burguesia significa, ao mesmo tempo, um rompimento com a social-democracia que raivosa se volta contra os trabalhadores, por serem “despolitizados”. Do ponto de vista da social-democracia, os trabalhadores são despolitizados e do ponto de vista do proletariado a social-democracia é despolitizada e despolitizante. Isto é possível porque se entende coisas diferentes por “política” e a política da burguesia é diferente da política dos trabalhadores.
A concepção burguesa da política, reproduzida pela social-democracia, afirma que a luta política deve convergir para o estado, que é a “síntese” da sociedade civil. O estado burguês assume a aparência universal e esse processo de universalização cria o “interesse nacional” e a “cidadania”. Esta é uma das formas de se apagar as lutas de classes na sociedade, pois todos são “cidadãos” que defendem o “interesse nacional”. A cidadania retira as diferenças de classe e o interesse nacional as diferenças dos interesses de classe[10].
Marx dizia que o direito é a aplicação de uma regra única a seres humanos que são diferentes e, sendo assim, pode-se dizer que o “direito ao voto” ou o “direito a candidatar-se” não passa de uma farsa, pois os eleitores e aqueles que querem ser candidatos são pessoas com inúmeras diferenças (financeiras, políticas, culturais, etc.), ou seja, o direito igual é aplicado a pessoas de diferentes classes sociais e por isso significa a desigualdade e a injustiça. Trata-se de uma armadilha ideológica, pois ao invés do operário, burocrata, camponês, burguês, etc., aparece “o cidadão”. Os cidadãos possuem os mesmos direitos e portanto são, nessa inversão da realidade, iguais. Por isso, “a emancipação política é a redução do homem, de um lado, a membro da sociedade burguesa, a indivíduo egoísta independente e, de outro, a cidadão do estado, a pessoa moral”. Porém, “somente quando o homem individual real recupera em si o cidadão abstrato e se converte, como homem individual, em ser genérico, em seu trabalho individual e em suas relações individuais; somente quando o homem tenha reconhecido e organizado suas forces propes [próprias forças] como forças sociais e quando, portanto, já não separa de si a força social sob a forma de força política, somente então se processa a emancipação humana”[11].
A partir disto se coloca a opção: os partidos de “esquerda” fazem uma política de classe e se arriscam a perder as eleições mas contribuem na organização e mobilização dos trabalhadores ou fazem a política da burguesia e podem até ganhar as eleições mas neste caso já estarão desfigurados e isto seria contrário aos interesses da classe trabalhadora.
A luta das esquerdas deve ser contra o capitalismo e sua democracia. Isto não quer dizer que se deve abandonar definitivamente qualquer tipo de participação em tal “democracia”. Mas esta participação deve estar subordinada aos interesses de classe do proletariado e que por isso tem como objetivo principal acirrar as contradições do capitalismo e colocar em evidência o programa comunista. Contudo, deve-se deixar claro que a participação ou não-participação, assim como suas formas, dependem fundamentalmente do momento histórico e da especificidade e situação concreta de cada país. A incompreensão da  situação particular de cada país leva geralmente ao não-entendimento de certos fenômenos e por isso se desenvolve uma prática política equivocada. Um exemplo disso foi a incompreensão de Trotsky sobre o papel do anarquismo e do POUM (Partido Operário de Unificação Marxista) na guerra civil espanhola, o que lhe valeu a ruptura com Victor Serge e outros militantes.
As esquerdas em vez de se iludirem com a democracia burguesa e com as reformas legais procurando, sobre hegemonia das classes auxiliares da burguesia, forma um “bloco histórico reformista”, deveriam assumir uma política de classe procurando, sob hegemonia do proletariado, formar um “bloco revolucionário”. Este contaria com o proletariado e com classes e frações de classes que podem historicamente cumprir um papel revolucionário, como, por exemplo, o campesinato e o lumpemproletariado. As organizações revolucionárias e os movimentos sociais, como o ecológico, o negro, o das mulheres, entre outros, também devem compor este bloco juntamente com os indivíduos revolucionários provenientes de outras classes sociais.
Além da composição social diferenciada, o bloco revolucionário difere do bloco reformista pelo projeto político. O programa de reformas caracterizado por ser antimonopolista, antilatifundiário e antiimperialista do bloco reformista não toca questões essenciais e caracterizadores do programa comunista, como a abolição do mais-valor, do estado e a autogestão social. O bloco reformista propõe reformar o capitalismo ao invés de superá-lo. O bloco revolucionário, pos sua vez, propõe a destruição do capitalismo e a instauração do comunismo, o que significa colocar a ênfase na transformação das relações de produção e não em questões superficiais.
Mas se a opção dos partidos de “esquerda” for ganhar as eleições, a situação se altera. Uma vez ganhando as eleições, os “representantes dos trabalhadores” não podem fazer muita coisa no parlamento por vários motivos: desde os limites constitucionais e regimentais até a composição majoritariamente conservadora que caracteriza o parlamento, sem falar na pressão do poder executivo e dos lobbies extraparlamentares.
Caso conquiste o poder executivo, o que ocorrerá é que os “representantes dos trabalhadores” vão administrar o capitalismo para a burguesia. Existe uma contradição entre a classe operária e o poder político burguês e cabe a quem entra na luta política escolher o lado que vai ficar. A estrutura burocrática e hierárquica do poder burguês e o seu funcionamento condicionado pelo modo de produção capitalista fazem com que, independentemente de quem está no poder, o movimento operário acabe sendo reprimido por ele. Não é preciso apresentar os exemplos disso no mundo, inclusive no Brasil. As regras da democracia burguesa são contra-revolucionárias e por isso não há sentido em dizer que ela é condição para instauração do socialismo. A instauração do socialismo só é possível com a sua destruição.
Os ideólogos da democracia burguesa também dizem que a democracia é um valor estratégico permanente que deve ser preservado no socialismo (comunismo) convivendo com a “democracia direta”. Então vejamos se há compatibilidade entre democracia representativa e socialismo. O socialismo como projeto político ainda não foi realizado historicamente, embora tenha se concretizado em breves momentos e posteriormente tenha sido derrotado pela contra-revolução, significa fundamentalmente a socialização dos meios de produção. Isto quer dizer que os meios de produção se tornam propriedade coletiva. Mas a propriedade só é verdadeiramente coletiva se a coletividade possuir a sua direção. Portanto, o socialismo pressupõe a autogestão. O socialismo significa o fim da divisão social do trabalho. Ora, a democracia representativa se baseia na divisão entre representantes e representados, o que leva fatalmente a divisão entre dirigentes e dirigidos e entre não-produtores e produtores: o representante não vai dispor de tempo para executar suas funções se for também um produtor. Assim, o produtor perde o poder de decisão em favor do não-produtor. Mantém-se a divisão social do trabalho e realiza-se a “perversão” da representação que se transforma em nova forma de dominação e exploração.
O que pode parecer “perversão” da representação é, na verdade, sua própria natureza. Na sociedade capitalista as diversas classes sociais deveriam elaborar um projeto político que expressasse suas necessidades, interesses, aspirações e escolher alguém para apresentá-lo. Entretanto, são as cúpulas que já detém o poder político e financeiro que preparam diversos programas políticos e os apresentam a população. Esta é obrigada a escolher um destes ou não escolher nenhum, abstendo-se. Deve-se acrescentar que nem todos os candidatos são eleitos e com isso apenas parte da população é “representada”, que é a parte dos eleitores que votaram nos candidatos vencedores. A representação significa a transferência de poder do representado para o representante.
Aqueles que compreendem que no “socialismo” deve haver uma união entre democracia representativa e direta pensam que numa sociedade socialista será diferente. Isto não é verdade, pois, “numa sociedade socialista, um poder político organizado sob formas de democracia representativa (eleição a cada tantos anos e sobre a base de programa genéricos, o indivíduo isolado como sujeito político, concentração formal do poder num corpo representativo) está condenado a ser mais mistificado e mistificante  do que numa sociedade capitalista. Todas as decisões reais, e antes de mais nada a determinação do plano econômico, escaparão ao controle do eleitor e do parlamento: um e outro serão impotentes e não estarão preparados para exercer este controle. O poder real será então assumido por uma estrutura centralizada, por uma minoria iluminada: o partido (ou os partidos) dominante e a tecnocracia. E por trás do véu da soberania popular, das eleições, do parlamento, todos os coletivos sociais ficarão reduzidos à categoria de instrumentos consultivos ou de correias de transmissão da vontade de uma minoria”[12]. Resta lembrar que isto, entretanto, não será socialismo.
A democracia representativa não é um valor universal e sim um valor burguês (específico de uma classe). É também uma forma de dominação burguesa que pode se transformar em uma forma de dominação burocrática. Marx já dizia que uma classe que pretende se tornar uma nova classe dominante apresenta seus interesses particulares como os interesses gerais da sociedade[13]. Uma vez no poder esta classe se apresenta como portadora e representante de toda a sociedade. A nova dominação de classe e a nova sociedade classista passam a ser consideradas “naturais” e “universais”, invertendo a realidade na esfera da consciência. É assim que a democracia “burguesa” se torna um valor “universal”.
A solução deste dilema só pode surgir quando aparecer uma classe que não pode se libertar sem, ao mesmo tempo, abolir todas as classes e, conseqüentemente, a dominação de classe em geral. Esta classe é o proletariado, pois ele ao se libertar concretiza a libertação de toda a sociedade. Assim, o interesse particular do proletariado é, ao mesmo tempo, o interesse geral da sociedade. A unidade do interesse particular de classe e o interesse geral da sociedade se materializa no proletariado.
Mas pode surgir, no capitalismo, uma outra classe social querendo se tornar uma nova classe dominante e que, por isso, deve apresentar seus interesses particulares como universais. Como é na classe operária que se dá a fusão do particular com o geral, esta classe precisa se auto-intitular representante ou vanguarda do proletariado. Kautsky afirmou que o movimento operário é incapaz de emancipar o proletariado estando desprovido de teoria, que é acessível aos meios burgueses[14].
Segundo Massimo Salvadori, Kautsky pretendia “desenvolver o marxismo” com a intenção de retirar os aspectos “utopistas” do pensamento de Marx e engels. Mas acabou fazendo “uma revisão do próprio marxismo”. Qual o caráter desse revisionismo? Salvadori diz que “esse revisionismo refere-se aos seguintes pontos fundamentais: a teoria da crise ‘final’ do capitalismo, a ‘ruptura’ da máquina estatal, o autogoverno, o fim da divisão do trabalho e a ‘extinção’ do Estado”[15]. Acrescente-se a isso a sua tese de que são necessários os “métodos científicos” para se alcançar a consciência socialista e vemos claramente o seu caráter burocrático.
A burguesia e a burocracia são as classes que têm o interesse em afirmar que a democracia é um valor universal e Kautsky foi o primeiro grande ideólogo da burocracia. Certamente o foi de forma não consciente. Trocando a ordem da frase de Marx, pode-se dizer que assim como não se julga uma época de transformação pela consciência que ela tem de si mesma, não se pode julgar um indivíduo pela consciência que tem de si. Afinal, “não é a consciência que determina a vida, mas a vida que determina a consciência”[16].
Nem todos os que se dizem socialistas realmente o são. Como bem disse François Perroux, muitos “acreditam estar morrendo pela classe, morrem pelos rapazes do Partido. Acreditam estar morrendo pela Pátria, morrem pelos industriais. Acreditam estar morrendo pela liberdade da Pessoa, morrem pela Liberdade dos dividendos. Acreditam estar morrendo pelo Proletariado, morrem por sua burocracia. Acreditam estar morrendo pr ordens de um estado, morrem pelo dinheiro que mantém o estado. acreditam estar morrendo por uma Nação, morrem pelos bandidos que a amordaçam”[17].
Nós, à esquerda, ao contrário da burocracia, devemos formar um “bloco revolucionário” e incentivar a auto-organização das massas através de conselhos de fábrica, comitês de bairro, etc. e, com isso, destruir o estado burguês e sua “democracia”, construindo a autogestão social, a única forma possível que manifesta a etimologia da palavra democracia: governo do povo.
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Artigo publicado originalmente na Revista Brasil Revolucionário, Vol. 08, 07 de Junho de 1991.





[1] Coutinho, Carlos Nelson. A Democracia Burguesa Como Valor Universal. São Paulo, Ciências Humanas, 1980, p. 25.
[2] Luxemburgo, Rosa. Reforma Social ou Revolução? São Paulo, Global, 1986, p. 50.
[3] É óbvio que os escritos de Marx dão margem a esse tipo de interpretação no que se refere às forças produtivas mas não em relação ao estado. Sobre as forças produtivas Marx observou que a dialética dos conceitos “forças produtivas” e “relações de produção” apresenta limites que “estão por determinar e que não suprime a diferença real” (Marx, Karl. Contribuição à Crítica da Economia Política. 2 edição, São Paulo, Martins Fontes, 1983, p. 227). De qualquer forma, vários pensadores marxistas (como A. Gorz) e não-marxistas (como Ivan Illich) questionam a neutralidade das forças produtivas e a técnica defendida pelas “esquerdas” tradicionais.
[4] Coutinho, C. N. ob. cit. p. 31.
[5] Marx, Karl. Manuscritos Econômicos e Filosóficos. In: Fromm, Erich. Conceito Marxista do Homem. 3ª edição, Rio de Janeiro, Zahar, 1964, p. 171.
[6] Cf. Kosik, Karel. Dialética do Concreto. 4ª edição, Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1986.
[7] Luxemburgo, Rosa. Ob. cit., p. 100.
[8] Cf. Viana, Nildo. O Que São Partidos Políticos. Goiânia, Edições Germinal, 2003.
[9] Costa Neto, L. Hegemonia e Política de Estado. Paz e Terra, Vozes, 1988, p. 77.
[10] Para uma crítica mais aprofundada da ideologia da cidadania, cf. Viana, Nildo. Estado, Democracia e Cidadania. A Dinâmica da Política Institucional no Capitalismo. Rio de Janeiro, Achiamé, 2003.
[11] Marx, Karl. A Questão Judaica. São Paulo, Moraes, 1978, p. 51-52.
[12] Magri, Lúcio. Parlamento ou Conselhos Operários. In: Pannekoek, Anton e outros. Conselhos Operários. Coimbra, Centelha, 1975, p. 109.
[13] Marx, Karl. Introdução à Crítica da Filosofia do Direito de Hegel. In: Marx, Karl. Ob. Cit.
[14] Kautsky, Karl. As Três Fontes do Marxismo. São Paulo, Global, s/d. 
[15] Salvatori, M. Premissas e Temas da Luta de Karl Kautsky contra o Bolchevismo. In: Mattick, P. e outros. Karl Kautsky e o Marxismo. Belo Horizonte, Oficina de Livros, 1988, p. 164.
[16] Marx, Karl e Engels, Friedrich. A Ideologia Alemã (Feuerbach). 3ª edição, São Paulo, Ciências Humanas, 1982, p. 37.
[17] Apud. Marcuse, Herbert. A Ideologia da Sociedade Industrial. 6ª edição, Rio de Janeiro, Zahar, 1982, p. 194. 

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