quinta-feira, 17 de julho de 2014

Tempo Individual e Tempo Histórico



TEMPO INDIVIDUAL E TEMPO HISTÓRICO


Nildo Viana



Algumas pessoas confundem o tempo individual com o tempo histórico. O tempo individual é aquele do indivíduo, do cotidiano, dos processos sociais que o atinge momentaneamente ou mesmo mais prolongadamente. O tempo histórico é o das sociedades, de suas mutações, suas épocas, seus ciclos, que são expressos em periodizações no nível da consciência.

A dinâmica do tempo individual é distinta da do tempo histórico. O indivíduo, dependendo de sua situação e condições de vida, pertencimento de classe e outros aspectos, pode se sentir impotente, pessimista, envolvido em processos e acontecimentos que não controla. Isso tem a ver com a capacidade individual de intervir no tempo histórico, que é pouca, e está submetido a ele, mas faz parte dele e pode exercer uma influência, maior ou menor, dependendo de diversas determinações, sobre o seu curso. Na política, o avanço ou recuo do proletariado e demais classes desprivilegiadas tendem a atingir os indivíduos que pensam no momento cotidiano, no tempo individual, e não nos processos sociais mais amplos que são muito mais determinantes do tempo histórico e o recuo de uma semana ou mês pode ser contrabalançado ou superado pelo avanço dois meses depois. Uma derrota na vida pessoal ou na posição política aparece como algo catastrófico e assim passa a reinar o pessimismo. Alguns indivíduos concretos podem ter maior dificuldade de dar a volta por cima, de recuperar das derrotas, dos acidentes, dos recuos próprios, alheios ou coletivos, enquanto que outros já superam e continuam firmes na luta, sendo que o derrotismo e pessimismo fortalece justamente a tendência que o gera e o "otimismo militante" (Ernst Bloch) aponta, ao contrário, para a renovação das forças e reforçar a tendência que se defende. No plano do tempo histórico e das lutas sociais, o processo é diferente, são constantes avanços e recuos. Marx explicitou isso em relação às revoluções proletárias:

As revoluções burguesas, como as do século XVIII, avançam rapidamente de sucesso em sucesso; seus efeitos dramáticos excedem uns aos outros; os homens e as coisas se destacam como gemas fulgurantes; o êxtase é o estado permanente da sociedade; mas estas revoluções têm vida curta; logo atingem o auge, e uma longa modorra se apodera da sociedade antes que esta tenha aprendido a assimilar serenamente os resultados de seu período de lutas e embates. Por outro lado, as revoluções proletárias, como as do século XIX, se criticam constantemente a si próprias, interrompem continuamente seu curso, voltam ao que parecia resolvido para recomeçá-lo outra vez, escarnecem com impiedosa consciência as deficiências, fraquezas e misérias de seus primeiros esforços, parecem derrubar seu adversário apenas para que este possa retirar da terra novas forças e erguer-se novamente, agigantado, diante delas, recuam constantemente ante a magnitude infinita de seus próprios objetivos até que se cria uma situação que toma impossível qualquer retrocesso e na qual as próprias condições gritam:
Hic Rhodus, hic salta!
Aqui está Rodes, salta aqui!

O tempo individual revela a consciência individual do tempo presente nesse limite. Os indivíduos devem entender que este é englobado por um tempo muito mais amplo, o social e histórico, com outra dinâmica e por isso que pode surpreender e muitas vezes surpreende. Assim como ninguém esperava certas tentativas de revoluções e lutas radicalizadas, como no caso do Maio de 1968 em Paris ou as manifestações do ano passado no Brasil, entre milhões de outros exemplos, os momentos de recuo e fortalecimento dos adversários e tendências contrárias não devem gerar pessimismo e derrotismo. As contradições e lutas não foram exterminadas, no máximo foram reprimidas e tudo que é reprimido tende a reemergir, e muitas vezes com mais força e radicalidade do que anteriormente, e o que justificou sua repressão. Além disso, a experiência anterior deve servir para o aprendizado e ações mais refletidas e desenvolvidas numa nova investida, de preferência com "impiedosa consciência" das "deficiências, fraquezas e misérias de seus primeiros esforços". Então, ao invés de choramingar, é melhor organizar, refletir, avançar e reiniciar a luta num nível mais elevado.

Leia Mais:
O Papel do Indivíduo na História.

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