domingo, 6 de julho de 2014

IGNORÂNCIA, SUBMISSÃO E PRESUNÇÃO


IGNORÂNCIA, SUBMISSÃO E PRESUNÇÃO


Nildo Viana

Professor da Universidade Federal de Goiás e Doutor em Sociologia/UnB.


A ignorância é uma palavra ambígua. Em certos casos, ela significa falta de saber, ignorar algo; em outros, significa “grosseria” ou desconsideração pela opinião alheia. O problema é que as palavras são geralmente descontextualizadas e retiradas da realidade social na qual se constituíram e ganham significado. Para compreender o real significado da ignorância é necessário analisar o seu significado, o que remete para outras questões, como sua inserção na totalidade da vida social, suas determinações e suas consequências.

A ignorância no sentido de “ignorar algo” ou “falta de consciência ou saber” sobre alguma coisa é extremamente comum. Nesse sentido, somos todos ignorantes, pois ninguém sabe tudo, por mais culto, erudito ou experiente que seja. E por isso não é nada ofensivo ou pejorativo considerar que alguém ignora algo. No entanto, existe uma diferença de grau. Alguns indivíduos ignoram muitas coisas e outros menos. Além dessa diferença quantitativa, há também a qualitativa: alguns ignoram coisas importantes e outros ignoram coisas supérfluas. Outra diferença é afirmar que alguém ignora algo, outra é dizer que ela é ignorante, pois no primeiro caso é um não-saber sobre uma coisa específica e no segundo é algo apresentado como sendo característica do indivíduo, a ignorância do mesmo seria generalizada. Aqui estamos no reino das classificações mais abstratas, mas se inserirmos esta discussão no interior da vida social, podemos entender melhor o problema envolvido.

Ao levar a discussão para o contexto da sociedade, começamos a perceber que o sentido não pejorativo da palavra é muito pouco usado, tal como alguém que afirma que outra pessoa “ignorou o seu aviso”, pois remete a algo bem específico, nada tendo de ofensivo. O uso mais comum é quando se afirma que alguém é ignorante, ou seja, que ignora muita coisa ou as coisas mais importantes. Obviamente que esse tipo de afirmação não é necessariamente verdadeiro, pois numa sociedade fundada na competição social, a desqualificação do outro e seu discurso é algo comum, e sendo o outro ignorante, então há uma valoração daquele que faz tal afirmação, um sinal de distinção e superioridade.

No entanto, as pessoas consideradas na sociedade como mais ignorantes são justamente as pessoas das classes desprivilegiadas, e mais ainda seus estratos mais empobrecidos. Elas ignorariam uma maior quantidade de coisas e as mais importantes. Sem dúvida, isso não é totalmente falso, embora a generalização seja problemática, pois muitos indivíduos das classes privilegiadas também ignoram muitas coisas e a questão do que é ou não importante é valorativa, geralmente remetendo para os valores dominantes. Algumas pesquisas apontam para uma diferença entre um pesquisador médio, que possui um vocabulário em torno de duas mil palavras, enquanto as demais pessoas teriam cerca de duzentas palavras. Por conseguinte, podemos afirmar que há uma tendência (logo, não é algo geral, inevitável, etc., não sendo generalização nem determinismo) de que as pessoas das classes desprivilegiadas possuam um vocabulário menor que as das classes privilegiadas (e no interior destas há também uma tendência à hierarquia, sendo que os intelectuais, devido sua profissão e atividades cotidianas, tenham um vocabulário mais extenso do que outras classes).

A questão qualitativa já é mais difícil de ser abordada, pois ela remete aos valores dos indivíduos. Um pescador pode ignorar as tendências do mercado financeiro e do processo inflacionário, as políticas governamentais, o significado do capitalismo, a existência das classes sociais ou entender praticamente nada de arte, ciência e política institucional. Se ele ignora tudo isso, ao mesmo tempo ele tem um saber acumulado sobre pescaria, suas técnicas, localização mais adequada, e diversos outros aspectos envolvidos, bem como sobre sua tradição familiar, sobre sua vida cotidiana, entre inúmeras outras coisas. A sua ignorância é relativa, assim como o seu saber. E para os seus próprios valores, ele certamente considerará que ignora coisas sem importância e possui consciência das coisas que são relevantes. Sem dúvida, a pescaria é o seu meio de sobrevivência, e, portanto, é importante para ele. Contudo, não saber da inflação, das políticas governamentais, das relações entre as classes sociais, que afetam diretamente seus rendimentos e situação social, entre outras coisas relacionadas com a sua sobrevivência, demonstra que os seus valores são constituídos socialmente e que sua percepção do que é mais valoroso para ele é obstaculizado por sua consciência restrita da totalidade da vida social. Uma vez que ele não tenha consciência disso, sua ação e o desenvolvimento de sua consciência ficarão na dependência de outras pessoas e influências (meios oligopolistas de comunicação, intelectuais, pessoas de destaque do seu próprio meio, etc.). Nesse sentido, podemos dizer que a ignorância é mãe da submissão. Quanto mais ignorante for um indivíduo, maior é a tendência de ser submisso.

Contudo, a ignorância não atinge apenas indivíduos das classes desprivilegiadas. Muitos indivíduos das classes privilegiadas também possuem um alto grau de ignorância, seja em matéria de quantidade e/ou de qualidade. Um artista, por exemplo, pode ter um grande saber sobre técnicas artísticas e história da arte, assim como o pescador sabe da pescaria, mas pode entender muito pouco de política e questões sociais. É por isso que muitos artistas bem intencionados buscam fazer crítica social, mas ficam num nível elevado de superficialidade e não ultrapassam o moralismo. Além disso, o modo de vida fútil e os valores dominantes são aliados poderosos da ignorância de amplos setores das classes privilegiadas. Somando a isso a preguiça[1] de diversas pessoas, temos um quadro no qual a ignorância não é um atributo de classe, pois se espalha por toda a sociedade, mesmo para aqueles que possuem recursos para superá-la, mas preferem comprar coisas inúteis e supérfluas – ou mesmo com certa utilidade (como uma lanterna que raramente será utilizada) – ao invés de um livro, ou então comprar uma revista de fofocas sobre a vida de artistas ao invés de comprar uma obra literária ou teórica.

A ignorância possui inúmeras determinações, desde os recursos financeiros, acesso à educação formal, cultura de origem, passando por valores e interesses, que estão intimamente relacionados com a totalidade da sociedade, o pertencimento de classe, a ação do Estado e dos meios oligopolistas de comunicação e do mercado, entre diversas outras. A sua principal consequência já foi colocada: a submissão. Obviamente que com variações e sofrendo outras determinações, ela é uma fiel acompanhante da ignorância.

No entanto, a ignorância é entendida também em outro sentido. O segundo sentido da palavra remete à questão da “grosseria” ou desconsideração ou desrespeito pelas posições e opiniões alheias. Não é possível pensar a ignorância como apenas grosseria. Nesse caso seria mera e pura grosseria. Quando se pensa a ignorância desta forma, ela tem um sentido bem próximo ao de desrespeito e desconsideração pelas ideias alheias. Isso é também relativamente comum. Muitas pessoas descartam, menosprezam, ridicularizam e zombam de ideias, opiniões, afirmações, de outros. Claro que aqui também atua a competição social, algo estrutural da sociedade capitalista, bem como a busca de vencê-la, colocando-se como superior, mais culto, distinto. Na verdade, isso é algo que não deve ser confundido com o caso no qual em um debate entre duas pessoas e um realmente possui maior saber sobre o assunto em questão e o outro demonstra ter menos saber, pois aí não há ignorância e sim grosseria, indelicadeza, etc., a não ser que provocado pela ignorância do oponente. Ou seja, aqui, nesse caso, a ignorância pode emergir apenas do lado daquele que sabe menos, pois este é o seu elemento definidor. O ignorante, nesse sentido, pensa saber mais do que os outros apesar de não ter realizado estudos, reflexões, pesquisas, para desenvolver sua consciência. Ele apenas nega e recusa o que o outro tem a dizer, mas não demostra ter nenhum saber real sobre assunto. É como uma pessoa que ao ouvir dizer que Descartes foi um grande filósofo, sem conhecer sua obra e ideias, simplesmente diz que ele é “idiota” ou qualquer outro adjetivo pejorativo. É comum, para tais pessoas, fazerem afirmações sobre coisas que desconhecem como se fosse verdade e querendo desqualificar opiniões e posições contrárias, apelando para agressividade, retórica, desqualificação. Também é constante recusar ideias e afirmações sem ter nenhuma informação ou consciência (ou tendo muito superficialmente, desde o “ouvi dizer” a um livro lido e mal interpretado, ou mesmo bem interpretado, o que significa ingenuidade em depositar a crença na verdade do mesmo sem maiores reflexões e leituras) do que está em discussão. Alguns seguem correntes de opinião em voga, transformando o pensamento da maioria em verdade inquestionável. Isso caracteriza uma das características presentes nas pessoas que fazem isso, a presunção. Isso significa que a pessoa considera suas suposições não fundamentadas e sobre coisas que pouco conhece como superiores a ponto de facilmente desconsiderar ou descartar as demais posições e opiniões. Nesse sentido, a ignorância é mãe da presunção.

Essa forma de ignorância, associada à presunção, é gerada mais por pessoas que se apegam a tradições e doutrinas, gerando dogmatismos, ou por pessoas com uma formação psíquica que promove a presunção como mecanismo de defesa. Como fenômeno coletivo, é mais comum em grupos ligados a certas religiões, doutrinas políticas, geralmente atingindo as classes desprivilegiadas e determinados setores das classes privilegiadas. Também é constante com pessoas com preguiça mental, que buscam respostas imediatas e se apegam a elas quando as conseguem, por mais superficiais e pouco fundamentadas que sejam.

As consequências dessa forma de ignorância são conflitos e debates, desentendimentos desnecessários, quando são casos mais individuais, e, quando assume formas coletivas, o dogmatismo que gera intolerância política, religiosa, etc. e conflitos coletivos entre indivíduos e grupos. A formação de seitas e a proliferação do dogmatismo (e do anti-intelectualismo) são bastante comuns em grupos, formais ou não, que se aliam com esse processo. No plano individual significa não haver avanço intelectual e desenvolvimento da consciência e no plano coletivo significa uma lentidão no avanço das lutas sociais ou seu bloqueio em determinados setores.

Em síntese, a ignorância, seja ligada à submissão seja ligada à presunção, é sempre prejudicial para o projeto de emancipação humana e para o desenvolvimento da consciência, bem como elemento de estagnação intelectual dos indivíduos. A ignorância nunca foi aliada do processo de transformação social ou mesmo individual. Por conseguinte, a superação da ignorância deveria ser compromisso de todos. A luta contra a ignorância, a própria e a alheia, é fundamental para todos que lutam pela transformação social.
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Artigo publicado originalmente em: 
VIANA, Nildo. Ignorância, Submissão e Presunção. Revista Posição. Ano 01, Vol. 01, num. 02, fevereiro de 2014.







[1] Aqui a palavra preguiça não tem a conotação falsa de ser algo inato e/ou inexplicável, significa tão somente falta ou pouca vontade, sendo um produto social e ligado ao problema fundamental da alienação e da evasão na sociedade capitalista.

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