terça-feira, 3 de maio de 2011

A VOZ DOS TRABALHADORES PRECOCES: ENTREVISTA E GRUPOS SILENCIADOS


A VOZ DOS TRABALHADORES PRECOCES: ENTREVISTA E GRUPOS SILENCIADOS*

Nildo Viana

O presente texto nasceu da necessidade de compreender contradições encontradas no discurso de pessoas entrevistadas, bem como determinadas formas de reação destas. Neste sentido, iremos analisar o processo de entrevista quando envolve grupos sociais oprimidos, partindo do caso dos trabalhadores precoces[1], supondo que a partir deste caso se pode generalizar as conclusões para todos os grupos sociais oprimidos.
Partimos do seguinte princípio metodológico: uma entrevista não é um “dado” e sim um processo, um processo constituído pela relação entrevistador/entrevistado e pela posição e formação de ambos. A partir deste princípio metodológico e de uma discussão teórica sobre o processo de entrevista com grupos sociais oprimidos iremos analisar o caso dos trabalhadores precoces que, segundo nosso ponto de vista, tal como já colocamos, serve de paradigma para compreender o problema da entrevista com grupos sociais oprimidos.
As entrevistas que forneceram o material informativo que utilizaremos para discutir a questão do processo de entrevista com grupos sociais oprimidos se referem à problemática do trabalho de menores de idade, onde se buscava descobrir a visão do trabalho por parte dos trabalhadores precoces.
O que os trabalhadores precoces pensam do seu trabalho? Como eles se sentem desenvolvendo atividades remuneradas? Por qual motivo ingressam no mercado de trabalho? Qual é a relação entre trabalho e estudo em sua percepção? Estas são algumas questões que encontramos quando tratamos da questão do trabalho precoce. Entrevistamos vinte e cinco trabalhadores precoces visando ver como eles respondiam algumas destas questões. Porém, esbarramos novamente em um problema metodológico da entrevista, do qual trataremos a seguir.
Trabalhador Precoce: O Outro do Outro
Como colocamos anteriormente, a força de trabalho precoce se encontra numa situação de fragilidade diante do capital e os indivíduos menores de dezoito anos possuem uma autonomia menor diante da sociedade. Outros segmentos da força de trabalho e da sociedade também se encontram em situação análoga mas nenhuma com tão poucos recursos para resistir.
Porém, isto tem implicações mais profundas, pois o grupo social composto por indivíduos menores de dezoito anos não consegue, tal como outros grupos sociais oprimidos, manifestar sua voz, seus desejos, etc. Trata-se de um “grupo silenciado”. Edwin Ardner elaborou a teoria dos grupos silenciados para explicar o fato da existência de grupos sociais que não conseguem se manifestar e apresentar seu próprio discurso, e nas raras vezes que o consegue é utilizando a linguagem dominante, ou seja, ainda fica sob o efeito da dominação[2]. Os grupos sociais silenciados são envolvidos pela cosmovisão, pela ideologia e pela linguagem dominantes e quando manifesta sua voz não consegue se livrar do discurso dominante.
Isto traz um sério problema para a técnica da entrevista. O que o entrevistado geralmente fornece é sua “opinião” e esta geralmente está em concordância com o discurso dominante. Tal como colocaram Erich Fromm e Michael Maccoby: “uma opinião por si mesma nada mais é que a aceitação de um padrão de pensamento compartilhado pela sociedade em geral ou por determinado grupo (...). Foi admitido [em sua pesquisa sobre o camponês] que só as opiniões arraigadas na estrutura do caráter de uma pessoa — se forem, pode-se dizer, ‘opiniões entranhadas’ — constituem motivações possantes para agir. No caso duma opinião com raízes na estrutura do caráter, deve-se falar de uma convicção, ao invés de uma opinião. Convicções de raízes profundas são, com efeito, as motivações mais pujantes para ação desde que as possibilidades para esta tenha surgido (isso se aplica a qualquer gênero de convicção, que seja racional ou irracional, boa ou má, certa ou errada)” [3].
Os trabalhadores precoces quando emitem suas opiniões se comportam como “o Outro” gostaria de vê-los se comportando. Quem é este outro? O adulto. Parafraseando Simone de Beauvoir, o jovem determina-se e diferencia-se em relação ao adulto e não este em relação aquele. Segundo esta mesma autora, retomando Hegel, o sujeito só se afirma negando outro sujeito, transformando-o em “objeto”. Desta forma, para um grupo social se tornar “o outro” de outro grupo social é preciso que ele aceite isso e deixe de se considerar sujeito. Não é isto que ocorre na relação de diversos grupos sociais, mas é, segundo Beauvoir, o que ocorre com a mulher. Segundo ela, “nenhum sujeito se coloca imediata e espontaneamente como inessencial; não é o Outro que definindo-se como Outro que define o Um; ele é posto como Outro pelo Um definindo-se como Um. Mas para que o Outro não se transforme no Um é preciso que se sujeite a esse ponto de vista alheio”[4].
Isto também ocorre com indivíduos menores de dezoito anos (crianças, adolescentes, jovens, ou qualquer outro nome que se lhe dê), pois eles são definidos como o Outro dos adultos e aceitam este “ponto de vista alheio”. É por isso que podemos dizer que as mulheres e os “menores de idade” são grupos silenciados e são silenciados por que são oprimidos[5].
Isto então quer dizer que o processo de entrevista com trabalhadores precoces é inútil, porquanto não ouvimos sua voz? Não, mas significa que o processo de análise da entrevista é bem mais complexo e difícil do que parece à primeira vista. Isto deriva do princípio metodológico anteriormente colocado segundo o qual os “dados” obtidos pela entrevista não são “coisas” ou “objetos”. É por isso que, tal como colocaram Fromm e Maccoby, “a pesquisa social tem sido restringida sobretudo por métodos que fornecem dados a respeito do comportamento, tais como opiniões e atitudes conscientes”[6].
Ainda segundo estes autores, “no questionário convencional, as respostas são tomadas como matéria-prima ou codificadas segundo categorias de comportamento e a tarefa consiste em analisá-las estatisticamente, seja simplesmente em termos de freqüência de cada uma delas, ou duma forma mais requintada, por meio de análise fatorial, que revela grupos de respostas encontradas juntas com freqüência significante”[7].
A diferença entre esta concepção e a de Fromm e Maccoby se encontra na interpretação das respostas, que, no último caso, busca não somente o “dito” mas “seu significado inconsciente e não-premeditado”. É a partir desta perspectiva que iremos analisar as entrevistas realizadas com os trabalhadores precoces, buscando ouvir sua voz por detrás do seu silêncio.
Trabalhadores Precoces e o Significado do Trabalho
Os trabalhadores precoces entrevistados, em sua maioria, afirmaram que trabalham por necessidade, ou seja, para garantir sua sobrevivência e ajudar a família. Uma grande parte afirmou que os pais começaram a trabalhar bastante jovens. Porém, o processo de entrevista apresenta uma dificuldade: a relação entre entrevistador e entrevistado assume a forma de uma relação entre adulto e criança\adolescente. Devido a isto o entrevistado não responde, na maioria dos casos, tal como pensa e sim de acordo com a sua suposta expectativa do outro. Em outras palavras, o entrevistado responde as questões de acordo com a expectativa do entrevistador embora, em muitos casos, esta expectativa seja uma atribuição do entrevistado ao entrevistador e não uma expectativa existente de fato. Cria-se, assim, uma atribuição de expectativa ao entrevistador.
No nosso caso isto acabou ocorrendo. Mas como surge a expectativa atribuída ao entrevistador? O trabalhador precoce, retomando o que anteriormente colocamos, se define pela definição do outro (sendo que este é o adulto). Isto ocorre com o processo de socialização, no qual a criança vai criar a figura do adulto como “outro generalizado”, segundo expressão de George H. Mead. Segundo este autor, “é sob a forma do outro-generalizado que o processo social afeta o comportamento dos indivíduos nisso comprometidos ou que o realizam, isto é, que a comunidade exerce um controle sobre a conduta de seus membros. É dessa maneira, com efeito, que o processo social ou a comunidade se tornam um fator determinante do pensamento do indivíduo”[8].
O entrevistador é identificado com o grupo dos adultos e por isso as respostas são condicionadas pela expectativa atribuída pelo trabalhador precoce. Qual é a expectativa atribuída pelo trabalhador precoce ao entrevistador no caso de pergunta sobre o trabalho? É a de que o entrevistador tenha a mesma concepção que os demais adultos. Na maioria das entrevistas os pais, segundo os trabalhadores precoces entrevistados, apoiam o fato do filho\filha trabalhar. Nestes casos, os trabalhadores também dizem gostar de seu trabalho, com raras exceções. Aqui nos interessa muito mais as exceções do que a regra, pois são nos casos extraordinários que a resposta condicionada pela expectativa atribuída ao entrevistador é superada e ao invés da opinião temos a convicção.
Tomemos dois exemplos. O primeiro exemplo nos mostra um trabalhador precoce que diz que acha seu trabalho “excelente” e no decorrer da entrevista acaba demonstrando o contrário:
  — O que você acha do seu trabalho?
  — Excelente.
  — O que você mais gosta no seu trabalho?
  — O que eu mais gosto? Da hora do almoço.
  — Por quê você gosta da hora do almoço?
  — Porque eu tenho duas horas para almoçar, ué!
  — Por causa do tempo livre?
  — É.
  — O que você menos gosta em seu trabalho?
  — Trabalhar.
  — Por quê?
  — É muito cansativo.
  — Você abandonaria seu trabalho se pudesse?
  — Com certeza (Paulo, 17 anos).
Aí vemos uma contradição visível e que seria incompreensível sem a percepção da resposta condicionada pela expectativa atribuída ao entrevistador e a visão de que essa expectativa é a de que o entrevistador compartilhe a mesma visão do trabalho que os demais adultos com os quais o entrevistado convive.
O outro exemplo nos permite ver a percepção da alienação por uma trabalhadora precoce. Ela responde da seguinte maneira à pergunta sobre o que acha de seu trabalho:
“Eu gosto, mas não sinto bem. Não me sinto muito bem, sabe? Eu sinto assim algo estranho, como se tivesse algo me prendendo, fazendo coisa que não gosto. Mas eu não quero sair [do emprego] para não ver os outros falando de mim” (Vausciley, 15 anos).
Esta trabalhadora precoce afirma que trabalha porque precisa e para ajudar a família. Ganha um salário mínimo e não tem carteira assinada. Os seus pais começaram a trabalhar desde cedo e todos em sua família trabalham. Os seus familiares gostam do fato dela trabalhar, “dão dez” e quando ela não está empregada é criticada. Ela diz que é “forçada” a trabalhar. Ela também afirma que o trabalho dificulta seu desempenho na escola e que melhora seu rendimento escolar quando não está trabalhando. Disse também que abandonaria o emprego, sem a menor dúvida, para se dedicar aos estudos. Por fim, coloca em evidência os danos psíquicos que o trabalho alienado provoca em uma jovem de 15 anos:
“Eu passei por psicóloga. A médica me deu encaminhamento para a psicóloga” (Vausciley, 15 anos).
Vemos neste caso novamente a contradição: “eu gosto, mas não me sinto bem” e a consciência dos efeitos do trabalho sobre sua vida (desempenho prejudicado na escola, problemas psíquicos). Mas como explicar o “eu gosto” (mesmo que logo acompanhado pelas outras afirmações que demonstram que na verdade não gosta)? O eu gosto é uma resposta condicionada, pois a entrevistada considerava que o entrevistador, sendo adulto, compartilhava a opinião de sua família — e certamente da psicóloga — sobre a necessidade de se “adaptar” ao trabalho.
A grande maioria dos entrevistados reproduzem o discurso da classe dominante e dos seus pais sobre o seu trabalho:
“É melhor trabalhar do que ficar na rua. Na rua a gente pode aprender coisa errada. Tem muita marginalidade na rua. Então é melhor trabalhar prá não ficar na rua. A gente aprende [no trabalho] a coisa certa, gasta o tempo aprendendo coisa boa e não coisa ruim” (Fernando, 12 anos).
Neste sentido, observamos que os trabalhadores precoces, na maioria dos casos, reproduzem o que o mundo dos adultos circundante pensa a respeito do trabalho. Raras são as exceções e quando elas ocorrem é de forma contraditória.
Desta forma, observamos que os grupos socialmente oprimidos também são oprimidos e silenciados no processo de entrevista, independente da intenção do entrevistador. Disto resulta a necessidade de repensar o processo de entrevista e de buscar realizar análises mais complexas, visando superar a ilusão com a mera opinião e também a idéia de que as entrevistas são “dados”.
_________________________
Artigo publicado originalmente em:
VIANA, Nildo. A Voz dos Trabalhadores Precoces: Entrevistas e Grupos Silenciados. Revista Espaço Livre, Vol. 3, num. 06, Jul/2007-Dez./2008.



* O presente texto é uma parte de nossa Dissertação de Mestrado Inspeção do Trabalho e Trabalho Precoce, com ligeiras alterações formais.
[1] Por trabalhadores precoces compreendemos os trabalhadores menores de dezoito anos.
[2] Apud. Moore, Henrietta. Antropologia Y Feminismo. Madrid, Ediciones Cátedra, 1991.
[3] Fromm, Erich & Maccoby, Michael. Caráter Social de uma Aldeia. Um Estudo Sociopsicanalítico. Rio de Janeiro, Zahar, 1972, p. 45.
[4] Beauvoir, Simone de. O Segundo Sexo. Vol. 1. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1988, p. 16.
[5] “As mulheres e as crianças são mencionadas simultaneamente (‘mulheres e crianças, para trás’). O vínculo especial que as mulheres têm com as crianças é reconhecido por todos. Contudo, proponho que a natureza desse vínculo não passa de uma opressão compartilhada” (Firestone, Shulamith. A Dialética do Sexo. Rio de Janeiro, Labor do Brasil, 1976, p. 87).
[6] Fromm, Erich & Maccoby, Michael. Ob. cit., p. 43.
[7] Fromm, Erich & Maccoby, Michael. Ob. cit., p. 46.
[8] Mead, George H. O Jogo Livre (Folguedo), o Jogo Regulamentado e o “Outro Generalizado”. In: Birbaun, P. & Chazel, F. (orgs.). Teoria Sociológica. São Paulo, Hucitec, 1977, p. 27. Sobre o “outro generalizado” no processo de socialização, veja-se também: Berger, Peter & Luhmann, Thomas. A Construção Social da Realidade. 7A edição, Petrópolis, Vozes, 1987.  Esta situação é análoga a que o psicanalista Rollo May observa na prática psicológica, a ingenuidade do pesquisador diante do pesquisado, principalmente o de orientação behaviorista. Ele coloca isto através de uma parábola, na qual um psicólogo se encontra diante de São Pedro na  porta do Céu e é criticado por este devido sua esquematização grosseira e se defende ao afirmar que pensa estar deixando “o homem falar por si próprio” e julga estar correto pelo motivo de que “todos os sujeitos participaram de boa vontade nas experiências”.  Rollo May coloca o seguinte posicionamento de São Pedro: “o animal humano tem uma grande capacidade para fingir que é ludibriado e não deixar sequer aperceber-se de que está fingindo. Mas era você que eu tinha em melhor conceito...” (May, Rollo. Psicologia e Dilema Humano. 3a edição, Rio de Janeiro, Zahar, 1977, p. 14).

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