quarta-feira, 30 de março de 2011

Conto: A Viagem


A VIAGEM
NILDO VIANA

Às 08 horas entrei no ônibus. Sentei e logo a viagem começou. Na minha frente, dois olhos verdes me fitavam. Pareciam perguntar: “quem é você?”. Me voltei para a janela e olhei a paisagem. A paisagem ia passando e parecia ir, a cada momento da viagem, se despedindo de mim: adeus, adeus, adeus...

A cada etapa da viagem parecia que um pedaço de mim ficava para trás. Olhei para frente e tive que enfrentar novamente os olhos verdes. Eles me disseram:

¾ Você admite que é o culpado? Se não confessar será torturado!

Havia uma luz intensa em cima de mim e a cena que eu vivia parecia ter sido retirada de um interrogatório de filme policial. O tom de voz se tornava cada vez mais ameaçador. A faca anunciava a tortura. Eu não agüentei e me voltei imediatamente para a janela e o meu confronto com a paisagem.

A paisagem ia passando. Mansões e casebres, morros, montanhas, árvores, coisas e pessoas, pessoas e coisas. O barulho do vento parecia me dizer: estou ficando para trás, estou ficando para trás, estou ficando para trás...

Resolvi olhar novamente para a frente. Diante de mim havia um juiz, de olhos verdes e roupas tradicionais, atrás de mim um conjunto de pessoas que parecia ser um jurado ou então marionetes. O juiz, com voz grave, falou:

¾ Vamos dar o veredicto!

Imediatamente olhei para a paisagem. As horas tinham passado e eu nem percebi, pois já era noite e eu nem tinha percebido. A escuridão do lado de fora era total. Estava chovendo e a chuva batia na janela. O som deste encontro entre água e janela parecia me dizer: não se esqueça de mim, não se esqueça de mim, não se esqueça de mim...

A escuridão aumentava e tomava conta de tudo. O silêncio reinava absoluto. Eu não sentia mais meus membros. O pavor tomou conta de mim. Só quando isto aconteceu que resolvi olhar novamente para frente. Lá, o juiz sentenciou:

¾ O réu é considerado culpado e a sua sentença é a morte!

Fiquei novamente apavorado. O meu fim parecia chegar e eu nada podia fazer. Mas, não sei como, arranquei forças dentro de mim e desafiei a autoridade:

¾ Por que tanta crueldade?

Me calei. Pensei muito sobre isto. Logo eu mesmo lhe respondi:

¾ É a maldade!

O silêncio foi interrompido por uma gargalhada tão sonora que parecia que eu estava dentro de um sino gigantesco que se movia de um lado para o outro com o seu barulho estrondoso a cada batida. Mas o silêncio ressurgiu e pouco depois ouvi:

¾ Vou lhe dar uma última chance: o que é o ódio?

Novamente me calei. Novamente pensei. Tinha a sensação de que a resposta certa poderia me salvar da pena de morte. Era como se fosse uma versão moderna do “decifra-me, ou devoro-te”. Hesitei. Pensei. Achei uma resposta que parecia satisfatória e arrisquei:

¾ O ódio é o contrário do amor!

Novamente um sorriso sarcástico brotava daqueles lábios. Eles se movimentaram e logo ouvi uma voz que dizia:

¾ O contrário do amor não é o ódio e sim o desprezo e não é preciso ser filósofo para saber disto. Repito a pergunta: o que é o ódio?

Pensei alguns minutos. Tentei arrancar a resposta a partir de minha própria experiência de vida. Se não precisava ser filósofo, então a resposta não precisaria surgir de elucubrações racionais. Busquei me lembrar das pessoas que odiei durante a minha vida. A primeira pessoa que me veio a mente foi Esther, minha madrasta. Ela fez da minha infância um inferno. Me batia, me obrigava a estudar e a rezar, me impedia de ter amigos. Eu não podia fazer nada e tinha que aceitar tudo, pois não tinha outra saída, a não ser fugir de casa e passar fome e frio. Depois me lembrei do doutor Robert, meu antigo patrão. Vivia reclamando de meu trabalho e me agredindo verbalmente. Cometia erros e jogava a culpa em mim. Como eu precisava do emprego para sobreviver, não podia fazer nada a não ser aceitar tudo calado. Neste momento, renasceu minha esperança. A resposta estava bem próxima. Pensei um pouco e, frente a frente com o meu interlocutor de olhos verdes, afirmei:

¾ O ódio é produto da maldade!

As minhas esperanças se dissiparam quando via a expressão facial do juiz que parecia ser uma mistura de tristeza e raiva. Ele disse:

¾ Dizer que o calor é efeito do fogo ou que o fogo é a causa do calor não é mesmo que dizer o que é o fogo ou o que é o calor...

Vi que cometi mais um erro. Mas como o silêncio dominava o ambiente então pensei que se fosse rápido e quebrasse o silêncio antes de ser decretado o meu fim ainda tinha uma chance. Arrisquei:

¾ Mas saber que o calor é produto do fogo ajuda a descobrir o que ele é.

Meu interlocutor me fitou e disse:

¾ Sem dúvida, a maldade pode provocar o ódio, mas somente em determinadas circunstâncias. Descobrindo-se estas, descobre-se a resposta. O seu ex-amigo George lhe fez muitas maldades e nem por isso você o odeia.

Vi que tinha uma nova ¾ e talvez última ¾ chance. Poderia também tentar retornar à janela, mas parece que o destino era o mesmo. A única saída parecia ser ir para a frente e enfrentar meu interlocutor até o fim. Por que não odiava George? Ele me roubou, me caluniou... e eu tinha era pena dele. Por que pena e não ódio? Depois de pensar muito descobri: ele era um mau caráter mas também era um pobre coitado, apenas mais um infeliz sofredor deste mundo. Daí ter pena e não ódio. Mas o Doutor Robert, no final das contas, também era um pobre coitado, medíocre e mesquinho. Mas deste eu tinha ódio. Por mais que eu pensava não conseguia chegar a uma conclusão. De repente, me veio a mente uma recordação: o Doutor Robert certa vez afirmou:

¾ Todos os meus empregados parecem me odiar, mas por qual razão, se eu sou tão generoso?

Esther certa vez me disse:

¾ Você pode estar me odiando pelo que fiz, mas é para o seu bem!

George, certa vez, afirmou:

¾ Me desculpe! Juro que isto não se repetirá!

Ora, por qual motivo estas recordações me ocorreram? Continuei pensando até ser interrompido pela voz do juiz que disse:

¾ Assim como a paisagem, o tempo passa, e cada minuto aproxima o seu fim. Somente a velocidade do seu pensamento poderá lhe dar tempo de vida, pois a vida não é outra coisa senão a ação enquanto que a passividade e a imobilidade são a morte.

Estas palavras pareciam sábias e pareciam expressar um rico conteúdo, mas o meu tempo estava se esgotando e a pressa me fazia centrar minha atenção na questão mais importante, pelo menos naquele momento: o que é o ódio? Talvez a resposta estivesse na minha reação contra as pessoas que me fizeram maldades. George pagou caro por tudo que me fez e hoje se encontra na prisão. Mas o Doutor Robert e Esther estão livres como passarinhos e contra eles nada pude fazer. De repente, percebi que tinha descoberto o segredo do ódio: o sentimento de impotência. As pessoas que me maltratavam e eu não podia fazer nada, eu odiava, e as que eu podia me vingar, eu sentia pena. Os fortes são odiados e os fracos são dignos de pena. Fortaleza e fraqueza são produtos, na maioria das vezes, das circunstâncias. O ódio agora podia ser entendido. Confiante, me dirigi ao meu interlocutor:

¾ O ódio é uma manifestação do sentimento de impotência sob forma de agressividade.

Meu interlocutor sorriu e disse:

¾ Chegamos ao fim da viagem.

_____________
Publicado originalmente em:
VIANA, Nildo. O Doutor e Outros Contos Incorretos. Rio de Janeiro, Booklink, 2004.

Posts Relacionados:

Contos
Sobre Arte

Nenhum comentário:

Postar um comentário