sábado, 19 de março de 2011

Conto: O PEQUENO MUNDO

"Pirita" - Ouro de Tolo

O PEQUENO MUNDO
Nildo Viana

Hércules vagueava pelo mundo procurando encontrar um tesouro. Ele se orgulhava do seu nome, inspirado na mitologia grega. O tesouro que ele procurava era o que todos procuravam: o ouro. Pelo menos era assim que ele pensava. Com o ouro ele poderia comprar o quisesse, seria feliz. Assim como o herói grego, ele seria poderoso e realizaria seus desejos. O ouro, era só nisto que ele pensava.
Ele andou pelos quatro cantos do mundo, viajou por todos os países, por todas as cidades, por todos os lugares e vilarejos. A busca do ouro não deu o resultado que ele esperava. Ele não encontrou nenhum ouro. Andou por tudo mundo em sua busca e a única coisa que conseguiu foi descobrir que o mundo é pequeno.
O mundo é como um formigueiro, cheio de pessoas procurando ouro. Nascem, vivem e morrem como Hércules, procurando ouro. Alguns matam, outros roubam. Alguns deixam de viver para trabalhar e ganhar ouro. Outros estudam a vida inteira para ganhar ouro. Ganhar ouro é o que move o mundo. O Hércules mitológico carregou o mundo nas costas. O ouro é como o Hércules mitológico.
O problema de Hércules é que ele queria o ouro, mas não queria o trabalho de formiga, paciente, permanente. Ele queria encontrar um navio abandonado cheio de ouro, pois assim bastaria ir lá e apanhá-lo.
O pequeno mundo de homens formigas não agradava Hércules, embevecido com sua herança mitológica. Ele não podia realizar trabalhos mundanos e cotidianos. Apenas 12 trabalhos mágicos seriam suportáveis.
Hércules, depois de dezenas de anos buscando o ouro sem consegui-lo, ficou cansado. Desistiu. Resolveu voltar para sua casa. Uma longa viagem para chegar na sua cidade natal. Somente quando chegou lá percebeu que depois de tanto tempo nada era como antes. Ele nem sequer tinha casa, família, amigos. Ele não tinha aonde ir, com quem falar. A cidade parecia muito pequena. Ele não se sentia em casa. Alugou uma e ficou morando e vivendo como podia.
Hércules teve que trabalhar. O trabalho era penoso, repetitivo, monótono. A vida era o trabalho, era o sacrifício da vida em troca de pequenos pedaços de pepitas de ouro. Hércules foi ficando cada vez mais triste, infeliz. Não tinha conseguido o ouro que tanto desejava. Perdeu anos de sua vida nisso. Agora, não tem nada além de um trabalho desagradável, em troca de migalhas.
Não havia mais nada a fazer. O que restava era declarar guerra ao mundo. Aquele mundo tão pequeno, tão medíocre, tão mesquinho, tão parecido com ele. Hércules passou a vociferar contra todos e contra tudo. Para ele, nada era bom, nada valia a pena, nada prestava. O futuro não existia, nada se podia fazer. O mundo era muito pequeno e por isso não poderia mudar.
Um sonho fez com que Hércules tomasse uma atitude drástica. Ele sonhou que o mundo estava encolhendo, ficando cada vez menor. Tendo em vista que já era pequeno, estava ficando ainda mais reduzido. O planeta foi encolhendo até ficar apenas do tamanho do Brasil, depois, ficou menor ainda, do tamanho da cidade de São Paulo, até ficar do tamanho de uma cidade de 10 mil habitantes e ia diminuindo cada vez mais. O mundo ficou do tamanho da casa de Hércules e só restava ele, sua casa e seu quintal. Mas o encolhimento não parava. Ele se tornava cada vez mais lento. Até que só restou a casa, mas esta logo foi desaparecendo, só restando o espaço em que Hércules se encolhia todo. Hércules acordou. Pegou um revólver e saiu no meio da rua atirando em quem via pela frente, até ser preso pela polícia.
Na prisão, Hércules quando estava acordado, agredia a todos; quando estava dormindo, sonhava que era agredido por uma espécie de estátua de ouro, que o espancava sempre. Um dia teve um sonho diferente. Sonhou que era uma formiga e estava trabalhando incansavelmente com as demais formigas e, de repente, apareceu uma criança com um pedaço de madeira e um plástico amarrado em sua ponta, no qual havia colocado fogo e começou a despejar o plástico derretido sobre as pobres formigas que corriam desesperadamente. A criança dizia: “vou acabar com seu pequeno mundo”. Até que ele foi atingido e morreu, no sonho e também na realidade, pois teve uma parada cardíaca.

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Publicado originalmente em:
Vários. Uma História no Seu Tempo. São Paulo, Scortecci, 2007.

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